RESUMO
Objetivo: Analisar a prevalência e fatores associados às doenças crônicas entre mulheres em idade reprodutiva na atenção primária à saúde.
Método: Estudo transversal realizado com 397 mulheres em idade reprodutiva residentes no norte do Paraná, Brasil. Os dados foram coletados no período de julho 2019 a setembro 2020. Utilizou-se a Ficha Clínica da Mulher para coleta de dados sociodemográficos, comportamentos de risco, diagnóstico de doenças crônicas e uso de medicamentos. Foram realizados os testes Qui-Quadrado para análise de associação, Regressão Logística estimando Odds Ratio e intervalos de confiança 95%.
Resultados: A prevalência de doenças crônicas entre mulheres em idade reprodutiva foi de 38,53% e os fatores associados foram: faixa etária de 31 a 40 anos (OR=3,67; p=0,001) e de 41 a 49 anos (OR=9,7; p=0,001), ensino médio incompleto (OR= 2,7; p=0,001), obesidade (OR= 2,25; p=0,001) e tabagismo (OR=2,23; p=0,001).
Conclusão: Foram associados à presença de doenças crônicas a idade no final da fase reprodutiva, a obesidade e o tabagismo. O conhecimento desses fatores pode auxiliar nas ações de rastreio, monitoramento e de educação em saúde prestadas às mulheres em idade fértil.
Descritores:
Enfermagem; Saúde reprodutiva; Saúde da mulher; Atenção primária à saúde; Doença crônica
ABSTRACT
Objective: To analyze the prevalence and associated factors with chronic diseases among women of reproductive age in primary health care.
Method: Cross-sectional study conducted with 397 women of reproductive age living in northern Paraná, Brazil. Data were collected from July 2019 to September 2020. The Women’s Clinical Record was used to collect sociodemographic data, risk behaviors, diagnosis of chronic diseases and medication use. Chi-Square test was performed for association analysis, and Logistic Regression estimating Odds Ratio and 95% confidence intervals.
Results: The prevalence of chronic diseases among women of reproductive age was 38.53% and the associated factors were: age group from 31 to 40 years old (OR=3.67; p=0.001) and from 41 to 49 years (OR =9.7; p=0.001), incomplete high school education (OR= 2.7; p=0.001), obesity (OR= 2.25; p=0.001) and smoking (OR=2.23; p=0.001).
Conclusion: Age at the end of the reproductive phase, obesity and smoking were associated with the presence of chronic diseases. Knowledge of these factors can assist in screening, monitoring and health education actions provided to women of childbearing age.
Descriptors:
Nursing; Reproductive health; Women’s health; Primary health care; Chronic disease
RESUMEN
Objetivo: Analizar la prevalencia y los factores asociados a las enfermedades crónicas entre mujeres en edad reproductiva en la atención primaria de salud.
Método: Estudio transversal realizado con 397 mujeres en edad reproductiva residentes en el norte de Paraná, Brasil. Los datos se recolectaron desde julio de 2019 a septiembre de 2020. Se utilizó la Historia Clínica de la Mujer para recolectar datos sociodemográficos, conductas de riesgo, diagnóstico de enfermedades crónicas y uso de medicamentos. Se realizó prueba de Chi-Cuadrado para análisis de asociación, Regresión Logística estimando Odds Ratio e intervalos de confianza del 95%.
Resultados: La prevalencia de enfermedades crónicas entre las mujeres en edad reproductiva fue de 38,53% y los factores asociados fueron: rango de edad de 31 a 40 años (OR=3,67; p=0,001) y de 41 a 49 años (OR =9,7; p= 0,001), educación secundaria incompleta (OR= 2,7; p=0,001), obesidad (OR= 2,25; p=0,001) y tabaquismo (OR=2,23; p=0,001).
Conclusión: La edad al final de la fase reproductiva, la obesidad y el tabaquismo se asociaron con la presencia de enfermedades crónicas. El conocimiento de estos factores puede ayudar en las acciones de detección, seguimiento y educación en salud brindadas a las mujeres en edad fértil.
Descriptores:
Enfermería; Salud reproductiva; Salud de la mujer; Atención primaria de salud; Enfermedad crónica
INTRODUÇÃO
As Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) são multideterminadas e resultam de uma combinação de fatores de risco não modificáveis como, por exemplo, a idade, o sexo e a hereditariedade, e fatores comportamentais modificáveis, como o tabagismo, padrões alimentares inadequados, consumo excessivo de bebidas alcoólicas e sedentarismo1,2.
Essas doenças são responsáveis por mais da metade dos óbitos no Brasil, e em 2018 a taxa de mortalidade foi de 54,7%2. O aumento na prevalência das DCNTs é influenciado pelo processo de globalização, acelerada urbanização, além dos determinantes sociais de saúde que influenciam nas ações de cuidado adotadas e no acesso aos serviços de saúde3. Os fatores de risco comportamentais adotados impactam diretamente no metabolismo, que podem desencadear sobrepeso/obesidade, hipertensão arterial e, consequentemente, resultar em doença cardiovascular, acidente vascular encefálico, câncer e outras doenças2,4.
Nos países de baixa e média renda, incluindo o Brasil, as DCNT estão entre as principais causas de mortalidade entre mulheres pelas mudanças expressivas na carga global de doenças nas últimas décadas5,6. Durante a idade reprodutiva, pode ocorrer problemas de saúde materna, como diabetes gestacional e hipertensão induzida por gravidez que indicam o aumento do risco de DCNTs no futuro, advertindo sobre a importância da consistência de serviços da APS quanto ao acompanhamento dessas mulheres em especial no que tange à mudança no estilo de vida7,8.
Contudo, o manejo das DCNT ainda não ocupa lugar de destaque na agenda de saúde da mulher, uma vez que as ações e serviços de saúde ofertadas ainda possuem o enfoque majoritário nos serviços diagnósticos e de tratamento de doenças já instaladas, na saúde sexual e reprodutiva e na prevenção e rastreio de câncer de colo de útero e câncer de mama6. Desse modo, tornam-se necessárias discussões quanto a reestruturação do cuidado à saúde da mulher por meio de linhas de cuidado e redes de serviços capazes de atendê-las em sua integralidade7.
Considerando a morbimortalidade entre mulheres por DCNTs como um importante problema de saúde pública, embora alguns fatores de risco já sejam consenso para população geral9, a análise destes especificamente entre as mulheres possibilita a identificação de causas que são sensíveis à APS e que devem ser valorizadas nas ações ofertadas para essa parcela populacional. Diante disso surgem os seguintes questionamentos: Qual a prevalência de doenças crônicas entre mulheres em idade reprodutiva que frequentam serviços de atenção primária à saúde? Quais fatores de risco estão associados?
O presente estudo teve como objetivo analisar a prevalência e os fatores associados às doenças crônicas entre mulheres em idade reprodutiva na atenção primária à saúde.
MÉTODO
Estudo descritivo, transversal, realizado em 11 instituições de saúde de seis municípios pertencentes à 16ª Regional de Saúde localizado ao norte do estado do Paraná, Brasil, cujo modelo de atenção é a Estratégia Saúde da Família (ESF). O estudo foi distribuído em oito Unidades Básicas de Saúde (UBS) de três municípios, duas Clínicas da Mulher de dois municípios e um Centro de Saúde de um município. Todas as instituições de saúde estão localizadas na zona urbana dos seis municípios selecionados.
A coleta de dados ocorreu no período de julho de 2019 a setembro de 2020 e foi realizada com 397 mulheres em idade reprodutiva (faixa etária de 18 a 49 anos).
Foram consideradas como população 111.658 mulheres em idade reprodutiva de 17 municípios da 16ª Regional de Saúde ao norte do estado do Paraná, de acordo com dados do Departamento de Informações da Atenção Básica (E-SUS AB). A seleção amostral objetivou cobrir geograficamente toda a regional. Foi adotado o processo de amostragem aleatória estratificada, de duplo estágio, considerando-se o número de mulheres em idade reprodutiva de cada município e o tamanho do município (pequeno: até 10.000 habitantes - 13 municípios; médio: entre 10.001 e 50.000 habitantes - 02 municípios; grande: acima de 50.001 habitantes - 02 municípios), sendo levado em consideração ainda razões logísticas de exequibilidade. Deste modo, após estratificação dos municípios, foram sorteados seis municípios da 16ª RS.
Posteriormente, procedeu-se à randomização da amostra estratificada por número de mulheres em idade reprodutiva de cada município. O tamanho amostral original foi determinado com dados de uma prevalência de 50% do desfecho, com garantia de uma amostra com o máximo de população possível, para controle de nível de erro e confiança. Ponderando um alfa de 5% e um poder de 80%; deste modo, foi obtida uma amostra de 397 mulheres acrescido de 10% para cobrir eventuais perdas. A população de mulheres entrevistadas em cada município sorteado foi proporcional ao número de mulheres cadastradas no E-SUS AB e a média de mulheres atendidas nas instituições onde aconteceram a pesquisa.
A variável dependente do estudo foi o relato de diagnóstico de doenças crônicas. Por sua vez, as variáveis independentes foram: características sociodemográficas (idade, escolaridade, raça/cor, religião, estado civil e ocupação); descrição dos sinais vitais, peso e altura para determinar o Índice de Massa Corpórea (IMC); estilo de vida/ comportamentos de risco (tabagismo, alcoolismo, uso de drogas, prática de atividade física); e uso contínuo de medicamentos.
Como critérios de inclusão foram elegíveis para a pesquisa mulheres em idade reprodutiva (18 a 49 anos de idade), sem restrição quanto à etnia, escolaridade ou classe social e ter sido atendida anteriormente pelo menos uma vez nos últimos dois anos por uma equipe da ESF. Foram excluídas as mulheres menores de 18 anos de idade, mulheres que, no momento da pesquisa, não estivessem em condições físicas para participar do estudo, como ter sido submetidas a algum procedimento prévio e com incapacidade limitada por diagnóstico e tratamento de doenças no momento. Deste modo, foram excluídas 19 mulheres da pesquisa, sendo sete por motivo de recusa, três por serem menores de 18 anos e nove por não estarem em boas condições físicas no momento da pesquisa.
Para coleta de dados foi utilizada como instrumento semiestruturado a ficha clínica da mulher, a qual é considerada padrão pela 16ª Regional de Saúde e distribuída aos municípios. Este instrumento era dividido em cinco categorias, sendo a primeira para caracterização de dados sociodemográficos; a segunda com descrição dos sinais vitais, peso e a terceira relacionada ao estilo de vida e aos comportamentos de risco; a quarta com destaque a presença de doenças crônicas não transmissíveis e uso contínuo de medicamentos, e a quinta categoria para coleta atinente a antecedentes ginecológicos e obstétricos. Os dados da segunda categoria como os sinais vitais, peso e altura foram realizados pelos pesquisadores e transcritos no instrumento; os outros dados foram coletados através de entrevistas por respostas autorreferidas.
Participaram da coleta de dados, além da pesquisadora principal, mestre em enfermagem e docente do ensino superior, dois acadêmicos do último período do curso de enfermagem de uma instituição de ensino privada, que não tinham nenhuma relação com os serviços de saúde. Estes foram previamente treinados e capacitados para a coleta de dados, pela pesquisadora principal, por meio da apresentação do projeto, objetivo do estudo, discussão dos preceitos éticos e aplicação do instrumento de coleta de dados entre eles a fim de identificar qualquer dúvida em relação as questões e saná-las.
As coletas de dados aconteceram simultaneamente pelos pesquisadores nos municípios incluídos na amostra, e de acordo com o fluxo de mulheres e horários de atendimentos nas instituições de saúde. As participantes foram recrutadas para a pesquisa à medida que compareciam nas instituições dos municípios selecionados para realizar consultas médicas, coleta de exame preventivo, pré-natal e outros, de segunda à sexta-feira nos períodos matutino e vespertino. Enquanto as mulheres aguardavam os atendimentos, os pesquisadores faziam acolhimento e convidavam-nas para participarem da pesquisa e os dados eram coletados em salas ou consultórios disponíveis para manter sua privacidade.
Realizou-se a verificação por pares para constatar incoerências de informações nas fichas clínicas, e nove fichas foram descartadas por estarem incompletas, já considerando as perdas feitas pelo cálculo amostral. Para análise estatística, todas as respostas foram tabuladas em um banco de dados elaborado no software Microsoft Excel, por dupla entrada e, posteriormente, analisadas por meio do software R (R Development Core Team, 2016), versão 3.6.2.
Foi realizada uma análise descritiva dos resultados para a obtenção dos dados através de frequência absoluta e porcentagem para as variáveis categóricas. Foram realizados testes de associação entre as características sociodemográficas, prática de atividade física, comportamentos de risco (tabagismo, etilismo e drogas), realização de cirurgias e uso contínuo de medicamentos com doenças crônicas não transmissíveis. A análise de associação entre as variáveis foi avaliada por meio do teste Qui-quadrado em nível de 5% de significância.
Com o intuito de investigar possíveis associações entre as variáveis de interesse, utilizou-se a regressão logística univariada, estimando como medida de efeito as Odds Ratios (razões de chances), com intervalo de confiança de 95%. Posteriormente, utilizando a metodologia proposta por HOSMER e LEMESHOW, foram selecionadas as variáveis que apresentaram associação ao menos moderada (p < 0,25) com a variável de interesse pelo teste Qui-quadrado. Tais variáveis foram incluídas no modelo multivariado, que estima a razão de chances ajustada, considerando possíveis interações entre as variáveis.
É relevante destacar que a maior parcela da coleta de dados (94% do conjunto total) foi realizada entre julho de 2019 e fevereiro de 2020, ou seja, antes da eclosão da pandemia da Covid-19. Com o início do período pandêmico, a coleta de dados foi interrompida conforme as diretrizes de segurança estabelecidas pelo Ministério da Saúde e pelas autoridades públicas locais, como medida preventiva. Após um período de seis meses, autorizou-se a retomada da coleta de dados no município de grande porte, onde uma parte da amostra ainda estava pendente. Essa retomada, realizada nos meses de agosto e setembro de 2020, seguiu todas as recomendações e normas de segurança para prevenção da Covid-19. Apesar da demora para completar a amostra total pela diminuição no número de atendimentos nas instituições de saúde, foi possível concluir a coleta de dados sem comprometer a metodologia do estudo.
Para acesso às mulheres em idade reprodutiva nas instituições de saúde da APS, obteve-se autorização formal das secretarias de saúde dos municí pios do estudo, através do termo de aceite assinado pelos secretários de saúde. O estudo foi aprovado pelo Comitê Permanente de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Estadual do Paraná - Unespar, câmpus de Paranavaí), parecer nº 3.448.698 e atende todas as normas da resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde do Brasil. A solicitação de participação no estudo foi acompanhada de duas vias do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE); as participantes foram notificadas sobre as finalidades da pesquisa, tipo de participação desejada e a metodologia da entrevista, ficando uma via com a entrevistada e uma via com o pesquisador.
RESULTADOS
Dentre as 397 mulheres em idade reprodutiva entrevistadas, 153 (38,53%) relataram diagnóstico de DCNT, sendo as mais frequentes: obesidade, hipotireoidismo, depressão e hipertensão arterial.
Observou-se na Tabela 1 que a frequência de mulheres com idade superior a 31 anos, e que referiram ser do lar como profissão, é maior entre aqueles que relataram DCNT e ambas as variáveis apresentaram associação estatística com a presença de doença crônica (p=0,001).
De modo similar, a associação da religião, escolaridade, estado civil (p=0,001) e cor/raça (p=0,002) também se mostraram significativas em relação às DCNT.
Conforme apresentado na Tabela 2, houve associação estatisticamente significativa entre o IMC e a presença de DCNT (p=0,001), sendo a maior frequência identificada entre as mulheres obesas, quando comparadas àquelas que não possuem doença crônica.
Foi observada maior frequência de tabagistas e etilistas entre aquelas que relataram DCNT, se comparadas com as que não possuem, sendo a associação dessas variáveis significativa (p ≤ 0,001), da mesma forma que a realização de cirurgias e uso de medicações (p=0,001).
Na Tabela 3 apresenta os resultados da associação entre faixa etária e a presença de DCNT. Mulheres na faixa etária 31 e 49 anos tiveram quase quatro vezes mais chance de ter doença crônica e aquelas entre 41 e 49 anos, quase dez vezes mais chance.
É importante ressaltar que as mulheres com ensino superior incompleto apresentam 14% das chances de desenvolver doenças crônicas em comparação com aquelas que possuem ensino fundamental incompleto (OR bruto=0,14; p=0,001). Essa disparidade persiste mesmo quando consideramos o ensino médio incompleto, pois as chances revelaram-se significativamente superior para as mulheres com essa característica em comparação com suas respectivas bases de comparação.
Por sua vez, as mulheres obesas (p=0,005) e tabagistas (p=0,001) apresentaram duas vezes mais chance de ter DCNT (Tabela 3).
DISCUSSÃO
No presente estudo, a faixa etária, o nível de escolaridade, a obesidade e o tabagismo foram fatores associados às DCNT em mulheres de idade reprodutiva. Embora, as mulheres sejam as que mais procuram os serviços da APS10, observa-se, ainda, o enfoque assistencial predominantemente curativo, com cuidados conduzidos para as queixas clínicas e a saúde reprodutiva11.
Em relação à faixa etária, identificou-se, no presente estudo, associação estatística com à ocorrência de DCNT, resultado que corrobora com os achados de estudo realizado na Índia com mulheres em idade reprodutiva, que apontou maior prevalência de DCNT, em mulheres na faixa etária de 40 a 44 anos (27,38%) e de 45 a 49 anos (31,18%)12. Embora, seja um fator não modificável, a faixa etária deve ser considerada no planejamento das ações de rastreio, de promoção do autocuidado e de estímulo às mudanças de hábitos de vida13. Desse modo, considerando que a maioria das mulheres, nessa faixa etária, é economicamente ativa, as ações necessitam ser desenvolvidas em espaços coletivos em horários e dias alternados (inclusive final de semana e feriados).
O nível de escolaridade é outro fator que deve ser considerado nas ações de educação em saúde e estímulo ao autocuidado. Isso porque, o baixo nível de escolaridade influencia diretamente no desempenho com os cuidados de saúde14. Assim, as ações devem ser adaptadas de acordo com as especificidades do público, a fim de produzir resultados efetivos.
Por sua vez, o tabagismo é considerado importante fator de risco para o desenvolvimento de muitas doenças crônicas, tais como câncer, doenças pulmonares e cardiovasculares, de modo que o hábito do tabaco permanece sendo líder global entre as consequências de mortes evitáveis. Segundo dados do Vigitel 2021, o percentual total de fumantes com 18 anos ou mais, no Brasil, é de 9,1%, sendo 11,8 % entre homens e 6,7 % entre mulheres15. No presente estudo, a prevalência foi de 18,39%, valor aproximado da prevalência identificada em um estudo realizado com 415 mulheres no estado do Paraná (14,77%)16.
No Brasil, as secretarias estaduais de saúde possuem coordenações do Programa de Controle do Tabagismo com tratamento para usuários que desejam abandonar o vício. As ações são descentralizadas para os municípios atuando de forma integrada na APS através da ESF17. Contudo, alguns serviços não conseguem ofertar o tratamento integral, pois inclui avaliação clínica, abordagem mínima ou intensiva, individual ou em grupo e, se necessário, terapia medicamentosa juntamente com a abordagem intensiva, e ainda há carência de profissionais capacitados para o acolhimento, acompanhamento durante o tratamento e avaliação contínua direcionada às recaídas17.
No que tange ao IMC das participantes do presente estudo, mais de 60% estavam acima do peso ou em algum grau de obesidade. Estudo realizado na Índia apontou aumento da prevalência de sobrepeso e obesidade no período de 2005-2021, especialmente em mulheres, com níveis educacionais mais baixos e com diabetes e apontou a necessidade de estratégias e políticas específicas baseadas nos determinantes para o enfrentamento do sobrepeso/obesidade 4. Do mesmo modo, estudo epidemiológico realizado com 2.018 mulheres em idade reprodutiva, no município de Juiz de Fora, Minas Gerais, constatou que 61% das mulheres apresentaram sobrepeso ou obesidade13.
O sobrepeso e a obesidade têm importantes impactos na saúde da mulher. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a obesidade é considerada uma doença crônica e fator de risco para outras doenças2. As mulheres obesas em idade reprodutiva possuem maior risco de diabetes gestacional, aborto, hipertensão, tromboembolismo venoso, interrupção da gravidez por cesariana, sangramento pós-parto e infecções13. Do mesmo modo, o climatério é uma fase do ciclo de vida acompanhada por problemas metabólicos que quando associado à obesidade, aumenta os fatores de risco de mortalidade18. Frente a isso, torna-se premente a verificação e o acompanhamento do IMC na rotina dos profissionais no cuidado à saúde da mulher.
Ainda com menor prevalência, 20,15% das participantes deste estudo relataram ter diagnóstico de outras doenças crônicas como hipertensão arterial, dislipidemia, cardiopatias, câncer e outras. Além disso, 40,5% dessas mulheres relataram uso contínuo de medicamentos para tratamento de doenças, entre as quais estão associados com mulheres que relataram diagnóstico de DCNT. Estes resultados corroboram com os achados de um estudo realizado em um hospital oncológico de Minas Gerais com 210 mulheres jovens diagnosticadas com câncer de mama, que constatou que 60,0% (126) das mulheres possuíam uma doença crônica preexistente19.
Outro estudo transversal que envolveu 5.323 mulheres, realizado no Hospital Geral da Tianjin Medical University na China, identificou que mulheres no final da idade reprodutiva têm chances elevadas para doenças cardiovasculares, diabetes mellitus, hipercolerastemia e hipertensão, além dos riscos com sobrepeso e obesidade20. Analisando a prevalência de doenças crônicas e o tratamento medicamentoso entre mulheres em idade reprodutiva neste estudo, é importante considerar que são mulheres jovens e passíveis de prevenção de doenças e promoção à saúde por meio dos serviços que são ofertados pela APS.
Também foi constatada, neste estudo, a prevalência de 77,08% de sedentarismo na população total de mulheres em idade reprodutiva, e a prevalência foi ainda maior (81,8%) naquelas que relataram diagnóstico de doença crônica.
O sedentarismo está associado a desfechos negativos na população saudável bem como em indivíduos com DCNT. A prática de atividade física contribui com a prevenção de doenças crônicas, com a redução dos fatores de risco, prevenção de complicações de doenças já instaladas, além de contribuir para o bem-estar físico e psicológico21.
Considerando a demanda de atendimentos, a integralidade do cuidado à saúde da mulher em idade reprodutiva e mediante a ampliação dos serviços da APS, ainda há muitos desafios relacionados ao enfrentamento das mudanças advindas no perfil social, demográfico e de morbimortalidade nesta população2.
É importante ressaltar que as políticas públicas de atenção integral à saúde da mulher visam o atendimento em todos os ciclos de vida, porém, na prática, a integralidade da assistência ainda não é efetivamente considerada, ponderando que o sistema de saúde apresenta dificuldades em assistir a mulher em diferentes áreas específicas como a prevenção de doenças, o climatério, infertilidade, saúde mental e saúde ocupacional4,6.
Assim, discute-se a importância de ponderar o desempenho da APS como eixo para propostas político-governamental para a mudança do modelo de atenção à saúde no contexto do Sistema Único de Saúde no Brasil, cogitando o perfil de diferentes populações como mulheres de idade reprodutiva.
Acredita-se que o fato de os dados serem autorrelatados e provenientes de seis municípios de uma regional de saúde, localizada ao norte do estado do Paraná, pode constituir uma limitação do estudo. Contudo, os resultados encontrados oferecem subsídios para o planejamento de ações de rastreio de DCNT em mulheres de idade fértil, que podem ser desenvolvidas por meio da avaliação dos fatores de risco em locais estratégicos e com o apoio e divulgação das mídias sociais e representantes da própria comunidade. Ademais, qualquer contato dos membros da equipe de saúde com mulheres em idade reprodutiva, em especial aquelas com maior risco, deve constituir oportunidade de educação em saúde e conscientização quanto a necessidade de acompanhamento periódico da condição de saúde, da autoavaliação dos comportamentos e hábitos de vida e a adoção de ações de autocuidado.
CONCLUSÃO
A prevalência de doenças crônicas entre mulheres em idade reprodutiva foi de 38,53% e os fatores associados foram a faixa etária de 31 a 40 anos, o nível de escolaridade, a obesidade e o tabagismo.
Os resultados reforçam a necessidade de intervenções direcionadas à mudança no estilo e hábitos de vida ainda na infância e adolescência, com enfoque no autocuidado, a fim de refletirem na redução de comportamentos de risco na vida adulta.
É evidente a necessidade de abordagens integradas na APS para enfrentar desafios relacionados às mudanças no perfil de morbimortalidade nessa população, especialmente em meio a exposições crescentes a fatores de risco. Apesar da existência de políticas públicas voltadas para a atenção integral à saúde da mulher, os resultados oferecem subsídios para repensar as estratégias utilizadas, em especial no que tange a necessidade de envolvimento intersetorial com enfoque na promoção da saúde e prevenção das DCNT.
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