Open-access Digital Stressors Scale: tradução e adaptação transcultural para o contexto brasileiro

Resumo

Introdução  O estresse digital no trabalho representa um risco crescente à saúde dos(as) trabalhadores(as). Instrumentos de mensuração atualizados são essenciais para avaliação adequada.

Objetivo  Traduzir e adaptar transculturalmente o Digital Stressors Scale (DSS) ao contexto brasileiro.

Métodos  Estudo metodológico de tradução, avaliação por comitê com sete especialistas, pré-teste com cinco participantes da população-alvo, retrotradução e estudo-piloto com 150 trabalhadores(as). A validade de conteúdo foi avaliada pelo Índice de Validade de Conteúdo (IVC) e pela Taxa de Concordância (TC), e a consistência interna preliminar pelo alfa de Cronbach (α) e pelo ômega de McDonald (ω).

Resultados  Foram obtidas as equivalências idiomática, semântica, experimental e conceitual entre a versão traduzida e a original (IVC = 0,96). Mais de 95% dos participantes concordaram com a clareza e aplicabilidade do instrumento. As versões longa e curta apresentaram coeficientes α ≥ 0,68 e ω ≥ 0,70.

Discussão  A combinação de α e ω reforça a robustez da consistência interna, pois o ômega é menos influenciado pelas limitações do alfa.

Conclusão  A versão brasileira do DSS apresentou evidências iniciais promissoras em estudo-piloto, contudo, ainda não fornece evidências suficientes para uso amplo no Brasil. Recomenda-se a realização de análises psicométricas robustas em amostras maiores.

Palavras-chave:
Saúde do Trabalhador; Inquéritos e Questionários; Avaliação do Impacto na Saúde; Estresse Ocupacional; Tecnologia da Informação; Tecnologia Digital

Abstract

Introduction  Digital stress at work represents a growing risk to occupational health. Up-to-date measurement instruments are essential for proper assessment.

Objective  To translate and cross-culturally adapt the Digital Stressors Scale (DSS) to the Brazilian context.

Methods  Methodological study of translation, evaluation by a committee of seven experts, pre-testing with five participants from the target population, back-translation, and pilot study with 150 workers. Content validity was assessed by the Content Validity Index (CVI) and the Agreement Rate (AR), and preliminary internal consistency by Cronbach’s alpha (α) and McDonald’s omega (ω).

Results  Idiomatic, semantic, experiential, and conceptual equivalences were obtained between the translated version and the original (CVI = 0.96). More than 95% of participants agreed with the clarity and applicability of the instrument. The long and short versions had coefficients α ≥ 0.68 and ω ≥ 0.70.

Discussion  The combination of α and ω reinforces the robustness of internal consistency, as omega is less influenced by the limitations of alpha.

Conclusion  The Brazilian version of the DSS showed promising initial evidence in a pilot study, however, it does not yet provide sufficient evidence for widespread use in Brazil. Robust psychometric analyses in larger samples are recommended.

Keywords:
Occupational Health; Surveys and Questionnaires; Health Impact Assessment; Occupational Stress; Information Technology; Digital Technology

Introdução

O uso intensivo das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) no trabalho intensificou-se durante e após a pandemia de covid-19. Embora essencial à continuidade das atividades produtivas, essa digitalização forçada aumentou o tecnoestresse (estresse resultante dos esforços individuais para lidar com as demandas do uso das TIC para o trabalho)1 entre trabalhadores(as), principalmente devido ao trabalho remoto, conectividade constante, excesso de demandas, falta de suporte técnico, indefinição entre vida pessoal e profissional e dificuldade de desconexão mental do trabalho2.

Finalizada a pandemia, os efeitos dessa flexibilização e intensificação permanecem. Um exemplo é a adoção de trabalho híbrido por 86% das empresas no Brasil3. Embora a flexibilidade obtida com as TIC tenha sido associada à qualidade de vida, estudos recentes apontam o tecnoestresse como mediador crítico dessa relação4. Segundo o The Future of Jobs Report5, publicado pelo Fórum Econômico Mundial em 2025, a transformação digital continuará sendo o principal fator de mudança no mercado de trabalho global e estima que, até 2030, as tarefas compartilhadas entre humanos e tecnologias aumentem em 30%, enquanto as exclusivamente humanas diminuirão substancialmente.

Mesmo antes da pandemia, o sujeito contemporâneo já vivia sob produtividade autoimposta, numa sociedade do cansaço6. Após a pandemia, essa lógica se intensificou: a hiperconectividade transformou a autonomia em vigilância e o trabalho flexível em exaustão. Um reflexo dos impactos dessa nova morfologia de trabalho é o aumento de 134% nos benefícios concedidos pela Previdência Social por incapacidade temporária devido a transtornos mentais, no biênio de 2022 a 20247.

As tecnologias intensificaram o trabalho com novos impactos na saúde e bem-estar dos(as) trabalhadores(as), relacionados ao estresse, à ansiedade e à fadiga decorrentes dos Fatores de Risco Psicossociais do Trabalho (FRPT)3. Embora os instrumentos para avaliação dos FRPT, desenvolvidos entre as décadas de 1990 e 2000, ainda sejam amplamente utilizados, eles não contemplam o trabalho caracterizado pela intensa dependência do uso das TIC e pela exposição ao tecnoestresse8-10 atualmente conhecido como estresse digital11, com uma abordagem mais abrangente.

O estresse digital pode ser compreendido como a resposta psicológica negativa decorrente do uso das TIC no trabalho12. Ragu-Nathan et al.12 o definem como um fenômeno de estresse vivenciado por usuários em função da utilização das TIC. Fischer et al.11 acrescentaram as percepções, emoções e expectativas relacionadas à presença e à evolução dessas tecnologias, e seus efeitos da automação e segurança no emprego.

Evidências empíricas apontam impactos negativos do estresse digital no bem-estar psicológico do trabalhador, como sensação de fadiga, ansiedade e burnout, além de hipertensão, diabetes, dislipidemia, obesidade, depressão e insônia como consequências ao tecnoestresse12-15. Além disso, o aumento do absenteísmo e do turnover, a redução da performance individual no trabalho e do sucesso nos processos de digitalização diminuem a produtividade nas organizações15,16.

No Brasil, os instrumentos específicos para avaliação desse tipo de estresse são escassos e desatualizados: 1) RED-TIC17 possui boa consistência interna, mas não contempla os estressores digitais contemporâneos8. 2) Techno-Stress Creators and Inhibitors-TSCI18 não inclui categorias emergentes como insegurança operacional e invasão de privacidade13, além de ter sido parcialmente adaptado ao Brasil. Essa lacuna metodológica também pode comprometer o avanço científico, dificultando a produção de evidências sobre fatores organizacionais e individuais que contribuem para o desenvolvimento do estresse digital e suas consequências no Brasil8.

O Digital Stressors Scale (DSS)11, publicado em 2021, é um dos instrumentos mais atualizados e completos para avaliação do estresse digital. O objetivo deste estudo é traduzir, adaptar culturalmente ao contexto brasileiro e analisar as propriedades psicométricas desse instrumento de forma preliminar.

O instrumento

O DSS é composto por 50 itens distribuídos em 10 dimensões/escalas relacionadas ao uso das TIC para o trabalho (Quadro 1), avaliados por escala Likert de 7 pontos (1= discordo totalmente a 7= concordo totalmente) além da opção “não sei” (-1). A aplicação deve ser on-line e individual, e os resultados podem ser analisados de forma individual ou coletiva11,19.

Quadro 1
As 10 escalas de avaliação do Digital Stressors Scale

O instrumento pode ser aplicado em sua forma completa (multidimensional), avaliando o estresse digital como um constructo único, ou segmentado por dimensão/escala (unidimensional). O resultado é dado pelo cálculo da média aritmética dos itens, de modo que pontuações mais altas indiquem maior nível de estresse digital percebido. As respostas deixadas em branco ou pontuadas com “-1” devem ser substituídas pela mediana dos demais valores correspondentes àquele item, respeitando a proporção de 10%11,19.

A sua versão original apresenta propriedades psicométricas adequadas, tanto para aplicação multidimensional quanto unidimensional. A consistência interna apresentou coeficientes satisfatórios (alfa de Cronbach, ômega de McDonald e ômega total > 0,70), validade convergente e discriminante de variância média extraída (AVE) >0,50; critério de Fornell-Larcker e razão heterotraço–monotraço (HTMT) < 0,90. Além disso, a validade concorrente foi testada com sucesso, forte Correlação de Spearman (rs= 0,923; p < 0,001) com o instrumento TSCI11.

Em 2023, foi publicada uma versão curta, mantendo as 10 dimensões/escalas de avaliação, mas com 30 itens, três em cada dimensão, também com boas propriedades psicométricas evidenciadas por análise fatorial confirmatória [índice de ajuste comparativo (CFI = 0,99), erro de aproximação da raiz média (RMSEA = 0,045) e raiz do quadrado médio dos resíduos padronizado (SRMR = 0,034)], e alfa de Cronbach acima de 0,70 em todas as dimensões. A versão curta deve ser aplicada apenas em sua forma completa (multidimensional)19.

Métodos

Procedimento de Tradução e Adaptação Transcultural

Trata-se de um estudo original, metodológico, de natureza instrumental, voltado à adaptação transcultural de instrumento inédito em português. A autorização para realizar o procedimento foi obtida com os seus autores em setembro de 2021. A autorização obtida estabelece que o artigo original11 da publicação do instrumento deve sempre ser explicitamente mencionado e referenciado nas publicações que utilizem o DSS em português. Também determina que o instrumento não deve ser utilizado para fins comerciais ou convertido em software, sem consentimento explícito da University of Applied Sciences Upper Austriab.

O processo de adaptação para o português ocorreu entre setembro de 2022 e agosto de 2023, mantendo-se o formato original e o uso digital do instrumento.

Para garantir equivalência linguística, semântica, cultural e conceitual entre a versão original e adaptada, as cinco etapas do procedimento de adaptação transcultural (Figura 1) foram conduzidas, com base em referências da literatura nacional20,21 e internacional, atendendo às diretrizes do Apêndice A do guia International Test Commission (ITC)22 e ao Box G do checklist do Consensus-based Standards for The Selection of Health Measurement Instruments (COSMIN)23.

Figura 1
Resumo das cinco etapas realizadas para tradução e adaptação transcultural do DSS para o português brasileiro

  1. Tradução: O questionário original foi enviado a dois tradutores bilíngues, independentes, brasileiros, conhecedores do objetivo do estudo, sendo um especialista em avaliação psicossocial. Um terceiro tradutor independente, bilíngue, brasileiro, com experiência na área, realizou a síntese das versões, conciliando-as em uma única versão, respeitando o sentido original e o contexto linguístico brasileiro.

  2. Comitê de especialistas: Sete juízes brasileiros, bilingues, pós-graduados, das áreas de psicologia, medicina do trabalho, sociologia, ergonomia e de Tecnologia de Informação (TI), selecionados por conveniência e por expertise – sendo cinco com experiência em testes psicométricos e quatro no constructo estudado. Utilizou-se uma ficha com escala Likert de 5 pontos (1= não equivalente a 5= muito equivalente) para avaliar a equivalência semântica, idiomática, experimental e conceitual entre as versões. Itens pontuados abaixo de 4 foram revisados e reavaliados.

  3. Avaliação público-alvo: Buscou-se, por conveniência, por cinco trabalhadores, das cinco regiões do país, de diferentes perfis profissionais (coordenador, analista de pesquisa, técnico de qualidade, líder de operação e auxiliar administrativo). Os participantes foram convidados a responder ao instrumento via Google Forms e a participarem de entrevistas abertas, via chamada de vídeo, para avaliarem a clareza das instruções do instrumento, a compreensão dos itens, a adequação da escala Likert e do formato on-line para aplicação, além de informarem o tempo de resposta. Critérios de inclusão: trabalhador(a) ativo(a), entre 18 e 75 anos, que utilize TIC em suas atividades de trabalho.

  4. Retrotradução: A versão final em português foi enviada a tradutor bilíngue, nativo em inglês, para retrotradução20. A versão resultante foi comparada à original por dois tradutores bilíngues e independentes, um nativo em inglês, ambos atuantes em TI, mas sem experiência no constructo avaliado.

  5. Estudo-piloto: Para esta etapa o guia ITC22 recomenda uma amostra mínima de n = 30. Participaram 150 trabalhadores (Tabela 1) convidados por conveniência, via redes sociais, por compartilhamento de carta-convite com link aberto do Google Forms, O envio de múltiplas respostas foi bloqueado, e as respostas não eram obrigatórias. Os critérios de inclusão seguiram os da etapa 3. Após preencherem o questionário, responderam a três perguntas objetivas com as opções “concordo” ou “não concordo” para validação do conteúdo: 1) As instruções do teste podem ser totalmente compreendidas? 2) A realização do teste on-line é adequada? 3) Os itens podem ser compreendidos sem dificuldade? Foi deixado um campo em aberto para comentários e sugestões. As respostas ao questionário foram utilizadas para análise preliminar de confiabilidade, conforme sugere o ITC – diretriz TD-522, para verificar a consistência interna preliminar do instrumento adaptado antes da realização de estudos de validação de maior complexidade e amplitude21,22.

    Tabela 1
    Características sociodemográficas dos participantes do estudo-piloto realizado no Brasil entre janeiro e agosto de 2023

Análise dos dados

As equivalências semântica, idiomática, experimental e conceitual dos itens foram analisadas por meio do Índice de Validade de Conteúdo (IVC), para redução da probabilidade de concordância ao acaso, foi utilizada uma escala Likert de cinco pontos24, o IVC foi calculado pela proporção de respostas 4 ou 5 dos juízes, considerando essas categorias como indicativas de adequação do item. Para cada item obteve-se o IVC-Item (média das quatro equivalências avaliadas). Para avaliar cada escala, utilizou-se o S-IVC/AVE, (média dos IVC-I para todos os itens da escala) e o instrumento completo foi avaliada pela S-IVC (Média dos IVC-I de todos os itens). O S-IVC/AVE e o S-IVC também foram calculados considerando os itens referentes a versão curta do instrumento. Com painel de sete juízes, valores ≥ 0,80 foram considerados indicativos de validade de conteúdo satisfatória25.

A validação de conteúdo também foi realizada por meio da taxa de concordância das respostas às três perguntas aplicadas aos 150 participantes, calculada como (“concordo” ÷ total de respostas × 100), sendo ≥ 90% o valor mínimo aceitável21.

As análises preliminares de confiabilidade e a consistência interna utilizaram as respostas dos 150 participantes, considerando os respectivos itens da versão original e da versão curta. Foram utilizados os coeficientes de Ômega de McDonald(ω), e Alfa de Cronbach(α) com o respectivo Intervalo de Confiança (IC) de 95%. Valores acima de 0,70 indicaram consistência interna adequada26,27. Dados ausentes e itens pontuados com “-1” foram substituídos pela mediana19.

As respostas de todos os participantes da pesquisa foram anonimizadas e processadas no Excel. Todas as análises estatísticas foram realizadas no software R. Espera-se que a versão brasileira do DSS apresente validade de conteúdo adequada e consistência interna preliminar satisfatória, no estudo-piloto, para as duas versões, original e curta.

Considerações éticas

Foram seguidas as diretrizes éticas estabelecidas pela Resolução CNS nº 466/2012. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Campinas parecer no 5.667.487 de 5 de setembro de 2022. Todos os participantes consentiram e firmaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido; a participação foi voluntária. O anonimato e sigilo dos participantes foi garantido, e a análise dos dados não foi individualizada. A pesquisa foi registrada e os dados disponibilizados no repositório OSF (https://osf.io/prz6d/overview)28. Foram seguidas as recomendações do guia CHERRIES para relato de pesquisa eletrônica29.

Resultados

As avaliações de equivalência idiomática, semântica, conceitual e experimental resultaram em IVC-I = 1,00 para as instruções e IVC-I = 0,96 para a escala Likert. Entre os 50 itens avaliados, quatro necessitaram de ajustes e passaram por duas rodadas de avaliação pelo comitê de especialistas. Ao final, todos apresentaram IVC-I superior a 0,80. O instrumento completo apresentou S-IVC de 0,96 para ambas as versões.

Como exemplo de adequação realizada, o item 4 da dimensão Ambiente Social foi inicialmente traduzido como: “Sinto que as TIC criam normas sociais indesejadas [...]”, resultando IVC-I: 0,4. Após reformulação ficou: “Eu sinto que as TIC criam regras sociais indesejadas [...]”, IVC-I: 1,0.

O Quadro 2 apresenta as versões original em inglês e adaptada para o português brasileiro, com os 30 itens da versão curta em destaque, e os respectivos IVCs.

Quadro 2
Digital Stressors Scale em inglês e em português brasileiro, com os índices de validade de conteúdo para as versões com 50 e com 30 itens (em cinza)

Na etapa com o público-alvo, não houve relatos de dificuldade dos participantes. A média de tempo de resposta foi de 15 minutos (DP = 5).

Na comparação entre as versões original e retrotraduzida, duas inconsistências foram corrigidas, sendo a mais relevante referente ao item da categoria “ambiente social” que em inglês é: “Too much time gets lost at work because of irrelevant communication with other people on social media”, inicialmente traduzido como “Perde-se muito no trabalho [...]”, o que omitiria a ideia de perda de tempo. Foi ajustada para “Perde-se muito tempo no trabalho [...]”, mantendo-se fiel ao original.

No estudo-piloto, a taxa de concordância foi de 96% – compreensão das instruções, 99% – aplicação on-line; e 97% — compreensão dos itens, valores acima do recomendado, mostrando validade adequada para a adaptação transcultural. Dos 150 participantes, 19 comentaram; cinco consideraram o questionário longo, dois sugeriram apresentar os itens de forma aleatória para reduzir a sensação de repetição. Não houve sugestões de alteração na tradução.

A Tabela 2 apresenta os valores de alfa de Cronbach, com os respectivos ICs, e os valores de ômega de McDonald para as 10 escalas da versão longa e curta. Os resultados obtidos indicaram um nível excelente de consistência interna para a versão longa, as escalas de conflitos, insegurança, suporte e confiabilidade apresentaram valores acima de 0,90 e as demais valores acima de 0,70.

Tabela 2
Resultado da análise da consistência interna pelo alfa de Cronbach e ômega de McDonald, para as versões completa e curta da Escala de Estressores Digitais

Já na versão curta, apenas a escala de Complexidade apresentou alfa de 0,68, porém compensado por IC superior de 0,73 e ômega de 0,71, conforme recomenda a literatura. A porcentagem de itens faltantes foi de 2,10% para versão longa e 1,14% para a curta.

Discussão

A hipótese de que o instrumento traduzido apresentaria validade de conteúdo e consistência interna preliminar satisfatória, em um estudo-piloto, para ambas as versões, original (50 itens) e curta (30 itens), foi confirmada.

A etapa de avaliação por especialistas revelou alta concordância, com IVC-Is ≥0,80 em todos os itens após ajustes, e S-IVC 0,96 para o instrumento completo, sugerindo que os itens, além de compreensíveis, mantiveram coerência com a versão original.

Os participantes do público-alvo compreenderam bem o instrumento, representando distintas regiões e realidades do uso de TIC no Brasil. A análise da versão retrotraduzida foi realizada por dois tradutores independentes, que identificaram a necessidade de ajustes em dois itens. Essa etapa foi essencial para consolidar a qualidade da versão final.

O estudo-piloto confirmou a clareza do instrumento, com mais de 95% de concordância nas instruções, compreensão dos itens e aplicação on-line. Alguns participantes criticaram a extensão do instrumento (50 itens), mencionando sensação de repetitividade das perguntas. Esse fato aponta para a possibilidade de randomizar itens em futuras aplicações para reduzir viés de resposta e fadiga. Tais indicadores sustentam a validade da adaptação transcultural.

Os resultados da análise de confiabilidade preliminar indicaram consistência interna satisfatória, tanto na versão completa quanto na versão curta. O alfa e o ômega foram superiores a 0,70 em todas as escalas da versão completa. Na versão curta, apenas a escala de complexidade apresentou alfa de 0,68, compensado por ômega de 0,71 e IC superior a 0,73. Esses dados atendem aos critérios amplamente aceitos na literatura psicométrica, que considera valores acima de 0,70 como indicativos de confiabilidade adequada26,30,27.

O coeficiente alfa é sensível ao número total de itens, por isso escalas mais longas tendem a inflar artificialmente os valores do alfa. Por outro lado, em versões mais curtas, como observado neste estudo, o alfa pode apresentar resultados inferiores, mesmo quando a consistência interna é adequada30. O tamanho da amostra também influencia essas estimativas: amostras pequenas, comuns em análises preliminares, tendem a gerar resultados menos estáveis. No entanto, um estudo publicado em 2024 demonstrou que amostra superior a 30 participantes é adequada para análise de confiabilidade em estudo-piloto31.

Para mitigar essas limitações e reforçar a robustez das análises, o estudo utilizou também o coeficiente ômega de McDonald, que oferece uma estimativa mais realista da confiabilidade por considerar as cargas fatoriais individuais e os erros associados. Os valores de ômega foram adequados (≥0,70 e ≤0,96). A aplicação conjunta desses coeficientes contribui para uma avaliação mais precisa da consistência interna e fortalece a validade preliminar da versão brasileira do DSS, tanto em sua forma completa quanto na versão curta27.

É importante mencionar que os autores sugerem interpretação específica dos resultados, segundo a qual valor igual a “1” já poderia ser indicativo de percepção de estresse18. Entretanto optou-se, em alinhamento com o comitê de especialistas, por manter a leitura contínua dos escores, compatível com o funcionamento psicométrico habitual de escalas Likert de sete pontos, para a versão brasileira32.

Comparando com o checklist G do COSMIN23, apenas dois itens não foram plenamente atendidos: a semelhança entre amostras da validação original e deste estudo (amostra de conveniência) e a ausência de análise fatorial confirmatória, ou Teoria da Resposta ao Item (TRI), que não estavam no escopo atual. As qualidades psicométricas estabelecidas no instrumento original podem ser afetadas na versão adaptada, devido a diferenças entre as características das amostras, que, na versão original, foi predominantemente masculina (56,2%), graduados (37,4%) e média de idade de 39 anos (desvio-padrão = 14.99)11.

Em estudo recente realizado na Noruega por Sevic et al., a validação do DSS não apresentou bom ajuste ao formato original. Os autores realizaram uma análise fatorial exploratória, resultando em uma versão com 37 itens distribuídos em oito fatores com alta consistência interna (alfa e ômega > 0,80). Esse resultado reforça a importância de reavaliar a estrutura fatorial em contextos culturais distintos e corrobora a necessidade de estudos adicionais para confirmar a estrutura do DSS no Brasil33.

O uso de amostra de conveniência e coleta on-line representa uma limitação metodológica, com risco de viés de seleção, neste estudo a amostra foi composta predominantemente por trabalhadores da Região Sudeste e com elevado nível de escolaridade. Apesar disso, permitiu acesso a participantes de todas as regiões, com economia de recursos. A baixa familiaridade com o formulário eletrônico pode ter impactado o tempo de resposta ou completude do preenchimento, e potencial viés por fadiga do respondente.

Conclusão

A versão brasileira do Digital Stressors Scale, em suas versões original e curta, apresentou evidências preliminares de validade de conteúdo e consistência interna adequadas, demonstrando boa adaptação linguística, conceitual, experimental e semântica ao contexto nacional. Embora promissoras, o estudo-piloto ainda não fornece evidências suficientes para o uso amplo no Brasil. Recomenda-se a continuidade da avaliação das propriedades psicométricas com amostras mais amplas e diversificadas e o uso de análises fatoriais ou baseadas na TRI, a fim de confirmar sua estrutura interna e aprimorar sua precisão e aplicabilidade.

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  • b
    Contato: Dr. René Riedl.
  • Informação sobre trabalho acadêmico:
    Trabalho baseado na tese de doutorado de Alexandra Vasconcelos Antunes Setta, intitulada “Escala de Estressores Digitais: adaptação transcultural e validação psicométrica do instrumento para o português brasileiro”, apresentada em 16 de janeiro de 2026 na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas.
  • Disponibilidade dos dados:
    Todo o conjunto de dados anonimizados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível em: OSF (Open Science Framework). URL ou DOI: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/PRZ6D. Oito de julho de 2025.
  • Declaração sobre uso de Inteligência Artificial:
    Durante a elaboração do artigo, foi utilizada a ferramenta de inteligência artificial Chat GPT versão 5.2, com o objetivo de realizar a revisão gramatical e de linguagem. Os autores declaram que revisaram e validaram todo o conteúdo gerado com o auxílio de ferramenta de inteligência artificial.
  • Apresentação do estudo em evento científico:
    Os autores informam que o estudo não foi apresentado em evento científico.
  • Financiamento:
    Os autores declaram que o estudo não foi subvencionado.

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Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados anonimizados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível em: OSF (Open Science Framework). URL ou DOI: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/PRZ6D. Oito de julho de 2025.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    14 Jul 2025
  • Revisado
    08 Dez 2025
  • Aceito
    07 Jan 2026
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