Resumo
Objetivo Fundamentar conceitualmente e apresentar o Copenhagen Psychosocial Questionnaire em sua versão curta brasileira (COPSOQ II-Br), explicar o cálculo dos escores e a interpretação dos seus resultados e apresentar suas aplicações e potencialidades, inclusive como instrumento de apoio no contexto de aplicação da Norma Regulamentadora do Trabalho n° 01 (NR-1).
Métodos Ensaio fundamentado na análise de fontes documentais e científicas, estas levantadas nas bases SciELO, PubMed e Scopus, de novembro de 2025 a março de 2026.
Resultados O ensaio apresenta a fundamentação conceitual do instrumento e sua evolução ao longo dos anos; identifica similaridades e diferenças entre terminologias que abordam os fatores psicossociais do trabalho, os riscos psicossociais e suas interfaces com as normas regulamentadoras do trabalho. Também apresenta orientações para aplicação, análise e interpretação dos dados que o COPSOQ II-Br aborda e estudos que utilizaram o instrumento em populações brasileiras, discutindo suas potencialidades e limitações.
Conclusões Este ensaio evidencia o potencial do COPSOQ II-Br para a avaliação dos fatores psicossociais do trabalho. O instrumento pode contribuir para o diagnóstico organizacional e subsidiar ações de vigilância, planejamento e intervenção em ambientes de trabalho.
Palavras-chave:
Saúde Mental; Estresse Ocupacional; Condições de Trabalho; Saúde do Trabalhador
Abstract
Objective To provide a conceptual foundation for and present the Brazilian short version of the Copenhagen Psychosocial Questionnaire (COPSOQ II-Br), explain how scores are calculated and how results are interpreted, and present its applications and potential uses, including as a supportive tool in the context of implementing Labor Regulatory Standard No. 01 (NR-1).
Methods This review is based on the analysis of documentary and scientific sources retrieved from the SciELO, PubMed, and Scopus databases between November 2025 and March 2026.
Results This essay presents the conceptual basis of the instrument and its evolution over the years; it identifies similarities and differences among terminologies addressing psychosocial factors at work, psychosocial risks, and their interfaces with labor regulatory standards. It also provides guidelines for the application, analysis, and interpretation of the data addressed by COPSOQ II-Br and reviews studies that have used the instrument in Brazilian populations, discussing its potential and limitations.
Conclusions This review highlights the potential of COPSOQ II-Br for assessing psychosocial factors in the workplace. The instrument can contribute to organizational diagnosis and support surveillance, planning, and intervention efforts in work environments.
Keywords:
Mental Health; Occupational Stress; Working Conditions; Occupational Health
Introdução
O crescente número de afastamentos do trabalho devido a problemas de saúde mental levou à revisão da Norma Regulamentadora do Trabalho n° 01 (NR-1)1, que obriga as empresas a identificar, avaliar e propor planos de ação para mitigar os riscos psicossociais2. A nova versão da NR-1 impulsiona o uso de instrumentos válidos e confiáveis para a identificação dos riscos psicossociais nos locais de trabalho.
Apesar da iniciativa do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) de incluir os riscos psicossociais como parte do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) na NR-1 desde 20242, atribuindo essa responsabilidade aos empregadores3, as repercussões do adoecimento mental aos cofres públicos permanecem em ascensão. A Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), com base nos dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), apontou que os afastamentos superiores a 15 dias decorrentes de transtornos mentais apresentaram um crescimento acelerado, praticamente dobrando de volume entre janeiro de 2023 e novembro de 20254.
Esses dados apontam para a complexidade da problemática, que requer um compromisso verdadeiro das organizações em rever suas práticas e modelos de gestão, incluindo a participação ativa e propositiva das pessoas que nelas trabalham, com o objetivo de criar ambientes e processos de trabalho seguros, capazes de proteger a saúde mental e, talvez mais importante, de promovê-la5. Isso exige a aplicação de ferramentas capazes de analisar fatores psicossociais do trabalho que podem se configurar como fatores de risco ou de proteção, no sentido de disparar ações a partir de um diagnóstico bem traçado da realidade e elaborado em diálogo com diferentes atores.
O Copenhagen Psychosocial Questionnaire (COPSOQ II-Br), versão curta, foi objeto de tradução e adaptação transcultural para uso no Brasil em 2019, por meio de uma tese de doutorado desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Fisioterapia da Universidade Federal de São Carlos6. O artigo7 resultante desta tese descreve o processo de adaptação e validação; contudo, não está disponível em português, não fornece o questionário validado e não apresenta aspectos operacionais para o cálculo e interpretação dos resultados. Assim, este ensaio tem por objetivo fundamentar conceitualmente e apresentar o Copenhagen Psychosocial Questionnaire em sua versão curta brasileira (COPSOQ II-Br), explicar o cálculo dos escores e a interpretação dos seus resultados e apresentar suas aplicações e potencialidades, inclusive como instrumento de apoio no contexto de aplicação da Norma Regulamentadora do Trabalho n° 01 (NR-1).
Métodos
Trata-se de um estudo de caráter reflexivo e interpretativo, fundamentado na experiência das autoras com a validação e aplicação do questionário e na análise de fontes científicas e documentais relevantes ao tema8. Os textos que sustentam este ensaio foram selecionados considerando a centralidade do COPSOQ no debate sobre os fatores psicossociais no trabalho e sua contribuição como uma perspectiva analítica a ser adotada por profissionais de saúde e segurança no trabalho (SST) e empregadores. A seleção dos textos científicos foi feita a partir de busca nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE)/PubMed e Scopus, no período de novembro de 2025 a março de 2026 utilizando as palavras-chave: working conditions, work environment, occupational stress e Copenhagen Psychosocial Questionnaire (COPSOQ).
A análise das fontes selecionadas foi realizada por meio de leitura interpretativa, com foco nos conceitos sobre os aspectos psicossociais do trabalho. A organização do material seguiu uma lógica temática, orientada pelo encadeamento argumentativo do texto, visando conferir maior clareza, transparência e rigor metodológico ao estudo.
Conceitos e terminologia
Segundo a definição da Organização Internacional do Trabalho (OIT)9 (Quadro 1), o ambiente de trabalho e os trabalhadores estão em interação dinâmica, sendo que o ambiente de trabalho, as tarefas de trabalho e os fatores organizacionais representam os aspectos que caracterizam a atividade laboral. As reações dos trabalhadores dependem de suas habilidades, necessidades, expectativas, cultura e vida privada e podem mudar ao longo do tempo, refletindo adaptações.
O MTE10 adota uma definição alinhada à da OIT (Quadro 1). Embora a relação entre o trabalho e as reações dos trabalhadores não tenha, necessariamente, uma relação de causalidade11, a definição da OIT sugere que uma interação negativa entre as condições de trabalho e os trabalhadores pode levar a distúrbios emocionais, problemas comportamentais, mudanças bioquímicas e neuro-hormonais, com riscos adicionais de doenças físicas e mentais, bem como efeitos adversos na satisfação e no desempenho no trabalho. Já o equilíbrio entre as condições de trabalho e os trabalhadores pode ter influência positiva, particularmente na saúde9.
Embora haja clareza sobre o impacto dos fatores psicossociais na saúde dos trabalhadores, ainda há divergências na literatura quanto à terminologia empregada para se referir aos fatores psicossociais do trabalho. Cabe apontar que as referências incluídas no Quadro 1 não esgotam a literatura pertinente, sendo consideradas as principais referências científicas e normativas sobre o tema.
Múltiplos significados e definições sobre a saúde mental no trabalho levam a generalizações que nem sempre refletem significados semelhantes15. Enquanto a NR-17 utiliza o termo “aspectos psicossociais do trabalho”, a NR-1 faz uso da terminologia “fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho”2. Apesar de não definir explicitamente o termo, a NR-17 afirma que as organizações devem avaliar: “as situações de trabalho que, em decorrência da natureza e do conteúdo das atividades requeridas, demandam adaptação às características psicofisiológicas dos trabalhadores”13. Já o Guia de Informações sobre os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho aponta a definição mencionada na NR-1 como:
perigos decorrentes de problemas na concepção, na organização e na gestão do trabalho, que podem gerar efeitos na saúde do trabalhador em nível psicológico, físico e social, como por exemplo o desencadeamento ou agravamento de estresse no trabalho, esgotamento, depressão, DORT, entre outros10 (p. 6).
Embora sejam termos conectados, os aspectos psicossociais do trabalho referem-se às características observadas no trabalho, enquanto os fatores de risco relacionados ao trabalho são aspectos do trabalho que representam perigo à saúde mental do trabalhador.
Diante da diversidade de termos, neste ensaio adotamos o termo fatores psicossociais do trabalho. Este termo nos parece mais alinhado às teorias que fundamentam o COPSOQ, uma vez que se refere a aspectos positivos e negativos do ambiente de trabalho, os quais podem se configurar como fatores de proteção ou de risco à saúde dos trabalhadores.
Copenhagen Psychosocial Questionnaire (COPSOQ)
O COPSOQ foi desenvolvido em Copenhague, Dinamarca, no início dos anos 2000, por Tage Kristensen e colaboradores do National Institute of Occupational Health. A iniciativa teve o objetivo de oferecer um instrumento abrangente, contemplando elementos negativos e positivos do ambiente laboral. O instrumento foi concebido para ser teoricamente fundamentado, sem se vincular a um único modelo explicativo, de modo a integrar dimensões reconhecidas em diferentes marcos conceituais sobre trabalho, saúde e bem-estar12.
O objetivo do desenvolvimento do COPSOQ foi possibilitar comparações em nível nacional e internacional, aprimorar a análise de intervenções, facilitar o acompanhamento e a comparação de resultados, melhorar a comunicação entre empresas, profissionais e pesquisadores e tornar mais acessíveis os conceitos e as teorias da área12.
De acordo com o estudo original, o COPSOQ foi desenvolvido com base nos seguintes princípios12:
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Ser fundamentado em teoria, mas não vinculado a uma teoria específica;
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Consistir em dimensões relacionadas a diferentes níveis de análise (como organização, departamento, cargo, interface pessoa-trabalho e indivíduo);
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Incluir dimensões relacionadas às tarefas de trabalho, organização do trabalho, relações interpessoais no trabalho, cooperação e liderança;
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Abranger potenciais fatores negativos do trabalho, bem como recursos como apoio, feedback, comprometimento com o trabalho e percepção de saúde;
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Ser abrangente e genérico, ou seja, deve ser aplicável a todos os setores de trabalho;
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Possuir versões práticas e simples de aplicar, tanto para os profissionais de saúde e segurança quanto para os trabalhadores.
A forma de aplicação do instrumento constitui um aspecto crítico para a qualidade dos dados, especialmente em trabalhadores com diferentes níveis de escolaridade. Itens com maior grau de abstração podem gerar interpretações diversas, o que reforça a importância de estratégias como aplicação assistida, pré-testes com entrevistas cognitivas e padronização de esclarecimentos, de modo a garantir a compreensão adequada e a validade das respostas.
Desenvolvimento do COPSOQ nas versões curta, média e longa
O COPSOQ evoluiu ao longo do tempo em três versões: COPSOQ I, COPSOQ II e COPSOQ III, cada uma estruturada em versões curta, média e longa12,16,17. Atualmente, o COPSOQ está disponível em mais de 25 idiomasd e é utilizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), OIT e European Agency for Safety and Health at Work (EU-OSHA) como referência de boas práticas18.
Para garantir resultados confiáveis e comparáveis, é fundamental que o instrumento seja utilizado em uma versão validada para o contexto nacional, considerando diferenças culturais, linguísticas e organizacionais19. Neste momento, apresentaremos uma visão geral das três versões do COPSOQ, construída com base na análise comparativa dos instrumentos originais, enfatizando suas características, finalidades e diferenças.
O COPSOQ I, desenvolvido em 2005, foi estruturado para abranger amplamente os principais fatores psicossociais do trabalho, organizando os itens em dimensões relacionadas a demandas, organização e conteúdo do trabalho, relações e liderança, interface trabalho-indivíduo, saúde e bem-estar, além de fatores individuais12. O questionário se baseia no entendimento de que o trabalho é atravessado por múltiplas esferas que afetam a saúde, incluindo autonomia, suporte social, exigências emocionais e clareza de papéis, e buscou integrar elementos presentes em diversas teorias clássicas sobre fatores psicossociais no trabalho, entre elas: (i) modelo das características do trabalho, (ii) modelo de estresse organizacional de Michigan, (iii) modelo de demanda-controle-(apoio), (iv) abordagem sociotécnica, (v) abordagem teórica da ação, (vi) modelo esforço-recompensa-desequilíbrio e (vii) modelo vitamina12. Por ser um instrumento abrangente, o COPSOQ inclui, além de fatores do ambiente e organização do trabalho, os desfechos de saúde, bem-estar e satisfação no trabalho.
O COPSOQ I está disponível em três formatos: a versão longa, voltada à pesquisa científica, inclui múltiplas dimensões do trabalho e indicadores detalhados de saúde; a versão média, destinada a profissionais de saúde ocupacional, mantém ampla cobertura, porém com um número reduzido de escalas para facilitar o uso em avaliações institucionais; e a versão curta, concebida para aplicação em ambientes de trabalho, que enfatiza a comunicação visual dos resultados e devolutivas compreensíveis. Entre as vantagens desta primeira versão, destacam-se a elevada abrangência conceitual e o pioneirismo na diferenciação dos tipos de demandas, embora algumas escalas tenham mostrado baixa aplicabilidade prática em contextos organizacionais12.
Em 2010, foi desenvolvida a versão II do COPSOQ, a partir de análises críticas sobre o uso do instrumento em diferentes países, avaliações psicométricas e da necessidade de atualização conceitual16. Esta versão introduz ajustes, como a exclusão de escalas pouco operacionais para avaliação organizacional, a reformulação das escalas de saúde para captar de forma mais precisa os efeitos psicossociais e a inclusão de novas dimensões voltadas a valores organizacionais, reconhecimento e conflito trabalho-família. Ao mesmo tempo, 57% dos itens foram preservados, garantindo comparabilidade histórica. As três versões (curta, média e longa) mantiveram funções semelhantes às da versão anterior, embora a versão média tenha sido reorganizada para facilitar diagnósticos institucionais. Entre suas vantagens estão a maior pertinência prática, reorganização de dimensões para uso institucional e redução de redundâncias, enquanto suas limitações incluem a variação de escalas conforme o contexto ocupacional, o que exige atenção à interpretação cultural16.
A versão mais recente, COPSOQ III, de 2019, resultou de um processo colaborativo internacional envolvendo pesquisadores e profissionais de diversos países, com o objetivo de atualizar o instrumento frente a novas transformações do trabalho, como precarização, conflitos entre vida profissional e pessoal, violência, incluindo cyberbullying17. O elemento central desta versão é o conceito de itens nucleares (core), que são obrigatórios e garantem comparabilidade internacional e longitudinal. Estes itens podem ser complementados por itens adicionais do tipo middle e long conforme o contexto local. Na versão curta, além dos itens nucleares, foi incluído um número limitado de itens adicionais, suficiente para fornecer informações complementares sem tornar a aplicação extensa. A versão média combina todos os itens nucleares com a maior quantidade possível de itens adicionais relevantes, equilibrando a cobertura de conteúdo e a praticidade para avaliação institucional. A versão longa incorpora todos os itens nucleares e todos os itens adicionais considerados importantes para o contexto nacional, oferecendo a máxima cobertura para pesquisas detalhadas sobre fatores psicossociais do trabalho17. Um exemplo de composição das versões para a dimensão demandas quantitativas seria: versão core (dois itens), versão middle (três itens) e versão long (quatro itens). Assim, a versão core possui duas questões para a avaliação das demandas quantitativas (“How often do you not have time to complete all your work tasks?” e “Do you get behind with your work?”), a versão middle adiciona uma questão (“Is your workload unevenly distributed so it piles up?”) e a versão long adiciona mais uma questão (“Do you have enough time for your work tasks?”)17.
A versão III também incorporou dimensões orientadas pela perspectiva de recursos positivos no trabalho, como engajamento e qualidade do trabalho, alinhando o instrumento aos debates contemporâneos da psicologia positiva, capital social e teoria do estresse como ofensa ao self (SOS - Stress-as-Offense-to-Self)17, os quais não fizeram parte das versões I e II.
É possível escolher qual versão do COPSOQ utilizar, mas é preciso ter em mente que elas não são equivalentes. As versões do COPSOQ representam três momentos históricos do desenvolvimento do instrumento, com mudanças que respondem à evolução teórica, às evidências psicométricas e às transformações do trabalho. O Quadro 2 identifica alguns elementos-chave de cada versão para nortear a escolha mais adequada.
A compreensão das diferentes versões do COPSOQ e de suas características, desde a estrutura das escalas, o número de itens e o foco de aplicação, até as vantagens e limitações específicas de cada versão, fornece uma base para a escolha do instrumento mais adequado a cada contexto. A escolha entre a versão longa, média ou curta depende do objetivo da avaliação: a versão longa é indicada para análises detalhadas e pesquisas aprofundadas, permitindo examinar todas as dimensões psicossociais; a versão média equilibra detalhamento e praticidade, sendo adequada para avaliações institucionais e monitoramentos periódicos; já a versão curta é útil para triagens rápidas, pesquisas de grande escala ou do tipo survey (pesquisa eletrônica ou online), quando o tempo de aplicação é limitado. Embora o quadro comparativo ofereça uma síntese visual útil para orientar decisões, é importante lembrar que a escolha da versão deve sempre considerar os objetivos da avaliação, bem como a aplicabilidade prática no ambiente de trabalho.
A seguir, passaremos a discutir o COPSOQ II-Br versão curta, a adaptação brasileira de uma das versões do instrumento, evidenciando sua aplicabilidade no contexto nacional e sua importância para a avaliação de fatores psicossociais do trabalho. Essa versão curta mostra-se particularmente relevante frente à atualização da NR-1 por permitir uma avaliação rápida, prática e confiável das condições de trabalho, contribuindo para a identificação de riscos e para a implementação de estratégias de prevenção e promoção da saúde no trabalho.
Cabe enfatizar que o uso do instrumento tem por finalidade identificar fatores psicossociais com necessidade de ações preventivas e corretivas mais urgentes. O uso do COPSOQ, ou de qualquer outro instrumento de avaliação de fatores psicossociais do trabalho, com finalidade apenas de cumprimento da norma, sem transformações reais na organização do trabalho e sem a implementação de ações efetivas para mitigação dos riscos, resultará em manutenção ou mesmo agravamento do quadro atual de adoecimento mental relacionado ao trabalho.
Versão brasileira do COPSOQ II-Br versão curta
O processo de tradução e adaptação cultural e as propriedades psicométricas do COPSOQ II-Br versão curta foram cuidadosamente avaliados para garantir a fidelidade conceitual ao instrumento original e sua aplicabilidade no contexto brasileiro. A adaptação seguiu cinco etapas principais: tradução para o português brasileiro por tradutores bilíngues, síntese das traduções com especialistas, retrotradução por tradutores nativos, avaliação por um comitê de especialistas e pré-testes com trabalhadores de diferentes níveis de escolaridade e setores produtivos, resultando na versão final composta por 23 dimensões e 40 questões6,7.
A avaliação psicométrica demonstrou validade estrutural adequada, com sete domínios que explicam aproximadamente 50% da variância total. A consistência interna foi satisfatória para a maioria das dimensões (alfa de Cronbach entre 0,70 e 0,87) e a confiabilidade teste-reteste apresentou ICC entre 0,71 e 0,81. Os efeitos teto e chão e os erros de medida (SEM e MDC) foram aceitáveis. A validade de constructo foi confirmada por meio de correlações significativas com demandas, controle, apoio social e sintomas musculoesqueléticos6,7.
A descrição detalhada do processo de validação do COPSOQ II-Br versão curta, bem como o questionário completo (p. 78-81), estão disponíveis na tese de doutorado intitulada “Os aspectos psicossociais no trabalho”6. Recentemente, a versão brasileira do COPSOQ II-Br foi reconhecida pela Rede Internacional de Pesquisa COPSOQ e está disponível em https://www.copsoq-network.org/validation-studies.
A adaptação transcultural do instrumento escandinavo para o contexto brasileiro seguiu rigorosamente as etapas recomendadas na literatura especializada. Embora existam diferenças marcantes entre a cultura escandinava, caracterizada por altos níveis de confiança e baixa distância de poder, e a brasileira, associada a maior distância de poder, menor confiança interpessoal e estruturas mais hierarquizadas, as principais dimensões psicossociais do trabalho mantiveram-se comparáveis entre os dois países no processo de validação.
No entanto, vale a pena destacar que a relevância das dimensões varia de acordo com o contexto sociocultural e organizacional, e isso deve ser considerado na priorização das ações, especialmente para aquelas consideradas como de risco elevado. Essas evidências indicam que o instrumento é robusto para uso em diferentes realidades e também reforçam a necessidade de análises contextualizadas para a interpretação dos resultados. Adicionalmente, destaca-se a COPSOQ International Network, rede criada para promover o uso e a disseminação do instrumento entre diferentes países, o que favorece análises comparativas em contextos culturais distintos.
O COPSOQ II-Br operacionaliza, na prática, o conceito de fatores psicossociais ao traduzir dimensões teóricas da organização e do conteúdo do trabalho em indicadores padronizados, mensuráveis e validados cientificamente. Nesse sentido, o COPSOQ II-Br subsidia a avaliação sistemática de fatores psicossociais relacionados à organização do trabalho, alinhando-se às etapas de identificação, avaliação e monitoramento de riscos previstas no GRO estabelecido pela NR-1. Dessa forma, seus resultados fornecem base técnica para a priorização de medidas preventivas e organizacionais, contribuindo para a gestão contínua dos riscos psicossociais.
No que se refere à aplicabilidade do instrumento, torna-se necessário aprofundar a análise crítica dos limites do COPSOQ II-Br, especialmente em sua versão curta, quando utilizado em diferentes contextos organizacionais. Apesar de sua validade psicométrica e de sua viabilidade operacional, a redução do número de itens pode comprometer a sensibilidade do instrumento para captar a complexidade, a variabilidade e a especificidade dos fatores psicossociais do trabalho, sobretudo em contextos produtivos heterogêneos. Além disso, a aplicação do COPSOQ II-Br versão curta é limitada quando se avaliam grupos pequenos, nos quais as restrições amostrais podem inviabilizar análises estatisticamente robustas e aumentar o risco de interpretações simplistas ou imprecisas. Ademais, em empresas de pequeno ou médio porte, há risco de identificação indireta dos respondentes. Nesse sentido, torna-se necessário adotar estratégias metodológicas para mitigar esse risco, como o agrupamento de dados e a divulgação de resultados apenas para grupos com tamanho mínimo, de modo a preservar o anonimato e a confidencialidade das informações.
A interpretação e a pontuação do instrumento apresentam certa complexidade técnica, o que requer atenção para evitar erros. Ainda, enquanto instrumento quantitativo, também se recomenda a complementação metodológica por meio de abordagens qualitativas, como grupos focais, que possibilitam aprofundar a compreensão dos processos organizacionais, das relações de trabalho e das experiências dos trabalhadores, colocando o trabalhador no centro do processo de avaliação.
Assim, o COPSOQ II-Br versão curta apresenta-se como um instrumento quantitativo de avaliação pelo autorrelato do trabalhador no âmbito do gerenciamento de riscos psicossociais no trabalho, que deve ser contextualizado e articulado a estratégias metodológicas integradas, de modo a assegurar análises críticas para o cumprimento efetivo da NR-1.
Orientações para análise e interpretação dos dados
O COPSOQ II-Br é composto por 40 questões, estruturadas em 23 dimensões, avaliadas por meio de uma escala de resposta do tipo Likert de 5 pontos6. As possíveis respostas às questões do COPSOQ II-Br seguem as opções e interpretações apresentadas no Quadro 3. Ao final das questões, é possível descrever mais informações sobre as condições de trabalho, estresse, saúde, entre outros.
A interpretação da pontuação é determinada pela soma dos itens individuais de cada dimensão21, conforme apresentado na Tabela 1e.
Os resultados dos fatores psicossociais do trabalho, com exceção dos comportamentos ofensivos, podem ser classificados em: seguro (quando o resultado indica uma situação favorável para a saúde na dimensão avaliada); atenção (esta categoria intermediária significa que a dimensão psicossocial referida não é boa – adequada, nem má – de risco, mas requer atenção); ou risco (situação desfavorável com risco para a saúde). Os comportamentos ofensivos não são classificados, pois configuram situações inaceitáveis no ambiente de trabalho. Nesses casos, a organização deve oferecer suporte à vítima e acesso a canais seguros de denúncia22,23, além de implementar medidas para prevenir, impedir e punir esses comportamentos.
A classificação em cores assume uma interpretação em semáforo, de modo que um resultado “seguro” é ilustrado na cor verde, “atenção” na cor amarela e “risco” na cor vermelha, com exceção da dimensão satisfação no trabalho, cujo resultado pode ser classificado apenas em seguro ou risco. A apresentação do resultado de cada dimensão pode ser realizada por meio de um gráfico de barras empilhadas, facilitando a visualização das dimensões críticas, a partir de uma distribuição percentual dos trabalhadores do departamento ou setor avaliado em cada categoria de classificação (verde, amarelo e vermelho), conforme adaptado de Sato et al.24 e demonstrado na Figura 1.
Exemplo de gráfico de barras empilhadas para a interpretação de semáforo dos resultados do COPSOQ II-Br
Outra possibilidade para a interpretação dos resultados do COPSOQ II-Br se dá pelo cálculo da média dos itens de cada dimensão. A média da população avaliada pode ser comparada com os valores normativos para a população do país25. Entretanto, cabe ressaltar que, até a data de aprovação deste ensaio, não havia dados médios normativos disponíveis para a população brasileira para fins de comparação.
A aplicação do COPSOQ II-Br deve seguir rigorosamente os princípios éticos: a participação é anônima e os resultados são analisados coletivamente. A participação dos trabalhadores na discussão dos resultados é essencial para a adoção de medidas de eliminação ou mitigação dos riscos psicossociais identificados, assim como o compromisso da gestão, líderes e supervisores no gerenciamento desses riscos21. Cabe, entretanto, ponderar que a participação dos trabalhadores em contextos organizacionais degradados é limitada. Em ambientes marcados por assédio e outras formas de violência, os trabalhadores tendem a não se sentir seguros para participar e expressar, de forma fidedigna, a realidade de suas condições de trabalho. Nessas situações, a qualidade e a validade das informações coletadas dependem da existência de condições mínimas de confiança, proteção ao anonimato e ausência de retaliação.
Uso do COPSOQ II-Br em populações do Brasil
O COPSOQ II-Br foi utilizado em diferentes contextos e populações, destacando-se os projetos IMPACC (Implicações da pandemia de Covid-19 nos aspectos psicossociais e na capacidade laboral de trabalhadores brasileiros)f e HEROES (HEalth conditions of healthcaRe wOrkErS)g.
Andrade et al.26 avaliaram 1.211 trabalhadores de setores variados, como educação, saúde, indústria, tecnologia da informação, comércio e serviços não essenciais, entre outros. Os aspectos mais afetados foram sintomas de estresse, sintomas de burnout, conflito trabalho-família, demandas emocionais e ritmo de trabalho, indicando que os trabalhadores foram negativamente impactados pela pandemia nessas dimensões.
Outro estudo da mesma coorte buscou comparar os trabalhadores em regime de trabalho remoto e presencial, evidenciando resultados desfavoráveis em ambos os grupos27. Na primeira onda da pandemia (2020), os trabalhadores remotos relataram mais demandas quantitativas e conflitos entre trabalho e família, enquanto os trabalhadores presenciais relataram mais demandas emocionais, baixo desenvolvimento de novas habilidades, baixo comprometimento, baixa previsibilidade, baixo reconhecimento, baixa satisfação, maior ocorrência de atenção sexual indesejada, ameaças de violência e violência física. Na segunda onda (2021), o grupo remoto continuou a relatar altos níveis de conflitos entre trabalho e família, enquanto o grupo presencial relatou, além dos resultados da primeira onda, baixa influência no trabalho, baixa qualidade da liderança e sintomas de burnout27.
Sato et al.24 analisaram a coorte HEROES, composta por 125 profissionais da saúde do SUS, comparando os fatores psicossociais, sintomas musculoesqueléticos e qualidade do sono. A maioria dos profissionais vivenciou fatores psicossociais desfavoráveis, estando exposta a condições de altas demandas emocionais no trabalho, baixa previsibilidade, ritmo de trabalho excessivo, sintomas de estresse, sintomas de burnout e conflito trabalho-família. O domínio de comportamentos ofensivos também chamou atenção, uma vez que os participantes relataram frequências bastante preocupantes para atenção sexual indesejada (15%), ameaças de violência (26%), violência física (9%) e bullying (17%).
Rohwedder et al.28 verificaram que sintomas de burnout e previsibilidade no trabalho apresentaram correlação moderada com a qualidade do sono, destacando a necessidade de minimizar o estresse e promover estratégias para mitigar os fatores desfavoráveis, com o objetivo de reduzir o sofrimento mental dos profissionais de saúde.
Um estudo realizado antes do contexto de pandemia encontrou associação entre fatores psicossociais e dores multirregionais em uma amostra composta por 195 trabalhadores de diversas áreas, como professores, técnicos administrativos, profissionais de saúde, pessoal de limpeza e tratadores de animais. Houve associação direta entre demandas no trabalho, conflito trabalho-família, sintomas de burnout e estresse com a dor multirregional, além de associação inversa com significado e compromisso, previsibilidade, satisfação no trabalho, justiça e percepção geral da saúde29.
Cabe ressaltar que, apesar de os estudos não terem avançado em intervenções para transformar os fatores de risco psicossocial no trabalho, uma vez que estas dependem do interesse e da disponibilidade institucionais, eles apontam caminhos para gestores e tomadores de decisão fazê-lo. Nesse sentido, o COPSOQ II-Br subsidia o diagnóstico situacional ao permitir identificar aspectos mais críticos, ou seja, aqueles em que há maior risco ao trabalhador, os quais devem receber atenção e intervenção imediata, assessorando profissionais de saúde e segurança no trabalho e gestores na priorização das ações.
Considerações finais
Este ensaio apresentou a fundamentação conceitual e os principais aspectos operacionais para a utilização e interpretação do COPSOQ II-Br, evidenciando seu potencial. O COPSOQ II-Br é indicado para o diagnóstico organizacional, subsidiando ações de vigilância, planejamento e intervenção em ambientes de trabalho.
Entretanto, seu uso requer atenção a algumas limitações. Trata-se de um instrumento baseado em autorrelato, ou seja, depende diretamente da percepção, disposição e condições do respondente. Nesse processo, múltiplos fatores podem influenciar e até distorcer as respostas, especialmente em contextos organizacionais marcados por relações tensas entre gestão e trabalhadores, baixos níveis de confiança ou histórico de práticas autoritárias e violações de direitos. Além disso, questões como dificuldades de compreensão, falta de tempo ou baixo engajamento também podem comprometer a qualidade das respostas. Somado a isso, os achados devem ser analisados de acordo com o contexto organizacional específico, não sendo recomendada sua utilização isolada ou descontextualizada de outras informações qualitativas e institucionais.
Assim, o COPSOQ II-Br pode ser utilizado como ferramenta de apoio à tomada de decisão, sendo esta necessariamente compartilhada com os demais trabalhadores, com foco em construir um ambiente de trabalho seguro e contribuindo para processos contínuos de avaliação e intervenção voltados à promoção de ambientes de trabalho mais saudáveis e sustentáveis.
Referências
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» https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/noticias-e-conteudo/2024/Setembro/governo-federal-atualiza-nr-01-para-incluir-riscos-psicossociais-e-reconstitui-comissao-do-benzeno -
2 Ministério do Trabalho e Emprego (BR). Norma Regulamentadora No. 1 (NR-1). Brasília: Ministério do Trabalho e Emprego; 2024 [citado 18 dez 2025]. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselhos-e-orgaos-colegiados/comissao-tripartite-partitaria-permanente/normas-regulamentadora/normas-regulamentadoras-vigentes/nr-1
» https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselhos-e-orgaos-colegiados/comissao-tripartite-partitaria-permanente/normas-regulamentadora/normas-regulamentadoras-vigentes/nr-1 -
3 Ministério do Trabalho e Emprego (BR). Inclusão de fatores de risco psicossociais no GRO começa em caráter educativo a partir de maio [Internet]. Brasília (DF): Ministério do Trabalho e Emprego; 2025 abr [citado 18 dez 2025]. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/noticias-e-conteudo/2025/abril/inclusao-de-fatores-de-risco-psicossociais-no-gro-comeca-em-carater-educativo-a-partir-de-maio
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29 Faria BSF, Gonçalves JS, Sato TO. Association between psychosocial factors in workers and multisite pain: cross-sectional study. Braz J Pain. 2022;5(1):2-7. https://doi.org/10.5935/2595-0118.20220002
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d
Diferentes versões do COPSOQ podem ser consultadas no site: https://www.copsoq-network.org/validation-studies.
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e
Caso deseje receber um modelo de planilha de dados entre em contato com: lafipe@ufscar.br
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f
Processo FAPESP nº 2020/16183-0.
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g
Processo FAPESP nº 2020/10098-1.
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Disponibilidade dos dados:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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Declaração sobre uso de Inteligência Artificial:
Durante a elaboração do artigo, foi utilizada a ferramenta de inteligência artificial ChatGPT modelo GPT-5.3, versão de agosto de 2025, com o objetivo de revisão de linguagem e tradução do abstract. As autoras declaram que revisaram e validaram todo o conteúdo gerado com o auxílio de ferramenta de inteligência artificial.
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Apresentação do estudo em evento científico:
As autoras informam que o estudo não foi apresentado em evento científico.
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Financiamento:
Triches MI recebeu apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES Código de Financiamento 001 - bolsa de doutorado). Lemes LC recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP Proc N. 2025/15115-5 - bolsa de doutorado direto).
Editado por
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Editores responsáveis:
Andréia de Conto Garbin https://orcid.org/0000-0003-2787-7470 Universidade de São Paulo – USPRaoni Rocha Simões https://orcid.org/0000-0003-1181-0132 Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.


Fonte: adaptado de Sato et al.