Open-access Do “Projeto...” e seu contexto científico

Of the “Project...” and its scientifc context

A fundação da psicanálise: do neurônio à memória (Vol. I). Simanke, Richard Theisen. Instituto Langage, 2023. 320

O livro de Richard Simanke, A Fundação da Psicanálise: do neurônio à memória (Vol. I), faz parte da série “Estudos Epistemológicos” que, por sua vez, compõe a coleção “História e Epistemologia da Ciência”, dirigida por Daniel Omar Perez. Nesse contexto, o livro alça como objetivo dar início a uma rigorosa análise teórica do texto freudiano “Projeto para uma psicologia científica”, a ser realizada em seis volumes, dos quais este é o primeiro.

As considerações iniciais do autor podem ser confirmadas durante a leitura. Trata-se de um trabalho não apenas de análise interna, na qual se propõe a destrinchar até mesmo as passagens mais confusas do “Projeto...”, mas também da contextualização histórica do mesmo no cenário científico da época.

Dividido em oito capítulos, o livro aborda os aspectos que levaram à produção do “Projeto...”, seu processo de desenvolvimento, e apresenta uma análise detalhada da “Introdução” e das Seções de 1 a 6 da Parte Geral. Chama a atenção que em todos esses pontos há uma preocupação do autor em articulá-los, desde o início, aos desenvolvimentos tanto anteriores quanto posteriores de Freud, como é o caso das constantes menções ao texto sobre as afasias (1891) e à Traumdeutung (1900).

No primeiro capítulo acompanhamos os passos que levaram Freud à escrita do esboço que viria a ser conhecido como o “Projeto...”. Simanke localiza a preocupação freudiana de produzir uma psicologia fundamentada em bases fisiológicas, e já adianta as dificuldades encontradas nessa empreitada. Para além disso, o autor faz questão de ressaltar o papel que o “Projeto...” desempenha na metapsicologia de Freud, mesmo que a citada fundamentação não tenha sido levada a cabo pelo manuscrito. A partir do segundo capítulo, a análise detalhada das seis primeiras seções do texto freudiano se inicia. No capítulo dois, o pressuposto quantitativo tem suas origens explicitadas, e seu papel como alicerce teórico de toda a teoria exposta no “Projeto...” demarcado. O capítulo três aprofunda o conceito de quantidade, abordando as ideias de quantidade em fluxo e quantidade em ocupação ou repouso que servem de fundamento para os princípios de inércia e, posteriormente, de constância, do aparelho psíquico, postulados por Freud.

O quarto capítulo é dedicado à noção de neurônio. Para além de uma recapitulação da teoria neuronal, nesse capítulo são analisadas as hipóteses freudianas que dizem respeito à dinâmica da quantidade no tecido nervoso, em especial suas possibilidades dentro dos neurônios. A ideia de ocupação ganha maior atenção na medida em que o autor a localiza como ponto articulador entre as concepções de quantidade em fluxo/repouso e a de barreiras de contato. No quinto capítulo somos então apresentados ao conceito de “barreira de contato”. Além de salientar como tal noção antecede a concepção contemporânea de sinapse, Simanke (2023) localiza nela o ponto central que permite a Freud uma teorização significativa da memória. Essa última ainda será tema do fim desse capítulo e de todo o seguinte. O autor realça a importância que tal concepção tem para Freud, e como este a concebia a partir das bases neurais. Nessa trilha, o capítulo seis se debruça sobre o conceito de facilitação, ideia essencial para compreender a conjetura freudiana da memória, e sua proposta teórica para a sustentação da diferença entre ela e a percepção.

No capítulo sete, as considerações sobre a articulação entre as hipóteses biológicas e mecânicas presentes no “Projeto...”, que já vinham sendo discutidas desde o início do livro, são sintetizadas. Por fim, o oitavo capítulo é destinado às considerações sobre o mecanismo da dor, sua origem no fracasso da tendência do aparelho a evitar o aumento dos níveis de quantidade, e como a noção de facilitação articulada ao problema da dor já trazia consigo as bases da concepção do trauma tal qual será apresentada mais tarde na metapsicologia freudiana.

Simanke (2023) desvela a lógica que subjaz no “Projeto...”, mostrando que mesmo as passagens mais obscuras, frente às quais um leitor desavisado não encontraria sentido, quando compreendida a estrutura do texto, não apenas fazem sentido, como portam em si potencialidades teóricas. Parte de seu sucesso é resultado da contextualização histórica do manuscrito. Concebê-lo não apenas como um documento psicanalítico, mas como um exemplar do meio científico de sua época, habilita uma leitura até então desconhecida pela maioria dos leitores, em especial, os psicanalistas. Neste sentido, algo salutar do trabalho do autor é o fato de posicionar Freud como um pesquisador atravessado pelo modo de fazer pesquisa de seu tempo; em outras palavras, sua análise permite não apenas compreender, mas, principalmente, demonstrar a metodologia freudiana explicitada em “As pulsões e seus destinos”, a saber,

Já na descrição, não se pode evitar a aplicação de determinadas ideias abstratas ao material, ideias tomadas de algum lugar, por certo não somente das novas experiências. Tais ideias — os futuros conceitos fundamentais da ciência — tornam-se ainda mais indispensável na elaboração posterior da matéria. No princípio, elas devem manter certo grau de indeterminação; (...). Enquanto se encontram nesse estado, chegamos a um entendimento quanto ao seu significado, remetendo-nos continuamente ao material experimental, do qual parecem ter sido extraídas, mas que, na verdade, lhes é subordinado. (Freud, 2017, p. 15)

Ademais, não podemos perder de vista que o “Projeto...” é um trabalho denso, controverso, pouco lido e muito citado, e de difícil entendimento, mas nem por isso o autor recua frente àquelas passagens mais complexas, buscando na sua contextualização histórico-teórica, a saída para sua compreensão. A enorme quantidade de referências aos teóricos dos quais Freud tira suas bases, não nos deixa mentir. Simanke supre a ausência das mesmas no “Projeto...”. Longe de seguir, em alguns momentos, o consenso entre os comentadores do mesmo texto, o autor preza pela potencialidade da escolha metodológica, e nos brinda com uma perspectiva nova e mais coerente do conteúdo e da forma. Não à toa esse livro é o resultado de um trabalho desenvolvido ao longo de vinte anos. Temos em mãos um exemplar de uma pesquisa feita não apenas com rigor e cuidado, mas com um compromisso metodológico louvável; em outras palavras, um trabalho de valor inestimável para qualquer pesquisador interessado.

É claro que tal empreendimento tem como consequência um texto que requer uma leitura muito atenta, tanto pela complexidade das explicações quanto pelos detalhes teóricos e históricos que acompanham a contextualização do trabalho freudiano. Mas não podemos dizer que não fomos advertidos pelo autor, já que desde o início ele deixa claro que “num texto tão obscuro e difícil de ler como o “Projeto...”, pareceu melhor pecar por excesso de zelo do que por desleixo” (Simanke, 2023, p. 24). Mais uma vez, o estilo próprio de Simanke, marcado pelo seu compromisso com a pesquisa, fica evidente.

Referências

  • Freud, S. (1990). Projeto para uma psicologia científica. Publicações prépsicanalíticas e esboços inéditos. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. I). Imago. (Trabalho original publicado em 1950[1895]).
  • Freud, S. (2017). As pulsões e seus destinos. Autêntica. (Trabalho original publicado em 1915).
  • Simanke, T. R. (2023). A fundação da psicanálise: do neurônio à memória (Volume I). Instituto Langage.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Jan 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    24 Jul 2024
  • Aceito
    21 Ago 2024
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