Resumo
Este artigo tem no horizonte algumas das últimas viagens de Nietzsche, em especial suas derradeiras idas e estadias em Turim, onde sofreu o colapso que encerrou sua carreira filosófica. O objetivo dessa incursão na biografia do filósofo e também em seus manuscritos e cartas dessa época, é de avaliar o quanto o projeto filosófico que desenvolvia então, teria sido comprometido pela sua doença. Tendo em vista esse contexto e com um olhar especial para Ecce homo, pretende-se apresentar a hipótese de que essa obra não seria uma manifestação da doença do filósofo, mas, ao contrário, uma expressão de uma vida transbordante, que se preservaria, a partir de então, contudo, não mais como um corpo, mas como um corpus.
Palavras-chave:
Ecce homo; Nietzsche; Turim; Escrita filosófica; Viagens de Nietzsche.
Abstract
This article examines some of Nietzsche's final travels, particularly his final visits to and stays in Turin, where he suffered the collapse that ended his philosophical career. The aim of this exploration of the philosopher's biography, as well as his manuscripts and letters from the period, is to assess the extent to which the philosophical project he was developing at the time was compromised by his illness. In view of this context and with a particular focus on Ecce Homo, the aim is to present the hypothesis that this work would not manifestations of the philosopher's illness, but, on the contrary, an expressions of an overflowing life, which would be preserved, from then on, however, no longer as a body, but as a corpus.
Keywords
Ecce homo; Nietzsche; Turin; Philosophical writing; Nietzsche's Travels.
Corpo e corpus num baile de máscaras
Segundo Curt Paul Janz, no dia 08 de janeiro 1889, teria ocorrido um “escândalo público” em Turim. O anfitrião de uma pensão, Sr. Fino, voltava da delegacia e do consulado alemão, onde estivera uma hora antes, resgatando e reconduzido para casa um cidadão alemão, seu hóspede, que alegava ter origens polonesas e que teria abraçado, sem conter as lágrimas, um cavalo que estaria sendo maltratado por seu dono. Essa narrativa, que tem desencontros sobre datas e fatos, caso possua algum fundo de verdade, remete à última ação consciente, ou à primeira desprovida de consciência, realizada por Nietzsche, em Turim, no dia 08 de janeiro de 1889.1
Ao certo, as narrativas sobre os últimos dias lúcidos ou os primeiros da demência de Nietzsche, em parte veiculadas por Overbeck, em parte pela irmã de Nietzsche, parecem um tanto vagas e esclarecem pouco sobre o que teria ocorrido com ele no início daquele ano. A única certeza é que essas narrativas, bem como os “bilhetes e cartas da loucura”, redigidos entre 03 e 06 de janeiro daquele ano, coincidem com a interrupção dos trabalhos do filósofo, restando as dúvidas sobre o caráter dessa interrupção, se teria sido um acontecimento abrupto, ou progressivo. Incertezas que, no mínimo, produziram suspeitas sobre possíveis danos deixados pelo quadro de saúde do autor sobre o seu pensamento filosófico e sobre as obras produzidas por ele nos últimos meses de 1888.
Contudo, tendo em vista essa relação entre as debilidades do corpo do filósofo e seu corpus, sua obra, mesmo considerando essa falta de dados precisos sobre o que ocorreu com ele naquele início de janeiro, é possível elencar alguns elementos que permitem avaliar a validade filosófica das obras dos meses que antecedem o fatídico janeiro de 1889, tendo em vista o modo como o filósofo conduziu seus trabalhos nos meses anteriores ao colapso, o que oferece uma boa contribuição para os debates sobre a pertinência ou não dos seus escritos do período.
De fato, esse é um debate que já ganhou destaque na pesquisa Nietzsche, despertando o interesse, por exemplo, de Werner Stegmaier, para quem as obras produzidas em 1888, em especial Ecce homo e O Anticristo, pagaram um preço alto em função da desconfiança que foi lançada sobre elas, tendo em vista a suspeita de que seriam, nas palavras do intérprete, “meros testemunhos pessoais de um ódio desmesurado contra o cristianismo, bem como uma delirante valorização exagerada de si mesmo” (Stegmaier, 2013. p. 65). Particularmente no caso de Ecce homo, o amigo pessoal de Nietzsche, Peter Gast teria sido o primeiro a introduzir a suspeita sobre o quanto o manuscrito poderia ser considerado de fato uma obra filosófica. Essa desconfiança passa também por outros intérpretes, como é o caso de Giorgio Colli, que faz referência a esse livro como o fruto de uma “compenetração” que teria levado o filósofo a escrever uma “autobiografia”, numa época em que ele teria perdido “o contato com a realidade” (Colli, 1995, p. 199) visto estar marcado pela sombra da doença.2
Além disso, Ecce homo teria sua importância limitada aos comentários apresentados das obras anteriores do filósofo, como um testemunho de seu pensamento, elaborado a despeito das dificuldades de saúde pelas quais ele estaria passando naquele momento. Mais ainda, um escrito decididamente hiperbólico, como se observa, por exemplo, nos seus subtítulos: “por que sou tão sábio”, “por que sou tão inteligente”, “por que escrevo tão bons livros”, e também fantasioso, como se verifica, por exemplo, na referência a si mesmo como um “nobre polonês pur sang”.3
O fato é que tais aspectos e vários outros chamam a atenção de outros intérpretes de peso de sua filosofia, como é o caso de Karl Jaspers, para quem a enfermidade do filósofo não poderia ser desconsiderada numa avaliação das suas obras da segunda metade do ano de 1888, quando o fator biológico parecia sobrepor-se ao espiritual e filosófico. Nas palavras de Jaspers, os processos patológicos tanto lançavam “sombras sobre o passado” (Jaspers, 1963. p. 149) do filósofo, obscurecendo sua memória, quanto deixavam transparecer na obra “sintomas da enfermidade futura” (Jaspers, 1963, p. 150), como se observaria, por exemplo, no aumento de sua irritabilidade. Nesse sentido, Jaspers afirma: “se comparamos a excitação dos anos da época de Zaratustra com essa irritabilidade do ano de 1888, verificamos na última uma agressividade mais condensada, mais dramática e mais desmesurada em seu racional: o qual carece de brilho e de serenidade” (Jaspers, 1963, p. 159).
Questionamentos que permitem, ao certo, por um lado, aventar a hipótese de que justamente alguns traços do estilo de Nietzsche, como é o caso da escrita na forma de uma autobiografia permeada pela ironia e pelo cinismo, teriam aberto as portas para as principais suspeitas sobre Ecce homo e, em especial, sobre o seu caráter filosófico. Por outro lado, contudo, e tendo em vista os avanços na recepção de Ecce homo,4 eles permitem também, considerar outra hipótese, segundo a qual, justamente a fantasia, a irreverência, o caráter hiperbólico e a ironia não seriam tropeços do autor, mas fatores centrais de uma obra que, a partir deles e não a despeito deles, deve ser levada a sério.
De fato, uma análise interessada em aprofundar a segunda hipótese, como a que se desenrola neste artigo, pode beneficiar-se de um olhar atento para a figura que conduz o texto, um eu narrador que assina a obra com o nome “Nietzsche” e que precisa ser avaliado tendo em vista a borda extremamente sutil que o separa, se isso é possível, do seu texto.5 Tal análise, conforme veremos, se beneficia também de um olhar sobre os projetos editoriais de Nietzsche, de 1888, o que está intrinsecamente ligado ao ambiente propício que ele encontrou justamente na cidade que testemunhou o seu colapso: Turim.
Um corpo em movimento: de Nice para Turim, de Turim para Sils Maria
Se é conhecido, que no caso de Nietzsche o pensamento floresce em lugares nos quais ele pode trabalhar em um quarto, “numa pensão sempre lotada”, onde estaria “seguro de ser confundido com outros, e de poder falar impunemente com qualquer um”, onde pode cultivar o deserto e a solidão como condições para o fazer filosófico (GM III 8). Assim, se o lugar e o clima podem oferecer a ele aquele optimum de condições de trabalho, como é o caso de Turim, o fato é que as viagens para tais lugares nem sempre são agradáveis para Nietzsche, em especial, quando deveria viajar sozinho.
Esse foi o caso das suas duas viagens a Turim, realizadas no ano de 1888. A primeira, em especial, ocorrida no dia 02 de abril daquele ano, foi particularmente confusa. Tendo partido de Nice, no trem das 6 da manhã, Nietzsche não chegou a Turim, mas a Gênova, devido a uma confusão na troca de trens em Savona. Mesmo a Gênova, ele só chegou no dia 04 e sem a sua bagagem, que seguira direto para Turim. Eventos que suscitaram uma forte crise no viajante, obrigando-o a refugiar-se num hotel em Sampierdarena, próximo a Gênova, até se recuperar e poder retomar a viagem a Turim.
Chegando, finalmente em Turim, porém, seu estado de humor se altera rapidamente. Turim seria a cidade que precisava naquele momento. Segundo ele o ar da cidade “é suportável” e a “vida é possível” (Janz, p. 440), e não apenas em função do clima, cujo ar deveria ter “algum elemento energizante” (Janz, p. 441) mas também pelo custo de vida acessível e pelas ofertas de teatro e música, essenciais para seu espírito. Um ambiente que, em resumo, permitiria a ele trabalhar sem interrupção por dias, diferentemente do que ocorrera antes, em Nice.
Ao clima favorável da cidade, deve-se acrescentar o fato de que nessa época, em Turim, ele recebe várias notícias sobre o início do seu reconhecimento como filósofo, o que causa nele uma elevação de ânimo que o leva não apenas a ocupar-se com tais referências às suas obras, mas também da própria aparência, que deveria ser digna do novo status, chegando mesmo a visitar um alfaiate. Contudo, conforme veremos, o reconhecimento que se avizinhava não traria apenas satisfações para ele, mas também problemas e exigências um tanto novos que o colocaram em rota de colisão com interlocutores e aliados. O que será potencializado também, um pouco mais adiante, pela sua retomada do debate com Wagner, com a redação de “O caso Wagner”.
Nesse ínterim, a despeito de seu encanto por Turim, Nietzsche deixa a cidade para atravessar os Alpes com destino a Sils Maria, em 25 de junho de 1888. Além da viagem que produz efeitos desastrosos sobre ele, também o clima horrível que encontra no novo destino, o ar gélido e a umidade extrema, deixam-no sem forças, acentuando sua irritabilidade e produzindo uma longa desinteria (Janz, p. 456). É nesse clima que ele termina a redação e revisão de O Caso Wagner, cujo manuscrito foi remetido a Naumann no dia 17 de julho, ao qual foi acrescentado ainda um “Epílogo” que foi enviado posteriormente ao editor, em 24 de agosto, e cujo primeiro exemplar teria chegado às mãos do autor no dia 15 de setembro.
De fato, esse livro foi o que mais suscitou reações adversas naquele momento e também o que mais foi usado por Nietzsche por seu efeito provocador. Ao certo, tratava-se de um ataque direto a uma figura que era unanimidade na Alemanha, Wagner, e que fora realizado por alguém que era reconhecido como um amigo e discípulo de Wagner e não como seu adversário. O que suscita algumas resenhas contrárias ao texto e muito duras com seu autor, as quais levam-no a algumas decisões igualmente drásticas, com destaque para o embate que levará a cabo com Malwida von Meysenbug, cuja amizade de longa data poderia até suportar O caso Wagner, enviado a ela pelo filósofo, mas não as investidas diretas feitas por Nietzsche em cartas que desafiavam a fidelidade dela ao wagnerianismo de forma um tanto ríspida: “você nunca entendeu uma palavra minha: não adianta, precisamos esclarecer as coisas entre nós (...)” (Janz, p. 479). Assim, mesmo que reconheça posteriormente que fora injusto com a amiga de longa data em função de um excesso de probidade (Carta a Malwida von Meysenbug de 5 de novembro de 1888), o fato é que Nietzsche radicalizava ainda mais a ruptura que se dera no período de seu afastamento da cátedra e dos círculos wagnerianos na Basiléia.6
A despeito da polêmica e das condições precárias de saúde, porém, Nietzsche continua produzindo. É desse período, em Sils Maria, a redação do Crepúsculo dos Ídolos, intitulado num primeiro momento como Ócio de um psicólogo e que teve o título alterado após ponderações de Köselitz, que aponta ao autor o caráter “inofensivo” do título que é, então, substituído por aquele conhecido hoje: “O crepúsculo dos Ídolos”, que corresponderia, segundo Nietzsche, a “mais uma maldade contra Wagner” (Janz, p. 471), e que viria a público somente após o seu colapso, em janeiro de 1889.
A preparação do Crepúsculo dos Ídolos é correlata ao também ao abandono por Nietzsche de seu conhecido projeto intitulado “Vontade de poder”, cuja última menção teria ocorrido em 26 de agosto de 1888, segundo Mazzino Montinari (Montinari, 1996, p. 61). De fato, como é conhecido, é possível correlacionar alguns pontos do sumário do projeto de uma obra intitulada “Vontade de poder: tentativa de uma transvaloração de todos os valores”, com alguns dos textos que aparecem, por exemplo, em Crepúsculo dos ídolos7 e em O Anticristo. 8 A ideia de uma obra capital, contudo, ainda acompanhará o filósofo, designada, então, pelo título de “Transvaloração de todos os valores” e com um plano em quatro partes, sendo O Anticristo, conforme aparece no prefácio de Ecce homo, a primeira dessas partes. O que é registrado também no prefácio de O Anticristo, onde se lê: “Turim, em 30 de setembro de 1888, dia em que foi terminado o primeiro livro da Transvaloração de todos os valores” (AC, Prefácio).
Acerca de uma relação entre um corpo e um corpus
Após o período transcorrido em Sils, com inúmeros problemas de saúde relacionados ao clima, o retorno de Nietzsche a Turim, no dia 20 de setembro de 1888, foi um alívio. A despeito da viagem torturante, a cidade se mostrava agradável para o filósofo que foi recebido nela por “uma claridade maravilhosa, cores de outono, um bem estar exótico que se deitava sobre todas as coisas” (Janz, 475). Tem fim as crises de dor de cabeça, vômito e desinteria que o acompanharam nos dias de Sils. Nietzsche, que volta a visitar o alfaiate, avalia a si mesmo, ao certo de forma exaltada, como bem alimentado, com boa aparência, e passa a dedicar-se às longas caminhadas, à vida simples, modesta e, na medida do possível, calma e isolada. Sem perder dia de trabalho, ele torna a dedicar-se intensamente à sua obra, o que é apontado pela irmã como uma das causas do seu colapso ocorrido pouco tempo depois, embora ele mesmo indicasse esse trabalho como uma “colheita” (Janz, p. 476). Seu plano é ficar em Turim. Se alguém quiser ter com ele, terá de ir até onde, para ele “a vida vale a pena” (p. 477).
A “velha criatura” (Geschöpfs), expressão que Nietzsche usa mais de uma vez para aludir a si mesmo em cartas dirigidas àquela que o teria “criado”, sua mãe, dá notícias de que se sente bem e até mesmo dorme bem. O que permite tocar em outro ponto que será associado ao seu colapso por sua irmã, o uso indiscriminado de cloral para dormir, e que parece não ser uma exigência numa época em que, segundo o relato da “velha criatura”, em carta de 21 de dezembro de 1888 à velha mãe, “jamais dormi [teria dormido] tão bem”.
Assim, se é discutível o quanto o trabalho e a pressão exercida poderiam ter relação com o colapso de Nietzsche, o fato é que o filósofo nessa época está completamente absorto por seu trabalho e mantém uma forte preocupação com sua obra, em conferir uma ordem aos escritos mais recentes, e também com o destino editorial de seus escritos. Chama a atenção nesse sentido, o conflito com seu antigo editor Ernst Wilhelm Fritzsch, a quem no passado Nietzsche dedicara O Nascimento da Tragédia. Ocorre que, mais do que de Nietzsche, Fritzsch era editor de Wagner e numa clara declaração de preferência ao segundo, permite a publicação, em sua editora, de um artigo que atacava Nietzsche em função de “O Caso Wagner”. O que leva Nietzsche a romper bruscamente sua relação com Fritzsch e assumir o propósito de adquirir os direitos autorais de sua obra. Uma empreitada que é estimulada por seu novo editor, Naumann, que espera pela publicação de sua propalada obra capital e sugere a ele, nesse sentido, que publique “brochuras baratas, mencionando nestas repetidas vezes a sua obra principal” (Janz, p. 485). Como é conhecido, o plano de Nietzsche de retomar os direitos sobre sua obra, capitaneado por seu novo editor, efetivou-se apenas em fevereiro de 1892, (Janz, p. 489), após o colapso do filósofo. Contudo, o empreendimento mostrou-se, de fato, muito produtivo, caso se considere o quando sua irmã conseguiu reverter em dinheiro o espólio do filósofo. Vale notar, porém, que justamente a atenção com a obra, que inclui inclusive a retomada de exemplares do volume IV do Zaratustra, que haviam sido enviados para amigos (Janz, p. 489), coincide justamente com o afastamento da ideia da obra capital, em especial na versão que teria por insígnia a expressão “Vontade de poder”. A obra para a qual ele volta seu interesse nesse momento é O Anticristo, cuja redação havia sido concluída, e Ecce homo, um novo livro que estava sendo gestado a partir de um capítulo que seria, inicialmente, parte de O crepúsculo dos Ídolos. 9
Como se sabe, O Anticristo foi publicado apenas em 1895 e Ecce homo em 1908, longe dos cuidados do seu autor. Assim, embora tenham sido preparados pelo filósofo que chegou mesmo a receber algumas páginas impressas de Ecce homo antes de seu colapso, esses textos foram vítimas de ajustes feitos pelos editores, como é o caso da retirada da 3ª seção do primeiro capítulo de Ecce homo e da palavra “Idiota”, com referência a Jesus, na primeira edição de O Anticristo.
Sobre O Anticristo, deve-se mencionar que o manuscrito, que já estaria pronto em 30 de setembro, segue sendo trabalhado por Nietzsche nos meses seguintes. Concluído, a princípio, como uma parte daquele projeto maior, ele assume um destino solo, lembrando as Extemporâneas, das quais herda em especial o formato da declaração de guerra que é marca registrada de David Strauss, o confessor e o escritor. Em síntese, O Anticristo reúne parte do material destinado ao projeto da Transvaloração de todos os valores (Montinari, 1996, p. 62-63), sendo mesmo apresentado pelo filósofo como o primeiro livro desse projeto (EH, Prefácio), sendo reconhecido, hoje, não como um texto da loucura, mas como um escrito portador de uma “lógica aguçada” e elencado entre os “mais claros e ‘científicos’ (em termos estilísticos)” de Nietzsche (Janz, p. 490).
Ecce homo: na borda entre um corpo e um corpus
Se em sua juventude Nietzsche parece dar atenção especial à sua vida privada, ensaiando textos autobiográficos, (Buselatto, 2018) e se é certo também que mais adiante ele não mais se mostrará simpático à ideia de autobiografias (Paschoal, 2015, p. 37), o fato é que em suas cartas, no seu foro íntimo, Nietzsche dedica uma atenção especial a alguns elementos de sua vida privada, com destaque para o seu aniversário de 44 anos. Por exemplo, quando reclama com a mãe: “Desta vez a velha mãe esqueceu o aniversário da velha criatura, que, se não me engano, cai no dia 15 de outubro” (Carta a Franziska Nietzsche de 19 de setembro de 1888). Contudo, ele mesmo já havia esquecido seu aniversário, alguns anos antes, o que se tornou um motivo de preocupação registrado com desagrado em carta a Franz Overbeck de 1880: “O que há de errado comigo?” (Carta a Franz Overbeck de 31 de outubro de 1880), um episódio que volta a ser mencionado em outra carta, de 16 de novembro do mesmo ano a Gustav Krug.
Lembrando ou esquecendo, o fato é que, segundo Nietzsche, foi no seu aniversário, no de 1888, que ele teria iniciado Ecce homo. Como registra em duas cartas a Köselitz, uma de 13 de novembro de 1888, e outra de 30 de outubro de 1888, nas quais menciona a data e o novo escrito como uma apresentação de si que antecederia a sua vindoura Transvaloração de todos os valores. Também em carta ao seu editor, C. G. Naumann, informa que “entre os dias 15 de outubro de 4 de novembro eu terminei uma tarefa extremamente difícil - a saber, a de me contar a mim mesmo, meus livros e minhas opiniões, de um modo fragmentado, e na medida em que me foi exigido, contar a minha vida” (Carta a Constantin George Naumann de 06 de novembro de 1988). Um trabalho que teria começado como um “um pequeno gracejo” (Carta a Köselitz de 13 de novembro de 1888), e que naquele momento iniciava sua “lenta viagem para a gráfica” (Janz, p. 496).
Contudo, se um aniversário é ocasião para comemorar a vida, para Nietzsche é ocasião de comemorar também aquilo que já foi vivido, que deve ser sepultado, embora seja, no caso de um autor, o que sobrevive a ele. Sua obra. É nestes termos que ele faz menção, em Ecce homo, à data que marcaria a escrita do manuscrito, 15 de outubro de 1888:
Neste dia perfeito, em que tudo amadurece e não só a videira doura, caiu-me na vida um raio de sol: olhei para trás, olhei para a frente, jamais vi tantas e tão boas coisas de uma só vez. Não foi em vão que enterrei hoje o meu quadragésimo quarto ano, era-me lícito sepultá-lo - o que nele era vida está salvo, é imortal. O primeiro livro da Transvaloração de todos os valores, as Canções de Zaratustra, o Crepúsculo dos ídolos, meu ensaio de filosofar com o martelo - tudo dádivas desse ano, aliás de seu último trimestre! Como não deveria ser grato à minha vida inteira?
E assim eu narro para mim mesmo a minha vida (EH, Prólogo - Trad. modificada).
Esse jogo que envolve vida e morte, desdobra-se também na seção seguinte de Ecce homo, evidenciando traços de irreverência e ironia de uma obra que deve ser lavada a sério a partir desses traços e não a despeito deles. Um livro marcado ainda pelo cinismo10 e também pelo caráter hiperbólico, no sentido mencionado por Martin Saar em seu estudo sobre a Genealogia da moral (Saar, 2007). Traços que são evidenciados, por exemplo, na denominação dos capítulos: “Por que sou tão sábio”; “Por que sou tão inteligente”; “Por que escrevo tão bons livros”; “Por que sou um destino”, e também no papel associado a seu autor, de dividir a história da humanidade em duas partes, o que permite a ele a irreverência de utilizar para referir a si a expressão utilizada por Pilatos para apresentar Jesus aos judeus: “ecce homo”.
Com efeito, essa fórmula é o dístico daquela espetacular reunião entre audácia e ironia, que se tem na obra, pois, se “ecce homo”, “eis o homem”, é de fato a expressão latina utilizada por Pôncio Pilatos para apresentar Jesus aos Judeus, é fato, também, que ela aparece na boca do governador da província romana da Judeia não como uma reverência, mas como ironia e cinismo. Assim, ao utilizar a expressão para equiparar-se ao Crucificado, Nietzsche traz à tona também e volta contra si, toda a carga de ironia e cinismo que está vinculada a ela por aquele - Pilatos - que não tinha o menor reconhecimento pelo homo que havia condenado à morte na cruz e que naquele momento apresentava ao povo.
Em todo caso, se aqui não cabe debater os significados e o alcance interpretativo do título do último livro de Nietzsche, cabe salientar que ele remete para a ideia capital de que aquele “homo” que vive e morre, sobrevive em sua obra, é imortal com ela. Em resumo, nomeia um acontecimento de uma riqueza ímpar, estabelecido na borda tênue e impercetível que separa - e junta - autor e obra, corpo e corpus. E o faz de tal maneira, que o texto ultrapassa em muito a ideia de uma mera descrição de si para assumir a forma de um exercício performático de constituição de si, de tornar-se.11
Ecce homo - o corpus inacabado
Na carta a Köselitz de 13 de novembro, em que Nietzsche faz referência a Ecce homo, mencionando já as partes e o título definitivo da obra, ele informa também que o manuscrito já teria iniciado sua “lenta viagem para a gráfica” (Carta a Heinrich Köselitz de 13 de novembro de 1888). O trabalho editorial, no caso de Nietzsche, contudo, não era algo tão elementar. No geral, após enviar o material para o editor, é comum ele interromper os trabalhos editoriais para fazer acréscimos, revisões e retiradas de textos.12 Vale observar que nesse mesmo período, em 01 de dezembro, também o material de O Anticristo é retirado da gráfica pelo autor com o propósito de submetê-lo a uma nova revisão.13 O reexame, contudo, é breve, no dia 06 já estaria completa, e ele reenvia o material ao editor no dia seguinte. (JANZ, 497). Por sua vez, se O Caso Wagner segue produzindo polêmica, Nietzsche reage com um novo texto enviado para o editor no dia 15 de dezembro com o título “Nietzsche contra Wagner” (JANZ, p. 499). De fato, a reação à polêmica causada por O Caso Wagner leva Nietzsche à decisão de adiar os cuidados com Ecce homo, para o qual pensa também em tradutores, sendo o seu propósito publicar o livro simultaneamente em francês, inglês e alemão.14
Em 16 de dezembro, contudo, Nietzsche recebe a notícia de que Naumann já estaria imprimindo Ecce homo, o que o leva retomar a ordem dos escritos e a adiar, desta vez, Nietzsche contra Wagner (Carta a Heinrich Köselitz de 22 de dezembro de 1888). Nesse mesmo dia, 22/12, anuncia a Overbeck que recebera as primeiras folhas de prova de Ecce homo (Carta a Franz Overbeck de 22 de dezembro de 1888). Isso, contudo, não significa que a obra estaria acabada, do mesmo modo como não seria, talvez, exatamente correto dizer que ela teria sido iniciada em 15 de outubro de 1888.
Isto porque, se temos a informação por parte de Nietzsche de que iniciara seu Ecce homo no dia do seu aniversário e a notícia de que pouco tempo depois o texto há seguia para a gráfica, isso não significa que Ecce homo foi produzido nesse intervalo de tempo. Como já foi mencionado por Montinari (1996), as anotações que levam ao texto começam a aparecer em maio de 1888, provavelmente na primeira estadia de Nietzsche em Turim daquele ano. Acrescente-se que o texto que Nietzsche tem em mãos no dia 15 de outubro não corresponde à totalidade do material conhecido posteriormente e que naquele momento, o manuscrito sequer era nominado por ele como Ecce homo. Em seu estudo sobre Ecce homo, Romano Zattoni afirma que “a primeira redação do que viria a ser chamado EH, ocorrida naquele dia 15 de outubro de 1888, consistiu em uma série de onze parágrafos encontrados das páginas 130 à 106 (escritas de trás para frente) do caderno de trabalho W II 9” (Zatonni, 2022, p. 33).15 Parágrafos, contudo, produzidos antes daquela data, como parte do material preparatório de O Crepúsculo dos Ídolos, no qual se haveria um discurso de Nietzsche sobre si mesmo. Um texto que ganhara independência definitiva em relação ao Crepúsculo a partir daquela data de outubro, mas que também não correspondia ao material que será conhecido posteriormente como Ecce homo (Zattoni, 2022, p. 36).
Mesmo a primeira versão para impressão do manuscrito, com existência autônoma e já nominada Ecce homo, que se tem em 04 de novembro, também não corresponde à última versão do livro. Aquele material passará ainda por muitas modificações e, mesmo a versão encaminhada ao editor em 15 de novembro sofrerá alterações e contará com novos textos que são acrescentados ao manuscrito até o final de novembro, como é o caso da sessão 8 de “Por que sou tão sábio”, da sessão 2 de “Por que escrevo tão bons livros” - que à época ainda se chamava “Por que escrevo tão bons escritos” (Schriften) - e da sessão 3 de “Crepúsculo dos Ídolos”, além de passar por uma revisão e alterações em algumas outras partes.16 No início de dezembro, após receber o manuscrito do editor, Nietzsche ainda faz novas alterações pontuais e revisões, como foi o caso da adição das sessões 7 de “Por que sou tão esperto” e da seção 6 do então renomeado “Por que escrevo tão bons livros”, além da seção 4 do comentário a “O nascimento da tragédia” e das seções 1 e 2 de “Por que sou um destino”. Nesse período, a Criatura faz também uma laboriosa revisão no capítulo sobre Zaratustra, que o coloca em termos de dimensão como um dos capítulos centrais de Ecce Homo. Tudo isso, além de acrescentar novos textos ao manuscrito. 17
Também a informação, do dia 6 de dezembro, de que o manuscrito estaria pronto, não pode ser considerada como definitiva, pois após essa data seu autor continua a mandar adições e sugestões de alterações ao editor, como lembra Romano Zattoni, “agora por meio de cartas, telegramas e bilhetes avulsos” (Zattoni, 2022, p. 38). O fato é que no final de dezembro, ele ainda estava trabalhando em seu manuscrito, 18 incluindo e descartando seções e ajustando detalhes.19 A última alteração, conforme registra Romano Zattoni20, teria sido feita por meio de um telegrama no dia 2 de janeiro de 1889. O que é um registro importante, pois se a hipótese de que o colapso mental de Nietzsche ocorrera em 3 de janeiro de 1889 for correta, significa que até a véspera do dia fatídico, ele estava trabalhando no seu manuscrito.
Assim, se do ponto de vista filosófico, Ecce homo é a expressão máxima de um projeto filosófico refinado, do ponto de vista de sua escrita, e esse é um ponto importante, ele não é um texto terminado, mas um manuscrito que deixa as mãos do filósofo e colide com o corpo do homem colapsado - que é encontrado por amigos, no dia 08 de janeiro, entre folhas impressas de um texto que ele mesmo já não podia mais ler. Um texto, assim, que não chega a ser alçado à condição de obra acabada por seu autor, permanecendo vivo no sentido de ainda não “está salvo”, de ainda não “imortal”, pois segue sendo alterado ou adulterado, como se sabe, pela irmã e por Peter Gast que tentam retirar do texto a sua parte mais “louca”, como é o caso da passagem em que Nietzsche renega suas pretensas origens germânicas, e o fazem justamente por não compreenderem a sutil, mas tensa relação estabelecida nele entre a obra com o autor (cf.: Paschoal, 2020).
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Como citar:
PASCHOAL, Antonio Edmilson. Nietzsche em Turim: acerca de uma correlação entre corpo e corpus. Revista de Filosofia Aurora, Curitiba, v. 38, e202633722, 2026. DOI: https://doi.org/10.1590/2965-1557.038.e202633722
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A essa narrativa ligam-se outras, como aquela segundo a qual, no dia 07 de janeiro, o debilitado professor teria caído na calçada, sendo socorrido por pessoas que teriam considerado plausível a ideia de interná-lo.
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Retomamos aqui alguns pontos apresentados de forma preliminar no capítulo intitulado “Acerca da encenação filosófica do ‘Senhor Nietzsche’”, publicado na coletânea organizada por Gianfranco Ferraro, Marta Faustino e Bartholomew Ryan com o título Rotos do si. Autobiografia, Confissão, Terapia. Lisboa: Vendaval, 2019, p. 151-167.
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Essa passagem corresponde à seção 3 do primeiro capítulo de Ecce homo, retirada do texto em sua primeira edição, de 1908, por Peter Gast, justamente por reconhecer nela, não uma ironia, mas sinais da doença do filósofo. Cf. a respeito, a nota 8 de Paulo César de Souza ao primeiro capítulo de Ecce homo, publicado pela Companhia das Letras, em Nietzsche, 1995: 120-122.
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Destaco nessa recepção de Ecce homo, trabalhos como os de Sarah Kofman, 1992; Jörg Salaquarda, 1996; Werner Stegmaier, 2013, o comentário de Andreas Urs Sommer, 2013 e, mais recentemente, o trabalho de Romano Zattoni, de 2022.
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Tive a oportunidade de explorar esta questão, por exemplo, no artigo que publiquei em 2021 com o título “A arte da escuta: Nietzsche pelos ouvidos de Derrida” (Paschoal, 2021), em que analiso a questão da borda que separaria autor e texto, tendo em vista, em grande parte, as observações feitas por Jacques Derrida sobre o tema. Também retomei alguns desses traços do autor na obra em um capítulo publicado com o título “Ecce homo, quid homo?” (Paschoal, 2020), na coletânea sobre os escritos de Nietzsche de 1888, organizada por Céline Denat e Patrick Wotling.
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Um recrudescimento que só não abalava sua reverência a Goethe e Beethoven (Janz, p. 482) e só não atingia, “a amizade com Overbeck e a veneração por Jacob Burckhardt” (Janz, p. 481), embora a recíproca, nesse último caso, não fosse verdadeira.
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Montinari chama a atenção para o fato de que algumas partes de O Anticristo e do Crepúsculo corresponderiam originalmente ao manuscrito que fora mencionado pelo filósofo como “Transvaloração de todos os valores” (Montinari, 1996, p. 63). No caso do Crepúsculo dos Ídolos, isso se verifica nos capítulos intitulados: “O problema de Sócrates”, “A ‘razão’ na filosofia”, “Como o ‘mundo verdadeiro’ tornou-se finalmente uma fábula”, “Moral como contra natureza”, “Os quatro grandes erros” (Montinari, 1996, p. 62).
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Como é o caso da seção intitulada na obra Transvaloração de todos os valores como “Nós hiperbóreos”, que corresponderia aos parágrafos 1-7 de O Anticristo; à seção “Para nós, contra nós”, que corresponderia aos parágrafos 8 a 14; ao “Conceito de uma religião da decadência”, que corresponderia aos parágrafos 15-19; e à seção intitulada “Budismo e Cristianismo”, que corresponderia aos parágrafos 20-23 de AC (Montinari, 1996, p. 62-63).
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Quanto à Transvaloração de todos os valores, segundo Montinari, o projeto é definitivamente abandonado por Nietzsche. Montinari cita uma carta para fazer esse registro (Montinari, 1996, p. 64), o que pode ser questionado, pois Nietzsche não retira do prefácio de Ecce homo a ideia de que O Anticristo seria o primeiro livro daquele projeto maior.
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Nietzsche menciona o caráter irônico de Ecce homo em carta a Köselitz: “o livro é no geral rico em brincadeiras e maldades, pois eu me apresento com toda a violência como um antípoda (Gegentypus) à espécie de homem que até agora foi venerada: - o livro é, assim, o mais ‘profano’ possível...” (Carta a Köselitz de 25 de novembro de 1888), e o caráter cínico, por exemplo, em outra correspondência do período (Carta a Georg Brandes de 20 de novembro de 1888).
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Conferir a respeito, Derrida, 2021. Apresentamos um estudo sobre esse texto de Derrida no artigo intitulado “A arte da escuta: Nietzsche pelos ouvidos de Derrida” (Paschoal, 2021).
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Vale observar, nesse sentido, o modo como Nietzsche produz e revisa outros textos. Um caso conhecido é a produção da sua Genealogia da moral (Paschoal, 2003).
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Nietzsche acalentava também o propósito de ajustar a ordem das publicações, visto que, para ele, O Anticristo deveria ser publicado após o Crepúsculo dos Ídolos.
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Não se pode deixar de mencionar que nesse período Nietzsche se preocupa com a possibilidade de que sua obra seja proibida na Alemanha, como já teria sido na Rússia.
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Em sua tese de doutorado, Romano Zattoni (2022) expõe parte a parte os textos que compõem cada um dos manuscritos que podem ser chamados de preparatórios para a versão final que se encontrava na mesa de Nietzsche em janeiro de 1889 e que seria, segundo Zattoni, também um manuscrito.
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Romano Zattoni aponta em detalhes essas mudanças em seu importante estudo sobre Ecce homo (Zattoni, 2022, p. 38)..
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Nietzsche adiciona dois capítulos completamente novos ao final do manuscrito, a saber uma “Declaração de guerra” (Kregsesklärung) e o texto “Fala o martelo” (Der Hammer redet) (Zattoni, 2022, p. 38).
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Além de diversas pequenas alterações em todo o manuscrito, foram adicionadas ao capítulo “Por que sou tão esperto as sessões” 4, 6 e 7 e a “Humano, demasiado humano” a sessão 6 (Zattoni, 2022, p. 38).
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Já no final de dezembro, Nietzsche orienta o descarte dos dois capítulos finais adicionados poucas semanas antes, a “Declaração de guerra” - não preservada até hoje - e “O martelo fala”. Ambos viriam a ser substituídos pelo poema “Fama e eternidade” (Ruhm und Ewigkeit), que deveria encerrar o escrito (Zattoni, 2022, p. 38).
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Nietzsche exige a retirada do poema da posição final de Ecce Homo e o incorpora aos Ditirambos de Dioniso (Zattoni, 2022, p. 39).
Declaração de disponibilidade de dados
O presente artigo tem como foco principal contribuições de natureza teórica ou metodológica, sem a utilização de conjuntos de dados empíricos. Dessa forma, conforme as diretrizes editoriais da revista, o artigo está isento de depósito no SciELO Data.
Referências
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- DERRIDA, Jacques. Otobiografias. O ensinamento de Nietzsche e a política do nome próprio. Rio de Janeiro: Zazie, 2021.
- FAUSTINO, Marta; RYAN, Bartholomew. Rotos do si. Autobiografia, Confissão, Terapia Lisboa: Vendaval, 2019, p. 151-167.
- MONTINARI, Mazzino. Nietzsche Roma: Editori Riuniti, 1996
- NIETZSCHE, Friedrich. Sämtliche Werke Kritische Studienausgabe Herausgegeben (KSA) von Giorgio Colli und Mazzino Montinari. München/Berlin/New York: dtv/Walter de Gruyter, 1988.
- NIETZSCHE, Friedrich, Sämtliche Briefe, Kritische Studienausgabe (KSB) in 8 Bände, Hrsg. von Giorgio Colli und Mazzino Montinari, 2. Aufl., Berlin, Walter de Gruyter, 2003.
- NIETZSCHE, Friedrich, Ecce Homo, trad. Paulo César de Souza, São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
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- PASCHOAL, A. Edmilson. Ecce homo. Quid homo? In: DENAT, Céline;WOTLING, Patrick. Nietzsche. Les textes de 1888 Reims (France): Épure, 2020, p. 47-62.
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- SAAR, Martin, Genealogie als Kritik. Geschichte und Theorie des Subjekts nach Nietzsche und Foucault, Frankfurt/New York, Campus Verlag, 2007.
- STEGMAIER, Werner. As linhas fundamentais do pensamento de Nietzsche Org. Jorge L. Viesenteiner e André L. M. Garcia, Rio de Janeiro, Vozes, 2013.
- ZATTONI, Romano S. Ecce homo como auto-bio-grafia 2022. 270p. Tese (doutorado) - Universidade Federal do Paraná, Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Curitiba, 2022.
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Léo Peruzzo Júnior e Jelson Oliveira.
