Como comentários ao artigo “Perfil de acadêmicos de Medicina e suas perspectivas sobre o ensino de Oftalmologia”(1) publicado na sua estimada revista, gostaríamos de complementar alguns pontos.
O artigo demonstra a importância das Ligas Acadêmicas no complemento do conhecimento oftalmológico no currículo atual das faculdades de medicina do Brasil.(1)
A população brasileira de médicos, e mundial de oftalmologistas está aumentando, mas a distribuição dos mesmos não tem atendido a necessidade de atendimento da população.(2)
Dessa forma, percebemos que um atendimento oftalmológico que se aproprie de tecnologia e seja direcionado aos aspectos mais resolutivos e prevalentes, é necessário. A esperança de que haja um deslocamento natural de médicos especialistas para regiões remotas não se concretizou, dada a complexidade do atendimento, com necessidade de sub-especialidades complementares na mesma região e equipamentos caros e adequados.
Esse problema acaba sendo menor em países com uma boa infraestrutura de transporte público, que permite o deslocamento dos pacientes até as cidades com atendimento especializado. Contudo, essa não é a realidade da maioria dos países e outras estratégias devem ser consideradas.
O tempo de ensino de oftalmologia nas faculdades de medicina tem reduzido em várias faculdades. O número de faculdades de medicina que possui ensino obrigatório dessa disciplina nos Estados Unidos caiu de 68% em 2000 para 30% em 2004.(3) Isso reflete no aumento do número de médicos generalistas com menor familiaridade com a visão e suas doenças. Dessa forma, devemos escolher o que e para quem ensinar. Para os médicos da atenção básica torna-se ineficiente uma ampla bibliografia e armamental tradicional. Quem sabe preparar os mesmos para lidar com equipamentos de obtenção de dados simples e envio remoto, estressando os achados a serem buscados e orientações básicas aos pacientes. No terreno das escolhas pessoais (eletivas), as ligas cumprem papel importante, permitindo a incursão e escolha precoce com melhor conhecimento da especialidade.
As condições econômicas, sociais e territoriais de nosso país mudaram e mudarão mais ainda o ensino, e as ligas são pontos de apoio mais livres para ousar. Quem sabe sua função não seja exatamente preparar esse salto, com o entendimento de algoritmos, capacitação em tele-oftalmologia, simulação realística, empatia e liderança, para que os médicos do futuro não se sintam tão despreparados, mesmo em locais desconhecidos e remotos.(4)
Referências
- 1 Ferreira MA, Gameiro GR, Cordeiro FM, Santos TV, Hilarião AA, Souza GM, et al. Perfil multicêntrico do acadêmico de medicina e suas perspectivas sobre o ensino da Oftalmologia. Rev Bras Oftalmol . 2019; 78 (5): 351-20.
- 2 Resnikoff S, Lansingh VC, Washburn L, Felch W, Gauthier TM, Taylor HR, et al. Estimated number of ophthalmologistsworldwide (International Council of Ophthalmolog yupdate): will we meet theneeds? Br J Ophthalmol . 2019 Jul 2. pii: bjophthalmol-2019-314336.
- 3 Quillen DA, Harper RA, Haik BG. Medical student education inophthalmology: Crisis and opportunity. Ophthalmolog y. 2005;112(11):1867-8.
- 4 Surendran TS, Raman R. Teleophthalmology in diabetic retinopathy. J Diabetes Sci Technol. 2014; 8(2):262-6.
