RESUMO
Introdução: O conhecimento e a Gestão do Conhecimento têm se destacado como um dos principais recursos organizacionais, assumindo papel estratégico para o desempenho e a competitividade das organizações.
Objetivo: Este artigo analisa como a Gestão do Conhecimento contribui para o avanço dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no contexto organizacional. Metodologia: O estudo realizou uma revisão sistemática da literatura nas bases Scopus e Web of Science, conduzida de acordo com o protocolo PRISMA, incluindo etapas de busca, seleção, triagem e análise qualitativa e quantitativa dos estudos.
Resultados: A análise dos estudos evidencia que a Gestão do Conhecimento opera como infraestrutura estratégica para a sustentabilidade organizacional, estruturando mecanismos cognitivos, tecnológicos e organizacionais que viabilizam a integração dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Os estudos revelam que práticas de Gestão do Conhecimento, como sistematização da informação, difusão do conhecimento, suporte tecnológico, colaboração interorganizacional e construção de capacidades dinâmicas, ampliam a capacidade das organizações de implementar metas relacionadas à produção sustentável, inovação, educação, igualdade e governança.
Conclusão: Os achados evidenciam que a Gestão do Conhecimento atua como elemento estruturante na articulação entre conhecimento, processos e estratégias organizacionais em direção à Agenda 2030. A sistematização proposta permite compreender essa relação de forma integrada e aponta lacunas relevantes para o avanço das pesquisas e das práticas organizacionais orientadas à sustentabilidade.
PALAVRAS-CHAVE:
Gestão do conhecimento; Inovação; Objetivos de desenvolvimento sustentável; Sustentabilidade.
ABSTRACT
Introduction: Knowledge and Knowledge Management have emerged as key organizational resources, assuming a strategic role in organizational performance and competitiveness.
Objective: This article examines how Knowledge Management contributes to advancing the Sustainable Development Goals in organizational contexts. Methodology: The study conducted a systematic literature review in the Scopus and Web of Science databases, following the PRISMA protocol, including search, selection, screening, and qualitative and quantitative analysis of the studies.
Results: The analysis of the studies shows that Knowledge Management operates as a strategic infrastructure for organizational sustainability, structuring cognitive, technological, and organizational mechanisms that enable the integration of the Sustainable Development Goals. The findings indicate that Knowledge Management practices, such as information systematization, knowledge sharing, technological support, interorganizational collaboration, and the development of dynamic capabilities, enhance organizations’ ability to implement goals related to sustainable production, innovation, education, equality, and governance.
Conclusion: The findings demonstrate that Knowledge Management serves as a structuring element in articulating the relationship among knowledge, processes, and organizational strategies toward the 2030 Agenda. The proposed systematization enables an integrated understanding of this relationship and highlights relevant gaps for advancing research and organizational practices oriented toward sustainability.
KEYWORDS
Knowledge Management; Innovation; Sustainable Development Goals; Sustainability.
1 INTRODUÇÃO
O conhecimento tem se destacado como um dos principais recursos organizacionais, assumindo status estratégico para o desempenho e a competitividade das empresas. Mais do que um ativo intangível, o conhecimento é compreendido como uma “nova mercadoria”, capaz de impulsionar transformações econômicas em escala global e orientar novas dinâmicas organizacionais (Sutton, 2007). A Gestão do Conhecimento (GC), neste contexto, é reconhecida como mecanismo central para que organizações acessem, compartilhem e apliquem conhecimento, sustentando vantagem competitiva em ambientes dinâmicos (Dedunu et al., 2025).
Wiig (1993) define GC como uma estrutura que orienta a identificação, desenvolvimento e aplicação dos ativos de conhecimento, enfatizando múltiplas perspectivas: seus benefícios para os resultados organizacionais, o uso de métodos e ferramentas para apoiar práticas e a compreensão da natureza do conhecimento e sua circulação entre indivíduos e organizações. Essa dimensão torna-se especialmente relevante quando se considera o compartilhamento interorganizacional e o uso estratégico do conhecimento como recurso crítico.
Com a intensificação da digitalização e globalização, a capacidade de adquirir, organizar e transformar informações em conhecimento acionável tornou-se elemento determinante para a sustentabilidade organizacional (Kraemer et al., 2017; Santos e Bastos, 2019). Assim, a GC configurou-se como um campo complementar à Administração contemporânea, contribuindo para decisões que ampliem o desempenho e a responsabilidade organizacional frente à sociedade.
Essa discussão conecta-se ao avanço global da sustentabilidade. Diante da crescente preocupação com crises climáticas, desigualdades sociais e esgotamento de recursos naturais, a Organização das Nações Unidas estabeleceu a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que mobilizam governos, academia, organizações e sociedade civil por práticas mais responsáveis nas dimensões econômica, social e ambiental (Garcia e Pscheidt, 2023; Geraldo, Bisset-Alvarez e Pinto, 2024). Esse movimento tem gerado mudanças paradigmáticas sobre o papel das organizações e seus impactos ambientais e sociais.
Nesse contexto, empresas passaram a reorientar estratégias, adotando práticas éticas e sustentáveis voltadas à diversidade, responsabilidade socioambiental e transparência, estimulando o engajamento em iniciativas que apoiem o alcance dos ODS (Silveira et al., 2024; Medeiros e Santos, 2023).
Pesquisas internacionais mais recentes destacam que a adoção de práticas sustentáveis depende de capacidades dinâmicas de GC, as quais permitem que as organizações não apenas adaptem, mas transformem seus modelos de negócio para atender às crescentes demandas ambientais e sociais (Rabal-Conesa, Gallego-García e Martínez-Caro, 2025). Essas capacidades incluem a criação, integração, compartilhamento e aplicação do conhecimento para apoiar o desenvolvimento de produtos ambientalmente responsáveis, contribuindo diretamente para os ODS.
A sustentabilidade, por sua vez, tem imposto às organizações a necessidade de repensar seus modelos de negócio, incorporando métricas e indicadores vinculados aos ODS (França, Silva e Mendonça, 2024). Nesse sentido, a GC desempenha papel estratégico ao sistematizar conhecimentos que embasam políticas e práticas sustentáveis, reforçando o alinhamento organizacional às demandas globais de desenvolvimento (Lobato e Neiva, 2022; Melo e Barbosa, 2023).
Apesar desses avanços, ainda persistem desafios relacionados ao entendimento de como a GC tem apoiado efetivamente a implementação das ações sustentáveis, especialmente no que se refere à contribuição das organizações para o alcance dos ODS, lacuna que esta pesquisa busca explorar.
De que maneira as ações de desenvolvimento sustentável propostas pela ONU, a partir dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e gestão do conhecimento se articulam no âmbito das organizações? Tendo por objetivo, analisar de que maneira os objetivos de desenvolvimento sustentável e gestão do conhecimento se articulam no contexto organizacional. Para alcançar tal propósito, realizou-se uma revisão sistemática da literatura (RSL), seguindo o protocolo PRISMA 2020 (Page et al., 2023), a partir das bases de dados Scopus e Web of Science.
Este estudo estrutura-se em quatro seções, além desta introdução: a segunda seção apresenta os procedimentos metodológicos; a terceira, os resultados e achados; e a quarta seção traz as considerações finais, respondendo ao problema e contemplando o objetivo da pesquisa.
2 METODOLOGIA
Para a consecução dos objetivos propostos, conduziu-se uma investigação aplicandose a Revisão Sistemática de Literatura (RSL) que se refere a uma abordagem metodológica que visa resumir e sintetizar evidências disponíveis sobre um tópico de pesquisa específico (Thomé, Scavarda e Scavarda, 2016). A RSL se diferencia das revisões narrativas, por adotar um processo replicável, transparente e científico, que minimiza os possíveis vieses da pesquisa, por meio de exaustivas buscas na literatura e de fornecimento de um protocolo das decisões dos revisores e dos procedimentos adotados (Tranfield, Denyer e Smart, 2003).
Nesse sentido, esta pesquisa apresenta uma revisão sistemática acerca da interação entre gestão do conhecimento e desenvolvimento sustentável a partir dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS) para que seja possível explicitar como se dá esta relação e como a GC e os ODS interagem nos diversos contextos. Para isso, adotou-se, enquanto fonte de dados, as bases de dados Web Of Science (Clarivate) e Scopus (Elsevier), e, enquanto procedimentos para realização da RSL, utilizou-se o protocolo de revisão Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses (PRISMA).
2.1 Critérios de elegibilidade
Os artigos foram escolhidos dos bancos de dados mencionados acima, adaptando as palavras-chave aos mecanismos de busca em cada banco de dados, aplicadas de forma consistente a títulos, resumos e palavras-chave. Ambas as buscas foram realizadas em 2 de agosto de 2025.Os critérios de inclusão para esta revisão sistemática exigiram que os estudos investigassem a GC e os ODS. Assim, esta etapa foi aplicada de forma independente por dois revisores, assegurando que os estudos selecionados apresentassem coerência com a pesquisa. Quaisquer discrepâncias na avaliação foram resolvidas por consenso entre os revisores.
2.2 Fontes de Informação e Estratégia de Pesquisa
A busca foi conduzida nas bases de dados Scopus e Web of Science, utilizando uma estratégia que combinou termos relacionados à GC e ODS. Para garantir uma ampla cobertura de estudos relevantes, foram empregados operadores booleanos, resultando na string de busca nas bases de dados: i) Web Of Science: TS = ("Knowledge management" AND ("Sustainable Development Goal*" OR "SDG*")); ii) Scopus: TITLE-ABS-KEY(“knowledge management” AND (“Sustainable Development Goal*” OR “SDG*”)) É importante ressaltar que a palavra Goal e a sigla SDG foram flexionados (plural) em vista da necessidade de abranger a busca e assim não perder possíveis resultados. Ainda, não houve restrição temporal da busca.
2.3 Processo de seleção e coleta de dados
Para realização pesquisa. optou-se por não fazer nenhum refinamento a respeito da tipologia dos artigos, idioma ou janela temporal. No que diz respeito aos critérios de exclusão adotados nesta RSL tem-se: estudos duplicados (presentes em ambas as bases) identificados durante o processo de triagem; indisponibilidade do texto completo dos estudos (acesso fechado); e estudos cujos textos não estão disponíveis em inglês, português ou espanhol e formatos que não fossem artigos (por exemplo, livros, capítulo de livros, teses, resumos de conferências, cartas, editoriais, documentos de retratação, entre outros). Além disso, foram excluídos estudos que citavam a GC e os ODS mas não como tema central dos artigos.
A seleção dos estudos foi conduzida em três etapas: (1) Triagem de títulos e resumos: Os dois revisores analisaram, de forma independente, os títulos e resumos dos estudos recuperados, excluindo os não aderentes aos propósitos do estudo; (2) Avaliação do texto completo: Após a primeira etapa, os trabalhos previamente selecionados foram examinados integralmente para confirmar sua adequação aos critérios estabelecidos; (3) Inclusão final: apenas os estudos que preencheram todos os requisitos de elegibilidade foram incorporados à revisão. Todo este processo é ilustrado na Figura 1.
Os seguintes dados foram extraídos de cada estudo a partir de um formulário padronizado que identificou: Dados de identificação do estudo (autores, ano de publicação, título); Contexto e descrição da GC; Desenho do estudo e metodologia; ODS avaliadas; Resultados principais relacionados a integração da GC com os ODS; Limitações reportadas pelos autores.
Todo processo de organização e triagem dos dados recuperados das bases de dados foi realizada via software Excel registrando todo o processo informações coletadas. Para garantir a precisão da análise, foi realizada uma verificação cruzada, isto é, em casos de discordância, os revisores discutiram e buscaram um consenso.
2.4 Avaliação do risco de viés em estudos
Cada estudo foi examinado de forma independente por dois revisores, que realizaram a avaliação de viés sem acesso às análises um do outro, garantindo a imparcialidade do processo. Não foram utilizadas ferramentas automatizadas nessa etapa, optando-se por uma abordagem manual baseada em no processo pré-estabelecido padronizando a avaliação. Essa estratégia de revisão duplo-cega assegurou maior consistência, confiabilidade e rigor metodológico em toda a condução da análise.
2.5 Método de síntese
Os resultados foram sintetizados dando foco na relação entre ODS e GC no âmbito organizacional presente nos estudos eleitos para compor a RSL. A análise dos dados foi conduzida utilizando o software ATLAS.ti para identificar padrões e relacionamentos, garantindo resultados consistentes. As particularidades dos estudos foram discutidas a partida da elaboração do Quadro 1 contendo informações relativas a síntese dos estudos incluídos contendo autor, título, contexto e método adotado em cada estudo. Além disso, tem-se a Figura 2 contendo a nuvem de palavras dos termos mais proeminentes presentes no título e resumo os estudos incluídos na RSL, e, Quadro 2 que evidencia os ODS citados de forma direta e nominal nos estudos analisados.
Síntese dos 23 artigos incluídos contendo autor, título, contexto e método adotado em cada estudo
Todos os dados de pesquisa para elaboração desta revisão foram disponibilizados via repositório digital Zenodo, estando disponível em Autores (2025).
3 RESULTADOS
O processo de seleção dos estudos seguiu as diretrizes do método PRISMA 2020, conforme ilustrado na Figura 1. Inicialmente, foram obtidos 330 estudos, dos quais 230 foram oriundos da Scopus e 100 da WoS, sendo que deste montante, 76 foram excluídos por serem duplicados. Deste montante, 43 foram excluídos por não terem a versão completa disponível, ou seja, não eram classificados com open-acess (acesso aberto), tendo seu acesso fechado e restrito a pagamento ou convênios universitários específicos.
Após essa triagem inicial, restaram, 211 registros que foram avaliados com base nos títulos, resumos e palavras-chave, resultando na exclusão de 46 registros que não demonstraram aderência ao tema de pesquisa e 93 trabalhos que não eram artigos (por exemplo, teses, dissertações ou apresentações em congressos).
Assim, 72 registros foram selecionados para a leitura completa dos textos. Destes, 45 foram removidos por não versarem sobre a relação entre ODS e GC, e 4 foram excluídos por não terem versão completa disponível em seus respectivos links de acesso do DOI (Digital Objetct Identifier), resultando em um total de 23 estudos incluídos na revisão sistemática. A Figura 1 apresenta o diagrama detalhado do processo de seleção dos estudos.
Descrição: A imagem apresenta um quadro ilustrativo do processo de revisão sistemática da literatura baseado no protocolo PRISMA
A partir desse conjunto final de estudos (23), torna-se possível observar a diversidade de enfoques, métodos e contextos que caracterizam a produção científica sobre a articulação entre Gestão do Conhecimento (GC) e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Os trabalhos selecionados abrangem diferentes setores econômicos, perspectivas analíticas e abordagens metodológicas, revelando a amplitude do tema e a multiplicidade de caminhos pelos quais a GC tem sido mobilizada para apoiar a Agenda 2030. Para oferecer uma visão clara e integrada dessa pluralidade, o Quadro 1 apresenta uma síntese dos 23 artigos incluídos, destacando autor, título, contexto e método adotado em cada estudo.
A partir desse panorama sintetizado dos estudos selecionados, torna-se possível avançar para a análise dos elementos conceituais que estruturam o corpus, iniciando pela identificação dos termos mais recorrentes na literatura. A identificação de termos frequentes no corpus teórico aconteceu com o software Atlas TI, com base nos Títulos, Resumos e Palavras-chave dos 23 artigos. Ela serve como ponto de partida para mapear a densidade conceitual da literatura sobre a articulação entre GC e ODS. A nuvem de palavras (Figura 2) demonstra a proeminência desses conceitos, onde o tamanho do termo é proporcional à sua frequência.
Os termos mais evidentes na nuvem de palavras validam o foco da pesquisa:
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a) Foco Principal: A dominância de "Knowledge Management" (Gestão do Conhecimento), como variável central do estudo, é confirmada. Imediatamente conectados, os termos "Development" (Desenvolvimento), "Sustainability” e “Goal”, estabelecem o campo de intersecção analisado.
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b) Mecanismo Chave: O termo "Innovation" (Inovação), frequentemente qualificado como "Green Innovation" ou "Technological Innovation", aparece com alta relevância, indicando que a inovação é um vetor pelo qual o conhecimento é traduzido em desempenho e impacto em sustentabilidade.
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c) Contexto de Aplicação: Termos como "Organizations", "Firms" e "Business Model" sugerem que a maior parte da discussão se concentra no nível organizacional e no uso da GC para transformar a estratégia corporativa.
4 DISCUSSÃO
A análise dos termos destacados permite organizar a interface entre GC e os ODS a partir de dimensões analíticas que estruturam os principais achados da literatura. Nessa perspectiva, a articulação entre GC e ODS pode ser compreendida, à luz dos estudos analisados, como uma relação estruturada em que o conhecimento opera como infraestrutura cognitiva central para orientar organizações à sustentabilidade e a inovação, principalmente no que se refere a Green Innovation e/ou Technological Innovation.
Os estudos convergem ao indicar que a capacidade de criar, integrar e aplicar conhecimento constitui elemento determinante para enfrentar desafios sistêmicos, como mudanças climáticas, consumo responsável e inovação orientada ao impacto social.
Nesse sentido, Al-Abbadi et al. (2025) reforçam que os ODS representam um chamado global para ações fundamentadas em conhecimento estruturado, exigindo que organizações desenvolvam mecanismos cognitivos e informacionais capazes de apoiar decisões responsáveis. Essa perspectiva destaca que o conhecimento, especialmente quando relacionado à inovação e à gestão ambiental, é o elemento que permite transformar diretrizes de sustentabilidade em resultados concretos.
De forma complementar, Wang et al. (2022) demonstram que a Gestão do Conhecimento Verde (Green Knowledge Management - GKM) ocupa posição central nesse processo, ao estruturar práticas e rotinas que permitem às organizações compreender, internalizar e operacionalizar princípios ambientais. Segundo os autores, o GKM cria as condições necessárias para que o conhecimento ambiental seja traduzido em inovação verde, melhoria de desempenho sustentável e fortalecimento da cultura organizacional orientada aos ODS. Assim, o conhecimento não apenas orienta práticas sustentáveis, mas também atua como capacidade dinâmica que sustenta a transformação organizacional.
Os achados de Rehman et al. (2024) também evidenciam que processos robustos de GC impulsionam a inovação verde e ampliam a competitividade sustentável, indicando que organizações que sistematizam e compartilham conhecimento ambiental tendem a apresentar maior capacidade de adaptação às demandas socioambientais. Assim, a GC ultrapassa uma função instrumental e se configura como elemento estruturante da transformação organizacional orientada à sustentabilidade.
Coletivamente, os estudos analisados permitem identificar um padrão consistente: a GC atua como base cognitiva e organizacional para o alcance dos ODS, ao estruturar processos de inovação, orientar decisões e sustentar a transição para modelos de negócio alinhados à sustentabilidade.
A partir dessa base, a análise dos estudos permite identificar mecanismos recorrentes por meio dos quais a GC operacionaliza sua relação com os ODS. Os estudos incluídos nesta revisão mostram que tais mecanismos operam por meio de processos cognitivos, tecnológicos e estratégicos que viabilizam a inovação verde, o desempenho sustentável e a tomada de decisão orientada pela inteligência ambiental.
A síntese da literatura permitiu estruturar esses mecanismos em três dimensões principais: (i) integração do conhecimento ambiental aos processos organizacionais, (ii) mediação estratégica da tomada de decisão e (iii) suporte tecnológico e formação de ecossistemas de conhecimento.
i. Integração do conhecimento ambiental aos processos de Gestão do conhecimento
Um dos mecanismos identificados refere-se à incorporação de aspectos ambientais nos processos tradicionais de GC. Ainda que esta revisão não aprofunde o conceito de Gestão do Conhecimento Verde (GKM), os estudos indicam que sua presença orienta organizações na aplicação do conhecimento ambiental e na adoção de iniciativas sustentáveis. Evidências como as apresentadas por Rehman et al. (2024) e Wang et al. (2022) mostram que a integração de conhecimentos ecológicos aos fluxos organizacionais favorece a inovação voltada à sustentabilidade e apoia ações relacionadas aos ODS, funcionando como elemento de suporte para estratégias sustentáveis.
ii. O papel estratégico da GC na tomada de decisão (BI, inovação e sustentabilidade)
Outro mecanismo central de articulação diz respeito ao papel da GC no fortalecimento de processos estratégicos de tomada de decisão. Conforme demonstrado por Al-Abbadi et al. (2025), a GC atua como elemento moderador dos sistemas de Business Intelligence (BI), permitindo incorporar variáveis ambientais às análises organizacionais. Ao integrar inteligência ecológica em ferramentas analíticas, a GC aprimora a capacidade das organizações de identificar oportunidades sustentáveis, antecipar riscos e estruturar estratégias alinhadas aos ODS.
iii. Suporte tecnológico e ecossistemas de conhecimento
A literatura também demonstra que a infraestrutura tecnológica é indispensável para viabilizar a GC e ampliar seu impacto sobre a sustentabilidade. Glazova et al. (2024) destacam que sistemas de GC e plataformas digitais configuram-se como infraestrutura essencial na sustentabilidade, ao permitir o tratamento de dados ambientais e a disseminação de práticas sustentáveis. Esses sistemas atuam como ecossistemas de conhecimento capazes de conectar atores, integrar informações e orientar decisões sustentáveis em tempo real.
De forma complementar, estudos como os de Vaio et al. (2024) mostram que a digitalização e o uso de tecnologias baseadas em inteligência artificial fortalecem o desempenho sustentável das cadeias de suprimentos, ampliando a transparência e o alinhamento dessas redes aos ODS. Já Shmeleva et al. (2025) evidenciam que colaborações abertas e plataformas de compartilhamento de conhecimento promovem soluções ambientais em setores intensivos em recursos, contribuindo diretamente para ODS relacionados à ação climática, uso eficiente dos recursos naturais e proteção dos ecossistemas.
Dando continuidade à discussão sobre os mecanismos de articulação entre Gestão do Conhecimento (GC) e sustentabilidade, é essencial compreender em que contextos essa relação se materializa e quais Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) são diretamente contemplados pela literatura analisada. Embora muitos estudos abordem os 17 ODS de maneira ampla, o levantamento evidencia um conjunto de ODS explicitamente mencionados nos artigos, indicando áreas em que a GC desempenha impacto direto.
O Quadro 2 sintetiza os ODS citados de forma direta e nominal nos estudos analisados, evidenciando como a GC se articula a diferentes agendas sociais, ambientais, educacionais e produtivas no âmbito dos ODS.
Observa-se que alguns ODS se destacam centralmente na literatura. Os resultados revelam que os ODS mais recorrentes são aqueles diretamente relacionados ao desempenho econômico sustentável, à industrialização verde e à eficiência de processos, temas fortemente conectados às práticas de GC. O ODS 9 (Indústria, Inovação e Infraestrutura) apresenta a maior incidência, sendo citado em estudos como Aripin et al. (2025), Barrantes-Briceño et al. (2024), Coughlan et al. (2023), Israilidis et al. (2019), Rehman et al. (2024), Yuldashev et al. (2023) e Zou et al. (2020). Esse protagonismo evidencia um padrão de concentração temática da literatura entre GC e inovação, já que a GC fornece os mecanismos estruturantes para criação, difusão e aplicação de conhecimento tecnológico, favorecendo práticas industriais mais sustentáveis.
Também aparecem com frequência elevada o ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis) e o ODS 13 (Ação Contra a Mudança Global do Clima), discutidos por Aripin et al. (2025), Barrantes-Briceño et al. (2024), Li et al. (2023), Rehman et al. (2024), Shmeleva et al. (2025), Zou et al. (2020) e outros. Esses ODS refletem a incorporação do conhecimento ambiental nas operações produtivas, especialmente no que tange à inovação de processos sustentáveis, gestão de resíduos, eficiência energética e modelos produtivos circulares. A forte presença desses objetivos indica uma tendência da literatura em relacionar GC ao desempenho ambiental corporativo, percebendo o conhecimento como recurso essencial para mitigar impactos climáticos e otimizar cadeias de suprimentos.
Outro objetivo recorrente é o ODS 8 (Trabalho Decente e Crescimento Econômico), evidenciado em estudos como Barrantes-Briceño et al. (2024), Yuldashev et al. (2023) e Zou et al. (2020). Nesse caso, a articulação está centrada na capacidade da GC de favorecer ambientes de trabalho inovadores, produtivos e equitativos, além de contribuir para o desenvolvimento socioeconômico por meio de modelos de negócios sustentáveis.
Em contraste, alguns ODS aparecem de forma menos frequente ou são abordados em contextos muito específicos da literatura. O ODS 1 (Erradicação da Pobreza) e o ODS 3 (Saúde e Bem-Estar) surgem pontualmente em estudos como Barrantes-Briceño et al. (2024) e Grajales e Uribe (2024), geralmente associados ao impacto social ampliado da inovação sustentável ou a programas de desenvolvimento local. O ODS 5 (Igualdade de gênero) também se apresenta de forma mais explicita em somente um artigo, em Takahashi et al. (2024). Já os ODS relacionados à conservação ambiental, como o ODS 14 (Vida na Água) e o ODS 15 (Vida Terrestre), também aparecem com baixa incidência, sendo citados principalmente em estudos de caráter ecológico, como Caiado et al. (2018) e Shmeleva et al. (2025).
Por fim, os ODS de natureza institucional e sistêmica, como o ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes) e o ODS 17 (Parcerias e Meios de Implementação), surgem de forma moderada. O ODS 17, por exemplo, é citado em estudos como Coughlan et al. (2023), Israilidis et al. (2019) e Shmeleva et al. (2025), refletindo a importância das redes colaborativas e dos ecossistemas de conhecimento para o avanço da sustentabilidade. Já o ODS 16 aparece pontualmente em Barrantes-Briceño et al. (2024), geralmente associado à governança e accountability, dimensões nas quais a GC desempenha papel facilitador, mas não necessariamente central.
Em síntese, os resultados evidenciam que a literatura se concentra sobretudo em ODS ligados a inovação (ODS 9), produção sustentável (ODS 12) e ação climática (ODS 13), enquanto objetivos sociais e ecológicos mais amplos tendem a receber menor atenção.
Assim, dos 17 ODS existentes, é possível observar que alguns deles são mais frequentemente abordados nos artigos analisados, como os ODS 8, 9, 12 e 13, e, menos referenciados como os ODS 1, 5, 6, 7, 11, 14, 15, 16 e 17. Unindo este achado ao fato de que dois ODS não foram explicitamente mencionados, como os ODS 2 (Fome zero e agricultura sustentável) e 10 (Redução da desigualdades) tem-se uma perspectiva epistemológica e teóricometodológica encontrada perante a relação GC e ODS, visto que, os estudos que relacionam estes tópicos refletem uma perspectiva teórica que privilegia dimensões econômicas e tecnológicas do desenvolvimento sustentável, em detrimento de abordagens mais críticas, sociais ou institucionais.
De modo mais amplo, os estudos analisados tendem a mobilizar a GC aos ODS sob um olhar ao qual o conhecimento é concebido como recurso estratégico orientado à eficiência, inovação e desempenho organizacional, especialmente em contextos ligados à sustentabilidade produtiva e tecnológica. Assim, estes achados sugerem que essa interface, do ponto de vista epistemológico, volta-se mais a compreensões de desenvolvimento econômico em detrimento a questões relacionadas a transformação social e equidade, potencialmente representados pelos ODS não mencionados (ODS 2 e 10).
Essa distribuição evidencia não apenas as prioridades temáticas da literatura, mas também assimetrias na forma como a relação entre GC e ODS tem sido explorada, indicando lacunas relevantes especialmente nos objetivos de natureza social. Tais lacunas apontam para a necessidade de aprofundamento teórico e empírico, ampliando a compreensão dessa interface para além dos contextos predominantemente orientados à inovação e desempenho ambiental.
5 CONCLUSÃO
Este estudo buscou responder como a Gestão do Conhecimento (GC) pode contribuir para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) no âmbito organizacional. A análise dos artigos selecionados revela que a GC emerge como infraestrutura cognitiva, estratégica e processual para promover sustentabilidade, inovação e competitividade nas organizações.
A síntese dos resultados indica que práticas robustas de GC, incluindo sistematização do conhecimento, integração com tecnologias digitais, governança da informação e colaboração interdepartamental, ampliam a capacidade organizacional de incorporar os ODS em seus processos e resultados. A revisão sistemática da literatura subsidiou o destaque a três dimensões: (i) integração do conhecimento ambiental aos processos organizacionais, (ii) mediação estratégica da tomada de decisão e (iii) suporte tecnológico e formação de ecossistemas de conhecimento.
Observa-se, contudo, uma concentração das aplicações em ODS relacionados à inovação, produção responsável e sustentabilidade ambiental, o que evidencia uma assimetria na literatura e destaca uma lacuna em estudos aplicados a outras dimensões da agenda global.
Do ponto de vista teórico, este achado sugere que a interface entre GC e ODS se configura a partir de recortes específicos da literatura. Em termos práticos, os resultados indicam que organizações que desenvolvem capacidades de GC apresentam maior potencial para implementar mudanças estruturais, inovar em seus processos e alinhar práticas corporativas a metas sustentáveis de longo prazo. Contudo, observa-se uma assimetria relevante na forma como os ODS são abordados. Há maior incidência de estudos voltados aos ODS 8, 9, 12 e 13, enquanto os ODS 1, 5, 6, 7, 11, 14, 15, 16 e 17 aparecem de forma menos expressiva, além da ausência de menção explícita aos ODS 2 e 10. Esse padrão evidencia não apenas lacunas empíricas, mas também um direcionamento teórico-metodológico das pesquisas na área.
Nesse sentido, a interface entre GC e ODS tem sido predominantemente construída sob uma visão econômica, tecnológica e produtiva do desenvolvimento sustentável, em detrimento de abordagens voltadas a aspectos sociais, institucionais e distributivos. Tal configuração indica uma orientação teórica alinhada a perspectivas funcionalistas e uma predominância metodológica de estudos aplicados e orientados ao desempenho, o que evidencia, em termos de pesquisas desenvolvidas, a limitação de da exploração de dimensões críticas e transformadoras da Agenda 2030, como os ODS menos (ou não) mencionados nos estudos analisados.
Ademais, este estudo apresenta limitações: a amostra de literatura revisada pode não abarcar produções em bases menos convencionais ou em idiomas além do inglês e português, o que pode restringir a diversidade de perspectivas. Além disso, a predominância de pesquisas quantitativas limita o entendimento aprofundado tanto das dinâmicas contextuais e organizacionais de GC e ODS quanto de questões epistemológicas envolvendo ambas as temáticas. Sob o ponto de vista teórico e epistemológico, importa destacar que a literatura analisada debate a relação entre GC e ODS, revelando indícios de como as temáticas se desenvolvem de maneira conjunta, porém, essa relação ainda demanda maior aprofundamento epistemológico, aspecto que não foi completamente explorado nesta pesquisa.
Para pesquisas futuras, almeja-se: (a) realizar estudos qualitativos ou mistos para explorar o processo interno de institucionalização da GC voltada à sustentabilidade, (b) investigar organizações de diferentes portes e setores para avaliar generalização dos resultados, e (c) examinar ODS menos explorados, ampliando o escopo e relevância social da pesquisa.
Essa sistematização permitiu compreender a relação entre GC e ODS de forma integrada, superando abordagens fragmentadas da literatura. Assim, este trabalho evidencia que a Gestão do Conhecimento constitui um elemento estruturante para a efetivação da Agenda 2030 nas organizações. Ao articular conhecimento, processos e tecnologia em direção aos ODS, a GC sustenta a construção de modelos organizacionais, inovadores e orientados ao desenvolvimento sustentável, porém, com forte foco aos ODS voltados ao desenvolvimento econômico, e com menos intensidade aqueles que versam a questões de maior cunho social, estabelecendo assim uma perspectiva teórico-metodológica dos temas ao serem tratados de forma conjunta.
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Financiamento:
Não aplicável.
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Aprovação:
Não aplicável.
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Declaração de uso de ferramenta de IA:
Os autores declaram que não houve uso de ferramentas de IA.
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Imagem:
Extraída da plataforma Lattes.
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JITA:
ID. Knowledge representation
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ODS:
9. Indústria, inovação e infraestrutura
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Article submitted to the similarity system
Agradecimentos:
Não aplicável.
Disponibilidade de dados e material:
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Editor:
Gildenir Carolino Santos https://orcid.org/0000-0002-4375-6815



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Fonte: Elaboração via ATLAS.tiDescrição: A