Open-access Turismo e Patrimônio Cultural sob a ótica decolonial: práticas e reflexões sobre o Centro Histórico de Porto Seguro (Bahia - Brasil)

Tourism and Cultural Heritage from a decolonial perspective: practices and reflections on the Historic Center of Porto Seguro (Bahia - Brazil)

Turismo y patrimonio cultural desde una perspectiva descolonial: prácticas y reflexiones sobre el centro histórico de Porto Seguro (Bahía - Brasil)

Resumo

Porto Seguro, situado no estado da Bahia, mantém forte presença de narrativas e elementos coloniais e, por vezes, tem o seu contexto histórico reduzido à “descoberta” do Brasil. O objetivo desta pesquisa é compreender as percepções e práticas turísticas dos gestores e agentes do turismo local no Centro Histórico de Porto Seguro, analisadas sob a perspectiva decolonial. Constitui-se como um estudo de caso de natureza exploratória e descritiva, com abordagem qualitativa. A coleta de dados envolveu pesquisa bibliográfica, documental e entrevistas semiestruturadas que complementaram a pesquisa de campo, analisadas por meio da Análise de Conteúdo e da Análise do Discurso. Os resultados evidenciaram silenciamentos e a subalternização do patrimônio cultural da cidade e a ausência efetiva de diálogo entre os gestores e os agentes do turismo local, manifestada pela divergência entre os discursos e as práticas adotadas. Constatou-se que promover o turismo sob uma ótica decolonial é um desafio contínuo, com entraves políticos e pouca prioridade nas agendas locais. As ações observadas ainda são pontuais e fragmentadas, apesar de alguns esforços individuais.

Palavras-chave
Identidades culturais; Patrimônio Cultural; Decolonialidade; Estudos Críticos do Turismo

Abstract

Porto Seguro, located in the state of Bahia, maintains a strong presence of colonial narratives and elements, and its historical context is sometimes reduced to the “discovery” of Brazil. The objective of this research is to understand the perceptions and tourism practices of local tourism managers and agents in the Historic Center of Porto Seguro, analyzed from a decolonial perspective. It is an exploratory and descriptive case study with a qualitative approach. Data collection involved bibliographic and documentary research and semi-structured interviews that complemented the field research, analyzed through Content Analysis and Discourse Analysis. The results showed the silencing and subordination of the city's cultural heritage and the effective absence of dialogue between local tourism managers and agents, manifested by the divergence between the discourses and practices adopted. It was found that promoting tourism from a decolonial perspective is an ongoing challenge, with political obstacles and low priority on local agendas. The actions observed are still sporadic and fragmented, despite some individual efforts.

Keywords
Cultural identities; Cultural Heritage; Decoloniality; Critical Tourism Studies

Resumen

Porto Seguro, situado en el estado de Bahía, mantiene una fuerte presencia de narrativas y elementos coloniales y, en ocasiones, su contexto histórico se reduce al “descubrimiento” de Brasil. El objetivo de esta investigación es comprender las percepciones y prácticas turísticas de los gestores y agentes turísticos locales en el Centro Histórico de Porto Seguro, analizadas desde una perspectiva descolonial. Se trata de un estudio de caso de naturaleza exploratoria y descriptiva, con un enfoque cualitativo. La recopilación de datos incluyó investigación bibliográfica, documental y entrevistas semiestructuradas que complementaron la investigación de campo, analizadas mediante el análisis de contenido y el análisis del discurso. Los resultados pusieron de manifiesto el silenciamiento y la subalternización del patrimonio cultural de la ciudad y la ausencia efectiva de diálogo entre los gestores y los agentes turísticos locales, manifestada por la divergencia entre los discursos y las prácticas adoptadas. Se constató que promover el turismo desde una perspectiva descolonial es un reto continuo, con obstáculos políticos y poca prioridad en las agendas locales. Las acciones observadas siguen siendo puntuales y fragmentadas, a pesar de algunos esfuerzos individuales.

Palabras clave
Identidades culturales; Patrimonio cultural; Descolonialidad; Estudios críticos del turismo

1 INTRODUÇÃO

O patrimônio cultural é uma construção social, econômica, hegemônica e colonizada que desempenha um papel fundamental na preservação da identidade e da memória vinculadas à suas raízes históricas. Construção que privilegiou narrativas e valores eurocêntricos, em detrimento de outras formas de conhecimento e expressões culturais (Amaral, 2015). Nesse contexto, o movimento decolonial emerge na atualidade como um paradigma crítico que desafia redefinir as formas de ser, pensar e fazer (Mignolo, 2017). Abordagem que contribui para ressignificar o modo como o patrimônio cultural foi concebido e valorizado, através do reconhecimento de múltiplas vozes e histórias que compõem a sociedade. Afinal, tratar de patrimônio é tratar do direito à memória e da inclusão de sujeitos silenciados (Chuva, 2020).

Estudos recentes (Chambers & Buzinde, 2015; Cardoso & Bomfim, 2022; França & Malta, 2021) vêm explorando a relação entre Turismo e Decolonialidade. Desse modo, o objetivo desse estudo é compreender as percepções e práticas turísticas dos gestores e agentes do turismo local no Centro Histórico de Porto Seguro, analisadas sob a perspectiva decolonial. Busca-se analisar os elementos do patrimônio cultural, tanto materiais quanto imateriais e seu reflexo na identidade cultural.

A história de Porto Seguro remonta ao período da colonização do Brasil em 1500. Situada a cerca de 700 km de Salvador, capital do Estado, possui uma população urbana estimada em 168.326 habitantes, distribuída entre a sede do município e os distritos de Arraial D'Ajuda, Caraíva, Trancoso e Vale Verde, além dos povoados de Vera Cruz e Pindorama, sendo a população rural de 50.379 habitantes (IBGE, 2022). O município está situado no Território de Identidade (TI) da Costa do Descobrimento, no Estado da Bahia.

Integra a Região Turística da Costa de Descobrimento e é classificado como categoria A no Mapa do Turismo Brasileiro. A própria nomenclatura “Costa do Descobrimento” reforça um discurso colonial historicamente enraizado ao sugerir que a história tem início apenas a partir da invasão dos colonizadores, perspectiva que desconsidera a presença dos povos indígenas. Nesse sentido, a ideia de “descoberta” foi fetichizada e estretagiecamnte mobilizada para potencializar a região como atrativo turístico, em especial Porto Seguro (Dias & Gomes, 2021). Em virtude dessa associação com um marco histórico colonial, somada aos seus aspectos culturais e naturais, a área consolidou-se como espaço de interesse histórico e turístico.

Hoje, o município configura-se como um destino turístico consolidado que atrai visitantes de várias partes do mundo (Bispo, 2019). Esse processo intensificou a turistificação do território e afetou os aspectos sociais, ambientais, econômicos e culturais da população local. Como consequência, observa-se a marginalização das culturas indígenas, espetacularização da cultura local, alteração do espaço e das paisagens e a falta de pertencimento da população. Ademais, houve uma desconexão com a noção de cidadania e identidade cultural (Soares, 2016; Bispo, 2019), uma vez que, embora a promoção do turismo em Porto Seguro tenha sido inicialmente vinculada ao Turismo Cultural, a cultura local permanece subvalorizada pelos gestores responsáveis pelas políticas públicas desse território (Oliveira & Cancela, 2020). Este cenário revela que as estratégias de planejamento e desenvolvimento turístico têm priorizado, de modo recorrente, os aspectos comerciais da cultura.

À medida em que a expansão do Turismo pode levar consigo uma série de benefícios para as localidades, como desenvolvimento econômico, geração de emprego, além da valorização do lugar, é importante reconhecer os conflitos culturais, econômicos e políticos, próprios das relações sociais (Malta, 2018). Ressalta-se que o discurso turístico, acentuado pelo colonialismo e visões ocidentais de modernidade, perpetua narrativas coloniais e fortalece uma visão hegemônica e seletiva da história, ocultando os povos indígenas, bem como seus interesses (Grimwood, 2014).

No contexto da globalização, impõe-se discutir uma abordagem decolonial para analisar como o patrimônio cultural é caracterizado e valorizado em Porto Seguro. Diante disso, tem-se como problema de pesquisa: como se manifestam as percepções e práticas turísticas dos gestores e agentes do turismo local no Centro Histórico de Porto Seguro - Bahia, quando analisadas sob a perspectiva decolonial? Fundamenta-se na hipótese de que a ótica decolonial pode ser um caminho para ressignificar o patrimônio cultural de Porto Seguro.

O estudo justifica-se por contribuir com os estudos em Turismo ao problematizar as práticas de gestão, planejamento e mediação turística a partir de uma abordagem crítica e decolonial, ainda incipiente no campo. Porto Seguro configura-se como um caso emblemático, uma vez que é historicamente reconhecido como o “berço do descobrimento” do Brasil, condição que intensifica a reprodução de narrativas e práticas coloniais no turismo local. Nesse sentido, os processos analisados no contexto do silenciamento, da colonialidade e das práticas turísticas permitem refletir sobre dinâmicas semelhantes em outros destinos brasileiros marcados por heranças coloniais.

2 DECOLONIALIDADE E TURISMO

As perspectivas teóricas decoloniais passaram a ser discutidas na América Latina a partir da criação do Grupo Modernidade/Colonialidade (M/C), em 1998, por pesquisadores como Aníbal Quijano, Walter Mignolo, Maldonado-Torres e Catherine Walsh, que promoveram um giro epistemológico ao problematizar a colonialidade, ampliando o debate em torno da decolonialidade e dos estudos pós-coloniais no contexto latino-americano (Ballestrin, 2013; Boukhris & Peyvel, 2019).

Reflexões que problematizam criticamente as questões relativas ao colonialismo, à modernidade, assim como o eurocentrismo. Propõe romper com a lógica colonial persistente nas formas de saber, poder e ser. E busca valorizar saberes e fazeres historicamente silenciados, sobretudo de povos indígenas e afrodescendentes e demais grupos subalternizados (Ballestrin, 2013).

Ratificando a perspectiva de Walsh (2009), a decolonialidade representa uma luta contínua que busca revelar e fortalecer espaços alternativos de existência e saber, fora das estruturas hegemônicas. Propõe uma reflexão sem excluir a influência do passado, uma vez que não é possível desfazer esse período da história, tampouco os impactos causados por ele. Em vez disso, tem em vista propor novas maneiras de ver e vivenciar a realidade. Nesta direção, Mignolo (2017) argumenta que a decolonialidade é uma opção que vai além do âmbito do conhecimento acadêmico, e se torna uma opção, uma escolha de vida, uma abordagem que permeia não apenas as reflexões intelectuais ou acadêmicas, como também as ações e práticas diárias. Ao que cabe acrescentar práticas de consumo, de quem e o que é consumido, o que supõe assumir uma percepção sobre as formas de produção de conhecimento, de saber e de fazer.

Configura-se como um projeto acadêmico-político que tem trilhado seu caminho para além dos muros acadêmicos e se tornado uma realidade, ainda que de modo incipiente, e exige um compromisso crítico e constante de trabalho de (re)construção sobre o que pode ser feito para que seja possível reconhecer, incorporar e valorizar as tradições, o conhecimento e as práticas locais que se distanciam do imaginário eurocêntrico. A partir dessa ótica, abre-se espaço para repensar e reconstruir os modos tradicionais de fazer turismo, em busca de agregar e promover a diversidade de saberes, vozes e experiências historicamente subalternizadas.

A relação entre turismo e decolonialidade tornou-se foco dos estudos críticos do turismo no século XXI, especialmente a partir dos anos 2000. Autores como Everingham et al. (2021), Fazito (2012), Rosas (2023), destacaram como o turismo reproduz dinâmicas e narrativas coloniais, privilegiando grupos e visões hegemônicas. A exemplo do Turismo de Base Comunitária, o Etnoturismo e o Afroturismo, que têm se configurado como alternativas decoloniais, ao promover o protagonismo e suas formas de viver.

Chambers e Buzinde (2015) publicaram o primeiro artigo relacionando o turismo ao pensamento decolonial por um viés crítico. O estudo de Porsani et al. (2024), também parte dessa premissa de pensar a decolonialidade por meio do turismo. Os autores concebem que o etnoturismo pode funcionar enquanto instrumento decolonial ‒ como o exemplo das práticas na Reserva da Jaqueira, em Porto Seguro. Portanto, é partindo dessa premissa que as abordagens decoloniais para o turismo podem ajudar a desconstruir narrativas coloniais no turismo e valorizar os conhecimentos e outras práticas de empoderamento as comunidades presentes no município em estudo.

2.1 O Patrimônio Cultural de porto seguro: perspectivas coloniais e decoloniais

Promovida como “berço do descobrimento” e “terra mãe do Brasil”, Porto Seguro reverbera narrativas coloniais reforçadas por gestores e campanhas de promoção turística. Portadora de um patrimônio originário da ótica nacionalista, prioriza símbolos coloniais, ancorados em uma perspectiva eurocêntrica, visível na arquitetura, edificações históricas, igrejas, nomes de ruas e celebrações.

Os casarios coloridos (Figura 1) são testemunhos de uma história complexa e marcos físicos do colonialismo. A Passarela da Cultura, nomenclatura oficializada pela atual gestão Municipal à antiga Passarela do Descobrimento, popularmente apelidada de Passarela do álcool e as antigas residências foram valorizadas e transformadas para a “fruição turística” (Paes, 2015, p.45), promovendo o surgimento de restaurantes, lojas que comercializam roupas, suvenirs e chaveiros que retratam um pouco da cultura e diversidade identitária, pousadas, barbearias, quiosques e demais estabelecimentos que movimentam a economia local.

Foto 1
Conjunto de casarios na Passarela da Cultura

Todavia, apesar de ações em prol de um resgate à cultural local, a pesquisa identificou silenciamentos históricos que coexistem com processos de resistência cultural. Como exemplo temos a Passarela da Cultura que se configura como um espaço central na construção e consolidação de narrativas e elementos decoloniais. Exemplo de resistência, de sociabilidade e expressão identitária, evidente na comida, no artesanato e no comércio de demais elementos que refletem a cultura local. Entretanto, coexiste neste espaço, conflitos e disputas sociopolíticas de relações de poder que revelam um passado colonial. Cenário que reafirma as ideologias dominantes e expõe como a colonialidade persiste nas dinâmicas capitalistas atuais.

No que diz respeito ao patrimônio imaterial, a cidade expressa a mistura complexa de culturas, tradições, e valores, resultado da miscigenação cultural forçada ocorrida durante a invasão portuguesa em contato com povos indígenas e, posteriormente, com os africanos escravizados. Essa mestiçagem foi parte de um projeto colonial de poder (Tadei, 2002), no qual as práticas culturais indígenas e negras resistem até hoje, apesar de séculos apagamento. Como exemplo das rodas de capoeira; a Lambada, destaque entre as décadas 1980 e 1990 e considerada patrimônio imaterial; o Samba de Couro do distrito de Trancoso1, o Samba indígena Pataxó2, interações etnoterritoriais que foram reconhecidas como patrimônio imaterial em 2022; os festejos de São Brás e os eventos religiosos em devoção aos Santos Católicos como a festa de Nossa Senhora da Pena, uma das principais celebrações religiosas da região, a festa de São Sebastião, com foco nas celebrações do distrito de Caraíva e Trancoso; Nossa Senhora Da Ajuda, no distrito de Arraial d'Ajuda. São João, Santa Bárbara e São Cosme e Damião, que surgiu “na extensa teia do sincretismo entre o catolicismo e as religiosidades afro-brasileiras – tecida por meio de imposições, resistências, adaptações, reinvenções, mortes e renascimentos” (Prado, 2022, p.2,). Tradições que se reafirmam enquanto instrumento decolonial, que reflete as marcas de um processo histórico de resistência cultural e desafios ideológicos, presentes nas comunidades afro-brasileiras, as quais forjaram diversas maneiras de preservar suas crenças e práticas, mesmo diante das imposições religiosas.

Na memória da população ficou a celebração e devoção a São Benedito, fato que comprova a presença e participação da população afro-brasileira em Porto Seguro. De acordo com Moraes Filho (1888), o Cacumbi ou Cucumbi dos escravos era uma congada que reunia negros e negras vestidos de branco, com os rostos pintados de preto, cantarolando toadas africanas e tocando instrumentos. Juntos, passavam pelas casas cantando em homenagem a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito.

Ocorrida anualmente em 27 de dezembro, a partir da década de 1970, observou-se o enfraquecimento da manifestação, culminando no apagamento da celebração. Processo concomitante as transformações urbanas, sociais, econômicas, além de políticas de modernização e turistificação que priorizaram narrativas eurocêntricas (Oliveira & Cancela, 2020). Pode-se perceber a marginalização das celebrações que refletem as práticas e tradições culturais que se apartam da lógica hegemônica. A persistência de estruturas coloniais deslegitima saberes e identidades não hegemônicas, por outro lado, evidencia a importância da abordagem decolonial na valorização das práticas culturais.

Entre as festas e folguedos populares que se esvaíram no tempo encontra-se o Carnaval e o São João; o Bumba-Meu-Boi, a Dança dos Mouros, Contradança de Fitas, Danças dos Bichos, Pastorinha e Reisado as quais devido às transformações sociais e urbanas e à expansão do turismo, permaneceram apenas na memória daqueles que tiveram a oportunidade de vivenciar tais manifestações (Arantes, 2001). A extinção dessas tradições revela uma política de valorização seletiva do patrimônio, marcada por silenciamentos culturais.

O esquecimento e/ou apagamento, consciente ou não, dessas tradições acima mencionadas fazem parte de um processo histórico de apagamento paradoxal, uma vez que permanece na memória coletiva como potencial de resistência à hegemonia cultural. Por sua vez, a perspectiva decolonial revela-se em uma abordagem epistemológica que se propõe dar visibilidade a essas práticas como parte do processo de empoderamento cultural e de preservação da diversidade (Mignolo, 2017). Nesse entorno, a abordagem decolonial e a política sobre o patrimônio cultural podem confluir, abrindo a possibilidade para a valorização de manifestações e tradições culturais antes ocultadas, e também auxiliar para que não sejam fetichizadas, esvaziadas de seu real sentido histórico, perdendo o viés e o potencial decolonial que possuem (Amaral, 2015).

Não se pode deixar de mencionar aqui, a importância da história oral como patrimônio cultural por meio das lendas urbanas. Entre elas, destacam-se as lendas da Cova da Moça e da Índia Inaiá. Esta possui uma escultura situada na Praça Índia Inaiá, onde os visitantes podem contemplá-la. Sendo este o único monumento que reverencia uma figura indígena em Porto Seguro e remete a uma história romantizada e ingênua, enquadrada em um regime de memória dominante, tal como o monumento Iracema, romantizada por José de Alencar, cujo local onde se encontra possui o mesmo nome.

A partir dessa ótica, tais aspectos culturais necessitam ser trabalhados junto ao movimento decolonial como forma de contraponto, ressignificando as narrativas sem deixar espaço para o exotismo ou superficialidade, uma vez que os processos de contato do mundo ocidental com o mundo oriental foram moldados pelo etnocentrismo e pela violência, assim, faz-se necessário trabalhar para descentralizar as epistemologias dominantes e conectar-se a novas formas de ver e viver o mundo.

No que diz respeito aos bens materiais, destacam-se as praças revitalizadas da Passarela da Cultura como a Praça Antônio Carlos Magalhães, a Praça Manoel Ribeiro Coelho, Praça da Bandeira e a Praça do Relógio, que simboliza “uma encruzilhada de temporalidades em que os teatros de poder3 evocam formas ancestrais de dominação para naturalizá-los no corpo e na identidade cultural da cidade” (Pimentel, 2020, p.34). Destaca-se também um dos maiores marcos coloniais: a estátua de Pedro Álvares Cabral, situada na Praça do Descobrimento, símbolo do discurso do “descobrimento do Brasil”.

Apesar das transformações recentes nos processos de preservação e do reconhecimento de grupos historicamente invisibilizados, como afrodescendentes e indígenas (Abreu, 2015), o patrimônio oficial ainda privilegia marcos coloniais. Expressões culturais como o samba de roda, o cucumbi e celebrações religiosas afro-brasileiras têm sido gradualmente marginalizadas. Observa-se, assim, um tensionamento entre a valorização turística e a memória social, marcado por processos de silenciamento e pela necessidade de ações decoloniais que resgatem e valorizem a diversidade cultural local. É oportuno destacar a complexidade cultural que combina aspectos coloniais com as tradições locais, que faz com que o patrimônio de Porto Seguro, assim como a sua história, não possa ser limitado à herança do período colonial.

3 METODOLOGIA

A pesquisa tem como objeto de estudo o Centro Histórico de Porto Seguro. Foi conduzida como estudo de caso de caráter descritivo, crítico, qualitativo e exploratório. Realizaram-se 10 entrevistas semiestruturadas com representantes-chave, agentes endógenos e exógenos do turismo.

Os participantes envolvidos neste estudo foram divididos entre: gestor do Centro Histórico; 4 guias de turismo local, cadastrados no sindicato, cuja atuação se insere no recorte temporal de 1990 até os dias atuais; superintendente da Secretaria Municipal de Turismo; superintendente da Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Patrimônio Histórico; coordenadora do curso de guia de turismo do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC); agência de receptivo local, que também assume o papel de morador; Cacique Pataxó, líder da Aldeia Pataxó de Coroa Vermelha. Inicialmente, buscou-se entrevistar os secretários de cada órgão, mas, diante da indisponibilidade dos mesmos, foram realizadas com os superintendentes.

Os entrevistados foram selecionados por meio da técnica de amostragem não probabilística, permitindo o pesquisador escolher a amostra que considera ser a mais adequada para auxiliá-lo (Dencker, 2001). De acordo com os objetivos de pesquisa, julgou-se condizente a participação dos referidos participantes, dado a expertise e o envolvimento direto com o planejamento, organização e operação do turismo no município e região ou por ser influenciado por ele. O quadro (1) apresenta a justificativa de seleção dos respondentes:

Quadro 1
Participantes da pesquisa e justificativa da seleção

Utilizou-se da pesquisa bibliográfica, que incluiu livros, artigos das bases de dados Scielo e Scopus, além de teses, dissertações e sites do Ministério do Turismo e da Prefeitura Municipal de Porto Seguro. As visitas e observações ocorreram em janeiro de 2024, aproveitando-se da alta temporada de verão e feriados, finalizando em janeiro de 2025. As observações participantes durante a pesquisa de campo tiveram como foco a rotina de atividades dos turistas, dos guias e dos trabalhadores locais, bem como o comportamento deles em geral e a participação nos city tour.

Nesse sentido, as visitas e as observações foram adotadas como instrumentos complementares de coleta de dados, com o objetivo de compreender como o patrimônio cultural é apresentado, mediado e apropriado no contexto das práticas turísticas do Centro Histórico. As observações permitiram registrar elementos relacionados à organização do espaço, às narrativas utilizadas na mediação turística e às interações entre gestores, agentes do turismo e visitantes. Os dados oriundos das visitas e observações foram sistematizados e analisados de forma articulada às entrevistas e à análise documental, contribuindo para a interpretação crítica dos discursos e práticas identificados à luz da perspectiva decolonial adotada na pesquisa.

A análise dos dados fundamentou-se em duas técnicas, aplicadas de forma complementar: Análise de Conteúdo (AC) na perspectiva de Bardin (2011), técnica que ajuda a compreender os fenômenos complexos em suas diferentes formas de comunicação. Seja em relação ao patrimônio cultural ou a outros elementos que se configuram no cenário em estudo. Recorreu-se à AC para analisar os elementos materiais e imateriais do patrimônio cultural. A análise se desenvolveu em quatro fases: pré-análise, na qual foi realizada a identificação e seleção das fontes primárias e secundárias relacionadas aos elementos do patrimônio cultural e às práticas turísticas no Centro Histórico de Porto Seguro; em seguida, foi realizado o mapeamento dos elementos materiais e imateriais do patrimônio cultural local. A terceira etapa consistiu na análise e interpretação dos significados, valores e símbolos dos elementos materiais e imateriais, explorando como eles refletem e expressam a identidade cultural local. A quarta fase compreendeu o tratamento, a inferência e a interpretação dos dados (Bardin, 2011).

De forma complementar, utilizou-se a Análise do Discurso (AD) formulada por Orlandi (2009), por se tratar de um processo discursivo de significação histórica do município de Porto Seguro envolvendo os seus interlocutores no contexto social e ideológico. Diante disso, foram examinadas as falas dos gestores e agentes locais do turismo, com o objetivo de identificar indícios decoloniais nas práticas e estratégias adotadas no planejamento e desenvolvimento do turismo. A análise buscou elementos que pudessem revelar uma mudança de paradigma nas práticas turísticas, a fim de conectar-se com a valorização e a ressignificação cultural. Uma vez realizadas as entrevistas, elas foram transcritas e organizadas para as ações de codificação e categorização. Para tais ações, depois de codificadas por ordem de realização (E1, E2…), foram trabalhados temas, frases e palavras-chave associados à decolonialidade, com base nos escritos de autores que compõem o Grupo Modernidade/Colonialidade (M/C).

Conforme as entrevistas, foram agrupados os trechos que mais se relacionavam aos objetivos da pesquisa. Verificaram-se os trechos que demonstraram resistência ou desafio às estruturas coloniais de poder, incluindo discursos que reivindicaram a autonomia cultural, defenderam a valorização do conhecimento e tradições locais e promoveram outras perspectivas para o turismo, tendo como base a decolonialidade. Foram analisadas as perspectivas de conhecimento e a narrativa local, com foco nas referências ao conhecimento, às práticas e saberes tradicionais e ao contexto no qual foram proferidas: percepções sobre as formas de conhecimento, cultura e histórias marginalizadas, bem como as valorizadas. Por fim, foram observadas expressões e falas que indicaram a desconstrução e ressignificação de narrativas hegemônicas, como, por exemplo, a questão do Descobrimento e a colonização portuguesa.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.1 City tour - roteiro em grupo e privado

Buscou-se, por meio das observações realizadas durante o roteiro, identificar como o roteiro era apresentado, quais atrativos e elementos destacados, as referências utilizadas e os personagens históricos locais mencionados, assim como o comportamento e a fala dos guias e dos turistas. As percepções, práticas e discursos dos guias de turismo, em muitos casos, reproduzem a história contada pelos livros e pelo que é considerado oficial, negligenciando, assim, a trajetória de determinadas populações (Martins, 2022).

O roteiro em grupo com a agência foi realizado no dia 19 de outubro de 2024, às 7h50. O grupo era composto por 16 pessoas, majoritariamente brancas, oriundas das regiões Sul e Sudeste do Brasil. O tour iniciou a apresentação em um local que tem como marco a apresentação de uma caixa d’água que exibe um trecho da carta de Pero Vaz de Caminha. O guia explicou ao grupo que seus relatos estavam alinhados a livros de historiadores baianos e de Porto Seguro. Informou também que o passeio duraria cerca de uma hora, com explicações breves, já que o grupo seguiria para a praia em seguida. Após essa introdução, o passeio prosseguiu em direção a uma árvore de pau-brasil. Nesse ponto, o guia mencionou a extração da madeira pelos portugueses para fins comerciais, mas logo corrigiu o termo para “pegar emprestado”, o que gerou risos. O City Tour tem como foco as histórias dos monumentos dos séculos XVI a XVIII, como as igrejas, o Marco de Posse e o conjunto de casas coloridas. Durante o percurso, são abordados tanto o passado histórico e colonial quanto as informações mais recentes sobre o local. O roteiro também inclui a degustação de cocadas e uma apresentação de capoeira.

Ao longo do trajeto, não houve perguntas ou pausas fora do previsto. De acordo com o guia, ao final do tour o grupo seria liberado para tirar fotos, entrar nas igrejas – pois durante o passeio apenas foi possível visualizar apenas a parte externa –, bem como para realizar compras nas barracas e lojas de suvenires. Como última etapa do passeio, o grupo visitou uma barraca de cocadas típicas e de chocolates artesanais produzidos com cacau. Nessa parada, o guia incentivou os turistas a provar o cacau em suas diferentes formas e a degustar as cocadas. Durante a demonstração de produtos locais, incentivou o grupo a cantar uma música relacionada à temática da escravidão, o que revela a naturalização de práticas problemáticas no contexto turístico.

Situação típica que demonstra como o turismo é parte fundamental de um sistema que reproduz estruturas coloniais de poder e de saber, ao passo que abre espaço para uma análise que corrobora decolonizar tais atitudes e práticas. A naturalização destas carregam significados e simbologias históricas que denotam a continuidade da colonialidade e a maneira como são moldadas as relações culturais e sociais no contexto turístico. Faz-se importante questionar atitudes que costumam ser normatizadas e naturalizadas por guias e turistas. Tendo em vista que muitos ainda não conhecem a ótica decolonial e que no nosso ponto de vista ela emerge como uma ferramenta que possibilita romper com padrões e princípios epistemológicos coloniais.

Em relação ao roteiro privativo, este foi realizado com uma guia nativa de Porto Seguro, que possui 15 anos de experiência e residente no Centro Histórico. Durante o passeio, a guia comentava sobre os monumentos e também compartilhava histórias pessoais de sua infância e juventude na antiga vila. Na juventude, chegou a participar de celebrações promovidas pelos moradores, como a Puxada de Rede, a Marujada, os Mascarados e a Festa dos negros, realizados em janeiro, no dia de São Benedito. Segundo a mesma, essas tradições se perderam ao longo do tempo, principalmente por questões políticas, já que os gestores locais não ofereciam espaço nem incentivo para os grupos culturais da cidade.

Foi possível visitar todos os monumentos que estavam abertos. Além disso, conhecer algumas figuras marcantes do Centro Histórico, como a vendedora de acarajé mais antiga do Centro Histórico, que mantém sua barraca há 30 anos. A análise sobre os roteiros, verificou-se que ambos evidenciaram uma diferença entre as vivências em grupo e de maneira privativa. O passeio em grupo revelou um discurso comercial padronizado, ao passo que o roteiro privativo proporcionou uma experiência mais imersiva e conectada à cultura local.

Sobre o discurso do guia contratado pela agência de receptivo responsável pelo city tour em grupo, este comentou que, nos últimos cinco anos, tem buscado adaptar e modificar sua abordagem para atender às mudanças da demanda turística. No entanto, destacou as dificuldades enfrentadas, especialmente quando os passeios são em grupo, pois, segundo ele, muitos turistas demonstram pouco interesse pelo passeio cultural, priorizando outras atividades.

Seguindo o roteiro, um dos responsáveis pela agência de receptivo (entrevistado 8) apontou que, em geral, as agências não têm como prioridade a promoção de passeios culturais, partindo da percepção de que os visitantes buscam predominantemente “festas, badalação e praia”. Assim, evidencia o desafio de valorizar e promover a cultura do destino dentro de um modelo turístico amplamente voltado ao lazer e ao entretenimento.

A guia do passeio privado (entrevistada 10) relatou que atende grupos do segmento de turismo pedagógico, então adapta seu discurso para esse público. Durante suas explicações, busca enfatizar as contribuições e participações dos povos indígenas e negros na história de Porto Seguro, na tentativa de descontruir a exaltação aos invasores portugueses. Contudo, apesar do esforço para ajustar o discurso, para torná-lo mais alinhado com uma perspectiva atual e decolonial, ainda foi possível identificar falas com fragmentos de narrativas coloniais, como a afirmação de que “a colonização teria trazido coisas boas também”.

Os relatos sobre manifestações culturais que contavam com a participação e organização de negros escravizados e libertos, como a festa de São Benedito e a Marujada, revelam o distanciamento e o silenciamento dessas informações em relação à população. Nesse contexto, os conceitos de colonialidade do poder, do saber e do ser oferecem contribuições importantes para compreender esse distanciamento e os fatores que levaram ao seu enfraquecimento, e, em seguida, à extinção dessas celebrações. O enaltecimento da lógica eurocêntrica, centrada na valorização de saberes e tradições europeias, contribuiu para a subalternização dos conhecimentos e tradições das culturas afro-brasileiras, que foram historicamente marginalizadas por não se alinharem ao ideal colonial (Quijano, 2007; Maldonado-Torres, 2009; Mignolo, 2020).

4.2 Narrativas de Porto Seguro como destino turístico

Com a consolidação do turismo como principal atividade econômica, Porto Seguro se consolidou como um destino voltado ao turismo de massa, com forte apelo ao segmento de sol e praia. Apesar da presença dominante dos turistas de massa, tem-se observado, aos poucos, a diversificação do perfil e do interesse dos visitantes, ainda que sol e praia sejam os centrais. A entrevistada 2, superintendente da Secretaria de Turismo e guia atuante na região há 26 anos, relatou que ao longo dos últimos anos, tem-se percebido mudanças significativas no perfil dos visitantes. O destino antes fortemente associado a festas, passou a atrair um público diverso e familiar.

A entrevistada 1 observou que, após a pandemia da Covid-19, houve um aumento no interesse dos visitantes pela cultura e história local, ainda que o turismo de sol e praia continue predominantes – percepção que também é apontada por Soares et al. (2020), ao analisarem as mudanças no comportamento do turista. Segundo ela, embora o interesse inicial esteja centrado no turismo de sol e praia, a mediação dos guias permite que os visitantes adquiram uma nova compreensão sobre o destino, valorizando a oportunidade de enxergar o lugar sob “outro olhar” (Entrevistada 1).

Durante a pesquisa, foi possível constatar a carência de políticas públicas consistentes para a conservação do patrimônio histórico e cultural. Apesar do interesse pela cultura local, os museus enfrentam questões estruturais que comprometem a visitação e valorização do patrimônio. Os dois museus do Centro Histórico permanecem fechados, um deles voltou a ser reaberto apenas para exposições. O museu de Arte Sacra, por sua vez, passou por reformas devido às condições inadequadas de preservação. Tais fatores comprometem a experiência do visitante, assim como a valorização da história local.

Sobre o fechamento dos museus, os guias entrevistados lamentaram a situação e destacaram os impactos negativos na dinâmica das visitações. O entrevistado 7, guia desde 2001, relatou que, em alguns casos, a situação se torna constrangedora, especialmente ao atender grupos de turistas interessados em conhecer a história local e explorar os museus e as igrejas. O fechamento desses espaços, portanto, compromete a experiência cultural e histórica do visitante e reduz a possibilidade de conexão mais profunda com o patrimônio.

O gestor do Centro Histórico destacou a urgência da reabertura dos museus como uma medida para impulsionar o turismo e aumentar a visitação no local. Diante do contexto, o superintende da cultura afirma que todas as medidas para a reabertura dos equipamentos estão sendo implementadas desde o início da atual administração municipal, a qual iniciou o seu mandato em janeiro de 2021.

O superintende descreveu o estado lamentável dos equipamentos, mencionando que o Museu de Arte Sacra e o antigo Museu do Descobrimento, atual Museu de Porto Seguro, estavam ambos abandonados, deteriorados, com a “museografia e expografia ultrapassadas, sem conceito museológico e com todo seu patrimônio arquitetônico depreciado” (Entrevistado 3, 2024), e enfatizou a necessidade de mantê-los fechados.

Para além das reformas estruturais, foi desenvolvido um novo conceito museológico, o qual, segundo o entrevistado 3, incorporou a participação da comunidade local em uma audiência pública, considerado por ele um grande avanço. O objetivo foi ouvir e acolher as demandas da comunidade para o novo planejamento conceitual e expográfico do museu. Segundo o superintendente, busca romper o discurso colonial do “descobrimento”, valorizar a construção histórica local e incluir as vozes da comunidade, especialmente a indígena.

Os museus ainda não estão totalmente abertos para visitação, houve apenas uma exposição temporária de 3 meses no Museu de Porto Seguro, em seguida, foi fechado novamente, permanecendo assim desde setembro de 2024, quando foi reaberto para outra exposição. O fechamento compromete a integridade dos equipamentos e põe em risco o acervo histórico e cultural. O gestor do Centro Histórico ressaltou os desafios para gerir o espaço e como eles têm afetado a experiência turística, bem como da burocracia política para a aprovação de leis e captação de recursos. Segundo o entrevistado 6, existe uma preocupação para a reabertura dos museus, que é solicitada por todos, inclusive pela associação dos guias.

Os relatos indicam que há uma demanda significativa pela reabertura e funcionamento dos museus do Centro Histórico, pois, além de prolongar o tempo de permanência dos visitantes, estimula o consumo local. O fechamento dos museus é uma perda cultural e econômica, afeta a experiência turística e aos os moradores e trabalhadores que dependem do fluxo de turistas. A ausência desses espaços também reforça a fragilidade na preservação da memória coletiva e impede que a riqueza cultural seja verdadeiramente aproveitada, valorizada e promovida.

Atualmente, observa-se que os gestores municipais de turismo têm buscado explorar as potencialidades do destino, incluindo a valorização dos distritos e promoção de novas práticas e diversificação de segmentações turísticas. Sobre o tema, a superintendente de Turismo destacou que o local tem promovido o turismo náutico, esportivo, religioso, gastronômico e de eventos, além de reforçar os aspectos culturais do destino.

Dentre as segmentações e experiências citadas, destaca-se também o turismo rural, de aventura e natureza. De acordo com a Superintendente de turismo e o Superintendente da cultura, tem sido primordial a promoção de ações de incentivo voltadas para a cultura, com foco na cultura indígena. Segundo dados da Secretaria de Planejamento e Assuntos Econômicos da Bahia (SEPLAN), o Estado da Bahia tem a segunda maior população indígena do país. Dos municípios delimitados, Porto Seguro possui 5.117 indígenas (SEPLAN, 2023).

A gente valoriza muito isso. Tanto é que o slogan da nossa gestão é o “Brasil nasceu aqui” e o símbolo são três penas. (Entrevistada 2, 2025).

O que desperta mais interesse dos turistas é a cultura indígena, embora tenha todo o peso do descobrimento (Entrevistada 1, 2025).

No campo prático das ações, o relato da entrevistada 2 evidencia lacunas e gera questionamentos ao observar o desenvolvimento de medidas voltadas para a cultura indígena. Apesar das iniciativas pontuais, a valorização cultural e identitária dos povos indígenas ainda precisam avançar de forma substancial, tanto em termos de ações concretas quanto na abordagem e no discurso adotado. A presença indígena, muitas vezes, permanece vinculada à lógica da narrativa eurocêntrica do “descobrimento” do Brasil, perpetuando um imaginário que reforça a subalternização das culturas originárias. Diante desse contexto, para o entrevistado 3 (2025), é fundamental repensar a abordagem histórica e cultural em Porto Seguro:

A gente não pode mais ficar exaltando essa questão do descobrimento [...] é um tema que tem as suas contradições [...] O que é mais interessante aqui são os seus elementos patrimoniais [...] a própria cultura instalada é uma seara que a gente precisa estar cada vez mais desenvolvendo, porque mostra uma cidade que às vezes o próprio turista não consegue enxergar [...] (Entrevistado 3, 2025).

Desvencilhar-se da história construída a partir desse fato disseminado até os dias atuais é uma tarefa basilar e urgente, embora desafiadora. A presença cultural e histórica dos povos indígenas, muitas vezes, se limita a momentos pontuais e comemorativos. Ter como símbolo as penas utilizadas pelos indígenas, conforme destacado pela entrevistada 2, nesse contexto, pouco contribui, dado o limitado significado atribuído a elas. A ausência de iniciativas de fato efetivas e contínuas por parte do poder público é criticada por líderes locais, como aponta o entrevistado 9:

Os indígenas aqui só são vistos em 22 de abril, quando os gestores municipais querem contar essa narrativa do Descobrimento do Brasil, que precisa da presença indígena. Além disso, não se tem mais nada [...] no decorrer desse tempo, e a falta de iniciativas públicas, as comunidades tomaram as suas próprias iniciativas de estar mostrando a sua cultura (Entrevistado 9, 2025).

Batistella (2020) relembra a fatídica celebração dos 500 anos do “descobrimento”, marcada por violências e repressão contra os povos indígenas, que se manifestaram em protesto ao descobrimento e na busca por formas de concretização de pautas para o futuro, sobretudo no que dizia respeito ao direito à terra. Todo o ato só deixou ainda mais evidente a marca da colonialidade em Porto Seguro, que forjou toda uma narrativa histórica performática ao encenar indígenas Pataxós como atrações exóticas. A realidade do turismo local desvela a tendência de supervalorizar a narrativa histórica colonial. Diante do panorama, é interessante observar como isso se reflete na visitação dos espaços, dos atrativos turísticos e na relação dos turistas com o patrimônio cultural do município.

4.3 Análise e elementos decoloniais nas práticas turísticas

As entrevistas revelaram duas questões centrais: a presença incipiente de elementos decoloniais no discurso e a predominância de práticas ainda baseadas em logicas colonialistas. Evidenciou-se a tentativa de integrar aspectos culturais locais como parte do atrativo turístico, na busca de promover um turismo mais representativo. Ademais, observaram-se a preocupação com a inclusão dos distritos e a promoção de atividades que resgatassem práticas locais.

Embora de modo incipiente, identificaram-se os esforços para transmitir narrativas fidedignas, valorizando a perspectiva e a vivência dos moradores locais, em oposição à mera reprodução de histórias baseadas em uma visão colonial. Abordagem que dialoga com os princípios decoloniais, ao tentar propor a ruptura com as narrativas hegemônicas e mantém a procura contínua pelo equilíbrio entre o turismo comercial e a preservação cultural. O quadro a seguir identifica os fragmentos do discurso alinhados à decolonialidade nas práticas turísticas atuais dos gestores e agentes do turismo:

Quadro 2
Análise das narrativas: elementos e evidências decoloniais

Os relatos revelam um conflito entre as tentativas de ruptura com a lógica colonial e a permanência de elementos tradicionalmente promovidos, como a narrativa do descobrimento, ainda presentes no turismo local. A adoção de práticas decoloniais envolve decisões políticas e integração institucional. Em Porto Seguro, essa articulação ainda não se efetivou, evidenciando o distanciamento entre a Secretaria de Cultura e a de Turismo. Apesar dos esforços da Secretaria de Cultura na tentativa de adotar uma perspectiva decolonial, a Secretaria de Turismo segue uma direção oposta, o que dificulta o desenvolvimento de outras possibilidades de turismo. É evidente a relação com a persistência da colonialidade do poder (Quijano, 2007), que se reflete nas estruturas de governança e nas práticas políticas locais. Observa-se que o turismo, embora envolva interesses econômicos, demanda uma abordagem também pedagógica e sociológica, crítica e voltada à valorização cultural.

Mediante o contexto, os resultados evidenciam que, embora o patrimônio cultural seja recorrentemente mobilizado no discurso turístico local, sua apropriação ocorre de forma seletiva, priorizando elementos materializáveis e comercializáveis em detrimento dos saberes, práticas e modos de fazer que constituem o patrimônio cultural intangível. Tal constatação dialoga com as reflexões de Grimwood (2014), ao apontar que as narrativas turísticas, ancoradas em visões ocidentais e coloniais, tendem a silenciar sujeitos e conhecimentos locais, bem como com Malta (2018), ao destacar os conflitos socioculturais inerentes aos processos de turistificação. Nesse sentido, os achados da pesquisa reforçam o entendimento de que o turismo cultural orientado por lógicas mercadológicas, contribui para a marginalização de saberes tradicionais e restringe a participação efetiva das comunidades locais na construção das narrativas sobre o patrimônio, o que evidencia a permanência de práticas coloniais na gestão e mediação turística.

5 CONCLUSÃO

A pesquisa revelou uma ausência efetiva de diálogo entre os gestores e os agentes do turismo local, refletida na divergência entre os discursos e práticas das Secretarias de Cultura e Turismo. Ao passo que a Secretaria de Cultura demonstra compreender a importância de incorporar perspectivas alinhadas a um discurso decolonial, a Secretaria de Turismo, por meio de suas ações e narrativas, enfatiza que a cidade já possui estratégias de valorização de todas as culturas, promovendo uma imagem de acolhimento que, na prática, não questiona as estruturas coloniais veladas.

Entre os guias de turismo entrevistados, alguns destacaram iniciativas para adaptar suas abordagens, tentando distanciar-se, ainda que de forma parcial, das narrativas hegemônicas enraizadas. Essas iniciativas, embora pontuais, respondem a um novo perfil de público, mas ainda são restritas a ações individuais.

Apesar da forte presença de símbolos coloniais no espaço urbano e no discurso turístico, identificou-se também expressões de resistência cultural e identitária evidente na comida, no artesanato e no comércio local. Contudo, com base nas análises, verificou-se que os elementos culturais são frequentemente apresentados por uma perspectiva que privilegia a história tida como oficial, contada nos livros, enviesada pela visão eurocêntrica, e mantém em segundo plano a presença e as contribuições dos povos originários e afro-brasileiros. Os marcos físicos do colonialismo reforçam essa lógica ao serem promovidos como principais pontos de relevância e atrativos turísticos, vinculados a uma ideia de “descobrimento” e de “civilização”.

Foi possível inferir que essa abordagem reflete um processo de construção identitária e cultural que ainda é notadamente influenciada por valores coloniais, fato que contribui para a manutenção de uma narrativa que invisibiliza outros agentes históricos. É necessário ampliar a representação do patrimônio cultural, valorizar saberes e memórias que expressem diversidade cultural e questionem as estruturas coloniais persistentes na forma como Porto Seguro é pensada e promovida como destino turístico.

A análise das narrativas dos gestores municipais e dos agentes locais do turismo destacaram fragmentos que compreendem a importância de romper com as estruturas de poder e saber impostas pelo colonialismo e a valorização e integração de narrativas e práticas culturais indígenas e afro-brasileiras que foram historicamente marginalizadas. Contudo, não há uma articulação ou diálogo entre os gestores e agentes que efetivamente promova um outro modo de ver o Centro Histórico sob a ótica decolonial.

À luz do exposto, demonstrou-se o valor da decolonialidade como caminho para ressignificar o patrimônio cultural de Porto Seguro, atestando a necessidade do protagonismo comunitário, sobretudo das comunidades tradicionais. Além disso, reforça a necessidade de decolonizar o saber por meio de ações educativas voltadas para a valorização de saberes subalternos, fortalecendo o patrimônio cultural e valorizando tradições culturais indígenas e afro-brasileiras em um território historicamente marcado por narrativas coloniais.

Promover o turismo pela lente decolonial é um desafio contínuo, ainda distante das prioridades da gestão pública. Apesar dos esforços individuais, as ações são fragmentadas e limitadas e carece de uma articulação maior entre a comunidade, o poder público e o trade turístico. É urgente e necessário repensar a formação educacional dos guias de turismo e demais prestadores de serviços turísticos, as políticas públicas multi e intersetoriais, bem como o conteúdo do material promocional do turismo. Ainda, a concretização de um compromisso e diálogo sólido por parte das políticas públicas e do setor turístico local.

Esta pesquisa investigou a relação entre a vertente decolonial, o patrimônio cultural e o turismo, revelando uma lacuna entre as temáticas estudadas. Nesse sentido, este artigo contribui para o avanço e a ampliação dos estudos sobre o tema, além de fortalecer os estudos decoloniais no campo do turismo. Ratifica-se que esta pesquisa contribui como fonte de dados para gestores, agentes, a comunidade e outras cidades que se proponham a compreender e incorporar um processo de gestão e planejamento associado a ações e práticas decoloniais no turismo e no patrimônio. Ademais, é uma possibilidade de ser utilizada por pesquisadores.

Espera-se que os resultados apresentados possam contribuir para o debate sobre o movimento decolonial e para o desenvolvimento das práticas de gestão do turismo por parte dos gestores e agentes locais, a fim de promover novas perspectivas para a atividade turística e o patrimônio cultural local. Assim, destaca-se que o estudo se concentrou em um recorte espacial e institucional específico, o que não esgota a complexidade das relações entre turismo, patrimônio cultural e colonialidade em outros contextos e a possibilidade de serem igualmente explorados.

Quanto a pesquisas futuras, é possível ampliar o escopo metodológico e incorporar outros atores sociais, como comunidades locais, representantes de grupos tradicionais e turistas, bem como adotar estratégias comparativas entre diferentes destinos turísticos. Além disso, recomenda-se analisar em que medida o discurso decolonial tem avançado ou permanecido estagnado nas práticas turísticas.

AGRADECIMENTOS

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001, por meio da bolsa demanda social com duração de trinta e seis meses.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Todos os dados relevantes estão disponíveis no texto.

REFERÊNCIAS

Editado por

  • Editora
    Maria Henriqueta Sperandio Garcia Gimenes Minasse.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    03 Nov 2025
  • Aceito
    30 Mar 2026
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