Open-access Evidência psicométrica do Inventário de Sexismo Ambivalente em graduandos de Enfermagem de uma instituição pública*

Objetivo:  verificar a consistência interna e estrutural do Inventário do Sexismo Ambivalente em jovens do curso de graduação de Enfermagem.

Método:  estudo metodológico, de corte transversal, realizado com participantes jovens universitários, matriculados no curso de graduação em Enfermagem de uma universidade pública. Os dados foram obtidos por meio de questionários sociodemográficos/acadêmicos e Inventário de Sexismo Ambivalente. A análise realizada utilizou correlação de Pearson, alfa de Cronbach, correlação intraclasse, teste t e razão qui-quadrado e graus de liberdade, além de análise fatorial confirmatória para testar a consistência da existência do modelo bifatorial.

Resultados:  a amostra foi composta por 305 graduandos. O modelo bifatorial oblíquo apresentou indicadores estatísticos que justificam a consistência da estrutura bifatorial do sexismo na população-alvo do estudo. Além disso, os indicadores psicométricos do inventário revelaram resultados satisfatórios. A análise de regressão preditiva confirmou a estrutura, demonstrando sua consistência e robustez para avaliar tanto o sexismo hostil quanto o sexismo benevolente entre os jovens universitários de Enfermagem.

Conclusão:  foi identificado suporte à teoria do sexismo ambivalente, refletindo consistência do modelo bifatorial oblíquo. A análise das propriedades psicométricas do inventário, incluindo validade e confiabilidade, reforça sua aplicabilidade e relevância na pesquisa sobre questões de gênero na área da saúde.

Descritores:
Sexismo; Análise Fatorial; Educação em Enfermagem; Enfermagem; Preconceito; Direito das Mulheres


Destaques:

(1) A escala comprovou a existência do modelo do sexismo ambivalente nestes graduandos.

(2) Apresentou escores alfas e ICC acima do padrão psicométrico mínimo exigido.

(3) A consistência interna do inventário demonstrou maior precisão quando comparada a outros estudos.

(4) A estrutura multidimensional do inventário retrata uma forma de sexismo moderno.

Objective:  to verify the internal and structural consistency of the Ambivalent Sexism Inventory in young undergraduate nursing students.

Method:  this is a cross-sectional methodological study carried out with young university students enrolled in the undergraduate Nursing course at a public university. Data was obtained by means of a sociodemographic/academic questionnaire and the Ambivalent Sexism Inventory. The analysis used Pearson’s correlation, Cronbach’s alpha, intraclass correlation, t-test and chi-square ratio and degrees of freedom, as well as confirmatory factor analysis to test the consistency of the existence of the bifactor model.

Results:  the sample consisted of 305 undergraduates. The oblique bifactor model showed statistical indicators that justify the consistency of the bifactor structure of sexism in the study’s target population. In addition, the psychometric indicators of the inventory showed satisfactory results. The predictive regression analysis confirmed the structure, demonstrating its consistency and robustness for assessing both hostile sexism and benevolent sexism among young university nursing students.

Conclusion:  support for the theory of ambivalent sexism was identified, reflecting the consistency of the oblique bifactor model. The analysis of the psychometric properties of the inventory, including validity and reliability, reinforces its applicability and relevance in research on gender issues in the health area.

Descriptors:
Sexism; Factor Analysis Statistical; Education Nursing; Nursing; Prejudice; Women’s Rights


Highlights:

(1) Phlebitis was the most prevalent complication.

(2) Pressure in the bag was associated with catheter removal before indication.

(3) Length of stay and use of sedation were related to the onset of phlebitis.

Objetivo:  verificar la consistencia interna y estructural del Inventario de Sexismo Ambivalente en jóvenes del curso de pregrado en Enfermería.

Método:  estudio metodológico, de corte transversal, realizado con participantes jóvenes universitarios, matriculados en el curso de pregrado en Enfermería de una universidad pública. Los datos fueron obtenidos mediante cuestionario sociodemográfico/académico e Inventario de Sexismo Ambivalente. El análisis realizado utilizó correlación de Pearson, alfa de Cronbach, correlación intraclase, prueba t y razón chi-cuadrado y grados de libertad, además de análisis factorial confirmatorio para probar la consistencia de la existencia del modelo bifactorial.

Resultados:  la muestra estuvo compuesta por 305 estudiantes de pregrado. El modelo bifactorial oblicuo presentó indicadores estadísticos que justifican la consistencia de la estructura bifactorial del sexismo en la población objetivo del estudio. Además, los indicadores psicométricos del inventario revelaron resultados satisfactorios. El análisis de regresión predictiva confirmó la estructura, demostrando su consistencia y robustez para evaluar tanto el sexismo hostil como el sexismo benevolente entre los jóvenes universitarios de Enfermería.

Conclusión:  se identificó apoyo a la teoría del sexismo ambivalente, reflejando consistencia del modelo bifactorial oblicuo. El análisis de las propiedades psicométricas del inventario, incluida la validez y confiabilidad, refuerza su aplicabilidad y relevancia en la investigación sobre cuestiones de género en el área de la salud.

Descriptores:
Sexismo; Análisis Factorial; Educación Enfermería; Enfermería; Prejuicios; Derechos de las Mujeres


Destacados:

(1) La escala comprobó la existencia del modelo de sexismo ambivalente en estos estudiantes de pregrado.

(2) Presentó puntajes alfa e ICC por encima del estándar psicométrico mínimo exigido.

(3) La consistencia interna del inventario demostró mayor precisión en comparación con otros estudios.

(4) La estructura multidimensional del inventario refleja una forma de sexismo moderno.

Introdução

O preconceito associado ao gênero continua a ser uma questão atual no século XXI. Apesar do avanço científico, observa-se que a construção patriarcal ainda produz o cultivo da dominação masculina nas relações sociais, desencadeando que mulheres com diferentes características permaneçam alvo de variadas situações decorrentes da condição de ser mulher, como a atribuição de um papel passivo, em que o processo de submissão feminina é gradualmente considerado legítimo, reforçando os estereótipos relacionados ao sexo e gênero socialmente construídos(1-2).

As visões estereotipadas a respeito de mulheres e homens influenciam na formação e na estruturação do sexismo. O termo “sexismo” pode ser definido como o conjunto de estereótipos relacionados à aparência, aos atos, às habilidades, às emoções e ao papel apropriado na sociedade, que é imposto de acordo com o gênero. Apesar de também estereotipar o homem, o sexismo frequentemente reflete preconceitos mais hostis contra o gênero feminino, manifestando-se de maneira institucional e nas relações interpessoais(3-4). Assim como na definição tradicional de preconceito, o sexismo se camulfla na sociedade e nas interações sociais, nem sempre se apresentando de forma considerada negativa(2-5).

Na Teoria do Sexismo Ambivalente (TSA), desenvolvida para entender a relação entre homens e mulheres (cisgênero e heterossexuais), apresentada pelos autores Glick e Fiske em 1996, o sexismo é entendido de duas formas: hostil e benévolo, refletindo, de toda maneira, a concepção de inferioridade das mulheres(6). Com base na teoria, os mesmos autores desenvolveram um instrumento capaz de identificar e avaliar esses tipos de sexismo. O chamado Inventário do Sexismo Ambivalente (ISA), utilizado como base neste estudo, busca quantificar as expressões do sexismo justamente em sua estrutura bifatorial (atitudes sexistas hostis e benévolas).

Originalmente desenvolvido em inglês, o ISA consistia, inicialmente, em 140 itens. Após adaptações, uma versão reduzida de 22 itens foi aplicada em diversas amostras, demonstrando coeficientes de consistência interna aceitáveis nos estudos. Esses itens compõem o instrumento final e possibilitam a avaliação dos estereótipos assumidos pelos gênero masculino e feminino em relação às duas dimensões do sexismo(6).

Os participantes avaliam as afirmações quanto à concordância ou à discordância. Os itens ISA 01, ISA 03, ISA 06, ISA 08, ISA 09, ISA 12, ISA 13, ISA 17, ISA 19, ISA 20 e ISA 22 avaliam crenças benevolentes, como “as mulheres devem ser queridas e protegidas pelos homens” e “o homem está incompleto sem a mulher”. Enquanto isso, os itens ISA 02, ISA 04, ISA 05, ISA 07, ISA 10, ISA 11, ISA 14, ISA 15, ISA 16, ISA 18 e ISA 21 exploram crenças hostis, como “as mulheres tentam ganhar poder controlando os homens” e “as mulheres feministas estão fazendo exigências completamente irracionais aos homens”(6).

Outras escalas e instrumentos foram criados com o objetivo de identificar e medir o sexismo nos diferentes contextos da sociedade, mas a escolha pelo ISA deu-se por sua ampla utilização e validação em diversos estudos ao redor do mundo, sendo reconhecido como uma ferramenta eficaz para avaliar as atitudes sexistas em diferentes contextos(7-11).

O ISA tem revelado indicadores psicométricos com amostras em países como Estados Unidos, Chile, México, Coreia, Alemanha e Brasil, garantindo a sua estrutura bifatorial atribuída às atitudes sexistas hostis e benevolentes(7). No Brasil, o ISA foi adaptado e validado por Formiga, Santos e Gouveia(5). O inventário vem mantendo a qualidade psicométrica ao longo dos últimos anos em amostras de homens, grupo de psicólogos, militares e na comparação entre brasileiros e portugueses(8-11), porém ainda não é utilizado na enfermagem.

Para melhor entendimento, o sexismo pode ser comparado a um iceberg, em que a maior parte fica encoberta, sendo visível apenas a sua ponta. O sexismo hostil seria a ponta visível do iceberg, a expressão mais flagrante e explícita do preconceito, em sua forma tradicional: a mulher é considerada inferior ao homem, sendo incapaz de exercer os mesmos papéis que ele. É marcado pela rejeição, antipatia e intolerância em relação ao papel da mulher como figura de poder e decisão, menosprezando as mulheres que desafiam os papéis conservadores e as ideologias tradicionais de gênero(5,12).

A parte encoberta do icerberg é considerada a expressão mais moderna do sexismo. De maneira benévola, apresenta ações aparentemente não preconceituosas, subjetivamente positivas, que definem a mulher como uma identidade dependente, frágil, sensível, que necessita de amparo e atenção do homem. Baseia-se também na negação da existência da discriminação contra a mulher, logo, em um antagonismo contra as atuais lutas das mulheres por maior inserção na sociedade(3,13).

O sexismo cotidiano também está presente no ambiente acadêmico. A universidade é um espaço de reprodução social, onde ocorre a mesma socialização das relações de gênero presentes do “lado de fora”, ou seja, fora de suas paredes. E, mesmo sendo considerada um espaço de pluralidade de pensamentos, nela podem multiplicar-se atitudes violentas de discriminação e intolerância. Além disso, nesse meio conservam-se fortes estruturas hierárquicas que favorecem as relações desiguais(14).

A formação e desenvolvimento dos estudantes de enfermagem como profissionais depende de características relacionais e ambientais(12). A enfermagem é considerada uma profissão historicamente feminina por suas características e pelo quantitativo prevalente de mulheres, encontrando na desigualdade de gênero um indicador de maior vulnerabilidade. As experiências sexistas, injustas e evitáveis devem ser estudadas para melhor formar os jovens e, consequentemente, influenciar positivamente suas práticas futuras. A escassez na produção de estudos em relação à utilização do ISA na população de jovens graduandos de enfermagem demonstra que ainda existem lacunas no nosso conhecimento sobre a desigualdade e o sexismo nesse contexto. São necessários estudos que visem pesquisar e explorar o sexismo no meio universitário e nos cursos de enfermagem.

Dessa forma, este estudo tem por objetivo verificar a consistência interna e estrutural do Inventário do Sexismo Ambivalente aplicado em jovens do curso de graduação de enfermagem.

Método

Delineamento do estudo

Trata-se de um estudo metodológico, de corte transversal, com uma abordagem quantitativa, redigido de acordo com a ferramenta STROBE (Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology).

Cenário do estudo

O estudo foi realizado em uma Instituição de Ensino Superior (IES) pública do Rio de Janeiro - RJ, Brasil: Universidade do Estado do Rio de Janeiro. A escolha pela IES se deu devido a sua renomada reputação na área de enfermagem e por ser um polo de pesquisa internacionalmente reconhecido.

População e amostra

A população-alvo deste estudo foi composta por graduandos de enfermagem matriculados entre julho e outubro de 2022, totalizando 352 estudantes. Todos os estudantes que atendiam aos critérios de inclusão – maiores de 18 anos e com matrícula ativa – foram convidados a participar do estudo. Após a aplicação dos critérios de exclusão, que envolviam a não localização do estudante após três tentativas, a amostra final foi composta por 305 participantes. Para determinar o tamanho da amostra, foram consideradas as recomendações preconizadas na literatura para a realização da análise fatorial confirmatória, que sugerem a participação de, pelo menos, 200 a 300 participantes para assegurar a robustez das estimativas dos parâmetros do modelo(15). Assim, o número de 305 participantes foi considerado adequado para a realização das análises.

Coleta de dados

A coleta foi realizada durante os meses de junho a outubro de 2022. Os dados foram obtidos por meio de instrumento autoaplicável. Inicialmente, a secretaria do curso disponibilizou a lista nominal dos discentes matriculados por períodos e os horários das disciplinas. Dessa forma, após contato com o docente responsável pela disciplina selecionada, realizou-se, de forma padronizada, a apresentação da pesquisa e a distribuição do instrumento em sala de aula. Os alunos que se enquadravam nos critérios de inclusão foram convidados a participar e preencher o instrumento de forma individual. Os discentes de enfermagem levaram em média 30 minutos para concluir o preenchimento das questões.

O instrumento de coleta de dados foi dividido em dois blocos: o bloco I abordou aspectos sociodemográficos como sexo, idade, estado civil, identidade e expressão de gênero, orientação sexual, ocupação, religião, renda familiar, moradia e lazer. Já o bloco II consistiu no Inventário de Sexismo Ambivalente - ISA(5-6).

O inventário, sendo autoaplicável, permitiu que o estudante indicasse o quanto estava de acordo com o conteúdo expresso, utilizando para isso uma escala de quatro pontos com as seguintes possibilidades de respostas: 1 = Discordo totalmente; 2 = Discordo; 3 = Concordo e 4 = Concordo totalmente.

Não foram identificados itens que geraram dificuldades de compreensão por parte dos alunos de enfermagem durante o processo de coleta de dados.

Tratamento e análise dos dados

Os dados foram organizados, tabulados e analisados no software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versão 25.0. A análise descritiva das características da população foi expressa por meio de frequências (absoluta e relativa) para as variáveis categóricas. Já para as variáveis quantitativas, foram utilizadas medidas de tendência central (média, mediana) e de dispersão (desvio-padrão) e os cálculos referentes à correlação de Pearson, alfa de Cronbach (α), correlação intraclasse e razão qui-quadrado e graus de liberdade.

Na verificação da relação do conteúdo dos 22 itens do ISA, a partir da sua representatividade comportamento-domínio, utilizou-se a análise correlacional para avaliar a relação teórica apresentada no instrumento desenvolvido pelos autores supracitados, bem como as situações especificadas nos itens e o quanto este instrumento representa os aspectos esperados. Para isso, utilizou-se a análise correlacional, realizando o cálculo de coeficiente de correlação de Pearson.

Tendo assumido, teoricamente, que o conteúdo dos itens do sexismo discrimina e representa o referido conceito e a proposta teórico-empírica da bifatorialidade do construto (isto é, seximo ambivalente, estruturado em sexismo benévolo e hostil), empregou-se o pacote estatístico Amos Graphics 24.0, destinado à análise fatorial confirmatória para a qual hipotetizou o modelo bifatorial, observado pelos autores supracitados, a partir do qual esperava-se que a organização item-fator confirmasse uma associação semelhante já observada.

Utilizou-se a análise fatorial confirmatória para testar a consistência da existência do modelo bifatorial do sexismo nos alunos do curso de graduação em enfermagem. Optou-se por deixar livres as covariâncias (phi, φ), revelando indicadores de qualidade de ajuste para o modelo proposto próximos às recomendações apresentadas na literatura(15-16).

Dessa forma, considerou-se como entrada a matriz de covariâncias o estimador Maximum Likelihood (ML). Sendo um tipo de análise estatística mais criteriosa e rigorosa, buscou-se avaliar a estrutura teórica do ISA, tendo como orientação empírica e axiomática as propostas Glick e Fiske(6) e Formiga, Santos e Gouveia(5), referentes à bifatorialidade. No que se refere a esta análise, foram considerados os seguintes indicadores estatísticos para avaliação da qualidade fatorial: qui-quadrado/graus de liberdade (χ²/gl); raiz quadrada média residual (RMR); goodness-of-fit index (GFI) e adjusted goodness-of-fit index (AGFI); comparative fit index (CFI); Tucker-Lewis index (TLI); root-mean-square error of approximation (RMSEA); expectedcross-validation index (ECVI) e consistent Akaike information criterion (CAIC); Akaike’s information criterion (AIC); Browne-Cudeck criterion (BCC); Bayes information criterion (BIC); cálculo de confiabilidade composta (CC) e o da variância média extraída (VME); alfa de Cronbach (α); critério de Fornell e Larcker e variância extraída média (AVE); coeficiente de correlação interclasse (ICC).

Durante o tratamento e análise dos dados, os testes estatísticos foram empregados de maneira integrada para investigar as propriedades psicométricas dos itens do ISA. Essa abordagem permitiu não apenas uma análise da estrutura bifatorial do sexismo, conforme proposto pela teoria subjacente ao instrumento, mas também validou empiricamente sua consistência.

Aspectos éticos

Este estudo obedeceu aos princípios éticos propostos pela Resolução 674/22 do Conselho Nacional da Saúde. Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE): 59881522.0.0000.5282.

Resultados

A amostra foi composta por 305 alunos, prevalecendo o sexo feminino, com o total de 266 estudantes, perfazendo 87,2% da população. A faixa etária predominante foi evidenciada entre 20-24 anos (n=211; 69,2%), com média de idade de 23 anos (desvio-padrão de 4,5). Identificou-se que o participante mais novo possuía 18 anos e o mais velho 56 anos. Em relação à cor/raça, 21,0% foram identificados como pretos (n=64), 30,8% como pardos (n=94), e 47,9% declararam-se brancos (n=146). A maioria dos jovens era solteira (n=281; 92,1%), com renda familiar entre um a três salários mínimos (n=183; 60%).

Para garantir a qualidade da amostra, incluiu-se na avaliação o critério da multicolinearidade. Observou-se que as correlações entre os parâmetros de Tabachnick e Fidell tiveram valor de r ≤ 90, variando entre -0,08 e 0,48, indicando a ausência de variáveis com alto grau de correlação, permitindo, assim, o desenvolvimento de modelos preditivos e/ou correlacionais com baixo erro de medida.

Observa-se na Tabela 1 que os alunos foram capazes de identificar e avaliar o sexismo no contexto verificado, mostrando que todos os itens foram significativos na sua discriminação. O cálculo de correlação de Pearson (r) para os 22 itens revelou correlações fortes e positivas com o construto geral do sexismo (pontuação total), todas significativas. Isso garantiu a direção conceitual e empírica do construto, não excluindo qualquer item da medida pretendida.

A análise fatorial confirmatória (AFC) revelou que o modelo bifatorial oblíquo (onde os fatores se correlacionam) apresentou indicadores estatísticos que justificam a consistência da estrutura bifatorial do sexismo na população alvo do estudo, hostil e benévolo, conforme demonstrado na Tabela 2.

Também, ao observar os indicadores estatísticos de comparação que sugerem uma avaliação parcimoniosa (AIC, BIC e BCC) do modelo fatorial pretendido em relação ao de hipótese, verifica-se que o modelo bifatorial esperado teve indicadores psicométricos fortes, pois acompanha o CAIC e ECVI, destinados à verificação da adequabilidade do modelo estrutural a se confirmar (Tabela 3).

Tabela 1
- Análise discriminativa, representatividade de conteúdo e discriminação dos itens do Inventário de Sexismo Ambivalente em graduandos de enfermagem (n = 305). Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2022
Tabela 2
- Indicadores psicométricos da estrutura fatorial do Inventário de Sexismo Ambivalente em graduandos de enfermagem (n = 305). Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2022
Tabela 3
- Indicadores psicométricos de parcimônia para a comparação da estrutura fatorial-conceitual do Inventário de Sexismo Ambivalente em graduandos de enfermagem (n = 305). Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2022

Nota-se que todas as saturações (Lambdas, λ) estiveram dentro do intervalo esperado |0 - 1|, o qual revelou não haver problema da estimação proposta da fatorialidade do sexismo (Tabela 4). Além disso, elas foram estatisticamente diferentes de zero (t > 1,96, p < 0,05) comprovando a existência do modelo bifatorial oblíquo, revelando uma associação Phi (Φ), positiva e forte, de 0,68, entre os fatores do sexismo hostil e benévolo. Nesta condição, provavelmente, o aluno que apresenta escores mais altos em uma dimensão também pontuará alto na outra dimensão (Tabelas 3 e 4).

Salienta-se também que os indicadores de confiabilidade composta (CC) e variância média extraída (VME), que são referentes à validade do construto, apresentaram valores iguais ou superiores aos exigidos na literatura(15-16). Especificamente, para a dimensão do sexismo hostil, os valores de CC e VME foram de 0,90 e 0,50, respectivamente. Já para o sexismo benevolente, os valores foram de 0,81 e 0,52. Esses resultados evidenciam a confiabilidade e a validade convergente do construto, demonstrando que a estrutura bifatorial é adequada numa amostra de jovens graduandos de enfermagem.

Buscando oferecer maior garantia psicométrica desses alfas, utilizou-se também a correlação intraclasse. Assim considerado, observou-se que os alfas para as medidas psicológicas utilizadas são consistentes e garantem a avaliação dos construtos para esses jovens. O Coeficiente alfa de Cronbach (α) tanto apresentou escores acima do esperado quanto foi significativo. É preciso chamar atenção para os resultados do intervalo de confiança no coeficiente de correlação intraclasse (CCI), os quais estiveram em intervalos próximos aos observados no alfa de Cronbach (α), condição essa que garante a confiabilidade da medida na amostra avaliada.

Tabela 4
- Estrutura fatorial do Inventário de Sexismo Ambivalente em graduandos de enfermagem (n = 305). Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2022

Na Tabela 5, observa-se o resultado referente à estrutura bifatorial confirmado com base nas estimativas preditivas, a partir da análise de regressão. Sendo assim, o modelo proposto, a partir da identificação das variáveis, apresentou uma razão/critério que não apenas correspondia ao que se esperava estatisticamente, mas que também foi diferente de zero (t > 1,96, p < 0,05), com todas elas significativas.

Tabela 5
- Indicadores das estimativas preditivas entre itens-fatores do Inventário de Sexismo Ambivalente em graduandos de enfermagem (n = 305). Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2022

As análises estatísticas foram selecionadas com base nos objetivos do estudo e na natureza dos dados coletados. As análises foram essenciais para avaliar a representatividade do comportamento-domínio dos itens do instrumento e testar a consistência do modelo bifatorial do sexismo nos graduandos de enfermagem, verificando adequação da estrutura teórica do ISA aos dados coletados.

Discussão

Os resultados desta pesquisa confirmam a consistência interna e estrutural do Inventário de Sexismo Ambivalente aplicado a graduandos de Enfermagem, corroborando a hipótese do modelo bifatorial do sexismo (hostil e benévolo) proposto pelos autores Glick e Fiske(6). Esses achados reforçam a validade do instrumento, ao mesmo tempo em que ampliam a compreensão acerca da presença e natureza do sexismo hostil e benevolente nessa população. Tais evidências são essenciais para avaliar como as atitudes sexistas se manifestam no ambiente acadêmico e suas implicações na formação de futuros profissionais.

O inventário elaborado pelos autores(6) tem sido utilizado em outros contextos e populações, apresentando acurácia fatorial próxima ao instrumento original(8-11,17).

O ISA, além de representar muito bem o conteúdo proposto do sexismo ambivalente, com escores alfas e ICC acima do padrão psicométrico mínimo exigido, apresentou consistência de aplicabilidade na amostra coletada. Com esse resultado, é possível destacar que a organização dos itens do inventário foi correspondente aos já encontrados em estudos anteriores e, em relação à consistência interna do inventário, os resultados foram melhores quando comparados aos encontrados anteriormente(5,18).

Sendo assim, percebeu-se que os estudantes de enfermagem participantes do estudo foram capazes de reconhecer o conteúdo (o sexismo) e o sentido do inventário apresentado a eles. E, ainda, cada item isolado que compõe o ISA se relaciona com o inventário no geral. Os resultados psicométricos sugerem que a versão brasileira do ISA avalia de forma precisa o sexismo ambivalente, segundo o constructo utilizado no modelo teórico do instrumento.

É consenso que a grande maioria das culturas no mundo faz parte de um sistema patriarcal, que concede poder e privilégios à figura masculina, assegurando superioridade e soberania aos homens nas relações sociais(2,19). O jovem inserido na sociedade e nesse sistema pensa e age influenciado pelo contexto em que vive, logo, mesmo que sem intenção, as pessoas são influenciadas e lidam com as consequências do machismo, preconceito e violências presentes, sendo capazes de identificar situações onde ocorra preconceito relacionado ao gênero também no meio acadêmico(3,20).

O sexismo é uma temática que requer estudo, principalmente devido à sua capacidade de adaptação e camuflagem na sociedade(9). A manifestação ambivalente do sexismo também entre os estudantes denuncia um preconceito contra a mulher que, em determinados momentos, busca se disfarçar em situações aparentemente não preconceituosas, que provavelmente se instala precocemente nas atitudes e pensamentos dos indivíduos, o que parece confirmar o óbvio dentro do contexto brasileiro, que, num primeiro momento, até nega a existência da discriminação contra a mulher. Mas, na sutileza, no elogio, na ideia de proteção, amparo e gratidão manifesta o sexismo, e assim, nas entrelinhas, legitimiza as violências contra as mulheres(21-22).

Além disso, observou-se que os indicadores referentes às medidas de ajuste absoluto: χ.²/gl = 1,51, RMR = 0,03, GFI = 0,93, AGFI = 0,91; medida de ajuste incremental: CFI = 0,95, TLI = 0,96, RMSEA = 0,04 (0,03-0,05); medidas de ajuste parcimonioso: CAIC = 736,25 e ECVI = 1,37) estiveram de acordo com o exigido estatisticamente, com valores próximos e até melhores aos observados em outros estudos(3-6).

A garantia do modelo bifatorial oblíquo ajustado, capaz de mensurar o sexismo, principalmente, em sua forma direta (hostil) e indireta (sutil) provavelmente legitima os mecanismos de manutenção da desigualdade de gênero e visa às relações de domínio por parte dos homens frente às mulheres(5). O Inventário de Sexismo Ambivalente, na distinta amostra, evidencia o preconceito frente às mulheres, ainda que a maior parte da amostra seja composta por mulheres (87,2%).

A estrutura bidimensional do inventário retrata uma forma de sexismo moderno que não se concentra somente em aspectos hostis, mas também representam aspectos mais sutis de sexismo, que se justificam em crenças aparentemente igualitárias. A pessoa sexista hostil muito provavelmente será sexista benevolente. Em um estudo transcultural, envolvendo 19 países e mais de 15.000 participantes, foi observado que as duas formas que caracterizam o sexismo ambivalente são de fato complementares e constantes em diferentes culturas. De uma forma geral, as flutuações nos níveis de hostilidade e de benevolência, em relação às mulheres, estão correlacionadas com os índices nacionais de desigualdade de gênero e de convencionalismo doméstico(23-24).

Também, chama-se a atenção para o cálculo do alfa de Cronbach (α) quanto ao uso de um dos indicadores psicométricos mais utilizados para verificar a consistência ou validade interna do instrumento, no qual se obteve 0,86 na dimensão do sexismo hostil e 0,82 no sexismo benévolo, valores estes que demonstram uma segurança para medida do fenômeno estudado nessa amostra.

Embora esta investigação apresente contribuições para a compreensão do sexismo ambivalente no grupo estudado, é importante apresentar suas limitações. A amostra foi restrita aos estudantes de enfermagem de uma única universidade, o que pode limitar a generalização dos resultados para outras populações.

Esta análise proporciona uma base para a aplicação futura do intumento em contextos semelhantes, garantindo a confiabilidade e validade dos resultados obtidos. Ao aprofundar a compreensão sobre a estrutura e consistência do ISA, este estudo poderá servir como ferramenta para pesquisadores interessados em explorar o fenômeno do sexismo ambivalente em diferentes populações e contextos.

Os resultados deste estudo fornecem evidências psicométricas consistentes sobre a versão brasileira do ISA, utilizado em uma amostra de estudantes universitários de uma instituição localizada na região Sudeste do Brasil. Essas evidências destacam a confiabilidade e validade do instrumento nesse contexto, possibilitanto futuras investigações sobre sexismo em ambientes educacionais e acadêmicos.

Conclusão

A análise fatorial confirmatória do Inventário de Sexismo Ambivalente em graduandos de Enfermagem confirmou a adequação do modelo bifatorial, composto pelas dimensões de sexismo hostil e benevolente, com forte ajuste aos dados. Além disso, os coeficientes de confiabilidade interna, como o alfa de Cronbach, juntamente com o Coeficiente de Correlação Intraclasse, reforçam a precisão e consistência do instrumento. Esses resultados, aliados à validade de construto assegurada pela estrutura bifatorial, demonstram que o ISA é uma ferramenta psicometricamente sólida e confiável para avaliar atitudes sexistas nesta população.

A eficácia do ISA em detectar diferentes formas de sexismo no ambiente acadêmico foi evidenciada, permitindo um entendimento mais profundo sobre a existência dessas atitudes entre estudantes de Enfermagem. A consistência psicométrica do instrumento reforça seu potencial como ferramenta para investigações futuras sobre questões de gênero, especialmente em campos onde a desigualdade de gênero se faz presente de forma sutil e estrutural. Recomenda-se replicar o estudo em amostras mais diversificadas, incluindo docentes, estudantes de diferentes instituições e cursos, assim como profissionais atuantes no mercado de trabalho, para uma compreensão mais abrangente do fenômeno do sexismo na enfermagem. A ampliação da pesquisa permitirá uma visão mais holística dessas questões e possibilitará o desenvolvimento de estratégias mais eficazes para enfrentar o sexismo e promover a igualdade de gênero em todos os níveis da profissão de enfermagem.

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  • *
    Artigo extraído da dissertação de mestrado “Sexismo ambivalente em graduandos de enfermagem de uma instituição pública”, apresentada à Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
  • Como citar este artigo
    Vasconcelos S, Penna LHG, Formiga NS, Damasceno RO, Ribeiro LV, Leira BCA. Psychometric evidence of the Ambivalent Sexism Inventory in undergraduate nursing students at a public institution. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2025;33:e4413 [cited ano mês dia]. Available from: URL . https://doi.org/10.1590/1518-8345.7179.4413

Editado por

  • Editora Associada:
    Rosana Aparecida Spadoti Dantas

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    31 Jan 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    23 Nov 2023
  • Aceito
    27 Jul 2024
Creative Common - by 4.0
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