Resumo
O presente artigo é fruto de uma pesquisa teórica e construída a partir do método psicanalítico. O objetivo principal é investigar alguns aspectos dos possíveis desdobramentos da relação adulto-criança para os adultos. No entanto, não pensamos esse encontro de forma universalizante, mas, sim, a partir do recorte de crianças identificadas pelos adultos como LGBTQIAPN+. Como desfecho da discussão, propomos que uma das possibilidades de reverberação psíquica nos adultos seja a convocação de aspectos do pulsional perverso polimorfo. Tal ativação parece exigir um intenso trabalho psíquico do adulto, o qual pode vir a se defender, por vezes de forma violenta, e/ou acolher de forma mais ou menos rígida as manifestações dessas crianças. Apontamos, também, para o aspecto social presente nos direcionamentos pulsionais, que vêm facilitar ou dificultar determinados encaminhamentos.
Palavras-chave:
Infância; psicanálise; LGBTQIAPN+; brincadeira
Resumos
This study stems from theoretical research based on the psychoanalytical method. Its main objective involves investigating some aspects of the possible consequences relationships between adults and children may cause for the adults. However, rather than thinking of this encounter under a universalizing perspective, we included children adults identified as LGBTQIAPN+. An outcome of this discussion proposes that one of the possibilities of psychic reverberation in adults invokes aspects of the perverse-polymorphous drive. This reactivation seems to require intense psychic work from adults, who may defend themselves (sometimes violently) and/or accept the manifestations of these children in a more or less rigid way. We also point to the social aspect in drive orientations, which may facilitate or hinder certain directions.
Key words:
Infancy; psychoanalytic; LGBTQIAPN+; play
Abstract
Cet article est le fruit d’une recherche théorique basée sur la méthode psychanalytique. L’objectif principal est d’édutier certains aspects des conséquences possibles de la relation adulte-enfant pour les adultes. Cependant, nous n’envisageons pas cette rencontre de manière universelle, mais plutôt du point de vue des enfants identifiés par les adultes comme LGBTQIAPN+. En conclusion de cette discussion, nous proposons que l’une des possibilités de réverbération psychique chez les adultes soit la convocation d’aspects de la pulsion perverse polymorphe. Cette activation semble nécessiter un travail psychique intense de la part de l’adulte, qui peut se défendre, parfois violemment, et/ou accepter les manifestations de ces enfants de façon plus ou moins rigide. Nous soulignons également l’aspect social présent dans les pulsions, qui facilitent ou entravent certain passages à l’acte.
Mots clés:
Enfance; psychanalyse; LBTQIAPN+; jeu
Resumen
Este artículo es el resultado de una investigación teórica basada en el método psicoanalítico. El principal objetivo es investigar algunos aspectos de las posibles consecuencias de la relación adulto-niño para los adultos. Sin embargo, no pensamos en este encuentro de manera universalizadora, sino desde la perspectiva de los niños identificados por los adultos como LGBTQIAPN+. Como resultado de la discusión, proponemos que una de las posibilidades de la reverberación psíquica en los adultos es la convocación de aspectos de la pulsión polimórfica perversa. Tal reactivación parece requerir un intenso trabajo psíquico por parte del adulto, que puede defenderse, a veces violentamente, y/o aceptar las manifestaciones de estos niños de forma más o menos rígida. Destacamos también el aspecto social presente en los posibles sentidos de la pulsión, que facilita o dificulta ciertos caminos.
Palabras clave:
Infancia; psicoanálisis; LGBTQIAPN+; juegos infantiles
Introdução
Neste trabalho temos como pretensão investigar — subsidiadas pela teoria psicanalítica — algumas das possíveis repercussões psíquicas do encontro adulto-criança, mais especificamente o que a criança pode vir a convocar no adulto, bem como refletir sobre a forma com que este pode vir a responder a esse encontro. Faremos este movimento teórico a partir de um olhar crítico e atento para as questões de gênero e sexualidade que estão presentes desde a infância, e, portanto, refletem na relação entre adultos e crianças. Para conduzir a discussão tomamos como cena as brincadeiras infantis e as tentativas de controlá-las com base nas normas de gênero e sexualidade.
Salientamos, para dar início, que as crianças, assim como os adultos, estão atravessadas por marcadores sociais diversos, como raça, classe social, condições físicas, entre outros, os quais devem ser levados em consideração ao pensarmos as infâncias e, também, sua relação com os adultos. Reconhecemos que há, não só em relação aos diferentes tempos históricos, mas também no contemporâneo, diversas maneiras de socialização das infâncias.
Diante disso consideramos fundamental refletir, ainda que de forma introdutória, sobre quais infâncias pretendemos abordar no presente trabalho. Apontamos para este aspecto, pois o adulto não parece ser convocado psiquicamente do mesmo lugar pelas crianças de forma universal. Nesse sentido, trabalharemos com as formas de socialização hegemônicas no Ocidente, as quais estão marcadas pela subjetivação capitalista e por diversos atravessadores subjacentes às estruturas sociais. A partir deste escopo mais amplo, pretendemos centralizar o olhar para uma das diversas especificidades das infâncias: as crianças que, em alguma medida, estão desviantes das normas de performance de gênero e sexualidade exigidas desde muito cedo. Essas crianças, na maioria dos casos, são lidas a partir de um olhar adulto como crianças LGBTQIAPN+1.
Ainda dentro desta especificidade, consideramos importante salientar que usaremos a sigla LGBTQIAPN+ como um “termo guarda-chuva”, ou seja, como algo maior, que abrange um grande escopo. No entanto, estaremos falando mais especificamente sobre orientação sexual, ainda que tenhamos em vista a indissociabilidade da discussão de gênero e sexualidade. Nesse sentido, enfatizamos este aspecto por percebermos a necessidade, inclusive político-pedagógica, de entendermos a sigla LGBTQIAPN+ a partir das diferenças que existem dentro da comunidade. Consideramos que existem especificidades importantes na vivência das infâncias trans, por exemplo, as quais precisam ganhar espaço e visibilidade sem serem atreladas, necessariamente, a questões de orientação sexual e, principalmente, sem serem confundidas ou negadas em sua existência.
No campo psicanalítico, quando pensamos no encontro adulto-criança, somos imediatamente remetidos à relação inicial de cuidado, relação com o objeto primário (Freud, 1914/2004; Laplanche, 2015). No que diz respeito a esse aspecto da teoria, pensando a relação inicial, podemos perceber que nos textos parece ser mais presente pensar o que reverbera na criança nesse encontro do que no adulto (Freud, 1914/2004; Ferenczi, 1929/1992; Laplanche, 1988). Entendemos que para pensar a constituição psíquica é preciso que se 3 dê centralidade ao que parte do adulto, visto que este introduz a criança no ambiente e no universo simbólico (Laplanche, 2015). No entanto, e tendo em vista os movimentos do adulto diante do pulsional anárquico infantil, surge o interesse em saber mais o que o adulto, diante das infâncias, precisa lidar em si.
Cabe destacar que quando nos referimos à infância, estamos abordando um período da vida marcado e delimitado tanto por fatores biológicos e das teorias do desenvolvimento, quanto por fatores sócio-históricos, os quais podem ser variáveis a depender do tempo e da cultura na qual estamos situadas. Em contrapartida, as referências que fazemos ao usar o termo infantil dizem respeito a algo mais amplo, que pertence ao campo do psíquico e está ancorado, sobretudo, na teoria psicanalítica. Nessa leitura, o infantil pouco tem a ver com temporalidades fixas, marcadores universais ou espaços-tempo pelos quais passamos e deixamos inteiramente para trás. O infantil, ao contrário da infância como período do desenvolvimento, nos acompanha pelos caminhos e pelas mais diversas fases da vida.
Tendo em vista estes aspectos, como percurso, iremos inicialmente discutir algumas questões acerca da constituição psíquica, por meio, prioritariamente, das teorias de Freud, Laplanche e Ferenczi; articulando às questões referentes ao contexto e temática da presente pesquisa. Posteriormente, faremos uma reflexão acerca da identificação da criança dissidente como LGBTQIAPN+, apontando para a primazia do olhar adulto neste movimento identificatório. Em seguida, para trabalhar mais especificamente com a resposta do adulto diante da criança e do infantil, traremos uma reflexão acerca dos movimentos de abertura e enrijecimento do adulto, tomando como cena a restrição das brincadeiras infantis com base nas normas de gênero e sexualidade.
Metodologia
Apresentamos aqui uma pesquisa teórica construída a partir do método psicanalítico de pesquisa. Para isso, realizamos análise interpretativa de elementos sociais e de fenômenos psíquicos (Figueiredo & Minerbo, 2006). Produzir o estudo a partir deste método, implica em considerar como parte inerente do trajeto de pesquisa as reverberações subjetivas e o contexto no qual as pesquisadoras estão inseridas, bem como sua íntima relação com a temática abordada (Dockhorn & Macedo, 2015). Nesse sentido, não objetivamos ao pesquisar nos distanciar daquilo que olhamos e produzimos; na contramão desta ideia — que se pressupõe neutra — nos cabe olhar com atenção para aquilo que nos surge a partir do ato de pesquisar e, por consequência, reverbera em nossa produção teórica. Aquilo que, como apontam Silva e Macedo (2016), nos enreda com o tema da pesquisa. Sendo assim, assumimos as limitações e potencialidades de uma pesquisa que se pretende parcial e não replicável, de produção singular, objetivando, então, trabalhar a partir de um aprofundamento teórico e reflexivo (Dockhorn & Macedo, 2015).
Resultados e discussões
Alguns aspectos sobre a constituição psíquica: entre a infância e o infantil
No que se refere à constituição psíquica é possível pensar que, nos momentos iniciais de vida, o bebê encontra-se em estado de dependência de um outro adulto, o qual, aos poucos, vai inserindo-o no universo simbólico e na lógica social, ou seja, um adulto que possibilita o processo de constituição psíquica (Freud, 1905/2016). Esse movimento de investimento é fundamental em termos de constituição, pois permite que o bebê, antes à mercê de um pulsional anárquico, consiga dar direcionamento ao pulsional. Se pensarmos junto com Laplanche (1988), a constituição subjetiva está, assim como para Freud, intimamente ligada ao encontro com o outro. No entanto, para o autor, esse aspecto ganha outras dimensões não exploradas por Freud; dimensões ligadas à primazia do outro e ao seu descentramento (Tarelho, 2017).
Para Laplanche (1988), através dos investimentos iniciais — o cuidado, o toque, os gestos etc. — são endereçadas ao sujeito mensagens que possibilitam o processo de inserção na vida social e simbólica. Esse processo ocorre na medida em que o adulto, ao desempenhar o cuidado, endereça mensagens enigmáticas ao bebê, que, por sua vez, é convocado a traduzi-las. O caráter de enigma é conferido às mensagens pela marca do inconsciente do adulto, como pontua Laplanche (2015): “quando falo de mensagem enigmática, falo de mensagem comprometida pelo inconsciente” (p. 108).
O adulto, diante dessa dinâmica de cuidado e investimento, acaba por induzir um papel ativo do bebê em segunda ordem, pois o convoca à tradução das mensagens, ou seja, em certa medida, que o bebê trabalhe para construir o seu próprio psiquismo. Pois, apesar de receber algo do adulto, não está fadado à repetição; ele segue com o trabalho e, por isso, pode traduzir, criar (Laplanche, 2015). Embora não possamos ignorar que os destinos pulsionais que são facilitados socialmente, ou seja, aceitos e valorizados, constituem um caminho frequentemente reproduzido, mas reproduzido a partir da história subjetiva singular de cada pessoa.
Sendo assim, o processo de tradução, mesmo que possibilite ao bebê criatividade tradutiva, ainda estará estreitamente ligado à relação com o adulto, que pode, por exemplo, endereçar mensagens sem possibilitar os códigos tradutivos ou, em alguns casos, dispor de recursos rígidos, pouco plásticos (Laplanche, 2015). Nesse sentido, se pensarmos na temática do presente trabalho, poderiam ser recursos que facilitam o destino pulsional a vias cisheteronormativas2 e LGBTQIAPN+fóbicas, por exemplo, caminho que tem relação com a reprodução mais restrita e rígida das lógicas sociais.
Esse momento inicial de constituição psíquica é chamado por Laplanche (2015) de situação antropológica fundamental, que, nas palavras do psicanalista, consiste na:
(...) situação da qual o ser humano não pode escapar (...) a relação adulto criança, adulto-infans: o adulto, que tem um inconsciente tal qual a psicanálise descobriu, inconsciente sexual, essencialmente feito de resíduos infantis, um inconsciente perverso no sentido dos três ensaios; a criança que não tem disposições sexuais genética. (p.106)
Isto é, um encontro adulto-criança permeado pelo inconsciente sexual (no sentido do pulsional perverso polimorfo3) do adulto diante da criança, que ainda não dispõe dos recursos simbólicos e que depende desse outro adulto no auxílio para as traduções, simbolizações. Cabe ressaltar que a criança, apesar de não possuir disposições sexuais genéticas, como pontua o autor, dispõe, sim, de recursos sexuais, que, neste caso, referem-se ao sexual infantil e perverso polimorfo. No entanto, este não está no mesmo “plano” do sexual adulto.
Nesse sentido, quando tratamos da situação antropológica fundamental (SAF), estamos considerando um momento em que há uma dissimetria e um duplo desequilíbrio na relação que se estabelece entre adulto-criança. A dissimetria é constituída por estarmos diante de um contato parasitado pelo inconsciente sexual do adulto. Esse que, por ser desconhecido pelo próprio adulto, coloca em cena um duplo desequilíbrio, ou seja, o desequilíbrio entre a criança e o adulto/seu inconsciente e entre o adulto e o outro de si mesmo, o inconsciente sexual (Laplanche, 1992).
Diante disso, o cuidador descentrado de si, por estar sujeito ao seu inconsciente, não controla quais mensagens serão passadas, tampouco como o bebê irá transformá-las, traduzi-las (Tarelho, 2017). Os elementos endereçados nas mensagens estão comprometidos com as dinâmicas próprias do contexto em que os sujeitos se inserem, visto que essas estão presentes nas relações cotidianas e, por isso, presentes no cuidado. Lógica que parece respaldar a ideia anteriormente citada sobre os destinos pulsionais facilitados pelos adultos, justamente por serem facilitados pela dinâmica sócio-histórica cultural. Porém, as mensagens enigmáticas também são infiltradas por aspectos ligados ao pulsional perverso polimorfo que constitui o inconsciente do adulto, algo que foi recalcado pelas normas sociais também poderá ser transmitido (Laplanche, 2015).
A partir disso salientamos que partimos do pressuposto de que o subjetivo é, também, social. Os elementos e dinâmicas internalizadas pelos sujeitos estão marcados pela lógica sociocultural, o que parece não possibilitar trabalhar em psicanálise com uma dicotomia enrijecida entre o que é subjetivo e o que é social. As dinâmicas sociais são passadas e, portanto, internalizadas, através do que Laplanche (2015) chamaria de pequeno socius, ou seja, de uma transmissão feita no social de forma íntima, das relações próximas, “por um próximo, um genitor, um amigo ou um grupo de pessoas” (p. 113); nesse sentido, trata-se de um social concreto, das relações cotidianas. Dinâmica que pode tornar ainda mais intensa a reprodução das lógicas sociais, visto que essas são engendradas a partir de vínculos significativos, carregados de afetos.
A partir disso, podemos pensar que se o adulto é encarregado de inserir e apresentar o mundo para o bebê, idealmente oferecendo recursos, direcionamentos e possibilidades e, ao mesmo tempo, está comprometido com seu inconsciente e com as dinâmicas sociais muitas vezes violentas, que visam o controle, como ele pode caminhar em busca desse ideal e oferecer possibilidades múltiplas, que sirvam de alicerce para a criatividade e a diversidade? Como o adulto poderia abrir mais espaço/tempo para seu próprio pulsional perverso polimorfo?
Parece-nos que no movimento de organização do pulsional ainda não civilizado do bebê/da criança, o adulto, embora tenha papel fundamental e estruturante de ajudar a dar direcionamento ao pulsional perverso polimorfo (Laplanche, 1988), pode realizar esse movimento de direcionamento de maneira pouco plástica, a serviço de forma rígida de lógicas sociais violentas, por exemplo. No que se refere à temática da presente discussão, como poderia o adulto apresentar e/ou acolher a multiplicidade de formas de exercer a sexualidade, mesmo dentro de um contexto cisheteronormativo e que caminha, na maioria dos casos, para a restrição excessivamente enrijecida do que é múltiplo, plural?
Podemos pensar a partir da ideia de que a criança, apesar de inserida no social pelo adulto, vai apresentar formas próprias de se vincular, de ser no mundo, como citamos anteriormente, e caberá ao adulto realizar um movimento de adaptabilidade do ambiente (e de si) à criança e às suas necessidades e temporalidades (Ferenczi, 1928/1992). Pensamos que esse movimento de adaptabilidade pode estar intimamente articulado às possibilidades do adulto de lidar com as reverberações do encontro com a criança. Nesse sentido, parece-nos, pensando com a ajuda de Ferenczi (1928/1992), que a adaptabilidade deve partir do mundo adulto e não o contrário; para isso, parece necessário que se tenha uma disponibilidade e abertura para a diferença, para a multiplicidade própria das infâncias.
Dessa forma, diante desse encontro, o adulto, como vimos, acompanhado de sua sujeição ao conteúdo inconsciente (Tarelho, 2017), convoca a criança a um papel ativo de tradução. No entanto, parece, também, imerso em algo que a criança convoca nele; algo que parece apontar para uma reconvocação do infantil. Poderíamos dizer, pensando a partir da psicanálise, que estamos acompanhadas daquilo que trabalhamos aqui como infantil, ainda que de forma inconsciente. Portanto o adulto, mesmo que já tenha saído da infância, lida com aquilo que resta, com o infantil que se mantém inconsciente, mas que se manifesta nas relações e, por isso, nos modos de cuidado e investimento nas crianças (Laplanche, 2015).
Laplanche (2015), no final do texto “Os três ensaios e a teoria da sedução”, nos dá uma pequena e instigante pista para pensarmos esse encontro do adulto com as infâncias e com o infantil, quando conclui que o adulto, quando se vê diante da criança, reativa suas pulsões sexuais infantis, as quais descrevemos acima como perverso-polimorfas. Esse despertar da própria sexualidade infantil, nos faz pensar que o encontro adulto-criança é um contato parasitado pelo inconsciente sexual do adulto ou, nas palavras de Laplanche (2015), “(...) do inconsciente infantil do adulto, na medida em que a situação adulto-infans é uma situação que reativa essas pulsões inconscientes infantis” (p. 107). Nesse sentido, nosso pensamento vai na direção de que diante desse encontro pode haver um movimento de reabertura da situação antropológica fundamental para o adulto.
Esse movimento de reabertura parece poder se desdobrar em um reencontro com o enigmático (momento em que o sujeito é convocado à tradução, à criação); tanto no sentido de vir a provocar possibilidades de (re)tradução, de abertura a aspectos da multiplicidade, ou, também, se desdobrar em um enrijecimento defensivo e/ou abertura a aspectos destrutivos, de repetição de traduções já feitas por parte do adulto que, em muitos casos, estão estreitamente relacionadas à reprodução de dinâmicas sociais de poder. Gostaríamos, neste momento da discussão, de retomar a ideia de que não parece ser possível pensar de forma universalizante nessa convocação que o encontro com a criança nos provoca. Diante disso, salientamos que parece haver especificidades no encontro com uma criança que é lida pelos adultos como LGBTQIAPN+, visto a estreita articulação entre os elementos psíquicos, fatores sociais e as lógicas de poder LGBTQIAPN+fóbicas.
Crianças LGBTQIAPN+? A possível confusão de línguas de um olhar adulto centrado
Para seguir com as nossas questões, Freud (1905/2016) nos ajuda quando traz para a teoria aspectos sobre a sexualidade infantil. O autor, a partir de “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”4, coloca que a sexualidade estaria presente desde os primeiros momentos de vida. No entanto, a partir dessa perspectiva, a sexualidade infantil não diz respeito à transposição da sexualidade adulta e genitalizada para a infância; trata-se, portanto, de uma nova proposta. Freud aponta para a sexualidade (neste caso especificamente a infantil) como algo que diz respeito aos modos de vinculação e ao próprio processo de constituição psíquica, ou seja, a sexualidade não está restrita a modelos genitalizados de relação como muito comumente se pensa (Freud, 1905/2016).
Nos momentos iniciais, por consequência, a sexualidade é compreendida pelo autor como algo que perpassa o corpo inteiro. Podemos dizer, em outras palavras, que nesse momento as pulsões circulam anarquicamente e recobrem afetiva e libidinalmente o corpo biológico do bebê, alicerçando, então, a partir dos cuidados iniciais, o processo de constituição psíquica (Freud, 1905/2016; Laplanche, 1988). Diante disso e tendo em vista o que apontamos brevemente no tópico anterior, nesse momento da constituição não há um direcionamento de investimento para objetos externos (Freud, 1905/2016), ou seja, também não parece cabível pensar em uma orientação afetivo-sexual nos momentos iniciais. O direcionamento das pulsões para objetos de satisfação pulsional vem a ser possibilitado posteriormente à constituição do Eu, quando o bebê/a criança, após ser suficientemente investida pelos adultos, depara-se com uma nova ação psíquica: o narcisismo. Diante disso, a criança tem, então, a dimensão de si e de outro enquanto sujeito externo e pode, assim, destinar investimentos a esse outro antes não reconhecidos (Freud, 1914/2004).
Neste momento da discussão, consideramos relevante apontar para o entendimento presente desde Freud (19052016) de que a elegibilidade dos objetos pulsionais, ou seja, objetos de investimento, é trabalhada a partir da perspectiva relacional, isto é, está intimamente alicerçada à história libidinal de cada sujeito e, acrescentaríamos, ao contexto em que está inserido. Esse aspecto da teoria nos faz pensar na arbitrariedade da escolha objetal5, pois, se pensarmos que o destino pulsional está ligado à história subjetiva e faz parte do processo de constituição, perceberemos que não há um destino pré-programado para essa escolha, algo no campo do natural (Freud, 1915/2006b).
No entanto, salientamos que ainda que seja algo constitutivo, não é passível de controle, estamos tratando de aspectos inconscientes e, com isso, afirmamos que não há brecha teórica que subsidie argumentos localizados em perspectivas como as de que seria possível ensinar crianças a determinados comportamentos ou investimentos objetais futuros. Parece haver, sim, facilitações sociais para determinados direcionamentos, no entanto, não é possível ter controle do que será feito com as mensagens endereçadas para as crianças. Portanto, o controle parece ser sempre uma tentativa, ainda que produza sofrimento e efeitos subjetivos.
Nesse sentido, para a psicanálise, não tem relevância central pensar o objeto com o qual o sujeito virá a obter prazer quando nos referimos à orientação sexual, visto sua arbitrariedade e não naturalização; importa, no entanto, “o processo psíquico que conduz a prática sexual, quer dizer, as transformações e elaborações do sexual infantil” (Ayouch, 2015, p. 63). Pensar esse aspecto teórico nos parece apontar para as múltiplas variações que podem ser estabelecidas ao longo da constituição e experiências e, portanto, também, serem alvo de tentativas de controle, como pretendemos apontar no decorrer do texto.
Para seguir pensando o processo de constituição psíquica articulado à ideia de sexualidade infantil e orientação sexual, entendemos como relevante refletir que, mesmo após o processo de constituição do Eu, os objetos de investimento não parecem estar no campo afetivo-sexual no sentido do senso comum, de relações que dizem respeito à orientação sexual. Esse é um processo que ocorre a partir da pré-adolescência/adolescência, quando o sujeito é convocado a lidar, mediante a puberdade, com novas convocações, especialmente sociais (Freud, 1905/2016).
A pulsão, nesse momento, parece ser interpelada pelo instinto, algo que está alicerçado ao biológico, mas que, então, chega a um sujeito que já é social, pulsional, ou seja, nas palavras de Laplanche (2015) “(...) quando o instinto sexual chega, o assento já está ocupado [pela pulsão]” (p. 41). Com isso não queremos fazer uma espécie de recusa à sexualidade infantil, muito pelo contrário, com Freud pretendemos lembrar que ela está presente, mas não como uma extensão da sexualidade adulta.
Diante dos apontamentos anteriores, pensamos ser possível deflagrar a contradição presente na ideia — muitas vezes utilizada para violentar as crianças — de que os sujeitos seriam, essencialmente, desde a infância, pertencentes a uma orientação sexual específica. Parece-nos que há, nesse movimento de tentativa de organização das infâncias, um olhar adulto atravessado pela sexualidade genitalizada e previamente direcionada, o que pode servir a estigmatização das crianças com base nas lógicas de poder cisheteronormatizadoras.
Para pensar essa aparente confusão entre a percepção da criança e do adulto, o texto “Confusão de línguas...” escrito por Ferenczi (1933/1992) parece poder nos auxiliar. Pensamos isso, pois o psicanalista aborda justamente sobre uma possível confusão embaraçosa entre a linguagem da criança, a qual ele chamaria de linguagem da ternura, e a do adulto, chamada por ele de linguagem da paixão. A partir do próprio jogo entre os termos ternura e paixão, Ferenczi parece tentar apontar para linguagens que ocupam campos diferentes ou, como apontaria Laplanche (1992), para o estabelecimento de uma dissimetria na comunicação adulto-criança.
Nesse sentido, de acordo com Ferenczi (1933/1992), essa dissimetria, propulsora da confusão de línguas, advém da diferença propriamente sexual entre as manifestações adultas e infantis. De um lado, com a linguagem da paixão, há o adulto atravessado pela sexualidade, a qual já atingiu um grau de maturidade para além da infantil; “do outro lado há a ternura, que não conhece o exagero da desmesura. Ela deve ser entendida não como ausência de sexualidade, mas como anterior à sexualidade sob o primado genital”, como apontam Osmo e Kupermann (2012, p. 331), sobre a confusão de línguas proposta por Ferenczi.
Ferenczi trabalha a partir de cenas onde os adultos interpretam as brincadeiras infantis através do olhar de alguém que já atingiu a maturidade sexual e, então, ao “confundir” a linguagem infantil, vem a cometer abuso; sendo assim, “(...) a sedução incestuosa acontece quando o adulto confunde a ternura infantil com amor sensual” (Osmo & Kupermann, 2012. p. 331). No entanto, não pretendemos utilizar aqui as cenas de abuso em si, de forma literal. Pensamos ser possível, a partir do excessivo do abuso sexual trabalhado por Ferenczi, pensar neste olhar adulto parasitado por uma coisa outra (Laplanche, 2015) como um olhar que produz confusão de línguas de forma mais generalizada (Ferenczi, 1933/1992). Nesse sentido, em diálogo com o que vínhamos abordando, parece ser um olhar que lê manifestações infantis enquanto manifestações circunscritas em classificações e identidades que só viriam a ser possíveis a partir da chegada da adolescência ou idade adulta, no caso da orientação afetivo-sexual, ou seja, um olhar que identifica a criança.
Diante disso parece-nos possível articular a ideia que trazemos do olhar adulto às propostas de reformulações que Laplanche faz para a psicanálise, no que tange aos processos de identificação. Pensamos isso pois, em linhas gerais, a identificação para Freud diz respeito ao que Laplanche (2015) nomeia como identificação com; ou seja, o sujeito, ainda bebê/criança, viria a se identificar com algo, com alguém. Em tom propositivo, Laplanche discorda do direcionamento dessa identificação. O autor faz este movimento na medida em que propõe que o sujeito seria identificado por, ou seja, seria o adulto que designaria uma identificação à criança e haveria, então, em relação à teoria Freudiana, uma inversão da “seta” identificatória.
Essa designação direcionada à criança é feita de forma ampla, isto é, está presente na linguagem, nos modos de cuidado e nas mais diversas manifestações do adulto para com a criança. Tais manifestações vêm a comunicar e transmitir mensagens enigmáticas. Nesse sentido, podemos pensar que a designação nos remete ao primado do outro tão enfatizado por Laplanche e, também, por isso, à presença central da lógica social.
Portanto, esse processo identificatório não consiste em uma designação enrijecida em que o adulto designa e, por consequência simples, a criança vem a ser. Pois lembramos: a designação é enigmática e, então, tem uma presença parasitada por elementos inconscientes e convoca o sujeito ao processo de tradução, ou seja, ao processo de transformação potencialmente criativa daquilo que lhe é endereçado, designado (Ribeiro, 2017). Essa presença do inconsciente do adulto pode causar um ruído na mensagem, justamente por carregar também aquilo que foi recalcado, retirado da consciência e, portanto, pode vir a ser contraditório à mensagem designada de forma consciente (Laplanche, 2015).
Para trabalhar a identificação por o psicanalista vai utilizar a identificação de gênero como protótipo da ideia, e, com isso, coloca que assim que o sujeito nasce é um outro adulto que o identifica com base em normativas sociais que, neste caso, muito estão articuladas a binariedade (Laplanche, 2015). Essa identificação não necessariamente vai coincidir com o gênero pelo qual o sujeito virá a se identificar futuramente, justamente pelos aspectos da tradução que citamos acima e pela multiplicidade que é própria das questões de gênero (Ribeiro, 2017). Nesse sentido, normas sociais parecem tender a se manifestar na tentativa de recalcar a multiplicidade, no entanto, há algo que “escapa”, que resta (Ayouch, 2014).
Assim, parece possível pensar na inversão da seta identificatória proposta por Laplanche — exemplificada a partir do gênero — também para identificação de orientação sexual, articulando ao que vínhamos abordando sobre o embaraço do olhar adulto destinado às crianças. Além disso, parece-nos que com a própria designação de gênero podem vir mensagens referentes à orientação sexual, visto o quanto estão atreladas as duas categorias no campo social (Ayouch, 2014).
Dessa forma, fazendo um esforço para escaparmos do olhar adulto infiltrado pela linguagem da paixão (Ferenczi, 1933/1992), o qual muitas vezes nos invade ao longo da pesquisa, pelo nosso próprio centramento adulto, poderíamos dizer que toda criança é uma criança que ainda ocupa um lugar de imprevisibilidade e de espontaneidade, o qual ainda não foi totalmente capturado e moldado pelas lógicas sociais (Halberstam, 2020). Poderíamos dizer, em outras palavras, e aqui nos aproximando ainda mais dos termos psicanalíticos, que na infância ainda encontramos uma manifestação do sexual perverso polimorfo mais livre, menos limitada pela lógica civilizatória (Freud, 1905/2016); esse aspecto parece ser o que desafia tanto a linguagem adulta.
A criança, sobretudo a dissidente, parece colocar o adulto diante da limitação que as categorias de gênero e sexualidade comportam socialmente; parece, então, colocar os adultos diante da multiplicidade identificatória e das infinitas formas de se vincular com o outro e com a cultura (Favero, 2021). Além disso, gostaríamos de apontar que as crianças lidas e identificadas pelos adultos como pertencentes a uma lógica dissidente da cisheteronormatividade, são mais facilmente alvo de destinos pulsionais articulados à violência. As formas de manifestar o que é lido pelo adulto enquanto dissidência são múltiplas, no entanto, podemos pensar aqui, a título de ilustração, nas crianças afeminadas, nos designados meninos, mas que brincam de boneca ou nas crianças identificadas como meninas que usam calção e jogam futebol; naquelas crianças que desafiam aquilo que foi designado a elas pelo socius.
Brincadeiras e a dupla (im)possibilidade do adulto diante do infantil: enrijecimento nos modos de cuidado e/ou abertura à plasticidade
Neste momento do texto, após trazer as reflexões teóricas acima, temos posta a hipótese com a qual trabalhamos: estar diante das crianças — as quais manifestam mais livremente aspectos do pulsional perverso polimorfo — parece vir a convocar a presença deste pulsional do adulto de forma mais intensa e, então, exigir que ele se defenda de formas mais ou menos rígidas e/ ou acolha de maneira a experimentar um movimento de plasticidade psíquica e processos de reabertura. Movimento este que, em função da lógica social, se apresenta com uma maior tendência ao enrijecimento, mas, em alguma medida, pode haver a possibilidade de experimentar um movimento que viabilize a plasticidade.
Para falar sobre as formas enrijecidas de defesa, pensamos que uma das formas dos adultos direcionarem esses afetos é na restrição excessiva do brincar. O brincar é uma das expressões mais comuns e férteis na infância, a comunicação neste momento perpassa prioritariamente pelas brincadeiras, as quais parecem abrir espaço para manifestações mais livres do pulsional perverso polimorfo. No entanto, estaríamos, verdadeiramente, deixando as crianças exercerem o direito à livre brincadeira? Parece-nos que, na contramão disso, estamos, de forma excessivamente enrijecida, tentando colocar a brincadeira a serviço de algo: da manutenção das estruturas sociais, através da tentativa de controle do infantil.
Diante disso, não nos parece inesperado o binarismo e a violência direcionada pelos adultos frente às manifestações da infância, frente ao infantil despertado em si. O binarismo de gênero no brincar, por exemplo, é algo compactuado socialmente. Podemos observar esse movimento de forma mais branda, menos violenta, quando adentramos uma loja de brinquedos infantis e somos interpelados pela questão: é para menina ou para menino? São inúmeros os exemplos que poderíamos explorar sobre o assunto. No entanto, trazemos este para incitar a discussão sobre o modo excessivamente enrijecido com que os adultos tentam controlar as brincadeiras infantis e que, neste caso, parece estar a serviço das lógicas de poder cisheteronormatizadora.
A restrição excessivamente enrijecida pode acontecer de formas mais brandas e capilarizadas, materializando-se nos pequenos gestos, bem como de forma mais violenta. Além disso, parecem estar ainda mais presente nos espaços em que preponderantemente os adultos são convocados a lidar com aquilo que as crianças despertam, com algo da sua própria sexualidade infantil, como nas escolas ou ambientes familiares. Freud (1905/2016) no texto “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” já atribuía à educação e aos adultos a tarefa de limitar o pulsional anárquico e, em seguida, relacionava essa limitação aos aspectos da moral sexual civilizada que, por sua vez, estaria ligada à religião, “bons costumes” e vias reprodutoras (Freud, 1908/1976). Entendemos que os pontos trazidos pelo psicanalista são pertencentes ao contexto e tempo no qual se circunscrevem, no entanto, apesar de situados em um período, parecem se aproximar do que encontramos no contemporâneo.
Podemos pensar na violência dos adultos em termos de repressão das formas de expressão no período da infância ou, como coloca Alice Miller (2006), em tom de perseguição das vivacidades das crianças, ou seja, servindo como uma tentativa de aniquilamento subjetivo em prol do suposto processo civilizatório e normatizador. Esse movimento parece utilizar as infâncias enquanto um laboratório social, na tentativa de garantir a “normalização” da sociedade futura (Preciado, 2020), na perspectiva de que as crianças são apenas futuros adultos e não sujeitos no agora.
Freud (1908/1976) parece nos ajudar a pensar sobre o movimento que trazemos até aqui quando contesta se é realmente possível considerar “civilizado” exigir tamanha repressão e, também, quando nos questiona a que custo estaríamos fazendo isso. Essa repressão que responde ao que o autor denomina como vias civilizatórias, apesar de necessária em alguma medida, parece poder se manifestar de forma violenta e defensiva por parte do adulto diante do que a criança manifesta e, a partir disso, convoca nele aspectos do pulsional perverso polimorfo, anárquico. Assim, retomamos o nosso apontamento de que uma das possíveis respostas diante da necessidade defensiva parece ser o modo de cuidado excessivamente enrijecido, no qual está incluída a restrição da livre brincadeira com base em normas de gênero e sexualidade.
Para pensar alguns aspectos relacionados ao movimento defensivo do adulto diante das manifestações das crianças, lembramos: o adulto se defende da reativação da sua sexualidade infantil, do próprio pulsional perverso polimorfo, ou seja, do infantil que é convocado na presença da infância. Esse momento de encontro adulto-criança parece trazer para cena a forma como o adulto lidou com o seu sexual perverso polimorfo no passado e, também, as formas com que os adultos o cuidaram, os encaminhamentos construídos pelos adultos diante desse encontro. Logo, a forma como ele vai se colocar diante dessa reativação parece ter relação com a criança do próprio adulto e, esse encontro com o infantil em si, parece ser determinante para pensarmos os modos de relação que virão a ser estabelecidos com as crianças, ou seja, se o adulto vem a responder de forma mais enrijecida ou mais plástica.
Nesse sentido, parece-nos que o adulto — caso venha a sentir uma ameaça muito intensa diante da manifestação do seu sexual perverso polimorfo — ficará, em alguma medida, preso à cena ameaçadora do retorno ao infantil. O adulto, imerso pelo infantil, experimenta uma posição de passividade (de descontrole) frente ao seu pulsional perverso polimorfo reativado. Nos casos em que há uma desorganização muito grande por parte do adulto, a criança vira alvo de controle — o adulto, então, tenta controlar o objeto interno por meio do objeto externo, a criança. Essa resposta constitui uma tentativa, ainda que precária, por parte do ego, de se reorganizar, de reverter em atividade a passividade à qual se encontra submetido (Freud, 1915/2006b). Porém, essa resposta terá que ser constantemente repetida, pois não possibilita a construção de recursos internos para manejar, encaminhar psiquicamente o pulsional perverso polimorfo.
Neste cenário, o cuidado parece ser parasitado pelo controle e a criança vem a se tornar um objeto-alvo do adulto. Essa manifestação preponderantemente ligada à agressividade parece representar uma abertura aos aspectos do pulsional perverso polimorfo ligados à destrutividade. Tal manifestação é facilitada pela lógica de poder existente na relação entre adultos e crianças, a qual permite socialmente que as crianças sejam destino para o pulsional agressivo dos adultos, corroborando com a maior frequência esses encaminhamentos pulsionais.
Parece possível pensar que, ao manifestar essa dimensão violenta, o adulto coloca em destaque uma forma também de expressar o pulsional perverso polimorfo, mas, neste caso, ele se manifesta em sua vertente mortífera. Pois lembramos: há, também, articulado ao pulsional perverso polimorfo, algo do campo da violência, da agressividade; aquilo que, em vias de inserção no universo social, o adulto oferece à criança recursos para direcionar (Laplanche, 2015).
No entanto, como citamos em um momento anterior, existem facilitações para o direcionamento pulsional, as quais estão articuladas às lógicas sociais. Nesse sentido, pensamos que o que parece acontecer no ato de restrição excessivamente enrijecida dos adultos com as crianças, é uma restrição do pulsional perverso polimorfo da criança que traz aspectos que corroboram o acolhimento da diversidade e pluralidade de existências; o que parece trazer para o adulto a multiplicidade existente dentro da diferença, a qual socialmente é direcionada para uma lógica binária. Nesses casos, quando o pulsional perverso polimorfo do adulto se manifesta em sua vertente violenta e mortífera, que serve as lógicas sociais e de poder, parece ocorrer a busca do adulto pelo controle de seu pulsional através do controle — muitas vezes violento e cruel — da criança (reversão da passividade em atividade), como indicamos.
Diante disso, pensamos ser relevante apontar para que a manifestação defensiva dos adultos parece estar a serviço da formação de compromisso. Levantamos esse ponto, pois na formação de compromisso encontramos — como em modo de mecanismo de defesa — elementos do aspecto que o sujeito vem a se defender. Nesse sentido, a lógica defensiva despertada no adulto estaria infiltrada por aquilo que, em vias de constituição e processos civilizatórios, veio a ser recalcado e a compor o inconsciente (Freud, 1915/2006a). Ou seja, entendemos que “aquilo que retorna o faz sob a forma de um compromisso entre os dois sistemas, de tal modo que o desejo recalcado encontre uma expressão consciente, mas ao mesmo tempo não produza desprazer” (Garcia-Roza, 1995, p. 205).
Então, pensamos que ainda em uma resposta excessivamente enrijecida destinada à criança pode haver a possibilidade de abertura, visto que haverá, nas mensagens/manifestações adultas, algo que remete aos elementos dos quais o adulto vem a se defender, mas, nesse sentido, pode haver também a dimensão destrutiva, violenta como representante do pulsional perverso polimorfo. Nesses casos, cabe ressaltar que em uma manifestação violenta, que estaria recoberta pelos aspectos mais agressivos e primitivos do pulsional despertado no adulto, não parece haver uma abertura à multiplicidade e, sim, aos aspectos da dimensão destrutiva, tentativa precária de reversão da passividade em atividade. Cabe destacar que cenas de violência, de restrição excessivamente enrijecida, podem ser extremamente danosas às crianças e representar, por vezes, um potencial traumático.
Podemos pensar, então, que diante da dinâmica das brincadeiras infantis que provocam um movimento de excessivo enrijecimento e tentativa de controle, subsidiado pelas normativas de gênero e sexualidade, virá algo do próprio sexual perverso polimorfo do adulto que remeterá a esse aspecto. Sendo assim, parece haver uma estreita relação entre o que se apresenta como defensivo e a abertura —, na medida em que um não existe sem o outro na lógica de funcionamento psíquico. Entretanto, o que parece acontecer, por consequência da facilitação social, é uma preponderância do direcionamento dos aspectos agressivos às crianças dissidentes e, em contraste, pouca abertura aos aspectos de multiplicidade.
Parece-nos importante salientar aqui nosso entendimento de que o movimento defensivo do adulto, ainda que possa se desdobrar em uma abertura à faceta da multiplicidade do pulsional, está se apresentando em nossa sociedade preponderantemente como violento. Então, ao apontar para os aspectos inconscientes e paradoxais da manifestação dos adultos diante de um movimento defensivo, temos a intenção de indicar a complexidade existente na relação, sem negligenciar o fator potencialmente causador de sofrimento para as crianças.
Tentamos apontar até aqui para a restrição excessivamente enrijecida das brincadeiras como um dos movimentos dos adultos diante das crianças, quando a serviço dos mecanismos de defesa e/ou manifestação do pulsional perverso polimorfo mais violento, mortífero. A partir dos aspectos trabalhados, podemos pensar que diante do infantil, o adulto parece se ligar a um movimento que caminha em estreita relação com as normas sociais e as utiliza na tentativa de aplacar a angústia diante da ameaça de ausência de controle das próprias pulsões, do sexual infantil.
Questionamo-nos, diante disso, como seria possível o adulto colocar em tensionamento o uso das normativas sociais como recurso psíquico na presença do infantil. Não pretendemos responder de forma assertiva e enrijecida ao nosso próprio questionamento. No entanto, gostaríamos de apresentar de forma reflexiva alguns pontos, para poder, então, pensar possibilidades estabelecidas a partir da relação adulto-criança. Para isso tomaremos como pista as ideias de Canavêz e Verztman (2021), as quais nos convocam a pensar em um movimento pendular “ora se aproximando da reprodução das normas, ora buscando com elas romper, especialmente colocando o campo normativo em movimento e em xeque” (p. 16).
Os autores dialogam sobre a escuta clínica, mas pensamos ser possível aproximar as reflexões da nossa discussão na medida em que ambas abordam o manejo da normatividade. Podemos pensar que na relação adulto-criança o próprio ato de brincar — quando experienciado de forma menos restritiva e mais livre — pode vir a ser um mecanismo que facilita o movimento pendular proposto pelos autores. Consideramos que o deslocamento a partir de uma lógica pendular, por ser um movimento que permite a transição entre os dois pólos (abertura ao múltiplo e defesa), possa permitir e facilitar o direcionamento à plasticidade. Apontamos isso pois parece-nos que essa possibilidade de se distanciar das normas, e, ao mesmo tempo, voltar para elas, possa facilitar a movimentação para o adulto, visto sua possível resistência e tendência à defesa. No entanto, isso ocorre quando o nível de ameaça não é tão intenso e, então, não predomina a vertente destrutiva do pulsional perverso polimorfo, ou seja, em movimentos defensivos mais brandos, os quais não configuram violências destinadas às crianças. Quando há violência não parece haver a possibilidade da atuação do movimento pendular, mas, sim, um aprisionamento na cena de controle e agressividade, propulsora de sofrimento para a criança.
No cenário referente à possibilidade do movimento pendular, o adulto poderia brincar com as normas sociais a partir do fantasiar em conjunto com a criança, fazendo com que as barreiras se borrem e haja um movimento de abertura maior, mais plástico. Com isso reforçamos que o aspecto paradoxal pode existir na cena do brincar; o adulto, mesmo em um movimento mais brando de defesa e enrijecimento — estando tomado pela reativação do seu sexual perverso polimorfo — parece poder construir novas possibilidades tradutivas, de ressignificação, desde que o predomínio não seja da dimensão destrutiva desse pulsional. Entendemos isso ao pensarmos junto com Laplanche (2015) na possibilidade de reabertura da situação antropológica fundamental diante do encontro adulto-criança, ou seja, na possibilidade de estar novamente diante do enigma, fator que parece indicar a possibilidade de colocar-se de maneira mais plástica diante da cena.
Aqui cabe pontuar que quando nos referimos a plasticidade psíquica estamos trabalhando com a ideia de um psiquismo mais aberto à diferença, ao que foge do controle (Rodrigues & Gondar, 2018), que, neste caso, pode ser pensado enquanto as manifestações do infantil — o infantil em si mesmo e o da criança. Nesse sentido, parece-nos que neste contato com a diferença de si e do outro o adulto poderia — em vias mais plásticas e menos defensivas — manejar o encontro através do ato de brincar com a criança e, assim, brincar por alguns momentos com as normas sociais.
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1
Lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer, interssexuais, assexuais, símbolo + representa a pluralidade de gêneros e orientações sexuais.
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Aqui nos referimos a destinos pulsionais que respondam a expressões de gênero e sexualidade hegemônicas, ou seja, que correspondem aos padrões sociais heterossexuais e cisgênero.
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3
Pulsional perverso polimorfo, de acordo com Freud (1905/2016), tem relação com as pulsões ainda parciais, não direcionadas a um objeto externo e, então, ainda muito plásticas às suas metas.
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Cabe aqui ressaltar que nessa mesma obra o autor traz afirmações de cunho LGBTQIAPN+fóbicas, as quais, por diversas vezes, foram utilizadas a serviço da patologização das dissidências sexuais e de gênero. A título de exemplo dessas afirmações temos a ideia da homossexualidade enquanto uma inversão e o destino reprodutivo e genital da relação sexual enquanto meta “normal” e esperada (Freud, 1905/2016).
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5
Fazemos aqui o uso do termo escolha objetal para nos referirmos à escolha dos objetos pulsionais, porém, entendemos ser politicamente necessário pontuar que não se trata de uma escolha propriamente dita, em que o sujeito pode conscientemente optar por algo. Trata-se de um termo articulado à psicanálise e, portanto, está intimamente relacionado a mecanismos inconscientes.
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