Open-access A INFLUÊNCIA DA AMAMENTAÇÃO NATURAL NO DESENVOLVIMENTO DOS HÁBITOS ORAIS

The influence of breast-feeding on oral habits development

RESUMO

Objetivo:  investigar a influência do tempo de amamentação natural e da ausência desta no desenvolvimento dos hábitos orais.

Métodos:  para o procedimento foi aplicado um questionário aos pais ou responsáveis por 200 crianças de escolas particulares na faixa etária de 5 a 7 anos.

Resultados:  das 200 crianças pesquisadas, 54 (27%) apresentaram hábitos orais até o momento. Destas, 21 (39%) crianças foram amamentadas no peito por mais de 6 meses; 27 (50%) foram amamentadas no peito por menos de 6 meses e 6 (11%) não receberam amamentação natural.

Conclusão:  foi verificado que o tempo de amamentação natural foi relevante em relação à prevalência do uso de chupeta, mas não em relação aos hábitos de sucção de dedo e uso de mamadeira na população analisada.

DESCRITORES:
Aleitamento Materno; Alimentação Artificial; Criança; Hábitos; Comportamento de Sucção; Pré-Escolar

ABSTRACT

Purpose:  to investigate the influence of breast-feeding period and its absence on developing oral habits.

Methods:  a list of questions was applied for the procedure to the parents or responsible ones for 200 children between 5 and 7 years old in private schools.

Results:  from 200 studied children, 54 (27%) presented oral habits until that moment. Where, 21 (39%) children had been breast-fed for more than 6 months; 27 (50%) had been breast-fed for less than 6 months and 6 (11%) did not receive breast feeding at all.

Conclusion:  it has been verified that the breast-feeding period has an influence in the prevalence use of pacifier but not in finger sucking and bottle feeding in the analyzed population.

KEYWORDS:
Breast Feeding; Bottle Feeding, Child; Habits; Sucking Behavior; Child; Preschool

INTRODUÇÃO

Amamentar, além de ser um ato de amor, é um verdadeiro exercício para o bebê, pois colabora para seu correto desenvolvimento crânio-facial, sua saúde mental e psíquica.

O aleitamento materno ajuda diretamente na redução das taxas de mortalidade e morbidade infantil, apresentando vantagens que foram comprovadas cientificamente, tais como seus aspectos nutricionais, imunológicos e sócioafetivos1.

No aleitamento materno o bebê terá melhores condições de estimulação de seu sistema sensório-motor-oral, pois a extração do leite exige força muscular, aumentando assim a tonicidade muscular 2, que é questão importante para estimular as funções da fala, respiração e deglutição e para desenvolver as estruturas faciais e orais.

Qando o aleitamento materno é substituído por mamadeiras e chupetas, o bebê, além de não ser devidamente estimulado na área sensório-motora, pode se desinteressar pela sucção do leite materno. A partir deste momento, a musculatura perioral e de língua podem tornar-se hipotônicas, levando a uma alteração na deglutição normal e deformação da arcada dentária e palato, ocasionando mordida aberta frontal ou lateral 3-4.

É recomendado o aleitamento no seio até os 6 meses de idade 5, pois caso a criança seja amamentada por menos tempo seu desenvolvimento morfo-funcional pode ficar prejudicado e resultar em deglutições atípicas, distúrbios fonoarticulatórios, respiratórios, neurossensoriais e de conduta. Ocorrerá ainda a falta de desenvolvimento correto da mandíbula 6.

As crianças que são amamentadas no seio possuem menor probabilidade de adquirir hábitos orais nocivos 7-8. A criança que não recebe a amamentação natural tem a tendência de sugar o dedo para exercitar sua musculatura, pois sua fome vai ser saciada por meio de outros artifícios nutricionais; porém sua necessidade de sucção não. Nesse momento o hábito se instala. A sucção do polegar também pode ser decorrente de problemas ambientais, tais como carência afetiva, ansiedade, ciúmes, podendo ser prejudicial à criança 9.

A chupeta também é considerada um hábito de sucção não nutritivo, que surge como uma necessidade de sucção, quando esta não é satisfeita pela alimentação natural ou artificial, e, quando utilizada por um tempo prolongado pode acarretar prejuízos dentários 10.

O uso prolongado de chupeta pode alterar a postura de lábios e língua; prejudicar a tonicidade dos músculos dos lábios, língua e face, deixandoos flácidos; induzir movimentos incorretos da língua na deglutição; prejudicar as arcadas dentárias; alterar a mastigação; provocar a respiração oral; prejudicar a emissão correta dos sons e favorecer o descontrole da saliva 11.

A mamadeira difere do peito em três pontos: o comprimento do bico, o fluxo de leite e a área que contorna o bico 12. Na mamadeira com bico convencional os lábios se posicionam sobre a ruela da mamadeira o que pode gerar deformidade, além do alimento cair diretamente na parte posterior da língua.

Um dos fatores para o desmame precoce é a confusão de bicos causada pela introdução de chupeta e mamadeira 13.

O aleitamento materno hoje é considerado uma questão de saúde pública e as vantagens da lactação são reconhecidas em todo mundo. É dever dos profissionais de saúde transmitir às gestantes informações básicas sobre a fisiologia e prática da amamentação, estimulando o aleitamento materno e zelando pela saúde bucal dos futuros bebês.

O objetivo deste estudo foi verificar a influência do tempo de amamentação natural ou ausência desta no desenvolvimento dos hábitos de sucção de dedo, chupeta e mamadeira, em crianças de faixa etária entre 5 a 7 anos de idade matriculadas em escolas particulares de Belo Horizonte, Ipatinga e Varginha (MG).

MÉTODOS

Foram investigadas duzentas (200) crianças de cinco (5) escolas particulares de três cidades do estado de Minas Gerais (uma no município de Belo Horizonte, três em Ipatinga e duas em Varginha).

Os dados foram coletados por meio da aplicação de um questionário aos pais ou responsáveis, que responderam a seis (6) perguntas objetivas relacionadas à amamentação natural, período da mesma e presença de hábitos orais (sucção de dedo, chupeta e mamadeira):

QUESTIONÁRIO

Instituição de ensino:_______________________

Identificação:____________________________________ Idade:____ anos ____meses

Questionário realizado com:

( ) pai( ) mãe( ) outros:

1. Seu (a) filho(a) foi amamentado no peito?( ) Não () Sim, menos de 2 meses () Sim, entre 4 meses e 6 meses

() Sim, por mais de 6 meses

Motivo do desmame:_______________________

2. A chupeta foi usada em conjunto com a amamentaçãonatural?

() Sim, a partir de _____ dias() Não

3. A mamadeira foi usada em conjunto com a amamentaçãonatural?

() Sim, a partir de _____ dias() Não

4. O seu filho (a) usa chupeta?

() Sim () Não, mas já usou até ______ anos () Não, nunca usou

5. O seu filho (a) usa mamadeira?

() Sim () Não, mas usou até ______ anos () Não, nunca usou

6. O seu filho (a) tem o hábito de chupar dedo?() Sim() Não, mas teve até ______ anos () Não, nunca teve.

Os hábitos constantes no questionário aplicado foram escolhidos por serem os mais freqüentes entre as crianças e serem as maiores causas de alteração no sistema estomatognático.

Alguns questionários foram aplicados pelos pesquisadores durante uma reunião de pais nas escolas selecionadas, enquanto outros foram enviados para a casa da criança, a fim de serem preenchidos e entregues no dia seguinte.

Os pais receberam esclarecimentos sobre a finalidade do estudo e aqueles que concordaram em participar receberam orientações necessárias para o preenchimento do mesmo.

Esta pesquisa foi avaliada e aprovada com o nº 126/03 pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Centro de Especialização em Fonoaudiologia Clínica, tendo sido considerada sem risco e com necessidade do termo de consentimento livre e esclarecido.

Os dados foram submetidos à análise estatística descritiva para classificar a amostra de acordo com o tempo de amamentação natural (amamentados por mais de 6 meses e amamentados por menos de 6 meses) ou ausência desta. Além da descrição, foi aplicado do Teste de Qui-Quadrado (nível de significância = 0,05).

RESULTADOS

Dos 200 (duzentos) questionários analisados, 79 (39,5%) crianças foram amamentadas no peito por mais de 6 meses, 107 (53,5%) crianças foram amamentadas por menos de 6 meses, enquanto que apenas 14 (7%) crianças não receberam amamentação natural.

Atualmente, das crianças amamentadas no peito por mais de 6 meses, 14 (18%) apresentam o hábito de usar mamadeira, 7 (9%) possuem o hábito de sucção digital e nenhuma apresentam o hábito de usar chupeta. No grupo das crianças amamentadas por menos de 6 meses, 12 (11%) apresentam o hábito de usar mamadeira, 9 (8%) possuem o hábito de sucção digital e 6 (6%) usam chupeta. As crianças que não foram amamentadas 3 (21,5%), 3 (21,5%) possuem o hábito de usar mamadeira e nenhuma apresentam o hábito de sucção digital (Figura 1).

Em relação aos hábitos orais de maneira geral, dos 79 entrevistados que disseram que as crianças foram amamentadas por mais de 6 meses, 58 (73%) nunca possuíam qualquer tipo de hábito oral e apenas 21 (27%) responderam que elas ainda apresentavam hábitos orais (Figura 2).

Figura 1
Distribuição da freqüência dos hábitos orais (chupeta, mamadeira e dedo) em crianças de acordo com o tempo de amamentação natural

Figura 2
Distribuição em porcentagem de hábitos orais de acordo como tempo de amamentação natural

DISCUSSÃO

Apesar de vários autores citarem que é recomenado o aleitamento no peito até os 6 meses de idade e que as crianças amamentadas no peito possuem menor probabilidade de adquirir hábitos orais nocivos 5,7-10, neste estudo, o uso da mamadeira e o hábito de sucção de dedo em crianças de 5 a 7 anos não foram influenciados significantemente pelo tempo de amamentação (p=0,702). Sugere-se que seja realizada uma pesquisa sobre a época em que o hábito de sucção de dedo teve início, pois de acordo com a literatura, quando o hábito surge em uma fase mais tardia, o mesmo pode ser explicado pela necessidade da criança liberar suas tensões emocionais 9.

O hábito de usar chupeta prevaleceu em crianças que não foram amamentadas no peito (21,5%), enquanto que as crianças amamentadas naturalmente por mais de 6 meses não apresentaram este hábito. Concluiu-se então que o tempo de amamentação teve influência estatisticamente significativa neste tipo de hábito (p< 0,001), concordando com a literatura que afirma que o hábito de usar chupeta surge a partir da necessidade de sucção que não foi saciada pela amamentação artificial 7-8,10-11.

O hábito de sucção de dedo prevaleceu nas crianças amamentadas no peito por mais de 6 meses (9%). Porém o tempo de amamentação natural não exerceu influência estatisticamente significativa (p= 0,661) neste hábito porque 8,4% das crianças que foram amamentas por menos de 6 meses apresentaram sucção digital e nenhuma criança que não foi amamentadas apresentaram este hábito.

Talvez a ausência de influência se deva à diferença entre o tamanho das amostras obtidas. O grupo de crianças que não foram amamentadas naturalmente - 14 crianças - é bem menor que o grupo de crianças amamentadas por mais de 6 meses - 79 crianças.

Os resultados desta pesquisa não deveriam ser estendidos a qualquer população com exceção à população das escolas particulares de Belo Horizonte, Ipatinga e Varginha (MG). Para isso seria necessário elaborar um plano amostral mais complexo, com dados oriundos de diversos bairros, cidades ou até estados, dependendo da extensão de interesse da pesquisa.

É importante ressaltar que a divulgação de informações sobre os benefícios da amamentação natural durante os primeiros seis meses de vida da criança ainda se faz necessária, pois apenas 39% das crianças da amostra pesquisada foram amamentados por mais de 6 meses.

Sugere-se que este estudo tenha continuidade e que seja realizada uma nova comparação com um número igual de indivíduos para cada grupo amostral.

CONCLUSÃO

Diante dos resultados obtidos nesta pesquisa, podemos concluir que, para a amostra estudada, o tempo de amamentação natural foi relevante em relação à prevalência do uso de chupeta, mas não em relação aos hábitos de sucção de dedo e uso de mamadeira pelas (em) crianças de 5 a 7 anos de idade.

REFERÊNCIAS

  • 1 Delgado SE. A influência da cultura no aleitamento materno: reflexões para melhor promovê-la. Fono Atual 2002; 5(19):20-3.
  • 2 Rezende MA. SOS respirador bucal: uma visão funcional e clínica da amamentação. Rev Latin Am Enferm 2004; 12(1):139.
  • 3 Wadsworth SD, Maul CA, Stevens EJ. The prevalence of orofacial myofunctional disorders among children identified with speech and language disorders in grades kindergarten through six. Int J Orofacial Myology 1998; 24:1-19.
  • 4 Bayardo RA, Peixoto LFS, Corrêa MSNP. Aleitamento natural e artificial: considerações gerais. J Bras Clin Odontol Integr 2003; 7(39):257-60.
  • 5 Walter LRF, Ferrelli A, Issao M. Ortodontia para o bebê. Londrina: Artes Médicas; 1996. p. 83-4.
  • 6 Torres R. Biologia de la boca: estructura y función. Buenos Aires: Panamericana; 1973. apud Gomes ICD, Proença MG, Limongi SCO. Avaliação e terapia da motricidade oral. In: Ferreira LP. Temas de fonoaudiologia. 8. ed. São Paulo: Loyola; 1999. p. 61-119.
  • 7 Legovic M, Ostric L. The effects of feeding methods on the growth of the jaws in infants. J Dent Child 1991; 58(3):253-5.
  • 8 Casanova D. A família e os hábitos orais viciosos na infância. J Bras Fonoaudiol 2000; 1(5):44-53.
  • 9 Cavassani VGS, Ribeiro SG, Nemr NK, Greco AM, Köhle J, Lehn CN. Hábitos orais de sucção: estudo piloto em população de baixa renda. Rev Bras Otorrinolaringol 2003; 69(1):106-10.
  • 10 Medeiros CFM. Hábitos bucais nocivos: a importância da conscientização em relação às ações preventivas. Pro-fono 1992; 4:36-42.
  • 11 Cunha VLO. Prevenindo problemas na fala pelouso adequado das funções orais: manual de orientação. Carapicuíba: Pró-fono; 2001. p. 3461.
  • 12 Carvalho GD. A amamentação sob a visão funcional e clínica da odontologia. Rev Secret Saúde 1995; 2(10):12-3.
  • 13 Gamburgo LJL, Munhoz SPM, Amstalden LG. Alimentação do recém-nascido: aleitamento natural, mamadeira e copinho. Fono Atual 2002; 5(20):5-10.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Out 2025
  • Data do Fascículo
    Jul-Sep 2005

Histórico

  • Recebido
    10 Maio 2004
  • Aceito
    30 Ago 2005
location_on
ABRAMO Associação Brasileira de Motricidade Orofacial Rua Uruguaiana, 516, Cep 13026-001 Campinas SP Brasil, Tel.: +55 19 3254-0342 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revisora1@revistacefac.com.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro