RESUMO
Introdução: A Ciência Aberta tem impulsionado mudanças na produção e comunicação científica, com destaque para a tradição da América Latina na adoção dessas iniciativas.
Objetivo: Com isso, a pesquisa objetiva investigar os periódicos utilizados como veículos da publicação científica latino-americana sobre Ciência Aberta. Mais especificamente objetiva a) analisar o modelo de acesso e a tipologia editorial dos periódicos científicos, b) comparar estas características de acordo com a base de dados indexadora e o país de origem dos periódicos e c) identificar os periódicos científicos que concentram o maior número de publicações latino-americanas sobre Ciência Aberta.
Metodologia: O universo da pesquisa é formado por 1.687 artigos científicos com ao menos uma autoria vinculada à instituições latino-americanas, que abordassem a Ciência Aberta e/ou suas facetas e que estivessem indexados nas bases de dados SciELO Citation Index e/ou Web of Science Core Collection.
Resultados: Os artigos foram publicados em 858 periódicos científicos, onde 39,86% dos periódicos adotam o modelo de acesso aberto diamante e 34,15% o modelo de acesso híbrido. Em Web of Science, 57,58% dos periódicos são de editoras comerciais e 40,36% adotam o modelo híbrido. SciELO, por sua vez, apresenta 72,64% dos periódicos editados por IES e 89,15% sob a via de acesso aberto diamante
Conclusão: Aponta-se para a relevância que o modelo de acesso aberto diamante representa para o corpus da pesquisa. O recorte das duas bases pôde explicitar que, de certo modo, os autores reproduzem comportamentos distintos dependendo dos espaços de inserção e dos posicionamentos estratégicos que ocupá-los requer das suas publicações.
PALAVRAS-CHAVE:
Ciência Aberta; América Latina; Publicação científica; Comunicação científica; Periódicos científicos
ABSTRACT
Introduction: Open Science has driven changes in scientific production and communication, with Latin America leading the way in adopting these initiatives.
Objective: This study aims to investigate the journals used as vehicles for Latin American scientific publication on Open Science. More specifically, it aims to a) analyze the access model and editorial typology of scientific journals, b) compare these characteristics according to the indexing database and the country of origin of the journals, and c) identify the scientific journals that concentrate the largest number of Latin American publications on Open Science.
Methodology: The research universe consists of 1,687 scientific articles with at least one author linked to Latin American institutions, which addressed Open Science and/or its facets and were indexed in the SciELO Citation Index and/or Web of Science Core Collection databases.
Results: The articles were published in 858 scientific journals, of which 39.86% adopt the diamond open access model and 34.15% adopt the hybrid access model. In Web of Science, 57.58% of the journals are from commercial publishers and 40.36% adopt the hybrid model. SciELO, in turn, presents 72.64% of the journals edited by Higher Education Institutions and 89.15% under the diamond open access model.
Conclusion: This points to the relevance of the diamond open access model for the research corpus. The use of the two databases made it clear that, in a way, authors reproduce different behaviors depending on the spaces they occupy and the strategic positions that these require of their publications.
KEYWORDS:
Open science; Latin America; Scholarly publishing; Scholarly communication; Scholarly journals
1 INTRODUÇÃO
A Ciência Aberta é conceituada como um movimento amplo e abrangente que tem como mote a abertura, o compartilhamento e a transparência de todo o ciclo de pesquisa, produção e comunicação científica (Caballero-Rivero; Sánchez-Tarragó; Santos, 2019; UNESCO, 2022; Vicente-Saez; Martinez-Fuentes, 2018).
Devido a essa amplitude conceitual e de espaços de atuação, o movimento também apresenta uma nomenclatura diversa, em que o termo principal “Ciência Aberta” - comumente descrito na literatura como um termo guarda-chuva (Abadal; Anglada, 2020; Funamori, 2017; Silva; Silveira, 2019), se desdobra em demais facetas que representam movimentos e iniciativas de abertura em diferentes âmbitos do fazer científico - como as facetas de Ciência cidadã, Acesso aberto e Dados Abertos, por exemplo (Abadal, 2021; Silva; Silveira, 2019).
Este movimento, que tem se popularizado mundialmente ao longo das duas últimas décadas, principalmente devido ao descontentamento massivo quanto aos padrões de produção e comunicação científica vigentes (Abadal; Anglada, 2020; Funamori, 2017), foi recebido com entusiasmo por comunidades científicas de países e regiões periféricas (Salatino; Banzato, 2021; Silva, 2023).
É o caso da região latino-americana que, alinhada e comprometida com a abertura e democratização do conhecimento, utiliza infraestruturas e iniciativas científicas abertas para estruturar seus espaços de comunicação científica e potencializar sua visibilidade internacional (Aguado-López; Vargas Arbeláez, 2016; Cabrera; Saraiva Cruz, 2022; Silva, 2023).
O alinhamento dos pesquisadores da América Latina à Ciência Aberta manifesta-se ainda em publicações que discutem o tema no contexto regional, como nas pesquisas de Appel, Lujano e Albagli (2018), De Filippo e D’Onofrio (2019) e Pantoja e Cruzado (2023). Dentro do processo científico, a publicação de resultados de pesquisa em periódicos científicos faz parte de um retorno dos recursos, essencialmente públicos, investidos em pesquisa & desenvolvimento (outputs) (Noronha; Maricato, 2008). Portanto, análises da publicação científica tem o potencial de demonstrar os interesses e as estratégias adotadas por um país ou região ao abordar determinada temática.
Desse modo, a presente pesquisa questiona quais são os padrões de publicação dos pesquisadores latino-americanos que abordam a Ciência Aberta, e suas respectivas facetas, quanto aos periódicos selecionados para as publicações. Partindo do objetivo geral de investigar os periódicos utilizados como veículos da publicação científica latino-americana sobre Ciência Aberta, a pesquisa apresenta como objetivos específicos: a) analisar o modelo de acesso e a tipologia editorial dos periódicos científicos; b) comparar estas características de acordo com a base de dados indexadora e o país de origem dos periódicos e c) identificar os periódicos científicos que concentram o maior número de publicações latino-americanas sobre Ciência Aberta.
2 METODOLOGIA
O universo da pesquisa foi formado por 1.687 artigos científicos com ao menos uma autoria vinculada a instituições latino-americanas, que abordassem a Ciência Aberta e/ou suas facetas e estivessem indexados nas bases de dados SciELO Citation Index (2002-presente) e/ou Web of Science Core Collection (WoS) (1900-presente).
A definição das bases se deu pelo interesse em analisar as publicações indexadas tanto em uma base de dados de infraestrutura aberta, elaborada para ser composta, principalmente, por periódicos científicos da região latino-americana, quanto em uma base que parte de um cenário comercial de ciência de núcleo. Ademais, a escolha também está atrelada ao fato de ambas serem espaços de visibilidade internacional, prestígio e confiabilidade científica certificada entre os pares.
A construção da estratégia de busca partiu do interesse dos autores em analisar todos os aspectos e iniciativas englobados dentro do movimento de Ciência Aberta. Para isto, a Taxonomia de Ciência Aberta (Silveira et al., 2023) foi utilizada como base, trabalhando com o termo principal “Ciência Aberta” e suas facetas de categorias1. Os termos selecionados foram buscados nos idiomas português, espanhol e inglês, nos campos TI=title e AK=author keywords em SciELO e TI=title, AK=author keywords e KP= KeywordsPlus em WoS. Para delimitar o recorte geográfico da pesquisa foi utilizada, nas duas bases, a tag AD=address contendo os 19 países latino-americanos, assim como as suas variações idiomáticas. Por fim, um filtro de refinamento para a tipologia documental foi adicionado, restringindo as buscas para artigos de pesquisa e artigos de revisão.
A coleta de dados ocorreu no mês de abril de 2024, quando foram realizadas buscas individuais para cada faceta nas bases. Os registros bibliográficos passaram pela devida deduplicação e eliminação de dados não relevantes ou redundantes em cumprimento aos critérios de autoria latino-americana e de exclusão dos registros datados de 2024, por se tratar do ano corrente da pesquisa. Desse modo, em SciELO os artigos que compuseram o corpus foram publicados entre os anos de 2006 e 2023. Em WoS, por sua vez, de 1981 a 2023. Além disso, dos 1687, 1668 foram classificados pelas bases como artigos de pesquisa e 19 como artigos de revisão.
Quanto ao tratamento e análise dos dados dos periódicos científicos onde os 1.687 artigos foram publicados, foi efetuada a categorização das variáveis de tipologia editorial e de modelo de acesso. As tipologias editoriais foram organizadas a partir das informações registradas no campo publisher da WoS. Quando não foi possível realizar a identificação a partir do campo, os sites das editoras serviram de fonte de informação. Para analisá-los, os periódicos foram categorizados em cinco grupos: Instituição de Ensino Superior (IES), Associação, Governo, Comercial e Outros.
Todas as instituições de ensino superior, bem como setores vinculados a estas (como centros e editoras universitárias), foram consideradas como IES. Na categoria Associação, foram classificados todos os editores que apresentassem os termos ‘associação’ ou ‘sociedade’ como parte de seu nome. A categoria Governo, por sua vez, agrupou todas as instituições que apresentaram algum tipo de vínculo governamental, seja com Ministérios ou Institutos de Pesquisa. Editores que apresentavam um viés comercial foram categorizados na tipologia Comercial. A categoria “Outros”, por fim, foi utilizada para os editores que não se encaixaram em nenhuma das categorias anteriores e que não somaram mais de 1% do total de tipologias editoriais.
Quanto aos modelos de acesso seguidos pelas revistas, foram classificados entre: modelo de acesso aberto via diamante, via ouro, modelo por subscrição e modelo de acesso híbrido. Embora as vias diamante e ouro sejam interpretadas como sinônimos em textos presentes na literatura sobre a temática de Acesso Aberto, nesta pesquisa optou-se por analisá-las separadamente, devido às suas diferenças quanto à cobrança ou não-cobrança de taxas para a publicação dos artigos (APC). Para conferir as informações de modelo de acesso e existência de cobranças de APC foram utilizadas as informações disponíveis no Diretório de Periódicos de Acesso Aberto (DOAJ) e nos sites individuais de cada periódico.
Por fim, ressalta-se que foram recuperados artigos que estavam indexados simultaneamente nas duas bases. Nos casos em que a base de dados foi uma variável de análise, os quantitativos totais se sobrepuseram ao valor geral de artigos e periódicos do corpus da pesquisa, pois os itens foram contabilizados em ambas as bases, considerando a sua indexação dupla.
3 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Os 1.687 artigos que integraram o corpus da pesquisa foram publicados em 858 periódicos científicos. A distribuição dos artigos entre os periódicos analisados é equivalente a uma média de 1,97 e uma mediana de 1 artigo por título. Do quantitativo de artigos analisados, 1.402 foram recuperados em WoS, enquanto 428 em SciELO, sendo que 143 artigos estavam indexados em ambas as bases. Em relação aos periódicos, 726 foram recuperados em WoS e 212 em SciELO, com uma sobreposição de 80 periódicos (Figura 1).
A partir da organização dos grupos editoriais que gerenciam os periódicos em categorias de tipologias editoriais, foi possível observar que as editoras comerciais são as responsáveis pela maioria dos periódicos analisados. Do total de artigos, 48,07% foram publicados em revistas dessa tipologia editorial, enquanto 48,72% do total de periódicos são de editoras comerciais. Além desta, apenas a tipologia editorial de Instituição de Ensino Superior apresentou quantitativo significativo: 37,23% dos artigos e 33,68% dos periódicos analisados (Tabela 1).
Ao analisar a produção científica de autores latino-americanos indexada na WoS, Neubert (2020) identificou que 66,67% dos periódicos eram gerenciados por editoras comerciais e 14,75% por IES. Seguindo nessa mesma propensão, as pesquisas de Rodrigues, Neubert e Araújo (2020) e Anselmo, Rodrigues e Mugnaini (2023), que analisaram a publicação científica brasileira indexada em WoS, observaram que as editoras comerciais eram responsáveis pela maioria absoluta dos periódicos que compunham os seus corpus: 65% e 74,74%, respectivamente.
Ainda que os resultados aqui analisados se assemelhem aos das pesquisas supracitadas quanto à liderança das editoras comerciais, as diferenças percentuais observadas - inferiores a 50% nesta pesquisa, em contraste com valores iguais ou superiores a 65% nos estudos citados - indicam uma atenuação na predominância desta tipologia editorial quando se trata de artigos sobre temáticas de Ciência Aberta. Essa redução pode ser atribuída à inclusão, na presente análise, da base de dados SciELO, e não apenas da WoS. O contraste entre as tipologias editoriais dos periódicos indexados em ambas as bases está representado no Gráfico 1. A análise da distribuição das tipologias editoriais entre as bases de dados permite compreender o viés distinto de cada base.
Em WoS, tanto nos artigos quanto nos periódicos, as editoras comerciais representam a maior parcela do quantitativo: 57,85% e 57,58%. Enquanto a tipologia editorial IES corresponde a 29,53% dos artigos e 26,72% dos periódicos (Gráfico 1). Observando apenas WoS, a predominância da tipologia comercial se assemelha com as pesquisas de Anselmo, Rodrigues e Mugnaini (2023), Neubert (2020) e Rodrigues, Neubert e Araújo (2020), entretanto a presença das IES como editoras analisadas em WoS na presente pesquisa é ainda mais acentuada do que nas demais.
Já ao analisar os dados apenas em SciELO, a distribuição é distinta da encontrada em WoS: para a unidade artigo o destaque é da tipologia IES com 76,64% do analisado, além de Governo e Associação, que representam 11,45% e 9,81%. A unidade periódico, por sua vez, apresenta IES como 72,64% da tipologia editorial encontrada, Associação com 12,74% e Governo com 11,32%.
Vale destacar que a cobertura de periódicos indexados por SciELO representa a excelência da publicação científica oriunda, principalmente, da América Latina e Caribe (Vélez-Cuartas; Lucio-Arias; Leydesdorff, 2016; Santin, 2019), região esta que tem como característica de sua infraestrutura científica a gestão e a editoração de periódicos científicos majoritariamente vinculados a universidades, institutos de pesquisa e agências públicas de fomento (Aguado-López; Vargas Arbeláez, 2016; Salatino, 2022; Santin, 2019; Ramírez; Samoilovich, 2021; Rodrigues; Neubert; Araújo, 2020). Por isso, os resultados do Gráfico 1 são condizentes tanto com as especificidades da base quanto com o cenário científico da região por ela coberta.
Para aprofundar a análise dos periódicos científicos que compõem a pesquisa, foram levantados dados sobre os diferentes modelos de acesso utilizados, classificados entre acesso aberto e acesso via subscrição. Quanto aos modelos de acesso aberto, do total de periódicos analisados, 62,7% (538) das revistas assumem modelos nessa esfera de acesso, dos quais 39,86% (342) adotam o modelo de acesso aberto diamante e 22,84% (196) o modelo de acesso aberto ouro. Já em relação ao modelo de acesso por subscrição, que abrange 37,3% (320) das revistas, 34,15% (293) correspondem ao modelo híbrido e apenas 3,15% (27) ao acesso exclusivamente via subscrição (Gráfico 2).
Esse resultado contrasta com a pesquisa desenvolvida por Anselmo, Rodrigues e Mugnaini (2023), que identificou que, entre os periódicos científicos analisados, 83,25% seguiam o modelo de acesso por subscrição, enquanto apenas 16,75% seguiam o modelo de acesso aberto.
Em contrapartida, assemelha-se ao resultado encontrado por Pantoja e Cruzado (2023) que identificaram o modelo de acesso aberto diamante como o líder de sua pesquisa sobre a produção científica sobre Ciência Aberta na América Latina em Scopus, acumulando 38% do seu quantitativo sob essa via de acesso.
Levando em conta os recortes temáticos e geográficos desta pesquisa, a predominância do modelo de acesso aberto, e principalmente na modalidade diamante, sugere que a apropriação da Ciência Aberta ultrapassa, em certos casos, os muros das temáticas abordadas nas pesquisas e se estende também às escolhas políticas e estratégicas dos autores em relação aos espaços de publicação.
A fim de entender com maior clareza as especificidades em que os modelos de acesso estão inseridos no corpus da pesquisa, esta variável foi cruzada com as tipologias editoriais dos periódicos (Gráfico 2).
Ainda que apresentem porcentagens distintas entre as tipologias editoriais, o modelo de acesso aberto diamante é o mais adotado na maioria delas. Destacam-se os periódicos vinculados a Governo e IES, nos quais 88,23% e 84,77%, respectivamente, correspondem a esse modelo. Embora em porcentagem menores, mas ainda expressivas, as categorias Outro e Associação figuram com 60,86% e 45,74% dos seus periódicos no modelo diamante. Apenas os periódicos oriundos de editoras comerciais apresentam uma configuração diferente das demais: 61,49% dos periódicos sob essa tipologia editorial incorporam o modelo híbrido de acesso. Além disso, é nas editoras comerciais que se concentra o maior quantitativo de periódicos sob o modelo de acesso aberto ouro. Dos 196 periódicos identificados como acesso aberto ouro, 133 (67,85%) deles são pertencentes à editoras comerciais.
O predomínio do modelo de acesso aberto diamante encontrado nas editoras de tipologia IES, Associação e Governo é condizente com o contexto da infraestrutura científica latino-americana, em que a gestão e editoração científica estão vinculadas à instituições de caráter público ou associativo e em espaços de comunicação e difusão do conhecimento disponibilizados em acesso aberto, principalmente em periódicos científicos sob a via diamante de publicação (Neubert; Rodrigues, 2021; Packer, 2011, 2021; Ramírez; Samoilovich, 2021; Rodrigues; Neubert; Araújo, 2020).
A concentração do acesso aberto diamante nos periódicos de editoras provindas de IES e Associações caminha em paralelo com a pesquisa de Morrison (2018). Esta observou que aproximadamente 99% dos periódicos que não cobravam taxas para publicação - ou seja, periódicos do modelo diamante - do corpus de pesquisa analisado apresentaram em seus nomes variações das palavras Universidade e Sociedade (Morrison, 2018).
Sobre os periódicos de editoras comerciais, é importante ressaltar que essa tipologia editorial é comandada principalmente pelo oligopólio editorial, pequeno grupo de editores comerciais que detém a maior parcela do mercado de comunicação científica e que domina o sistema de publicação em uma lógica de mercado inelástica, o que transforma os produtos científicos em bens comercializáveis (Abadal; Nonell, 2019; Aspesi et al., 2019; Lariviére; Haustein; Mongeon, 2015; Neubert, 2020; Neubert; Rodrigues; Mugnaini, 2021; Vessuri; Guédon; Cetto, 2014).
Com a adoção de critérios para a publicação de resultados de pesquisas subsidiados por agências e organizações de financiamento público em acesso aberto, principalmente após o lançamento do Plano S, o oligopólio vislumbrou a adoção do modelo de publicação aberta ouro como uma oportunidade para expandir suas fontes de renda e aumentar a sua influência no mercado de publicação científica (Aspesi et al., 2019; Björk, 2012; Rooryck, 2022).
Desse modo, registrou-se aumento considerável no número de periódicos comerciais que adotaram tanto o modelo de acesso aberto ouro quanto o modelo híbrido de publicação (Morrison, 2018; Rodrigues; Abadal; Araújo, 2020). Concomitantemente, os valores cobrados nos APC têm seguido uma tendência de crescimento ao longo dos últimos anos (Anglada; Abadal, 2023; Khoo, 2019; Morrison et al., 2022). Entre 2011 e 2021, os preços dos APC sofreram um aumento de 80%, de acordo com Morrison et al. (2022).
Na presente pesquisa, o grupo das editoras comerciais foi o que concentrou o maior número de periódicos de acesso aberto ouro, resultado que reflete o interesse do grupo de editores nesse modelo de publicação. De maneira semelhante, Morrison et al. (2015) e Anselmo, Rodrigues e Mugnaini (2023) identificaram em seus resultados o mesmo aspecto: as editoras comerciais detiveram 61% dos periódicos de acesso aberto ouro analisados na primeira pesquisa e 76,76% na segunda, revelando um quantitativo de periódicos científicos de editoras comerciais que são desenvolvidos para atuar apenas no cenário de publicação em acesso aberto ouro (Asai, 2023; Anglada; Abadal, 2023; Rodrigues; Abadal; Araújo, 2020).
Ainda sobre as editoras comerciais, os dados apontam que a maioria dos periódicos desse grupo faz uso do modelo de acesso híbrido de publicação, um resultado que evidencia o interesse desse grupo de editores em lucrar duplamente com os periódicos, tanto por meio da cobrança de APC às unidades individuais dos artigos de autores que assim desejarem adotar a via ouro em sua publicação, quanto pela permanência das taxas de subscrição para o acesso completo ao conteúdo do periódico (Anselmo; Rodrigues; Mugnaini, 2023; Jahn; Matthias; Laakso, 2021; Neubert, Rodrigues, 2021; Rooryck, 2022). A concentração dos periódicos comerciais no modelo híbrido de acesso pode demonstrar o interesse dessas editoras em duplicar as suas margens de lucro, estratégia conhecida como ‘double dipping’ (Asai, 2023). A pesquisa de Asai (2023) indicou que o valor médio do APC pago à periódicos híbridos foi ainda maior do que para os periódicos de acesso aberto ouro e que as editoras comerciais responsáveis pelo modelo não parecem inclinadas a reduzir os valores.
Correlaciona-se, ainda, o fato de que os valores dos APC estão intrinsecamente relacionados ao impacto que a revista possui, portanto, periódicos com altos Fatores de Impacto tendem a cobrar valores altos de taxas para publicação (Morrison et al., 2022). Essa lógica de equivalência entre preço e prestígio faz com que parte dos autores, especialmente a parcela com recursos para investir em APC, optem por publicar nesses espaços almejando aumentar seu capital científico internacional (Björk; Solomon, 2015).
A dominância do oligopólio editorial no modelo tradicional de publicação assim como no contexto do acesso aberto com cobrança de APC são fatores que ampliam, complexificam e perpetuam a crise de acesso à informação científica, mote inicial para a articulação e desenvolvimento do próprio Movimento de Acesso Aberto (Neubert; Rodrigues, 2021; Rodrigues; Abadal; Araújo, 2020).
Analisando as variáveis de modelo de acesso e tipologia editorial pelo recorte da base de dados (Tabela 2), as particularidades desse cruzamento recebem ainda os contornos das estratégias de indexação de WoS e SciELO, estratégias estas que são reflexos das posições de poder que cada uma das bases ocupa no cenário de comunicação da Ciência.
Editoras comerciais são as maiores publicadoras de periódicos em WoS, fator que reflete diretamente nas especificidades da produção que está indexada na base (Lariviére; Haustein; Mongeo, 2015; Neubert; Rodrigues, 2021). Na presente pesquisa, o predomínio dos periódicos de editoras comerciais (57,58%) em WoS é evidenciado, tendo como principal modelo de acesso o híbrido, com 35,40%, que, somados aos percentuais das demais tipologias editoriais, completa os 40,36% que o modelo assume na base. Ademais, o modelo de acesso aberto ouro também concentra uma porcentagem relevante nos periódicos comerciais: 18,32%.
Além das editoras comerciais, as IES alcançam 26,72% em WoS, dos quais 21,35% adotam o modelo de acesso aberto diamante. Este resultado pode estar associado ao aumento no número de periódicos científicos latino-americanos, tradicionalmente vinculados à via diamante, que a base vem indexando ao longo dos últimos anos (Lucio-Arias; Velez-Cuartas; Leydesdorff, 2015; Neubert; Rodrigues, 2021; Santin, 2019).
Já com relação à base SciELO, 72,64% dos periódicos são editados por IES, 67,45% dos quais adotam o modelo diamante de acesso aberto. Nesse contexto, o modelo diamante é adotado por 89,15% dos periódicos analisados que estão indexados em SciELO.
Bosman et al. (2021), em sua análise mundial sobre os periódicos diamante, constataram que 72% estavam associados às editoras universitárias, resultado semelhante ao encontrado nesta pesquisa. Além disso, também identificaram a dominância do modelo diamante na América Latina: 95% dos periódicos analisados na região seguiam o modelo (Bosman et al., 2021).
Na presente pesquisa também foram analisados os países de origem dos periódicos escolhidos pelos autores como veículos para publicação de seus artigos (Tabela 3). O país com mais periódicos foi a Inglaterra, com um total de 185 revistas (21,56% do total), seguida pelos Estados Unidos da América com 139 periódicos científicos (16,78%) e Brasil com 102 periódicos (11,89%).
Ao examinar as regiões onde estão localizados os países, a região europeia foi a que concentrou o maior número de periódicos: 47,2% do total estudado, que se dispersa entre 15 países da região. Ao analisar os modelos de acesso dos periódicos da região, os modelos híbrido e acesso aberto ouro foram os mais implementados, com 23,19% e 14,57% dos periódicos, respectivamente.
Tanto nos modelos híbrido e ouro quanto no de acesso via subscrição, a Inglaterra é o país com maior número de periódicos, 13,64%, 5,71% e 1,4%, respectivamente. Apenas no modelo de acesso diamante a Espanha foi o país com mais periódicos: 34 (3,96%) dos 65 (7,58%) periódicos sob o modelo na região são oriundos do país (Tabela 3).
Na sequência, a segunda região com mais periódicos selecionados para publicação pelos autores do corpus da pesquisa foi a própria América Latina, com 33,8% dos periódicos, sediados em 12 diferentes países da região. O modelo de acesso de majoritária adoção nesse conjunto de periódicos é o diamante, com 29,95% do quantitativo da região. O Brasil foi o único país onde foram publicados artigos em periódicos de modelo híbrido. Já as duas publicações em modelo subscrição estão sediadas no México e no Chile.
A região da América do Norte é a que acumula o terceiro conjunto significativo de periódicos de publicação dos artigos: 16,78% do total. Destes, a maioria (16,20%) está localizada nos Estados Unidos da América. Quanto ao modelo de acesso, 9,56% dos periódicos localizados na região adotam o modelo híbrido de publicação e 4,2% o modelo de acesso ouro.
Como se observa, 66,2% dos periódicos analisados estão sediados em países de fora da América Latina, principalmente Inglaterra, Estados Unidos e Países Baixos. Este resultado é semelhante ao encontrado em outros estudos presentes na literatura e se justifica por serem os países onde estão localizadas as sedes das principais editoras comerciais que formam o oligopólio editorial (Csomós, 2018; Lariviére; Haustein; Mongeon, 2015; Mugnaini et al., 2019; Mugnaini; Pio; Paula, 2019; Neubert, 2021; Santin, 2019).
Ainda assim, o quantitativo de periódicos sediados na própria região latino-americana forma um volume considerável, principalmente a concentração apresentada pelo Brasil. Esse resultado pode ser compreendido como reflexo das iniciativas voltadas ao fortalecimento da editoria científica no país, as quais vão desde a criação de Portais de Periódicos nas instituições de ensino superior até a consolidação de critérios de inclusão na coleção SciELO (Neubert; Rodrigues; Mugnaini, 2021).
Ao fazer uma relação entre as regiões e modelos de acesso apresentados na Tabela 3 e as tipologias editoriais e modelos de acesso apresentados no Gráfico 2, pode-se aferir uma expressiva concentração de periódicos geridos por editoras comerciais tanto na região européia quanto norte americana, devido a majoritária adoção do modelo híbrido de acesso aos artigos nas regiões (dos 34,15% periódicos de modelo híbrido, 23,19% são europeus e 9,67% são da América do Norte). A região latino-americana, por sua vez, por ter apresentado em sua maioria periódicos com o modelo de acesso aberto diamante - 29,95% dos 39,86% analisados no corpus da pesquisa estão situados em países da região - concentra expressiva parcela de periódicos editados por instituições de ensino superior.
A fim de observar a concentração e dispersão dos artigos entre os periódicos, estes foram ranqueados de acordo com o total de artigos publicados (Tabela 4). O periódico com o maior número de artigos publicados é a revista Sustainability da editora comercial Multidisciplinary Digital Publishing Institute (MDPI), com 32 publicações. A MDPI já foi apontada na literatura por má conduta editorial - como, por exemplo, o alto nível de auto-citações - e práticas que se enquadram na definição de condutas assumidas por periódicos predatórios (Copiello, 2019; Oviedo-García, 2023), e esteve na lista de periódicos predatórios elaborada por Beall (2017) sendo, posteriormente, removida.
Com relação à área do conhecimento dos periódicos que compõem o ranking principal, a Ciência da Informação & Biblioteconomia se destaca como a predominante. Dos 18 periódicos listados na Tabela 4, 13 são classificados dentro dessa área, conforme atribuição utilizada em Web of Science (Clarivate, 2020). As relações estabelecidas entre Ciência Aberta e Ciência da Informação são frequentemente investigadas em publicações científicas da área, principalmente pela vertente que se dedica à pesquisar sobre comunicação científica (Gäal; Martins, 2022; Gäal; Pereira, 2022; Lee; Chung, 2022).
Ao observar os países onde as editoras do ranking estão localizadas, o Brasil é o país com a maior concentração, sete periódicos. Esse destaque é observado também nas análises dos países de origem dos periódicos que publicaram os artigos (Tabela 3) e em demais pesquisas que encontraram resultados similares (De Filippo; D’Onofrio, 2019; Leon Gonzalez et al., 2020; Leta; Thijs; Glänzel, 2013; Neubert, 2020; Neubert; Rodrigues; Mugnaini, 2021; Santin, 2019).
A Tabela 4 também apresenta o modelo de acesso dos periódicos do ranking. O destaque ficou para os periódicos de acesso aberto diamante, com 12 das 18 revistas que publicaram 10 ou mais artigos do corpus. Dessas, 11 estão associadas a editoras de universidades e uma a editora de órgão governamental cubano, refletindo as relações entre periódicos diamante, tipologias editoriais de IES, Associação e Governos e as características particulares da ciência latino-americana apontadas por outros autores (Bosman et al., 2021; Neubert; Rodrigues, 2021; Packer, 2011; Packer, 2021; Ramírez; Samoilovich, 2021; Rodrigues; Neubert; Araújo, 2020).
Quanto ao acesso híbrido, foram identificados no ranking três periódicos sob o modelo. Essas revistas pertencem às editoras Springer Nature e Elsevier, grupos editoriais comerciais que compõem o oligopólio editorial, advindo das revistas tradicionalmente de acesso via subscrição (Asai, 2023; Aspesi et al., 2019; Lariviére; Haustein; Mongeon, 2015; Vessuri; Guédon; Cetto, 2014).
Já com relação aos periódicos identificados como adotantes do modelo de acesso aberto ouro, o ranking identificou três periódicos publicados pelas editoras MDPI, PLOS e Frontiers Media, editoras comerciais que se diferenciam das ‘tradicionais', pois são nativas do contexto de acesso aberto e cobram taxas de APC para a publicação em seus espaços (Asai, 2023; Anglada; Abadal, 2023; Neubert; Rodrigues, 2021; Rodrigues; Abadal; Araújo, 2020).
Vale destacar que as revistas que possuem 10 ou mais artigos publicados representam apenas 16,89% do quantitativo de artigos analisados na pesquisa. Ao examinar os demais periódicos, que estão de fora do ranking da Tabela 4, essa dispersão fica mais evidente. Identificou-se que 66,47% do quantitativo de periódicos é responsável pela publicação de apenas um artigo e 16,65% dos periódicos publicou apenas dois artigos, ou seja, dos 858 periódicos analisados na pesquisa, 714 deles publicaram entre um e dois artigos sobre as temáticas de Ciência Aberta. Este dado demonstra a expressiva disseminação das publicações sobre o tema entre os periódicos.
4 CONCLUSÃO
Discorrer sobre as especificidades dos periódicos científicos escolhidos para a publicação científica latino-americana sobre Ciência Aberta possibilita o escrutínio das escolhas estratégicas associadas, ou não, a práticas e iniciativas abertas dentro do corpus pesquisado.
Ao analisar o modelo de acesso e a tipologia editorial dos periódicos, aponta-se para a relevância que o acesso aberto diamante, incorporado principalmente por periódicos de IES, representa para o contexto desta pesquisa. A liderança desse modelo dentre os periódicos analisados reafirma a tradição característica que a estrutura científica latino-americana tem com a adoção dessa via.
Por sua vez, o conjunto significativo de periódicos híbridos, bem como o baixo quantitativo de periódicos que adotam apenas o acesso via subscrição, ressaltam a maneira como as editoras comerciais têm contornado as iniciativas dos atores científicos que incentivam a abertura do conhecimento financiado por fundos públicos, de modo a por vezes se utilizar delas para acúmulo de receitas.
A relação observada entre a adoção do modelo ouro e as editoras comerciais é um aspecto que reforça o interesse comercial de atuação no cenário de publicação em acesso aberto, embora neste caso os periódicos tenham sido criados ou transformados para operar exclusivamente neste modelo de negócios.
Após a adição do recorte por base indexadora, observa-se uma consolidação do modelo diamante, tanto por seu destaque predominante em SciELO quanto por sua expressiva presença em WoS. Por outro lado, a presença exclusiva do acesso híbrido e majoritária do acesso ouro em WoS refletem as características da produção advinda do viés editorial comercial que é majoritariamente indexada na base.
Quando soma-se à análise os países de origem dos periódicos, dois terços dos destes estão localizados fora da América Latina, principalmente na Inglaterra, Estados Unidos e Países Baixos, apresentando forte associação com o modelo comercial de publicação científica via acesso híbrido ou ouro. Enquanto a América Latina, fazendo jus a sua tradição científica associada à promoção do acesso aberto diamante, demonstra o seu potencial como uma via alternativa às publicações no âmbito do oligopólio das editoras comerciais.
Ao identificar os veículos responsáveis pela maior concentração de artigos publicados, embora o primeiro periódico do ranking tenha sido a revista Sustainability da editora comercial MDPI, adotante da via ouro de acesso, dentre os demais periódicos que compõem o ranking, a via de acesso aberto diamante figurou como o modelo com maior ocorrência. Outro aspecto expressivo é que, embora os periódicos oriundos da região latino-americana tenham representado pouco mais de um terço do total de periódicos analisados, o ranking apresenta, em sua maioria, a aparição de periódicos dessa região.
Por fim, a expressividade das publicações em periódicos de acesso aberto, seja no modelo diamante ou ouro, reflete o comprometimento dos autores da região que publicam sobre Ciência Aberta com as próprias ações práticas deste movimento na comunicação científica. Para o futuro, surge a necessidade de se debruçar mais a fundo sobre os espaços de publicação via diamante dentro da comunicação científica.
Reconhecimentos:
Não aplicável.
REFERÊNCIAS
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Financiamento:
Este estudo foi financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES), Código financeiro 001
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Sendo elas: Acesso Aberto, Dados Abertos, Pesquisa Reprodutível Aberta, Avaliação Aberta e Responsável da Ciência, Educação Aberta, Inovação Aberta, Infraestrutura e Ferramentas Científicas Abertas, Ciência Cidadã, aberta e participativa e Diálogo Aberto com outros sistemas de conhecimento. Optou-se por não utilizar a faceta “Política, declarações, diretrizes e orientações de Ciência Aberta” pois a busca com a palavra-chave “Ciência Aberta” já seria suficiente para recuperar possíveis publicações sobre essa faceta.
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Aprovação ética:
Não aplicável.
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Disponibilidade de dados e material:
Não aplicável.
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Imagem:
Extraída da plataforma Lattes.
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JITA:
LP. Intelligent Agents | Artificial Intelligence
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ODS:
10. Redução das desigualdades
Editado por
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Editor:
Gildenir Carolino Santos https://orcid.org/0000-0002-4375-6815
Não aplicável.






Fonte: Dados da pesquisa (2024).Descrição:
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