O inconsciente colonial da psicanálise é uma cole-tânea organizada por Martin Mezza, Isael Sena e Fauzy Araujo, que compuseram, desde 2018, com psicólogos/a e psicanalistas, um coletivo dedicado à pesquisa sobre o inconsciente colonial da psicanálise; debruçando-se sobre a “ideologia colonial”, trançando elementos da teoria psicanalítica e de diferentes discursos ideológicos para reconhecer a existência de um “espaço intermediário” onde se negociam tais elementos (p. 9).
O livro constitui um esforço coletivo de articulação entre a psicanálise e a crítica decolonial. Os/a autores/a debruçam-se sobre as marcas históricas e epistemológicas oriundas das relações coloniais nas teorias psicanalíticas. Para além dos efeitos do colonialismo na invenção da psicanálise, a proposta do livro é avançar a produção ético epistemológica e olhar criticamente para as filiações que sustentam o status quo do saber-fazer psicanalítico pelo mundo, denegando as diferenças produzidas, principalmente, no sul global. O livro nos convida a olhar para a consciência da colonialidade, para o mal-estar na cultura do freudismo, para a construção de psicanálises brasileiras, para o apagamento da figura de Solange Faladé no movimento psicanalítico, para a relação entre eu ideal/Ideal do eu, para o mito edipiano em seu complexo de universalidade. Questiona a colonialidade do saber não sabido, passando pela vergonha do discurso colonial e chegando no advento de uma gramática racializada para, então, terminar com a des-coberta do sujeito e a colonialidade do ser.
Andrea Guerra prefacia esse livro fazendo uma cartografia de algumas exposições artísticas que estão acontecendo pelo mundo, na perspectiva de que “a arte antecipa um devir-mundo”, colocando-nos “diante de uma nova cosmopercepção global da estética ocidental” (p. 9). Importa lembrar que ao mesmo tempo que há algum reconhecimento de que houve “sequestro, vilipêndio, primitivização e exotização de objetos, pessoas, conhecimentos e práticas” (p. 8), existem, ainda, tantas outras histórias que seguem nos porões de grandes museus europeus, separados de suas origens pelo Atlântico. Como desvela a Exposição Batuque2, trazendo à tona a história de objetos sagrados na perspectiva de religiões de matriz africana e povos de terreiro, apreendidos no Sul do Brasil, vendidos e doados a um museu alemão que os detêm em seus porões, enquanto em seu território a história vem sendo não contada e relegada ao esquecimento.
Há premissas centrais que guiam o leitor à crítica decolonial: 1) pressupostos universalizantes da psicanálise carregam heranças eurocêntricas que precisam ser interpeladas; 2) a historicidade colonial tem efeitos concretos na clínica e na formação de profissionais. A construção do livro conta uma história desses estudos do coletivo sobre a colonialidade, introduzindo as discussões a partir de uma proposta/aposta: “curar-nos da psicanálise”, a partir do estabelecimento de “compromisso (político) com a teoria psicanalítica”, de acordo com título do capítulo escrito por Martín Mezza. Os/a autores/a se ocupam de “repensar os impasses teóricos e práticos da elaboração psicanalítica sobre o lugar do sujeito no mal-estar da cultura” (p. 18), num movimento de complementação.
Revisam a práxis psicanalítica no giro decolonial para entender e elaborar o que fazer diante do “embaraço eurocêntrico” (p. 18) que emaranha as tramas psicanalíticas. Retomam, assim, importantes conceitos do tesouro dos significantes psicanalíticos, muitos dos quais são repetidamente utilizados como escudos para justificar violências clínicas, intervenções mal colocadas ou até interpretações calcadas no pacto narcísico da branquitude (Bento, 2022) e de uma pactuação masculinista, perpetuando o sistema de monoculturas3 que alimenta o sistema moderno-colonial racista e sexista que organiza o Ocidente.
Parte do movimento que os/a autores/a engendram consiste em trazer à tona certos apagamentos que a história da psicanálise institui, como o lugar de Solange Faladé, uma psicanalista africana que trabalhava lado a lado com o psicanalista francês Jacques Lacan. No capítulo quatro, Marilen Osinalde faz um manifesto anticolonialista em ato ao retomar a biografia dessa psicanalista, contando sua história que foi suprimida e articulando-a com a história da própria psicanálise, bem como salientando suas principais contribuições para o campo.
Algo que se repete durante a leitura é o termo “passado colonial”, que podemos questionar para além das nomeações decoloniais ou pós-coloniais que a academia propõe, mas na própria forma de se relacionar com o colonialismo vigente que afeta nossas subjetividades nessa repetição reiterada do colonial no presente e nas articulações de futuro. Importa lembrar que colonialidade é expressão contemporânea da colonização e constitui processo de retirada do território, retirada da identidade, retirada da cosmologia, retirada dos sagrados, imposição de modos de vida e renomeação, colocação de outro nome. A finalidade é quebrar subjetividades e destituir cosmovisões a fim de “fazer trabalhar ou produzir objetos de estimação e satisfação” (Santos, 2023, p. 12), ceifando o imaginário para que não seja possível que as pessoas façam sua autogestão, retirando possibilidades de construção e sustentação de autonomia.
Sendo a última etapa do processo de colonização a denominação, Antônio Bispo dos Santos (2023) propõe que, para contrariar o colonialismo, é necessário “seguir nas práticas das denominações dos modos e das falas” (p. 13), entrar na “guerra das denominações: jogo de contrariar as palavras coloniais como modo de enfraquecê-las” (p. 13). Essa estratégia consiste em pegar palavras potentes da estrutura colonial e torná-las fracas e pegar nossas palavras enfraquecidas e potencializá-las. Como dizer que “desenvolvimento” desconecta e é uma variante da cosmofobia, a palavra seria, então, envolvimento.
É a linguagem o fio condutor que atravessa as discussões realizadas pelos capítulos do livro. No penúltimo capítulo, Ignácio Paim e Augusto Paim afirmam que resgatar, no mundo representacional com suas consequências no processo identificatório, o mérito de inscrever no português brasileiro o que ele realmente tem de seu é uma das aquisições fundamentais para descolonizar o nosso Eu. E afirmam ainda: “acreditamos que, nesse processo de significação e ressignificação do nosso português, encontraremos subsídios para instrumentalizar a própria descolonização do inconsciente, em seu interfluxo com o pré-consciente” (p. 214). Os autores continuam: “não mais precisaremos destruir a casa grande com as ferramentas do opressor, a transformamos em algo nosso, criamos outra coisa: o pretuguês e o bRasil” (p. 214). Vale destacar que, de saída, os autores já afirmam, na esteira do pensamento de Lélia Gonzalez (1984): “o lixo vai falar e numa boa”.
O livro busca, portanto, deslocar a discussão da psicanálise numa direção que incorpore saberes subalternos e sensibilidade decolonial. Em termos de organização, muitos capítulos articulam fontes clássicas da psicanálise com autores de estudos pós-coloniais e decoloniais, oferecendo leituras que colocam em evidência como conceitos e práticas psicanalíticas foram entrelaçados com projetos civilizatórios e com hierarquias raciais. Essa metodologia permite ao/à leitor/a mapear tanto continuidades teóricas quanto pontos de ruptura e resistência.
Contudo, para o/a leitor/a não escorregar na casca de banana imposta pela colonialidade, é necessário manter uma postura crítica em relação à busca pela confirmação e validação de certos conceitos consagrados, o que pode obliterar a leitura de alguns fenômenos da vida social e, por consequência, da clínica psicanalítica (Damico, Ohnmacht & Souza, 2021), especialmente nessa articulação de entre psicanálise e decolonialidade.
Assim, a proposta dos/a autores/a não é abandonar a psicanálise, mas sim, uma aposta na direção de descolonizá-la, tornando-a mais sensível às assimetrias oriundas do processo colonial. O livro oferece contribuições teóricas e práticas ao campo da psicanálise, indica caminhos para uma clínica atenta às diferenças culturais e históricas, interpela a psicanálise e abre espaço para vozes e narrativas comumente marginalizadas nas tradições psicanalíticas hegemônicas. O livro é um convite para pesquisadores, clínicos e estudantes que procuram articular teoria, história e prática clínica a partir de uma perspectiva decolonial da psicanálise.
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Referência ao texto “A psicanálise em elipse decolonial”, de Andrea Guerra.
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Exposição realizada no Instituto Espaço Barca Aberta, entre 22 de novembro e 14 de dezembro de 2025.
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“Tenho chamado de sistema de monocultura a esse conglomerado colonial que se estrutura na monocultura da fé, através do monoteísmo cristão; na monocultura dos afetos, por meio da monogamia; na monocultura da sexualidade, mediante o monocissexismo, e assim por diante (Núñez, 2021). Nas palavras de Ailton Krenak (Krenak & Campos, 2021, p. 69), monocultura “é a imposição monolítica de um mundo só” e essa imposição pode ocorrer em diversas frentes” (Núñez, 2023).
Referências
- Bento, C. (2022). O pacto da branquitude Companhia das Letras.
- Damico, J., Ohnmacht, T., & Souza, T. de P. (2021). Anti-narciso e o devir revolucionário de Franz Fanon: diálogos entre psicanálise, política e racismo. In G. Assuar, & E. de C. David (Orgs.), A psicanálise na encruzilhada. Hucitec.
- Gonzalez, L. (1984). Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, 2(1), 223-244.
- Guerra, A. (2021). A psicanálise em elipse decolonial. In A. M. C. Guerra, & R. G. e L. (Orgs.), A psicanálise em elipse decolonial N-1 Edições.
- Krenak, A., & Campos, Y. (2021). Lugares de origem Jandaíra.
- Mezza, M., Sena, I., & Araujo, F. (Orgs.) (2025). O inconsciente colonial da psicanálise Discurso.
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Núñez, G. (2021). Monoculturas do pensamento e a importância do reflorestamento do imaginário. ClimaCom – Diante dos Negacionismos [on-line], 8(21), nov. climacom.mudancasclimaticas.net.br/monoculturas-do-pensamento/
» climacom.mudancasclimaticas.net.br/monoculturas-do-pensamento/ - Núñez, G. (2023). As monoculturas como violação da singularidade. Jornal de Psicanálise, 56(105), 107-120.
- Santos, A. B. dos (2023). A terra dá, a terra quer Ubu Editora/Piseagrama.
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Editor do artigo/Editor:
Marta Regina de Leão D’Agord
