Open-access Produção científica sobre anquiloglossia nas revistas brasileiras de Fonoaudiologia: uma análise cienciométrica

RESUMO

Objetivo:  analisar a produção científica sobre anquiloglossia em revistas brasileiras de Fonoaudiologia, identificar lacunas e direcionar futuras pesquisas para aprimorar práticas clínicas.

Métodos:  realizou-se busca manual, em abril de 2024, nas revistas de Fonoaudiologia brasileiras, incluindo os títulos descontinuados: DiC, CEFAC, ACR, CoDAS, JSBFa, RACPF, RSBFa, sem restrições de data ou idioma. Foram extraídos título, autores, vínculo institucional, estado, ano de publicação, descritores e classificação temática. A análise dos dados foi realizada por meio de tabelas, gráficos e figuras.

Revisão da Literatura:  de 6.513 artigos encontrados, 32 foram lidos na íntegra. A revista CEFAC apresentou 19 artigos, CoDAS oito, ACR e DiC dois cada, e JSBFa um, com média de duas a três publicações anuais e pico de sete em 2020. As revistas RACPF e RSBFa não retornaram artigo publicado dentro do tema. Em relação à distribuição geográfica, São Paulo liderou com 18 artigos, seguido por Rio Grande do Norte, Pernambuco e Paraná, com dois artigos cada. Os descritores mais frequentes foram “freio lingual”, “amamentação” e “anquiloglossia”, cujos temas foram avaliação, impacto na amamentação e instrumentos de análise.

Conclusão:  apesar de ligeiro aumento nas publicações, a pesquisa nacional sobre anquiloglossia ainda é limitada, indicando a necessidade de maior abrangência regional e institucional.

Descritores:
Freio Lingual; Anquiloglossia; Fonoaudiologia; Indicadores de Produção Científica

ABSTRACT

Purpose:  to analyze the scientific literature on ankyloglossia in Brazilian speech-language-hearing journals, identify gaps, and direct future research to improve clinical practices.

Methods:  Brazilian speech-language-hearing journals, including discontinued titles - DIC, CEFAC, ACR, CoDAS, JSBFa, RACPF, and RSBFa -, were manually searched in April 2024, with no date or language restrictions. Title, authors, institutional affiliation, state, year of publication, descriptors, and thematic classification were extracted. Data were analyzed using tables, graphs, and figures.

Literature review:  of the 6,513 articles found, 32 were read in full. CEFAC had 19 articles, CoDAS eight, ACR and DIC two each, and JSBFa one, with an average of two to three publications per year and a peak of seven in 2020. RACPF and RSBFa did not return any articles published on the topic. Regarding geographic distribution, São Paulo led with 18 articles, followed by Rio Grande do Norte, Pernambuco, and Paraná, with two articles each. The most frequent descriptors were "lingual frenulum," "breastfeeding," and "ankyloglossia," and the themes included assessment, impact on breastfeeding, and analysis tools.

Conclusion:  despite a slight increase in publications, national research on ankyloglossia remains limited, indicating the need for greater regional and institutional coverage.

Keywords:
Lingual Frenum; Ankyloglossia; Speech-Language Pathology; Scientific Publication Indicators

INTRODUÇÃO

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida1. De acordo com as diretrizes do Ministério da Saúde, o termo aleitamento materno refere-se especificamente à oferta de leite humano ao lactente, independentemente da forma de administração, enquanto amamentação abrange também os aspectos emocionais e do vínculo afetivo estabelecido entre mãe e bebê durante o ato de mamar. O êxito dessa prática, no entanto, depende diretamente do desenvolvimento funcional e harmônico do sistema estomatognático - responsável pelas funções integradas de sucção, deglutição e respiração. A inter-relação dessa tríade tem início ainda no período intrauterino, por volta da 32ª semana de gestação, quando o feto já apresenta os reflexos de sucção e deglutição, mediados pela formação reticular do tronco encefálico2. Nesse sentido, a amamentação está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento neuromotor adequado.

O desenvolvimento do padrão de sucção em fetos e bebês é um processo progressivo e crucial para a alimentação e o desenvolvimento oral. A sucção é dividida em dois estágios, o suckling e o sucking. O primeiro apresenta um padrão de sucção por lambidas, tendo seu início a partir da 16ª semana de gestação, estendendo-se, geralmente, até o sexto mês extrauterino3. Já o segundo representa um padrão mais maduro, que se desenvolve a partir da 26ª semana de gestação, caracterizando-se pela coordenação entre sucção, deglutição e respiração, com participação ativa da língua, do lábio inferior, da mandíbula e do osso hióide4. Nesse contexto, quando o bebê está em amamentação exclusiva, verificam-se impactos positivos no sistema estomatognático3. A complexidade da formação embriológica da língua evidencia sua importância funcional desde a vida intrauterina, sendo determinante para a amamentação eficiente e para o desenvolvimento do sistema estomatognático.

A principal estrutura envolvida no processo de sucção é a língua, cuja atuação é essencial para o funcionamento adequado das funções orofaciais, como a sucção, a deglutição e a respiração. Seu desenvolvimento inicia-se no final da quarta semana de gestação, com o surgimento de uma proeminência triangular mediana na base da faringe primitiva - o primeiro indício da formação lingual. Na quinta semana, desenvolve-se um par de proeminências linguais laterais que se expandem e formam os dois terços anteriores da língua. Simultaneamente, a partir do segundo arco faríngeo, origina-se uma saliência chamada cópula, que posteriormente é recoberta por uma elevação derivada do terceiro e quarto arcos faríngeos, denominada eminência hipofaríngea, a qual dá origem ao terço posterior da língua5.

O desenvolvimento adequado da língua requer que as fases subsequentes ocorram de maneira correta. Por isso, após a fase anterior, ocorre a fixação entre o assoalho da cavidade oral e a superfície ventral da língua. Quando a fixação da língua é concluída, geralmente ocorre a regressão da parte anterior desse processo, deixando apenas um filamento de tecido que posteriormente forma o frênulo da língua. No entanto, uma falha no processo de apoptose deste filamento de tecido pode levar à anquiloglossia, uma condição congênita que afeta com maior frequência o sexo masculino e tem uma prevalência variável6. Em relação à amamentação, essa condição pode causar prejuízos funcionais tanto para a criança quanto para a mãe, especialmente devido à dificuldade na pega correta, o que pode resultar em dor durante a amamentação, baixa produção de leite e, eventualmente, na decisão da mãe de interromper a amamentação.

A fisiologia da sucção em lactentes baseia-se em uma interação complexa entre pressões negativa e positiva. A pressão negativa é gerada pelo movimento descendente da língua e da mandíbula, criando um vácuo responsável pela extração do leite materno e pelo seu direcionamento à cavidade oral. Já a pressão positiva ocorre quando a língua comprime o mamilo contra o palato, promovendo a ejeção ativa do leite. Estudos por imagem, especialmente por meio de ultrassonografia, indicam que a pressão positiva exerce um papel secundário em relação à pressão negativa7,8. Dessa forma, o equilíbrio entre essas duas pressões é essencial para a eficácia da amamentação ao seio e para a prevenção de dificuldades durante esse processo.

A atuação de uma equipe interdisciplinar é outro aspecto essencial a ser considerado, especialmente no diagnóstico e manejo da anquiloglossia9. Entre os profissionais capacitados para identificar alterações no frênulo lingual, destacam-se o cirurgião-dentista e o fonoaudiólogo. O fonoaudiólogo é responsável pela avaliação, que é conduzida por meio de protocolos específicos, envolvendo inspeção visual do frênulo lingual, análise dos movimentos e investigação das funções orofaciais relacionadas à sucção, à mastigação, à deglutição e à fala10. Já o cirurgião-dentista, por sua vez, realiza procedimentos como frenectomia ou frenotomia, quando indicados. Após a intervenção cirúrgica, a Fonoaudiologia desempenha um papel fundamental na reabilitação das funções do sistema estomatognático. Cabe ao cirurgião-dentista determinar o início da fonoterapia, em função dos processos cicatriciais11. Essa abordagem interdisciplinar garante uma conduta mais segura, confiável e indispensável para alcançar um prognóstico favorável.

É fundamental que os profissionais qualificados para atuar na área acompanhem as evidências atualizadas e os avanços científicos que embasam práticas adequadas de avaliação, identificação e diagnóstico preciso da anquiloglossia.

Nesse sentido, a cienciometria, enquanto metodologia de análise quantitativa da produção científica, permite compreender a dinâmica do conhecimento em uma determinada área. Essa abordagem possibilita a identificação de tendências, lacunas e padrões nas publicações, bem como de indicadores como número de artigos, autores mais produtivos, redes de colaboração, palavras-chave recorrentes e periódicos com maior concentração de estudos. Tais dados contribuem para o mapeamento do panorama científico da temática investigada e orientam o desenvolvimento de pesquisas futuras, especialmente em áreas pouco exploradas ou marcadas por controvérsias, fortalecendo a produção científica e a qualificação das práticas profissionais12. No entanto, sua aplicação ainda é incipiente em estudos brasileiros.

Dessa forma, o objetivo dessa revisão cienciométrica foi analisar a produção científica sobre anquiloglossia em revistas brasileiras de Fonoaudiologia, identificando lacunas e direcionando futuras pesquisas para aprimoramento das práticas clínicas.

MÉTODOS

A pesquisa é um trabalho com abordagem cienciométrica, que visa analisar a produção científica sobre anquiloglossia em revistas brasileiras de Fonoaudiologia. Para tanto, foi utilizado como referência o trabalho de Donthu et al.13, no qual podem ser observadas as seguintes etapas elencadas: formulação da questão de pesquisa, a coleta de dados relevantes, o processamento e organização desses dados, análise quantitativa, interpretação dos resultados e por fim, realiza a discussão dos dados que foram analisados.

Fonte de dados e estratégia de pesquisa

Uma busca manual foi realizada em todas as revistas de Fonoaudiologia do Brasil, no mês de abril de 2024. As quatro revistas atuais incluídas nesse estudo cienciométrico foram: Audiology Communication Research (ACR), criada em 2013; Communication Disorders, Audiology and Swallowing (CoDAS), criada em 2013; Centro de Especialização de Fonoaudiologia Científica (CEFAC), criado em 2006; Distúrbios da Comunicação (DiC), criada em 1986. As revistas antigas, que foram recuperadas ao longo dos anos, incluem a Revista de Atualização Científica Pró-Fono (RACPF), criada em 2005; o Jornal da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (JSBFa), criado em 2011; e a Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (RSBFa), criada em 2007. A transição da revista RACPF para o JSBFa ocorreu em 2011, e o JSBFa foi acontecido pela revista CoDAS em 2013. Da mesma forma, a revista RSBFa foi substituída pela revista ACR em 2013. Não houve delimitação quanto ao idioma. Não foi incluído filtro para o ano de publicação.

Critérios de elegibilidade e seleção dos artigos

A revisão bibliográfica foi conduzida de forma independente por duas pesquisadoras (MNM e RCFE) por meio de busca manual e contagem dos artigos em todas as revistas. Critérios de inclusão: artigos originais, relatos de caso e comunicações breves que contenham “frênulo da língua”, “freio lingual”, “anquiloglossia”, “língua presa” e “teste da linguinha” no título. Critérios de exclusão: artigos de revisão, cartas ao editor, resenhas, anais de congressos, editoriais. Além disso, outros artigos que abordavam temas como sistema estomatognático, motricidade orofacial, terapias de sucção, língua e assuntos relacionados tiveram seus resumos e métodos analisados, sendo descartados se o tema principal não estivesse diretamente relacionado ao foco da pesquisa. Em casos de discordância, um terceiro pesquisador (MJSM) foi consultado para desempate.

Extração dos dados

Após a leitura completa dos artigos selecionados, os dados extraídos foram inseridos no Google Forms e, posteriormente, convertidos em planilha utilizando o Google Sheets. Os metadados foram categorizados a partir dos itens a seguir: Título, Autores, Vínculo Institucional, Estado, Data (ano), Revistas, Descritores e Classificação Temática. No tópico “Classificação Temática”, as publicações selecionadas foram classificadas de acordo com os seguintes temas:

1. Instrumento de avaliação.

2. Avaliação do frênulo lingual.

3. Frenotomia versus amamentação.

4. Impacto na amamentação.

5. Impacto na fala.

6. Impacto na mastigação.

7. Impacto na sucção.

8. Impacto na respiração.

9. Assistência integral para alteração (Intervenções, seguimento fonoaudiológico e acompanhamento às famílias no suporte às crianças com anquiloglossia).

10. Website sobre frênulo da língua.

Análise dos dados

Os metadados coletados foram organizados e distribuídos no Google Sheets. Cada metadado relacionado à pesquisa foi inserido em colunas de uma tabela, facilitando a visualização e o gerenciamento das informações. Para análise, os metadados foram estruturados de forma segmentada, com cada conjunto de informações alocado em uma página separada, correspondente ao metadado coletado. Essa organização permitiu uma análise mais sistemática e direcionada, garantindo maior clareza na interpretação dos resultados.

Ainda, a partir de informações como datas de publicação, revistas, descritores e classificação temática, foram gerados gráficos fornecidos pela planilha. Os descritores foram aplicados no site WordClouds.com para gerar uma nuvem de palavras. Dados sobre estados e instituições foram inseridos no site mapChart.net para análise. Em seguida, foi utilizada uma plataforma de design gráfico online, que permite a criação de diversos tipos de materiais visuais (Canva), com o objetivo de alocar os logotipos e brasões no mapa, no máximo das três instituições que mais produziram artigos. Ademais, o tópico sobre os autores foi analisado na plataforma Vosviewer (versão 1.6.18), responsável por criar uma rede de colaboração. Por fim, foi utilizado um gerenciador de referências, o Mendeley.

Para aprimorar a organização na nuvem, optou-se por simplificar termos que foram colocados no WordClouds.com, como "frênulo da língua", para o termo exato encontrado no Descritores em Ciência da Saúde (DeCS), que, neste caso, é "freio lingual". Também foi substituída a palavra “bebê” pelo termo "lactente". Outrossim, pela mesma razão, os artigos publicados em outros idiomas tiveram seus descritores traduzidos para o português brasileiro.

REVISÃO DA LITERATURA

Durante o processo de seleção manual, entre os 6.513 artigos publicados em todas as revistas analisadas, foram identificadas 41 publicações relacionadas ao tema proposto. Destas, nove foram excluídas por não atenderem aos critérios de inclusão previamente estabelecidos. Dessa forma, restaram 32 artigos para leitura completa e análise cienciométrica (Figura 1). Além disso, as 32 publicações sobre anquiloglossia encontradas nas quatro revistas brasileiras de Fonoaudiologia foram organizadas na Tabela 1, incluindo informações como título, autores, ano de publicação, periódico, descritor e tipo de estudo, visando a uma localização eficiente e sistemática dos dados.

Figura 1
Fluxograma da triagem dos artigos desde a contagem total de publicações até a seleção para a análise

Tabela 1
Artigos encontrados sobre Anquiloglossia nas revistas brasileiras de Fonoaudiologia.

Análise das publicações por revista

Em relação à quantidade de artigos encontrados por revista, a Revista CEFAC apresentou o maior número de publicações relacionadas ao tema da pesquisa, com 17 artigos originais e dois relatos de caso incluídos na análise cienciométrica. Na Revista CoDAS, foram identificadas oito publicações. Por sua vez, a Revista ACR e a Revista DiC apresentaram duas publicações cada, enquanto na revista do JSBFa foi encontrado apenas um artigo, classificado como comunicação breve, publicado em 2012.

Análise das publicações por ano

Na Figura 2 observou-se que a primeira publicação sobre o tema ocorreu somente em 2008. Ademais, nota-se um aumento da produção relacionada ao tema a partir de 2017, com maior concentração de publicações no ano de 2020, seguida de declínio até os dias atuais.

Figura 2
Quantitativo de publicações por ano com linha de tendência

Análise das publicações por estados e instituições

Em relação ao número de publicações por estados do Brasil, conforme Figura 3, São Paulo concentra 18 artigos, sendo o estado que mais publica sobre anquiloglossia. Paraná, Pernambuco e Rio Grande do Norte concentram dois artigos cada. Os demais estados (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal, Piauí e Pará) tiveram, apenas, um estudo publicado cada. Na figura, vê-se também, as instituições vinculadas aos autores principais dos artigos encontrados. Contudo, em São Paulo, por ter um total de seis instituições (USP - Universidade de São Paulo, Hospital de Santa Therezinha, CEFAC - Centro de Especialização em Fonoaudiologia Clínica, FCMSCSP - Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, UB - Universidade Brasil, UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas), foram representadas as três com mais vínculos até o momento.

Figura 3
Imagem ilustrativa dos Estados, quantidade de publicações e instituições de vínculo dos principais autores com maior número de publicações

Análise dos descritores

A partir da pesquisa realizada, foram encontrados 150 descritores, que podem ser observados através da Figura 4. A partir disso, uma página no Google Sheets separou a quantidade de cada descritor, os quais foram inseridos no WordClouds.com. Com maior manifestação nos artigos, está o descritor “Freio Lingual” (32), seguido por “amamentação” (14), “anquiloglossia” (11) e “fonoaudiologia” (10).

Figura 4
Nuvem com os descritores utilizado nas publicações analisadas

Análise das classificações temáticas

Para melhor sistematização e captação dos achados da pesquisa, os artigos foram alocados por classificação temática. Sendo assim, estudos que falavam sobre teste da linguinha ou de algum instrumento que avaliasse o freio lingual, foi posto no tópico “Instrumento de avaliação” e assim sucessivamente. Foram encontradas nove publicações sobre os instrumentos de avaliação, cinco sobre os impactos do freio lingual na amamentação e cinco sobre a avaliação do frênulo da língua, propriamente dita, como indicado na Figura 5.

Figura 5
Distribuição em número absoluto e percentual dos temas estudados

Análise da rede de autores

Foi construída uma rede dos autores com os co-autores das pesquisas (Figura 6). A conexão entre eles, os chamados clusters, é estabelecida quando ocorre colaboração na publicação de um documento científico em conjunto. Os pontos mais fortes referem-se às pessoas que mais publicaram sobre o tema e percebe-se que elas, na maioria das vezes, se ligam entre si.

Figura 6
Imagem ilustrativa da rede de autores que publicaram sobre a temática.

Produção Científica Brasileira sobre Anquiloglossia: Análise Cienciométrica e Tendências

Esta análise cienciométrica aborda a produção científica sobre anquiloglossia nas revistas brasileiras de Fonoaudiologia. Ressalta-se que a língua desempenha um papel fundamental no desenvolvimento do sistema estomatognático e que a anquiloglossia pode ocasionar prejuízos no desenvolvimento do sistema estomatognático desde os primeiros anos de vida, com impactos a longo prazo. No entanto, dentro dos critérios de inclusão estabelecidos, a primeira pesquisa sobre o tema foi publicada apenas em 2008. Vale destacar que a RACPF, atualmente denominada Revista CoDAS, e a RSBFa, atualmente conhecida como Revista ACR, não publicaram nenhum artigo relacionado ao tema.

A Revista DiC, segunda maior em número de artigos e, a mais antiga dentre as analisadas, apresentou apenas dois estudos que atenderam aos critérios da pesquisa, sendo um publicado em 2018 no estado de São Paulo e outro em 2019 no Paraná, correspondendo a menos de 1% do total de publicações.

Entre 2009 e 2014, as quatro revistas brasileiras de Fonoaudiologia publicaram, em média, dois artigos por ano sobre anquiloglossia, enquanto em 2015 houve apenas uma publicação. No Brasil, a Lei Federal nº 13.002/201446, sancionada em 23 de junho de 2014, tornou obrigatória a implementação do *Protocolo de Avaliação do Frênulo da Língua em Bebês* (Teste da Linguinha)18, o que gerou a expectativa de aumento nas publicações científicas sobre o tema. Contudo, esse crescimento expressivo só foi observado em 2020, ano marcado pelo início da pandemia de COVID-19, com um total de sete artigos publicados. Nesse mesmo ano, o IBGE estimou que aproximadamente 8,7 milhões de pessoas trabalharam remotamente no Brasil, o que pode justificar o aumento na produção científica registrada47. Assim, percebe-se que o período pandêmico impulsionou a evolução das publicações relacionadas à anquiloglossia.

A Revista CEFAC destaca-se pelo maior número de publicações, totalizando 2.110 artigos, sendo também a revista com maior ocorrência de estudos relacionados ao frênulo lingual. A publicação apresentou uma rede de autoras que se sobressaíram pelo volume de trabalhos em colaboração (Figura 6). A maioria dos artigos dessas autoras foi publicada na própria Revista CEFAC, como pode ser observado na Tabela 1. Entre as autoras mais proeminentes nas redes de colaboração, destacam-se Roberta Martinelli, Irene Marchesan e Giédre Berretin-Felix, duas das quais possuem vínculo institucional com a Universidade de São Paulo (USP), instituição com o maior número de publicações.

A criação e validação do protocolo de avaliação do frênulo lingual em bebês, conhecido como Teste da Linguinha, representa um marco na pesquisa dessas autoras. Não surpreende, portanto, que os trabalhos de Martinelli, Marchesan e Berretin-Felix sejam tão frequentes na literatura encontrada, dado o impacto de suas contribuições sobre o tema18,24.

No panorama institucional, São Paulo concentrou a maior parte dos estudos sobre anquiloglossia, com destaque para a Revista CEFAC. Além disso, as instituições Universidade de São Paulo (USP) e Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) são reconhecidas como os maiores polos acadêmicos em Fonoaudiologia no Brasil, contribuindo significativamente para a produção científica.

Os descritores mais frequentes identificados na nuvem de palavras foram "freio lingual", "amamentação" e "anquiloglossia", refletindo a relevância desses tópicos para a compreensão da malformação e seu impacto na alimentação do recém-nascido.

Para compreender as abordagens das publicações ao longo do tempo, foi realizada uma leitura na íntegra e classificação temática dos artigos. Os temas mais recorrentes envolveram a criação, aplicação, validade e comparações dos instrumentos utilizados para avaliação do frênulo lingual14,17,20-25,35-37,41. Outro tema de destaque foi o impacto da anquiloglossia na amamentação, com divergências na literatura: quatro artigos apontaram a necessidade de mais estudos para conclusões com evidências científicas robustas, enquanto outros confirmaram a associação entre a anquiloglossia e dificuldades na amamentação25,33,34,38,43.

A partir dessa disparidade, podemos observar a falta de estudos com métodos pautados pela nova pirâmide de evidência científica, que preza, não somente pelo tipo dos estudos realizados, mas também pela qualidade metodológica das pesquisas realizadas na área48. A pirâmide de evidência científica é uma hierarquia que classifica estudos e evidências pela sua qualidade e confiabilidade em responder a perguntas de pesquisa49. As revisões sistemáticas, sem ou com metanálise, foram retiradas do topo da pirâmide e estas são consideradas como uma forma de analisar essas evidências. Neste estudo, as revisões sistemáticas da literatura não foram consideradas. Seguindo essa nova classificação, este estudo contemplou somente estudos de casos29,31,42,45 e estudos de coorte14-27,28,30,32-41,43,44.

Vale ressaltar que foram observados achados que correlacionaram a anquiloglossia com a fala, evidenciando-se estratégias de compensações realizadas pelo falante com frênulo curto, que se adaptaram e minimizaram a ininteligibilidade da fala15,26,31,32. Quanto à mastigação, os achados demonstraram que a anquiloglossia interfere nos movimentos da língua, impactando negativamente no processo mastigatório16. Em relação ao padrão de sucção, observa-se que recém-nascidos com anquiloglossia tendem a realizar sequências prolongadas e frequentes de sucção, o que pode ocasionar fadiga durante a amamentação ao seio materno. Esse esforço excessivo está associado ao aparecimento de dor e lesões mamilares nas lactantes16,45. Concluiu-se a necessidade de compreender os diferentes impactos da anquiloglossia nas funções do sistema estomatognático, para nortear intervenções terapêuticos mais adequadas e direcionadas.

Foram encontrados artigos que abordaram desde o diagnóstico até a terapia após a frenotomia, incluindo relatos de caso42. Um desses estudos acompanhou um bebê durante seis meses, documentando sua trajetória ao enfrentar dificuldades na amamentação, sendo classificado como exemplo de assistência integral à alteração19,29,42.

Adicionalmente, dois artigos trataram de conteúdos voltados à criação de informações destinadas a pais, profissionais e interessados, com destaque para orientações disponibilizadas em websites, incluindo aspectos legais e outras informações relevantes28,29. Em um estudo transversal descritivo sobre o acesso a informações de saúde na internet, 1.828 indivíduos foram entrevistados, e 80% relataram utilizar a internet como principal fonte de informações sobre saúde50. Este dado reforça a importância de disseminar informações de forma clara, objetiva e fundamentada em evidências científicas.

Na literatura internacional, uma pesquisa bibliométrica que analisou o panorama global da anquiloglossia em recém-nascidos destacou que o tema mais referenciado é a avaliação do impacto da frenotomia na amamentação51. Em contraste, na análise realizada neste estudo, verificou-se que o foco predominante dos artigos publicados nas revistas brasileiras de Fonoaudiologia é a avaliação do freio lingual. Isso sugere que, em um panorama global, os pesquisadores internacionais têm se preocupado principalmente com as consequências da frenotomia para a amamentação, enquanto os pesquisadores nacionais ainda concentram seus esforços no desenvolvimento e validação de protocolos que justifiquem a indicação do procedimento cirúrgico.

Embora a anquiloglossia seja um tema recorrente nas discussões da Fonoaudiologia, esta análise revela uma evidente escassez de publicações sobre o assunto nas revistas brasileiras específicas da área. Esse cenário sugere que fonoaudiólogos nacionais podem estar optando por publicar seus trabalhos em revistas internacionais ou em periódicos nacionais não especializados em Fonoaudiologia. A ausência de estudos randomizados recentes limita o desenvolvimento de protocolos clínicos sólidos e impede uma compreensão mais ampla das implicações da anquiloglossia, particularmente em relação à amamentação. Dado o papel essencial da amamentação no desenvolvimento infantil e os possíveis prejuízos associados à anquiloglossia, torna-se imperativo que mais pesquisas sejam conduzidas para preencher essas lacunas.

CONCLUSÃO

Esta pesquisa observou que, apesar da pequena ascensão nas publicações no decorrer dos anos, a quantidade de estudos sobre anquiloglossia ainda é limitada nas quatro revistas analisadas. Os trabalhos publicados concentram-se principalmente em aspectos relacionados à avaliação. Verificou-se, assim, uma carência de pesquisas que abordem o impacto da anquiloglossia no desenvolvimento do sistema sensório-motor oral, na amamentação e, posteriormente, na fala, bem como suas implicações psicossociais. Geograficamente, as publicações estão concentradas em São Paulo, indicando a necessidade de maior abrangência regional e institucional.

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  • Estudo realizado no Núcleo de Estudos em Deglutição e Disfagia do Instituto de Saúde de Nova Friburgo, Universidade Federal Fluminense (ISNF/ UFF), Nova Friburgo, RJ, Brasil.
  • Fonte de financiamento: Nada a declarar
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Editado por

  • Editor Chefe
    Giédre Berretin-Felix
  • Editor de Área
    Kelly da Silva

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    19 Set 2024
  • Revisado
    30 Jan 2025
  • Aceito
    18 Jul 2025
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