Objetivo: mapear a literatura científica referente as terapias complementares empregadas por profissionais de saúde para crianças com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade.
Método: esta revisão de escopo seguiu as recomendações propostas pelo JBI. Foram consultadas cinco bases de dados. Os critérios de inclusão abarcaram artigos publicados em inglês, espanhol e português; estudos com crianças de um a nove anos diagnosticadas com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, independentemente de incluírem outras faixas etárias; e ausência de restrições quanto à data de publicação, desenho do estudo ou tipo de documento. As terapias foram organizadas em quatro categorias: terapias mente-corpo, suplementação, fitoterapia e terapia dietética.
Resultados: foram identificadas 1.444 publicações, das quais 133 artigos revisados por pares foram selecionados para análise. No total, foram identificadas 65 terapias complementares, sendo o neurofeedback (n=38) a terapia mente-corpo mais frequentemente citada. Outras intervenções incluíram a suplementação com ácidos graxos poli-insaturados (n=14), o uso de Ginkgo biloba (n=6) na fitoterapia e a dieta oligoantigênica (n=5) no contexto da terapia dietética.
Conclusão: as terapias complementares mostram potencial na redução dos sintomas do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade na infância. No entanto, algumas dessas abordagens ainda carecem de validação científica, o que reforça a necessidade de estudos experimentais direcionados que garantam seu uso seguro e eficaz.
Descritores:
Transtorno do Deficit de Atenção com Hiperatividade; Terapias Complementares; Criança; Lactentes; Saúde da Criança; Profissional de Saúde
Destaques:
(1) Diversas terapias complementares são utilizadas no controle do TDAH em crianças.(2) Essas terapias podem contribuir para a melhora dos sintomas centrais do transtorno. (3) É necessário realizar mais pesquisas para comprovar a eficácia dessas abordagens. (4) O cuidado profissional voltado ao TDAH deve ser individualizado e integral. (5) O profissional de saúde é responsável pela educação em saúde e pelo acompanhamento do TDAH.
Objective: to map the scientific literature regarding complementary therapies used by health professionals for children with Attention Deficit Hyperactivity Disorder.
Method: this scoping review was based on the recommendations proposed by the Joanna Briggs Institute. Five data sources were searched. Inclusion criteria comprised articles published in English, Spanish, or Portuguese; children aged one to nine years diagnosed with Attention Deficit Hyperactivity Disorder, regardless of additional age ranges covered; and no restrictions on publication date, study design, or bibliographic type. Therapies were grouped into four categories: mind-body therapies, supplementation, herbal therapy, and dietary therapy.
Results: a total of 1,444 publications were identified, with 133 peer-reviewed articles selected for analysis. Sixty-five complementary therapies were identified, with neurofeedback (n=38) being the most frequently cited mind-body therapy. Other interventions included a prevalence of polyunsaturated fatty acid supplementation (n=14), Ginkgo biloba use (n=6) in phytotherapy, and oligo-antigenic diet (n=5) in dietary therapy.
Conclusion: complementary therapies show potential for alleviating symptoms of Attention Deficit Hyperactivity Disorder in childhood. However, some therapies still lack scientific validation, highlighting the need for targeted experimental studies to ensure safe and effective use.
Descriptors:
Attention Deficit Disorder with Hyperactivity; Complementary Therapies; Child; Infant; Child Health; Health Personnel
Highlights:
(1) Several complementary therapies are used to control ADHD in children. (2) Complementary therapies can improve the core symptoms of ADHD. (3) More research should be conducted to ensure the efficacy of the therapies. (4) A professional approach to ADHD is individualized and holistic. (5) The health professional is responsible for health education and ADHD monitoring.
Objetivo: mapear la literatura científica sobre terapias complementarias promovidas por profesionales de la salud para niños con Trastorno por Déficit de Atención e Hiperactividad.
Método: esta revisión de alcance siguió las recomendaciones propuestas por el Joanna Briggs Institute. Se consultaron cinco bases de datos. Los criterios de inclusión incluyeron artículos publicados en inglés, español o portugués; estudios con niños de uno a nueve años de edad diagnosticados con Trastorno por Déficit de Atención e Hiperactividad, más allá de que incluyan otros grupos de edad; y ausencia de restricciones en cuanto a fecha de publicación, diseño del estudio o tipo de documento. Las terapias se organizaron en cuatro categorías: terapias mente-cuerpo, suplementación, fitoterapia y terapia dietética.
Resultados: se identificaron 1.444 publicaciones, de las cuales 133 artículos revisados por pares fueron seleccionados para su análisis. En total, se identificaron 65 terapias complementarias, siendo el neurofeedback (n=38) la terapia mente-cuerpo citada con mayor frecuencia. Otras intervenciones incluyeron la suplementación con ácidos grasos poliinsaturados (n=14), el uso de Ginkgo biloba (n=6) en fitoterapia y la dieta oligoantigénica (n=5) en el contexto de la terapia dietética.
Conclusión: las terapias complementarias demuestran potencial para reducir los síntomas del Trastorno por Déficit de Atención e Hiperactividad en la infancia. Sin embargo, algunos de estos enfoques aún requieren validación científica, lo que refuerza la necesidad de realizar estudios experimentales específicos para garantizar su uso seguro y eficaz.
Descriptores:
Trastorno por Déficit de Atención con Hiperactividad; Terapias Complementarias; Niño; Lactante; Salud Infantil; Personal de Salud
Destacados:
(1) Se utilizan varias terapias complementarias para controlar el TDAH en niños. (2) Estas terapias pueden contribuir a mejorar los síntomas centrales del trastorno. (3) Son necesarias más investigaciones para demostrar la eficacia de estos enfoques. (4) La atención profesional centrada en el TDAH debe ser individualizada e integral. (5) El profesional sanitario es responsable de la educación sanitaria y del seguimiento del TDAH.
Introdução
O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por sintomas persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade, que comprometem o desenvolvimento infantil ( 1 - 2 ). Estima-se que o TDAH afete entre 3% e 8% das crianças nas diversas regiões analisadas mundialmente, sendo que, em mais da metade dos casos, o transtorno persiste na vida adulta ( 3 - 5 ). Nos Estados Unidos da América (EUA) a taxa de diagnóstico entre crianças chegou a 9,4% ( 6 ). De modo geral, o transtorno é mais prevalente no sexo masculino, com uma proporção aproximada de 2:1 na infância e 1,6:1 na vida adulta. Além disso, meninas tendem a apresentar mais frequentemente o subtipo predominantemente desatento ( 7 - 8 ), manifestando dificuldade para manter o foco, tendência à distração e dificuldade para concluir tarefas ( 9 ).
O TDAH compromete o funcionamento pessoal, social e emocional na infância, além de impactar negativamente as relações familiares, em virtude dos desafios comportamentais, do desempenho acadêmico e da constante necessidade de apoio especializado ( 10 - 12 ). O tratamento do TDAH é multimodal, incluindo intervenções farmacológicas e psicológicas ( 13 ). O tratamento medicamentoso de primeira linha envolve o uso de estimulantes como a anfetamina (AMP) e o metilfenidato (MPH), ambos com eficácia semelhante ( 14 ). No entanto, o uso desses medicamentos em crianças pode ocasionar efeitos adversos, como distúrbios do sono, redução do apetite, cefaleia, irritabilidade e dor abdominal ( 15 ).
Ademais, barreiras econômicas dentro do sistema de saúde dificultam a adesão ao tratamento farmacológico. No Brasil, por exemplo, a ausência desses medicamentos na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) impede sua distribuição gratuita, limitando o acesso dos pacientes ao tratamento ( 16 - 17 ).
Diante desse cenário, famílias e profissionais de saúde têm buscado abordagens alternativas que complementem o cuidado prestado a crianças com TDAH ( 18 - 19 ). Nesse contexto, as terapias complementares — definidas pelo National Center for Complementary and Integrative Health (NCCIH), dos EUA, como abordagens não convencionais utilizadas em conjunto com a medicina tradicional para potencializar o tratamento — vêm sendo discutidas como estratégias auxiliares na gestão dos sintomas do TDAH ( 20 - 21 ).
Essas terapias incluem práticas como acupuntura, meditação, fitoterapia e ioga, entre outras, e estão previstas na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), implementada no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) em 2006. A partir dessa política, o uso de terapias complementares no Brasil cresceu 70% em 2024, em comparação com 2022, especialmente na atenção primária e em serviços especializados mediante encaminhamento profissional ( 22 - 23 ).
Embora essas abordagens ainda enfrentem desafios relacionados à aceitação, à prescrição e à efetivação nos serviços de saúde, estudos têm apontado benefícios significativos, sobretudo no tratamento de crianças com TDAH. Entre os principais resultados observam-se a redução de movimentos excessivos ( 24 ), a melhora da atenção seletiva e sustentada ( 25 ), o aumento da concentração, o desenvolvimento de habilidades motoras ( 26 ) e o aprimoramento da memória ( 27 - 28 ).
Com relação aos profissionais de saúde, obstáculos como a ausência de capacitação específica nessas práticas, a falta de apoio das equipes, a falta de protocolos clínicos padronizados e a resistência institucional a abordagens não convencionais dificultam a aplicação efetiva das terapias complementares no manejo de crianças com TDAH, mesmo diante do interesse dos usuários ou da existência de evidências favoráveis ( 29 - 31 ).
Torna-se, portanto, fundamental compreender quais terapias complementares têm sido promovidas pelas equipes de saúde como parte do cuidado integral a crianças com TDAH. Diante do crescente interesse por abordagens não farmacológicas e da necessidade de ampliar o conhecimento profissional sobre essas práticas, a integração de um cuidado multidimensional aos serviços de saúde mostra-se cada vez mais relevante. Entretanto, as evidências sobre o tema ainda são limitadas, o que ressalta a importância de novos estudos. Assim, este estudo teve como objetivo mapear na literatura científica as terapias complementares empregadas por profissionais de saúde para crianças com TDAH.
Método
Tipo de estudo
Trata-se de uma revisão de escopo realizada com base nas diretrizes recomendadas pelo Joanna Briggs Institute (JBI) ( 32 ) e pela PRISMA Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR) ( 33 ). O protocolo do estudo foi registrado na plataforma Open Science Framework (OSF), disponível em osf.io/twdrh.
Localização
A busca bibliográfica foi realizada nas seguintes fontes de informações: Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE/PubMed), Excerpta Medica Database (EMBASE), Scopus, Web of Science (WoS) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS). Além disso, foi feita uma busca secundária no Google Scholar e uma pesquisa manual reversa nas referências dos estudos primários incluídos, com o objetivo de ampliar o mapeamento.
Período do estudo
A pesquisa foi conduzida entre maio e junho de 2023. Uma atualização da busca foi realizada em abril de 2025, a fim de garantir a atualidade da revisão.
População
Foi utilizado o mnemônico PCC, que representa população (P), conceito (C) e contexto (C), para definir o título e estruturar a pergunta da revisão, conforme recomendação do JBI para revisões de escopo ( 32 ). Neste estudo, a população foi composta por crianças com idade entre um e nove anos, de acordo com a classificação etária da Organização Mundial da Saúde ( 34 ); o conceito abrangeu as terapias complementares realizadas por profissionais de saúde; e o contexto foi centrado no diagnóstico de TDAH. A partir disso, a pergunta norteadora foi formulada da seguinte forma: quais terapias complementares são empregadas pela equipe de saúde para o controle do TDAH em crianças?
Critérios de seleção
Foram incluídos estudos que respondessem à pergunta norteadora; que envolvessem crianças com idade entre um e nove anos, ainda que outras faixas etárias também fossem contempladas; publicados em português, inglês e espanhol; sem restrições quanto ao ano de publicação; e de qualquer delineamento metodológico ou tipo de material bibliográfico. Estudos que abordassem a faixa etária estabelecida em conjunto com outras idades também foram considerados.
Os critérios de exclusão foram: resumos publicados em anais de eventos científicos; participantes com suspeita ou diagnóstico de transtornos psiquiátricos comórbidos, como ansiedade, depressão, transtorno opositor desafiante, transtorno do espectro autista, entre outros; comparação entre terapia complementar e tratamento farmacológico; avaliação da viabilidade de plano de recrutamento; e foco exclusivo nos mecanismos técnicos da terapia. Esses critérios estão numerados de 1 a 10 no fluxograma PRISMA (Figura 1).
Definição da amostra
As estratégias de busca incluíram descritores com truncamentos apropriados, adaptados a cada base de dados, relacionados à população, às terapias complementares e ao diagnóstico de TDAH. Entre os descritores utilizados, destacam-se: “child”, “children”, “complementary therapies”, “alternative medicine”, “alternative therapies”, “complementary medicine”, “attention deficit disorder with hyperactivity”, “ADHD”, “attention deficit hyperactivity disorder”, entre outros termos alternativos. A estratégia completa está disponível no Apêndice Suplementar 1 (em https://doi.org/10.48331/scielodata.8ZOILU).
Coleta de dados
Os resultados das buscas foram inseridos no software Rayyan, sendo posteriormente eliminadas as duplicatas. A triagem dos títulos e resumos foi realizada por dois revisores de forma independente, seguida da leitura dos textos completos. Divergências foram resolvidas por um terceiro revisor. Ao final desse processo, 108 estudos foram incluídos na revisão. Com a atualização realizada em abril de 2025, foram adicionados mais 25 estudos, totalizando 133 publicações incluídas na análise.
Variáveis do estudo
As variáveis analisadas foram: autor(es), ano de publicação, país, idioma, objetivo(s), tipo de estudo, população, terapia complementar, duração da intervenção e principais resultados.
Processamento e análise de dados
Para a descrição das características quantitativas dos estudos, foram utilizadas estatísticas descritivas (frequências e percentuais). Os desfechos primários foram agrupados e apresentados em tabelas, gráficos e figuras, sendo posteriormente discutidos à luz das referências identificadas.
Aspectos éticos
Este estudo não exigiu aprovação por Comitê de Ética em Pesquisa.
Resultados
Na busca nas fontes de informações foram identificados 1.444 estudos, dos quais 415 eram duplicados e 72 estavam em idiomas não elegíveis, reduzindo o total para 957 artigos. Desses, 786 estudos foram excluídos por não atenderem aos critérios de inclusão. Os 171 artigos restantes passaram por leitura na íntegra, o que resultou na exclusão de mais 85, restando uma amostra final de 86 estudos para a revisão.
Adicionalmente, buscas na literatura cinzenta utilizando o Google Scholar e o rastreamento de citações dos estudos incluídos identificaram 414 documentos, dos quais 47 foram incorporados à amostra final. Assim, esta revisão incluiu um total de 133 estudos, conforme ilustrado no fluxograma PRISMA (Figura 1).
Fluxograma da busca na literatura e dos critérios de seleção dos estudos adaptado do PRISMA. Fortaleza, CE, Brasil, 2025
Em relação às características dos estudos, conforme Tabela 1, os anos de publicação variaram de 1979 a 2024, sendo que 72,2% dos estudos foram publicados entre 2010 e 2024. Observou-se maior número de publicações nos anos de 2024 (n=16), 2014 (n=14) e 2022 (n=10). Os estudos estavam concentrados, majoritariamente, na Ásia (37,6%), América do Norte (30,9%) e Europa (26,3%). A estratégia de busca utilizada nesta revisão não identificou publicações provenientes da América Central. A revisão incluiu um total de 8.798 crianças diagnosticadas com TDAH, sendo que 51,1% dos estudos (n=68) apresentaram entre 10 e 100 participantes. O idioma predominante das publicações foi o inglês (97,8%). Quanto ao delineamento metodológico, 45 publicações eram ensaios clínicos randomizados, 39 eram revisões (incluindo 11 metanálises), 11 eram estudos experimentais e 6 eram revisões sistemáticas. Vale destacar que os estudos classificados como experimentais não detalharam o desenho metodológico utilizado. Em 46,6% dos artigos, o tempo de intervenção relatado variou de um a seis meses.
Foram identificadas 65 terapias complementares, agrupadas em quatro categorias: terapias mente-corpo (n=158), intervenções suplementares (n=60), fitoterapia (n=24) e terapia alimentar (n=24), conforme Figura 2. Dentre as terapias mente-corpo, a mais relatada foi o neurofeedback (n=38), seguida por atividade física (n=20) e yoga (n=13). A intervenção suplementar mais mencionada foi a suplementação com ácidos graxos poli-insaturados (n=14), seguida por zinco (n=10) e ferro (n=9). Outros suplementos incluíram aminoácidos, gliconutrientes, ácido gama-aminobutírico, glicina, L-teanina, L-tirosina, taurina, 5-hidroxitriptofano, S-adenosil-L-metionina (SAMe), fosfatidilserina, fosfatidilcolina e probióticos. Entre as terapias fitoterápicas, destacaram-se o Ginkgo biloba (n=6), o Hypericum perforatum (n=5) e o Pycnogenol (n=4). Em relação às terapias alimentares, ressaltaram-se a dieta oligoantigênica (n=5) e a dieta com restrição de açúcar (n=4).
Uma tabela contendo as características dos artigos incluidos na revisão e suas referências está disponível como Apêndice Suplementar 2 (em https://doi.org/10.48331/scielodata.WMW6W7).
Terapias complementares identificadas nos estudos e número de artigos por tipo de terapia. Fortaleza, CE, Brasil, 2025
Discussão
Esta revisão de escopo identificou 65 modalidades de terapias complementares empregadas por profissionais da saúde no tratamento de crianças com diagnóstico de TDAH, categorizadas em quatro abordagens: terapias mente-corpo, intervenções suplementares, fitoterapia e terapia dietética.
Entre as terapias mente-corpo, destacaram-se o biofeedback, o neurofeedback, a atividade física e a yoga. O biofeedback é uma técnica terapêutica que regula a resposta do sistema nervoso autônomo, promovendo o equilíbrio entre as funções simpáticas e parassimpáticas. Essa terapia busca capacitar o paciente ao autocontrole psicofisiológico ( 35 ).
O neurofeedback é uma subcategoria da técnica terapêutica do biofeedback que atua no sistema nervoso central, treinando o paciente a autorregular suas ondas cerebrais por meio da estimulação e observação da atividade cerebral ( 36 - 37 ). Os achados sugerem uma eficácia aparente do biofeedback em crianças com TDAH, resultando em melhora da atenção ( 38 - 40 ).
No entanto, uma metanálise recente não confirmou a efetividade do neurofeedback como tratamento para o TDAH ( 41 ). Em nova revisão, relatou-se que metanálises concluíram que o neurofeedback apresenta eficácia no curto prazo para sintomas do TDAH ( 42 ).
Reconhece-se que atividade física é uma prática que proporciona benefícios múltiplos à saúde física e mental ( 43 ). O exercício aeróbico tem sido avaliado como intervenção terapêutica capaz de aliviar sintomas do TDAH e promover melhorias na memória e nas funções executivas ( 27 , 44 ). Exercícios aeróbicos, como dança, natação, caminhada e corrida, parecem reduzir desatenção, impulsividade e hiperatividade em crianças com TDAH ( 28 ).
Uma metanálise recente mostrou que a atividade física melhora a concentração e favorece o desenvolvimento de habilidades motoras ( 45 ). Notavelmente, a atividade física apresenta efeito mais expressivo quando comparada a outras modalidades de tratamento não farmacológico ( 26 ). Os achados reforçam a atividade física como estratégia complementar eficaz para o manejo dos sintomas do TDAH em populações pediátricas.
Outra terapia amplamente abordada na literatura é a yoga, que se baseia em uma série de exercícios voltados ao equilíbrio físico e mental, representando um conjunto de técnicas e saberes voltados ao desenvolvimento pessoal, crescimento psicológico e bem-estar espiritual ( 46 ). Um estudo experimental com avaliação pré e pós-intervenção sobre a prática de yoga em crianças com TDAH relatou efeitos positivos, incluindo redução de movimentos como balançar mãos e/ou pés e melhora de comportamentos interruptivos e intrusivos durante outras atividades ( 47 ).
Melhoras perceptíveis na atenção seletiva e sustentada, assim como nas habilidades de discriminação, foram observadas após a prática de yoga em crianças com TDAH ( 24 ). Assim, estudos recentes indicam uma atitude positiva frente ao uso da yoga como terapia complementar para o TDAH.
Outras práticas complementares como meditação, homeopatia, quiropraxia, acupuntura, massoterapia, Tai Chi Chuan, hipnoterapia, ludoterapia, mindfulness, treinamento em relaxamento comportamental, treinamento de funções cognitivas, eletroacupuntura, estimulação magnética transcraniana repetitiva, ruído branco, terapia antroposófica, arteterapia, cinesiologia aplicada, Cogmed, Qigong, euritmia terapêutica, florais de Bach, método Tomatis de treinamento sonoro, musicoterapia, terapia manipulativa osteopática, equoterapia, dieta sensorial e estimulação elétrica transcutânea de pontos de acupuntura apresentaram evidências inconclusivas na população pediátrica. Isso ressalta a necessidade de mais pesquisas para comprovar sua eficácia.
Em relação a intervenções suplementares identificadas, destaca-se o uso de ácidos graxos poli-insaturados, compostos por cadeias longas com múltiplas ligações duplas, sendo os principais representantes os ômega-3 e ômega-6. As principais fontes desses suplementos incluem salmão, óleo de prímula e óleos vegetais como o óleo de milho ( 25 , 48 - 49 ).
Um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo realizado no Canadá demonstrou que os ácidos graxos ômega-3 apresentaram tendência estatisticamente significativa na redução dos sintomas centrais do TDAH em crianças diagnosticadas com o transtorno ( 50 ). De forma semelhante, outro estudo observou melhorias graduais no desempenho escolar das crianças ( 51 ). Entretanto, um ensaio clínico placebo-controlado com crianças italianas diagnosticadas com TDAH não encontrou diferença significativa na aprendizagem ou na redução da desatenção entre os grupos que receberam suplementação com ômega-3 e ômega-6 em comparação ao placebo ( 52 ). Assim, verifica-se que não há evidência científica suficiente para sustentar o uso dos ômega-3 e ômega-6 como terapia isolada para o TDAH.
Outros componentes descritos na literatura incluem o zinco e o ferro, minerais diretamente associados ao desenvolvimento físico e neurológico. Esses minerais exercem diversas funções, sendo o zinco essencial para processos celulares como a síntese de proteínas e DNA, e o ferro fundamental para a produção de hormônios como a dopamina e a norepinefrina ( 53 ).
A suplementação com zinco contribui para a redução da hiperatividade e impulsividade em crianças ( 54 - 56 ). No entanto, sua eficácia parece estar relacionada à dosagem, exigindo maior investigação científica ( 57 - 58 ). Um ensaio clínico randomizado com 60 crianças asiáticas mostrou que a suplementação com zinco não resultou em diferenças significativas entre os grupos antes e depois da intervenção, sugerindo ainda que a sua eficácia precisa de comprovação cientifica ( 59 ).
Em relação à suplementação com ferro, um ensaio clínico randomizado mostrou que crianças que receberam essa intervenção apresentaram avanços no tratamento do TDAH, especialmente nas subescalas de hiperatividade, impulsividade e desatenção ( 60 ). Contudo, outra revisão indicou que não há evidência científica suficiente para recomendar a suplementação com ferro em crianças com TDAH que não apresentam deficiência desse mineral ( 61 ). Apesar da diversidade da literatura sobre suplementação, ainda falta comprovação da eficácia desses minerais como terapias com impacto positivo no tratamento do TDAH.
Intervenções suplementares apresentaram resultados variados com o uso de magnésio, acetil L-carnitina, vitamina B6, melatonina, vitamina D, dimetilaminoetanol, cálcio e magnésio, iodo, gliconutrientes, ácido gama-aminobutírico, glicina, L-teanina, L-tirosina, taurina, 5-hidroxitriptofano, S-adenosil-L-metionina (SAMe), fosfatidilserina e fosfatidilcolina. Embora alguns estudos tenham relatado benefícios na redução dos sintomas do TDAH, as evidências ainda são insuficientes para sua utilização rotineira na prática clínica, sendo necessários mais estudos controlados. Destaca-se que não foi encontrado suporte científico para justificar o uso de gliconutrientes no tratamento do TDAH.
Quanto aos fitoterápicos, o Ginkgo biloba possui propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, semelhante à classe farmacológica dos nootrópicos, substâncias que atuam no sistema nervoso central para aprimorar as funções cognitivas ( 62 ). É utilizado no tratamento de disfunções cognitivas diversas, como demência, insuficiência vascular cerebral, perda recente de memória, cefaleia, tontura e zumbido ( 63 ).
A utilização do Ginkgo biloba mostrou melhora na resposta ao tratamento clínico, embora seus efeitos tenham se limitado a sintomas de desatenção em um estudo de seis semanas ( 64 ). No entanto, apesar dos efeitos promissores sobre os sintomas do TDAH, os resultados foram inconclusivos em outro estudo ( 65 ).
Na área da fitoterapia, outras plantas como Hypericum perforatum, Pinus pinaster, Rhodiola rosea, Matricaria recutita L., Valeriana officinalis e Bacopa monnieri também foram identificadas. Atualmente, não há evidência científica suficiente para recomendar essas plantas como terapias complementares eficazes para o TDAH, sendo necessárias novas pesquisas.
No que se refere à terapia dietética, a dieta oligoantigênica consiste no consumo de alimentos sem aditivos químicos, como corantes e conservantes, que podem desencadear sintomas do TDAH ao atuarem como potenciais antígenos ou alérgenos alimentares. Alimentos frequentemente associados a reações alérgicas incluem leite de vaca, queijo, ovos, chocolate e oleaginosas ( 66 ).
As evidências relacionadas à restrição de corantes alimentares artificiais avançaram a ponto de serem consideradas uma prática baseada em evidências ( 67 ). Os resultados sugerem que essa dieta, aplicada por quatro semanas, gerou melhorias duradouras nos sintomas do TDAH, sendo considerada uma terapia complementar válida quando reavaliada aproximadamente três anos após a intervenção ( 68 ). Essa terapia pode servir como recurso auxiliar na melhora dos sintomas em crianças com TDAH.
Outras quatro práticas dietéticas foram mencionadas: a dieta com restrição de açúcar, a dieta Feingold, a dieta com megavitaminas e a dieta cetogênica. Estudos relataram resultados conflitantes e inconclusivos para as dietas Feingold e cetogênica. Notavelmente, os estudos não recomendaram a terapia com megavitaminas devido aos potenciais efeitos adversos associados a essa abordagem dietética.
Assim, o TDAH impõe desafios significativos relacionados a alterações motoras, perceptivas, cognitivas e comportamentais. Por isso, abordagens específicas para cada faixa etária devem ser adotadas para garantir um manejo e cuidado apropriados ( 69 ).
Na primeira infância, especialmente por volta dos 12 meses de idade, tornam-se evidentes mudanças na atividade motora, na expressividade emocional e no desenvolvimento da linguagem ( 70 ). Entre três e sete anos, surgem os primeiros sinais indicativos do TDAH, embora o diagnóstico formal ocorra posteriormente. Nessa fase, é comum a manifestação de comportamentos hiperativos. As estratégias recomendadas para esse estágio incluem o estabelecimento de rotinas consistentes e a adoção de métodos de ensino mais estruturados ( 11 ).
O diagnóstico do TDAH ocorre, geralmente, por volta dos sete anos, em função de dificuldades escolares ou comportamentais. Estudos comparativos demonstraram que crianças com TDAH apresentam desempenho inferior aos seus pares nos domínios social, emocional e acadêmico ( 11 ).
Durante o desenvolvimento deste estudo, diversas limitações foram identificadas, como a restrição linguística na seleção das fontes, ausência de dados relevantes em alguns estudos e artigos ilegíveis. Tais limitações impediram uma análise mais aprofundada das evidências.
O papel da enfermagem nas unidades de atenção primária à saúde pode interferir positivamente na efetividade das terapias complementares por meio da educação em saúde direcionada a pais e crianças com TDAH. Esse processo educativo, aliado a consultas que incentivam a participação ativa da família na definição de expectativas, contribui para uma maior adesão ao tratamento e fortalecimento do vínculo terapêutico com o paciente ( 71 ).
Além disso, esse papel estende-se ao ambiente escolar, onde os profissionais de enfermagem acompanham a criança, considerando aspectos comportamentais, psicossociais e pedagógicos ( 72 - 73 ).
Espera-se que enfermeiros, em conjunto com os demais profissionais da saúde, sejam capazes de incorporar essas práticas em suas consultas como recurso complementar ao tratamento farmacológico. Essas abordagens podem ser adaptadas às necessidades individuais de cada paciente, com o objetivo de proporcionar um cuidado integral e melhorar a qualidade de vida ao longo do tratamento.
Conclusão
O uso de terapias complementares apresenta potencial promissor para a melhora dos sintomas do TDAH infantil, com destaque especial para as terapias mente-corpo, como o neurofeedback; no campo da suplementação, o uso de ácidos graxos poli-insaturados, zinco e ferro; na fitoterapia, a utilização de Ginkgo biloba; e, entre as terapias dietéticas, a dieta oligoantigênica.
Essas intervenções podem contribuir para a melhora da atenção, da regulação comportamental, das habilidades motoras e do desempenho acadêmico em crianças diagnosticadas com TDAH, abordando aspectos relacionados à hiperatividade, impulsividade e desatenção. Entretanto, devido ao número limitado de estudos e à ausência de pesquisas recentes sobre determinadas terapias, as evidências quanto à eficácia de algumas dessas práticas ainda são inconclusivas.
O desenvolvimento de estudos experimentais, especialmente voltados para terapias menos utilizadas, pode oferecer base teórica para o uso seguro e a recomendação dessas práticas na atuação clínica. Além disso, tais estudos podem contribuir para melhores desfechos no tratamento do TDAH infantil.
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Como citar este artigo
Szychta LF, Sombra SEL, Lima GA, Ventura MWS, Oliveira BSB, Lima FET. Complementary therapies for the management of attention deficit hyperactivity disorder in children: a scoping review. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2025;33:e4701 [cited]. Available from: . https://doi.org/10.1590/1518-8345.7915.4701
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Editora Associada:
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