Open-access Sustentabilidade em festivais de música: uma revisão sistemática baseada no framework TCCM

Sostenibilidad en festivales de música: una revisión sistemática basada en el marco TCCM

Sustainability in Music Festivals: A Systematic Review Based on the TCCM Framework

Resumo

Os festivais de música configuram-se como uma indústria em expansão no setor do turismo, sendo reconhecidos como promotores de consumo e economia ambiental e socialmente responsável. Contudo, promover sustentabilidade nesses festivais ainda é um desafio, sobretudo devido à necessidade de aprofundamento do conhecimento sobre iniciativas sustentáveis padronizadas no setor. Dessa forma, este estudo tem como objetivo analisar como a sustentabilidade tem sido investigada no contexto dos festivais de música. Para tanto, foi realizada uma Revisão Sistemática da Literatura, fundamentada na metodologia TCCM (Teoria, Contexto, Característica e Métodos). Os resultados indicam um cenário teórico ainda fragmentado e disperso; a presença de contextos configurados por temáticas relevantes e interdependentes, mas ainda pouco exploradas em muitos países; características que articulam aspectos ambientais, sociais, econômicos e comportamentais nas pesquisas; uma predominância de abordagens qualitativas nas metodologias; além de direções para pesquisas futuras concentradas nas sugestões de ampliação teórico-metodológica para investigar o campo. Conclui-se que os estudos carecem de maior rigor na aplicação de teorias e que a integração entre métodos qualitativos e quantitativos podem favorecer a validação dos resultados das pesquisas. Ademais, as características identificadas nas pesquisas podem orientar gestores e organizadores de eventos na elaboração de estratégias sustentáveis mais eficazes e integradas.

Palavras-chave
Festival; Sustentabilidade ambiental; Pesquisa científica

Abstract

Music festivals are configured as an expanding industry within the tourism sector, recognized as promoters of consumption and an environmentally and socially responsible economy. However, promoting sustainability at these festivals remains a challenge, primarily due to the need for deeper knowledge regarding standardized sustainable initiatives in the sector. Thus, this study aims to analyze how sustainability has been investigated in the context of music festivals. To this end, a Systematic Literature Review (SLR) was conducted, based on the TCCM methodology (Theory, Context, Characteristics, and Methods). The results indicate a theoretical landscape that is still fragmented and dispersed; the presence of contexts shaped by relevant and interdependent themes that are still underexplored in many countries; characteristics that articulate environmental, social, economic, and behavioral aspects in the research; a predominance of qualitative approaches in the methodologies; in addition to directions for future research focused on suggestions for theoretical-methodological expansion to investigate the field. It is concluded that the studies lack greater rigor in the application of theories and that the integration between qualitative and quantitative methods can favor the validation of research findings. Furthermore, the characteristics identified in the research can guide managers and event organizers in developing more effective and integrated sustainable strategies.

Keywords
Festival; Environmental Sustainability; Scientific research

Resumen

Los festivales de música se configuran como una industria en expansión en el sector turístico, siendo reconocidos como promotores de consumo y economía ambiental y socialmente responsable. No obstante, fomentar la sostenibilidad en estos festivales sigue siendo un desafío, sobre todo debido a la necesidad de profundizar el conocimiento sobre iniciativas sostenibles estandarizadas en el sector. De esta forma, el presente estudio tiene como objetivo analizar cómo se ha investigado la sostenibilidad en el contexto de los festivales de música. Para ello, se llevó a cabo una Revisión Sistemática de la Literatura (RSL), fundamentada en la metodología TCCM (Teoría, Contexto, Característica y Métodos). Los resultados indican un escenario teórico aún fragmentado y disperso; la presencia de contextos configurados por temáticas relevantes e interdependientes, pero aún poco exploradas en muchos países; características que articulan aspectos ambientales, sociales, económicos y conductuales en las investigaciones; un predominio de enfoques cualitativos en las metodologías; además de direcciones para futuras investigaciones concentradas en la sugerencia de ampliación teórico-metodológica para investigar el campo. Se concluye que los estudios carecen de mayor rigor en la aplicación de teorías y que la integración entre métodos cualitativos y cuantitativos puede favorecer la validación de los resultados de las investigaciones. Además, las características identificadas en las investigaciones pueden orientar a gestores y organizadores de eventos en la elaboración de estrategias sostenibles más eficaces e integradas.

Palabras clave
Festival; Sostenibilidad ambiental; Investigación científica

1 INTRODUÇÃO

A indústria de festivais de música é um setor em crescimento na área do turismo (Welthagen & Lötter, 2020). Os festivais são vistos como construções sociais que moldam as expectativas das pessoas em termos de programação e organização, oferecendo uma gama de celebrações culturais que refletem mudanças econômicas e socioculturais globalizadas (Getz & Andersson, 2008; Crespi-Vallbona & Richards, 2007).

Esses festivais produzem benefícios para as comunidades anfitriãs (Jones, 2014), como o fortalecimento da imagem do destino, combate à sazonalidade, diversificação econômica e atração de visitantes (Kruger & Saayman, 2019). Além disso, podem construir um legado duradouro (Pérez-Gálvez et al., 2017) por meio da articulação e comunicação de valores compartilhados entre os participantes.

Organizar um festival de sucesso requer compreender as motivações do público e desenvolver estratégias de marketing para atrair diferentes grupos (Jani & Philemon, 2016). Isso inclui a criação de ações que contemplem o bem-estar dos participantes; a realização de campanhas educativas relacionadas à sustentabilidade; o respeito e a valorização das comunidades anfitriãs; e a preservação do ecossistema local. Nesse sentido, compreender o comportamento do público, as práticas adotadas pelas marcas e a gestão ambiental dos eventos é essencial para construir modelos mais conscientes, que aliem entretenimento, desenvolvimento socioambiental e compromisso com o futuro.

Embora a sustentabilidade em festivais de música venha ganhando atenção na produção científica, o campo ainda carece de uma consolidação teórica que permita compreender de forma integrada como esse fenômeno tem sido conceituado, operacionalizado e analisado. Os estudos existentes apresentam abordagens teóricas fragmentadas, frequentemente aplicadas de maneira pontual ou implícita, o que dificulta a construção de um corpo teórico consistente e cumulativo.

Do mesmo modo, observa-se a ausência de sistematizações que organizem as teorias, contextos, características e métodos empregados nas pesquisas, limitando a identificação de padrões, convergências e lacunas do conhecimento. Diante dessa dispersão conceitual, torna-se necessária a realização de uma Revisão Sistemática da Literatura que mapeie, organize e analise criticamente o estado da arte, contribuindo para o aprofundamento teórico e para a orientação de pesquisas futuras sobre sustentabilidade em festivais de música.

Até a realização deste estudo, identificou-se a revisão de literatura dedicada especificamente à temática da sustentabilidade em festivais, conduzida por Zifkos (2015), cujo objetivo central foi problematizar o fenômeno dos chamados “festivais sustentáveis”, revisando criticamente as práticas adotadas no setor e oferecendo uma leitura de caráter predominantemente ideológico e normativo. Já na revisão realizada por Gohoungodji & Nabil (2024) foi sistematizado o conhecimento sobre práticas verdes em festivais de música, definindo-as como ações estratégicas para a promoção da sustentabilidade. Neste estudo, os resultados organizam os fatores influenciadores em grupos distintos, abrangendo desde o comportamento individual e a gestão de materiais até o impacto das redes de colaboração (networking) e das exigências legais e sociais.

Em contraste, a presente pesquisa amplia e atualiza esse debate ao realizar uma Revisão Sistemática de Literatura abrangente, baseada em protocolos metodológicos rigorosos (PRISMA) e estruturada a partir do framework TCCM, permitindo mapear de forma integrada os referenciais teóricos, os delineamentos metodológicos, os contextos investigados e as principais contribuições empíricas do campo. Dessa forma, este estudo atualiza a literatura posterior a 2015 e avança ao oferecer uma análise transversal e estruturante do conhecimento produzido, contribuindo para a consolidação teórica da área e para a identificação de lacunas analíticas e direções mais precisas para pesquisas futuras.

Desse modo, o objetivo desta pesquisa é analisar como a sustentabilidade tem sido investigada no contexto dos festivais de música. Para tanto, foi realizada uma Revisão Sistemática da Literatura para categorizar os achados, fundamentada na metodologia TCCM correspondente à Teoria, Contexto, Característica e Métodos (Paul & Rosado-Serrano, 2019; Polat et al., 2024; Sharma et al., 2022; Pandey et al., 2024).

Ao identificar os principais aportes teóricos, contextos geográficos, características das investigações e métodos empregados nas pesquisas, buscou-se oferecer uma visão ampla e crítica sobre o estágio atual do conhecimento nessa área. Dessa forma, espera-se contribuir para o avanço da discussão acadêmica e auxiliar gestores, pesquisadores e demais stakeholders na promoção de eventos culturalmente significativos e ambientalmente responsáveis.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 Festivais de Música na construção identitária

A partir do século XX, a música contemporânea passou a funcionar como um incentivo à conexão entre diferentes classes sociais (Kruger & Saayman, 2019; Christou et al., 2018). O marco desses festivais foi nas décadas de 1960 e 1970, com eventos como o Monterey Pop Festival e o Woodstock, ambos nos Estados Unidos. O Monterey Pop International, realizado em junho de 1967, na Califórnia, teve como objetivos celebrar a música pop e rock emergente, lançar as carreiras de novos artistas e promover ideais de paz e amor durante o Summer of Love. O evento foi beneficente e introduziu inovações na organização de festivais, incluindo som de alta qualidade e filmagem profissional (Madden, 2022). Já o Woodstock Music & Art Fair, realizado em 1969 em Nova York, surgiu em meio a Guerra do Vietnã e o movimento dos direitos civis, representando um protesto pacífico, um símbolo da contracultura (Partin, 2020) e uma resposta à desilusão da população com o governo e instituições tradicionais (Mariuzzo, 2009).

Tais eventos foram uma conquista para aqueles que buscavam um espaço para expressar sua identidade, pensamentos e modos de agir (Ruas, 2013). Por isso, esses eventos continuam a influenciar movimentos culturais e sociais contemporâneos, enfatizando a importância da diversidade, inclusão, responsabilidade social e consciência coletiva.

2.2 Festivais de música e Sustentabilidade

A crescente preocupação com produtos verdes intensifica a tendência global para o consumo sustentável (Lin & Zhou, 2022). Consequentemente, as empresas estão sendo forçadas a mudar o comportamento em relação às preocupações com o meio ambiente (Wu et al., 2017) e estabelecer operações comerciais ecologicamente corretas.

No cenário atual, a marca verde tem funcionado como um recurso estratégico para fortalecer a imagem empresarial (Mehraj et al., 2023), aumentar os benefícios competitivos e o desempenho financeiro (Anser et al., 2021; Pham et al., 2019; 2022; Usman et al., 2023). No setor de eventos, os organizadores também estão seguindo a tendência das empresas que implementam iniciativas sustentáveis.

Segundo Henderson (2011), a sustentabilidade no contexto do turismo e dos festivais de música envolve tanto a maximização dos benefícios quanto a minimização dos impactos negativos, incluindo aspectos ambientais, econômicos e socioculturais, alinhando-se ao conceito de triple bottom line (TBL), que abrange as três dimensões fundamentais da sustentabilidade (Laing & Frost, 2010). Porém, promover a sustentabilidade em eventos ainda é um desafio, sobretudo devido à necessidade de aprofundamento do conhecimento sobre iniciativas sustentáveis padronizadas (Dodds & Walsh, 2018).

Com o objetivo de qualificar e tornar mais efetivas as iniciativas voltadas à sustentabilidade, o setor de eventos passou a adotar um referencial específico de avaliação: a norma ISO 20121 – Sistema de Gestão para a Sustentabilidade de Eventos, fundamentada nos princípios do Pacto Global das Nações Unidas e na ISO 26000, voltada à responsabilidade social (Dodds et al., 2020). Essa norma estabelece diretrizes para o planejamento, a implementação e o monitoramento de práticas sustentáveis em eventos, assegurando sua conformidade com padrões reconhecidos internacionalmente.

A escassez de padrões consolidados e a necessidade de mensuração eficaz das ações reforçam a importância de investigações que analisem a literatura da área. Dessa forma, com o objetivo de mapear o estado da arte sobre essa temática, os procedimentos metodológicos estão detalhados a seguir.

3 METODOLOGIA

Realizou-se uma Revisão Sistemática de Literatura (RSL) nos trabalhos acadêmicos que tratam sobre sustentabilidade em festivais de músicas, publicados entre 2008 e 2024 e indexados na Scopus e na Web of Science (WoS). A estratégia de busca foi definida de modo a assegurar abrangência e reprodutibilidade dos resultados. Nas bases Scopus e Web of Science, os termos “music festival” + “sustainability” foram aplicados de forma combinada aos campos de título, resumo e palavras-chave, utilizando o operador booleano para garantir a recuperação de estudos que abordassem simultaneamente ambos os conceitos. Em ambas as plataformas, adotaram-se filtros para restringir os resultados a artigos científicos revisados por pares em todos os idiomas.

Para operacionalizar a revisão, utilizou-se a metodologia PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), que estabelece um conjunto de diretrizes destinado a melhorar a transparência e a qualidade das revisões e envolve quatro etapas principais: identificação, seleção, elegibilidade e inclusão (Moher et al., 2009).

Foram excluídos, ainda na fase de identificação, documentos classificados como livros, capítulos de livros, anais de conferências, editoriais, notas técnicas e revisões de literatura, de modo a preservar a homogeneidade metodológica do corpus analisado. Na Scopus, aplicou-se o filtro de “Article” como tipo de documento, enquanto na Web of Science selecionaram-se as categorias “Article” e os índices principais (SCI-Expanded, SSCI e AHCI). A combinação desses filtros permitiu refinar os resultados iniciais, reduzindo ruídos e assegurando que apenas estudos empíricos alinhados ao objetivo da pesquisa fossem considerados para as etapas subsequentes de triagem, elegibilidade e inclusão.

A etapa de triagem incluiu a remoção de duplicatas entre as bases e a leitura de títulos e resumos para verificação de aderência temática. A elegibilidade foi definida a partir da leitura exploratória dos resumos, sendo excluídos os estudos que não tratavam diretamente da relação entre festivais de música e sustentabilidade. O processo de seleção e exclusão foi conduzido por dupla checagem da própria pesquisadora a fim de garantir maior confiabilidade ao corpus final. As justificativas para exclusão foram baseadas exclusivamente em critérios de escopo temático, a saber: perfil de artistas para apresentações; analisar efeitos de transmissão de festival no Youtube; o futuro das produções de festivais de artes; avaliar os valores do custo do festival; ecossistema musical e seu processo histórico. Além do tipo de publicação, conforme detalhado no fluxograma PRISMA apresentado na Figura 1.

Figura 1
Etapas da metodologia PRISMA
  1. Identificação: nas bases Scopus e Web of Science, utilizou-se a combinação de palavras-chave "music festival" + "sustainability ", o que resultou na recuperação de 90 registros.

  2. Triagem: exclusão de livros, capítulos de livro, conferências e revisões (16 registros) e de artigos duplicados (22 registros), resultando na seleção de 52 artigos.

  3. Elegibilidade: leitura dos títulos e resumos para verificar a relevância dos artigos em relação ao tema proposto.

  4. Inclusão: foram selecionados os artigos revisados por pares e que abordassem a relação entre festivais de música e sustentabilidade, havendo a exclusão de cinco artigos que não abordavam a temática. Dessa forma, 47 artigos foram considerados elegíveis para a revisão.

Após a etapa de inclusão, procedeu-se à sistematização dos estudos selecionados por meio da elaboração de uma planilha analítica, na qual foram organizadas informações padronizadas de todos os artigos incluídos na revisão. Essa planilha contemplou a numeração dos artigos, título, ano de publicação, autores, periódico, palavras-chave, abordagem metodológica, país de realização da pesquisa (contexto empírico) e objetivos do estudo. Esse procedimento permitiu uma análise estruturada e comparável dos trabalhos, garantindo rastreabilidade das informações, transparência no processo analítico e consistência na categorização dos dados, além de subsidiar as análises descritivas e transversais realizadas ao longo da revisão.

Para organizar e interpretar os dados, foi utilizado o framework TCCM (Teorias, Contextos, Características e Métodos), conforme proposto por Paul & Rosado-Serrano (2019). Essa abordagem permite estruturar a análise, facilitando a apresentação clara e detalhada de teorias, variáveis, contextos, métodos, conteúdos e outras características, além de fornecer orientações para sistematizar a agenda de pesquisas futuras (Polat et al., 2024) e facilitar o desenvolvimento de modelos teóricos a partir de países, indústrias e outros construtos menos explorados (Sharma et al., 2022; Pandey et al., 2024).

A operacionalização do framework TCCM foi executada mediante análise de conteúdo sistemática com a extração manual de todos os artigos dos dados sobre métodos e técnicas, países e bases teóricas. Essas informações foram organizadas em uma planilha no software Excel, o que viabilizou a contagem de frequência para o mapeamento dos pilares Teoria, Contexto e Métodos. Além disso, os objetivos de cada estudo selecionado foram inseridos na planilha, permitindo uma análise textual das características das pesquisas. A definição das quatro abordagens de sustentabilidade resultantes: ambiental, social, econômica e comportamental, decorreu da integração entre o referencial teórico do Triple Bottom Line (TBL) e os achados empíricos desta Revisão Sistemática.

Para o pilar Teoria, realizou-se o levantamento quantitativo das bases explicitamente mencionadas, identificando-se o grau de fragmentação do campo. O Contexto foi delimitado pela localização geográfica (países e continentes) onde as pesquisas foram conduzidas. As Características foram definidas pelas dimensões da sustentabilidade exploradas nos objetivos de cada estudo, sendo categorizadas em quatro grupos: ambientais (gestão de recursos), sociais (comunidade e bem-estar), econômicas (viabilidade e marketing) e comportamentais (psicologia do público); os quais foram identificados por clusters de relevância. Por fim, os Métodos foram classificados conforme a natureza da pesquisa (qualitativa, quantitativa ou mista) e as técnicas de coleta empregadas, permitindo observar a evolução do rigor empírico na produção científica analisada.

Como instrumento de análise, utilizou-se o software VOSviewer, versão 1.6.16, ferramenta de análise bibliométrica que permite a construção de mapas de coocorrência de palavras-chave, coautoria entre autores, co-citação de referências e análise de instituições e países, possibilitando a identificação de padrões emergentes, temas centrais e lacunas na produção científica (Van Eck & Waltman, 2010). Os metadados dos artigos selecionados foram exportados da planilha do excel e submetidos a procedimentos de limpeza e padronização, incluindo a unificação de sinônimos e variações terminológicas. A interpretação dos clusters gerados combinou a visualização gráfica do software com leitura qualitativa dos estudos, permitindo identificar temas centrais, padrões de colaboração, estruturas teóricas e lacunas na literatura.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

Seguindo a categorização baseada na TCCM, a primeira seção da análise fornece um resumo das teorias mais comuns. A segunda descreve a avaliação dos contextos nos diferentes setores e países considerados nas pesquisas. A terceira descreve as características. As metodologias empregadas são abordadas na quarta seção. Por fim, na quinta seção, são explicitadas as direções futuras descritas nas pesquisas (Rajasekaram et al., 2022).

4.1 Teoria

A análise da literatura evidencia que as pesquisas sobre sustentabilidade em festivais de música recorrem a um conjunto diversificado de bases teóricas, aplicadas de forma predominantemente fragmentada e pouco articulada. Observa-se a recorrência de abordagens voltadas à compreensão das relações entre múltiplos atores envolvidos na organização e na vivência dos festivais, bem como das dinâmicas de troca, cooperação e legitimidade social associadas à adoção de práticas sustentáveis, destacando-se, nesse sentido, a Teoria das Partes Interessadas (Hazel & Mason, 2020; Getz & Andersson, 2008; Andersson & Getz, 2008) e a Teoria da Troca Social (Andersson & Lundberg, 2013; Orea-Giner et al., 2022; Chiya, 2024).

De forma complementar, identificam-se aplicações pontuais de perspectivas críticas, comportamentais, institucionais e ecológicas, mobilizadas para problematizar aspectos específicos do fenômeno, como os discursos e as lógicas de mercado associados à sustentabilidade (Higgins-Desbiolles, 2018), os processos de aprendizagem e formação de valores em contextos de eventos culturais (Dodds et al., 2020; Stadler & Fullagar, 2016), bem como as interações entre atividades humanas e sistemas ambientais (Getz & Andersson, 2008; Karlsen & Nordström, 2009).

Também emergem abordagens voltadas à compreensão de padrões de comportamento e motivação dos participantes (Qiu et al., 2021; Bär et al., 2022), ainda que de maneira isolada e sem continuidade teórica entre os estudos. O Quadro 1 apresenta as teorias utilizadas para orientar as pesquisas na área.

Quadro 1
Teorias utilizadas em estudos sobre sustentabilidade em festivais de música

O Quadro 1 revela a aplicação de treze referenciais teóricos distintos em treze artigos, indicando um campo ainda em consolidação, marcado pela diversidade mais do que pela convergência conceitual. Apesar dessa pluralidade, a maioria dos estudos (72,3%) não explicita claramente sua fundamentação teórica, o que limita a profundidade analítica, dificulta a comparabilidade dos resultados e restringe a construção de conhecimento cumulativo sobre sustentabilidade em festivais de música.

Esse cenário evidencia a necessidade de maior coerência entre objetivos de pesquisa, variáveis analisadas e referenciais teóricos mobilizados. Estudos sobre governança e colaborações multiatores podem se beneficiar de abordagens centradas em stakeholders e estruturas institucionais (Getz & Andersson, 2008; Karlsen & Nordström, 2009), enquanto investigações sobre impactos ambientais demandam referenciais ecológicos mais consistentes (Andriolo & Gonçalves, 2023).

No campo comportamental e social, teorias como a Prática Social, o Neoliberalismo e o Cultivo oferecem bases analíticas adequadas para examinar engajamento, discursos e formação de valores (Stadler & Fullagar, 2016; Higgins-Desbiolles, 2018; Dodds et al., 2020). Os resultados indicam que o avanço do campo depende menos da incorporação de novos referenciais e mais do uso rigoroso, explícito e integrado das teorias já consolidadas, fortalecendo a maturidade teórica e a contribuição prática da pesquisa.

4.2. Contexto

Identificaram-se 21 países, distribuídos em quatro continentes, conforme ilustrado no Gráfico 1. A maioria das investigações concentra-se na Europa, sendo sete no Reino Unido (Browne et al., 2019; Bossey, 2022; Richardson, 2018; Mair & Laing, 2012; Hitchings et al., 2017; Richardson, 2018; Qiu et al., 2021), quatro na Espanha e na Suécia (Orea-Giner et al., 2022; Vázquez & Arroyo, 2020; Siles et al., 2024; Fruet-Cardozo et al. 2019; Andersson & Lundberg, 2013; Andersson et al., 2013; Getz & Andersson, 2008; Andersson & Getz, 2008), e uma nos Países Baixos (Moonen, 2017).

Gráfico 1
Distribuição do número de estudos sobre sustentabilidade em festivais de música por país

Na Oceania, destaca-se a Austrália, com seis trabalhos (Higgins-Desbiolles, 2018; Alonso-Vazquez & Ballico, 2021; Stadler & Fullagar, 2016; Brooks et al., 2009; Verdonk et al., 2017; Robertson et al., 2018), e, na África, a África do Sul, com três pesquisas (Welthagen & Lötter, 2020; Kruger & Viljoen, 2021; Saayman & Saayman, 2014).

No Reino Unido, emergem dois grupos de estudos: o primeiro reúne estudos sobre mudanças de comportamento e adoção de práticas sustentáveis em festivais por meio de tecnoeficiência, de colaborações multiatores (Browne et al., 2019), de tecnologias da informação e comunicação ou de reforço de valores de autenticidade (Bossey, 2022); o segundo reúne pesquisas sobre a institucionalização da sustentabilidade em grandes eventos, combinando responsabilidade social corporativa e gestão ambiental (Richardson, 2018; Mair & Laing, 2012).

Há uma menor incidência de trabalhos sobre o papel do marketing e do consumo a partir de padrões de uso de recursos pelos participantes (Hitchings et al., 2017), sobre estratégias de marketing sustentável (Richardson, 2018) e sobre a influência da publicidade nos comportamentos pró-ambientais em mídias sociais (Qiu et al., 2021).

Ainda no contexto Europeu, observou-se uma pesquisa envolvendo os países Noruega, Suécia e Finlândia a qual identificou similaridades e diferenças na governança de eventos, a partir de três festivais que incentivam o engajamento dos stakeholders e promovem práticas sustentáveis (Karlsen & Nordström, 2009).

Na África do Sul, três estudos abordam a satisfação e as características dos públicos com o objetivo de identificar como diferentes dimensões da experiência impactam o engajamento em práticas verdes. Os estudos revelam que a experiência e a satisfação dos participantes (Welthagen & Lötter, 2020) se articulam com a comunicação de valores e a segmentação de mercado (Kruger & Viljoen, 2021) e fornece subsídios para estratégias de marketing sustentável nos festivais sul-africanos (Saayman e Saayman, 2014).

Na China, dois estudos investigam, respectivamente, as interações turista–turista e cliente–cliente durante festivais de música (Sun et al., 2019), bem como os efeitos de aprendizagem comunitária aplicados a práticas de triagem de resíduos em eventos ao ar livre (Yan et al., 2021).

Em países em desenvolvimento, como o Brasil, foi investigada a opinião de residentes e comerciantes sobre os impactos ambientais dos festivais (Alves et al., 2016) e comparados os motivos e percepções de diferentes públicos na Tanzânia sobre esses impactos. Já na Costa Rica, foi examinada a economia da experiência e o boca-a-boca entre participantes de festivais de música, com o propósito de mapear como práticas culturais influenciam o comportamento pró-ambiental (Sisson & Alcorn, 2022).

Portanto, seis contextos se destacam, sinalizando áreas-chave de investigação em sustentabilidade de festivais de música (Gráfico 2):

Gráfico 2
Frequência de palavras-chave no Contexto dos estudos

No que se refere aos impactos ambientais, a literatura evidencia um conjunto de estudos voltados à mensuração e à modelagem dos efeitos gerados pelos festivais de música, com destaque para análises de custo-benefício, disposição a pagar (Andersson & Lundberg, 2013) e avaliação da influência dos aspectos ambientais na experiência dos participantes (O'Rourke et al., 2011). Em paralelo, emergem frameworks integrados que articulam dimensões ambientais, econômicas e sociais, buscando orientar políticas e estratégias de gestão sustentável de eventos (Hazel & Mason, 2020; Raffay-Danyi & Formadi, 2022; Vázquez & Arroyo, 2020).

Outros estudos ampliam a análise ao incorporar percepções de residentes, comerciantes e participantes, revelando a diversidade de interpretações e conflitos associados aos impactos ambientais em contextos urbanos e turísticos (Alves et al., 2016; Jani & Philemon, 2016). Abordagens mais abrangentes exploram dinâmicas territoriais, políticas e simbólicas em ambientes naturais, evidenciando a complexidade dos impactos ambientais em múltiplas escalas (Brennan et al., 2019), enquanto pesquisas de cunho operacional analisam áreas de impacto, financiamento e a eficácia de instrumentos de indução de comportamentos pró-ambientais, como sinalizações e mensagens visuais (Gamble, 2022; Verdonk et al., 2017).

No âmbito das pesquisas que articulam os três pilares da sustentabilidade, observa-se um esforço voltado à institucionalização de práticas de longo prazo, abordando comunicação digital, iniciativas concretas de sustentabilidade, responsabilidade social corporativa e marketing sustentável (Dodds et al., 2020; Raffay-Danyi & Formadi, 2022; Richardson, 2018). Complementarmente, são discutidos modelos estratégicos, processos organizacionais e integrações com a economia criativa, bem como análises críticas sobre a aplicação do conceito de sustentabilidade aos festivais (Brooks et al., 2009; Getz & Andersson, 2008; Kacerauskas et al., 2021).

Os efeitos culturais e sociais dos festivais constituem outro eixo relevante, abrangendo estudos que analisam impactos socioculturais, identidades coletivas e transformações nas dinâmicas comunitárias, a partir da perspectiva de moradores, organizadores e participantes (Andersson & Lundberg, 2013; Higgins-Desbiolles, 2018; Orea-Giner et al., 2022; Raffay-Danyi & Formadi, 2022; Vázquez & Arroyo, 2020; Chiya, 2024; Siles et al., 2024).

A experiência do participante também se destaca como dimensão analítica central, reunindo investigações sobre satisfação, aprendizagem coletiva, atitudes ambientais e economia da experiência, demonstrando que iniciativas sustentáveis influenciam o engajamento, o boca-a-boca e a formação de comportamentos pró-ambientais (Welthagen & Lötter, 2020; O'Rourke et al., 2011; Raffay-Danyi & Formadi, 2022; Sisson & Alcorn, 2022; Yan et al., 2021; Chang et al., 2022; Saayman & Saayman, 2014).

Por fim, estudos voltados a stakeholders e comportamento pró-ambiental evidenciam o papel dos festivais como espaços de governança, aprendizagem e experimentação de práticas verdes, destacando ações espontâneas, nudges comportamentais, estratégias de comunicação, parcerias interorganizacionais e dinâmicas de poder na adoção de medidas ambientais (Alonso-Vazquez & Ballico, 2021; Bär et al., 2022; Qiu et al., 2021; Browne et al., 2019; Getz & Andersson, 2008; Hazel & Mason, 2020; Karlsen & Nordström, 2009; Orea-Giner et al., 2022; Richardson, 2018).

A Figura 2 demonstra como esses grupos de variáveis se articulam em torno do conceito central, reforçando os contextos de investigação e as relações mais recorrentes.

Figura 2
Rede de co-ocorrência das principais variáveis de contexto

A Figura 2 evidencia que os temas: impacto ambiental, experiência do participante, comportamento pró-ambiental, impacto sociocultural e stakeholders formam o núcleo da investigação sobre sustentabilidade em festivais de música. Essa visualização reforça a interdependência entre esses pilares, servindo de base para o detalhamento da próxima etapa do trabalho, que aborda as características dos estudos.

4.3 Características

Observa-se que os estudos articulam abordagens ambientais, sociais, econômicas e comportamentais, conforme ilustrado na Figura 3.

Figura 3
Características da sustentabilidade em festivais de música

De acordo com o Quadro 2, 12 estudos (25,5%) adotam abordagens ambientais, abrangendo desde impactos físicos diretos até dimensões gerenciais e comportamentais. Parte da literatura analisa impactos ecogeomorfológicos, como alterações no solo, na vegetação e nos ecossistemas naturais decorrentes da infraestrutura temporária e da concentração de público (Andriolo & Gonçalves, 2023). Outros estudos concentram-se na avaliação de recursos específicos, como solo e água, visando mensurar danos e subsidiar estratégias de mitigação e financiamento (O'Rourke et al., 2011; Alves et al., 2016; Gamble, 2022).

Quadro 2
Abordagens Ambientais

Também se destacam investigações sobre valores, práticas de gestão ambiental e estímulo a comportamentos pró-ambientais, bem como análises operacionais sobre triagem de resíduos e aprendizagem coletiva (Alonso-Vazquez & Ballico, 2021; Mair & Laing, 2012; Yan et al., 2021). Também verificou-se que alguns estudos discutem a dependência de recursos e os processos institucionais que condicionam a pressão ambiental dos festivais (Getz & Andersson, 2008; Andersson & Getz, 2008). Em conjunto, os achados revelam um campo diverso, porém fragmentado, indicando a necessidade de modelos analíticos mais integrados.

O Quadro 3 evidencia que as abordagens sociais analisam a sustentabilidade em festivais de música a partir de múltiplas dimensões, articulando impactos comunitários, experiências individuais e processos simbólicos. Parte da literatura concentra-se nos impactos socioculturais nas comunidades anfitriãs, destacando transformações nas dinâmicas sociais, no pertencimento e na distribuição de benefícios e tensões geradas pelos eventos (Andersson & Lundberg, 2013; Higgins-Desbiolles, 2018).

Quadro 3
Abordagens Sociais

Algumas pesquisas enfocam a experiência do participante, abordando qualidade percebida, satisfação e lealdade como fatores associados ao engajamento de longo prazo com os valores do festival (Welthagen & Lötter, 2020; Chang et al., 2022). Também se destacam análises sobre aprendizagem social, transferência de conhecimento e comunicação de valores, evidenciando os festivais como espaços de construção simbólica e alinhamento entre atores (Stadler & Fullagar, 2016; Andersson et al., 2013). De forma complementar, estudos abordam inclusão, bem-estar e perfis dos participantes, indicando um campo diverso, porém ainda fragmentado, que demanda modelos analíticos integradores (Chiya, 2024; Kinnunen et al., 2020).

A análise do Quadro 4 indica que as abordagens econômicas tratam a sustentabilidade em festivais de música a partir da articulação entre impactos financeiros, comportamento do consumidor e estratégias organizacionais. Parte da literatura concentra-se na mensuração de impactos econômicos por meio de análises custo-benefício e disposição a pagar (WTP), priorizando indicadores monetários para justificar investimentos (Andersson & Lundberg, 2013).

Quadro 4
Abordagens Econômicas

Outros estudos exploram a economia da experiência, destacando o valor simbólico e afetivo dos festivais na satisfação e lealdade do público (Sisson & Alcorn, 2022), bem como a estrutura de preços e os modelos de financiamento como fatores de viabilidade econômica e acessibilidade (Kruger & Viljoen, 2021; Chang et al., 2022). Também se destacam análises sobre comportamento do consumidor, marketing sustentável e sustentabilidade organizacional, evidenciando o papel das estruturas institucionais na continuidade dos festivais (Richardson, 2018; Getz & Andersson, 2008). Observa-se que emergem abordagens as quais relacionam festivais à economia criativa e ao desenvolvimento sustentável local, revelando um campo plural, porém ainda fragmentado (Vázquez & Arroyo, 2020; Kacerauskas et al., 2021).

O Quadro 5 evidencia que as abordagens comportamentais têm direcionado atenção crescente aos processos de mudança de comportamento e aos fatores que influenciam atitudes individuais e coletivas em festivais de música. Parte dos estudos analisa os festivais como espaços de experimentação social capazes de estimular práticas sustentáveis durante e após o evento, embora ainda existam limitações na avaliação da permanência dessas mudanças (Browne et al., 2019; Rast et al., 2019).

Quadro 5
Abordagens Comportamentais

Autores investigaram o comportamento pró-ambiental a partir de valores individuais, normas sociais e estímulos comportamentais (nudges), demonstrando como expectativas sociais moldam decisões em contextos de grande concentração de público (Alonso-Vazquez & Ballico, 2021; Bär et al., 2022). Também se destacam contribuições da psicologia da multidão, da previsão de comportamento e da análise da autenticidade e identidade da marca do festival, evidenciando a influência de experiências afetivas, motivações e coerência organizacional nas respostas do público (Robertson et al., 2018; Qiu et al., 2021; Bossey, 2022).

Estudos sobre aprendizagem coletiva, especialmente na triagem de resíduos, reforçam o papel da interação social na adoção de comportamentos sustentáveis (Yan et al., 2021). Em conjunto, os achados indicam a centralidade do comportamento dos participantes para a sustentabilidade dos festivais, ao mesmo tempo em que apontam a necessidade de maior integração teórica e metodológica, bem como da incorporação de variáveis contextuais, como fatores geográficos, climáticos e demográficos, em pesquisas futuras.

4.2 Métodos

Foram identificados 35 estudos com abordagem qualitativa, 11 com abordagem quantitativa e uma pesquisa com abordagem mista, conforme ilustrado na Figura 4.

Figura 4
Principais métodos de pesquisa dos estudos da RSL

A análise metodológica evidencia a predominância de abordagens qualitativas, especialmente entrevistas, utilizadas em 23 estudos para compreender percepções, significados e experiências de organizadores, stakeholders e participantes. Embora adequadas à complexidade do fenômeno, essas abordagens apresentam limitações quanto à comparabilidade e à generalização dos resultados. Entre as técnicas qualitativas, destacam-se grupos focais e observação em campo, eficazes para captar dinâmicas sociais e comportamentais, embora sua aplicação isolada limite a replicabilidade. Esses achados reforçam a necessidade de abordagens mistas e de maior padronização metodológica para fortalecer a robustez empírica das pesquisas sobre sustentabilidade em festivais de música.

No campo quantitativo, seis estudos aplicaram Modelagem de Equações Estruturais para testar relações entre construtos como lealdade, atitude ambiental, marketing em mídias sociais e satisfação, adotando procedimentos de validação que conferem maior rigor analítico, ainda pouco difundido na área (Sisson & Alcorn, 2022; Yan et al., 2021). Outras técnicas quantitativas, como Servqual e Teste t, foram empregadas de forma pontual, mas com alcance analítico restrito (Welthagen & Lötter, 2020; Jani & Philemon, 2016).

A relação entre a abordagem metodológica adotada e o ano de publicação permite identificar padrões significativos na trajetória das pesquisas sobre festivais de música. Os estudos mais antigos, publicados entre 2007 e 2013, concentram-se predominantemente em abordagens qualitativas, com forte ênfase em entrevistas, grupos focais e observação, indicando um estágio inicial do campo voltado à compreensão exploratória do fenômeno e à descrição dos impactos socioculturais e organizacionais dos festivais. Nesse período, os métodos quantitativos aparecem de forma pontual, associados principalmente à modelagem de equação estrutural e à mensuração de impactos específicos.

A partir de 2014 observa-se uma ampliação gradual do uso de métodos quantitativos, especialmente com a incorporação de técnicas estatísticas mais robustas, como análise de clusters, testes estatísticos e, sobretudo, modelagem de equações estruturais. Esse movimento torna-se mais evidente entre 2018 e 2024, período em que os estudos quantitativos passam a ser mais frequentes, refletindo uma tendência metodológica do campo e um interesse crescente na validação empírica de relações entre variáveis, como atitudes ambientais, comportamento do participante, satisfação e engajamento.

Apesar desse avanço, os métodos qualitativos permanecem predominantes ao longo de todo o período analisado, inclusive nas publicações mais recentes. Entre 2019 e 2024, observa-se a continuidade do uso intensivo de entrevistas, análise documental, observação e técnicas visuais, muitas vezes aplicadas a novos contextos e tecnologias, como o uso de drones e monitoramento ambiental. As abordagens mistas, por sua vez, ainda são pouco representativas, indicando uma lacuna metodológica relevante no campo, especialmente no que se refere à integração sistemática entre profundidade interpretativa e validação estatística.

Esses resultados sugerem que a pesquisa sobre sustentabilidade e festivais de música evoluiu de um enfoque predominantemente exploratório para uma fase de maior sofisticação analítica, sem, contudo, superar a forte dependência de métodos qualitativos. Tal configuração reforça a necessidade de investigações futuras que ampliem o uso de desenhos metodológicos mistos, capazes de articular análises qualitativas e quantitativas de forma integrada, contribuindo para maior robustez empírica e cumulatividade do conhecimento produzido.

4.3 Articulação transversal dos resultados à luz do framework TCCM

A análise integrada dos resultados à luz do framework TCCM evidencia que a fragilidade teórica identificada nos estudos sobre sustentabilidade em festivais de música exerce influência direta sobre os demais pilares analíticos: contexto, características e métodos, limitando o avanço conceitual e a cumulatividade do conhecimento produzido no campo. A predominância de pesquisas sem fundamentação teórica explícita ou ancoradas em referenciais aplicados de forma pontual e fragmentada compromete a profundidade analítica e a coerência entre os objetivos de pesquisa, as variáveis investigadas e as escolhas metodológicas realizadas.

No pilar Teoria, observa-se um cenário marcado pela diversidade de abordagens, porém com baixa convergência conceitual e pouca articulação entre os referenciais mobilizados. Essa fragmentação teórica reflete-se diretamente no pilar Contexto, uma vez que a seleção dos recortes geográficos, sociais e institucionais tende a ser orientada mais pela disponibilidade empírica do que por pressupostos teóricos capazes de justificar comparações entre países, regiões ou tipologias de festivais. Como resultado, predominam análises contextuais isoladas, com forte concentração em países desenvolvidos, especialmente europeus, dificultando generalizações e leituras comparativas mais amplas.

No que se refere às Características, a ausência de uma base teórica robusta contribui para a fragmentação temática observada nas abordagens ambientais, sociais, econômicas e comportamentais. Embora os estudos analisem múltiplas dimensões da sustentabilidade, essas dimensões raramente são integradas em modelos explicativos coerentes, o que resulta em análises setoriais que pouco dialogam entre si. A sustentabilidade é, assim, frequentemente tratada como um conjunto de práticas ou impactos desconectados, em vez de um processo sistêmico e relacional, como sugerem abordagens mais consolidadas no campo da gestão sustentável de eventos.

Essa fragilidade conceitual também se reflete no pilar Métodos, no qual se observa a predominância de abordagens qualitativas exploratórias, especialmente entrevistas e observação, muitas vezes dissociadas de modelos teóricos claros. A limitada incorporação de métodos quantitativos e, sobretudo, de desenhos metodológicos mistos, pode ser compreendida como consequência direta da ausência de hipóteses teoricamente fundamentadas e de construtos claramente definidos. Mesmo nos estudos quantitativos mais recentes, a aplicação de técnicas estatísticas robustas ocorre de forma restrita, concentrando-se em poucos construtos recorrentes, como satisfação, lealdade e atitudes ambientais.

Dessa forma, a análise transversal dos quatro pilares do TCCM evidencia que a fragilidade teórica não constitui apenas uma lacuna conceitual, mas um elemento estruturante que condiciona as escolhas contextuais, a delimitação das características analisadas e o nível de sofisticação metodológica das pesquisas. O fortalecimento da articulação entre Teoria, Contexto, Características e Métodos mostra-se, portanto, fundamental para ampliar a maturidade do campo, favorecer análises comparativas e longitudinais e promover a construção de conhecimento mais integrado e cumulativo sobre sustentabilidade em festivais de música.

Ao explicitar essas inter-relações, esta Revisão Sistemática da Literatura reforça sua contribuição conceitual ao demonstrar que o avanço da área não depende apenas da ampliação empírica dos estudos, mas, sobretudo, da adoção mais rigorosa e articulada do framework TCCM como orientação analítica para futuras investigações.

4.4 Direções futuras para a pesquisa

A partir da lacuna teórica identificada, sugere-se que pesquisas futuras incorporem teorias consolidadas, como a Teoria das Partes Interessadas e a Teoria da Ecologia ou da Prática Social para ancorar hipóteses e aumentar a coesão analítica do campo. A aplicação comparativa dessas bases em diferentes contextos poderá revelar como as mesmas estruturas teóricas se comportam diante de variáveis culturais, climáticas e institucionais.

Metodologicamente, recomenda-se ampliar o uso de abordagens mistas, combinando protocolos de observação e entrevistas semiestruturadas com técnicas quantitativas para testar e validar relações de causa‐efeito em amostras maiores e repetidas ao longo do tempo. Estudos longitudinais que acompanhem festivais também enriquecerão a compreensão sobre a permanência de comportamentos pró-ambientais e a eficácia de intervenções como nudges e sinalização.

Com base nas lacunas teóricas e sugestões metodológicas apontadas pelos autores dos estudos analisados, foi possível delinear uma agenda de pesquisas futuras com potencial para expandir o estudo da sustentabilidade em festivais de música.

O Quadro 6 sistematiza os estudos e suas respectivas proposições de continuidade investigativa.

Quadro 6
Agenda de pesquisas futuras.

A aplicação do framework TCCM possibilitou uma análise estruturada das publicações acadêmicas sobre sustentabilidade em festivais de música, evidenciando tanto avanços quanto lacunas da literatura. Esse conjunto de direções consolida as pesquisas futuras propostas e indica caminhos para diversificar métodos e contextos da sustentabilidade em festivais de música.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Foi realizada uma Revisão Sistemática de Literatura para analisar como a sustentabilidade tem sido investigada no contexto dos festivais de música. Um dos achados mais significativos foi a lacuna teórica, o que aponta para a necessidade de maior rigor na aplicação de teorias consolidadas para aprofundar a análise e a compreensão do tema. Assim, a pesquisa contribui para a consolidação teórica sobre a sustentabilidade em festivais de música, ao identificar teorias recorrentes e propor a aplicação de teorias consolidadas para estudos que não as explicitam, buscando valorizar o reuso de teorias e aprofundar a análise conceitual.

A distribuição geográfica dos estudos demonstra uma preocupação global com a sustentabilidade em festivais, mas também aponta para a necessidade de pesquisas em regiões em que o tema é pouco explorado. As características dos estudos revelaram uma distribuição relativamente equilibrada entre abordagens ambientais, sociais, econômicas e comportamentais, indicando uma compreensão crescente da natureza multidimensional da sustentabilidade em festivais de música. No que tange à metodologia, a maioria dos estudos empíricos empregou métodos qualitativos que, embora seja uma abordagem comumente utilizada nas Ciências Sociais, sugere uma lacuna na validação de modelos por meio de dados mensuráveis.

Os achados sugerem implicações práticas significativas para gestores e stakeholders de festivais de música. A identificação das características mais comuns (ambientais, sociais, econômicas e comportamentais) pode guiar a formulação de estratégias de planejamento mais eficazes e integradas. A ênfase na colaboração multiatores destaca a importância de ações que contemplem o bem-estar do público, campanhas educativas e respeito às comunidades anfitriãs.

Como limitações, destacam-se a utilização restrita das bases de dados Scopus e Web of Science, que, apesar de amplas, podem não cobrir toda a literatura relevante da área; a exclusão de certos tipos de documentos, que pode ter limitado o escopo da análise; e a interpretação dos dados fundamentada na metodologia TCCM, que, embora sistemática, pode conter um grau de subjetividade.

Como agenda para pesquisas futuras, recomenda-se a incorporação mais sistemática de teorias consolidadas, de modo a fortalecer a coesão analítica e viabilizar estudos comparativos entre contextos e tipologias de festivais. Do ponto de vista metodológico, sugere-se a ampliação do uso de abordagens mistas, combinando protocolos de observação e entrevistas com técnicas quantitativas, bem como a realização de análises longitudinais que permitam compreender a persistência de comportamentos pró-ambientais ao longo do tempo.

Ademais, destaca-se a necessidade de explicitar implicações práticas mais concretas para gestores e organizadores de festivais, fortalecendo a interface entre teoria e prática. A literatura ainda carece de instrumentos aplicáveis que traduzam os achados científicos em orientações operacionais, tais como diretrizes, checklists ou modelos de apoio ao planejamento e à gestão sustentável de eventos culturais. O desenvolvimento desses dispositivos pode contribuir para uma implementação mais eficaz de práticas sustentáveis, ampliando o impacto da produção acadêmica no cotidiano da gestão de festivais de música.

  • Como Citar:
    França, K. D. L. (2026). Sustentabilidade em festivais de música: uma revisão sistemática baseada no framework TCCM. Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo, São Paulo, 20, e-3335, 2026. https://doi.org/10.7784/rbtur.v20.3335
  • Revisado em pares.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Todos os dados relevantes estão disponíveis no texto.

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Editado por

  • Editor
    Thiago de Luca Sant'Ana Ribeiro.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    04 Out 2025
  • Aceito
    08 Fev 2026
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