Objetivo: analisar o conceito do bem-estar socioemocional no contexto do cuidado em saúde.
Método: estudo teórico de análise de conceito orientado pelo método de Walker e Avant, organizado em oito etapas e operacionalizado mediante revisão de escopo. A busca se deu em sete fontes de dados, resultando na seleção de sete estudos para compor o corpus literário.
Resultados: o bem-estar socioemocional é caracterizado por atributos essenciais como equilíbrio emocional, percepção de suporte social, sensação de controle sobre a própria vida e habilidades de regulação emocional. Os antecedentes incluíram resiliência, suporte social, autoconhecimento, ambiente favorável, estabilidade emocional, autonomia e tomada de decisão, além de vínculos interpessoais positivos. Como consequentes, observaram-se melhora na qualidade de vida, aumento do engajamento social, redução de sintomas psicossociais e melhor desempenho em atividades cotidianas.
Conclusão: o estudo mostrou que o bem-estar socioemocional é um conceito multifacetado que transcende a saúde mental individual, abrangendo dimensões sociais, emocionais e culturais. Sua integração ao cuidado em saúde requer abordagens interdisciplinares que contemplem fatores individuais e sociais, promovendo um atendimento holístico e centrado no paciente.
Descritores:
Saúde Mental; Qualidade de Vida; Atenção à Saúde; Formação de Conceito; Satisfação Pessoal; Assistência Centrada no Paciente
Destaques:
(1) O bem-estar socioemocional é multifacetado e multidimensional. (2) O bem-estar socioemocional contribui para a melhoria da qualidade de vida. (3) Ter equilíbrio emocional é fundamental para lidar com emoções de forma adaptativa. (4) O suporte social contribui diretamente para a resiliência emocional. (5) A mensuração do bem-estar socioemocional envolve desafio conceitual e metodológico.
Objective: to analyze the concept of socio-emotional well-being in the context of health care
Method: concept analysis theoretical study based on the method of Walker and Avant, organized into eight stages, through scoping review. Seven data sources were searched, resulting in the selection of seven studies for the literature corpus.
Results: social-emotional well-being is characterized by essential attributes such as emotional balance, perceived social support, feeling of control over one’s life, and emotional regulation skills. Antecedent factors included resilience, social support, self-knowledge, supportive environment, emotional stability, autonomy and decision-making and positive interpersonal bonds. Consequent factors included improved quality of life, increased social engagement, reduced psychosocial symptoms, and better performance in daily activities.
Conclusion: the study showed that social-emotional well-being is a multifaceted concept that transcends individual mental health, encompassing social, emotional and cultural dimensions. Integrating social-emotional well-being into health care requires interdisciplinary approaches that consider individual and social factors, promoting holistic and patient-centered health care.
Descriptors:
Mental Health; Quality of Life; Delivery of Health Care; Concept Formation; Personal Satisfaction; Patient-Centered Care.
Highlights:
(1) Social-emotional well-being is multifaceted and multidimensional. (2) Social-emotional well-being contributes toward the improvement of quality of life. (3) Having emotional balance is key to dealing with emotions adaptively. (4) Social support contributes directly to emotional resilience. (5) Measuring social-emotional well-being involves a conceptual and methodological challenge
Objetivo: analizar el concepto de bienestar socioemocional en el contexto del cuidado en salud.
Método: estudio teórico de análisis de concepto guiado por el método de Walker y Avant, organizado en ocho etapas y operativizado mediante una revisión de alcance. La búsqueda se realizó en siete fuentes de datos, lo que dio como resultado la selección de siete estudios para conformar el corpus literario.
Resultados: el bienestar socioemocional está caracterizado por atributos esenciales como el equilibrio emocional, la percepción de apoyo social, la sensación de controlar la propia vida y habilidades de regulación emocional. Los antecedentes incluyeron resiliencia, apoyo social, autoconocimiento, entorno favorable, estabilidad emocional, autonomía y toma de decisiones, así como vínculos interpersonales positivos. Como resultado, se observaron mejoras en la calidad de vida, un mayor compromiso social, una reducción de los síntomas psicosociales y un mejor desempeño en las actividades cotidianas.
Conclusión: el estudio mostró que el bienestar socioemocional es un concepto multifacético que trasciende la salud mental individual y abarca dimensiones sociales, emocionales y culturales. Su integración en la atención sanitaria requiere enfoques interdisciplinarios que consideren los factores individuales y sociales, promoviendo una atención holística y centrada en el paciente.
Descriptores:
Salud Mental; Calidad de Vida; Atención a la Salud; Formación de Concepto; Satisfacción Personal; Atención Dirigida al Paciente
Destacados:
(1) El bienestar socioemocional es multifacético y multidimensional. (2) El bienestar socioemocional contribuye a una mejor calidad de vida. (3) Tener equilibrio emocional es esencial para gestionar las emociones de forma adaptativa. (4) El apoyo social contribuye directamente a la resiliencia emocional. (5) Medir el bienestar socioemocional implica desafíos tanto conceptuales como metodológicos.
Introdução
O bem-estar tem ganhado relevância crescente no campo da saúde, especialmente à medida que a atenção ao cuidado se amplia para além de aspectos puramente biológicos e começa a abarcar dimensões emocionais e sociais1. Essa perspectiva holística favorece práticas mais humanas e centradas na pessoa, com impacto direto na qualidade do cuidado prestado.
Compreender o bem-estar implica reconhecer que a saúde mental não se restringe à ausência de transtornos, mas envolve equilíbrio emocional, bem-estar psicológico e a capacidade de enfrentar os desafios da vida cotidiana. Assim, ela está intrinsecamente ligada à habilidade de cada indivíduo de lidar com o estresse, trabalhar de forma produtiva e contribuir para sua comunidade2-3.
A Organização Mundial da Saúde (OMS)4) define saúde mental como “um estado de bem-estar no qual o indivíduo desenvolve suas habilidades, enfrenta as tensões normais da vida, trabalha de forma produtiva e contribui para sua comunidade”. Esse conceito abrange dimensões emocionais, psicológicas e sociais, influenciando diretamente como as pessoas pensam, sentem, agem, lidam com o estresse, constroem relações interpessoais e tomam decisões saudáveis, sendo estes componentes essenciais e indissociáveis do bem-estar3.
Ao longo do tempo, o conceito de bem-estar evoluiu de uma visão restrita à ausência de doença para abordagens mais complexas, como o bem-estar subjetivo e o bem-estar psicológico, que consideram, respectivamente, a satisfação pessoal e a realização plena das potencialidades humanas3. Essa evolução evidencia que tanto a vivência de emoções positivas quanto a busca por propósito e crescimento são essenciais para uma vida plena. Contudo, sua complexidade ultrapassa essas dimensões individuais, incorporando também aspectos sociais e relacionais5.
Nesse contexto abrangente, o conceito de bem-estar socioemocional emergiu como uma perspectiva integradora, enfatizando a interação entre fatores sociais e emocionais. Esse constructo abrange a capacidade de lidar com desafios diários, desenvolver resiliência e manter relacionamentos saudáveis6. Essa perspectiva reflete uma compreensão mais profunda e multifacetada desse fenômeno, ao conceber o bem-estar socioemocional como um equilíbrio entre a regulação emocional, o estabelecimento de relações sociais e o sentido de propósito na vida7. Tais abordagens reforçam a compreensão do bem-estar socioemocional como um constructo multidimensional, essencial ao desenvolvimento integral e à qualidade de vida (QV) dos indivíduos.
Apesar do uso crescente do conceito de bem-estar socioemocional na literatura, ainda não há uma definição consensual, o que limita sua aplicação teórica e prática. A complexidade desse constructo exige que pesquisadores e profissionais de saúde considerem experiências subjetivas, influências culturais, sociais e dinâmicas familiares ao desenvolver estratégias de promoção e prevenção em saúde.
Ademais, a variedade de terminologias empregadas na literatura evidencia a necessidade de uma definição uniforme, fundamental para orientar tanto a prática clínica quanto a pesquisa. Nesse contexto, torna-se imprescindível clarificar o conceito de bem-estar socioemocional, o que fundamenta o objetivo deste estudo: analisar o conceito de bem-estar socioemocional no contexto do cuidado em saúde.
Método
Tipo de estudo
Estudo teórico de análise de conceito, desenvolvido com base no modelo proposto por Walker e Avant8 e operacionalizado mediante revisão de escopo9. A análise de conceito desenvolvida é uma abordagem sistemática amplamente utilizada na pesquisa em enfermagem para clarificar conceitos complexos e ampliar sua aplicação na prática clínica10.
O modelo8) compreende oito etapas: 1) seleção do conceito, que consiste na escolha do fenômeno a ser estudado; 2) determinação dos objetivos, quando se definem as finalidades da análise; 3) identificação dos possíveis usos, que explora como o conceito é empregado na literatura; 4) definição dos atributos essenciais, que estabelece as características principais do conceito; 5) identificação de um caso-modelo, que exemplifica o conceito de forma clara e representativa; 6) análise de outros casos, incluindo casos limítrofes, relacionados, contrários, para destacar diferenças e semelhanças; 7) identificação de antecedentes e consequentes, os fatores que precedem e resultam do conceito; e 8) definição de referenciais empíricos, que são indicadores utilizados para medir o conceito na prática.
Para sustentar esta análise, foi incorporada uma revisão de escopo9) (etapa 3), registrada no Open Science Framework (https://osf.io/h5zr6/) sob o DOI 10.17605/OSF.IO/H5ZR6, que subsidiou as etapas subsequentes do modelo.
Coleta de dados
Para a formulação da questão de pesquisa, utilizou-se o mnemônico PCC: População - Não especificada; Conceito - Bem-estar socioemocional; Contexto - Cuidados de saúde. Com base nessas definições, foi estabelecida a seguinte questão norteadora: Como o conceito de bem-estar socioemocional é abordado no contexto dos cuidados em saúde? As buscas ocorreram em novembro e dezembro de 2024, com a estratégia primária desenvolvida em conjunto com um profissional bibliotecário e ajustada para as oito fontes de dados [PubMed, EMBASE (Excerpta Medica dataBASE), Web of Science, Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL), MEDLINE (Medical Literature Analysis and Retrieval System Online), Scopus (Elsevier), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Google® Acadêmico, combinado com os operadores booleanos AND e OR (Figura 1).
Critérios de seleção
Os critérios de inclusão delimitados foram: estudos acessíveis na íntegra, publicados entre 2014 e 2024, período definido para contemplar produções recentes, nos idiomas português, espanhol e inglês; que continham a expressão “bem-estar socioemocional” no título, resumo ou palavras-chave, a garantir a relevância dos artigos com o tema central da pesquisa. Foram excluídos os seguintes estudos: cartas ao editor, editoriais, resumos e estudos de opinião e duplicados.
Todos os artigos identificados foram exportados para o gerenciador de revisões Rayyan® . Dois revisores avaliaram, às cegas, títulos, resumos e descritores baseados nos critérios elegíveis. As discordâncias foram resolvidas por um terceiro revisor. Além da seleção nas bases de dados, foi realizada uma busca manual nas listas de referências dos estudos incluídos.
Seleção dos estudos, tratamento e análise dos dados
A busca identificou 13.728 estudos, dos quais, 1.883 eram duplicados. Após a triagem de títulos, resumos e palavras-chave relacionados ao termo bem-estar socioemocional, 11.785 foram excluídos. Restaram 60 estudos para leitura completa, dos quais 53 foram descartados por não atenderem aos critérios de inclusão. Foram considerados apenas os artigos que abordaram explicitamente o conceito de bem-estar socioemocional, resultando em sete estudos incluídos na revisão final.
Após a seleção, os estudos foram organizados na seguinte disposição: autores e ano, pais, população e amostra, objetivo principal, conceito do bem-estar socioemocional no contexto da saúde e dimensões observadas, conforme ilustrado na Figura 2. A definição dos atributos essenciais do bem-estar socioemocional se deu por meio da seguinte questão: Quais são as características fundamentais que definem o bem-estar socioemocional? Para identificação dos seus antecedentes, formulou-se a pergunta: Quais eventos precedem o bem-estar socioemocional? Por fim, para determinar seus consequentes, considerou-se a questão: Quais eventos resultam do bem-estar socioemocional?
Uso de inteligência artificial
Os autores declaram a utilização do ChatGPT(https://chatgpt.com) para a elaboração da Figura 5, que apresenta um diagrama conceitual ilustrando as relações entre fatores associados ao bem-estar socioemocional. Os dados e a figura passaram por edição dos autores para aprimoramento e melhorias.
Resultados
A apresentação dos resultados está de acordo com as etapas de análise de conceito segundo Walker e Avant8.
Seleção e objetivo
“Bem-estar” é frequentemente definido como um estado de equilíbrio físico, mental e social, no qual o indivíduo se sente saudável, confortável e em harmonia consigo mesmo e com o ambiente. Esse estado envolve aspectos emocionais e psicológicos, como felicidade, segurança e realização, além de componentes físicos, como saúde e vitalidade5.
Adicionalmente, o bem-estar pode se estender ao contexto social, abrangendo relações interpessoais saudáveis e um senso de pertencimento à comunidade. De forma geral, ele representa a condição de estar bem de maneira holística, incluindo a ausência de sofrimento, uma boa QV e a capacidade de enfrentar desafios de maneira adaptativa e positiva5.
Embora a OMS não forneça uma definição específica para “bem-estar socioemocional”, o conceito parece estar intimamente relacionado à saúde mental, pois envolve a capacidade de lidar com emoções, estabelecer relações interpessoais saudáveis e manter um equilíbrio emocional. De acordo com o Australian Institute of Health and Welfare17, o bem-estar socioemocional é descrito como parte essencial do bem-estar mental e social, que vai além da ausência de doença e inclui a capacidade de manter relacionamentos positivos, gerenciar emoções e participar ativamente na comunidade, abrangendo resiliência emocional, senso de pertencimento e suporte social.
A falta de consenso nas definições do bem-estar socioemocional evidencia sua complexidade e reforça a necessidade de uma conceituação clara e contextualizada. Essa ausência de consenso limita sua aplicação em pesquisas e intervenções, dificultando comparações e generalizações. Estabelecer uma definição consistente, flexível e aplicável a diferentes contextos é essencial para consolidar o conceito, orientar práticas eficazes de cuidado e promover o bem-estar socioemocional de forma ampla e significativa.
Identificação dos possíveis usos do conceito
Este tópico identifica os possíveis usos do conceito de bem-estar, com base nos sete estudos selecionados na etapa três, que exploram suas aplicações, características e implicações práticas em diferentes contextos.
Um estudo conduzido1) na Turquia utilizou o conceito de bem-estar socioemocional para investigar como o estresse e a sobrecarga de trabalho de mães profissionais de saúde, durante a pandemia de COVID-19, afetaram o equilíbrio emocional e comportamental de suas crianças. O estudo destacou que o bem-estar socioemocional das crianças foi comprometido, resultando em maiores taxas de ansiedade, depressão e problemas comportamentais. Desse modo, o bem-estar socioemocional foi aplicado para entender como fatores externos, como o estresse parental, impactam a saúde mental infantil e reforçam a necessidade de políticas de apoio às famílias em situações de crise.
Em um contexto diferente, um estudo15 realizado em Cingapura e Austrália abordou indiretamente o bem-estar socioemocional ao validar um índice de utilidade para pacientes com retinopatia diabética. Embora o foco principal fosse a QV relacionada à saúde, o estudo destacou que a perda de visão pode levar ao isolamento social e à depressão, impactando o bem-estar socioemocional dos pacientes. Nesse caso, o conceito foi utilizado para enfatizar a importância de considerar aspectos emocionais e sociais no tratamento de condições crônicas.
Nos Estados Unidos da América (EUA), pesquisadores16) exploraram as experiências de pais de crianças com transtorno do espectro alcoólico fetal (TEAF), utilizando o conceito de bem-estar socioemocional para entender como o estresse e a sobrecarga emocional afetam a saúde mental dos pais. O estudo revelou que muitos pais enfrentam sentimento de culpa, estresse e isolamento, comprometendo seu equilíbrio emocional. Aqui, o conceito foi aplicado para destacar a necessidade de suporte psicológico e prático para os pais, promovendo um ambiente familiar mais saudável.
Na Austrália14, investigou-se o impacto da pandemia de COVID-19 na QV de idosos que recebem cuidados comunitários, utilizando o conceito de bem-estar socioemocional para explorar como o isolamento social e a interrupção de serviços afetaram a saúde mental dos idosos. O estudo mostrou que muitos idosos relataram solidão e depressão, destacando a importância de estratégias para manter o contato social e o suporte emocional. Nesse contexto, o conceito foi aplicado para enfatizar a necessidade de abordagens integradas que considerem tanto o cuidado físico quanto o emocional.
Outro estudo13, colaboração entre Austrália, Suíça, EUA e Reino Unido, focou o bem-estar socioemocional de adultos com perda auditiva. O conceito foi utilizado para discutir como a perda auditiva pode levar ao isolamento social e à depressão, impactando a QV. O estudo recomendou a inclusão de estratégias para promover o bem-estar socioemocional, como aconselhamento psicológico e suporte social, nos programas de reabilitação audiológica. O conceito foi aplicado para destacar a importância de uma abordagem holística no tratamento de condições crônicas.
Nos EUA12, analisou-se o envolvimento familiar entre residentes adultos de lares adotivos, utilizando o conceito de bem-estar socioemocional para explorar como a redução do contato familiar durante a pandemia afetou a saúde mental dos residentes. O estudo mostrou que muitos residentes relataram sentimentos de abandono e solidão, destacando a importância do envolvimento familiar para o equilíbrio emocional. Nesse caso, o conceito foi aplicado para reforçar a necessidade de políticas que fortaleçam os laços familiares e promovam o bem-estar socioemocional.
Na Nova Zelândia11, avaliaram-se os resultados de um programa comunitário de atividade física entre pais e filhas, utilizando o conceito de bem-estar socioemocional para explorar como a interação social e a atividade física impactam a saúde mental e emocional dos participantes. O estudo mostrou que o programa promoveu melhorias significativas no bem-estar socioemocional, fortalecendo os vínculos familiares e reduzindo o estresse. O conceito foi aplicado para destacar a importância de programas que integram atividade física e interação social para promover a saúde mental.
Ao analisar esses estudos, reforça-se que o bem-estar socioemocional é um conceito multidimensional, essencial para a QV em diferentes fases e contextos. Desde o impacto da pandemia na saúde mental infantil até os desafios enfrentados por idosos e adultos com condições crônicas, o equilíbrio emocional e social emerge como um fator crucial para o desenvolvimento humano.
Atributos essenciais
A definição dos atributos essenciais é uma etapa fundamental na análise de conceito, pois eles são características que esclarecem a essência do conceito, permitindo reconhecê-lo, diferenciá-lo e validar sua aplicabilidade em diferentes contextos8. A análise dos estudos selecionados revelou os atributos essenciais do bem-estar socioemocional.
Equilíbrio emocional
O equilíbrio emocional refere-se à capacidade de lidar com emoções de maneira estável e adaptativa, minimizando impactos negativos da ansiedade, do estresse e da tristeza. Ele é essencial para a manutenção da saúde mental e influencia diretamente a forma como os indivíduos enfrentam desafios cotidianos14,16.
A relevância do equilíbrio emocional fica evidente em diferentes contextos. Uma pesquisa14 que acompanhou idosos em cuidados comunitários durante a pandemia utilizou escalas de saúde mental e entrevistas semiestruturadas para analisar a relação entre equilíbrio emocional e QV. Os resultados indicaram que idosos com maior equilíbrio emocional apresentavam menores níveis de solidão e depressão, demonstrando a relevância desse atributo para o bem-estar socioemocional, especialmente em situações de vulnerabilidade.
Para além do impacto individual, o equilíbrio emocional também influencia o ambiente familiar. Estudo16 sobre pais de crianças com ou em risco de TEAF identificou que o equilíbrio emocional dos pais impacta diretamente o bem-estar das famílias. Pais com maior controle emocional apresentaram melhor adaptação às dificuldades enfrentadas, contribuindo para a saúde emocional de todos os membros da família. Esses achados reforçam que o equilíbrio emocional fortalece o indivíduo e desempenha um papel crucial nas relações interpessoais e na dinâmica familiar.
Percepção de suporte social
A percepção de suporte social relaciona-se ao sentimento de apoio recebido de familiares, amigos e comunidades. Desempenha um papel central na resiliência emocional e no enfrentamento de dificuldades, promovendo senso de pertencimento e segurança. Além disso, sentir-se apoiado está diretamente associado à confiança e à estabilidade emocional11,13.
A percepção de suporte social é um fator determinante para o bem-estar emocional, especialmente em grupos vulneráveis. Em pacientes com perda auditiva, sentir-se apoiado reduziu os níveis de estresse e facilitou a adaptação às limitações, conforme demonstrado por uma pesquisa que utilizou questionários e testes psicológicos13. No contexto familiar, o suporte foi essencial para o bem-estar socioemocional de residentes em lares adotivos, enquanto sua ausência, especialmente durante a pandemia de COVID-19, esteve associada a maior estresse e dificuldades emocionais12.
Além do ambiente familiar, o suporte da comunidade também exerce um papel fundamental. Um estudo que analisou a participação de pais e filhos em um programa de atividade física comunitária demonstrou que o apoio social fortaleceu os laços familiares e promoveu o sentimento de pertencimento, contribuindo para o bem-estar socioemocional dos participantes11.
Sensação de controle sobre a própria vida
A sensação de controle sobre a própria vida está relacionada à percepção de autonomia e à capacidade de tomar decisões que influenciam o próprio bem-estar. Esse atributo está fortemente associado à autoconfiança, independência e satisfação pessoal15.
A percepção de controle sobre a vida tem demonstrado um impacto significativo na adaptação a condições adversas. Um estudo15 com pacientes com retinopatia diabética, conduzido por meio de experimentos de escolha discreta e relatos de QV, observou que aqueles que se sentiam no comando das próprias decisões de saúde relataram maior satisfação e uma adaptação mais positiva à condição crônica. Isso evidencia a importância de se sentir no controle para o bem-estar emocional e a resiliência diante de condições de saúde complicadas.
Em um contexto semelhante, a pesquisa14 realizada com idosos em cuidados comunitários durante a pandemia de covid-19 destacou a relevância da autonomia na saúde emocional. Aqueles que mantiveram uma percepção de controle sobre suas vidas apresentaram menos ansiedade e melhor QV, sugerindo que a capacidade de gerenciar a própria vida, especialmente em momentos de grande incerteza, é fundamental para a manutenção da saúde emocional.
Habilidades de regulação emocional
As habilidades de regulação emocional envolvem a capacidade de reconhecer, compreender e gerenciar emoções de forma adaptativa, permitindo que os indivíduos enfrentem desafios sem desenvolver respostas desproporcionais de estresse ou ansiedade13.
A relevância desse atributo foi evidenciada em diferentes populações. Uma investigação16 com pais de crianças com TEAF, baseada em entrevistas e escalas de regulação emocional, apontou que aqueles com maior domínio dessas habilidades apresentaram melhor adaptação a desafios complexos, favorecendo o equilíbrio psicológico e a resiliência.
Além disso, uma revisão13 sobre o impacto da perda auditiva no bem-estar socioemocional de adultos destacou que a regulação emocional desempenha um papel essencial na adaptação à perda auditiva. Pacientes que demonstraram maior capacidade de gerenciar suas emoções enfrentaram os desafios da condição de maneira mais positiva, evidenciando que o desenvolvimento dessas habilidades pode mitigar os impactos negativos de limitações físicas sobre a QV. A Figura 3 mostra os atributos essenciais elencados.
Esses atributos são fundamentais para o bem-estar socioemocional e se manifestam em diferentes contextos. A percepção de suporte social fortalece o senso de pertencimento e conexão, enquanto a sensação de controle sobre a própria vida promove autonomia e reduz a ansiedade. O equilíbrio emocional permite lidar com estressores de forma adaptativa, impactando positivamente a saúde mental. Além disso, as habilidades de regulação emocional capacitam os indivíduos a gerenciar suas emoções de maneira eficaz, prevenindo reações desproporcionais e promovendo o bem-estar geral.
Caso modelo
Os casos são exemplos usados para ilustrar e esclarecer o conceito em estudo. Eles ajudam a diferenciar o conceito dos termos relacionados e a mostrar como ele pode ser aplicado em diferentes contextos8.
O caso modelo representa a manifestação completa do conceito de bem-estar socioemocional. L.P.M. 45 anos, professora universitária recentemente diagnosticada com câncer de mama em estágio inicial, desde o diagnóstico apresenta crises de ansiedade que se intensificam no período noturno. Iniciou acompanhamento profissional com psicoterapia, prática regular de meditação guiada e participação em grupo comunitário de artes da comunidade. Ao longo de oito meses, desenvolveu atributos essenciais do bem-estar socioemocional. L.P.M. demonstra capacidade de lidar com situações complexas associadas ao tratamento, mantém vínculos significativos com familiares e colegas, percebe-se apoiada em sua rede social e expressa sentimentos de esperança em relação ao futuro. Além disso, apresenta uma regulação saudável das emoções diante de situações estressoras, consegue ressignificar sua experiência de adoecimento e mantém um nível satisfatório de engajamento em atividades cotidianas. Como resultado, apresenta redução de angústias emocionais, melhor desempenho nas atividades cotidianas e maior QV. Esse caso reflete a manifestação integral do conceito de bem-estar socioemocional.
Análise de outros casos
Caso limítrofe
O caso limítrofe contém alguns, mas não todos os atributos essenciais do conceito8. L.G.P., 42 anos, com diagnóstico de depressão desencadeada por estressores laborais, iniciou acompanhamento com terapia cognitivo-comportamental e tratamento medicamentoso. Como complemento, passou a realizar atividades físicas regulares e a dedicar-se a práticas de lazer que lhe proporcionam prazer. Apesar da melhora inicial, com enfrentamento mais positivo e sensação de maior controle sobre a própria vida, ainda apresenta instabilidade emocional (humor deprimido, irritabilidade, ansiedade) e dificuldades na regulação emocional, especialmente diante de demandas relacionadas ao trabalho. Embora os sintomas depressivos tenham diminuído, persistem oscilações psicológicas significativas. Trata-se, portanto, de um caso limítrofe, em que alguns atributos do bem-estar socioemocional estão presentes, mas não de forma integral.
Caso contrário
O caso contrário exemplifica o “não conceito”, ou seja, a ausência total ou quase total dos atributos essenciais do conceito8. C.O.R., 38 anos, recém-mudado do interior para São Paulo-SP, apresenta transtornos de ansiedade e depressão. Embora tenha se consultado com um psiquiatra, não seguiu as recomendações médicas nem buscou acompanhamento psicológico ou terapêutico adicional. Manifesta episódios recorrentes de irritabilidade, humor deprimido, ansiedade e sensação de perda de controle. Vive isolado e sem redes de apoio, permanecendo grande parte do tempo recluso em seu quarto, sem engajamento em atividades sociais ou de lazer. Nesse contexto, os sintomas de ansiedade e depressão são agravados pela ausência de suporte social e estratégias adequadas de enfrentamento. Evidencia-se, assim, baixa QV, com ausência dos atributos essenciais do bem-estar socioemocional.
Caso relacionado
O caso relacionado ilustra uma situação que está associada ao conceito de bem-estar socioemocional8. G.T., 28 anos, estudante do sexto ano de medicina, apresenta estresse crônico, insônia e instabilidade emocional, durante grande parte do período letivo. Acredita estar com síndrome ansiosa e depressiva. Contudo, ao término da temporada de provas, observa-se uma melhora significativa do quadro, devido à diminuição do estresse e à retomada de atividades físicas, práticas de lazer e convivência social com amigos. Este caso está relacionado ao conceito, mas não contempla integralmente seus atributos essenciais, pois não há procura por avaliação profissional e acompanhamento terapêutico, essenciais para o desenvolvimento completo do bem-estar socioemocional.
Antecedentes e consequentes
Os antecedentes referem-se às causas ou circunstâncias que precedem a promoção do bem-estar socioemocional8. A análise dos estudos revelou que diversos fatores contribuem para o desenvolvimento desse conceito.
Resiliência
A capacidade de superar adversidades e se adaptar a circunstâncias desafiadoras desempenha um papel essencial no equilíbrio emocional e na manutenção do bem-estar socioemocional15. Indivíduos mais resilientes tendem a apresentar maior controle sobre a própria vida e a desenvolver estratégias mais eficazes para lidar com situações estressantes, o que favorece sua adaptação a diferentes contextos e contribui para melhoria da QV15.
Suporte social
O apoio emocional e prático oferecido por familiares, amigos ou redes comunitárias tem um impacto direto na redução do estresse e no fortalecimento do bem-estar. A presença de uma rede de suporte contribui para o enfrentamento de desafios e promove um senso de pertencimento, favorecendo a estabilidade emocional14. Além disso, ambientes que incentivam a interação social fortalecem os vínculos interpessoais e criam condições propícias para o desenvolvimento socioemocional saudável13.
Autoconhecimento
Pessoas com maior grau de autoconhecimento lidam melhor com desafios diários, evitando respostas impulsivas ou desproporcionais. Esse fator está diretamente ligado ao desenvolvimento da resiliência e ao fortalecimento das habilidades emocionais, contribuindo para uma melhor adaptação a diferentes circunstâncias da vida16.
Ambiente favorável
Um contexto que oferece segurança emocional, apoio social e acesso a recursos adequados influencia diretamente o bem-estar socioemocional. Ambientes acolhedores promovem maior estabilidade emocional e facilitam a criação de relações interpessoais positivas. A presença de espaços que estimulam interações saudáveis e proporcionam suporte contínuo ajuda a fortalecer a regulação emocional e a capacidade de enfrentamento de desafios16.
Estabilidade emocional
Manter um estado emocional equilibrado diante de situações adversas é um fator essencial para o bem-estar socioemocional. Indivíduos emocionalmente estáveis apresentam maior controle sobre suas ações e reações, o que favorece uma adaptação mais positiva a diferentes circunstâncias15. Essa estabilidade está relacionada à capacidade de regular emoções e enfrentar desafios de maneira racional e resiliente.
Autonomia e tomada de decisão
A percepção de controle sobre a própria vida está diretamente associada ao bem-estar socioemocional. Ter autonomia para tomar decisões, especialmente no gerenciamento da própria saúde e na organização da vida cotidiana, reduz níveis de ansiedade e promove maior satisfação pessoal. Sentir-se no comando das próprias escolhas fortalece a autoconfiança e proporciona um maior senso de realização e propósito15.
Vínculos interpessoais positivos
Relacionamentos saudáveis e interações sociais significativas são fundamentais para o bem-estar socioemocional. Laços interpessoais baseados em confiança e apoio mútuo oferecem segurança emocional e contribuem para a construção de um senso de pertencimentos14. Ambientes que incentivam essas conexões fortalecem a percepção de suporte social e promovem maior estabilidade emocional ao longo do tempo.
Os consequentes do bem-estar socioemocional referem-se aos resultados que surgem como consequência desse estado8.
Melhora na qualidade de vida
O bem-estar socioemocional contribui para um estado geral mais equilibrado, refletindo-se diretamente na QV. Indivíduos que apresentam maior estabilidade emocional e suporte social adequado enfrentam desafios com mais resiliência, demonstram maior satisfação pessoal e mantêm uma visão mais positiva da vida. Isso é perceptível na adaptação a condições crônicas de saúde, no enfrentamento de dificuldades familiares e no gerenciamento do estresse do dia a dia14.
Aumento do engajamento social
Pessoas que experimentam um estado emocional equilibrado tendem a buscar e manter conexões sociais de maneira mais ativa, participando de atividades comunitárias, estabelecendo laços mais sólidos com familiares e amigos e desenvolvendo um senso de pertencimento. Essa interação favorece a troca de apoio e cria um ciclo virtuoso no qual o contato social reforça o bem-estar emocional11.
Redução de sintomas psicossociais
A capacidade de regular emoções de maneira eficaz e a presença de uma rede de suporte confiável permitem que os indivíduos lidem melhor com situações adversas, minimizando impactos negativos à saúde mental. Em grupos vulneráveis, como idosos, doentes crônicos ou indivíduos que enfrentam mudanças significativas em suas vidas, a presença do bem-estar socioemocional pode ser um fator determinante para a prevenção de transtornos psicológicos13.
Melhor desempenho em atividades cotidianas
Indivíduos com maior equilíbrio emocional demonstram maior motivação, concentração e capacidade de adaptação, o que se reflete em um melhor rendimento no ambiente escolar, no trabalho e nas interações familiares. Crianças e adultos com elevado bem-estar socioemocional apresentam maior envolvimento em suas tarefas e uma abordagem mais positiva diante de desafios, favorecendo um funcionamento mais produtivo e eficiente1.
Os consequentes do bem-estar socioemocional evidenciam seus amplos benefícios, abrangendo aspectos emocionais, sociais e funcionais. A estabilidade psicológica favorece a participação ativa na vida social e a manutenção de uma boa QV, criando um ciclo positivo no qual indivíduos emocionalmente equilibrados tendem a desenvolver relações mais saudáveis e a enfrentar desafios com mais segurança. Dessa forma, promover e fortalecer o bem-estar socioemocional se torna uma estratégia essencial para melhorar a saúde mental e o bem-estar geral da população.
Na Figura 4, estão apresentados os antecedentes e consequentes do bem-estar socioemocional.
A Figura 5 apresenta um diagrama conceitual que ilustra as relações entre fatores associados ao bem-estar socioemocional, organizados em três níveis: antecedentes, atributos e consequentes.
Discussão
Definição de referenciais empíricos
Os referenciais empíricos são as ferramentas de medição que demonstram a ocorrência do conceito, requerendo a identificação de indicadores observáveis, métodos de mensuração e padrões de manifestação8.
Os estudos analisados fornecem evidências sobre como o bem-estar socioemocional se manifesta e é influenciado por fatores externos, permitindo uma compreensão mais estruturada de suas características fundamentais. No entanto, sua mensuração ainda enfrenta desafios conceituais e metodológicos, pois não há um instrumento que capture integralmente a complexidade das experiências associadas a esse conceito.
A saúde mental e o bem-estar são constructos multideterminados, moldados por fatores biológicos, sociais e culturais que influenciam a percepção, a vivência emocional e as estratégias de enfrentamento e interação social dos indivíduos. Dado que cada contexto cultural define parâmetros próprios para o que constitui saúde mental, a sensibilidade a essas nuances é imperativa para a relevância e a eficácia de qualquer intervenção. Essa complexidade inerente demanda o desenvolvimento de instrumentos avaliativos capazes de apreender suas múltiplas dimensões, viabilizando uma mensuração abrangente e devidamente contextualizada do conceito2.
Os estudos revisados utilizaram instrumentos padronizados para avaliar diferentes dimensões do bem-estar socioemocional, incluindo QV, apoio social e bem-estar emocional. A Escala de Rede Social de Lubben (LSNS-6) foi empregada para medir o apoio social percebido, com foco nas redes de apoio familiar e de amigos. Já o EQ-5D-5L (EuroQoL-5D-5L) avaliou a qualidade de vida relacionada à saúde(QVRS) em cinco dimensões: mobilidade, autocuidado, dor/desconforto, atividades habituais e sintomas de ansiedade/depressão14.
Outros instrumentos foram aplicados para mensurar aspectos específicos do bem-estar socioemocional em diferentes populações. A Escala de Avaliação Social e Emocional Breve (BITISEA), por exemplo, foi utilizada para avaliar a saúde social e emocional de crianças de até três anos de idade1. No contexto da assistência auditiva, questionários como o Patient Health Questionnaire-4 (PHQ-4), o Questionário de Perda Auditiva de Aceitação e Ação, o Questionário de Restrições de Participação Social (SPARQ) e sua versão reduzida de cinco itens (SIM), além do Inventário de Handicap Auditivo para Idosos (HHIE-S), foram recomendados para investigar o impacto da perda auditiva no bem-estar socioemocional13.
Além disso, um estudo multicêntrico15 incorporou o bem-estar socioemocional ao desenvolvimento do Disease-Related Utility Index (DRU-I), uma escala voltada para a avaliação da QV relacionada à audição. Nessa escala, o bem-estar socioemocional foi considerado uma das cinco dimensões centrais da QV dos pacientes. No entanto, a complexidade desse constructo exige uma abordagem mais aprofundada, que contemple suas múltiplas dimensões e os fatores que o influenciam, permitindo uma avaliação mais abrangente e precisa.
É importante destacar que nenhum dos estudos revisados aplicou ou desenvolveu uma escala que meça objetivamente o bem-estar socioemocional. As ferramentas utilizadas avaliam aspectos correlacionados, como sintomas de depressão, ansiedade e satisfação com a vida, mas não capturam o constructo de forma abrangente e específica. Isso evidencia uma lacuna na literatura quanto à mensuração direta do bem-estar socioemocional.
A análise dos estudos revisados revela que o bem-estar socioemocional é um constructo multidimensional, influenciado por diversos fatores, como a adaptação ao estresse12, a qualidade das relações interpessoais15 e o apoio social14. Além disso, conceitos como resiliência emocional16, autoestima13, suporte familiar11 e adaptação social1 são fundamentais para promover o bem-estar socioemocional, especialmente em contextos adversos, como crises de saúde pública e doenças crônicas. Esses fatores têm um impacto significativo na saúde mental de indivíduos de diferentes faixas etárias e são essenciais para a elaboração de intervenções mais eficazes e personalizadas.
Assim, é crucial que as estratégias de promoção do bem-estar socioemocional sejam integradas às práticas de cuidados de saúde e políticas públicas, reconhecendo a complexidade e a interdependência dos fatores que sustentam a saúde mental e emocional ao longo da vida18. As intervenções devem ser adaptadas às necessidades específicas de cada população, garantindo que os aspectos emocionais sejam efetivamente incorporados às abordagens voltadas para a saúde e QV.
Um ponto central que emerge da análise é que, embora diferentes contextos em que possa ser investigado, como cuidados paliativos19, dietas terapêuticas20, doenças crônicas21 ou experiências de minorias culturais22-24, em todos os casos o bem-estar socioemocional aparece como um mediador da adaptação ao adoecimento e às adversidades. Isso reforça a ideia de que a saúde não pode ser compreendida apenas em termos biomédicos, mas também deve ser entendida como um fenômeno que integra processos emocionais, relações sociais e condições estruturais de vida.
Outro aspecto relevante é a dimensão relacional do bem-estar socioemocional. Estudos realizados tanto em populações indígenas22-24 quanto em contextos clínicos19 revelam que a qualidade das conexões sociais, o apoio comunitário e a valorização cultural desempenham um papel central na preservação do bem-estar socioemocional. Essa perspectiva amplia a compreensão do constructo, afastando-o de uma leitura individualizada e aproximando-o de uma visão ecossistêmica, na qual família, comunidade e cultura são determinantes.
A discussão também aponta para a importância da equidade em saúde como fator determinante do bem-estar socioemocional. Estudos21,25 realizados durante a pandemia de COVID-19 evidenciam como determinantes sociais, como renda, acesso a serviços e suporte social, afetam diretamente o bem-estar socioemocional. Esses achados reforçam que as políticas públicas precisam considerar que a vulnerabilidade social se traduz não apenas em pior desfecho clínico, mas também em maior sofrimento emocional e social, reforçando a interdependência entre desigualdade estrutural e saúde mental.
Nesse contexto, é fundamental reconhecer que o conceito de bem-estar varia significativamente entre indivíduos e comunidades, moldado por fatores como contexto sociocultural, experiências pessoais e valores coletivos. Longe de ser um conceito estático ou universal, o bem-estar se configura como uma construção dinâmica e situada, cuja compreensão exige a integração de múltiplas perspectivas. Essa variabilidade semântica sublinha a importância de abordagens sensíveis às particularidades de cada grupo26.
Cabe destacar que os estudos analisados revelam que o bem-estar socioemocional deve ser compreendido como um constructo multidimensional e dinâmico, atravessado por experiências de vida, contextos culturais e condições sociais3. Ao mesmo tempo, essas análises apontam para uma lacuna importante: a ausência de instrumentos específicos que mensurem de forma direta essa dimensão. Essa limitação metodológica não invalida os avanços teóricos, mas indica a necessidade de desenvolver medidas mais abrangentes, que captem a complexidade do constructo e sirvam de base para práticas de cuidado e políticas públicas orientadas para a promoção da saúde integral20,24-25.
Uma limitação desta análise de conceito reside na falta de padronização terminológica e conceitual nos estudos sobre o bem-estar socioemocional. A diversidade de definições e terminologias empregadas dificulta a comparação de resultados entre diferentes pesquisas, comprometendo a construção de uma base conceitual coesa. Além disso, o recorte temporal adotado pode ter excluído pesquisas relevantes publicadas fora do período analisado, limitando a abrangência da revisão. Da mesma forma, a utilização apenas do Google® Acadêmico como fonte de literatura cinzenta pode ter limitado o acesso a perspectivas complementares.
Conclusão
O bem-estar socioemocional é um constructo multidimensional, que vai além da saúde mental individual, englobando interações sociais, emocionais e culturais. Fatores como suporte social, relações interpessoais, contexto sociocultural e condições de vida influenciam diretamente sua manifestação e percepção pelos indivíduos, destacando a necessidade de compreender o conceito de forma integrada e contextualizada.
A análise de conceito realizada contribui para consolidar o entendimento do bem-estar socioemocional, oferecendo suporte para a elaboração de políticas públicas e intervenções de cuidado que integrem aspectos emocionais, sociais e culturais. Ao reconhecer a variabilidade do conceito entre diferentes contextos e populações, torna-se possível promover estratégias mais eficazes voltadas à saúde integral e à QV.
Declaração de Disponibilidade de Dados:
Todos os dados gerados ou analisados durante este estudo estão incluídos neste artigo publicado.
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Apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), processo nº 303955/2022-8, Brasil.
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Como citar este artigo:
Ribeiro CO, Kalinke LP, Salgado NFOG, Nogueira LA, Pinto DL, Barroso TMMDA. Social-emotional well-being in the context of health care: concept analysis. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2026;34:e4798 [cited ano mês dia ]. Available from: URL .https://doi.org/10.1590/1518-8345.8071.4798
Editado por
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Editora Associada:
Maria Lúcia Zanetti


Fonte: OpenAI *QV = Qualidade de vida