Open-access Trabalhadoras da saúde na pandemia de Covid-19: invisibilidade, sobrecarga e dilemas éticos

Resumo

Introdução  A pandemia da Covid-19 contribuiu para tornar inequívoca a relação entre saúde, modo de produção e de organização social. No Brasil, a força de trabalho em saúde é predominantemente feminina e invisibilizada.

Objetivos  Analisar as condições de trabalho enfrentadas por trabalhadoras da saúde na linha de frente do combate à Covid-19 e identificar os aspectos psicossociais vivenciados durante o período pandêmico.

Métodos  Pesquisa qualitativa por meio de entrevistas semiestruturadas. Foram elaboradas categorias de análise e os temas emergentes agrupados.

Resultados  As trabalhadoras da saúde descreveram que a precarização do trabalho na saúde já existente foi agravada; foram criadas estratégias individuais para proteger a si e aos familiares, com limitações para o próprio cuidado. Continuaram responsáveis pelas tarefas domésticas e ampliaram o cuidado aos familiares, parentes e vizinhos. Vivenciaram esgotamento profissional, estigma por serem profissionais da linha de frente, conflitos éticos, atividades impedidas e as mortes recorrentes. Paradoxalmente, as situações de proteção derivaram do forte vínculo ético e emocional das trabalhadoras com o cuidado.

Conclusão  Foi evidenciada a intensificação do trabalho, com sobreposição de responsabilidades domésticas e profissionais maior sobre as mulheres, sem suporte social e condições dignas de trabalho, como aspectos geradores de sofrimento psicossocial relacionado ao trabalho.

Palavras-chave:
Trabalhadores da Linha de Frente; Profissionais da Saúde; Trabalhadoras; Covid-19; Fatores Psicossociais; Saúde do Trabalhador; Dilemas Éticos

Abstract

Introduction  The COVID-19 pandemic has made the relationship between health, modes of production, and social organization unequivocally evident. In Brazil, the healthcare workforce is predominantly female and often overlooked.

Objectives  To analyze the working conditions faced by women health workers on the front lines of the fight against COVID-19 and to identify the psychosocial aspects they experienced during the pandemic.

Methods  Qualitative research using semi-structured interviews. Categories of analysis were developed, and emerging themes were grouped.

Results  Health workers described how the pre-existing precarious nature of healthcare work was exacerbated; they devised individual strategies to protect themselves and their families, with limitations on their own self-care. They remained responsible for domestic tasks and expanded care for family members, relatives, and neighbors. They experienced professional burnout, stigma for being frontline professionals, ethical conflicts, restricted activities, and recurring deaths. Paradoxically, protective measures stemmed from the workers’ strong ethical and emotional bond with caregiving.

Conclusion  An intensification of work was evident, with a greater overlap of domestic and professional responsibilities falling on women, without social support and decent working conditions, as factors generating work-related psychosocial distress.

Keywords:
Frontline Workers; Health Personnel; Women, Working; COVID-19; Psychology; Occupational Health; Ethical Dilemmas

Introdução

O primeiro caso de Covid-19 foi diagnosticado no Brasil em fevereiro de 2020 e a primeira vítima foi uma trabalhadora doméstica de 57 anos1. À época, o país já enfrentava uma crise sistêmica crônica agravada pelos efeitos das políticas de ajuste de orientação ultraliberal2. O Sistema Único de Saúde (SUS) sofria com escassez de recursos em todos os níveis de atenção. Nesse cenário, problemas crônicos foram exacerbados e os novos desafios surgiram, em meio a um contexto político difícil3.

Com o avançar da pandemia, além da escalada do número de casos e de mortes, somavam-se as incertezas próprias de uma crise sanitária inédita. Nesse contexto, os profissionais de saúde brasileiros, atuando na linha de frente4 ou em serviços de apoio, foram impactados por adoecimento, estresse e desafiados a lidar com uma situação inédita3. Passaram a conviver com ansiedade, insônia, irritabilidade, labilidade emocional e episódios de choro. Muitos sofreram sintomas pós-Covid5, condição frequentemente incompreendida, gerando sentimentos persistentes de solidão e injustiça.

A pandemia contribuiu para tornar inequívoca a relação entre saúde, o modo de produção e a organização social. Como outras doenças infectocontagiosas, as formas de adoecimento e a gravidade revelam forte vínculo com as condições de vida e saúde prévias, nas quais o trabalho é determinante. A força de trabalho em saúde no Brasil é majoritariamente composta por mulheres e inclui profissionais de áreas tradicionalmente reconhecidas, como enfermagem, medicina e odontologia, como também trabalhadoras que atuam em funções muitas vezes invisibilizadas, como limpeza, cozinha, administração, condução de ambulâncias e serviços funerários2. A importância dessas trabalhadoras que conviveram com condições de trabalho precárias, desigualdades, ambiente hierarquizado e hostil, além de baixos salários, subcontratações, mais de um emprego e plantões em diferentes unidades, se tornou mais evidente durante a pandemia. A pandemia de Covid-19 evidenciou a necessidade de pensar o trabalho de cuidado desempenhado na área da saúde6.

Estudos7,8 apontam que as questões de gênero têm recebido atenção insuficiente, o que resulta em impactos negativos sobre as trabalhadoras. Destacam importantes lacunas nas investigações sobre a força de trabalho em saúde em crises anteriores à Covid-19, bem como sobre profissionais de saúde em países de baixa e média renda durante crises.

Além disso, evidencia-se a sobrecarga feminina decorrente das relações de dominação de gênero e do assujeitamento das mulheres no contexto capitalista9, somada a outras formas de opressão cotidianas associadas às desigualdades de gênero, classe e raça. Destaca-se, por exemplo, que a enfermagem é uma categoria majoritariamente composta por mulheres negras10, que frequentemente ocupam posições precarizadas, com menores salários e menor reconhecimento social. Esse cenário revela como o racismo estrutural e a divisão sexual do trabalho se articulam e se sobrepõem.

A pandemia da Covid-19 e suas repercussões para as trabalhadoras da saúde ainda exigem estudos, dada a permanência de problemas e de transformações sociais, tecnológicas e institucionais. Pesquisas realizadas em contexto emergencial evidenciaram a necessidade de investigações de longo prazo e de análise de impactos estruturais. Em particular, os efeitos psicológicos ainda estão em processo de constatação, mesmo anos após o período pandêmico.

Esta pesquisa teve como objetivo analisar as condições de trabalho vivenciadas por trabalhadoras da saúde atuantes na linha de frente do enfrentamento à Covid-19 e identificar os aspectos psicossociais vivenciados no período pandêmico.

Métodos

Desenho do estudo

Este estudo qualitativo integrou o projeto “Covid-19 como uma doença relacionada ao trabalho”, que envolveu pessoas que trabalharam durante a pandemia fora do domicílio ou em suas casas. Participaram trabalhadores de diversas categorias. Neste artigo, analisaram-se as entrevistas com trabalhadoras da saúde, com foco nas vivências do trabalho produtivo e reprodutivo.

Orientação metodológica

O conteúdo foi analisado sob a orientação hermenêutica dialética11.

Equipe de pesquisa

Envolveu um grupo multiprofissional e interinstitucional de pesquisadores, coordenados pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. As entrevistas foram realizadas por três psicólogas que atuavam no SUS e/ou na docência universitária, com formação e experiências no campo da saúde do trabalhador.

Seleção dos participantes

As participantes da pesquisa foram trabalhadoras da saúde que estiveram na linha de frente do atendimento aos usuários durante a pandemia. A pesquisa foi amplamente divulgada pelos parceiros institucionais, sindicatos de trabalhadores, Ministério Público do Trabalho e secretarias municipais de saúde, por boletins eletrônicos, notícias no site, grupos de WhatsApp. Estes parceiros indicaram trabalhadores interessados e a cada entrevista foi solicitada a recomendação de novos contatos, utilizando a metodologia da bola de neve.

Método de abordagem

Os contatos foram realizados primeiramente por WhatsApp. As pesquisadoras informaram o objetivo e quem havia indicado a participante. O presente estudo utilizou 15 entrevistas do projeto maior, não foi contabilizada não participação.

Contexto da coleta

As entrevistas ocorreram virtualmente, no período de setembro de 2021 a abril de 2022, pelos aplicativos Google Meet e WhatsApp e chamadas telefônicas. Não houve a presença de não participantes durante as entrevistas.

Descrição da amostra

Foram incluídas agentes comunitárias de saúde (quatro), auxiliares (duas) e técnicas (uma) de enfermagem, psicólogas (duas), assistente social (duas), farmacêutica, nutricionista, médica e fisioterapeuta. As participantes tinham idades entre 31 e 52 anos (média: 40 anos). Nove se declararam brancas, cinco pardas e uma preta. Nove estavam casadas, três solteiras, uma divorciada e duas não informaram.

Entrevistas

As entrevistas foram semiestruturadas, a partir de um roteiro dividido em três blocos temáticos, totalizando 28 questões, que abordavam condições de vida e de trabalho na pandemia da Covid-19 e questões de saúde. As entrevistas, com duração de cerca de uma hora e meia, foram gravadas em gravadores de celulares ou notebooks e posteriormente transcritas utilizando recurso do Windows 365 (ditar-transcrever). As entrevistadas foram identificadas neste texto como E (entrevistada) e o número da entrevista. Não houve repetição de entrevistas. Notas de campo foram feitas durante as entrevistas.

Saturação de dados

Todos os profissionais que aceitaram convite foram entrevistados. A inclusão foi encerrada por saturação, quando foi identificada a semelhança dos conteúdos e não foram reconhecidos dados adicionais.

Análise de dados

A análise do material coletado se deu em três etapas, conforme Minayo11. Após a transcrição das entrevistas, o material foi lido exaustiva e sistematicamente com o objetivo de identificar temas comuns e elaborar categorias de análise que permitiram o agrupamento dos temas emergentes. Na etapa interpretativa, a produção discursiva das entrevistadas foi relacionada à literatura científica. O conteúdo foi analisado sob os referenciais da saúde do trabalhador e da psicologia social do trabalho.

Três autoras codificaram os dados, sem utilizar software. Os temas foram derivados da análise, porém relacionados ao roteiro da entrevista. As participantes receberam o relatório da pesquisa e algumas se manifestaram valorizando o conteúdo da pesquisa.

Considerações éticas

O projeto da pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” sob o parecer no 4.290.745, de 31 setembro de 2020. Todas as participantes acessaram termo de consentimento livre e esclarecido e forneceram consentimento verbal.

Resultados e discussão

As 15 participantes atuavam em serviços da rede de saúde pública, nas áreas de atenção básica, urgência/emergência e hospitalar, localizados principalmente na Região Metropolitana de São Paulo, particularmente afetada pela pandemia de Covid-19.

O perfil das entrevistadas acompanha os dados gerais dos(as) trabalhadores(as) da saúde apresentados por Machado et al.12. Trata-se de um grupo composto, majoritariamente, por mulheres, com idade média superior a 40 anos, predominantemente, de cor branca, seguida de indivíduos de cor parda e preta, embora a baixa qualidade das informações sobre raça/cor comprometa a compreensão mais precisa da participação da população negra nesse contexto13.

Foram estabelecidas duas categorias para orientar a análise dos conteúdos: uma englobando as condições de trabalho, as tarefas domésticas e de cuidado no cotidiano da crise, e a outra, voltada para as vulnerabilidades e os impactos psicossociais decorrentes da pandemia.

Entre crises e cotidianos: a amplificação de problemas crônicos no trabalho

Nesta categoria, evidenciaram-se condições de trabalho em diferentes dimensões, incluindo os processos, o ambiente e a organização do trabalho. As trabalhadoras relataram situações como terceirização, escassez de profissionais, demissões, ampliação das jornadas e intensificação das atividades.

A reorganização do trabalho na Atenção Básica também foi destacada pelas profissionais, com impactos sobre a continuidade das ações. Foram suspensas as reuniões das equipes multiprofissionais, o contato com parceiros de outros serviços, os grupos educativos e as visitas domiciliares. Relataram ainda que, além do risco de contaminação, a atuação no território foi prejudicada pela falta de recursos, como a indisponibilidade de veículos.

Foram desenvolvidas diversas estratégias para manter o contato durante o distanciamento físico. Nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), criaram-se mecanismos como a coleta de bilhetes deixados pelos usuários e a gravação de vídeos e podcasts para informar a população. Ações on-line foram dificultadas nas periferias e/ou áreas de morro, onde o sinal da internet era fraco ou ausente. Havia dificuldade para agendar atendimentos psicológicos on-line devido às limitações da internet e à falta de privacidade do usuário para receber atendimento remoto em casa.

A reestruturação da Atenção Primária da Saúde, que envolveu a extinção de diversas equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF), redundou no aprofundamento dos cortes no financiamento e da precarização das condições de trabalho14 e agravou a vulnerabilidade da população de baixa renda diante da pandemia15. As desigualdades interseccionam-se e a pandemia mostrou as sequelas nefastas do setor saúde cronicamente negligenciado na nossa sociedade.

Outro aspecto amplamente abordado foi a insuficiência dos Equipamentos de Proteção Pessoal (EPP) que marcou a experiência das trabalhadoras. Os relatos exemplificam pontos críticos para o alto risco de infecção por SARS-CoV-2, por exemplo, a pediatra, que trabalhava em UBS em dois municípios, viveu esta falta nos dois locais de trabalho.

No estudo de Albuquerque, Souza, Montarroyos16, a escassez de itens de EPP foi referida por, aproximadamente, metade dos profissionais de saúde. A despeito de medidas de prevenção e controle das infecções terem sido amplamente divulgadas, o contexto de informações contraditórias alimentado pelo governo federal contribuiu para aumentar a complexidade da situação sanitária17.

Almeida18 destaca que o controle da pandemia exige planejamento e gestão voltados à organização do trabalho e à segurança coletiva. Nesse contexto, os EPP são fundamentais como barreiras físicas para garantir condições seguras, sendo inaceitáveis improvisações ou flexibilizações19, porém, as remediações foram constantes, como se verifica:

Chegou a uma situação que teve contagem de luvas, entra, faz tudo e depois sai, porque não tinha para trocar. Cheguei a trabalhar com avental cirúrgico e pendurar, usavam o mesmo avental, quando usava somente um avental descartável (E16, 32 anos, auxiliar de enfermagem).

Devido às condições estruturais de alguns ambientes de trabalho, como a quantidade de janelas, o tamanho dos cômodos e os fluxos das atividades, somadas ao comportamento das pessoas, tornou-se muito difícil cumprir as normas sanitárias. Em muitas unidades, a testagem passou a ser feita nas áreas externas. Houve relato de encerramento de contrato com a empresa terceirizada de limpeza em plena pandemia, resultando na falta de sabão, produtos de higienização e papel. Além disso, não houve qualquer orientação sobre a organização das refeições: sem pausas definidas, as equipes só conseguiam almoçar quando surgia algum intervalo, o que muitas vezes ocorria às 15 h, 16 h ou 17 h.

Disputas políticas e narrativas imprecisas prejudicaram a resposta nacional e retardaram as respostas preventivas oportunas em todos os níveis. Albuquerque, Souza e Montarroyos16 pontuam que o governo federal, desde o início da pandemia, manifestou-se minimizando as recomendações para o controle quanto ao distanciamento social e medidas de proteção individual. Diretrizes insuficientes e sem amparo nos estudos científicos repercutiram nos serviços do SUS, nos diferentes níveis, gerando uma gestão da emergência de saúde pública que acentuou a precariedade das condições de trabalho, afetando mais os trabalhadores invisíveis, como denominados por Machado et al.12, que cumpriram ordens de forma silenciosa e invisibilizados pela gestão, por suas chefias, pela equipe de saúde em geral e até pela população.

A carga de trabalho na pandemia aumentou sob diversos aspectos: horas trabalhadas, tipo de intervenção, demandas emocionais, afastamentos/adoecimentos dos colegas, insegurança relativa aos protocolos, escassez de recursos em alguns momentos e a invasão na vida privada. As trabalhadoras, em suas diferentes funções, expressaram a intensificação e a complexificação das cargas de trabalho evidenciando contradições entre as exigências institucionais ampliadas e as condições de trabalho insuficientes.

Os relatos revelam a intensificação da demanda e a sobrecarga de trabalho, acompanhadas do aumento das exigências emocionais no cotidiano laboral. Uma assistente social que atuava em um hospital de campanha com outras cinco profissionais referiu que não davam conta de atender 60 a 70 famílias que buscavam informações em uma manhã. “Não conseguia tomar café, fazer xixi, não almoçava”.

Adicionalmente, foram referidas a insegurança em relação aos protocolos e à escassez de recursos. A fisioterapeuta da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) relatou que a carga de trabalho aumentou, pois os pacientes graves demandavam atenção intensa: era necessário verificar exames diversas vezes ao dia, lidar com episódios de vômito e diarreia, acompanhar variações na aceitação da dieta e responder à constante instabilidade clínica, o que exigia reformulações frequentes das prescrições. A redução da equipe, causada por afastamentos devido ao contágio ou por comorbidades, agravou ainda mais a situação. Em determinado momento, a profissional chegou a atender até 19 pacientes em estado crítico, sendo dez o número indicado pelo conselho profissional. Condições semelhantes foram identificadas por Jeleff et al.20 nas UTI, nas quais a falta de preparação e a emissão tardia de diretrizes de prevenção e controle de infecções, somadas ao excesso de trabalho, à escassez de EPP e à insuficiência de profissionais, desencadearam tensões físicas e mentais, além de um estado permanente de alerta para lidar com incertezas e com a gravidade dos pacientes.

Outro elemento foi a ampliação do uso de tecnologias digitais no trabalho. Uma assistente social atribuiu a intensificação no ritmo de trabalho às demandas que chegavam pelo celular. No final de 2021, ela colocou a seguinte mensagem, escrita em letras maiúsculas no seu perfil: “não estou trabalhando, por favor, respeitem”. Ressalta-se, neste contexto, o incremento da dupla jornada laboral por meio de dois empregos, plantões, nos quais enfrentaram as mesmas condições precarizadas de trabalho.

Somado ao contexto de trabalho intenso, angustiante e ameaçador, a maioria das participantes residia com familiares, o que implicou distanciamento para evitar a contaminação, sendo que os rearranjos foram vivenciados com sofrimento e preocupação. Tornaram-se visíveis experiências antes silenciadas.

Essas mulheres continuaram responsáveis pelas tarefas domésticas e pelo cuidado dos filhos, idosos e pessoas com deficiências. O peso das tarefas cotidianas aumentou devido às restrições de circulação e ao fechamento de escolas e creches. Uma agente comunitária referiu que precisou ser professora de três filhos em séries diferentes. Várias profissionais referiram o cuidado dos pais com idade em torno de 80 anos que apresentavam algum comprometimento de saúde.

As marcas da divisão sexual do trabalho21 revelam que determinadas atividades ligadas ao cuidado, educação, saúde e atividades domésticas são socialmente atribuídas às mulheres. Também se expressam pela transferência das atividades domésticas e de cuidado para outros grupos sociais. Foram mencionadas situações em que as trabalhadoras contaram com o apoio de outra mulher na realização dessas tarefas, como trabalhadoras domésticas ou familiares, mãe, sogra, tia. Nos relatos, as mães foram frequentemente citadas como apoio nas demandas do trabalho de cuidado. Por exemplo, a farmacêutica relatou que engravidou no início da pandemia, ficou em trabalho remoto e contou com a presença da mãe. Uma médica também pode contar com a mãe e permanecer hospedada em um hotel para preservar os familiares. Nos casos das trabalhadoras em posições mais bem remuneradas, o apoio familiar foi citado juntamente com outras condições, como a compra de comida e mais tecnologias disponíveis para o trabalho doméstico. Esse fenômeno pode ser compreendido à luz do modelo de delegação, formulado por Hirata e Kergoat21, no qual se observa uma transferência dessas atividades entre mulheres. Essa dinâmica revela que a divisão sexual do trabalho se articula com outras desigualdades estruturais na organização do trabalho e da vida social.

Somaram-se às rotinas domésticas os protocolos de higienização de compras, utensílios, ambientes e do próprio corpo. Uma auxiliar de enfermagem declarou: “fiquei neurótica com a paramentação, a doida da limpeza”. Outras referiram a adoção de cuidados rigorosos, como retirar os sapatos ao chegar em casa, tomar banho imediatamente e lavar roupas separadamente. Outro aspecto vivenciado foram as restrições para o cuidado de si em situações de contaminação pelo SARS-CoV-2 ou outras doenças. As trabalhadoras tiveram dificuldades para manter o isolamento, em função das tarefas e responsabilidades domésticas. Uma técnica de enfermagem, que trabalhava no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e em um hospital, era a única mulher na casa, “tinha que cuidar de todos, fazer comida, lavar, passar”. Mesmo tendo contraído o vírus e ficado afastada do trabalho, realizava todas as atividades convivendo com os sintomas da doença. Ao retornar ao trabalho, disse “ninguém pergunta nada sobre como a gente está”.

Portanto, o processo social hierarquiza atividades produtivas e reprodutivas entre homens e mulheres, atribuindo-lhes papéis desiguais no trabalho, promovendo a invisibilização do trabalho feminino e processos de adoecimento associados a esse contexto, sem validação das dores vivenciadas nesse processo.

A invisibilidade do trabalho na área da saúde, especialmente nas atividades de cuidado, corresponde à forma como essas práticas são socialmente construídas e valorizadas. Adicionalmente, verifica-se uma hierarquização interna no campo da saúde que contribui para essa invisibilidade. Profissões mais valorizadas, associadas ao saber biomédico, recebem maior reconhecimento social e institucional, enquanto outras ocupações fundamentais ao cuidado cotidiano recebem menor visibilidade, prestígio e remuneração.

Os resultados próximos reforçam os achados de outros estudos e evidenciam as consequências nefastas da pandemia no cotidiano das trabalhadoras da saúde22. Da mesma forma, revelam a dimensão invisibilizada e desvalorizada do cuidado naturalizado como feminino e não remunerado23. Na pandemia, a permanente atenção e tensão em relação ao cuidado dos outros foi ampliada para pessoas independentes, vizinhos, parentes e usuários, como relatado pelas agentes comunitárias de saúde. Também houve o aumento das demandas e do ritmo dos afazeres domésticos, incluindo a manutenção da renda. Os dados confirmam que a distribuição das tarefas continua desigual no ambiente doméstico, sendo estes considerados essenciais para a sustentabilidade da vida24,25.

Uma entrevistada, agente comunitária de saúde, fazia parte do sindicato como representante da unidade de saúde, participava da reunião mensal apresentando as demandas da unidade. Contou que “o grupo do sindicato são umas três [mulheres] que a gente joga tudo aí no grupo e a gente se fala. Os gerentes adoram mudar as regras e acham que a gente não fica sabendo, mas tem a rádio peão”. Neste contexto, devido às restrições impostas, os sindicalistas tiveram que se familiarizar melhor com as tecnologias digitais.

Vulnerabilidades potencializadas: impactos psicossociais da pandemia

Os impactos psicossociais da pandemia assumiram várias formas, com dimensões e consequências diversas. Os cuidados em saúde mental foram subestimados para a população e os profissionais de saúde diretamente afetados pela pandemia, em um contexto permeado por medos e inseguranças. As trabalhadoras vivenciaram desamparo estatal, sem preparo ou treinamento adequados.

A nutricionista da UTI descreveu enorme sensação de desamparo e solidão. Chegava em casa e assistia lives com profissionais renomados, para se preparar melhor diante dos desafios. Relatou que, sem suporte ou orientação, o sentimento era de total falta de acolhimento pela instituição. Citou o caso de uma colega nutricionista que contraiu pneumonia e, quando a equipe tomou conhecimento, houve grande preocupação, pela amizade e pelo risco de perdê-la, pois já era idosa. No entanto, a primeira reação da chefe foi: “vou riscar o nome dela da escala. Quem vai ficar no lugar?”. Situações como essa a fizeram sentir-se apenas um número. Ela relatou ainda que sofreu cinco infecções urinárias, pois passou a evitar beber água, para não precisar ir ao banheiro, como forma de economizar os escassos EPP. A pressão revelou a gestão do trabalho que, por vezes, relegou processos de humanização para segundo plano.

As gestões, muitas vezes, ignoraram demandas físicas, emocionais, cognitivas, organizacionais, sociais e ambientais. A fisioterapeuta da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) relatou como grande dificuldade a falta de condições adequadas de trabalho porque a unidade não deveria ser um lugar de internação, mas passou a ser, improvisadamente. Disse: “imagina você entrar na sala e ver tudo lotado! Vinte pessoas olhando para você e com olhos de ‘me ajuda! Mexeu muito com o meu psicológico... teve dia de terem cinco paradas, morrerem cinco pessoas num plantão!’” Ela relatou que, ao se deitar, o barulho dos ventiladores dos pacientes de UTI apitando vinha à sua mente. Teve uma dermatite persistente que perturba o sono. Considera que faltou uma pessoa para conversar; sair para respirar um pouco, tomar água, fazer ginástica laboral, algo para tirar a tensão. Relata que ficavam muito presos no hospital e não sabiam se estava chovendo, se estava frio. A falta de apoio também foi destacada pela pediatra de UBS que presenciou um momento de pavor vivenciado pela psicóloga que se trancou na sala e não conseguia sair. Referiu que houve muita tensão e, em nenhum momento, foi oferecido algum tipo de apoio por parte da gestão. Esses modelos minimizaram e desconsideraram as necessidades de modo global.

A falta de reconhecimento no trabalho somou-se ao estigma de ser profissional da linha de frente4. A fisioterapeuta referiu exclusão nas festas familiares e uma das técnicas de enfermagem chegou a ser recebida na garagem da casa da mãe que “brincou com a garrafa de álcool, começou a borrifar e eu comecei a chorar; ela se desculpou”. O cenário revelou preconceitos, discriminações, humilhações e outras formas de violência26. As profissionais passaram a ser evitadas, excluídas de convites sociais, sendo tratadas com medo e suspeita, além de serem alvos de comentários críticos27.

Uma técnica de enfermagem descreveu que foi tomada pela tristeza no início da pandemia pela mudança de rotina, por ver as ruas vazias, mercados lotados e pessoas brigando por comida. Houve relatos de esgotamento emocional, afastamento do trabalho, e uma rotina de medos, ansiedades, convivência com dúvidas, inseguranças, perdas, contradições constantes, sentimentos de incapacidade, exaustão, desvalorização no trabalho e preconceitos, conforme encontrado na literatura22,28,29.

O esgotamento emocional foi reconhecido no relato da auxiliar de enfermagem que trabalhava na UTI pediátrica e, depois da perda de um bebê internado, de dois anos e meio, não conseguiu permanecer trabalhando. Não conseguia dormir, apresentou sintomas de ansiedade, diarreia, sudorese, taquicardia na hora de ir para o plantão, até desmaiar.

Agendei com a médica psiquiatra, eu só chorava, morrendo de vergonha passar no psiquiatra, fiquei umas duas horas. Parei de chorar e ela disse: estou vendo que você não está bem. Eu só falei: - Sou linha de frente. Já entendi tudo, ela respondeu. Ela me acolheu bem, foi fundamental para me ajudar (E16, 32 anos, auxiliar de enfermagem).

Essa trabalhadora ficou afastada do trabalho por um ano e quatro meses, sem conseguir sair do quarto por cinco meses, afastando-se das pessoas. Durante a pandemia, adoecimentos e afastamentos foram marginalizados e repercutiram no agravamento dos casos e na subnotificação de agravos relacionados ao trabalho.

Em relação ao adoecimento, estudos30 indicam que a insônia é altamente prevalente e associada a reações psicológicas relacionadas à pandemia da Covid-19, como vivenciado pelas trabalhadoras. Outras pesquisas identificaram transtornos depressivos, de ansiedade, pânico, sintomas somáticos, autocensura, culpa, transtorno de estresse pós-traumático, delírio, psicose e até suicídio31,32. Estudos indicam que 44,45% dos profissionais de saúde relataram esgotamento profissional, evidenciando o impacto da pandemia de Covid-19 sobre as condições de trabalho e a saúde mental33.

Alterações emocionais marcaram a experiência dos profissionais que passaram a conviver com óbitos frequentes, em um contexto de restrições para os funerais e rituais de despedida. O custo emocional de informar o falecimento às famílias e as reações a esse impacto podem gerar desgastes. A repetitividade da ação expõe cada vez mais o grupo de profissionais, sem uma medida protetiva ou compensatória. O cenário da morte se torna mais difícil pelo distanciamento dos familiares e das equipes de saúde, desencadeando sentimentos de abandono e solidão3.

Na pandemia, a morte instaurou um estado de luto coletivo na sociedade34. Nos hospitais de campanha (unidades médicas móveis ou temporárias montadas rapidamente para atender vítimas em situações de emergência) a exigência emocional foi intensa, muitos usuários e familiares buscavam apoio nos profissionais de saúde. A intensidade de perdas e o contato com a morte, cotidianamente, foi referido por uma psicóloga assim “teve dias em que dei cinco notícias de óbito no mesmo dia. (...) quando tive Covid eu revivi todas as mortes que acompanhei. Todas as mãos que segurei até intubar”. Neste sentido, os profissionais de saúde podem ter vivenciado o luto não reconhecido35, aquele em que não há espaço para expressar os sentimentos, em que o sofrimento é marcado pela ausência de apoio ao enlutado produzindo silenciamentos, o que dificulta o cuidado.

Com a restrição dos rituais presenciais, emergiram estratégias de acolhimento e rituais simbólicos de despedida, que contribuíram para a ressignificação das perdas ocasionadas pela Covid-1936. No entanto, foram escassos os cuidados para os profissionais que enfrentavam as mortes nos serviços de saúde37. Esta lacuna se fez sentir agudamente no momento em que as mortes se tornaram muito recorrentes. Há que se considerar que mesmo sem a perda concreta de um familiar ou pessoa atendida, a pandemia aumentou o risco de experimentar sofrimento, seja por outras perdas (financeiras, trabalho, distanciamento) ou pela empatia com o sofrimento e instabilidade social vivenciada36.

Emergiram relatos sobre atividades impedidas, ou seja, o que não puderam realizar como gostariam e que foram obrigadas a fazer, conforme referido por Clot38. Esses impedimentos se tornaram parte da rotina, manifestando-se em situações como: impossibilidade de oferecer um trabalho de qualidade; incapacidade de recusar atendimentos mesmo sem condições adequadas; e dificuldade de se defender, proteger a si mesmas, seus familiares, colegas e pacientes na medida necessária. O impedimento da atividade imobiliza o dinamismo interno do sujeito e o sofrimento pode ser compreendido pela perda do significado do trabalho e a inatividade imposta vai incidindo sobre o trabalhador pela perda dos processos de subjetivação.

Outros desafios acentuaram os dilemas éticos vivenciados por profissionais da linha de frente, como relatou a farmacêutica:

recebemos a pressão para uso da cloroquina. (...) Depois veio a orientação de que não era para usar. Antirretroviral também, o pessoal começou a usar esse que disseram que era bom. Eu falava calma, precisa ver direito quais são os estudos, não é bem assim. A gente sofreu por não ser chamado para participar.

A pandemia de Covid-19 expôs diversos dilemas éticos39. A defesa da economia em detrimento da vida, impulsionada pelo governo e setores empresariais, somou-se à escassez de leitos de UTI e respiradores, impondo decisões difíceis aos profissionais de saúde. Atuar na linha de frente significava arriscar a própria vida e a de familiares, sobretudo diante da insuficiência de EPP, o que contrariava tanto normas de segurança quanto códigos profissionais. O dilema ético perpassou a pandemia, levando a uma prática na qual uma vida devia ser mantida em detrimento de outra40.

O cenário descrito pode gerar traumas relacionados ao trabalho advindos das situações de trabalho impedido, impasses éticos e de empatia frente ao sofrimento e mortes. Deste modo, é possível considerar que os profissionais da saúde estiveram sob risco de transtorno de estresse pós-traumático e do trauma vicário. O primeiro caracteriza-se por uma resposta tardia alusiva ao trauma vivido41. Já o trauma vicário ou estresse traumático secundário desenvolve-se por observação ou tomada de consciência sobre o trauma de outro. A empatia, que é um instrumento de trabalho nas profissões do cuidado, pode ser o veículo para o adoecimento quando do contato com situações trágicas, cruéis e de intenso sofrimento que tenham atingido outrem38. Sendo assim, esses profissionais deveriam receber um suporte e monitoramento na fase pós-pandêmica.

Paradoxalmente, as situações de proteção derivaram do forte vínculo ético e emocional das trabalhadoras com o cuidado. O sentido atribuído à profissão e à defesa do SUS fortaleceu a resistência diante das dificuldades, como relatado pela assistente social ao destacar o papel da luta coletiva e do reconhecimento profissional. Além disso, o contexto de desemprego e restrições impostas pela crise sanitária pressionou muitos profissionais a permanecerem trabalhando. Em síntese, o trabalho assumiu um sentido ambíguo: de um lado, os profissionais estavam submetidos às imposições da gestão, que limitavam seu controle sobre o fazer laboral; de outro, a identificação com as necessidades dos usuários lhes oferecia uma força ético-política que os impulsionava a resistir e a permanecer na atividade.

Considerações Finais

Cinco anos após o início da pandemia, pesquisadores42 destacam o caráter social da Covid-19, ao recuperarem as informações falsas ou com baixo embasamento científico divulgadas à época e seus impactos à população e trabalhadores da saúde. Consideram que, em um tecido social e institucional fragilizado, “se quisermos superar uma nova pandemia, será preciso antes curar doenças que transcendem a biologia”.

Os efeitos da pandemia nas condições de trabalho e cuidado foram amplamente explorados na literatura e os achados apresentados neste artigo ratificam estudos prévios. Esta pesquisa contribui ao apresentar os relatos das trabalhadoras e a inclusão dessas vozes contribui para a produção de conhecimentos mais completos e plurais. Dar visibilidade às experiências, muitas vezes ocultas, fortalece processos de reconhecimento e participação.

A pandemia foi um conceito aprendido na prática em amplas dimensões. Esta pesquisa evidenciou que a negligência com a vida e com a saúde das trabalhadoras do setor é anterior à crise sanitária, o que tornou mais trágico o cenário pandêmico. As desigualdades de gênero se intensificaram, com aprofundamento da divisão desigual entre o trabalho produtivo e reprodutivo.

Verificou-se que não foram assimilados os aprendizados de outras emergências de saúde pública anteriores, sem incorporação das questões de gênero nas respostas. As diferenças de gênero devem ser contempladas nos planos de preparação, resposta e recuperação de pandemias43, pois grupos vulnerabilizados tendem a ser negligenciados, sofrem mais intensamente e têm mais dificuldade em se recuperar após a contenção do vírus.

A experiência das participantes revelou medo e insegurança constantes, sobrecarga e pressão no trabalho, falta de materiais e conflitos éticos em dimensões extremas. Em um contexto de intensificação do trabalho doméstico e de cuidado, que permanecem invilibilizadas, desvalorizadas socialmente e não remuneradas.

Estudos sobre profissionais que não puderam interromper suas atividades durante a pandemia podem subsidiar ações em futuras crises sanitárias. São necessárias mudanças estruturais e arquitetônicas, com ambientes ventilados e amplos, além de suporte técnico, educação permanente e capacitação para situações emergenciais, bem como o respeito ao dimensionamento de profissionais e reorganizar o trabalho para proteger trabalhadores e usuários.

Perdemos profissionais de saúde por falecimento e por demissões motivadas por excesso de demandas e ausência de limites impostos pelo sistema. O setor saúde reúne atividades de profundo significado para aqueles que se sentem vocacionados, especialmente quando exercidas em condições dignas.

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  • Disponibilidade dos dados:
    O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo não está disponível em acesso aberto, pois contém informações que permitem a identificação das participantes. O acesso aos dados pode ser solicitado à autora correspondente, mediante justificativa e compromisso de manutenção de sigilo e não compartilhamento.
  • Declaração sobre uso de Inteligência Artificial:
    As autoras declaram que utilizaram o ChatGPT, versão GPT 5.5 (gratuita), da OpenAI, para revisão de linguagem e aprimoramento da fluidez e clareza de trechos do artigo. Todo o conteúdo gerado com auxílio da ferramenta de inteligência artificial foi revisado e validado pelas autoras.
  • Apresentação do estudo em evento científico:
    O trabalho foi apresentado no V Colóquio Internacional de Clínica da Atividade, realizado de 18 a 20 de outubro de 2023, na Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.
  • Financiamento:
    As autoras declaram que o estudo não foi subvencionado.

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O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo não está disponível em acesso aberto, pois contém informações que permitem a identificação das participantes. O acesso aos dados pode ser solicitado à autora correspondente, mediante justificativa e compromisso de manutenção de sigilo e não compartilhamento.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    03 Dez 2025
  • Revisado
    17 Mar 2026
  • Aceito
    22 Abr 2026
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