Open-access PERFIL AUDIOLÓGICO DOS BLOQUISTAS DO PORTO DE ITAJAÍ*

AUDIOLOGIC PERFIL OF WORKERS OF ITAJAÍ PORT

Resumo

Objetivo:  verificou-se o perfil audiométrico dos trabalhadores do setor de bloco do porto de Itajaí, considerando-se as variáveis de idade e exposições ocupacional e extra-ocupacional.

Métodos:  foram analisados, conforme critérios clínicos, os dados obtidosatravésdosprontuáriosde44funcionáriosdosetordeblocodoportodeItajaí,colhendodadosdaanamneseeexameaudiométrico correspondente.

Resultado:  constatou-se que a maioria dos funcionários apresentava algum tipo de alteração auditiva e que aqueles cuja exposição também acontecia extra-ocupacionalmente apresentavam perda auditiva em grau mais elevado.

Conclusões:  conforme os dados levantados, verificou-se que os funcionários julgam a exposição ao ruído intenso algo pouco relevante,tendoemvistaquesuasconseqüênciasaparecemalongoprazoenãodemaneiraimediata;alémdisso,taisfuncionários não demonstraram a percepção exata de suas alterações auditivas.

Descritores:
Perda auditiva provocada por ruído/etiologia; Exposição ocupacional/efeitos adversos

ABSTRACT

Purpose:  it was verified the audiometric profile of workers from the block sector of Itajaí Port, considering the variables the age and exposition occupational and extra-occupational.

Methods:  it was analyzed audiometric examination and the history of 44 employees from the block sector of Itajaí Port. These data were analyzed according to clinical criteria.

Results:  one evidence was that the majority of the employees presented some type of auditory alteration. Another one was that the ones who had extra-occupational exposition presented auditory loss in raised degree.

Conclusions:  the workers don't mind with the auditory alterations because these problems will appear afterwards. Besides, these workers don't demonstrate the accurate perception of their auditory alterations.

Keywords:
Hearing loss; noise-induced/etiology; Occupational exposure/adverse effects

INTRODUÇÃO

O ruído é um fator que há muito vêm prejudicando os seres humanos; todos os sons têm potencial para serem descritos como ruído; sua classificação, no entanto, é subjetiva, e essa distinção se refere ao fato de ser ou não desejável (por exemplo, banda de rock, boate, jogo de futebol). A audição é um sentido fundamental à vida, pois é a base da comunicação humana.(1)

Oruídoafetaobem-estarfísicoementaldaspessoas,etodososdiasinúmeraspessoasestãoexpostasaele:marceneiros, gráficos, metalúrgicos, militares, dentistas, telefonistas etc.; porém, o que se torna cada vez mais interessante é a adaptabilidade do ser humano às condições de ruído. As pessoas que trabalham muito tempo em ambiente ruidoso, já acostumaram o ouvido, sendo que esse fator (o ruído) parece não afetar sua saúde, aliás, não só no trabalho, mas em várias atividades.(1,2)

A essência de uma perda auditiva é seu efeito na comunicação e o impacto resultante no desenvolvimento e funcionamento psicossocial, cognitivo, da fala e da linguagem.(3)

Ruídos acima de 85 dB são nocivos à audição, para o diagnóstico de perda auditiva, deve-se relacionar a exposição ao ruídocomfreqüência,otempoderepousoacústico,aintensidadedapressãosonora,osanosefetivosdaexposiçãoeasusceptibilidade do indivíduo.(4)

A exposição a níveis de pressão sonora elevados pode causar de acordo com a susceptibilidade individual prejuízos auditivos ao indivíduo. Sua variação relaciona-se não só com as características do ruído, mas com uma série de fatores internoseexternosaoindivíduoquepodefavorecertalocorrência.Asusceptibilidadedeumapessoaaodanoauditivopor ruído pode ser influenciada por doença, idade, fatores hereditários concomitante exposição a outros agentes.(5)

Além disso, geralmente a perda auditiva induzida por ruído(PAIR),queéumacondiçãoestabelecidacomcaracterísticas específicas, desenvolve-se no ambiente laborativo, porém, como fatores externos ao trabalho podem potencializar o seu aparecimento, não se pode utilizar como sinônimo PAIR e perda auditiva ocupacional.(1,2)

MÉTODOS

Foram utilizados para a realização deste trabalho dadosde44funcionários,todosdosexomasculino,comfaixa etária de 18 a 65 anos, pertencentes ao setor de bloco do Porto de Itajaí - SC.

A coleta de dados foi obtida através da verificação dos prontuáriosdestesfuncionários,cujainformaçõesestavam relacionadas com o exame audiométrico de referência associado a um questionário.

O questionário de anamnese composto de cinco questões abordava as variáveis idade, tempo de exposições ocupacional e extra-ocupacional (utilização de motocicletas e/ou automóveis com motores alterados, atividades como Djs, segurança de casa noturna e atividades musicais), tendo sido respondido no momento precedente à realização do exame audiométrico realizado de janeiro a junho de 2002.

O exame audiométrico ocupacional respeitava as diretrizes da NR-7, norma regulamentadora vigente para exames complementares em empresas.

A análise da configuração audiométrica baseou-se no critério clínico - tipo da perda,(6) relacionando-os com os dados do questionário acima mencionado.

RESULTADOS

Os resultados do levantamento de prontuários de trabalhadores portuários de 18 a 65 anos de idade do setor de bloco do Porto de Itajaí - Santa Catarina, nos meses de janeiro a junho de 2002, estão descritos a seguir.

Dos 44 prontuários avaliados, ou seja 100% dos trabalhadores da categoria portuária anteriormente mencionada, verificou-se que 20 apresentam audição normal e 24 apresentam alterações auditivas.

Observou-seque,datotalidadedapopulaçãoestudada (44 trabalhadores), oito têm somado à sua exposição ocupacional uma exposição a ruído extra-ocupacional, sendo que sete destes trabalhadores apresentam alterações auditivas e apenas um apresenta audição normal.

Metade desses oito funcionários que se expõem tanto a ruído ocupacional quanto extra-ocupacional tem de 40 a 54 anos de idade, tempo de exposição ocupacional superior a 7 anos e extra-ocupacional superior a 5 anos.

Durante a análise dos prontuários observou-se ainda, que desses sete trabalhadores com alterações auditivas, seistêmconfiguraçãoaudiométricasugestivadePAIR,conforme o critério clínico.

Outros17trabalhadoresapresentamalteraçõesauditivas totalizando 24 trabalhadores, não sendo esses expostos a ruído extra-ocupacional. Relacionou-se então as alterações a exposição a ruído ocupacional e/ou outras causas conforme abaixo.

Observou-se que desses 17 trabalhadores com alterações auditivas, 12 apresentam características de perda auditiva induzida pelo ruído (PAIR), todos têm idades superiores a 30 anos e tempo de exposição ocupacional superior a 10 anos.

O grau das perdas também foi constatado neste estudo, sendo que seis trabalhadores dos oito expostos a ruído ocupacional e extra-ocupacional concomitante, apresentam grau de perda maior que os demais, expostos somente a ruído ocupacional.

DISCUSSÃO

De acordo com os achados obtidos, verifica-se que inicialmenteostrabalhadoresportuáriosdacategoriaestudada não têm consciência dos males que o ruído pode causar aaudição,poisnãoutilizamequipamentodeproteçãoindividual e não vêem qualquer problema no uso de walkmans, trabalho em boates como Djs ou seguranças.

Mais da metade dos trabalhadores da categoria mencionada apresentam alterações auditivas.

A época do surgimento das alterações auditivas nessa categoria ocorre por volta dos 30 anos de idade. O impacto de uma perda adquirida na idade adulta terá na vida do indivíduo, depende da idade na qual ela foi adquirida, da natureza, do grau e da configuração da perda, do estilo de vida e da ocupação da pessoa e do handicap ocasionado.3

O tempo de exposição a ruído para desencadeamento de alterações auditivas é após 7 anos de exposição ocupacional e 5 anos de exposição extra-ocupacional.

O grau das alterações auditivas são proporcionalmente maior naqueles trabalhadores que associam exposição a ruídos ocupacional e extra-ocupacional.

CONCLUSÃO

Após a análise dos dados coletados, verificou-se que, apesar de todo o sistema portuário obter um Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional implantado já há algum tempo, a exposição ao ruído intenso é vista pelos funcionários como fator secundário, talvez em virtude de as conseqüências desse fator não serem visíveis, mas perceptíveis ao longo dos anos e não de maneira imediata.

Os funcionários cujos dados foram analisados não têm a percepção exata dos danos auditivos que apresentam, além de julgarem-se, de certa forma, imunes às alterações correspondentes.

Aconscientizaçãotantodosefeitosdaexposiçãodoruído intenso no organismo como de que maneira suas conseqüências podem ser prevenidas ou amenizadas é fator primordial para que qualquer programa de saúde ocupacional seja efetivo. Isso nos remete à necessidade de que mais pesquisasqueenvolvamascaracterísticasdedeterminadasclasses de trabalhadores, ainda tão pouco exploradas, sejam realizadas, pois só a partir do conhecimento verídico da situação vivida pode-se traçar tanto um perfil quanto estratégias para melhorar as condições encontradas.

  • *
    Trabalho realizado noCEFAC - Centro de Especialização em Fonoaudiologia Clínica.

REFERÊNCIAS

  • 1 Nudelmann AA, Costa EA, Seligmann J, Ibañez RN, organizadores. PAIR: perda auditiva induzida pelo ruído. Porto Alegre: Bagaggem Comunicação; 1997.
  • 2 Nudelmann AA, Costa EA, Seligmann J, Ibañez RN organizadores. PAIR: perda auditiva induzida pelo ruído. Rio de Janeiro: Revinter; 2001.
  • 3 Katz J. Tratado de audiologia clínica. 4ª ed. São Paulo: Manole; 1999.
  • 4 Morata TC, Santos UDP. Efeitos do ruído na audição In: Santos UDP. Ruído: riscos e prevenção. São Paulo: Hucitec; 1996. p. 43-54.
  • 5 Jerger S, Jerger J. Alterações auditivas. São Paulo: Atheneu; 1989.
  • 6 Fiorini AC, Nascimento PES. Programa de prevenção de perdas auditivas In: Nudelmann AA, Costa EA, Seligmann J, Ibañez RN organizadores. PAIR: perda auditiva induzida pelo ruído. Rio de Janeiro: Revinter; 2001. p. 51-61.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2002

Histórico

  • Recebido
    15 Jul 2002
  • Aceito
    23 Ago 2002
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