Resumo
O artigo analisa os enfrentamentos entre Joinville-le-Pont e Georges Hébert na França e as representações dessa disputa na Educação Física brasileira, no início do século XX. Utilizam-se como fontes a imprensa periódica brasileira e os documentos históricos da Missão Militar Francesa no Brasil. As observações levam às seguintes conclusões: (1) o reconhecimento do Método Natural de Hébert como um método próprio; (2) a correlação entre o Método Natural e o Método Francês de Joinville-le-Pont como perspectivas harmônicas e complementares; e (3) a negação a Hébert como estratégia de legitimidade do Método Francês.
Palavras-chave:
enfrentamentos; imprensa; Educação Física; Brasil
Abstract
This article analyses the disputes between Joinville-le-Pont and Georges Hébert in France and the representations of this controversy in Brazilian Physical Education in the early twentieth century. Brazilian periodical press sources and historical documents from the French Military Mission in Brazil are used as sources. The findings lead to the following conclusions: (1) the recognition of Hébert’s Natural Method as an autonomous method; (2) the correlation between the Natural Method and the French Method of Joinville-le-Pont as harmonious and complementary perspectives; and (3) the denial of Hébert as a strategy for legitimising the French Method.
Keywords:
disputes; press; Physical Education; Brazil
Resumen
El artículo analiza los enfrentamientos entre Joinville-le-Pont y Georges Hébert en Francia y las representaciones de esta disputa en la Educación Física brasileña a comienzos del siglo XX. Se utilizan como fuentes la prensa periódica brasileña y los documentos históricos de la Misión Militar Francesa en Brasil. Las observaciones conducen a las siguientes conclusiones: (1) el reconocimiento del Método Natural de Hébert como un método propio; (2) la correlación entre el Método Natural y el Método Francés de Joinville-le-Pont como perspectivas armónicas y complementarias; y (3) la negación de Hébert como estrategia de legitimación del Método Francés.
Palabras clave:
enfrentamientos; prensa; Educación Física; Brasil
Introdução
A França do fim do século XIX e do início do século XX vivenciou o surgimento de várias propostas de Educação Física. Em vez de buscarem uma uniformidade entre si para estruturar um método nacional, a exemplo do que ocorreu com seus países vizinhos, como a Suécia e a Alemanha, os ideais vigentes passaram a concorrer entre si, ocasionando enfrentamentos. No clima vivenciado no país, permeado pela tentativa de definir uma identidade para a Educação Física, tal episódio ficou conhecido entre os pesquisadores franceses como a “guerra dos métodos” (Saint-Martin, 2005).
Nesse contexto, dois personagens se destacaram. O primeiro deles é a École de Joinville-le-Pont, instituição vinculada ao Exército Francês, fundada em Paris no dia 15 de junho de 1852, pelo Ministro da Guerra, Marechal Soult, e que se tornou uma referência nos assuntos da área e na formação de instrutores, mas no início do século XX teve o seu prestígio na área ameaçado em virtude do surgimento de vários métodos ginásticos na Europa, em especial, em seu próprio país, a França (Terret & Saint-Martin, 2015). Do outro lado, temos o militar da Marinha francesa Georges Hébert (1875-1957), que ocupou o cargo de diretor técnico de ensino de exercícios físicos na École de Gymnastique de la Marine em Lorient, comando militar anexo da Joinville-le-Pont. Hébert, ao criar o Método Natural, alcançava cada vez mais projeção e reconhecimento na França, obtendo apoios desde a Marinha até a Imprensa (Delaplace, 2000).
Sujeito e instituição passaram a se acusar mutuamente de terem as suas ideias roubadas e apropriadas um pelo outro. Isso nos possibilita perceber as peculiaridades que marcaram o contexto francês, em um cenário no qual se almejava encerrar a guerra dos métodos e em que também se buscava legitimar um modelo nacionalmente reconhecido de Educação Física.
As propostas europeias de Educação Física chegaram ao Brasil entre o final do século XIX e o início do século XX. Pesquisadores têm se interessado em analisar a presença de ideias, métodos, sujeitos, manuais e instituições no país. Tanto o Método Natural de Georges Hébert (Soares, 2003, 2015; Gleyse et al., 2014; Jubé, 2017; Jubé & Dalben, 2018; Coco et al., 2024) como a École de Joinville-le-Pont e o seu Método Francês (Goellner, 1992; Queiroz & Cancella, 2018; Cassani, 2018; Bruschi, 2019) têm se tornado objeto de interesse.
No entanto, as desavenças entre ambos os personagens e as implicações dessa disputa na busca de uma representatividade ainda não haviam sido problematizadas no contexto brasileiro. Portanto, este trabalho tem por objetivo analisar a disputa entre Joinville-le-Pont e Georges Hébert na busca por reconhecimento na França, identificando a interface dessa relação especialmente por meio da Imprensa no Brasil. A principal questão levantada é: como as desavenças entre instituição e sujeito na França foram percebidas e recebidas no Brasil em um contexto em que a área se constituía cientificamente?
Fontes e procedimentos
Para fazer emergir essa narrativa, recorremos às fontes históricas. O primeiro conjunto documental se refere à imprensa periódica brasileira, de dois tipos. O primeiro deles diz respeito à imprensa de jornais e de revistas, que denominamos corriqueiramente de imprensa de variedades, uma vez que divulgava notícias diversificadas, sendo a Educação Física uma das temáticas. A consulta a essas fontes foi realizada na base de dados eletrônica junto à Hemeroteca da Biblioteca Nacional Digital do Brasil.
Posteriormente, mobilizamos duas revistas especializadas da área da Educação Física: a Revista de Educação Física (1932-1960) (REF) e a revista Educação Physica (1932-1945) (REPHy), ambas consultadas na Biblioteca da Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em Coleções Especiais. A imprensa especializada foi consultada porque se constituiu como um espaço que divulgava um saber destinado a oferecer as bases para os profissionais que atuariam na área (Ferreira Neto, 2005). Partimos da informação trazida por Cassani (2018), que, ao realizar um levantamento quantitativo de autores referenciados, observou que Joinville-le-Pont e Georges Hébert se destacavam como os mais referenciados pelos articulistas dos impressos na busca de uma sustentação científica e pedagógica para a área.
Somam-se ao nosso conjunto de fontes os documentos históricos da Missão Militar Francesa (MMF) no Brasil (1919-1939), tendo em vista a presença de oficiais diplomados em Joinville-le-Pont em atuação no país, responsáveis por oferecer ensinamentos e por atualizar os saberes sobre a formação física no Exército brasileiro. Partes dessas informações foram divulgadas na revista A Defesa Nacional e alguns outros documentos foram localizados no Arquivo Histórico do Exército.
É possível localizar menções à Joinville-le-Pont na imprensa desde os anos de 1880, permanecendo com um quantitativo elevado, principalmente nos anos 1920 e 1930. Destacam-se, além de assuntos ligados à sistematização da Educação Física, também aqueles voltados à participação de seus atletas em Olimpíadas, alcançando inclusive assuntos administrativos relacionados à MMF. Já referente a Hébert, as citações se iniciaram no ano de 1913, momento em que ambos os personagens se cruzam na imprensa e que consideramos para começar a nossa investigação. Vejamos a recorrência aos seus nomes na Tabela 1.
Recorrência de menção à Joinville-le-Pont e a Georges Hébert na imprensa entre as décadas de 1910 e 1940
Uma diminuição de menção a ambos os personagens é percebida a partir da década de 1940. A literatura especializada tem sinalizado essa década como um momento delicado para os métodos ginásticos europeus, pois há o início de um declínio de publicações sobre tal temática e a ascensão das representações sobre os esportes a partir de 1950, alcançando lugar de destaque nas referências metodológicas para a área (Cunha, 2017). Por esse motivo, optou-se pela delimitação da pesquisa até o ano de 1949.
O estudo toma como referência os pressupostos teórico-metodológicos da História Cultural (Chartier, 1991; Certeau, 1994; Bloch, 2001). Assim, as fontes foram interrogadas, tendo o cuidado de não registrar pura e simplesmente as palavras de nossas testemunhas, tencionando-as a falarem, uma vez que contam a história a partir de perspectivas e de intencionalidades de autores e de grupos sociais que visam a se constituir como autoridade, elaborando representações sobre uma determinada realidade. Para estudar as disputas entre Joinville-le-Pont e Hébert na França e as suas interfaces no cenário brasileiro, tomamos de empréstimo especificamente as considerações de Chartier (1991) sobre lutas de representações, que nos adverte que há uma concorrência entre diferentes grupos pela construção do mundo social, manifestada pela forma como os indivíduos enunciam, em termos de poder e de dominação, as suas representações.
Em busca de autoridade: as disputas entre Joinville-le-Pont e Hébert na França
Entre o final do século XIX e o início do século XX, observou-se o surgimento de diferentes propostas e métodos ginásticos, que, na França, concorriam entre si. Destacam-se entre os principais: (1) o Método Sueco, que ganhou grande admiração entre os franceses, especialmente por parte de Phillipe Tissié; (2) a obra de Georges Demenÿ; (3) o Método Natural de Georges Hébert; e (4) a iniciação esportiva inglesa. Inicialmente, a escola militar da Joinville-le-Pont ora se aproximava, ora se distanciava dessas sistematizações, organizando na década de 1920 o seu próprio modelo, denominado Método Francês. Certas diferenças entre esses sistemas se referiam ao princípio organizador segundo o qual seria ofertado o exercício físico. Os criadores dos métodos formulavam teorias, explicando os motivos para a execução de cada movimento.
Esse era o clima vivenciado na França na tentativa de definir uma identidade para a Educação Física nacional. Entre os principais enfrentamentos, fazem-se conhecidos na historiografia francesa os embates entre Joinville-le-Pont e Hébert (Bui-Xuân & Gleyse, 2001; Defrance, 2014; Delaplace, 2000, 2003, 2005; Froissart & Saint-Martin, 2014; Philippe-Meden, 2012, 2017; Pociello, 1998; Saint-Martin, 2000, 2005; Sarremejane, 2007; Simonet, 1998; Terret & Saint-Martin, 2015; Villaret, 2005). Os estudos apresentam alguns acontecimentos que marcaram as desavenças entre ambos os personagens.
Em um contexto permeado por concorrências pela legitimidade em poder falar sobre a Educação Física, Hébert e certos dirigentes da Joinville-le-Pont adotaram estratégias visando a seus próprios protagonismos. Com o início da sistematização do seu método, Hébert encontrou um ambiente propício, a partir de 1903, para a sua aplicação na École de Gymnastique de la Marine, em Lorient. Essa instituição estava descontente em utilizar um regulamento de ginástica do Exército de Terra, não adaptado às necessidades marítimas. Diante do interessante trabalho que executava e após publicar o Manuel de Gymnastique de la marine em 1905, Hébert recebeu importantes apoios que o encaminharam, no ano de 1909, ao posto de Diretor Técnico em Lorient (Philippe-Meden, 2017).
A relação com a Joinville-le-Pont começava a ficar estremecida, uma vez que a reputação da instituição se cruzou com a do então aspirante Hébert. Três principais motivos levaram ao enfrentamento direto entre eles: a) a ameaça exercida por Hébert direcionada à Joinville-le-Pont sobre as questões de Educação Física; b) o nome do método desenvolvido em Lorient ter ficado conhecido como “Método Natural de Georges Hébert”, sendo um método individual e não institucional (Defrance, 2014); c) e, por fim, nas duas primeiras décadas do século XX, Joinville-le-Pont ter defendido arduamente o Método Sueco, tendo como seu apoiador o dirigente da instituição, o Comandante Emille Coste (1902-1906) (Delaplace, 2003).
Outro fato que marcou o descompasso entre ambos os personagens ocorreu quando Hébert, a convite do jornalista Theodore Vienne, fez uma demonstração diante da imprensa em Paris, em maio de 1909, nos Jardins da Grande Roue. Vienne, apoiador de Hébert, afirmou que os homens formados pelo Método Natural seriam os mais engenhosos, os mais ágeis e os mais resistentes de todos os soldados do mundo. Em contrapartida a essa exibição, a Escola joinvilense, por meio do Ministério da Guerra, proibiu o ensino do Método Natural para o 62º Regimento de Infantaria de Lorient, com a justificativa de que ele era contrário ao ensino regular instituído pela Joinville-le-Pont (Delaplace, 2003). Essa foi uma estratégia na tentativa de anular o avanço de Hébert, o que o fez abdicar de sua própria patente de oficial para poder se dedicar à sistematização do seu método (Froissart & Saint-Martin, 2014).
Com a saída da Marinha, Hébert assumiu, em 1913, o Collège d’Athlètes, consagrando-se no mundo civil (Defrance, 2014). O empenho do trabalho desenvolvido o fazia cada vez mais conhecido, rendendo-lhe a visibilidade de pedagogos, de jornalistas e de médicos. Além disso, a sua participação no Congrès International d’Éducation Physique de 1913 foi considerada controversa. Os jornais franceses Le Figaro e L'Opinion publicaram artigos que davam como certa a vitória dos atletas de Hébert. Contudo, Sarremejane (2007) afirma que a vitória de Hébert no evento não teria sido reconhecida sem o apoio das Forças Armadas.
Ainda em 1913, o então comandante da Joinville-le-Pont, Coronel Boblet (1910-1914), teria apresentado um relatório de preparação militar constando elementos do Método Natural. Os embates entre ambos os personagens chegavam ao seu estado mais crítico, com acusações de plágio. Hébert apontou publicamente essas irregularidades (Sarremejane, 2007). Posteriormente, uma nova acusação foi feita por Hébert, quando a Joinville-le-Pont distribuiu fichas de medida de aptidão, supostamente plagiadas do livro Code de la force (1911), que Hébert havia publicado com o intuito de demarcar a originalidade do seu trabalho (Villaret, 2005). Em um esforço com Paul Vuibert, editor dos seus livros, as fichas distribuídas pela Joinville-le-Pont teriam sido retiradas de circulação.
Novamente uma acusação de plágio por parte de Hébert à Joinville-le-Pont foi feita em 1916, após a instituição publicar um novo manual militar, escrito pelo Comandante Labrosse (1916-1919), denominado Guide pratique d’éducation physique. De acordo com Delaplace (2003), o guia pareceu incorporar as proposições de ensino de Hébert e de sua obra também denominada Guide pratique d’éducation physique, publicada em 1909, ao apresentar os exercícios de aplicação, nos quais constavam as sete famílias de exercícios naturais e uma Educação Física esportiva e atlética.
Assim manifestou-se Hébert (1941, p. 158, tradução nossa) sobre a divulgação do novo regulamento militar por parte da Joinville-le-Pont: “Infelizmente, é doloroso de constatar que esse documento elaborado por oficiais cheios de boa vontade, mas incompetentes no assunto, é apenas um amálgama ou uma cópia simples sem links de trabalhos já existentes sobre o sujeito a tratar”. Em contrapartida, os joinvilenses afirmavam que o método do regulamento de 1916 era diferente do pensado por Hébert, tanto na sua aplicação e princípios doutrinais quanto na sua pedagogia e formas de execução, que seriam analíticas e militares (Philippe-Meden, 2017).
Na década de 1920, com a intencionalidade de formular um método nacional e de retomar a sua força representativa na área, a Joinville-le-Pont publicou um novo regulamento, intitulado de Règlement Général d’Éducation Physique, mais conhecido como Método Francês, um modelo considerado eclético em sua essência. Para a sua elaboração, a instituição realizou uma justaposição de modelos, apropriando-se das melhores teses ou elementos em circulação sobre a Educação Física, conciliando-os com vistas à obtenção de um sistema mais vasto, em vez de edificar um novo (Terret & Saint-Martin, 2015).
Se elementos do Método Natural foram integrados a esse projeto, a Joinville-le-Pont deveria reconhecer que ele era parte da obra de Hébert, mas resistiu em fazê-lo. Se o objetivo da instituição era sanar as disputas dos métodos existentes no país e demonstrar a sua força representativa nas tomadas de decisões para a Educação Física, ela acabou por reavivar a “guerra dos métodos”. Saint-Martin (2005) salienta que, após a publicação das versões do Règlement Général, a solução proposta pelo ecletismo, ao contrário, acentuou essa disputa. Os entusiastas não esconderam os seus descontentamentos e as suas críticas ao sincretismo de ideias e à distorção no uso dos seus respectivos métodos.
Se anteriormente Hébert acusava a Joinville-le-Pont de roubar as suas ideias, ele passou, então, a exigir reconhecimento como um dos inspiradores do Método Francês. Solicitava à instituição que o mencionasse como um dos contribuidores do referido modelo, ao lado de nomes como Francisco Amorós y Ondeano1 e Georges Demenÿ. Entretanto, até a década de 1930, a Joinville-le-Pont negava publicamente as contribuições de Hébert, acusando-o de tratar essa questão como uma futilidade pessoal, acima dos interesses da Nação.
Após as repercussões públicas sobre a apropriação de suas ideias pela Joinville-le-Pont, um acordo teria sido realizado em 1930 (Delaplace, 2003). Timidamente, o nome de Hébert foi incluído como um dos inspiradores do Método Francês. A instituição resistiu a dar credibilidade a um oficial que havia “insurgido” com a criação de um método que levava o seu próprio nome e que não se enquadrava nas prerrogativas da Joinville-le-Pont2.
Georges Hébert, “pai” do Método Francês?
Por volta da década de 1920, a literatura francesa sobre a Educação Física se encontrava em ascensão no Brasil. Obras francesas de diferentes precursores começaram a desembarcar no país pelas mãos de oficiais que participaram da MMF, sendo alguns deles, inclusive, diplomados na Joinville-le-Pont (Bruschi, 2019). De acordo com Suppo (1999), a missão francesa além da influência militar, também exerceu objetivos diplomáticos e culturais e de pretensões econômicas.
O general Gamelin, chefe da MMF, parecia ter consciência do projeto imperialista no âmbito político e cultural desencadeado pela França no período entreguerras, com a criação do Service des oeuvres Françaises à l’Étranger. Relacionou a missão com a “propaganda francesa” no Brasil, ao afirmar que “É bom que um chefe de missão tenha à sua disposição certo número de exemplares das obras que honram o pensamento francês e que ele possa, de vez em quando, inseri-las onde a influência é útil” (Gamelin, 1920, p. 27, tradução nossa). Uma notável ingerência intelectual foi exercida pelo intercâmbio cultural estabelecido no idioma, na mentalidade e na literatura.
A influência francesa se intensificou na Educação Física brasileira com a presença da MMF. Uma das primeiras iniciativas foi substituir, no Exército brasileiro, os regulamentos que se moldavam sobre outra perspectiva de orientação do exercício físico pela proposta francesa, tendo como referência o método adotado por Joinville-le-Pont (Buys, 1920). Para isso, um trânsito intelectual se operou, com a chegada de várias obras, a exemplo das produções de Fernand Lagrange, Philippe Tissié, Maurice Boigey, Georges Demenÿ e Georges Hébert (Dutra, 1925a). Registros ainda evidenciaram a chegada de manuais e de regulamentos, como o Guide Pratique de l’Éducation Physique (da Joinville-le-Pont) e o Projet de Règlement Général d’Éducation Physique (“Do R.E.I. francês”, 1919)3. Leituras foram realizadas por oficiais brasileiros, com a intenção de atualizar a compreensão sobre a Educação Física e de divulgá-las em outros formatos e lugares, como as traduções e as sínteses propagadas no impresso militar A Defesa Nacional, e no esforço de publicação do Manual de Educação Física, lançado em 1925, de autoria do capitão João Barbosa Leite e do tenente Jair Dantas Ribeiro.
O que veio a denominar-se de Método Francês passou a ser evidenciado como o modelo que orientaria a Educação Física do Exército brasileiro. O ecletismo do método não foi negado, sendo ressaltada como necessária a leitura, pelos oficiais brasileiros, de obras de autores dos quais a Joinville-le-Pont se apropriou para a sua elaboração. Nesse contexto, grande destaque foi dado ao Método Natural de Hébert, sendo até considerado o “pai” do modelo criado na Joinville-le-Pont (Dutra, 1925a). Muitas de suas obras passaram a ser lidas pelos oficiais brasileiros como forma de compreenderem as novas proposições em implementação:
Com o indispensável discernimento temos há 3 anos para cá, lido as interessantes e atraentes publicações (já vão para mais de 9 livros) do oficial da marinha francesa G. Hébert que, desde mesmo antes de 1913, se vem celebrizando com o chamado ‘método natural’ ou de ‘retorno à natureza’ [...]. É o mesmo seguido oficialmente naquela marinha, na Escola de Laurent e no exército, nos corpos que ainda não possuem instrutores especiais saídos da Escola de Joinville-le-Pont, método cuja paternidade, a ele, Hébert é atribuída e vem aureolando de preciosa fama, criada pelo seu natural entusiasmo por essa causa e pela sua atestada operosidade e capacidade prática e um tanto técnica no assumpto (Dutra, 1925a, pp. 29-30).
Em solo brasileiro, Hébert passou a ser visto como um colaborador da Joinville-le-Pont na elaboração do Método Francês. Aparentemente, silenciou-se o fato de que as apropriações de suas obras foram realizadas sem o seu consentimento, enquanto as desavenças continuavam intensamente na França. Pode-se presumir que a omissão das rivalidades seria uma estratégia utilizada pelos oficiais franceses para legitimar determinado projeto no Brasil, capitalizando vantagens e contribuindo para a política imperialista almejada pela França.
Então, diferentemente do contexto francês, em que a Joinville-le-Pont negava fielmente a apropriação das ideias de Hébert, no Brasil essa mescla de ideias era feita sem qualquer constrangimento (Jubé, 2017), uma vez que Hébert possivelmente não acompanharia as repercussões disso fora da Europa. Vejamos:
A parte demonstrativa por estampas do nosso último (de 1921) ‘Regulamento de instrução physica militar’, resumo das diversas partes do ainda ‘Projeto de regulamento de educação physica’ francês (de 1919), por sua vez rebento da Escola de Joinville-le-Pont, de método um pouco mais científico, com tendências ecléticas [...] mesmo depois da última e recente reforma (em 1916) dos processos da educação physica nessa Escola, é um empréstimo embora provisório, já se subentende do Guia Prático de Educação Physica desses esperançoso oficial de Marinha [Hébert] (Dutra, 1925a, p. 30).
O agrupamento em sete famílias de movimentos naturais (Hébert, 1916) - marchar, trepar, saltar, levantar e transportar, correr, lançar e nadar - foi previsto na parte da lição propriamente dita do Método Francês, passando a ser amplamente exemplificado como possibilidade pedagógica, atribuindo a Hébert essa contribuição (Barbosa Leite, 1929). Assim, os oficiais franceses da MMF, distantes das intensas relações de forças que ocorriam em seu país de origem, deram credibilidade à obra de Hébert. Aparentemente, nenhuma menção sobre os intensos enfrentamentos entre os personagens foi feita. Há um silenciamento das disputas ocorridas na França, e Hébert foi compreendido como personagem que estabeleceu diálogo com a Joinville-le-Pont para a elaboração do Método Francês.
Nos anos de 1920, o Exército brasileiro se tornou um espaço propício para a construção de uma retórica, fortalecendo a imagem da Joinville-le-Pont como aquela criadora de bases científicas para a área. Tais representações não permaneceram no interior do Exército, expandindo-se para o meio civil. Nesses outros espaços, como a relação entre a Joinville-le-Pont e Hébert foi percebida?
Impressos, representatividades e disputas
Há algum tempo, a produção acadêmica tem direcionado as suas pesquisas para a imprensa periódica, centrando atenção nas representações veiculadas, nos personagens envolvidos e nos grupos que se formam em volta desse veículo. A palavra imprensa, seus suportes e prescrições passam a ser percebidos, segundo Darnton (1996), não apenas como registro do que aconteceu, mas como parte constituinte do acontecimento. A imprensa pode ser analisada em escala microscópica, observando os usos que dela são feitos para atualizar conhecimentos do público leitor, ou em escala macroscópica, percebendo-a como estratégia/tática de divulgação e de convencimento em relação a determinado projeto, reformas culturais, educacionais, sanitárias, entre outros (Luca, 2011). Segundo a autora, a imprensa era capaz de capturar
A aceleração do tempo e o confronto com os artefatos que compunham a modernidade (automóveis, bondes, eletricidade, cinemas, casas noturnas, fonógrafos, câmeras fotográficas), a difusão de novos hábitos, aspirações e valores, as demandas sociais, políticas e estéticas das diferentes camadas que circularam pelas cidades, os conflitos e esforços das elites políticas para impor a sua visão de mundo e controlar as “classes perigosas”, a constituição dos espaços púbicos e os meandros que regiam seu usufruto e circulação, as intervenções em nome do sanitarismo e da higiene, a produção cultural e as renovações estéticas, tudo isso passou a integrar as preocupações dos historiadores, que não se furtaram de buscar parte das respostas na imprensa periódica, por cujas páginas formularam-se, discutiram-se e articularam-se projetos de futuro (Luca, 2011, p. 120).
A autora complementa sua ideia afirmando que, mesmo sendo chamadas de revistas de “variedades”, essas atendiam a diversos públicos: destinavam-se às crianças, às mulheres, tratavam de vida cotidiana, de religião, de política, de esporte etc. No nosso caso, nesses espaços os escritos de militares brasileiros se somaram aos de civis, ampliando as possibilidades de entender as representações que circulavam sobre a Educação Física e as disputas entre os autores e seus projetos no âmbito da imprensa periódica nacional.
Em observância à imprensa brasileira de variedades, alguns entendimentos sobre a Joinville-le-Pont e Hébert são percebidos, entre eles: a) o reconhecimento do Método Natural como um método próprio; b) a correlação entre o Método Natural e o Método Francês como perspectivas harmônicas e complementares a partir do ecletismo; c) a negação a Hébert e ao seu método como estratégia de legitimidade do Método Francês.
As citações ao nome de Hébert têm início no ano de 1913 na imprensa brasileira, com a notícia de sua participação no Congrès International d’Éducation Physique, em Paris (Jubé, 2017), momento que coaduna com o processo de internacionalização do seu método (Saint-Martin, 2000). Menções a Hébert apareceram nessa década em periódicos nacionais, como Fon-Fon! (RJ), Jornal do Commérico (RJ), O Pharol (MG) e Pacotilha (MA). O Método Natural é mencionado no Brasil, adquirindo notoriedade, sendo apresentado como um novo modelo criado no cenário francês, oferecendo possibilidades novas de se pensar as sistematizações da Educação Física:
Todos os methodos de educação physica até agora conhecidos vêm preenchendo os fins a que se destinaram, concorrendo para o aperfeiçoamento physico do homem. Mas entre esses diversos methodos vem de há muito levantando a palma da ‘riussite’ o chamado ‘methodo natural’, praticado pelo lientenant (sic) Georges Hébert, director technico do ensino de exercícios physicos na Marinha franceza, cujos resultados proclamam unanimemente os entendidos e especialistas na materia, o collocaram em lugar de especial destaque (Damazio, 1914, p. 3).
Na imprensa nacional, os fundamentos do Método Natural começaram a ser divulgados tendo como evidência as ideias naturalistas e a classificação dos exercícios físicos em sete famílias de movimentos. Ao mesmo tempo, a proposta de Hébert era apresentada como uma importante contribuição à causa brasileira, uma vez que os seus princípios versavam acerca das ideias de regeneração da raça e da formação física e moral dos cidadãos (Jubé & Dalben, 2018). As publicações a respeito do método que chegavam ao Brasil se apresentavam como promissoras, encontrando entusiastas que passaram a reconhecer o valor científico do modelo “[...] considerado como o mais efficiente de todos” (“Os Sports”, 1916, p. 6).
De forma simultânea, a Joinville-le-Pont era mencionada como um centro de referência militar, científica e educacional que, desde meados do século XIX, contribuía para a causa da Educação Física, formando instrutores, dispensando atenção para a preparação física dos militares e investindo na formação de atletas (“Uma Escola de Athletas”, 1914). As menções à instituição favoreciam o seu prestígio internacional como um espaço vivo, que guardava a memória do seu passado e projetava perspectivas atuais e futuras (Simonet, 1998).
Sobre as participações dos dois personagens no Congrès International d’Éducation Physique, o jornal O Pharol apresentou Hébert como um novo entusiasta e a Joinville-le-Pont como um lugar já estabelecido. Ademais, os periódicos nacionais se dividiam quanto ao “vencedor” do congresso: O Pharol disse que “O clou dessa grande festa do musculo foi com certeza o grupo dos 350 do tenente Hébert que o rude methodo physico ao qual se sujeitaram transformou unicamente em athletas da escola” (“O Congresso de Educação Physica”, 1913, p. 1); em contrapartida, o jornal Pacotilha escreveu que “Pode-se dizer que o congresso de Pariz marca a apoteose da Escola Militar de Joinville” (“Joinville-le-Pont Apresentada”, 1913, p. 3).
Na década de 1920, o Método Natural de Hébert permaneceu sendo representado como um “método próprio”, especialmente quando o tema abordado era a ginástica harmônica destinada às mulheres (Jubé, 2017). Esse fato nos oferece um indício de que a circulação da sua obra Muscle et beauté plastique: l’éducation physique féminine (1919) chamou a atenção de autores civis que se interessavam pela temática Educação Física feminina (D’Oliveira, 1920; “Gymnastica e Dança,” 1920; May, 1923). No entanto, notamos que ele começou a ser associado mais especificamente à Joinville-le-Pont ainda nessa década, provavelmente em virtude das representações fomentadas pelos oficiais franceses da MMF.
Essa correlação começa a se tornar evidente a partir de 1925, quando a Liga de Defesa Nacional sustentou a junção do Método Natural com as propostas de Joinville-le-Pont para a criação de um Plano Nacional de Educação Física4. O Jornal do Brasil apresentou as propostas de Moitinho Doria, membro da Liga, nas quais colocou Hébert como professor da Joinville-le-Pont e juntou as orientações do “methodo Hébert-Boigey” (“A Cultura Physica como Meio”, 1925; Liga da Defesa Nacional..., 1925) ao plano do tenente coronel Maurice Boigey, então médico joinvilense.
É nesse contexto que o Método Francês começou a circular na imprensa brasileira. Gradativamente, foi-se reforçando a ideia de que a proposta francesa estaria vigente no Exército brasileiro, como fruto da orientação e da supervisão da MMF. Joinville-le-Pont era normalmente referenciada pelos interlocutores como o lugar onde foram experimentados, testados, conservados e enriquecidos todos os métodos que surgiram no contexto francês. O ecletismo do modelo foi novamente evidenciado, agora sendo divulgado publicamente para a sociedade civil. O General Francisco José Dutra, ao publicar na Gazeta de Notícias (RJ), afirmou o seguinte acerca dos variados métodos:
[...] heterogeneos ou differentes, contradictorios e controversos, pelos mesmos autores entre si. E, apesar disso, são taes methodos, ali, na França, adoptados e observados nas escolas especiaes, preparadoras de futuros instructores da educação physica [...], inclusive no Exército e na Marinha. Nesta é, official e geralmente, observado o ‘Methodo natural’, empirico, atribuido ao ainda moço official de marinha G. Hérbert, seu entusiasta e propagador. No Exército é seguido oficial e quasi que geralmente o methodo racional ou scientifico, com pretenções a eclestismo, da Escola de Joinville-le-Pont [...]. Mas mesmo assim, o ultimo methodo, o da Escola de Joinville, não escapa á condenação de medicos e especialistas na Educação Physica e possuidores de longa pratica, como os Drs. Philippe Tissié e Fernand Lagrange, e o competentíssimo educador que foi, G. Demenÿ, todos francezes (Dutra, 1925b, p. 2).
Nesse caso, o Método Natural é atribuído apenas à Marinha francesa, sendo o Método Francês relacionado à Joinville-le-Pont. Diante das acusações de plágio ocorrido após a divulgação do Réglement Générale, ficam reservados a Tissié, a Lagrange e possivelmente a Demenÿ, se ele ainda estivesse vivo, as críticas e os descontentamentos ao sincretismo de ideias e a distorção no uso de seus respectivos métodos, sem mencionar, entretanto, o nome de Hébert. Estranhamente, o general Francisco José Dutra, que havia pontuado ser Hébert o “pai” do método da Joinville-le-Pont, agora separa o modelo usado na Marinha francesa daquele oficializado pela instituição.
Com exceção da matéria escrita por Dutra, alguns jornais direcionaram o leitor para o entendimento de ser o método da Joinville-le-Pont o próprio método de Hébert. Essa compreensão ganhou forma na imprensa a partir de 1927, quando se afirmou que “A direção da Escola de Joinville e o Estado Maior do exército francez, encarregados de crear um methodo nacional destinado a substituir o regulamento de 1919, modelado no methodo sueco, tomaram como base o systema Hebbert” (“A Preliminar no Vasco da Gama”, 1927, p. 9) - trecho replicado em mais três jornais: Correio Paulistano (SP), O Imparcial (RJ) e Correio da Manhã (RJ).
Os exercícios com base nas sete famílias de movimentos naturais são evidenciados como a síntese da metodologia de ensino aplicada na Joinville-le-Pont, dando credibilidade a Hebert como o seu criador (“A preliminar”, 1927). Em certos momentos, o método adotado pela Joinville-le-Pont chega até mesmo a ser denominado de “natural francês” (“A Cultura Physica Usada”, 1934). Apesar da proposta de Hébert ser reconhecida como científica (“Educação Physica”, 1929), à Joinville-le-Pont e aos responsáveis pela escrita do Règlement Général foi dada a tarefa de “[...] atenuar a rudeza do methodo natural” (“A Preliminar no Vasco da Gama”, 1927, p. 9), como forma de reforçar o prestígio institucional e científico historicamente constituído.
Por vezes, a forma como foram expostas essas correlações induz o leitor ao entendimento de que ocorreu um trabalho em conjunto entre a Joinville-le-Pont e Hébert, tendo ele até mesmo colaborado de forma autoral na escrita do Método Francês. Equívoco semelhante aconteceu em 1929, na elaboração de um Plano Nacional de Educação Física a ser implementado em território brasileiro. O documento estaria ancorado na proposta da Joinville-le-Pont, sob os auspícios do Ministro da Guerra Nestor Sezefredo5. O professor Jorge Figueira Machado afirmou que o projeto seria norteado por um “[...] sistema de educação physica uniforme e geral, orientado pela metodologia natural de Georges Hébert” (Machado, 1929, p. 20).
Certas contradições (e até mesmo imprecisões) sobre os métodos ginásticos franceses aparecem na imprensa brasileira. O que se observa é que Hébert deixou de ser visto unicamente como um entusiasta que elaborou um método próprio e passou a ser associado à Joinville-le-Pont, dando a entender que ele foi, inclusive, um colaborador na elaboração do Método Francês. Sabe-se que as sistematizações do autor contribuíram para a elaboração desse método, mas que isso não ocorreu de maneira autorizada e consentida, não sendo mencionada, na imprensa brasileira, em nenhum momento a acusação de “usurpação” dos princípios de Hébert.
A essa falta de consenso atribuímos o aumento dos escritos de militares sobre a causa da Educação Física na imprensa de variedades. A presença do MMF no Exército brasileiro visou construir uma retórica a fim de fortalecer a imagem da Joinville-le-Pont no estrangeiro. Somado a isso, identificamos a necessidade de transmitir o conhecimento acerca do Método Francês, que, enquanto eclético, pode ter sido a causa das inúmeras contradições ocorridas no Brasil.
Atentamo-nos também ao fato de que, na década de 1920, nosso país ainda debutava na discussão acerca dos métodos ginásticos, enquanto na França os embates eram efervescentes. Por conseguinte, as disputas protagonizadas por ambos os lados marcaram duros jogos de poder e de influências, em tentativas diversas para que a “guerra dos métodos” tivesse apenas um vencedor em território francês. Já no Brasil, os artigos da imprensa não possuíam nenhum compromisso com as partes envolvidas. Sendo assim, as fontes trouxeram aproximações, confusões e contradições das maneiras mais versáteis possíveis.
As menções a Hébert e à Joinville-le-Pont diminuem a partir da década de 1930 na imprensa de variedades, todavia não desaparecem por completo e se mantêm, quanto à temática, semelhantes àquelas citações identificadas nos anos 1920. Um dos prováveis motivos para essa diminuição gradual pode estar relacionado à criação das primeiras revistas científicas da Educação Física, que foram lançadas em 1932, uma vez que os periódicos especializados se tornaram espaços adequados para o trato dos assuntos da área.
Representações nas revistas especializadas
As representações envolvendo ambos os personagens ganharam força nos periódicos especializados, notadamente na REF e na REPHy. Evidenciamos que as propostas das revistas eram distintas. No caso da REF, ao falarem de um lugar de querer próprio (Certeau, 1994), os articulistas veicularam matérias cujas teorias coadunam com o perfil editorial da revista, dedicando publicações fundamentadas no Método Francês e possuindo como representante a Joinville-le-Pont.
O princípio eclético do Método Francês novamente é evidenciado na REF: “Método eclético por excelência, ele retira dos mestres Ling, Amoros, Hébert e Demenÿ coados através da ciência [...]” (Molina, 1932, n.p.). Desse modo, é notório que os esforços realizados pela Joinville-le-Pont para justapor os saberes de diferentes propostas são reafirmados no Brasil. A obra de Hébert continua a ser considerada nesse projeto de criação de um novo método, no entanto percebemos uma tentativa de não oferecer demasiada visibilidade ao seu nome, havendo um indício de ofuscamento ao seu modelo: “O hebertismo, que esteve no apogeu durante os anos vizinhos da guerra mundial, achava-se agora em declínio” (“A Liga das Nações”, 1932, n.p.). Na tentativa de diminuir a grande visibilidade que o nome de Hébert vinha alcançando no Brasil, o que se percebe é que o Método Francês ganhava um novo representante, atribuindo-se a Georges Demenÿ e a sua obra o suporte necessário (Martins, 1932).
Outras articulações no impresso sinalizaram possíveis insuficiências do método de Hébert, mesmo que apontadas sutilmente sob a égide da beleza feminina e comparadas com as propostas de Maurice Boigey e de Émile Jaques-Dalcroze (Mendes, 1933), além de uma descontinuidade de menção ao seu nome.
O ecletismo do Método Francês foi o argumento utilizado para justificar as alterações que poderiam ser realizadas nas demais propostas e para sanar as suas possíveis lacunas. Os debates anunciavam processos de negociação entre os idealizadores dos diferentes métodos, adaptando-os aos princípios pedagógicos firmados pela Joinville-le-Pont com base nos conceitos de Demenÿ, considerado um “eclético prudente” (“A Liga das Nações”, 1932).
As observações notadas na REF caminharam contrariamente aos exames de Saint-Martin (2000), que afirma que na década de 1930 o Método Natural teria alcançado o auge do seu reconhecimento na França e em âmbito internacional. Assim, a REF age criticando estrategicamente o Método de Hébert, imputando-lhe lacunas, a fim de reafirmar a superioridade da Joinville-le-Pont e do Método Francês. Os articulistas do periódico não queriam deixar margem para dubiedade e possíveis contradições, como acontecia nos anos anteriores na imprensa de variedades, auxiliando desse modo a projeção da instituição em detrimento de Hébert.
Por outro lado, a REPHy se modulava a partir de outro projeto editorial e anunciava um panorama de descontinuidade em relação aos princípios do Método Francês, permanecendo ausentes matérias fundamentadas em seus princípios até 1938, apontando indícios de que o assunto poderia ser motivo de tensões. Seus articulistas, majoritariamente civis, lançavam possibilidades interpretativas aos processos de criação dos diferentes métodos, centralizando seus conhecimentos científicos como forma de oferecer suporte pedagógico ao ensino da Educação Física (Cassani, 2018).
O ecletismo também foi considerado, porém não se fundamentou a partir da ideia do Método Francês. A preocupação não recaía em delimitar os sistemas ginásticos pelo viés teórico que lhes ofereciam fundamento, mas sim na necessidade de apresentar possibilidades que responderiam às demandas profissionais da área. Hébert era considerado uma referência importante pelos autores da REPHy, cujo método ganhou projeção: “O methodo de Hebert é o melhor systema de cultura athletica. [...] o homem natural é mais bello dos homens e ao mesmo tempo o mais vigoroso” (Azevedo, 1936, p. 68). O periódico apresentou até mesmo um quantitativo de menções superior à REF, sem, no entanto, associar o autor ao Método Francês, ficando tal ligação reservada a apenas duas matérias de autoria de militares que buscavam defender a implementação do Método Francês (Américo Neto, 1941; Bernard, 1944).
Entre os anos de 1941 e 1943, seis artigos atribuídos a Hébert foram veiculados na REPHy, demonstrando o esforço de recepção dos seus escritos pelos articulistas, interessados em seu conhecimento. Eles trataram especialmente da temática esportiva e das diferenciações “esporte”, “educação física” e “ginástica” (Soares, 2003). Recorrentemente, os seus saberes foram mobilizados, auxiliando na discussão sobre alguns temas, como a prática esportiva (Dehoux, 1939b; Rodrigues, 1940; Rocha, 1942; Araujo, 1944), Educação Física feminina (Dehoux, 1939a), prática da Educação Física ao ar livre (Rouet, 1938) e infância (Loyola, 1942), consistindo em um progresso considerável do ponto de vista da adaptação profissional e da especialização esportiva. A REPHy, ao mobilizar Hébert e o seu Método Natural, reafirma, para o cenário brasileiro, tratar-se de uma proposta própria e que poderia oferecer contribuições científicas no processo de constituição da Educação Física no Brasil.
Considerações finais
A “guerra dos métodos” foi intensa e acalorada entre a Joinville-le-Pont e Hébert na França. No entanto, essa disputa foi marcada por contradições no contexto brasileiro, intervindo na forma de conceber a Educação Física que se institucionalizava no país. Contrariamente ao cenário francês, no Brasil, Hébert ganhou legitimidade entre os oficiais franceses e foi apresentado como um contribuidor da Joinville-le-Pont. Portanto, o Método Natural de Hébert foi correlacionado ao Método Francês, entendidos como propostas harmônicas e complementares entre si. Contraditoriamente, o Método Natural foi recepcionado no Brasil também como um modelo próprio, como atestam as pesquisas brasileiras.
A ascendência de Hébert a nível nacional francês e internacional fez com que, na década de 1930, com a criação da REF, certa cautela fosse direcionada ao autor, atribuindo novamente à Joinville-le-Pont a investida na promoção do Método Francês. Estrategicamente, redirecionou-se o foco ao nome de Georges Demenÿ, também importante referência para a sistematização desse modelo, ao mesmo tempo que certos limites foram estabelecidos ao Método Natural. De forma contrária, a REPHy, que não se posicionava favoravelmente ao uso do Método Francês com exclusividade na Educação Física brasileira, continuou a apresentar a obra de Hébert como método próprio, com contribuições importantes a oferecer para a área.
Como estratégia de luta e de produção cultural, as fontes atuaram como instâncias privilegiadas na circulação de modelos, objetivando o estabelecimento de um estatuto e de uma posição. As informações que fazem circular sobre a Educação Física brasileira, verídicas ou urdidas na intenção de comover, de criticar, de desmoralizar, de exaltar ou de simplesmente caluniar, são registros, como mostramos neste artigo, das lutas de representação pelo controle do modo de pensar e pela produção de um lugar de fala autorizada.
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Rodadas de avaliação:
R1: dois convites; um parecer recebido.R2: três convites; nenhum parecer recebido.R3: três convites; um parecer recebido.
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Como citar este artigo:
Bruschi, M., & Jubé, C. Joinville-le-Pont e Georges Hébert: os debates na França e as representações na imprensa brasileira (1913-1949). Revista Brasileira de História da Educação, 26, e414. DOI: https://doi.org/10.4025/rbhe.v26.2026.e414
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Financiamento:
A RBHE conta com apoio da Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE) e do Programa Editorial (Chamada Nº 30/2023) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Este artigo conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Processo nº 2022/00116-8.
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Licenciamento:
Este artigo é publicado na modalidade Acesso Aberto sob a licença Creative Commons Atribuição 4.0 (CC-BY 4).
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1
Francisco Amorós y Ondeano (1770-1848) inspirou os trabalhos de Georges Hébert, de Georges Demenÿ, de Joinville e de tantos outros nomes da ginástica francesa. Contudo, neste trabalho, devido à distância temporal de quase um século que separa Francisco Amorós da “guerra dos métodos”, optamos por oferecer destaque aos personagens envolvidos de forma mais direta com as disputas em questão. Para mais informações sobre a obra de Francisco Amorós y Ondeano, consultar Sirvent (2007).
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2
As disputas na França foram complexas e compostas por diversos personagens em defesa de diferentes interesses. Desse modo, nosso objetivo não é esgotar essa discussão, mas sim perceber como “a guerra dos métodos” ocorrida em território francês reverberou no Brasil pela imprensa nacional.
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3
Com a intenção de criar um método nacional na França, fascículos foram produzidos entre 1919 e 1922, sob o nome de Projet de Règlement Général d’Éducation Physique. Colocados em prática e revisados várias vezes, suas versões finais foram publicadas entre 1925 e 1928, sob o nome de Règlement Général d’Éducation Physica, oficializando a criação de um método nacional, comumente denominado de Método Francês.
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A Liga de Defesa Nacional foi fundada em 1916, no Rio de Janeiro, por Olavo Bilac, Pedro Lessa e Miguel Calmon, sob a presidência de Rui Barbosa, que era favorável ao apoio brasileiro aos Aliados na Primeira Guerra Mundial. A guerra ajudava a popularizar a ideia do serviço militar obrigatório e reforçava a importância das Forças Armadas. Por defender a ideia do “cidadão-soldado” e do serviço militar como escola de cidadania, a Liga recebeu apoio do Exército. Bilac, em suas palestras, enfatizava a importância do engajamento dos intelectuais na causa nacionalista, apontando-os como responsáveis pela defesa da pátria e pela modernização das estruturas sociais (Jubé, 2017).
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5
Em 1929, o general Nestor Sezefredo dos Passos elaborou um anteprojeto de lei que tinha como finalidade regular a Educação Física em nível nacional. Um dos pontos destacados era a importância de uniformizar o ensino, sendo adotado aquele praticado pelo Exército brasileiro com base no método da Joinville-le-Pont, até que fosse produzido um modelo nacional.
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Francisco Amorós y Ondeano (1770-1848) inspired the work of Georges Hébert, Georges Demenÿ, Joinville, and many other names in French gymnastics. However, in this work, due to the almost century-long gap between Francisco Amorós and the "war of methods," we have chosen to highlight the figures more directly involved in the disputes in question. For more information on the work of Francisco Amorós y Ondeano, see Sirvent (2007).
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Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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