Open-access Potencialidades e fragilidades do Programa Melhor em Casa identificadas por profissionais e gestores: revisão de escopo*

Objetivo:  mapear na literatura científica as potencialidades e fragilidades do Programa Melhor em Casa identificadas por profissionais de saúde e gestores.

Método:  revisão de escopo embasada no manual do JBI e nas diretrizes PRISMA-ScR. A busca foi realizada nas bases PubMed/MEDLINE, LILACS, Scopus, Embase, Web of Science, CINAHL, e teses e dissertações CAPES, abrangendo publicações entre 2011 e 2024.

Resultados:  dos 552 estudos identificados, oito atenderam aos critérios de inclusão e foram analisados. As potencialidades do programa referem-se à promoção da desospitalização, fortalecimento do trabalho em rede, desenvolvimento de ações educativas em saúde com as famílias e flexibilidade na gestão do cuidado. Em contrapartida, foram evidenciadas fragilidades relacionadas à insuficiência da educação permanente dos profissionais, desgaste emocional das equipes, limitações tecnológicas, e dificuldades de interlocução com a Rede de Atenção à Saúde.

Conclusão:   o Programa Melhor em Casa é uma estratégia relevante no processo da desospitalização, contudo, enfrenta desafios estruturais e operacionais que comprometem sua sustentabilidade. Investimentos em suporte tecnológico e fortalecimento das equipes para melhorar a continuidade e a qualidade da atenção domiciliar são necessários. Registro Open Science Framework: DOI 10.17605/OSF.IO/6UCDB

Descritores:
Serviços de Assistência Domiciliar; Serviços Hospitalares de Assistência Domiciliar; Assistência Domiciliar; Enfermagem Domiciliar; Pacientes Domiciliares; Educação Domiciliar.


Destaques:

(1) Fortalecimento do cuidado em rede favorece a desospitalização segura. (2) A educação em saúde promove autonomia de usuários e cuidadores. (3) O uso do teleatendimento amplia o acesso e qualifica o cuidado domiciliar. (4) Educação permanente em saúde é essencial para a efetividade do programa. (5) Falta de estrutura e apoio emocional fragilizam equipes da atenção domiciliar.

Objective:  to map the strengths and limitations of the Better at Home Program identified by health professionals and managers in the scientific literature.

Method:  this is a scoping review based on the JBI manual and the PRISMA-ScR guidelines. The search was conducted in the MEDLINE/PubMed, LILACS, Scopus, Embase, Web of Science, CINAHL databases, and CAPES theses and dissertations, covering publications between 2011 and 2024.

Results:  552 studies were identified, eight met the inclusion criteria and were analyzed. The program’s potential lies in promoting dehospitalization, strengthening networking, developing educational health initiatives with families, and providing flexibility in care management. On the other hand, limitations were evident in relation to insufficient continuing education for professionals, emotional exhaustion among teams, technological limitations, and difficulties in communicating with the Health Care Network.

Conclusion:  the Better at Home Program is a relevant strategy in the dehospitalization process; however, it faces structural and operational challenges that compromise its sustainability. Investments in technological support and team strengthening are necessary to improve the continuity and quality of home care. Study registry: Open Science Framework: DOI 10.17605/OSF.IO/6UCDB

Descriptors:
Home Care Services; Hospital-Based Home Care Services; Home Nursing; Home Health Nursing; Homebound Persons; Home Schooling.


Highlights:

(1) Strengthening network care promotes safe dehospitalization. (2) Health education promotes autonomy among users and caregivers. (3) The use of telecare expands access and improves the quality of home care. (4) Continuing health education is essential for the program’s effectiveness. (5) Lack of structure and emotional support weaken home care teams.

Objetivo:  mapear en la literatura científica las potencialidades y fragilidades del Programa Melhor em Casa identificadas por profesionales de la salud y gestores.

Método:  revisión de alcance basada en el manual del JBI y en las directrices PRISMA-ScR. La búsqueda se realizó en las bases PubMed/MEDLINE, LILACS, Scopus, Embase, Web of Science, CINAHL, y en tesis y disertaciones CAPES, abarcando publicaciones entre 2011 y 2024.

Resultados:  de los 552 estudios identificados, ocho cumplieron los criterios de inclusión y fueron analizados. Las potencialidades del programa se refieren a la promoción de la deshospitalización, el fortalecimiento del trabajo en red, el desarrollo de acciones educativas en salud con las familias y la flexibilidad en la gestión del cuidado. En contrapartida, se evidenciaron fragilidades relacionadas con la insuficiencia de la educación permanente de los profesionales, el desgaste emocional de los equipos, las limitaciones tecnológicas y las dificultades de interlocución con la Red de Atención a la Salud.

Conclusión:  el Programa Melhor em Casa es una estrategia relevante en el proceso de deshospitalización; sin embargo, enfrenta desafíos estructurales y operativos que comprometen su sostenibilidad. Se requieren inversiones en soporte tecnológico y fortalecimiento de los equipos para mejorar la continuidad y la calidad de la atención domiciliaria. Registro Open Science Framework: DOI 10.17605/OSF.IO/6UCDB

Descriptores:
Servicios de Atención de Salud a Domicilio; Servicios de Hospitalización a Domicilio Provisto por Hospital; Atención Domiciliaria de Salud; Cuidados de Enfermería en el Hogar; Personas Imposibilitadas; Educación en Casa.


Destacados:

(1) El fortalecimiento de la atención en red favorece la deshospitalización segura. (2) La educación en salud promueve la autonomía de usuarios y cuidadores. (3) El uso de la teleatención amplía el acceso y cualifica la atención domiciliaria. (4) La educación permanente en salud es esencial para la efectividad del programa. (5) La falta de estructura y de apoyo emocional fragiliza a los equipos de atención domiciliaria.

Introdução

A atenção domiciliar (AD) constitui uma modalidade de cuidado prestado no domicílio do usuário, podendo ser realizada no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS) ou, em casos que demandam cuidados mais complexos, pelo Programa Melhor em Casa (PMeC). Nos últimos anos, a AD tem ganhado crescente relevância no Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente por proporcionar um cuidado contínuo, humanizado e centrado nas necessidades dos usuários. Integrada à Rede de Atenção à Saúde (RAS), essa modalidade se destaca por oferecer assistência no ambiente domiciliar, priorizando a segurança e o bem-estar dos usuários1.

A AD promove ações de tratamento, reabilitação, paliação e prevenção, sendo indicada para usuários que estejam restritos ao leito ou ao domicílio, de forma temporária ou permanente, em razão de condições clínicas ou situações de vulnerabilidade2. Essa modalidade de cuidado reconhece o contexto social e cultural do usuário e de seus familiares, contribuindo para a redução do risco de infecções, da recorrência de hospitalizações e da utilização inadequada dos serviços hospitalares. Além disso, favorece a otimização na gestão eficiente dos leitos hospitalares e dos recursos em saúde disponíveis, servindo como uma “porta de saída” qualificada da rede de urgência e emergência, com potencial para diminuir a superlotação nesses serviços3.

O PMeC focaliza a desospitalização dos usuários que requerem acompanhamento clínico e suporte de uma equipe multiprofissional, promovendo não apenas o cuidado, mas incluindo as ações educativas aos usuários, familiares, responsáveis e cuidadores para a continuidade da assistência no domicílio. A atuação do PMeC ocorre por meio dos Serviços de Atenção Domiciliar (SAD), os quais são complementares à APS e aos serviços de urgência, podendo também ser substitutivos à hospitalização2.

Diante do envelhecimento populacional e da demanda crescente por uma atenção à saúde mais integral e humanizada, os serviços de AD têm se expandido em todo o mundo4. No contexto brasileiro, os SAD começaram a se estruturar com maior intensidade a partir de 1990, sendo incorporados de forma estratégica e definitiva ao SUS em 2011, com a criação do PMeC5.

Fatores como a transição demográfica e epidemiológica acelerada, o aumento dos custos em saúde, o processo de desinstitucionalização e a busca por modelos mais humanizados de cuidado evidenciam a importância da expansão do PMeC no cenário nacional3-5. Para aprimorar sua gestão, torna-se importante compreender as percepções dos profissionais e gestores sobre o programa quanto aos desafios e potencialidades.

As equipes multiprofissionais que atuam no PMeC vivenciam, na prática da assistência prestada aos usuários, diferentes barreiras e desafios, sendo, portanto, uma fonte valiosa para a identificação de elementos que possam subsidiar melhorias na condução do programa. No entanto, apesar da relevância de suas experiências, não foram identificadas, na literatura científica, revisões que reunissem as percepções dos profissionais e gestores sobre o PMeC, desde sua criação. Nesse contexto, esta revisão teve o objetivo de mapear na literatura científica as potencialidades e fragilidades do Programa Melhor em Casa identificadas por profissionais de saúde e gestores.

Método

Tipo de estudo

Trata-se de uma revisão de literatura baseada em evidências científicas do tipo revisão de escopo, guiada pelas recomendações do JBI Reviewer’s Manual, o qual orienta o mapeamento de conceitos-chave, a clarificação de áreas de pesquisa e a identificação de lacunas do conhecimento6. Para o desenvolvimento do estudo foram percorridas cinco etapas propostas pelo JBI: 1) Formulação da questão de pesquisa; 2) Identificação dos estudos relevantes; 3) Seleção dos estudos; 4) Extração dos dados; e 5) Síntese e apresentação dos resultados. O protocolo de pesquisa foi registrado na plataforma Open Science Framework sob o DOI 10.17605/OSF.IO/6UCDB 7. A extensão Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses for Scoping Reviews (PRISMA-ScR) foi utilizada para reportar com transparência na condução dos resultados da análise de escopo8. O estudo foi realizado na cidade de Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, no período de fevereiro de 2024 a março de 2025.

Critérios de seleção

Foram considerados como critérios de inclusão: estudos publicados na íntegra, disponíveis eletronicamente, sem restrição de idioma, que respondessem à questão de pesquisa proposta. Estabeleceu-se como recorte temporal o período de 2011 a 2024, em razão da homologação da Portaria do PMeC pelo Ministério da Saúde (MS) em 20119, abrangendo assim treze anos de implementação do programa no território brasileiro. Foram excluídos editoriais, cartas ao editor, sites, notícias e resumos de eventos científicos.

Coleta de dados

Para a estratégia de busca da revisão foi adotada a estrutura mnemônica PCC, considerando: População (P) - profissionais de saúde e gestores; Conceito (C) - potencialidades e fragilidades do PMeC; e Contexto (C) - Brasil. A questão formulada foi: “Quais são as potencialidades e fragilidades observadas pelos profissionais de saúde e gestores sobre o Programa Melhor em Casa no Brasil?”

Na estratégia de busca foram incluídos termos presentes na estrutura PCC, utilizou-se descritores identificados nos tesauros da área da saúde como Medical Subject Headings (MeSH) e Descritores em Ciências da Saúde (DeCS). Sendo um programa exclusivo do contexto brasileiro, a pesquisa contou com o apoio de uma bibliotecária para a construção da estratégia de busca, sendo sugerido utilizar o próprio nome do programa em português “Programa Melhor em Casa” e, em inglês, “Better at home”, a fim de ter uma maior cobertura de bibliografia acerca da temática e ampliar a estratégia de busca (Figura 1).

A busca de evidências científicas foi realizada nas seguintes fontes de dados: Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS); Public Medical Literature Analysis and Retrievel System Online (PubMed/MEDLINE); Scopus; Excerpta Medica data BASE (EMBASE); Web of Science (WoS); e Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL). A literatura cinzenta foi pesquisada na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações da CAPES.

Figura 1
Estratégias de busca e bases de dados utilizadas na revisão de literatura. Porto Alegre, RS, Brasil, 2025

Seleção de estudos

Todos os registros recuperados nas bases de dados foram identificados, agrupados e carregados no aplicativo Rayyan® (Intelligent Systematic Review), onde foram removidas as duplicatas e realizada a triagem inicial dos títulos e resumos10. A literatura cinzenta foi analisada em planilhas do Excel®, também por meio de leitura inicial de título e resumo. Após a retirada das duplicatas no Rayyan®, procedeu-se à etapa inicial de análise dos dados, as revisoras realizaram a leitura independente e cega de títulos e resumos de todos os documentos na plataforma Rayyan® e na planilha do Excel®. As revisoras atribuíram conceitos de aceitação ou rejeição, de acordo com a questão de pesquisa da revisão. O cegamento da plataforma Rayyan® foi aberto em reunião entre as revisoras, a fim de verificar as divergências. Nesse sentido, os estudos que permaneciam com divergências foram avaliados por uma terceira revisora, que fez a avaliação na plataforma Rayyan®. Quanto à literatura cinzenta, um encontro presencial foi realizado com as duas revisoras, a fim de avaliar os resultados e discutir as divergências, de modo que não foi necessária a intervenção de uma terceira revisora.

Os estudos selecionados, foram lidos na íntegra e analisados descritivamente em conformidade com a questão de pesquisa e com a relevância do objetivo do estudo. No que tange à literatura cinzenta, uma dissertação em específico não foi encontrada na íntegra, tentou-se contato com o autor e orientadora por meio do correio eletrônico sem sucesso, e a outra dissertação foi fruto de um artigo selecionado no estudo, assim, optou-se pela utilização do artigo publicado.

Tratamento dos dados

Com base nos documentos selecionados, os dados extraídos foram organizados em uma planilha do Excel®, contendo informações sobre: autor, título, tipo de estudo, ano de publicação, idioma, amostra, periódico de publicação, país de origem, ano da publicação, objetivos do estudo, principais resultados e conclusões. A análise dos dados ocorreu de forma descritiva e, posteriormente, os achados foram categorizados em potencialidades e fragilidades do PMeC por meio de uma análise temática.

Aspectos éticos

Por se tratar de uma revisão de escopo, não houve necessidade de submissão do estudo ao Comitê de Ética em Pesquisa. Afirma-se que não houve conflito de interesses por parte das pesquisadoras envolvidas e que foram respeitados os direitos autorais dos documentos citados conforme a Lei nº 12.853 de 201311.

Resultados

Na busca pelas bases de dados, identificou-se 552 publicações. Após a remoção de 45 duplicatas, restaram 507 estudos. Em seguida, procedeu-se à leitura dos títulos e resumos, aplicando-se os critérios de inclusão e exclusão por dois revisores independentes, resultando na seleção de 27 estudos. Posteriormente, fez-se a leitura na íntegra dos documentos selecionados, considerando os critérios de inclusão e exclusão estabelecidos, culminando em uma amostra final constituída por oito publicações (Figura 2).

Figura 2
Fluxograma PRISMA- ScR12 utilizado para identificação e seleção de estudos. Porto Alegre, RS, Brasil, 2025

O principal idioma das publicações foi o português (n=5; 62,5%), seguido do idioma inglês (n=3; 37,5%). Quanto ao delineamento metodológico utilizado pelos autores, prevaleceram os estudos de abordagem qualitativa (n=6; = 75%), seguidos por estudos quantitativos (n=1;12,5%) e métodos mistos (n=1; 12,5%).

Nos estudos, identificou-se 90 participantes. Em relação ao ano de publicação, identificou-se que os artigos foram publicados entre 2016 a 2022, sendo o maior número no ano de 2022 (n=3; 37,5%), seguido pelos anos de 2018 (n=2; 25%), 2020 (n=1;12,5%), 2019 (n=1;12,5%), e 2016 (n=1; 12,5%). A Figura 3 apresenta a caracterização dos estudos incluídos na revisão, com informações sobre autoria, título, tipo de estudo, ano de publicação e número de participantes.

Figura 3
Caracterização dos estudos identificados na revisão. Porto Alegre, RS, Brasil, 2025

A Figura 4 sintetiza os objetivos dos estudos e os principais resultados de cada estudo, permitindo visualizar as percepções dos profissionais acerca do PMeC.

Figura 4
Síntese descritiva dos estudos incluídos na revisão de escopo. Porto Alegre, RS, Brasil, 2025

Para favorecer a compreensão e organização dos resultados, bem como responder à questão de pesquisa da revisão, os achados foram subdivididos em duas categorias temáticas: Potencialidades e Fragilidades do PMeC, conforme Figura 5.

Figura 5
Categorias temáticas da revisão de escopo. Porto Alegre, RS, Brasil, 2025

Discussão

Os achados desta revisão de escopo evidenciaram duas categorias temáticas que caracterizam a atuação do programa no cenário brasileiro: potencialidades e as fragilidades do PMeC. A análise crítica permite compreender os avanços alcançados e os desafios persistentes na consolidação da AD como estratégia integrada à RAS.

Potencialidades para o Programa Melhor em Casa

A construção do trabalho em rede, enquanto eixo estruturante do PMeC, destacou-se como a principal potencialidade evidenciada nos estudos analisados. A atuação articulada entre os distintos pontos da RAS mostra-se fundamental, considerando que o programa assiste, majoritariamente, usuários procedentes de internações hospitalares recentes. Tal configuração demanda a articulação com a rede intra-hospitalar para garantir a transição segura do cuidado, o estabelecimento de vínculo intrafamiliar da equipe do PMeC no domicílio e, posteriormente, a integração do usuário na APS, compondo um contínuo assistencial na RAS. Nesse contexto, a consolidação do trabalho em rede se faz necessário e está intrinsecamente relacionada à estrutura do serviço, contribuindo para obtenção de melhores desfechos clínicos. Uma revisão narrativa destacou que a qualidade do atendimento domiciliar está relacionada tanto pela capacidade dos profissionais em acolher as necessidades quanto pelo estabelecimento de uma comunicação direta com a família21. Isso reforça a articulação com os diferentes níveis da RAS, o que favorece a formulação de estratégias para ações integradas que atendam, de maneira multidisciplinar, às necessidades e expectativas do usuário e família diante das incertezas associadas ao cuidado domiciliar.

Outro ponto evidenciado nos estudos refere-se à desospitalização e à redução de internações consideradas evitáveis, corroborando com os objetivos centrais do programa, que visam à transição segura de usuários estáveis para o domicílio. O retorno do usuário ao ambiente domiciliar configura-se como uma ação de continuidade do cuidado iniciado no contexto hospitalar e, quando realizado de forma planejada e com acesso aos recursos necessários, permite a manutenção da articulação com os diferentes níveis da rede, de maneira integrada, resolutiva e centrada na pessoa. A programação de uma alta segura implica na avaliação das necessidades clínicas e sociais do usuário, bem como na estrutura familiar e na disponibilidade de serviços da RAS, elementos fundamentais para a prevenção de reinternações22. Ainda nesse contexto, a redução das internações desnecessárias é favorecida pelo reconhecimento precoce de alterações no quadro clínico do usuário e pela adequada condução na atenção às intercorrências, sendo isso resultado do processo educativo promovido pelas equipes junto às famílias, o que contribui para a diminuição do retorno do usuário ao ambiente hospitalar.

A educação em saúde dirigida às famílias foi representada nos estudos como uma das estratégias diferenciais da atuação do PMeC. O programa ultrapassa o enfoque na desospitalização ao investir em ações educativas com cuidadores e familiares no espaço domiciliar, ambiente no qual ocorrem intensas trocas de saberes. Nesse contexto íntimo e singular, marcado pela reorganização da rotina familiar diante da presença de familiar adoecido, é essencial que a equipe mostre empatia e comprometimento para, progressivamente, promover a construção de conhecimentos entre os familiares para o exercício do cuidado seguro e integral. A educação em saúde deve, portanto, ser concebida como uma ferramenta para a promoção da autonomia e do protagonismo de todos os envolvidos, incentivando a corresponsabilização no processo de cuidado23.

A adoção do teleatendimento e do PTS também foi destacada como estratégia que personaliza o cuidado, colocando o usuário como agente central do seu processo de reabilitação e promovendo maior agilidade e efetividade nas ações assistenciais. O teleatendimento constitui-se em um sistema de apoio que permite ao usuário permanecer em casa, assim como os recursos visuais da plataforma possibilitam o desenvolvimento de relações interpessoais com os profissionais de saúde ao longo do tempo. A modalidade é uma alternativa viável para monitorar sintomas, orientar ações e incentivar à adesão ao cuidado domiciliar, explorando as possibilidades tanto assistenciais quanto educativas24. No que se refere ao planejamento do cuidado, o PTS apresenta-se como um instrumento que serve de guia para as ações da equipe multiprofissional, sendo compartilhado entre os membros da equipe, com vistas à implementação de intervenções alinhadas às necessidades singulares de cada usuário25-26.

Fragilidades para o Programa Melhor em Casa

As fragilidades mais recorrentes identificadas nos estudos foram a educação permanente e a interlocução com a RAS, evidenciando dois aspectos centrais que demandam atenção qualificada no contexto nacional. Outro aspecto frequentemente apontado nos estudos refere-se à estrutura dos serviços, seguido da responsabilização do usuário pelo cuidado e pelo desgaste emocional dos profissionais envolvidos na AD.

A educação permanente, reconhecida como uma estratégia de ensino-aprendizagem em serviço, com princípios problematizadores, interdisciplinares e interprofissionais em um contexto real, tem o foco nas necessidades cotidianas da prática profissional para a qualificação da assistência prestada ao usuário, sobretudo no PMeC, dada a complexidade do cuidado domiciliar. Esse processo de educação tem proporcionado transformações graduais nas práticas na saúde, com o intuito ao alcance de melhoria do cuidado, da reorganização do processo de trabalho e da qualidade da gestão pública, por meio de ações pedagógicas inovadoras e alinhadas ao modelo assistencial vigente27. Tais ações devem contemplar metodologias inovadoras, incluindo aprendizagem virtual e recursos tecnológicos, que favoreçam o desenvolvimento de competências dos trabalhadores da saúde4.

A fragmentação na interlocução com a RAS ou as dificuldades de acesso em situações de intercorrência com os usuários no PMeC configuram obstáculos relevantes que levam ao desgaste emocional nas equipes multiprofissionais, assim como à resolutividade das necessidades do usuário. Essas barreiras comprometem a integralidade da atenção, podendo ocasionar descontinuidade do cuidado, reincidência de agravos de saúde e reinternações evitáveis, frequentemente relacionadas à fragilidade da articulação entre os serviços que compõem a rede. A integração efetiva entre os serviços da RAS, com base em uma visão compartilhada, adoção de diretrizes clínicas e organização horizontal, é imperativa para a qualificação do cuidado e redução de redundâncias28.

A estruturação dos serviços, por sua vez, abrange desde limitações nas instalações físicas inadequadas até a insuficiência de veículos, frequentemente compartilhados com outros serviços ou unidades do município, comprometendo a realização das visitas domiciliares. A oferta adequada de recursos materiais, embora essencial, não é suficiente para assegurar a efetividade da assistência no contexto domiciliar. Para que a AD se realize de maneira eficiente e segura, faz-se necessário um planejamento estratégico que incorpore a educação permanente e garanta a alocação adequada de recursos materiais e de uma qualificada gestão de pessoas28.

Outro aspecto emergente nos estudos refere-se à necessidade de incorporação de novas tecnologias, como o PEP. A ausência desse recurso limita o compartilhamento de informações entre os serviços da RAS, dificultando a continuidade e integralidade do cuidado. A implementação do PEP, além de proporcionar maior praticidade e agilidade na gestão das informações, é essencial para a expansão da AD29. O PEP contribui para a segurança e eficácia do atendimento, permitindo o acesso ao histórico do usuário e subsidiando a tomada de decisão clínica26.

A responsabilização do usuário e da família pelo cuidado é um desafio em alguns estudos. Tal aspecto requer abordagem desde a admissão do usuário no programa, por meio de pactuações claras com a família quanto aos processos de cuidado e à alta, assegurando que usuários e cuidadores estejam instrumentalizados para o cuidado, de modo que desperte um interesse, corresponsabilidade e compartilhamento de saberes e conhecimento30. É necessário promover a autonomia da família no processo de corresponsabilização incentivando o protagonismo dos envolvidos, e consolidar a AD como uma referência para o cuidado sempre que necessário31. A AD configura-se como uma nova alternativa inovadora de produção do cuidado fora das instituições tradicionais, como hospitais, permitindo que a família e o cuidador assumam papel central na gestão do cuidado no domicílio, contribuindo para a construção de estratégias mais adequadas às realidades do território32.

Outro aspecto de vulnerabilidade identificado em dois estudos foi o desgaste emocional dos profissionais, especialmente no cuidado aos usuários com doenças crônicas. A atuação no domicílio expõe o profissional a contextos adversos, incluindo condições precárias de habitação e escassez de recursos, condições que potencializam o sofrimento psíquico e a sobrecarga emocional. Tais condições exigem a atenção dos gestores quanto à saúde mental das equipes, por meio de ações de educação em saúde, espaços de escuta e apoio psicossocial33. A exposição contínua a riscos psicossociais pode resultar em repercussões físicas, mentais e sociais significativas, frequentemente negligenciados por preconceitos que relacionam o sofrimento psíquico à fragilidade individual, em detrimento da compreensão das condições laborais envolvidas no cotidiano na AD34.

Entre as limitações do estudo, destaca-se a escassa disponibilidade de produções científicas sobre a temática, o que evidencia a necessidade de investigações adicionais que permitam conhecer de forma mais abrangente o potencial do programa e identificar melhorias que possam ser aplicadas ao PMeC. Ao considerar as diversidades culturais e geográficas do país, muitas ações podem ser adaptadas, recriadas e expandidas. A educação permanente também se apresenta como uma limitação relevante, indicando a pertinência de desenvolver estudos de intervenção voltados à qualificação dos profissionais no PMeC.

As contribuições deste estudo para a enfermagem são significativas, ao oferecer uma análise crítica e abrangente do PMeC, destacando suas potencialidades e fragilidades no contexto da AD integrada à RAS. A atuação da enfermagem no contexto da equipe multiprofissional no PMeC revela-se essencial na articulação do cuidado em rede, na educação em saúde às famílias e na promoção da continuidade assistencial segura e centrada no usuário. O estudo fornece subsídios para o aprimoramento das práticas profissionais e contribui para o fortalecimento da AD como estratégia inovadora e resolutiva no que tange à educação permanente, uso de tecnologias como o teleatendimento e o prontuário eletrônico, e a valorização do cuidado à saúde mental diante do desgaste emocional das equipes. Dessa forma, reforça-se o papel estratégico da enfermagem na coordenação do cuidado, na qualificação da atenção prestada no domicílio e na construção de modelos assistenciais mais sustentáveis, eficientes e humanizados.

Conclusão

O mapeamento das produções científicas sobre as potencialidades e fragilidades do PMeC, identificadas por profissionais de saúde e gestores, mostrou-se limitado em quantidade quando comparado a outras áreas de conhecimento na saúde. Como potencialidades do PMeC, identificou-se a construção do trabalho em rede, a desospitalização, a redução de reinternações evitáveis, a educação em saúde junto às famílias, o teleatendimento, a utilização do PTS, a flexibilidade e autonomia na gestão, bem como a humanização e a melhoria da qualidade de vida dos usuários. No que se refere às fragilidades observadas, destacam-se aspectos que demandam medidas qualificadas para o aprimoramento do programa e da atenção à saúde no âmbito domiciliar: a educação permanente, a interlocução com a RAS, a estrutura dos serviços, a corresponsabilização do usuário e familiares pelo cuidado, o desgaste emocional dos profissionais, a insuficiência de recursos tecnológicos, a ausência do PEP e a fragmentação da equipe.

Dessa forma, o estudo evidencia a relevância do PMeC no sistema de saúde brasileiro, ao mostrar seu potencial para qualificar o cuidado domiciliar. Para isso, são necessárias intervenções estratégicas e investimentos estruturais que fortaleçam o programa e assegurem sua efetividade e sustentabilidade a longo prazo. Recomenda-se, ainda, a realização de novos estudos que aprofundem os temas abordados, contribuindo para o avanço do conhecimento e o aprimoramento das práticas no âmbito da AD oferecida pelo PMeC.

Agradecimentos

Agradecemos a Aline Matte Debastiani, biblioteconomista que colaborou na fase de estratégia de busca e coleta de dados

Declaração de Disponibilidade de Dados:

Todos os dados gerados ou analisados durante este estudo estão incluídos neste artigo publicado.

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  • *
    A publicação deste artigo na série temática “Escopo de prática de Enfermagem na Atenção Primária à Saúde” se insere na atividade 2.2 do Termo de Referência 2 do Plano de Trabalho do Centro Colaborador da OPAS/OMS para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem, Brasil.
  • Como citar este artigo:
    Viana CN, Silva LAS, Weston FCL, Paz AA. Potential strengths and limitations of the Better at Home Program identified by professionals and managers: a scoping review of the literature. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2026;34:e4879 [cited ano mês dia ]. Available from: URL .https://doi.org/10.1590/1518-8345.8251.4879

Editado por

  • Editora Associada:
    Maria Lúcia Zanetti

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    25 Ago 2025
  • Aceito
    18 Dez 2025
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