Open-access Eros e civilização na era digital: reflexões de Franco Berardi sobre Sublimação, Desejo e a Psicopatologia Contemporânea

Eros and civilization in the digital age: Franco Berardi’s reflections on Sublimation, Desire, and Contemporary Psychopathology

Eros y Civilización en la Era Digital: Reflexiones de Franco Berardi sobre Sublimación, Deseo y la Psicopatología Contemporánea

Éros et civilisation à l’ère numérique: Réflexions de Franco Berardi sur la Sublimation, le Désir et la Psychopathologie Contemporaine

Resumo

Este artigo apresenta uma entrevista com o sociólogo e filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi, realizada por ocasião do XI Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental. A partir desse diálogo, refletimos sobre as transformações nas formas de sofrimento psíquico, nos regimes de desejo e nas subjetividades na era do capitalismo digital. O conceito de psicosfera é introduzido como chave interpretativa para compreender os efeitos da hiperconectividade e da hipersemiotização do desejo. Discute-se como essas condições desafiam a concepção clássica de sublimação na psicanálise, promovendo uma reconfiguração do Eros e do prazer. Ao articular psicanálise, filosofia e poesia, Berardi propõe uma interrogação fundamental: ainda somos capazes de amar e resistir simbolicamente à dissolução da subjetividade?

Palavras-chave
Eros; capitalismo digital; psicosfera; Franco Berardi; sublimação; desejo; psicopatologia; poesia


Abstract

This article presents an interview with Italian sociologist and philosopher Franco “Bifo” Berardi, conducted during the XI International Congress of Fundamental Psychopathology. Based on this dialogue, we reflect on the transformations in psychic suffering, regimes of desire, and subjectivity in the era of digital capitalism. The concept of psychosphere is introduced as a key framework to understand the effects of hyperconnectivity and the hyper-semiotization of desire. We examine how these conditions challenge the classical psychoanalytic conception of sublimation, fostering a reconfiguration of Eros and pleasure. By intertwining psychoanalysis, philosophy, and poetry, Berardi raises a fundamental question: are we still capable of love and symbolic resistance in the face of the dissolution of subjectivity?

Keywords
Eros; digital capitalism; psychosphere; Franco Berardi; sublimation; desire; psychopathology; poetry


Abstract

Cet article présente un entretien avec le sociologue et philosophe italien Franco “Bifo” Berardi, réalisé à l’occasion du XIe Congrès international de psychopathologie fondamentale. À partir de cette parole croisée, nous examinons les remaniements actuels de la souffrance psychique, des économies du désir et des modes de subjectivation sous le régime du capitalisme numérique. Le concept de psychosphère est introduit comme une clé de lecture essentielle pour penser les effets de l’hyperconnexion et de l’hypersémiotisation sur le lien entre langage, corps et jouissance. Il apparaît alors que ces conditions historiques viennent ébranler la conception psychanalytique classique de la sublimation, en affectant les possibilités mêmes d’un travail du désir et d’une élaboration d’Éros. En nouant psychanalyse, philosophie et poésie, Berardi ouvre ainsi une interrogation fondamentale: le sujet est-il encore capable d’aimer et de soutenir une résistance symbolique là où se manifeste la dissolution contemporaine de la subjectivité?

Mots-clés
Éros; capitalisme numérique; psychosphère; Franco Berardi; sublimation; désir; psychopathologie; poésie


Resumen

Este artículo presenta una entrevista con el sociólogo y filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi, realizada con motivo del XI Congreso Internacional de Psicopatología Fundamental. A partir de este diálogo, reflexionamos sobre las transformaciones en las formas de sufrimiento psíquico, los regímenes del deseo y las subjetividades en la era del capitalismo digital. Se introduce el concepto de psicoesfera como clave interpretativa para comprender los efectos de la hiperconectividad y la hiper-semiotización del deseo. Se analiza cómo estas condiciones desafían la concepción psicoanalítica clásica de la sublimación, promoviendo una reconfiguración del Eros y del placer. Al articular psicoanálisis, filosofía y poesía, Berardi plantea una pregunta fundamental: ¿somos aún capaces de amar y de resistir simbólicamente ante la disolución de la subjetividad?

Palabras clave
Eros; capitalismo digital; psicoesfera; Franco Berardi; sublimación; deseo; psicopatología; poesía


Introdução

O presente artigo parte de entrevista concedida por Franco “Bifo” Berardi por ocasião do XI Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental, realizado em setembro de 2024 na cidade de Recife. Nela, Berardi compartilha reflexões sobre o papel do desejo, da sublimação e da subjetividade em tempos de capitalismo digital.

O objetivo deste artigo é contextualizar e aprofundar os principais pontos abordados ao longo da entrevista, destacando implicações da hiperconectividade sobre o sofrimento psíquico contemporâneo. Articulando psicanálise, filosofia e poesia, as ideias apresentadas por Berardi são um convite à reflexão acerca da atual reconfiguração do Eros e as possibilidades de resistência subjetiva por meio da linguagem.

A mutação da psicosfera e os novos regimes de sofrimento psíquico

Desde sua obra La fabbrica dell'infelicidad (2007), Berardi (2019) propõe o conceito de psicosfera, entendido como o conjunto das condições afetivas, cognitivas e linguísticas que compõem o ambiente mental contemporâneo. Nessa esfera simbólica, a subjetividade é moldada por dispositivos digitais que mediam o acesso à linguagem e ao afeto.

Segundo Berardi, essa mutação estrutural das chamadas “estruturas psíquicas” não deve ser confundida com conceitos clássicos da psicanálise, como neurose, psicose ou perversão. Aqui, ele se refere às transformações nos padrões emocionais e cognitivos da subjetividade, resultantes da imersão digital.

Para ele, o acesso à linguagem é uma experiência que ultrapassa a técnica: ele é profundamente afetivo. Ao ser mediada por dispositivos digitais, essa experiência altera os alicerces do que chamamos de “humano” (Berardi, 2007/2019). Tal mutação é perceptível em fenômenos como o declínio da atividade sexual, identificado em estudos sobre comportamento sexual em jovens (Twenge, Sherman, & Wells, 2017), o aumento de depressões e ansiedades (WHO, 2017), e a reconfiguração das formas de socialização (Bauman, 2003).

Berardi, no entanto, rejeita uma visão simplista que interpreta essas mudanças como meros agravamentos de patologias clássicas, como a depressão. Em vez disso, propõe que estamos diante de uma reformulação radical das condições cognitivas e emocionais da existência, em que a conexão constante com dispositivos digitais transforma o desejo e a maneira como elaboramos prazer e sofrimento (Berardi, 2007/2019; Han, 2015).

Conectividade e isolamento: contradições da subjetividade digital

Um dos paradoxos mais inquietantes da contemporaneidade, segundo Berardi, é a coexistência de uma hiperconectividade tecnológica com um profundo isolamento físico e emocional (Berardi, 2007/2019). Ele evoca o exemplo dos hikikomori, jovens japoneses que se retiram da sociedade, vivendo em reclusão extrema. Esse fenômeno é estudado amplamente por Saito (2013), que o define como uma síndrome associada à modernidade. Para Berardi (2007/2019), o hikikomori não é uma exceção cultural, mas uma manifestação extrema de tendências globais: a rarefação do contato corporal e a predominância de uma “emoção sem fisicalidade”.

Nesse contexto, Berardi propõe o conceito de hipersemiotização do desejo, que descreve como os estímulos digitais saturam o cérebro humano, deslocando o desejo de sua base física e relacional para um ciclo neuro-semiótico alimentado por reações dopaminérgicas a estímulos eletrônicos (Preciado, 2020; Berardi, 2007/2019).

Para Berardi, o que ocorre hoje é mais radical: o próprio regime de desejo foi reformatado pela digitalização, e os estímulos virtuais são vivenciados como reais. Essa condição dissolve o que Freud (1930/1961) ou Marcuse (1975) poderiam chamar de “realidade” do prazer físico, deslocando-o para um campo virtual (Berardi, 2007/2019).

Sublimação e o terceiro inconsciente

Essa nova configuração subjetiva desafia modelos clássicos da psicanálise, particularmente a concepção freudiana de sublimação. Para Freud (1930/1961), a sublimação era o mecanismo pelo qual a energia libidinal era desviada para atividades culturais, artísticas ou intelectuais, promovendo a civilização. No entanto, Berardi (2007/2019) argumenta que, no contexto digital, o desejo não é mais canalizado para produções simbólicas duradouras, mas consumido em ciclos imediatos de gratificação estimulados por interfaces eletrônicas.

Nessa lógica, não há deslocamento do desejo, mas uma dissolução da própria relação com o real, substituída por uma semiose dopaminérgica. Isso marca um rompimento radical com a ideia de sublimação como processo mediador entre o inconsciente e a cultura.

A hipersemiotização, na visão de Berardi, cria um ciclo de desejo-prazer que ocorre inteiramente no campo do estímulo virtual. Isso implica uma perda de “competência erótica”, ou seja, a capacidade de conectar o desejo à fisicalidade, e gera o que ele chama de distância digital, um estado em que o contato físico se torna obsoleto ou irrelevante (Preciado, 2020; Berardi, 2007/2019).

O declínio da libido e a nova configuração do amor

Berardi também aborda a questão do declínio da libido e do aparente recuo das conquistas da “liberação sexual” do século XX. Ele sugere que a crise do Eros no Ocidente não pode ser compreendida apenas a partir de parâmetros biológicos ou culturais, mas como parte de um colapso mais amplo das condições psicoafetivas e econômicas (Berardi, 2007/2019).

Dentre as causas, ele cita fatores como o envelhecimento das populações, um fenômeno bem documentado em estudos demográficos (UN, 2019), e a queda da fertilidade masculina, que tem sido associada à exposição a poluentes, incluindo microplásticos, que afetam o sistema hormonal (Meeker, Sathyanarayana, & Swan, 2010; Bergman et al., 2013). Ele também aponta o medo crescente de gerar novas vidas em um mundo ameaçado pelo colapso climático, uma preocupação cada vez mais comum entre jovens adultos (Götmark, Cafaro, & O’Sullivan, 2018; Majeed & Lee, 2017). Por fim, destaca a disjunção cognitiva causada pela hiperconectividade, que altera os padrões de relacionamento e desejo (Han, 2015; Turkle, 2011).

A proliferação de pornografia online, por exemplo, é um sintoma dessa transformação, ilustrando a “virtualização” do desejo e a redução da capacidade de estabelecer vínculos afetivos genuínos (Sun et al., 2016; Döring, 2009). Para Berardi, essa reconfiguração do desejo e do prazer não é apenas um sintoma da modernidade, mas uma transformação estrutural da subjetividade, em que a capacidade de amar se vê comprometida por estímulos que priorizam a gratificação instantânea em detrimento do encontro profundo.

Psicanálise, poesia e a luta pelo domínio da linguagem

As transformações descritas por Berardi nos convidam a rever as categorias tradicionais da psicopatologia. A hiperconectividade digital, ao remodelar a psicosfera, está igualmente reconfigurando o desejo, o prazer e a própria capacidade de amar. Em vez de patologias isoladas, Berardi descreve um deslocamento estrutural da subjetividade, em que o corpo e a fisicalidade perdem centralidade na elaboração afetiva.

A seguir, apresentamos a entrevista concedida por Berardi. Trata-se de um testemunho singular, em que sua voz dialoga com questões prementes da contemporaneidade, atravessando as fronteiras entre psicanálise, tecnologia, poesia e política do desejo.

1. Durante a transição em curso do capitalismo tradicional para o capitalismo digital, como você vê o impacto nas formas de sofrimento psíquico e no escopo clínico da psicanálise? As mudanças tecnológicas afetam não apenas os relacionamentos e as identidades, mas também o inconsciente e nossa capacidade de formar vínculos afetivos e românticos genuínos?

Nas últimas duas décadas, desde que escrevi o livro La fábrica de la infelicidad (2007), o foco da minha atenção tem sido a mutação do ambiente mental — que chamo de Psicosfera — e a consequente mutação do comportamento psicológico da primeira geração que aprendeu mais palavras de uma máquina do que da voz de um ser vivo.

O acesso à linguagem não é — apenas — um processo técnico, mas está essencialmente ligado à afetividade. Por isso, acredito que uma transformação profunda está em curso.

No nível empírico, temos sido capazes de detectar algumas mudanças no comportamento da geração millennial: um declínio na atividade sexual, a disseminação de depressão, entre outros. No entanto, penso que esses dados empíricos não são suficientes para compreender plenamente a extensão e a profundidade dessa mutação, que abrange os campos da linguagem, da sexualidade, do comportamento social e do sofrimento mental.

Provavelmente, não estamos enfrentando uma mera intensificação de patologias antigas (como a depressão), mas sim uma mutação que reformula a própria atividade cognitiva e também a elaboração emocional dos estímulos.

2. A sociedade contemporânea é frequentemente descrita como individualista, embora estejamos mais conectados digitalmente do que nunca. Como você reconcilia essa aparente contradição? E quais são os efeitos dessa conectividade sobre a subjetividade? Por exemplo, a internet e as redes sociais são frequentemente acusadas de promover o narcisismo e fazer da competição a forma predominante de sociabilidade. Qual é a sua visão sobre isso?

A palavra “individualismo” refere-se, em primeiro lugar, aos efeitos do estresse neoliberal sobre a competição. No entanto, aqui estamos falando de algo que se relaciona mais diretamente aos efeitos da digitalização e da conectividade. Dessa forma, trata-se de uma condição que, em última análise, redefine não apenas a cognição, mas também a emocionalidade. Nesse contexto, a intensificação da interação eletrônica vem acompanhada por uma consequência evidente: a rarefação do contato corporal. Por um lado, podemos enxergar essa rarefação como uma patologia; por outro, podemos também interpretá-la como o surgimento de uma nova configuração do self. Um exemplo que ilustra bem essa condição é a experiência dos jovens hikikomori no Japão. Esse fenômeno, na realidade, vai muito além do que convencionalmente chamamos de individualismo. De fato, não se trata de um fenômeno marginal da vida contemporânea, mas sim de uma manifestação extrema de isolamento físico — uma condição que pode ser descrita como emoção sem fisicalidade. Portanto, essa mutação do ambiente — que chamo de Psicosfera — não afeta apenas as relações sociais, mas atua diretamente sobre o próprio regime do desejo. Diante disso, cabe perguntar: O que é o desejo, quando o cérebro humano reage cada vez mais ao efeito da dopamina, estimulada por dispositivos eletrônicos? Talvez possamos falar de uma nova configuração do desejo: uma espécie de hipersemiotização do desejo.

3. Considerando as tecnologias digitais e a era da informação, como você vê a questão da dominação em relação ao que alguns, como W. Reich, consideraram como a virtude fundamental do Eros — seu poder emancipatório? Contrariamente, Marcuse apontou a dessublimação repressiva como uma das estratégias mais nefastas de dominação no capitalismo. Quais são seus pensamentos sobre isso? E que outras formas de dominação psíquica você identificaria no contexto atual?

O conceito de sublimação, tal como foi compreendido até hoje, precisa ser revisitado. Isso se deve ao fato de que, na contemporaneidade, a hipersemiotização do desejo instala uma estrutura completamente distinta na relação entre estimulação e prazer. Nesse cenário, o prazer é cada vez mais absorvido pelo ciclo neuro-semiótico, enquanto o contato físico torna-se progressivamente inacessível. Como resultado, o distanciamento digital promove a perda da competência erótica e a rarefação do contato sexual. No passado, poderíamos compreender esse deslocamento da energia sexual em direção à troca semiótica como uma forma de sublimação. No entanto, na filosofia crítica dos anos 1960 e 1970, a sublimação era vista de maneira ambígua, frequentemente entendida como um adiamento ou deslocamento do prazer “real”. Ainda assim, surge uma questão central: o que é, afinal, “real” na esfera do desejo? O conceito de sublimação está intimamente relacionado a uma estrutura psicológica em que a “realidade” é entendida como o mundo físico, o corpo, a carne. Contudo, para uma pessoa que cresceu dentro da esfera conectiva desde a infância, a própria percepção do que é “real” foi profundamente alterada. Sob essa perspectiva, a estimulação informacional (info-stimulation) não pode ser reduzida a um simples input intelectual. Muito pelo contrário, ela atua diretamente sobre o sistema de expectativas e recompensas psicológicas. A experiência virtual não apenas é percebida como real, mas a estimulação informacional também funciona como um ativador de reações dopaminérgicas no cérebro. Assim sendo, o conceito de sublimação no contexto da psicosfera atual não pode ser equiparado à sublimação da era de Freud — a era do primeiro inconsciente, marcada pela neurose. Da mesma forma, ele tampouco pode ser comparado à sublimação (ou dessublimação) característica da era de Marcuse — a era do segundo inconsciente, associada à esquizoaceleração. Em vez disso, a sublimação assume um significado completamente diferente no terceiro inconsciente, que, como sugere Paul Preciado, é o inconsciente disfórico (dysphoric unconscious). Embora eu prefira evitar conclusões precipitadas, deixo aqui uma pergunta que considero essencial: poderíamos formular a hipótese de que as condições cognitivas para a emocionalidade mudaram tanto que o ciclo desejo-prazer passou a se desenrolar inteiramente no espaço da estimulação neuro-semiótica?

4. O século XX foi marcado pela “liberação sexual”. Como você percebe o avanço de movimentos conservadores em grande parte do mundo ocidental, o aparente recuo dessa “liberação” e o “declínio da libido” no Ocidente? Como a proliferação da pornografia na internet moldou as percepções e expectativas sobre relacionamentos românticos e sexuais? Que implicações isso pode ter para o Eros e para a capacidade de amar?

O que você quer dizer exatamente com as palavras “capacidade de amar”? Não podemos compreender, muito menos julgar, a experiência emocional contemporânea com base nas condições socioculturais do século XX. Suponho que você concorde comigo nesse ponto. Acredito que, em grande parte do mundo, a conjunção heterossexual seja um comportamento em declínio, assim como a procriação segue uma tendência de queda. As possíveis causas desse fenômeno são múltiplas e interconectadas. Em primeiro lugar, há uma causa demográfica, relacionada ao envelhecimento médio da população nas regiões do Norte do planeta, e, provavelmente, do planeta inteiro em um futuro próximo. Em segundo lugar, há uma causa biológica: a queda da fertilidade masculina, que sofreu uma redução de 58% nos últimos quarenta anos, provavelmente em função da interrupção hormonal provocada pela exposição a microplásticos. Além disso, encontramos uma causa cultural, na medida em que as mulheres estão cada vez menos motivadas a ter filhos, seja de forma consciente ou inconsciente, porque não desejam gerar vítimas das mudanças climáticas e da crise ambiental. Por fim, há uma causa psico-cognitiva, associada à desconexão conectiva que caracteriza o formato mental contemporâneo, resultando no deslocamento do ciclo desejo-prazer para uma direção não física e na hipersemiotização tanto do estímulo quanto do próprio desejo.

5. Você já escreveu sobre o papel significativo da poesia na batalha pela emancipação, particularmente no âmbito da linguagem. Apesar dos desafios, você vê a psicanálise desempenhando um papel crucial nessa cruzada pela dominação da linguagem?

Temos, sem dúvida, um problema de reconceitualização. A psicanálise continua sendo o melhor ponto de vista para compreender um processo de mutação que envolve tanto a atividade semiótica — isto é, a linguagem e a esfera midiática — quanto a matéria neurobiológica. No entanto, os psicanalistas não possuem ferramentas adequadas para lidar, ou mesmo “curar”, um estado mental psicótico. Em 1919, logo após a Primeira Guerra Mundial e às vésperas da ascensão nazista, Sándor Ferenczi afirmou: “A psicanálise não tem as ferramentas conceituais e terapêuticas para uma psicose de massa”. E, de muitas maneiras, ainda nos encontramos nesse ponto. Quanto à poesia, ela representa outra via de reflexão e resistência. Lembro-me das palavras de William Butler Auden (1940), que escreveu:

Poetry makes nothing happen: It survives

In the valley of it saying where executives

Would never want to tamper; it flows south

From ranches of isolation and the busy grief,

Raw towns that we believe and die in:

It survives. (p. 108)

Mas Auden (1966) também escreveu:

Though one cannot always

Remember exactly why one has been happy,

There is no forgetting that one was. (p. 235)

A poesia, nesse sentido, é a lembrança da possibilidade da felicidade. Mais do que isso, a poesia é a dispensa irônica do peso da história, um espaço no qual o humano pode encontrar leveza e resistência frente à opressão das forças culturais e sociais que nos moldam.

Em essência, as reflexões de Berardi nos convidam a transcender as categorias tradicionais de análise do sofrimento psíquico, propondo uma exploração mais profunda de como a transição para o capitalismo digital tem remodelado a psicosfera, os regimes de desejo e as formas contemporâneas de subjetividade (Berardi, 2007/2019; Han, 2015). Sua abordagem interdisciplinar — que cruza psicanálise, filosofia e poesia — nos desafia a repensar o que significa ser humano em um mundo no qual a hiperconectividade redefine os alicerces da experiência afetiva e emocional (Turkle, 2011).

Nesse cenário, ele nos provoca com uma questão fundamental: ainda somos capazes de amar? E, se a resposta for afirmativa, como o Eros pode sobreviver em um ambiente onde o desejo é capturado pela lógica da semiose infinita e o prazer se torna cada vez mais mediado por estímulos eletrônicos? (Preciado, 2020; Döring, 2009). Essas questões permanecem em aberto, mas talvez seja na poesia, como ele sugere, que possamos reencontrar a lembrança do que é possível — e do que ainda pode ser resgatado (Berardi, 2007/2019; Auden, 1940).

Disponibilidade de Dados de Pesquisa:

Não se aplica.

  • Financiamento/Funding:
    Os autores declaram não terem sido financiados ou apoiados / The authors have no support or funding to report.

Referências

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  • Editores do artigo/Editors:
    Paulo Antonio de Campos Beer, Rafael Alves Lima

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    17 Set 2025
  • Aceito
    03 Dez 2025
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