RESUMO
Este artigo investiga a Academia dos Felizes, fundada em São Paulo em 1770. Para tanto, analisa-se o códice da Relação das festas públicas, as festas as quais a academia integrou, os escritos dela resultantes e a fabricação do governador da capitania como herói. Por meio dele constata-se a existência, em São Paulo, de pessoas aptas a compor uma academia, que partilhavam das concepções do período do que era fazer poesia, e que empregaram a escrita para a celebração de um acontecimento. Nota-se, também, a intenção de legar ao futuro imagens positivas do evento não só através das palavras, mas também da materialidade do códice.
PALAVRAS-CHAVE:
Academia dos Felizes; D. Luís Antônio de Souza Botelho Mourão; herói
ABSTRACT
This article investigates the Academia dos Felizes, founded in São Paulo in 1770. To this end, it examines the codex of the Relação das festas públicas, the festivities in which the academy took part, the writings produced from it, and the construction of the captaincy’s governor as a hero. Through this material, it is possible to observe the presence, in São Paulo, of individuals capable of forming an academy, who shared contemporary conceptions of what it meant to compose poetry and who employed writing to commemorate an event. It also reveals an intention to bequeath positive images of the occasion to the future not only through words, but also through the materiality of the codex itself.
KEYWORDS:
Academia dos Felizes; D. Luís Antônio de Souza Botelho Mourão; heroe
D. Luís Antônio de Souza Botelho Mourão (1722-1798), conhecido na historiografia como morgado de Mateus, nasceu na freguesia de São Veríssimo de Riba Tâmega, distrito da vila de Amarante, Portugal, e descendia de famílias cujos membros havia muito se dedicavam ao serviço régio. Entre 1765 e 1775, período em que esteve à frente do governo paulista, ele se ocupou da militarização de São Paulo, da exploração e conquista territoriais, da criação de povoações, do estímulo à produção agrícola e ao comércio, do estabelecimento de limites com outras capitanias e da melhoria de caminhos (BELLOTTO, 1979).
Entre os dias 16 e 26 de agosto de 1770, o governador organizou uma série de festejos públicos de caráter barroco (FURTADO, 1997) que mobilizou a população da cidade e arredores. Sua causa primeira era a inauguração de uma capela dedicada a Santa Ana na igreja que havia sido dos jesuítas. Isso porque, no ano anterior, após sonhar com ela, D. Luís Antônio teria encontrado no palácio de governo uma imagem da santa tida como perdida havia dez anos (RELAÇÃO das festas..., [1770], p. 28; p. 136).
Entre os eventos que marcaram os festejos consta uma academia literária criada para a ocasião, a Academia dos Felizes. Os textos ensejados por ela, os quais em sua maior parte visam a heroificação do governador, constituem a maior parte de um códice que reúne o registro escrito mais completo dessa efeméride de cuja existência temos notícia, a Relação das festas públicas, salvaguardado no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP).
Ao pintar um retrato desolador das letras em São Paulo colonial, Ernani Silva Bruno (1983, p. 412) argumentou que ninguém se lembrou de fundar na cidade academias como as criadas na Bahia ou no Rio de Janeiro. Em alguns trabalhos que reconheceram sua existência, as análises veiculam preconceitos com relação à poesia encomiástica. Afonso d’Escragnolle Taunay (1951, p. 135), por exemplo, se refere aos escritos da academia como “literatura de baixo quilate”. Péricles da Silva Pinheiro (1961, p. 135), por sua vez, alega que os poemas eram de “péssimo caráter e chata mediocridade”. Para Helle Alves (1961), a suposta solidão e o isolamento de poetas que viviam numa cidade que, na sua concepção, mantinha raras comunicações com o restante da América portuguesa e com a Europa resultaram numa “pobreza na versatilidade temática”, de modo que a poesia produzida em São Paulo só poderia abordar o fato que deu origem à academia e o governador da capitania (ALVES, 1960).
Este artigo tem como objetivo investigar a Academia dos Felizes por meio da análise do códice da Relação das festas públicas, haja vista que não existe texto fora do suporte em que ele é lido (CHARTIER, 1998, p. 17), suporte esse que não só corporifica o conhecimento produzido, mas também influi na apreensão de seus significados (ROBERTS, 2012, p. 51; p. 63). Ele se faz importante na medida em que permite integrar a capital paulista ao movimento academicista observado na América portuguesa do século XVIII (CURTO, 2009, p. 419-428); ampliar a compreensão das práticas de escrita existentes na cidade; entender o uso da escrita por um seleto grupo integrante de uma academia de circunstância; e mapear parte dos saberes que circulavam em São Paulo na segunda metade dos Setecentos. Tais questões são indissociáveis das materialidades em que o texto se concretiza (CASTILLO GÓMEZ, 2020, p. 20), as quais, quando perscrutadas, nos dão acesso a informações que não são disponibilizadas pela substância textual (ALMADA, 2014, p. 137).
O códice e sua materialidade
A Relação das festas públicas foi comprada em 1927 pelo escritor e colecionador Yan de Almeida Prado na Libreria Antiquaria, de Giuseppe Daniele, em Nápoles, por 21,85 liras italianas (HORCH, 1966, p. 102; FONDA, 1972, p. 68-69). Ao que tudo indica, ela integrava a biblioteca privada de D. Luís Antônio em São Paulo, a qual fora levada consigo para Portugal com o fim de seu governo (RELAÇÃO de livros..., 1775). No século XX, ela teve o mesmo destino de vários outros artefatos gráficos pertencentes às bibliotecas de nobres portugueses falidos: a venda a livreiros e leiloeiros europeus (BORREGO, 2025, p. 144). Na década de 1960, a coleção de Yan de Almeida Prado foi adquirida pela USP, passando a integrar o então recém-fundado Instituto de Estudos Brasileiros (HORCH, 1966, p. I).
A palavra “relação”, nos Setecentos, significava a narração daquilo que aconteceu (BLUTEAU, 1712-1728, p. 214). A Relação das festas públicas integra duas tradições amplas no Império português: 1) a de produzir uma memória escrita de efemérides religiosas e temporais que contaram com alguma forma de expressão literária (CURTO, 2009, p. 422); 2) a de compor cancioneiros poéticos (HANSEN; MOREIRA, 2013, p. 140).
O códice (Figura 1) mede 34 cm x 22 cm e pesa cerca de 1,3 quilograma. O formato de grandes proporções era reservado a textos prestigiosos (GENETTE, 2009, p. 22). Tais características reduzem sua portabilidade, apontando para a intenção de guarda do artefato e não de sua circulação de mão em mão.
Relação das festas públicas [1770]. Fundo Yan de Almeida Prado, Biblioteca do Instituto de Estudos Brasileiros, códice YAP-039. Fotografia do autor
A encadernação é datada como sendo do século XVIII (HORCH, 1966, p. 102). Entre os nervos da lombada constam alguns adornos formados por uma moldura retangular ladeada de motivos florais, dentro da qual se encontra um ramo de flores e a abreviação do título, tudo em dourado (Figura 1). As folhas de guarda duplas, com papel de maior gramatura do que aquele utilizado para a escrita, evidenciam preocupação com a preservação de seu conteúdo (HANSEN; MOREIRA, 2013, p. 149). Além delas, em papel comum, possui outras, na parte inicial e final, em papel marmorizado, o mesmo material que reveste a segunda e a terceira capa do livro (Figura 2).
Os 134 fólios empregados são de três fabricantes holandeses: Dirk & Cornelis Blauw (predominante ao longo do códice), Adriaan Rogge e D. Sebille Wend (Figura 3). Os papéis produzidos nessa região são conhecidos pela alta qualidade (GONÇALVES, 2021, p. 65).
O códice possui duas folhas de rosto (Figura 4) - a primeira impressa, e a segunda manuscrita. Como será argumentado, é provável que a folha de rosto impressa tenha sido inserida posteriormente, quando D. Luís Antônio regressou a Portugal. Quanto à folha de rosto manuscrita, João Adolfo Hansen e Marcello Moreira (2013, p. 150) afirmam que sua presença em códices produzidos na América portuguesa nos séculos XVII e XVIII procurou reproduzir as que circulavam nos impressos, sendo que esse gesto “evidencia o desejo de transformar o livro manuscrito em unidade bibliográfica e individualizada no interior da cultura escribal”.
A folha de rosto impressa, a primeira a ser visualizada pelo consulente, é formada por uma moldura retangular, dentro da qual está disposta outra moldura, semelhante a um escudo entalhado em madeira, tal como em um brasão de armas, revestida por motivos fitomórficos e um coral localizado na parte inferior. Ao centro, lê-se Relaçaõ/ das/ festas publicas, que/ na/ cidade de Saõ Pavlo/ fez/ o ill.mo, e ex.mo senhor/ gouernador, e capitaõ general/ d. luis ant.o d’ souza/ em louuor da/ senhora s. anna/ com a ocasiaõ de collocar, a/ sua Imagem em o Altar novo da/ Igreja do collegio./ anno d’ 1770.
Por meio do emprego de diferentes recursos tipográficos, foram destacados a palavra “relaçaõ” (em caixa-alta e módulo grande), o nome do governador (em negrito, caixa-alta e módulo menor que o anterior), o nome de Santa Ana, impresso com as mesmas características que o nome de D. Luís Antônio, e, por fim, o ano de 1770 (em caixa alta, negrito, itálico e módulo grande). Tendo em vista a relação entre forma, função e significado simbólico dos signos de um livro (MCKENZIE, 2018, p. 23), no caso em questão, o nome do morgado de Mateus foi realçado tipograficamente com os mesmos recursos implementados no registro de Santa Ana, equiparando-os visualmente. Todavia, se levarmos em conta a ordem em que eles aparecem, D. Luís Antônio precede Santa Ana.
Na realidade, de modo distinto, a folha de rosto manuscrita também hierarquiza ambos os personagens. Nela, o nome do governador não só antecede o da divindade, mas também se distingue visualmente dele pelo uso de uma letra de módulo e de peso maiores. Enquanto o nome de D. Luís Antônio é facilmente percebido, tal como a palavra “relaçaõ”, o de Santa Ana só é identificado por aqueles que se dispuserem a ler as motivações do festejo, escritas com letras de módulo pequeno.
O códice possui outros elementos impressos para além da folha de rosto, como vinhetas, vinhetas de remate e iniciais adornadas (Figura 5). Sua presença indica um planejamento na produção do livro, haja vista que a inserção deles é feita posteriormente ao trabalho do copista, que sinaliza os espaços a serem preenchidos (SORDET, 2023, p. 141). Em segundo lugar, demonstra o investimento deliberado de quem o encomendou em despender capital na ornamentação do objeto.
Vinheta, vinheta de remate e inicial adornada da Relação das festas públicas. Fotografias do autor
A ornamentação de uma letra age como um qualificador, um intensificador, visando provocar certos efeitos ao objeto a que ela adere. Tais efeitos podem ser estéticos, políticos, ideológicos, econômicos, entre outros. As iniciais adornadas cumprem a função de organizar o livro, hierarquizar suas partes e torná-lo mais belo e prestigioso (PEREIRA, 2020, p. 72).
O texto manuscrito foi elaborado com tinta metaloácida, a qual se apresenta aos olhos do leitor contemporâneo nas cores castanho-claro e castanho-médio. Todo o conteúdo textual é de autoria material de um único escriba, tratando-se de um testemunho apógrafo, uma cópia elaborada após a realização das festas públicas, não sendo possível precisar se os seus modelos foram textos da mão dos autores ou reprodução deles.
A letra do escriba anônimo é de tipo humanístico, ductus cursivo, peso leve, ângulo inclinado à direita, módulo pequeno nas notas marginais, médio no corpo do texto e grande nos títulos e iniciais maiúsculas do corpo do texto (NÚÑEZ CONTRERAS, 1994). A baixa velocidade empregada por ele na sucessão dos traços que constituem uma letra, seu traçado seguro, as poucas ligaduras entre palavras e o empenho em reproduzir a morfologia das letras conforme os modelos que circulavam no universo lusófono do período oferecem grande legibilidade ao leitor do presente. As hastes e caudas prolongadas e sinuosas, às vezes formando laços na finalização de uma letra, revelam seu estilo elegante, o qual atribui beleza ao códice. Tanto a disposição do texto sobre o suporte quanto a distância entre as linhas são regulares. Sem dúvidas, trata-se de um profissional muito hábil, havendo a possibilidade de ele ter sido contratado para esse fim (HANSEN; MOREIRA, 2013, p. 137-138) (Figura 6).
Exemplo da escrita do escriba da Relação das festas públicas. Fotografia e intervenção do autor
A prática de coligir poemas em um cancioneiro estava indissociada de outra, a de ordená-los no interior do códice (HANSEN; MOREIRA, 2013, p. 141). No caso em questão, são dois os principais núcleos textuais identificados: 1) narração das festas públicas - que corresponde a 20,77% do livro, onde são apresentados os principais fatos dos festejos e transcritos alguns textos, como sermões e prólogos de composições dramáticas encenadas na Casa de Ópera; 2) Academia dos Felizes - núcleo que perfaz 79,23% do livro, dedicado à reprodução da produção escrita ensejada pela agremiação.
Em ambos os núcleos textuais, o critério de disposição dos textos é cronológico. Sendo a leitura uma prática situada entre a norma e a transgressão (CASTILLO GÓMEZ, 2014, p. 24), no que concerne à norma, a estratégia imposta ao leitor imaginado intenta a apreensão panorâmica dos eventos que marcaram as festas públicas e o acompanhamento, linha a linha, dos textos lidos durante o ato acadêmico.
Ainda que o códice conste entre os livros pertencentes ao governador em São Paulo, não há indicativos de onde ele foi produzido. A proibição da instalação de casas impressoras na América portuguesa até 1808 inviabilizava a impressão dos adornos supracitados em solo colonial. Nesse sentido, conjetura-se que sua confecção ocorreu em duas etapas: inicialmente, a reunião e cópia dos escritos na América portuguesa, tendo sido deixados espaços reservados para a introdução posterior dos elementos impressos e, posteriormente, a inserção dos adornos impressos no Reino.
Ao interrogarmos como alguns segmentos do meio físico foram socialmente apropriados pelos seres humanos, podemos entender os propósitos e normas culturais que orientaram a feitura de determinado objeto (MENESES, 1983, p. 112). A iniciativa de reunir em um códice uma produção escrita publicada inicialmente por meio da oralidade demonstra um esforço de conservação, uma política de memória contra a voracidade do tempo, a qual se coaduna, como veremos, com a própria concepção de poesia manifestada pelos autores da academia. Feita essa escolha, eram diversas as opções disponíveis para a construção do livro manuscrito, sendo uma delas a de coligir os testemunhos autógrafos em uma mesma unidade bibliográfica, o que resultaria em um objeto heterogêneo, com papéis de diferentes tipos, cores, qualidades e tamanhos, tintas de várias tonalidades e caligrafias distintas.
A preferência de quem o idealizou foi pela feitura de um artefato harmonioso. Um livro de grande formato, com o mesmo papel holandês, de boa qualidade, em todos os cadernos. A caligrafia, elegante e de alta legibilidade, é fruto de um escriba que tinha pleno domínio de seu ofício. As folhas de guarda, seja em papel comum, seja em papel marmorizado, expressam a preocupação com sua preservação e, no caso das últimas, com o seu embelezamento. Somam-se a esse intento a douração da lombada, as vinhetas e as iniciais ornamentadas impressas. Em suma, o resultado é um artefato de grandes proporções, bem-acabado e que dota de prestígio seu conteúdo.
D. Luís Antônio foi substituído no governo da capitania de São Paulo em decorrência de seus desgastes com o marquês de Pombal, com o vice-rei do Brasil, o marquês de Lavradio, com a Câmara Municipal de São Paulo, com o terceiro bispo de São Paulo, frei Manuel da Ressurreição e com a população local. Em seguida, enfrentou um processo administrativo - no qual foi inocentado - por supostas irregularidades em seu governo. Faleceu em 1798, tentando ser nomeado para outros cargos, algo que não aconteceu (BELLOTTO, 1979, p. 321; TORRÃO FILHO, 2005 p. 23). Caso não tenha se valido dos elogios recebidos na Academia dos Felizes na defesa do dito processo e em sua tentativa de reabilitação junto à Coroa, é provável que o apreço para com o códice esteja vinculado ao empenho de legar à Casa de Mateus uma memória positiva de si por meio da cultura escrita.
Os festejos públicos
Conforme Amílcar Torrão Filho (2005, p. 14), “as cidades funcionam como teatros para a encenação do poder realizada, entre outras formas, pela festa”. Para o historiador, os festejos de 1770 tiveram um caráter pedagógico, o qual visava ensinar seus participantes a “receberem as luzes do pensamento ilustrado do morgado de Mateus e da monarquia portuguesa” (TORRÃO FILHO, 2005, p. 16) - sem que a forte presença da religião na programação, inclusive na Academia dos Felizes, seja uma contradição, tratando-se da ilustração portuguesa - e explicitar os diferentes lugares ocupados pelos indivíduos na hierarquia do Antigo Regime.
Tais lugares dizem respeito não só aos privilégios que marcavam as relações em uma sociedade escravista, mas também à imposição do poder do governador sobre as elites locais - representadas pela Câmara Municipal - e, no contexto do regalismo pombalino, à afirmação da autoridade do Estado sobre a Igreja no domínio civil, o qual teve na expulsão dos jesuítas, em 1759, um dos seus principais episódios. Não à toa, propõe Torrão Filho (2005), o palco das celebrações de 1770 foi o antigo Colégio dos inacianos, transformado em palácio de governo por D. Luís Antônio, bem como seu antigo pátio e sua antiga igreja.
A necessidade de se criar uma memória escrita de um acontecimento está entre os elementos estruturantes das festas barrocas (FURTADO, 1997, p. 262). O texto inaugural da Relação das festas públicas, de autoria incógnita, é uma crônica dos principais eventos ocorridos entre os dias 16 e 26 de agosto de 1770.
O ato inaugural das celebrações se deu na noite de 16 de agosto, quando carros iluminados tomaram as ruas da cidade acompanhados de músicos e mascarados responsáveis por comunicar o programa festivo. No anúncio, um dos temas que perpassa toda a Relação das festas públicas ([1770], p. 7), o tratamento de D. Luís Antônio como herói, se faz presente pela primeira vez.
No dia 17 de agosto, foi a vez dos estudantes de filosofia e teologia encenarem “folias de pretos pelas ruas”. O cronista anônimo, compromissado em propalar os feitos do governador, ressalta que esses cursos foram aqueles que D. Luís Antônio estabeleceu na cidade (RELAÇÃO das festas..., [1770], p. 3), em consonância com a valorização do conhecimento pelo Reformismo Ilustrado e com as reformas educacionais promovidas pelo marquês de Pombal, que objetivava reestruturar a educação nos domínios portugueses após a expulsão dos jesuítas (SILVA, 2006, p. 30; p. 48; p. 79).
No sábado, 18 de agosto, o palácio do governo e seu pátio foram iluminados e decorados com papel pintado. Salvas de morteiros anunciaram a queima de fogos de artifício, divertimento que durou cerca de três horas. Os fogos, por serem custosos, comenta José Antonio Maravall (2009, p. 383), “eram mostra muito adequada do esplendor daqueles que os ordenavam”.
O domingo, 19 de agosto, foi marcado por eventos sacros. Na ocasião, na Igreja do Colégio, pregaram o frei José Manuel de Sampaio e o doutor em teologia frei Salvador Machado, ambos carmelitas. O sermão do primeiro se ocupou, entre outras coisas, de esclarecer o fato de Jesus Cristo revelar as obras que eram do seu agrado por meio dos sonhos e de recuperar as benesses concedidas por Deus àqueles que construíram templos em seu nome. Dessa forma, frei Sampaio estabelece uma das linhas discursivas que será explorada no processo de heroificação de D. Luís Antônio na Academia dos Felizes: seu engrandecimento por meio da valorização de sua fé, a qual o insere entre os dignos de Jesus Cristo expressar seus desígnios através de sonhos, mas também entre aqueles que erigiram templos em nome de Deus, ou seja, a capela nova cuja inauguração ensejou os festejos.
Frei Salvador Machado dedicou o seu sermão à colocação da imagem de Santa Ana no altar da capela patrocinada pelo governador. Para o pregador, se o gesto de D. Luís não poderia se equiparar ao de Salomão, que construiu um templo ao Senhor, o altar feito a mando do morgado de Mateus era “mais rico, e muito mais honroso” do que aquele construído por Moisés (RELAÇÃO das festas..., [1770], p. 10).
Finda a prédica, teve início a procissão. Em andores “ricamente adornados” foram conduzidas as imagens de diferentes santos. Os andores eram acompanhados por figuras de querubins “ricamente vestidos e adornados de joias”. O cortejo era encerrado pelo Santíssimo Sacramento levado pelo reverendo capitular sob “riquíssimo palio”, atrás do qual vinham D. Luís Antônio, os membros da Câmara Municipal, as companhias de infantaria, pessoas distintas e “infinito povo” (RELAÇÃO das festas..., [1770], p. 3).
Na operação de fazer crer por meio de uma narrativa, a descrição “consiste bem em fazer ver e em fazer saber” (HARTOG, 1999, p. 273). Na passagem que retrata a procissão, percebe-se o uso reiterado de variações da palavra rico para caracterizar aquilo que foi observado. A “satisfação do gosto e da suntuosidade” e a “ostentação” faziam parte do estilo cultural barroco. Para a igreja contrarreformista, a ocasião ensejava “uma fulgurante demonstração de prestígio temporal” (ÁVILA, 1971, p. 115-16).
Formada por representantes tanto do poder estatal quanto do poder religioso, a procissão levava às ruas os “sustentáculos e fundadores da sociedade colonial”. A ordem em que seus componentes se apresentavam era da maior importância e seguia uma regra previamente estabelecida. Pela cidade desfilava uma sociedade representada como hierarquizada. Ao mesmo tempo que a representava, afirma Júnia Furtado (1997, p. 274), a procissão a fundava tal como ela deveria ser. Para D. Luís Antônio, cioso do protocolo, “essa liturgia do poder era muito clara” (TORRÃO FILHO, 2005, p. 14).
Os militares que tomaram parte na programação do dia 19 de agosto foram qualificados como “luzidamente fardados” (RELAÇÃO das festas..., [1770], p. 3). A militarização da capitania de São Paulo foi uma das principais diretrizes de sua restauração, em 1765. D. Luís Antônio se empenhou pessoalmente no treinamento deles. Além disso, logo que chegou à América portuguesa, demonstrou preocupação com o fardamento da tropa, expressando o desejo de vesti-la como as do reino (BELLOTTO, 2007, p. 219). Passados cinco anos de seu governo, a ocasião permitiu que o governador ostentasse aos contemporâneos mais um dos frutos de seu trabalho.
A mando de particulares, no pátio do palácio do governo foram construídos palanques de madeira enfeitados com sedas. No palácio propriamente dito, foi instalado o palanque do governador, o qual se destacava dos demais por sua localização, espaço e adornos. Desse modo, a diferenciação entre os segmentos da sociedade colonial era feita por meio, entre outros aspectos, da distribuição de seus corpos no espaço ordenado da cidade para aquela ocasião, garantindo que as pessoas de posses, o governador e seus convidados tivessem uma visão privilegiada da festa e fossem mais bem contemplados pelo público. Ali, no dia 20 de agosto, estabeleceram-se os camarários, os oficiais de maior patente e pessoas distintas para assistirem a uma cavalhada.
D. José, príncipe da Beira, aniversariava no dia 21 de agosto. Em virtude da efeméride, o governador recebeu os parabéns de todos aqueles que, vestidos de gala, foram ao seu encontro. Em sequência aos cumprimentos, houve um banquete, outra oportunidade de aprendizado “de boas maneiras que pretende formar bons cidadãos que vivem em concórdia no seio da cidade idealizada pela representação da festa” (TORRÃO FILHO, 2005, p. 18). Concluídas as refeições, os convidados foram deslocados para o Teatro das Óperas, instalado no piso térreo do palácio desde 1767 por iniciativa do governador (POLASTRE, 2009, p. 137). Inicialmente foi apresentada uma loa, na qual Vênus, Orfeu, Marte e Palas competiram para determinar quem haveria de louvar primeiro as “heroicas ações” de D. Luís Antônio (RELAÇÃO das festas..., [1770], p. 5).
Ao estudar a fabricação da imagem de Luís XIV, Peter Burke (2009, p. 29) destacou que encenações teatrais “frequentemente incorporavam referências elogiosas aos feitos do rei, sobretudo nos prólogos”. A linguagem da alegoria era bem conhecida na época - ainda que nem sempre de fácil decodificação. Assim, esse não era um recurso inédito no enaltecimento de uma figura de governo no Antigo Regime, ainda que pudesse sê-lo na capitania de São Paulo.
Na quarta-feira, 22 de agosto, foram realizadas novas cavalhadas. Na tarde do dia seguinte, “houve somente máscaras pelas ruas”. À noite, mais uma vez o Teatro das Óperas foi o palco das celebrações. Após a encenação de uma comédia, houve um baile e entremezes (RELAÇÃO das festas..., [1770], p. 5).
O dia 24 de agosto foi marcado por cavalhadas. No sábado, 25, foi realizada a Academia, a qual será abordada adiante. O último dia das festas públicas foi o domingo, 26. À tarde, novamente os cavaleiros exibiram suas habilidades equestres. À noite, o público se dirigiu para o Teatro das Óperas, onde foram realizadas várias apresentações. A festa foi encerrada com os aplausos do público a D. Luís Antônio, “um general que sabe governá-lo e diverti-lo” (RELAÇÃO das festas..., [1770], p. 6).
Segundo a crônica, os festejos se centraram na imagem de D. Luís Antônio, que através deles buscou representar São Paulo como uma luzida corte (TORRÃO FILHO, 2005). A ocasião promoveu, de diferentes maneiras, o sucesso do governador em seus cinco primeiros anos de governo. Mas não foi apenas o passado a ser celebrado. O futuro anunciado pelos arautos no início do programa festivo e na Academia dos Felizes era promissor graças à atuação do morgado de Mateus. A descoberta de ouro no rio Tibagi ocorrida naquele mesmo ano em decorrência das expedições ordenadas por D. Luís Antônio era prova disso. Ela se deu justamente no contexto da queda das arrecadações da Coroa com a mineração no restante da América portuguesa, que seria responsável por uma série de reformas implementadas no Império português na segunda metade do século XVIII. Se a crise econômica era preocupante para outras regiões, esse não parecia ser o caso do país dos paulistas, ao qual felicidades estavam reservadas sob o governo do morgado de Mateus, conforme propalado em diferentes ocasiões nas festas públicas, sobretudo na Academia dos Felizes.
A Academia dos Felizes: composição e produção escrita
A Academia dos Felizes se reuniu na igreja do antigo Colégio dos Jesuítas na noite de 25 de agosto de 1770. A leitura da Relação das festas públicas evidencia que parecem ter havido duas razões para a escolha do nome da agremiação: a felicidade dos paulistas por terem D. Luís Antônio como governador e as felicidades que adviriam da participação da população nos festejos e da colocação de Santa Ana na capela nova - atos patrocinados pelo morgado de Mateus. Ela se insere numa tradição de academias de circunstância e de caráter encomiástico que se sucederam na América portuguesa ao longo do século XVIII (CURTO, 2009, p. 422).
Na igreja foram colocados um grande tablado, contendo um espaldar, um bofete e umas cadeiras, espaço que foi ocupado pelos acadêmicos. As autoridades seculares e eclesiásticas foram acomodadas nas varandas. O restante do edifício foi ocupado pelo povo, “que concorreu numeroso por ser este ato nunca até o presente visto nesta cidade” (RELAÇÃO das festas..., [1770], p. 5-6).
Os acadêmicos somavam 26 pessoas. Do total, 16 (61,54%) eram religiosos, sendo nove franciscanos (freis Antônio de Santana Galvão, Antônio de Santa Úrsula Rodovalho, Antônio de Santa Ana, Bernardino de Sena, Francisco de Santa Ana Mourato, Joaquim de São José Silva, Joaquim de Santa Ana Silva, Manuel de Santa Gertrudes Fogaça e Mariano do Amor Divino), três beneditinos (Dom frei Fernando da Madre de Deus, Dom frei Felisberto Antônio da Conceição Belém e Dom frei Gaspar da Soledade Matos), dois carmelitas (freis Joaquim Antônio Taques e Reginaldo Otávio da Encarnação Ribeiro) e dois seculares (João Tibúrcio Domingues e Manuel Álvares - ou Alves - da Silva); três (11,54%) eram funcionários régios, sendo um governador, um juiz de fora e um mestre de gramática (D. Luís Antônio, José Gomes Pinto de Moraes e Francisco Xavier dos Passos); dois advogados (7,69%): Antônio Fortes de Bustamante Sá e Leme e Luís de Campos; um (3,85%) cuja única informação é o fato de ser detentor de patente, a de sargento (Francisco Pereira Cardoso); um (3,85%) oficial mecânico, ocupando ofício de sapateiro (Manuel Pereira Crispim); e três (11,54%) sem identificação de suas ocupações (Lourenço José Botelho de Mesquita, uma pessoa que assinou como anônima e um Luís Antônio, homônimo do governador).
A Academia dos Felizes ensejou a produção de 135 textos, sendo os autores mais profícuos Francisco Xavier dos Passos, com 18 textos, e frei Galvão, com 16 escritos. Nesse universo, apenas cinco são em prosa: três orações e dois problemas, sendo todos escritos em língua portuguesa. Entre os 130 textos em verso há maior variedade tanto no que concerne aos gêneros quanto aos idiomas. Com relação ao primeiro aspecto, são: 54 sonetos, 49 epigramas, cinco décimas, quatro canções, quatro odes, quatro oitavas, uma écloga, uma elegia, um romance, um hino, um ritmo, um diálogo e quatro não identificados. No que diz respeito ao segundo aspecto, os idiomas correspondem ao português (63), latim (58), espanhol (6), francês (1), italiano (1) e língua geral amazônica2 (1).
A predominância da língua portuguesa é compreensível quando consideramos que a imposição do idioma foi uma das formas de Portugal preservar seus domínios na América (VILLALTA, 1997, p. 333). O latim, por sua vez, era a língua culta do período colonial e a língua oficial da Igreja Católica (VILLALTA, 1997, 345-346). A hegemonia dos clérigos na agremiação explica seu uso acentuado. A presença do espanhol, além de servir de referência para a composição de poemas (VILLALTA, 1997, p. 346), pode estar relacionada com os contatos - nem sempre pacíficos - de São Paulo com a América espanhola e da ascendência hispânica de um segmento da população paulista, como é o caso de Antônio Fortes.
O francês, a partir do final daquele século, passou a competir com o latim pelo posto de língua culta no Ocidente, sendo poucas as pessoas que o falavam na América portuguesa do período (TAUNAY, 1951, p. 132), enquanto o italiano era outro idioma que oferecia aos letrados repertório de produção poética (VILLALTA, 1997, p. 346). Já a língua geral é uma língua supraétnica nascida do tupi antigo, podendo ser dividida em dois ramos: o amazônico e o meridional, tendo o primeiro conhecido sua extensão máxima em meados do século XVIII (NAVARRO, 2012, p. 245-246). É possível que frei Francisco de Santa Ana Mourato, que foi o único que utilizou a língua geral brasílica, tenha tido passagem pela custódia de sua ordem no Estado do Grão-Pará e Maranhão. Além disso, não seria de todo estranho que entre a audiência da Academia dos Felizes houvesse alguém capaz de compreendê-lo, já que naquela altura dos Setecentos, de acordo com Sérgio Buarque de Holanda (1979, p. 90-93), havia um paulista ou outro ainda capaz de se comunicar na língua geral, além, é claro, de muitos indígenas, com quem frei Francisco de Santa Ana Mourato se preocupou em se fazer inteligível.
Seja qual for o idioma, é inegável que D. Luís Antônio é homenageado na maior parte dos escritos constantes na Relação das festas públicas. Mesmo nos vários textos em que Santa Ana é louvada, lá está ele, sendo não só citado em razão do patrocínio da capela nova e da festa, mas alçado ao posto de herói por sua fé, por suas ações e por suas virtudes.
A fabricação do herói
Em um herói, a sociedade que o produziu projeta seus sonhos (FRANCO JÚNIOR, 2010, p. 157). Um herói épico o é não por aquilo que ele fez, mas pelo modo que é apresentado aquilo que ele fez (KOTHE, 1985, p. 16). Nesse sentido, no contexto das festas públicas realizadas em São Paulo em 1770, a Academia dos Felizes se apresenta como um espaço privilegiado para a construção da figura de D. Luís Antônio como herói.
No século XVIII, eram três as funções básicas da poesia: deleitar, ensinar e persuadir. Assim, esse gênero possuía um caráter utilitário, o qual visava não só o entretenimento, mas também a propagação de princípios, como o da obediência ao Estado e à Igreja (TEIXEIRA, 1999, p. 161; p. 212; p. 225). Francisco José Freire, cuja Arte poetica foi uma das obras mais importantes na formação do ideário poético setecentista em língua portuguesa, afirmou que, desde sua origem, o objetivo da poesia era louvar as virtudes dos virtuosos e cantar os vitupérios dos viciosos para que as gentes conhecessem o que deveriam amar e o que deveriam odiar (FREIRE, 1748, p. 11).
O encômio no Antigo Regime ultrapassa em complexidade o simplismo de proposições que o reduzem exclusivamente à troca de favores. Ferramenta de manutenção do regime monárquico, seu desempenho permitia a confirmação, por parte de quem o praticava, da “unidade indissolúvel do Estado”, com o autor se colocando como parte do todo, antes de visar, pelo menos em teoria, a benefícios pessoais. Esses, caso fossem conquistados, eram entendidos como “movimentos naturais do corpo do Estado”, com o qual o poeta se integrava e “de onde emanavam suas forças e sua própria razão de ser” (TEIXEIRA, 1999, p. 76 e 106).
A figura do herói, como propõe Georges Balandier (1982, p. 7), está assentada em três elementos: a surpresa, a ação e o sucesso. Com base nesse modelo e nos escritos da Academia dos Felizes, os acontecimentos que sustentam o caráter heroico de D. Luís Antônio são, respectivamente, o sonho com Santa Ana, a construção da capela nova e sua inauguração por meio dos festejos, o que não quer dizer que outras virtudes, como a habilidade militar ou sua ascendência, não tenham sido louvadas na ocasião.
A visão onírica, aponta Luís Filipe Silvério Lima (2005, p. 79), “era tópica recorrente e comum” na epopeia moderna no universo lusófono, estando relacionada à imitação dos modelos antigos. O sonho de D. Luís Antônio com Santa Ana foi visto como um atestado de sua fé em vários aspectos. Antônio Fortes, por exemplo, escreveu que até sonhando o governador se mostrava cristão (RELAÇÃO das festas..., [1770], p. 87). Para Francisco Xavier dos Passos, a contemplação divina à qual D. Luís Antônio se entregou ao descansar foi o que permitiu que uma angélica voz o incumbisse da construção da capela (RELAÇÃO das festas..., [1770], p. 110). Já Manuel Álvares (ou Alves) da Silva enfatizou que, se o pensamento do homenageado fosse dedicado às coisas mundanas, ele não teria recebido tal dignidade, a qual mostrou que não só ele era protegido por Santa Ana, mas também o seu governo (RELAÇÃO das festas..., [1770], p. 118), de modo que a capitania de São Paulo se beneficiava espiritualmente por tê-lo como capitão-general. Ao relacionarem a vigília ao sonho, esses autores, em seus sonetos, partilhavam de uma concepção circulante no período, veiculada por autores como Antônio Vieira, para quem “cada um sonha como vive” (LIMA, 2005, p. 82).
Mas o sonho em si não bastava: cumpri-lo, isto é, a ação de que fala Balandier, era também um ato de fé. Entre os vários feitos de D. Luís Antônio durante o governo arrolados, a construção da capela certamente foi o mais celebrado. Comparações com o templo de Salomão ou com o gesto executado por Davi, que levou a Arca da Aliança esquecida havia anos - tal como a imagem de Santa Ana - para Jerusalém foram feitas por frei Fernando da Madre de Deus e frei Joaquim de São José, respectivamente (RELAÇÃO das festas..., 1770, p. 41; p. 46).
Os acadêmicos se empenharam também em divulgar o sucesso gerado pela surpresa e pela ação deles decorrentes. Dom frei Felisberto Antônio da Conceição Belém enxergou a Academia dos Felizes como a eternização do nome de D. Luís Antônio no “padrão indelével da memória”, fazendo-se perpétuo “em toda a história” (RELAÇÃO das festas..., [1770], p. 43). Em sua canção heroica, o beneditino é claro quanto ao objetivo da ocasião: publicar, naquela hora, o “portento agigantado” das virtudes do governador (RELAÇÃO das festas..., [1770], p. 51).
Os vocábulos empregados com o intuito de exaltar D. Luís Antônio, como portentoso, prudente, famoso, respeitado, excelso, generoso, entre tantos outros, antes de exprimirem uma realidade, refletem os atributos que deveriam ser utilizados quando a tarefa era exaltar alguém que ocupava uma posição superior à do autor na hierarquia do Antigo Regime (TEIXEIRA, 1999, p. 49). Já os personagens citados ao longo dos textos, como santos, figuras bíblicas e personagens da mitologia greco-romana, evidenciam a existência de suas matrizes culturais principais entre os integrantes da Academia dos Felizes: a cristã e a pagã. Esta, fruto da instrução oferecida pelos jesuítas na América portuguesa até 1759, marcada pela valorização da Antiguidade e pelo aprendizado, entre outras coisas, por meio da leitura, da tradução e do comentário de autores clássicos (FRANCA, 1952). Aquela, evidente em um império que tinha o catolicismo como religião oficial e cuja religião perpassava todos os domínios da vida humana, inclusive a educação.
A poesia, como todo texto, não é apenas substância, mas também forma. A fabricação de um herói não se dá apenas pela escolha precisa do vocabulário que descreverá seus feitos, mas também pelo modo como as palavras são materialmente tecidas entre si. A escolha de alguns dos gêneros poéticos presentes na Academia dos Felizes não foi impensada. Seus autores intelectuais sabiam que, conforme as regras vigentes naquela altura dos Setecentos, para que certas coisas fossem bem-ditas, elas deveriam ser expressas de determinadas formas, dominadas por eles.
Os gêneros poéticos praticados na Academia dos Felizes integram a poesia lírica, cujo objetivo é louvar os deuses, os heróis, os amores, entre outros (FREIRE, 1748, p. 259). O soneto, afirma Freire (1748, p. 282), não deve servir “para assumptos ridículos”. O epigrama é definido como uma composição breve, sendo sua qualidade relacionada à sua brevidade. Ele compreende uma variedade de matérias. Quando contém louvor ou vitupério, é classificado como demonstrativo, podendo ser chamado por outros autores de épico ao tratar de heróis (FREIRE, 1748, p. 277-278). A elegia, por sua vez, abrange uma grande diversidade de assuntos, entre eles os louvores e os triunfos (FREIRE, 1748, p. 270). Com relação aos hinos, Freire (1748, p. 262) assinala ser a composição com que os católicos louvam a Deus, mas admite a possibilidade, como faziam os “gentios”, de serem usados na celebração dos heróis. Canções, romances e odes também constituem a poesia lírica, recaindo sobre elas a regra das demais (FREIRE, 1748, p. 263-264).
A produção escrita ensejada pela Academia dos Felizes revela uma consciência, por parte dos autores intelectuais, da possibilidade de perenização de algo e de alguém ao longo do tempo por meio da palavra escrita. Francisco Pereira Cardoso assegura que D. Luís Antônio se eternizará na história, posto que a fortuna de encontrar Santa Ana lhe foi guardada justamente para que ele merecesse tanta glória (RELAÇÃO das festas..., [1770], p. 124). Francisco Xavier dos Passos declara que o nome do governador será perpetuado em virtude da ação memorável que ele executou e, em outro soneto, reconhece o valor da escrita na duplicação da fama do homenageado (RELAÇÃO das festas..., [1770], p. 104; p. 106).
Tal posicionamento, mais uma vez, demonstra a integração dos autores de São Paulo colonial às práticas de escrita vigentes no Império português na segunda metade dos Setecentos. Isso porque os poetas, definiu Francisco José Freire (1748, p. 2), tornavam eternos não só os outros, mas também a si mesmos, posto que tinham em suas mãos o poder da “distribuição do patrimônio da glória humana”. Os versos, arremata o autor, gozam de um privilégio do qual o mármore e o bronze não dispõem: eles não se gastam conforme o passar do tempo (FREIRE, 1748, p. 2).
À guisa de conclusão
De partida, ao contrário dos historiadores citados no início deste artigo, constatamos que a cidade contava com pessoas capazes de escrever em número suficiente para que fossem reunidas em uma academia de circunstância. Mais do que isso: partilhavam das concepções correntes em seu tempo no que diz respeito às práticas de escrita em sua vertente poética. Estavam cientes dos objetivos da poesia àquela altura dos Setecentos e manejavam a pena transitando entre gêneros poéticos e diversos idiomas e empregando um vocabulário específico para atingirem os fins almejados.
A escrita, no caso em questão, foi usada para celebrar um acontecimento, para heroificar um governador, para ensinar à audiência do ato acadêmico e aos possíveis leitores valores que deles eram esperados na América portuguesa do século XVIII. A isso, soma-se o intento de legar ao futuro uma imagem de si, no caso dos próprios autores intelectuais, mas também do outro, no caso do governador heroicizado e, em última análise, da própria vida em São Paulo colonial naquele evento inédito.
Optou-se por uma política de memória baseada na recolha desses textos, inicialmente publicados através da oralidade, para que fossem publicados por meio da manuscritura, a fim de garantir sua sobrevivência. A partir de então, foi produzido um livro manuscrito com uma folha de rosto impressa (possivelmente em momento posterior), fabricado com materiais de boa qualidade, no qual o empenho de ornamentação é notável, resultando em um artefato belo, que sugere guardar algo valioso. Pertencente à biblioteca particular de D. Luís Antônio em São Paulo, enquanto era governador na capitania, foi levado para seu palácio em Vila Real, em Portugal. Retornou ao Brasil, no século XX, de novo para a capital paulista, onde ele governou e foi heroificado por seus concidadãos. Hoje, como parte do acervo de uma instituição pública, permite, de outro ponto de vista, que seja delineado novo papel para a cultura escrita na São Paulo colonial.
Referências
-
ALMADA, Márcia. Cultura escrita e materialidade: possibilidades interdisciplinares de pesquisa. PÓS: Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes da EBA/UFMG, Belo Horizonte, v. 4, n. 8, 2014, p. 134-147. Disponível em: Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/revistapos/article/view/15485 Acesso em: 15 ago. 2025.
» https://periodicos.ufmg.br/index.php/revistapos/article/view/15485 - ALVES, Helle. Poetas religiosos de 1770. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 26 nov. 1960, p. 4.
- ALVES, Helle. O sonho na Academia de 70. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 13 maio 1961, p. 4.
- ÁVILA, Affonso. O lúdico e as projeções do mundo barroco São Paulo: Perspectiva, 1971.
- BALANDIER, Georges. O poder em cena Brasília: Editora da UnB, 1982.
- BELLOTTO, Heloísa Liberalli. Autoridade e conflito no Brasil colonial: o governo do Morgado de Mateus em São Paulo (1765-1775). São Paulo: Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1979.
- BELLOTTO, Heloísa Liberalli. Nem o tempo nem a distância: correspondência entre o 4º Morgado de Mateus e sua mulher, D. Leonor de Portugal (1757-98). Lisboa: Alêtheia, 2007.
- BLUTEAU, Rafael. Vocabulario portuguez, e latino, aulico, anatomico, architectonico, bellico, botanico.. V. 2. Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1712-1728.
- BORREGO, Maria Aparecida de Menezes. Dimensões materiais e memoriais do passado colonial paulista São Paulo: Museu Paulista, 2025.
- BRUNO, Ernani Silva. História e tradições da cidade de São Paulo 4. ed. V. 1. São Paulo: Hucitec, 1983.
- BURKE, Peter. A fabricação do rei: a construção da imagem pública de Luís XIV. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.
- CASTILLO GÓMEZ, Antonio. Livros e leituras na Espanha do século de ouro Cotia: Ateliê Editorial, 2014.
- CASTILLO GÓMEZ, Antonio. Grafias no cotidiano: escrita e sociedade na história (séculos XVI a XX). Rio de Janeiro: Eduerj; Niterói: Eduff, 2020.
- CHARTIER, Roger. A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVIII. 2. ed. Brasília: Editora UnB, 1998.
- CURTO, Diogo Ramada. Cultura imperial e projetos coloniais (séculos XV a XVIII) Campinas: Editora Unicamp, 2009.
-
FONDA, Enio Aloísio. A “Academia dos Felizes” (1770) e a Poesia Latina de frei Antônio de Sant’Anna Galvão, religioso franciscano. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 13, 1972, p. 67-84. https://doi.org/10.35699/2317-2096.2025.57210.
» https://doi.org/10.35699/2317-2096.2025.57210 - FRANCA S.J., Leonel. O método pedagógico dos jesuítas: o Ratio Studiorum: Introdução e tradução. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1952.
- FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Eva barbada: ensaios de mitologia medieval. São Paulo: Edusp, 2010.
- FREIRE, Francisco José. Arte poetica, ou regras da verdadeira poesia em geral, e de todas as suas especies principaes, tratadas com juizo critico 2. ed. T. 1. Lisboa: Na Offic. Patriarcal de Francisc. Luiz Ameno, 1759.
-
FURTADO, Júnia Ferreira. Desfilar: a procissão barroca. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 17, n. 33, 1997, p. 251-279. Disponível em: Disponível em: https://www.anpuh.org/revistabrasileira/view?ID_REVISTA_BRASILEIRA=11 Acesso em: ago. 2025.
» https://www.anpuh.org/revistabrasileira/view?ID_REVISTA_BRASILEIRA=11 - GENETTE, Gérard. Paratextos editoriais Cotia: Ateliê Editorial , 2009.
- GONÇALVES, Marina Furtado. Fazer e usar papel: caracterização material da documentação avulsa da coleção Casa dos Contos do Arquivo Público Mineiro (1750-1800). Tese (Doutorado em História Social da Cultura). Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2021.
- HANSEN, João Adolfo; MOREIRA, Marcello. Para que todos entendais: poesia atribuída a Gregório de Matos e Guerra: letrados, manuscritura, retórica, autoria, obra e público na Bahia dos séculos XVII e XVIII. V. 5. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
- HARTOG, François. O espelho de Heródoto: ensaio sobre a representação do outro. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999.
- HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil 13. ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1979.
- HORCH, Rosemarie E. Relação dos manuscritos da coleção “J. F. de Almeida Prado” São Paulo: Universidade de São Paulo; Instituto de Estudos Brasileiros, 1966.
- LIMA, Luís Filipe Silvério. O império dos sonhos: narrativas proféticas, sebastianismo e messianismo brigantino. Tese (Doutorado em História Social). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005. https://doi.org/10.11606/T.8.2005.tde-28042006-222642.
- MARAVALL, José Antonio. A cultura do barroco: análise de uma estrutura histórica. São Paulo: Edusp , 2009.
- MCKENZIE, D. F. Bibliografia e a sociologia dos textos São Paulo: Edusp , 2018.
-
MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de. A cultura material no estudo das sociedades antigas. Revista de História, São Paulo, n. 115, 1983, p. 103-117. Disponível em: Disponível em: https://revistas.usp.br/revhistoria/article/view/61796 Acesso em: 15 ago. 2025.
» https://revistas.usp.br/revhistoria/article/view/61796 -
NAVARRO, Eduardo de Almeida. O último refúgio da língua geral no Brasil. Estudos Avançados, v. 26, n. 76, 2012, p. 245-254. Disponível em: Disponível em: https://revistas.usp.br/eav/article/view/47555 Acesso em: 15 ago. 2025.
» https://revistas.usp.br/eav/article/view/47555 - NÚÑEZ CONTRERAS, Luis. Manual de paleografía: fundamentos e historia de la escritura latina hasta el siglo VIII. Madri: Cátedra, 1994.
-
PEREIRA, Maria Cristina Correia Leandro. As letras como ornamentação: as iniciais nos livros representados na pintura do Grão Vasco (?-1542/1543). Palíndromo, Florianópolis, v. 12, n. 27, 2020, p. 70-85. Disponível em: Disponível em: https://revistas.udesc.br/index.php/palindromo/article/view/1 Acesso em: 15 ago. 2025.
» https://revistas.udesc.br/index.php/palindromo/article/view/1 - PINHEIRO, Péricles da Silva. Manifestações literárias em São Paulo na época colonial São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1961.
-
POLASTRE, Claudia Aparecida. A música na cidade de São Paulo, 1765-1822 Tese (Doutorado em História). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. https://doi.org/10.11606/T.8.2008.tde-13042009-154843.
» https://doi.org/10.11606/T.8.2008.tde-13042009-154843 - RELAÇÃO das festas públicas que na cidade de São Paulo fez o Illmo. e Exmo. Senhor D. Luis Antonio de Souza Bot.º Mourão Governador, e Capm. General dada. Captia. Com a occazião de collocar a Imagem da senhora de Santa Anna em a Capella Nova, que mandou fazer na Igreja do Collegio desta cidade, em que rezide: cuja celebridade se fez no Domingo 19 de Agosto de 1770 q he juntamte. dia de S. Joaquim e S. Luis Bispo (...). Manuscrito [1770]. Fundo Yan de Almeida Prado, Biblioteca do IEB/USP, YAP-039. [Códice].
- RELAÇÃO de livros pertencentes à livraria que tem D. Luís Antônio de Sousa Botelho Mourão na cidade de São Paulo. 1775. Fundação Casa de Mateus, SICM/SSC 06.02/Subi-GSP / SSC 01.01 / DS / RELAÇÃO LIV. [Manuscrito].
- ROBERTS, Lissa. The circulation of knowledge in early Modern Europe: embodiment, mobility, learning and knowing. History of Technology, v. 31, 2012, p. 47-68.
- SILVA, Ana Rosa Coclet da. Inventando a nação: intelectuais ilustrados e estadistas luso-brasileiros na crise do Antigo Regime português (1750-1822). São Paulo: Hucitec; Fapesp, 2006.
- SORDET, Yann. História do livro e da edição: produção & circulação, formas & mutações. Cotia: Ateliê Editorial , 2023.
- TAUNAY, Afonso d’Escragnolle. História da cidade de São Paulo no século XVIII V. 2, 2ª parte. São Paulo: Divisão do Arquivo Histórico de São Paulo, 1951.
- TEIXEIRA, Ivan. Mecenato pombalino e poesia neoclássica São Paulo: Edusp , 1999.
- TORRÃO FILHO, Amilcar. Festa e espaço simbólico: uma luzida corte na São Paulo do século XVIII. Desígnio, São Paulo, v. 4, set. 2005, p. 11-26.
- VILLALTA, Luiz Carlos. O que se fala e o que se lê: língua, instrução e leitura. In: SOUZA, Laura de Mello e (Org.). História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 331-385.
-
2
Agradecemos ao dr. Marcel Twardowsky Ávila pela identificação do idioma, chamado de “língua de caboclo” na Relação das festas públicas.
-
Este texto é resultado da pesquisa “Cultura escrita e materialidade em São Paulo colonial (1765-1822)” realizada com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), processo 24/09996-6.
-
SOUZA, Jean Gomes de. Ao herói que faz a festa: a Academia dos Felizes (São Paulo, 1770). Rev. Inst. Estud. Bras. (São Paulo), n. 93, 2026, e10782.
-
Declaração de disponibilidade de dados
Os conjuntos de dados gerados e/ou analisados durante o estudo atual estão disponíveis no manuscrito e em materiais suplementares.
Editado por
Os conjuntos de dados gerados e/ou analisados durante o estudo atual estão disponíveis no manuscrito e em materiais suplementares.










