CLÁSSICOS DA PSICOPATOLOGIA
ENSAIO
Psychopathia Sexualis
R. Krafft-Ebing
Capítulo III - Neuropsicopatologia Geral
I. Afeto sexual por pessoas do outro sexo com manifestação perversa do instinto*
A. Relações entre a crueldade ativa, a violência e a volúpia - sadismo 1
É conhecido e frequentemente observado que volúpia e crueldade costumam se associar uma à outra. Escritores de todas as escolas já assinalaram esse fenômeno.2Até no estado fisiológico é comum ver indivíduos sexualmente muito excitáveis morderem ou arranharem seu parceiro durante o coito.3
Autores anteriores já chamaram a atenção para a conexão entre volúpia e crueldade.
Blumröder (Ueber Irresein, Leipzig, 1836, p. 51) hominem vidit quem compluria vulnera in musculo pectorali habuit, quæ femina valde libidinosa in summa voluptate mordendo effecit.
No ensaio "Ueber Lust und Schmerz" (Friedreichs Magazin für Seelenkunde, 1830, II, 5), esse autor chama particularmente a atenção para a correlação psicológica entre volúpia e sede de sangue. Ele lembra, a esse respeito, a lenda índia de Siwa e Durga (Morte e Volúpia), os sacrifícios de homens com mistérios voluptuosos e os desejos sexuais da puberdade, associados a um pendor voluptuoso ao suicídio, à flagelação, aos beliscões, às feridas infligidas às partes genitais, em razão do desejo vago e obscuro de satisfazer a necessidade sexual.
Lombroso (Verzeni e Agnoletti, Roma, 1874) também cita muitos exemplos de tendência ao assassinato durante a sobre-excitação produzida pela volúpia.
Por outro lado, com certa frequência, a excitação do desejo de assassinato acarreta a sensação de volúpia. Lombroso lembra o fato, citado por Mantegazza, de que, nos horrores de um saque, os soldados costumam sentir uma volúpia bestial.4
Esses são exemplos de transição para casos manifestamente patológicos.
Também são muito instrutivos os exemplos dos Césares degenerados (Nero, Tibério), que se regozijavam mandando degolar diante deles jovens e virgens, assim como o caso desse monstro, o marechal Gilles de Rays (Jacob, Curiosités de l'Histoire de France, Paris, 1858), que foi executado em 1440 por causa dos estupros e assassinatos que cometeu durante oito anos em mais de oitocentas crianças. Ele confessou que a leitura de Suetone e das descrições das orgias de Tibério, de Caracalla, lhe deu a ideia de atrair crianças em seu castelo, de maculá-las pela tortura para, em seguida, assassiná-las. Esse monstro garantiu ter sentido uma felicidade indizível ao cometer esses atos. Ele tinha dois cúmplices. Os cadáveres das infelizes vítimas foram queimados e apenas algumas cabeças de crianças excepcionalmente belas foram conservadas como recordação.
Quando se quer explicar a conexão entre volúpia e crueldade, é preciso remontar a casos, ainda quase fisiológicos, em que, no momento da volúpia suprema, indivíduos, por outro lado normais, embora muito excitáveis, cometem atos como morder ou arranhar, os quais costumam ser inspirados apenas pela cólera. Além disso, cabe lembrar que amor e cólera são não apenas as duas paixões mais fortes, como também as duas únicas formas possíveis da paixão forte (estênica). Ambas buscam seu objeto, querem dele se apossar e manifestam-se por uma ação física sobre ele; ambas deixam a esfera psicomotora na maior agitação e, por meio dessa agitação, alcançam a sua manifestação normal.
Este ponto de vista permite entender que a volúpia leva a atos que, em outros casos, parecem com os inspirados pela cólera.5
Ambas correspondem a um estado de exaltação e constituem uma poderosa excitação de toda a esfera psicomotora. Disto resulta um desejo de reagir por todos os meios possíveis e com a maior intensidade contra o objeto que provoca a excitação. Assim como a exaltação maníaca descamba com muita facilidade para o estado de mania de destruição furiosa, a exaltação da paixão sexual produz, às vezes, o violento desejo de descarregar a excitação geral por meio de atos insensatos que aparentam hostilidade. Tais atos representam, por assim dizer, movimentos psíquicos e acessórios; não se trata de uma simples excitação inconsciente da inervação muscular (que também se manifesta, por vezes, na forma de convulsões cegas), mas de uma verdadeira hipérbole da vontade de produzir um poderoso efeito no indivíduo que causou nossa excitação. Ora, o meio mais eficiente para tanto consiste em causar uma sensação de dor neste indivíduo. Partindo desse caso em que, no auge da paixão voluptuosa, um indivíduo procura causar uma dor no objeto amado, chega-se a casos em que existem maus tratamentos sérios, feridas e até mesmo assassinato da vítima.6
Nesses casos, o pendor para a crueldade, que pode associar-se à paixão voluptuosa, aumenta desmedidamente num indivíduo psicopata, ao passo que, por outro lado, a distorção dos sentimentos morais faz com que, normalmente, não haja entraves ou que estes sejam fracos demais para atuar.
Esses monstruosos atos sádicos, que ocorrem mais frequentemente nos homens do que nas mulheres, têm uma outra causa poderosa, que se deve às condições fisiológicas.
Na relação entre os sexos, o papel ativo e até mesmo agressivo cabe ao homem, enquanto a mulher se limita a um papel passivo e defensivo.7
Há um encanto particular, para o homem, no ato de conquistar uma mulher, de vencê-la; e, na Ars amandi, a decência da mulher, que permanece na defensiva até o momento em que cede, tem muita importância psicológica. Em condições normais, o homem depara-se com uma resistência que tem de vencer, e é para essa luta que a natureza lhe deu um caráter agressivo. Entretanto, em condições patológicas, esse caráter agressivo pode exceder todas as medidas e degenerar numa tendência para subjugar completamente o objeto de seus desejos até o aniquilamento ou até mesmo a morte dele.8
Se esses dois elementos constituintes se encontram, se o desejo acentuado e anormal de uma reação violenta contra o objeto amado une-se a uma necessidade exagerada de subjugar a mulher, então as explosões mais violentas do sadismo ocorrem.
Portanto, o sadismo não passa de um exagero patológico de certos fenômenos acessórios da vita sexualis que podem ocorrer em circunstâncias normais, sobretudo no macho. Naturalmente, não é absolutamente necessário, e essa não é a regra, que o sádico tenha consciência desses elementos do seu pendor. O que ele sente, é tão somente o desejo de cometer atos violentos e cruéis em pessoas do outro sexo e uma sensação de volúpia pelo simples fato de se representar esses atos de crueldade. Disto resulta um impulso poderoso para executar os atos desejados. Como os verdadeiros motivos desse pendor são desconhecidos de quem age, os atos sádicos estão imbuídos das características dos atos impulsivos.
Quando volúpia e crueldade se associam, não somente a paixão voluptuosa desperta um pendor para a crueldade, como o contrário também pode ocorrer: a ideia e, sobretudo, a visão de atos cruéis agem como um estimulante sexual e, nesse sentido, são usadas por indivíduos perversos.9
É empiricamente impossível estabelecer uma distinção entre os casos de sadismo congênito e adquirido. Muitos indivíduos originalmente tarados envidam, por muito tempo, todos os esforços possíveis para resistir às suas inclinações perversas. Se a potência sexual ainda existe, eles têm, de início, uma vita sexualis normal, geralmente graças à evocação de imagens de natureza perversa. Apenas mais tarde, depois de terem vencido sucessivamente todas as contrarrazões éticas e estéticas e depois de terem constatado, em várias oportunidades, que o ato normal não lhes fornece satisfação completa, é que o pendor mórbido emerge e se manifesta externamente. Uma disposição perversa e ab origine traduz-se, então, tardiamente, em atos. É isto que costuma produzir a aparência de uma perversão adquirida e enganar quanto ao verdadeiro caráter congênito do mal. A priori, entretanto, pode-se supor que este estado psicopático existe sempre ab origine. Vejamos a seguir as razões em prol dessa hipótese.
Os atos sadistas diferem em função do seu grau de monstruosidade, da preponderância do pendor perverso sobre o indivíduo acometido por eles ou, então, dos elementos de resistência que ainda existem, elementos que, entretanto, são raramente enfraquecidos por distorções éticas originais, pela degeneração hereditária ou pela loucura moral.
Assim nasce uma longa série de formas que começam pelos crimes mais graves e acabam por atos pueris que não têm outro intuito a não ser oferecer uma satisfação simbólica à necessidade perversa do sadista.
Pode-se ainda classificar os atos sádicos segundo seu gênero. É então preciso distinguir se ocorrem após a consumação do coito em que a libido nimia não foi satisfeita, ou se, em caso de enfraquecimento da potência genésica, servem de preparativos para estimulá-la, ou se, finalmente, em caso de ausência total da potência genésica, os atos sádicos vêm substituir o coito tornado impossível e provocar a ejaculação. Nos dois últimos casos existe, apesar da impotência, uma libido violenta ou, pelo menos, essa libido subsistia no indivíduo na época em que constatou o hábito dos atos sádicos. A hiperestesia sexual deve sempre ser considerada como a base dos pendores sádicos. A impotência devida a excessos praticados desde a primeira juventude, tão frequente nos indivíduos psiconeuropáticos de que se trata aqui, costuma ser fraqueza espinhal. Às vezes, pode existir uma espécie de impotência psíquica pela concentração do pensamento no ato perverso, ao lado do qual, então, a imagem da satisfação normal se apaga.
Independentemente da característica externa do ato, para compreendê-lo, é essencial examinar as disposições perversas da alma e o sentido do pendor do indivíduo afetado.
Richard Krafft-Ebing (1840-1902)
Médico alemão. Ocupou a cátedra de psiquiatria nas universidades de Strasbourg, Graz e, a partir de 1892, foi diretor da clínica psiquiátrica do Hospital Geral da Universidade de Viena. Autor de vasta obra psiquiátrica que inclui estudos sobre a melancolia, sobre a paralisia geral progressiva, sobre psiquiatria forense, sobre o hipnotismo, sobre a neurastenia e um Tratado sobre a Insanidade. Contudo, o trabalho que de fato o tornaria célebre é sua Psychopathia Sexualis, publicada em 1886.
