Open-access A cosmovisão tropicalista de Tom Zé

The tropicalist cosmology of Tom Zé

RESUMO

Fala proferida por ocasião da homenagem feita pelo Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo ao artista Tom Zé pelo conjunto da obra e contribuição para a cultura brasileira. A cerimônia aconteceu no dia 24 de junho de 2025, no Auditório István Jancsó, na Cidade Universitária, campus do Butantã.

PALAVRAS-CHAVE:
Tom Zé; homenagem; IEB

ABSTRACT

Speech delivered on the occasion of the tribute organized by the Institute of Brazilian Studies at the University of São Paulo in honor of the artist Tom Zé, in recognition of his body of work and his contribution to Brazilian culture. The ceremony was held on June 24, 2025, at the István Jancsó Auditorium, University City, Butantã campus.

KEYWORDS:
Tom Zé; homage; IEB

Quando ele chegou das estrelas, entrou na Terra por uma caverna chamada nascer! Natural de Irará, Bahia, Antônio José Santana Martins, nasceu em 11 de outubro de 1936. Tom Zé, como é nacional e internacionalmente conhecido, é um artista singularmente complexo e musicalmente inventivo, um compositor poeta-trovador que consegue, por meio da sua obra musical, fundir os diversos elementos que compõem a multifacetada cultura popular brasileira.

Ao ingressar na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia em 1962, Tom Zé estudou violoncelo, teve entre seus mestres-professores alguns dos expoentes da vanguarda europeia da música, como o alemão Hans-Joachim Koellreutter, os suíços Ernst Widmer e Walter Smetak e o italiano Piero Bastianelli, além de ter colaborado com a fundação do Grupo de Compositores de Música Erudita da Bahia. Após se formar em 1967, atuou como professor de contraponto e harmonia na própria Escola de Música da UFBA em Salvador, mas, logo em seguida, foi para São Paulo a convite de Caetano Veloso. Já em 1968, conquistou o 1o lugar no IV Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, com a icônica canção “São Paulo”, música que abre o seu primeiro álbum, também gravado em 1968, subtitulado Grande liquidação.

“Parque industrial”, outra canção do artista que compõe esse seu primeiro disco, também integra, em versão gravada por Gil, Gal, Caetano e Os Mutantes, o Tropicalia ou Panis et Circensis, álbum-manifesto do tropicalismo. Em um dos seus discos-tese, Tropicália lixo lógico (de 2012), Tom Zé toma de empréstimo uma expressão que é atribuída ao imperador romano Júlio César (100-44 a.C.) e a parafraseia por meio da canção Tropicalea jact est, ou seja, o movimento tropicalista estava lançado! A partir daí, o artista ingressa em definitivo no mercado musical brasileiro, que nunca mais seria o mesmo após a revolução estética proporcionada por ele e os outros tropicalistas.

O biógrafo do artista, o italiano Pietro Scaramuzzo (2020, p. 137), observa o seguinte acerca desse seu primeiro disco:

Com “São, São Paulo, meu amor” e “Parque industrial”, Tom Zé teve a habilidade de traduzir em música as contradições da metrópole, o choque cultural entre o imigrante nordestino e o ambiente urbano, a alienação derivada da corrida para o progresso. [...] Para suas composições, Tom Zé recorreu a múltiplos estilos, que vão do iê-iê-iê ao samba, da música caipira à experimental, com algumas alusões a jingles publicitários, valendo-se da contribuição de duas bandas diferentes: Os Brazões, com seu rock psicodélico, e Os Versáteis. Além disso, a poética das letras é arguta, vai direto ao ponto.

Tom Zé é o artista que seguiu mais fielmente a proposta da Tropicália ao longo de sua carreira, pelo menos entre os músicos e compositores do movimento, o que inclusive foi reconhecido por Caetano Veloso, outro grande expoente do tropicalismo. Em artigo no jornal O Globo de 5 de agosto de 2012, Caetano pontua que:

Diferentemente da bossa nova, a Tropicália é coisa de Tom Zé. Não só ele fez parte do movimento: ele realizou as obras mais ambiciosas no sentido de caracterizá-lo. É como se Gil, eu, Sérgio Dias e Rita Lee tivéssemos cada um partido para algo livre do projeto inicial: Tom Zé ficou com as questões centrais. E a biografia da Tropicália que ele apresenta nessa nova obra tem muito de autobiografia.

As composições tomzenianas fagocitam elementos rítmicos e sonoros variados, que misturam o folclore nordestino, a música caipira e o rock’n’roll com a música contemporânea de vanguarda, cujo resultado escapa, via de regra, aos modelos e gêneros musicais preestabelecidos pela indústria cultural. Não à toa, o Brasil do período do regime militar, inclusive a crítica especializada da época, não estava preparado para assimilar, minimamente, a produção fonográfica do artista, a sua “procuratividade” (neologismo a partir das palavras “criatividade” e “personalidade”, cunhado pelo próprio Tom Zé), de modo que, exceção às canções do álbum Tom Zé, se o caso é chorar (de 1972), as presentes nos discos Todos os olhos (de 1973), Estudando o samba (de 1976) e Correio da estação do Brás (de 1978), foram parcamente difundidas pelas emissoras nacionais de rádio.

Foi nesse período, no entanto, que o artista passou a desenvolver os “instromzémentos”, instrumentos musicais não convencionais feitos de materiais diversos como se incorporasse a figura literária do “trapeiro” de Charles Baudelaire, ou seja, um indivíduo que realiza uma produção material a partir de resíduos industriais, de materiais subutilizados da vida cotidiana dos citadinos, daquilo que a elite, ou a burguesia, descarta como lixo (BENJAMIN, 1989, p. 16).

Jornais impressos, máquinas de escrever, enceradeiras, furadeiras, aspiradores de pó, liquidificadores, canos de madeira e PVC, martelos e capacetes de operário, agogôs faiscados em atrito com moto-esmeris, tudo isso vira instrumento nas mãos de Tom Zé, que reaproveita o que a sociedade perdulária descarta para produzir arte, para compor músicas pós-modernas que, por vezes, encantam mediante o estranhamento, a dissonância e o espanto, isto é, o inusitado musical. Este, por sua vez, não se manifesta somente pela sonoridade, pelas composições musicais do artista e dos estímulos daí decorrentes, mas também por suas performances nos palcos. Assistir a um show de Tom Zé sempre foi uma experiência inaudita, por vezes chocante e estarrecedora, que tira o espectador da sua zona de conforto ao impeli-lo a algum exercício de reflexão causado pelo impacto sonoro da música e/ou pelo conteúdo crítico da letra cantada.

Por exemplo, na abertura do show do disco Estudando o pagode - Na opereta segregamulher e amor (de 2005), aos riffs de uma guitarra distorcida, Tom Zé aparece de posse de um chicote e, estalando-o ritmicamente no assoalho de um dos teatros do Sesc, em São Paulo, começa a cantar “Ave Dor Maria”, a primeira faixa do álbum. A letra tem os seguintes dois primeiros versos: “Mulher é o mal/ que Lúcifer bota fé”.

Não é preciso dizer que o impacto sobre o público presente foi enorme! Aliás, temas e problemas sociais do cotidiano, como esse da discriminação contra a mulher, são recorrentes na música tomzeniana, e a isso, São Paulo e os paulistanos devem muito ao artista, que escolheu a terra da garoa como sua morada. A criação de um dos seus instrumentos, o “buzinório” (um conjunto de buzinas acionado por teclado), é emblemática nesse sentido. Em algumas canções, ele surge como um estímulo que nos remete à poluição sonora típica dos congestionamentos das grandes metrópoles, como na versão de “Jimi renda-se” do álbum Jogos de armar (de 2000). Novamente, Tom Zé faz isso com maestria ao nos mostrar que o barulho, a organização do caos representado pelas buzinas que não cessam em meio à urbe, pode ser um elemento útil e sincronizador de estruturas rítmicas e melódicas que acompanham suas composições.

Por meio da sua cosmovisão sonora, Tom Zé parece ter sempre a intenção de fornecer aos ouvintes uma interpretação do que significa ser brasileiro, do seu sentido, dilemas e contradições. Seu trabalho recupera a importância da cultura moçárabe para a formação da brasilidade, principalmente em seu aspecto oral, isto é, a sua forma de transmissão e difusão. O iraraense a vincula a outra parte constitutiva da nossa formação como povo, que ele associa à cultura greco-ocidental que remonta ao filósofo Aristóteles. Essa tese, a propósito, está devidamente sustentada no cuidadoso estudo de Ivo Teixeira recentemente publicado, intitulado Tom Zé: fiz meu berço na viração. Teixeira (2025, p. 21) avalia que Tom Zé apresenta uma nova genealogia da Tropicália no suprarreferido álbum de 2012; uma estrutura de pensamento composta de referências filosóficas, culturais e sociais que a caracteriza como um movimento também filosófico, uma filosofia genuinamente brasileira, “que sistematiza sobre uma realidade nacional específica, com ‘sotaque’ baiano”.

Na canção “Língua brasileira”, gravada em duas versões, uma no álbum Imprensa cantada (de 2003) e outra em disco homônimo (de 2022), Tom Zé oferece outra contribuição valiosa ao entendimento da nossa cultura, desta vez à nossa filologia, quando escreve os seguintes versos:

Babel das línguas em pleno cio
Seduz a África, cede ao gentio
Substantivos, verbos, alfaias de ouro
Os teus lençóis conquistaram do mouro

[...]

Em nossas terras continentais
A cartomante abre o baralho
Abismada vê, entre o sim e o não
Nosso destino ou um samba-canção.

Além de narrativas sobre situações comezinhas do dia a dia das pessoas, as letras das canções de Tom Zé são também problematizadoras, pois colocam, por vezes, questões ao apresentar uma interpretação sempre crítica sobre a realidade política e social, seja a da própria classe dos artistas, seja a do brasileiro médio (o indivíduo comum), seja a do migrante nordestino, seja a do cidadão do mundo globalizado, mundo esse permeado por inovações tecnológicas que vão desde o rádio e a televisão, de meados do século XX, à internet de banda larga e à hiperconectividade do mundo contemporâneo.

Na música “Senhor cidadão”, por exemplo, questiona-se: “com quantos quilos de medo/ se faz uma tradição?”. Em outra, chamada “A babá”, Tom Zé pergunta “quem é que tá passando dinamite na cabeça do século?”. Já em “Complexo de épico”, o apontamento crítico chega a ser ácido e contundente num só tempo na parte da letra em que se diz que “todo compositor brasileiro é um complexado”. Na canção “Geração Y”, do álbum Vira lata na Via Láctea (de 2014), Tom Zé ironiza criticamente ao cantar “galope meu laptop;/ me clone aí/ no seu smartphone/ [...] Ipad, Ipad, Ipod, aí pode/ [...] wireless, um E.T. dentro do HD”; e vaticina, por meio de uma imagem concreta de distopia futurista, com a frase “porque já somos o pós-humano/ e o novo antropomórfico bando”.

Os discos-tese deixam ainda mais evidente a cosmovisão tropicalista do homenageado na medida em que suas canções fazem desnudar aquilo que está escamoteado, oculto, submerso e ofuscado no tecido social, visando captar mais a essência em vez da aparência dos fenômenos e situações nelas retratados. A experimentação, marca indelével da sua obra musical, como no caso da canção “Cademar” composta com Augusto de Campos, se dá mediante a combinação de uma estrutura linguística oriunda da poesia concreta com sequências rítmicas sincopadas que fogem aos artificialismos tão recorrentemente encontrados nas músicas comerciais que agitam as paradas de sucesso.

Ao se opor aos padrões estéticos da música de massa, Tom Zé parece assumir uma postura de tensionamento do ato de compor. Tal processo de criação, no entanto, não é fechado, definitivo ou acabado; é, por outro lado, aberto e inconcluso, ou seja, se apresenta em constante construção e repleto de plágios, autoplágios e “defeitos de fabricação”. Daí sua insistência em empregar o gerúndio nos títulos dos seus discos-tese: Estudando o samba, Estudando o pagode e Estudando a bossa. Este último, gravado em 2008. Em seu livro, Tropicalista lenta luta, o próprio Tom Zé (2003, p. 236) se reconhece como “um compositor de defeitos, um falhador”. Tais “falhas”, no entanto, correspondem ao seu peculiar projeto estético e aos atos do compositor de criar, estudar, pensar, sonhar e cantar.

Seus procedimentos criativos colocam a arte em confronto com seus próprios limites, na tentativa de sempre descobrir algo novo ou inovador. Sua habilidade como “plagicombinador” está presente tanto na canção “Se o caso é chorar”, de 1972, como em toda a concepção do álbum Com defeito de fabricação, de 1998. No encarte do disco, há um texto no qual Tom Zé expõe os fundamentos do seu processo de criação nesse álbum gravado pela Luaka Bop, selo discográfico de David Byrne:

A estética de Com defeito de fabricação reutiliza a sinfonia cotidiana do lixo civilizado, orquestrado por instrumentos convencionais ou não: brinquedos, carros, apitos, serras, orquestra de Hertz, ruídos das ruas etc., junto com um alfabeto sonoro de emoções contidas nas canções e símbolos musicais que marcaram cada passo da nossa vida afetiva. [...] O aproveitamento desse alfabeto se dá em pequenas “células”, citações e plágios. Também pelo esgotamento das combinações com os sete graus da escala diatônica (mesmo acrescentando alterações e tons vizinhos), essa prática desencadeia sobre o universo da música tradicional uma estética do plágio, uma estética do arrastão.

Gravado em 1990, o álbum The best of Tom Zé, o primeiro lançamento da gravadora de David Byrne, foi indicado pela revista Rolling Stone como um dos dez melhores discos da década de 1990. Em 2006, o álbum Danç-Êh-Sá conquistou os prêmios Shell de Música e Toddy de Música Independente como melhor disco. Outro importante reconhecimento se deu em 2015, quando a revista norte-americana on-line Pichfork incluiu “Nave Maria”, de 1984, entre as duzentas músicas mais relevantes da década de 1980, sendo Tom Zé o único artista brasileiro da lista.

A importância do homenageado do dia de hoje para a produção cultural no Brasil, bem como sua envergadura como músico-compositor-cantor, podem também ser dimensionadas pela quantidade de parcerias estabelecidas em seus projetos musicais ao longo da sua carreira: Elton Medeiros, Odair Cabeça de Poeta, Vicente Barreto, José Miguel Wisnik, Gilberto Assis, Arnaldo Antunes, André Abujamra, Suzana Salles, Jair Oliveira, Luciana Mello, Vange Milliet, Ceumar, Patrícia Marx, Zélia Duncan, Edson Cordeiro, Itamar Assumpção, Paulo Lepetit, Fernanda Takai, Mariana Aydar, Mônica Salmaso, Tita Lima, Andréia Dias, Márcia Castro, Jussara Silveira, Maria Beraldo, Fabiana Cozza, Marina de la Riva, Anelis Assumpção, Badi Assad, Emicida, Mallu Magalhães, Rodrigo Amarante, Kiko Dinucci, Washington Carlos, Pélico, Marcelo Segreto, Tatá Aeroplano, Tim Bernardes, Silva, Criolo, David Byrne, Milton Nascimento e Caetano Veloso.

No alto dos seus 88 anos de idade, Tom Zé segue “sofrendo de juventude”. Já há algum tempo, desde o lançamento de Tropicália lixo lógico, em 2012, ele tem produzido independentemente o seu trabalho. Além do álbum Vira lata na Via Láctea, de 2014, o artista produziu Canções eróticas de ninar, em 2016, Sem você não A, em 2017, e Língua brasileira, em 2022.

A inquietude do músico o torna genialmente inventivo em sua experimentação estética, de modo que cada disco consiste num novo, irreverente e surpreendente projeto. A simbiose entre forma e conteúdo dá unidade à proposta de forma a evitar qualquer tipo de sobreposição entre ambos. Escalas harmônicas, estruturas melódicas, bases rítmicas e lirismo poético se intercalam formando um conjunto único e não convencional. Aliás, Tom Zé nunca foi convencional; sua arte disruptiva é uma verdadeira obra-prima da sua cosmovisão tropicalista. Sorte a nossa, sorte do povo brasileiro, poder contar com um artista tão gigante, tão único, tão excepcional como esse baiano de Irará.

Pelo conjunto da obra e contribuição à cultura brasileira, o Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo oferece orgulhosamente esta homenagem ao artista Tom Zé. Seu criativo e meticuloso trabalho musical é um verdadeiro patrimônio da cultura imaterial do Brasil. Ao filho mais dileto do tropicalismo, agradecemos imensamente. Obrigado, Tom Zé!

Referências

  • BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas Volume III Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. Trad. José Carlos Martins Barbosa; Hemerson Alves Baptista. São Paulo: Brasiliense, 1989.
  • SCARAMUZZO, Pietro. Tom Zé: o último tropicalista. São Paulo: Edições Sesc, 2020.
  • TEIXEIRA, Ivo Mineiro. Tom Zé: fiz meu berço na viração. Conversas com Tom Zé por Giuliana Simões e Flávio Desgranges. São Paulo: Hucitec, 2025.
  • VELOSO, Caetano. Lixo lógico Parte I. O Globo, 5 de agosto de 2012.
  • ZÉ, Tom. Tropicalista lenta luta São Paulo: Publifolha, 2003.
  • GRANDI, Guilherme. A cosmovisão tropicalista de Tom Zé. Rev. Inst. Estud. Bras. (São Paulo), n. 92, 2025, e10773.
  • Declaração de disponibilidade de dados
    Os conjuntos de dados gerados e/ou analisados durante o estudo atual estão disponíveis no manuscrito e em materiais suplementares.

Editado por

  • Editores responsáveis:
    Ana Paula Simioni, Dulcilia Helena Schroeder Buitoni e Marcos Antonio de Moraes

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    06 Out 2025
  • Aceito
    03 Nov 2025
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