Resumo
Objetivos Analisar os casos notificados de câncer relacionado ao trabalho no Brasil, 2007-2023, segundo perfil sociodemográfico, ocupacional, espacial e temporal.
Métodos Estudo descritivo com dados do Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN), com estratificação por sexo.
Resultados Houve 4.567 notificações no período, muito abaixo das estimativas. O sexo masculino concentrou 71,8% dos registros, e a maioria dos registros se refere a casos em trabalhadores com mais de 70 anos. Predominaram os cânceres de pele não melanoma, de pulmão, de próstata e de mama. As ocupações mais frequentes foram na agropecuária, construção civil e serviços. Observou-se tendência de crescimento das notificações ao longo do tempo. Na pandemia da covid-19, houve uma redução acentuada e, a partir de 2022, as notificações voltaram a crescer, mas não retornaram aos patamares pré-pandêmicos. Paraná e Minas Gerais exibiram os maiores números de notificações.
Conclusão Evidenciou-se subregistro de casos de câncer relacionado ao trabalho, com desigualdades regionais e entre os sexos, havendo concentração de casos em determinadas ocupações e tipos de câncer. É necessário promover medidas de prevenção nos ambientes de trabalho e intensificar a notificação.
Palavras-chave:
Câncer Ocupacional; Sistemas de Informação em Saúde; Saúde do Trabalhador
Abstract
Objectives To analyze reported cases of work-related cancer in Brazil, 2007-2023, according to sociodemographic, occupational, spatial, and temporal profiles.
Methods A descriptive study using SINAN data, considering age, occupation, federative unit, type of cancer, work situation, and smoking, by sex.
Results There were 4,567 notifications in the period, far below estimates. Men accounted for 71.8% of registrations, and most registrations occurred in workers aged over 70. Non-melanoma skin, lung, prostate, and breast cancers predominated. Analysis of the types of cancer suggests an association with occupation, with the most registered occupations being professionals involved in farming, construction workers, and service workers. There was an upward trend in notifications over time. During the COVID-19 pandemic, there was a sharp drop and, from 2022 onwards, notifications began to rise again but did not return to pre-pandemic levels. Paraná and Minas Gerais led the way in terms of the number of notifications.
Conclusion There was an under-reporting of work-related cancer cases with regional and sex inequalities, with a concentration of cases in certain occupations and types of cancer. It is necessary to promote preventive measures in the workplace and intensify reporting.
Keywords:
Occupational Cancer; Health Information Systems; Occupational Health
Introdução
O câncer relacionado ao trabalho (CRT) é aquele que tem entre seus elementos causais a exposição a fatores, agentes e situações de risco presentes no ambiente e processo de trabalho, mesmo após a cessação da exposição1. Este agravo tem sua frequência, surgimento ou gravidade modificados pelo trabalho2.
No Brasil, estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indicam que, no triênio 2023–2025, serão 704 mil novos casos de câncer e que entre 8% e 16% deles são decorrentes da exposição ocupacional. Considerando a distribuição por sexo, estima-se que 2,2% dos casos no sexo feminino e 10,8% dos casos no masculino surgem em função de fatores relacionados ao local de trabalho3,4.
Um agente potencialmente carcinogênico ocupacional é aquele cuja exposição pode aumentar a incidência de tumores malignos ou reduzir o período de latência entre a exposição e o aparecimento do câncer5. Mais de 500 agentes ocupacionais, de natureza física, química ou biológica, já foram classificados pela Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC) nos grupos 1 (carcinogênicos para humanos), 2A (provavelmente carcinogênicos) ou 2B (possivelmente carcinogênicos), estando associados a vários tipos de câncer. Além destes, fatores de risco associados à organização do trabalho, como o trabalho noturno, também têm sido relacionados a alguns tipos de câncer devido a sua capacidade de levar à desregulação do ciclo circadiano2,6.
Embora a literatura científica reconheça a associação entre câncer e condições de trabalho e que inúmeros agentes carcinógenos estejam presentes em diversos ambientes de trabalho, o CRT ainda é subestimado2.
Em 2004, o Ministério da Saúde incluiu o CRT na lista de notificação compulsória no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), porém o quantitativo de registros no Brasil ainda é baixo, refletindo a subnotificação de doenças relacionadas ao trabalho, inclusive do CRT7,8.
Além do sub-registro, a notificação é desigual ao longo do território nacional. Carvalho-Filho et al.9 identificaram subnotificação de CRT e variações na incidência entre os estados da Região Sudeste. Dutra et al.10 observaram heterogeneidade nas tendências de notificação para as unidades da federação (UF), no período de 1990 a 2019.
Um sistema de notificação efetivo pode contribuir para a análise da magnitude do problema na saúde do trabalhador, no auxílio da descrição da ocorrência desses agravos entre os trabalhadores expostos e com maior risco, e no melhor entendimento das relações causais entre câncer e exposição a substâncias presentes no ambiente de trabalho e, consequentemente, subsidiar ações para controle e prevenção deste agravo.
O objetivo deste estudo é analisar os dados de notificações de CRT registrados no SINAN entre 2007 e 2023, descrevendo as tendências temporais e espaciais e caracterizando o perfil sociodemográfico e ocupacional dos tipos de câncer mais notificados, segundo o sexo.
Métodos
Trata-se de um estudo transversal de natureza descritiva, baseado em dados secundários do SINAN, referentes às notificações de CRT. Apesar de a notificação compulsória de CRT ter sido instituída em 2004, os dados referentes a Doenças e Agravos de Notificação no SINAN, incluindo o CRT, só estão disponíveis publicamente para o período de 2007 em diante, e as séries completas estão disponibilizadas até 2023. Portanto, foram incluídos os registros de 2007 a 2023 codificados como neoplasias malignas (códigos entre C00-C97) e síndrome mielodisplásicas (D46), de acordo com a Classificação Internacional de Doenças (CID-10).
A base de dados analisada contém informações diretas do SINAN e algumas variáveis derivadas: ano da notificação, UF, sexo, faixa etária, cor/raça declarada, ocupação (segundo a Classificação Brasileira de Ocupações – CBO), situação de trabalho, diagnóstico específico CID-10, exposições nos locais de trabalho e tabagismo. Todo o conjunto de dados anonimizados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível em https://datasus.saude.gov.br/transferencia-de-arquivos/# e foram analisados com auxílio do R11.
A variável referente à exposição nos locais de trabalho do banco de dados do SINAN não foi utilizada neste estudo, uma vez que muitos registros não estavam preenchidos ou continham o termo “outras exposições” (sem especificação do agente), o que impossibilitou a identificação de possíveis agentes cancerígenos envolvidos.
Foram consideradas tanto a dimensão temporal (variação das notificações de CRT ao longo do tempo) quanto a espacial (distribuição dos casos notificados por unidade da federação). Também foram analisadas as distribuições do total de casos notificados por sexo, de acordo com as características sociodemográficas, ocupacionais e tabagismo. Para os três tipos de câncer mais notificados no sexo feminino e no masculino, foi feita uma análise mais aprofundada.
Resultados
De 2007 a 2023, foram notificados 4.567 casos de CRT no Brasil, abrangendo os diferentes diagnósticos específicos CID-10 (C00 – C97 e D46), sendo que 28,2% (1.286/4.567) dos registros foram de casos no sexo feminino e 71,8% (3.281/4.567) no masculino.
A evolução temporal das notificações de CRT no Brasil, no período estudado, está apresentada na Figura 1: a linha tracejada representa o total de notificações por ano e as linhas vermelha e azul representam os números de casos nos sexos feminino e masculino, respectivamente.
Evolução temporal dos casos notificados de câncer relacionado ao trabalho, segundo sexos. Brasil, SINAN, 2007–2023
A análise evidencia uma tendência crescente no número de notificações de forma geral e para ambos os sexos, com o número de casos notificados no sexo masculino mais elevado do que no feminino. Entre 2007 e 2010, as notificações foram relativamente baixas para ambos os sexos, com aumento moderado a partir de 2011. Em 2017 ocorreu uma diminuição, sobretudo devido à redução dos registros no sexo masculino. Em 2019, houve um crescimento nos registros para ambos os sexos, seguido de queda em 2020. Em 2022, as notificações começam a se recuperar, mas ainda não retornam aos patamares de 2019. Isso só ocorre em 2023, quando há um aumento expressivo de casos registrados para ambos os sexos.
No mapa da distribuição espacial dos casos notificados de CRT, Figura 2, é possível notar que algumas UF se destacam com números de registros bastante altos, enquanto outras registram poucos ou nenhum caso ao longo dos anos.
O Paraná liderou em número de notificações, respondendo por 33,4% do total de casos e detém 29,9% dos registros relativos a casos no sexo feminino e 34,7% no masculino. Minas Gerais aparece em segundo lugar, com 22,9% dos casos, com diferença expressiva entre os sexos: 12,3% dos registros no sexo feminino e 27,1% no masculino. Mato Grosso do Sul detém 11,2% das notificações, com uma proporção maior de registros de casos no sexo feminino (19,1% vs 8,1% no masculino). O Distrito Federal aparece com 8,0% dos casos, sendo 12,4% no sexo feminino e 6,2% no masculino. Apenas 7,0% e 0,6% dos casos foram registrados nas Regiões Nordeste e Norte, respectivamente. Amapá, Roraima e Piauí não apresentaram notificação de CRT no período.
A Tabela 1 mostra como as notificações de CRT entre 2007 e 2023 se distribuem de acordo com características sociodemográficas, ocupacionais e de tabagismo. Nota-se que os casos de CRT se concentram em pessoas com 70 anos ou mais (42,4%), seguidas das faixas de 60 a 69 anos (27,4%) e de 50 a 59 anos (18,2%). Juntas, essas três faixas etárias, representam 88,0% dos casos registrados. A distribuição, em ambos os sexos, segue padrão semelhante.
Características sociodemográficas, ocupacionais e de tabagismo dos registros de câncer relacionado ao trabalho, segundo sexo. Brasil, 2007–2023
A maior parte dos registros ocorreu em trabalhadores de cor branca (67,0%), sendo 68,0% no sexo feminino e 66,5% no masculino, enquanto 23,0% dos casos notificados foram de pessoas de cor preta ou parda (20,3% no sexo feminino e 24,1% no masculino). Em relação ao tabagismo, 39,5% dos casos registrados são entre não fumantes, 53,0% no sexo feminino e 34,1% no masculino. Por outro lado, para os ex-fumantes essa proporção foi de 25,2% (16,3% no sexo feminino vs 28,7% no masculino) e para os fumantes ativos foi de 18,4% (11,0% no sexo feminino vs 21,3% no masculino).
Considerando a ocupação pela CBO, trabalhadores na agropecuária representam 36,4% dos registros, sendo 42,7% de todos os casos notificados no sexo feminino e 33,9% no masculino. Trabalhadores da indústria extrativa e da construção civil correspondem a 12,9% dos casos (0,3% no sexo feminino vs 17,8% no masculino) e os produtores na exploração agropecuária são 12,2% (18,3% no sexo feminino vs 9,8% no masculino).
Em relação à situação de trabalho, muitas das notificações de CRT foram entre os trabalhadores autônomos/conta própria, com 37,7% dos registros totais, com percentuais similares no sexo feminino (37,2%) e no masculino (37,9%). Os aposentados aparecem como o segundo grupo mais notificado (29,1%), sendo 26,2% dos registros no sexo feminino e 30,2% no masculino.
As Tabelas 2 e 3 apresentam as características sociodemográficas, ocupacionais e de tabagismo, dos três tipos de câncer mais frequentes no sexo feminino (pele não melanoma, mama e pulmão) e no masculino (pele não melanoma, pulmão e próstata), respectivamente.
Neoplasia maligna da pele não melanoma – C44
O câncer de pele não melanoma (CPNM) foi a neoplasia mais frequente, com 2.062 notificações, o que representa 45,2% (2.062/4.567) do total de registros no período. Em relação à distribuição por sexo, o CPNM corresponde a 52,9% dos registros no sexo feminino (680/1.286) e 42,1% no masculino (1.382/3.281).
Nas Tabelas 2 e 3, observam-se as distribuições dos casos de CPNM no sexo feminino e masculino, respectivamente, de acordo com as variáveis estudadas. Nota-se maior concentração entre trabalhadores acima de 40 anos, especialmente acima dos 70 anos, com mais de 50,0% dos casos, em ambos os sexos. A maioria dos casos de CPNM, 72,5%, ocorreu entre indivíduos de cor branca, sendo 70,0% dos registros no sexo feminino e 73,7% no masculino. A distribuição espacial dos casos notificados para o CPNM segue padrão similar à apresentada na Figura 1, com destaque também para Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal, que somam 83,2% dos registros no sexo feminino e 88,3% no masculino. Em relação ao tabagismo, a maior proporção de notificações foi de casos em indivíduos que nunca fumaram (47,8% no sexo feminino e 39,0% no masculino).
Quanto à ocupação, metade dos casos foi registrada entre trabalhadores de exploração agropecuáriac (49,4%), seguido por produtores da exploração agropecuáriad (11,4%), e trabalhadores da indústria extrativa e construção civil (10,9%). No sexo feminino, a maioria dos registros foi entre as trabalhadoras da exploração agropecuária (57,4%), seguidos por produtoras da exploração agropecuária (13,2%) e trabalhadoras de serviços (12,2%) dos registros. No sexo mascilino, os casos em trabalhadores da exploração agropecuária também foram os mais frequentes (45,5%), seguido pelos trabalhadores da indústria extrativa e da construção civil (16,2%) e pelos produtores da exploração agropecuária (10,6%).
Em situação de trabalho, trabalhadores autônomos/conta própria representam 37,6% das notificações de CPNM, sendo 32,4% no sexo feminino e 40,2% no masculino. Aposentados também compõem uma parcela importante dos casos (28,4% para ambos os sexos).
Neoplasia maligna dos brônquios e dos pulmões – C34
A neoplasia maligna dos brônquios e dos pulmões correspondeu a 6,9% das notificações dos CRT no período (313 casos), sendo a terceira mais registrada no sexo feminino, com 4,4% das notificações (57/1.286), e a segunda no sexo feminino, com 7,8% (256/3.281).
Nas Tabelas 2 e 3, observa-se que as notificações dos casos de câncer dos brônquios e dos pulmões relacionados ao trabalho se concentram nas faixas etárias de 60 a 69 anos e de 70 anos ou mais. Essas duas faixas detêm 84,2% das notificações no sexo feminino e 75,0% no masculino. Observa-se que 48,2% dos registros ocorreram entre indivíduos de cor branca, sendo 59,6% no sexo feminino e 45,7% no masculino. Indivíduos de cor preta/parda concentraram 41,9% dos casos notificados (40,4% no feminino e 42,2% no masculino). Na distribuição espacial dos casos notificados de câncer de pulmão, nota-se que os estados do Rio Grande do Norte e Paraná somam 63,2% dos registros no sexo feminino e 59,8% no masculino. Em relação ao tabagismo, 46,0% dos casos notificados foi entre ex-fumantes (50,9% no sexo feminino e 44,9% no masculino) e 31,6%, entre fumantes ativos (28,1% no sexo feminino e 32,4% no masculino). Indivíduos sem histórico de tabagismo representam apenas 13,7% dos registros no período (17,5% no sexo feminino e 12,9% no masculino).
A distribuição por ocupação indica que trabalhadores que atuavam na indústria extrativa e da construção civil representam 24,3% dos registros para esta neoplasia, seguidos de trabalhadores da exploração agropecuária, com 18,5% das notificações. Entre os casos notificados de pessoas do sexo feminino, 21,1% foram de produtoras da exploração agropecuária, 15,8% trabalhadoras da exploração agropecuária e 14,0% trabalhadoras dos serviços. No sexo masculino, predominaram trabalhadores da indústria extrativa e da construção civil, com 29,3% dos casos registrados, seguidos por trabalhadores da exploração agropecuária, 19,1%, e trabalhadores de transformação de metais e seus compósitos, 7,4% dos registros.
Quanto à situação de trabalho, 36,4% de casos de câncer dos brônquios e dos pulmões foi entre aposentados, sendo essa proporção 33,3% no sexo feminino e 37,1% no masculino. Entre os trabalhadores ativos, os casos desta neoplasia foram mais frequentes entre autônomos/conta própria, com 27,5% dos registros (35,1% no sexo feminino e 25,8% no masculino).
Neoplasia maligna da mama – C50
O câncer de mama foi o segundo tipo de CRT mais registrado no sexo feminino, correspondendo a 13,7% no período de 2007 a 2023 (176/1.286).
Observa-se, na Tabela 2, predominância dos registros entre trabalhadoras de cor branca (67,0%). A distribuição espacial dos casos notificados de câncer de mama destaca o estado do Paraná com 53,2% dos registros. Quanto ao tabagismo, 60,8% dos registros foram em não fumantes, 19,3% entre ex-fumantes e 13,6% entre fumantes.
Características sociodemográficas, ocupacionais e de tabagismo das pessoas do sexo feminino com câncer relacionado ao trabalho (pele não melanoma, pulmão e mama) notificado no Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN), Brasil, 2007–2023
Trabalhadoras do setor de serviços responderam por 25,6% dos casos, seguido por trabalhadoras da exploração agropecuária (21,0%), produtoras da extração agropecuária (15,9%) e técnicas de nível médio das ciências biológicas e da saúde, 9,7% dos registros.
Quanto à situação de trabalho, trabalhadoras autônomas/conta própria respondem por 38,1% dos registros. As aposentadas foram o segundo grupo com mais notificações (19,3%). Em relação às trabalhadoras com vínculo empregatício, os percentuais de casos registrados entre empregadas com carteira assinada e sem registro formal foram semelhantes, 5,7% e 5,1%, respectivamente.
Neoplasia maligna da próstata – C61
O terceiro tipo de CRT mais notificado no sexo masculino foi o câncer de próstata, correspondendo a 6,2% (204/3.281) de todos os registros no período.
Na Tabela 3 é possível notar que os primeiros registros desta neoplasia começaram a aparecer a partir dos 40 anos, ainda que em proporção mínima (0,5% na faixa de 40 a 49 anos). O número aumenta a partir dos 50 anos, atingindo 11,3% na faixa de 50 a 59 anos. No entanto, é a partir dos 60 anos que se observa a maior concentração de casos registrados: 32,8% na faixa de 60 a 69 anos e 55,4% na de 70 anos ou mais. Juntas, essas duas últimas faixas etárias representam 88,2% de todos os casos notificados desta neoplasia.
Características sociodemográficas, ocupacionais e de tabagismo em pessoas do sexo masculino com câncer relacionado ao trabalho (pele não melanoma, pulmão e próstata) notificado no Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN), Brasil, 2007–2023
Homens da cor de pele branca representam a maioria dos registros (68,6%), enquanto pretos/pardos aparecem com 27,5% dos casos. A distribuição espacial dos casos notificados para o câncer de próstata apresenta também o estado do Paraná em destaque, com 75,5% dos registros. Em relação ao tabagismo, os ex-fumantes representaram o grupo mais numeroso, com 43,6% dos registros. Os não fumantes tiveram também uma parcela considerável dos casos (37,3%). Entre os fumantes ativos, o percentual foi de 14,2%.
Os produtores na exploração agropecuária aparecem em 19,6% dos registros de câncer de próstata, seguidos pelos trabalhadores de funções transversaise (16,7%) e trabalhadores na exploração agropecuária (14,2%).
Considerando a situação de trabalho nos registros de CRT, os aposentados representaram o grupo mais afetado por esta neoplasia (37,3% dos casos), seguido dos trabalhadores autônomos/conta própria (32,8%) e dos trabalhadores formais com carteira assinada (17,2%).
Discussão
O estudo evidencia importantes desigualdades na notificação de CRT no Brasil. A análise dos dados do SINAN entre 2007 e 2023 revela a baixa frequência de registros e diferenças nos perfis sociodemográficos, regionais e ocupacionais.
Em 2020, primeiro ano da pandemia de covid-19, observa-se uma diminuição importante nas notificações em comparação com anos anteriores, provavelmente devido à dificuldade de acesso aos serviços de diagnóstico e notificação durante esse período. A maior concentração de registros no sexo masculino, em todo o período, segue o padrão observado em outros estudos no Brasil que apontam maior ocorrência de CRT entre homens9. A desigualdade dos registros por UF pode ser explicada, em parte, por especificidades do sistema de vigilância epidemiológica para CRT implantado localmente, como o caso de Minas Gerais, que em 2019 adotou ações específicas voltadas para o registro de CRT, resultando no aumento evidente das notificações no estado7. Isto mostra que o processo de investigação/notificação de CRT pode ser implementado em cada estado/município por meio de ações voltadas para determinados tipos de câncer que as equipes locais considerem prioritários para a vigilância.
Estudos estimam que 8% a 16% de todos os casos de câncer são relacionados ao trabalho3. Aplicando essa estimativa aos 704 mil casos esperados para o triênio 2023–2025 no Brasil4, seria esperada uma quantidade de notificações muito maior do que os 4.567 casos registrados em 17 anos, indicando importante subnotificação no SINAN. Para Andrade et al.7, a subnotificação no SINAN tem causas diversas associadas a problemas no diagnóstico e identificação de casos, complexidade das patologias e das rotinas dos serviços, entre outras. No caso específico do CRT, acrescentam que a falta de conhecimento sobre agentes cancerígenos ocupacionais e o tempo decorrente entre a exposição e a ocorrência do câncer são fatores que dificultam ainda mais o estabelecimento de nexo causal, potencializando a subnotificação.
A concentração de notificações em pessoas acima de 60 anos reforça a possível associação com maior tempo de exposição a fatores cancerígenos no ambiente de trabalho e à idade como fator de risco para diversos tipos de câncer9,12. A predominância de registros em indivíduos brancos pode ser devido à concentração das notificações nas Regiões Sul e Sudeste, áreas com uma maior proporção de população branca13. O tabagismo é fator de risco importante para vários tipos de câncer especialmente o câncer de pulmão4,14,15, ainda que sua relação com alguns tipos, como o câncer de pele e mama, seja controversa16-18. A potencial interação entre exposição ocupacional e tabagismo deve ser considerada de forma relevante no caso do CRT19-21. Como exemplo desta interação, Algranti21 destaca a associação sinérgica entre tabagismo e exposição ao amianto para o câncer de pulmão.
O volume de registros de CRT entre profissionais da exploração agropecuária, em ambos os sexos, sugere a influência da exposição a agrotóxicos. Muitos destes produtos, amplamente utilizados na agricultura brasileira, são classificados pela IARC como cancerígenos ou potencialmente cancerígenos para humanos. Especificamente para os cânceres de pele, de próstata e de mama, há evidências científicas que associam a exposição a agrotóxicos ao aumento do risco da doença16,22.
O número relativamente alto de registros entre os aposentados reforça a questão do prolongado período de latência do câncer, bem como o possível efeito cumulativo de algumas exposições ocupacionais23, 24.
O câncer de pele não melanoma é o mais frequente no Brasil, acometendo pessoas de ambos os sexos em idade adulta em proporções semelhantes, e tem a exposição cumulativa a raios ultravioletas como o principal fator de risco4,23-26. Segundo a IARC, a exposição prolongada e contínua à radiação ultravioleta é classificada como Grupo 1 (comprovadamente cancerígeno para humanos)16. Assim como encontrado neste estudo, a literatura aponta que indivíduos de pele clara apresentam maior suscetibilidade ao desenvolvimento desse tipo de câncer, especialmente naqueles com histórico de exposição prolongada ao sol18,23. Trabalhadores cujas atividades são realizadas em longo período exposto ao sol, como os da agricultura e da construção civil, têm maior risco de serem acometidos por este tipo de neoplasia, o que sugere a participação da exposição crônica cumulativa à radiação ultravioleta na gênese da doença23,26.
A exposição ocupacional a agrotóxicos também pode contribuir para o maior número de registros de CPNM entre trabalhadores e produtores da exploração agropecuária. No Brasil, é comum a utilização de agrotóxicos na prática agrícola e, muitas vezes, estes compostos possuem componentes que são cancerígenos19. Além disso, alguns produtos químicos presentes como impurezas em muitos agrotóxicos, como o arsênio e seus compostos, também podem causar CPNM23,27. Lee et al.23 acrescentam que a exposição combinada ao arsênico e à radiação UV potencializa os efeitos carcinogênicos da radiação UV, aumentando a probabilidade de mutações genéticas e do desenvolvimento de câncer de pele não melanoma. Apesar da ausência de informações sobre exposição a agrotóxicos na ficha de investigação do CRT no SINAN, a hipótese de associação com o surgimento de CPNM deve ser considerada, especialmente diante do elevado número de casos registrados deste câncer entre profissionais envolvidos na exploração agropecuária.
O câncer de pulmão, terceiro mais registrado no SINAN no sexo feminino e segundo no masculino, tem o tabagismo como principal fator de risco4,14,15, responsável por 80–85% dos casos diagnosticados mundialmente14. Estimativas apontam que entre 17% e 29% dos casos desta neoplasia são relacionados a exposições ocupacionais28. Considerando a estimativa do INCA de 32.560 novos casos deste tipo de câncer para 20234, esperava-se entre 5,5 mil e 9,4 mil casos de câncer de pulmão relacionados ao trabalho no Brasil em 2023, número muito superior ao registrado ao longo dos 17 anos aqui estudados, que foi de 313 notificações (72 registros em 2023). Globalmente, há uma tendência de declínio das taxas de incidência de câncer de pulmão no sexo masculino e de aumento no feminino, o que pode estar associado ao padrão de comportamento do tabagismo entre os sexos4,29.
É sabido que o trabalho na construção civil é considerado como de risco para o câncer de pulmão2,14. Este ramo de atividade concentra trabalhadores do sexo masculino, o que pode estar contribuindo para a grande diferença nos números de casos notificados entre os sexos (um no feminino vs 75 no masculino). O número de notificações de câncer de pulmão entre trabalhadores da exploração agropecuária pode estar relacionado à exposição a agrotóxicos, muitos dos quais são classificados como agentes cancerígenos14,22. O herbicida metano-arseniato ácido monossódico, também conhecido como MSMA, autorizado no país para a cultura do fumo, e o inseticida diazinona, utilizado em diversas culturas agrícolas, estão associados ao aumento do risco de câncer de pulmão22.
O câncer de mama foi o segundo tipo de CRT mais notificado no sexo feminino e com predomínio em pessoas brancas, o que coincide com a literatura, embora valha citar que as formas mais agressivas são diagnosticadas entre negras e pardas2,3,6,30. Encontramos maior frequência de registros de câncer de mama entre aquelas que não fumavam. O tabagismo é considerado pela IARC como um agente de limitada evidência de associação ao câncer de mama18. Fatores genéticos, hereditário, reprodutivos, excesso de peso, terapia hormonal e os chamados fatores ambientais e ocupacionais destacam-se na gênese desta neoplasia.
Na esfera ocupacional, a exposição a pesticidas, radiação e trabalho noturno são os principais agentes de risco2,18. Neste estudo foi observado que trabalhadoras do setor de serviços e as envolvidas de exploração agropecuária detêm a maioria dos registros de câncer de mama. A maior frequência de registros entre trabalhadoras do setor de serviços pode estar associada ao trabalho noturno, uma vez que o trabalho noturno é mais frequente no setor de serviços do que entre setores industriais31. Entre trabalhadoras em turno noturno, Nogueira et al.32 encontraram um predomínio em atividades do setor de prestação de serviços, com 25,8% de profissionais de nível médio da área da saúde. Segundo a IARC16, o trabalho noturno é classificado no Grupo 2A (potencialmente cancerígeno). Um dos mecanismos mais aceitos para essa associação é que, durante a noite, pela exposição à luz artificial, ocorre a supressão da produção de melatonina, o que influencia a produção de hormônios e, consequentemente, aumenta a chance de câncer de mama6. O percentual relativamente elevado de registros desta neoplasia entre as profissionais envolvidas na extração agropecuária pode estar associado ao uso de agrotóxicos, que é um dos fatores relacionados ao câncer de mama2,22,33.
O terceiro tipo de CRT mais notificado no sexo masculino foi o câncer de próstata. No mundo, é o segundo tipo de câncer mais comum no sexo masculino, ficando atrás apenas do CPNM2,12. Estimativas indicam que 1% dos casos de câncer de próstata está relacionado ao trabalho2. Considerando que o número estimado de novos casos deste tipo de câncer é de 71.730 para 20234, esperava-se um total aproximado de 717 casos naquele ano, valor muito superior ao registrado ao longo dos 17 anos aqui estudados, que foi de 204 notificações (48 registros em 2023).
A idade é um importante fator de risco para o câncer de próstata, visto que cerca de 75% dos casos novos no mundo ocorrem a partir dos 65 anos4,12. Seguindo esta tendência, este estudo encontrou que a maior parte dos registros de câncer de próstata ocorreu entre trabalhadores acima dos 65 anos de idade. O tabagismo e a exposição ocupacional a agrotóxicos são considerados fatores de risco para o câncer de próstata22,34,35.
Este estudo apresenta algumas limitações, principalmente relacionadas à qualidade e à cobertura dos dados do SINAN. O preenchimento incompleto de variáveis, como ocupação, situação de trabalho e exposições ocupacionais, dificulta inferir se os cânceres notificados decorreram de exposições ocupacionais ou se estão relacionados a outros fatores. Além disto, a subnotificação de casos de CRT e a inconsistência nos registros entre diferentes unidades da federação comprometem uma melhor compreensão da realidade desse agravo no país. Não obstante as limitações, os dados possibilitaram descrever o perfil das notificações de CRT, apontando tendências e hipóteses.
Conclusão
A análise dos dados do SINAN entre 2007 e 2023 evidencia um número de notificações de CRT aquém do esperado, sendo os registros mais frequentes entre pessoas do sexo feminino. Há uma tendência crescente de notificações, com queda importante durante o período da pandemia de covid-19, sugerindo vulnerabilidade do sistema de informação e vigilância frente a emergências sanitárias. As desigualdades regionais nos registros são marcantes com concentração de registros de CRT nas Regiões Sul e Sudeste, enquanto alguns estados das Regiões Nordeste e Norte não apresentaram notificação.
O câncer de pele não melanoma foi o mais registrado em ambos os sexos, seguido pelo câncer de pulmão, havendo também muitos registros de câncer de próstata no sexo masculino e de mama no feminino. A análise dos tipos de câncer sugere associação com a ocupação, sendo as ocupações mais registradas os profissionais envolvidos na exploração agropecuária, trabalhadores da construção civil e trabalhadores de serviço. O grande percentual de registro desses tipos de câncer entre profissionais envolvidos na exploração agropecuária evidencia a questão da exposição ocupacional a agrotóxicos como fator de risco. Políticas públicas efetivas voltadas ao controle e à regulação do uso de agrotóxicos são essenciais para promover a redução da exposição aos agrotóxicos nos ambientes laborais e consequente prevenção do CRT.
Para o câncer de mama em pessoas do sexo feminino, notou-se também elevada notificação no setor de serviços, o que pode estar associado ao trabalho noturno. Estudos futuros poderão contribuir para a elucidação desta hipótese, visto que os dados do SINAN não permitem aferir esta relação diretamente.
Levando em conta que a subnotificação é grande e inequívoca, há necessidade de estabelecimento de medidas para implementação e fortalecimento dos serviços de notificação em todo o país, o que contribuirá para a criação de um real perfil epidemiológico em CRT, de âmbito nacional.
Considerando que a exposição a agentes cancerígenos nos ambientes de trabalho pode ser reduzida ou até eliminada por meio de medidas de prevenção e controle, um eficiente sistema de informação assume papel fundamental na melhoria das ações de vigilância e, consequentemente, na prevenção do CRT.
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c
Tratam animais da pecuária e cuidam da sua reprodução, preparam o solo para plantio e manejam área de cultivo, efetuam manutenção na propriedade, beneficiam e organizam produtos agropecuários para comercialização. Classificam-se nessa epígrafe somente os que trabalham em ambas as atividades - agrícolas e da pecuária.
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d
Plantam culturas e criam animais, montam infraestrutura e administram propriedade agropecuária, gerenciam recursos humanos, beneficiam e comercializam produtos de origem vegetal e animal.
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e
Trabalhadores das funções transversais compreendem supervisores de trabalhadores de embalagem e etiquetagem, operadores de robôs e equipamentos especiais, condutores de veículos e operadores de equipamentos de elevação e de movimentação de cargas, trabalhadores de manobras sobre trilhos e movimentação e cargas e embaladores e alimentadores de produção.
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Disponibilidade dos dados:
Os dados são de acesso público e o link está informado no capítulo de métodos.
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Declaração sobre uso de Inteligência Artificial:
Os autores declaram que não foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial para a elaboração do artigo.
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Apresentação do estudo em evento científico:
Os autores informam que o estudo não foi apresentado em evento científico.
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Financiamento:
Os autores declaram que o estudo não foi subvencionado.
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Editores responsáveis:
Eduardo AlgrantiVictor Wünsch Filho
Os dados são de acesso público e o link está informado no capítulo de métodos.



Fonte: SINAN (Ministério da Saúde).
