Este dossiê reúne 21 estudos que investigam o protagonismo feminino na música a partir de múltiplas abordagens - históricas, performáticas, educativas, filosóficas e sociopolíticas. A diversidade das propostas revela um campo fértil de resistência, invenção e revisão crítica dos cânones que, por tanto tempo, marginalizaram as contribuições das mulheres.
Fruto de duradoura parceria, o dossiê está vinculado às produções científicas dos grupos de pesquisas cadastrados no CNPq, a saber: Grupo de Estudos em Cultura, Trabalho e Educação (GeCULTE-UFF) e (GePEAMUS-CPII)1. A chamada de trabalhos alinhou-se com os eixos temáticos2 propostos pela Vórtex e convocou pesquisadores a dissertarem sobre demandas e questionamentos da contemporaneidade, tanto no âmbito da universidade e centros de pesquisas, quanto no âmbito geral da sociedade brasileira, movimentos culturais, sociopolíticos e econômicos. Assim, convocamos a comunidade científica para apresentarem trabalhos sobre os seguintes temas: performance; relações étnico raciais; musicologia feminina; musicologia e educação; criação e estética; tecnologias e futurismo; análise/percepção/teoria da música. O resultado apresenta artigos agrupados em eixos temáticos que evidenciam as articulações entre gênero, raça, classe, estética, pedagogia e ativismo musical.
A motivação que nos levou a esta proposta foi a constatação de que, nos últimos anos, havia um crescente interesse no desenvolvimento de pesquisas cujo foco estava centralizado em mulheres. Para além de nossas próprias pesquisas e orientações, era notável que nas primeiras décadas do século XXI, novas perspectivas e enfoques de análises das práticas musicais de mulheres estavam, pouco a pouco, constituindo um campo específico nos estudos de gênero no Brasil (Nogueira, Zerbinatti e Pedro, 2018; Rosa, Nogueira, 2015). Ainda que essas investigações apresentassem interesses e abordagens muito heterogêneas, já era possível identificar um significativo número de Grupos de Pesquisa e Coletivos que vinham investindo esforços para a visibilização de mulheres atuando com música (Albuquerque, 2019, p. 31).
Para destacar uma novidade, concordamos com Clara Fernandes Albuquerque, quando afirma que as mulheres não estavam mais sendo vistas como coadjuvantes, subalternas ou vítimas (Albuquerque, 2023). Estudos recentes vêm destacando como as mulheres atuam e atuaram intensamente em diversos estilos, tipos de práticas musicais, festividades, manifestações culturais e territorialidades diferenciadas (Lima, 2021; Velon, 2022; Mourim, 2022).
Pesquisas têm analisado os espaços nos quais essas mulheres circularam, as redes de sociabilidades nas quais estão e estiveram inseridas, os conflitos, as cumplicidades, os limites, as possibilidades que enfrentaram para a expressão musical de suas ideias, além das já mencionadas questões de raça, classe, etnia e gênero que estiveram presentes em suas trajetórias (Albuquerque, 2023; Pires, Câmara, 2019; Rego, 2022; Requião, 2019; Segnini, 2014; Rocha, 2012).
Muitas pesquisas, contudo, encontram-se dispersas em anais de congressos, em artigos de revistas acadêmicas de diversas áreas do conhecimento, em repositórios de programas de pós-graduação, desvelando a produção científica. Assim, a demanda por uma publicação que reunisse pesquisas recentes superou as expectativas. A resposta à chamada trouxe textos que ampliam o debate e conectam três continentes: América Latina, África e Europa. Três textos analisam experiências internacionais e estudos sobre mulheres negras e indígenas despertaram significativo interesse. Completando a localização geográfica dos autores, destaca-se que as regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil foram contempladas.
Beatriz Oliveira e Pedro Rodrigues, Micas Orlando Silambo, Juliane Larsen e Camila Cardoso constroem importantes mapeamentos de repertórios femininos historicamente invisibilizados. Seja no universo da guitarra clássica em Portugal, da mbira moçambicana ou da percussão latino-americana e caribenha, esses estudos reconstroem memórias e denunciam apagamentos, destacando práticas criativas femininas que desafiam estereótipos e ampliam o escopo do que se entende por tradição musical.
Isabel Porto Nogueira propõe uma metodologia de criação musical pautada na escuta sensível, feminista e decolonial. Em paralelo, Clovis Salgado Gontijo Oliveira e Mauro Miguel de Araújo Teixeira resgatam o pensamento de Susanne Langer, filósofa ainda marginalizada nos cânones da estética musical, para discutir os processos de significação artística. Ambas as propostas tensionam formas tradicionais de ouvir, pensar e valorizar a música, abrindo caminho para epistemologias outras.
Quatro textos analisam experiências coletivas que articulam música, política e identidade. O protagonismo de mulheres negras no bloco Comuna Que Pariu! (Thiago Borges e Samuel Araújo), a atuação do grupo BatuCantada (Vanessa Souza e Denise Bussoletti), os coletivos de mulheres sambistas (Julia Ricciardi, Rayra Mayara Santos e Laila Rosa) e as trajetórias de Dona Ivone Lara e Tia Doca (Denise Santiago-Figueiredo e Ana Paola Laeber) revelam a música como um espaço de enfrentamento ao racismo, ao patriarcado e à exclusão social. As performances tornam-se atos de resistência e construção de memória coletiva.
Júlia Salgado e Daniele Canedo, Sara Costa e Maylla Monnik, e Michele Castro com Gisele Massola exploram os impactos do racismo, do sexismo e da desigualdade social nas trajetórias de cantoras negras e indígenas. As autoras discutem não apenas os obstáculos enfrentados por essas artistas, mas também os modos como suas músicas operam como instrumentos de cura, resistência simbólica e representatividade. A potência da arte aparece, aqui, como força terapêutica e política.
Clara Fernandes Albuquerque e Anderson da Mata Daher investigam, respectivamente, as trajetórias de Leonor de Castro e Magda Tagliaferro, revelando como o gênero moldou a forma de inserção, recepção e atuação de mulheres na música erudita nos séculos XIX e XX. Enquanto Leonor rompeu barreiras como primeira professora do Conservatório de Música do Rio de Janeiro, Tagliaferro enfrentou a crítica misógina da imprensa francesa. Ambas desafiaram os limites impostos às mulheres na formação e na performance musical.
As pesquisas de Adriana Moreira e Laís Lopes, Janaina Fellini e Gislaine Vagetti, e Tadeu Taffarello em parceria com Raquel Juliana de Sousa, Flávio Cardoso de Carvalho e Vitor de Mello Lopes refletem sobre a criação feminina na composição musical. Os estudos destacam tanto as conquistas (como no caso de Rebecca Clarke) quanto os mecanismos de silenciamento (como o de Dinorá de Carvalho), além de investigar a violência simbólica que desvaloriza o trabalho autoral das mulheres. As análises propõem caminhos de reparação e valorização dessas trajetórias.
Suelen Matter analisa os benefícios do uso do trato vocal semiocluído em sopranos, apontando para a saúde vocal e a qualidade sonora na performance operística. Já Maria Rúbia de Moraes Andreta e Susana Igayara-Souza investigam o repertório de coros profissionais do Sudeste sob a perspectiva de gênero. Esses trabalhos contribuem para reflexões sobre técnica vocal, repertório e pedagogia crítica, com foco na atuação feminina no canto coral e lírico.
Por fim, Andréia Schach Fey e Guilherme Ballande Romanelli propõem a construção de uma Nova História da Música, que corrija ausências e desigualdades nos livros didáticos e na formação docente. Complementarmente, Yanne Angelim Dias e Maria Zelma de Araújo Madeira fazem um levantamento bibliográfico das pesquisas sobre mulheres no samba, reafirmando sua participação central nessa tradição musical. Ambos os textos apontam para o papel fundamental da pesquisa e da educação na transformação do campo musical.
AGRADECIMENTOS
Gostaríamos de agradecer, em primeiro lugar, às autoras e autores que submeteram seus textos ao dossiê, além dos editores da Revista Vórtex, Fabio Guilherme Poletto e Felipe de Almeida Ribeiro, que foram sensíveis à temática e nos abriram esse importante espaço na revista.
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1
GeCULTE-UFF (https://culturatrabalhoedu.uff.br/); GePEAMUS-CPII (https://gepeamus.wixsite.com/gepeamus)
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2
Criação Sonora e Composição Musical; Computação Musical e Tecnologia da Música; Estudos do som e Sonologia; Estética e Filosofia da Música; Performance Musical; Análise, Percepção e Teoria Musical; Musicologia e Etnomusicologia; Música Popular.
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DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA
- Uso de dados não informado; nenhum dado de pesquisa gerado ou utilizado.
REFERÊNCIAS
- ALBUQUERQUE, Clara Fernandes. Compreendendo os processos formativos e a consolidação dos campos da História da Educação Musical e dos Estudos de Gênero no Brasil. MONTI, Ednardo Monteiro Gonzaga do; ROCHA, Inês de Almeida (org.). Ecos e Memórias: histórias de ensinos, aprendizagens e músicas. Teresina: Edufpi, 2019. p. 21-59. Disponível em E-BOOKS - 2019 (ufpi.br)
- ALBUQUERQUE, Clara Fernandes. Filhas do Conservatório de Música: a institucionalização do ensino musical profissionalizante e a atuação de professoras de música no Rio de Janeiro Oitocentista (1853-1873). 2023. 672f. Tese (Doutorado em Música) - Programa de Pós-graduação em Música, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2023.
- LIMA, Julia Ricciardi. Moça Prosa e Samba que Elas Querem: Disseram que eu não era Bamba?: identidades, resistências e interpretações do samba na trajetória de conjuntos musicais formados por mulheres no Rio de Janeiro. 2021. Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2021.
- MOURIM, Roberta. Monina Távora: a pedagogia de uma artista. 2022. 335 f. Tese (Doutorado em Música) - Programa de Pós-Graduação em Música, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2022.
- PIRES, Antonilde Rosa; CÂMARA, Andréa A. Adour da. Ópera, raça e gênero sob o ponto de vista de artistas negras(os). Revista Música, v. 19, n. 2, p. 149-172, jul. 2019.
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NOGUEIRA, Isabel Porto; ZERBINATTI, Camila Durães; PEDRO, Joana Maria. A Emergência do Campo Música e Gênero no Brasil: Reflexões Iniciais. Descentrada, 2(1), e034, p. 1-18, 2018. Disponível em http://www.descentrada.fahce.unlp.edu.ar/article/view/DESe034
» http://www.descentrada.fahce.unlp.edu.ar/article/view/DESe034 - REGO, Tânia Maria Silva. As Instrumentistas, suas Trajetórias, Práticas e Expectativas: uma etnografia com viés feminista e interseccional sobre trabalho com música em São Luís do Maranhão. Tese (Doutorado) - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Música, 2022.
- REQUIÃO, Luciana. Trabalho, música e gênero: depoimentos de mulheres musicistas acerca de sua vida laboral. Um retrato do trabalho no Rio de Janeiro dos anos 1980 ao início do século XXI. Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 2019.
- ROSA, Laila; NOGUEIRA, Isabel. O que nos move, o que nos dobra, o que nos instiga: notas sobre epistemologias feministas, processos criativos, educação e possibilidades transgressoras em música. In: Revista Vórtex, Curitiba, v.3, n.2, p.25-56, 2015.
- ROCHA, Inês de Almeida. Canções de Amigo: Redes de Sociabilidade na correspondência de Liddy Chiaffarelli Mignone para Mario de Andrade. Rio de Janeiro: Quartet, Faperj, 2012.
- SEGNINI, Liliana Rolfsen Petrilli. Os músicos e seu trabalho: diferenças de gênero e raça. Tempo Social: Revista de Sociologia da USP, v. 26, n. 1, p. 75-86, jun. 2014.
- VELON, Marcela da Silva. Ação e Obra de Três Coletivos de Mulheres Músicas na Cidade do Rio de Janeiro: análise etnomusicológica, feminista e decolonial. 376f. Tese (Doutorado) - Programa de Pós-Graduação em Música, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro , 2022.
Editado por
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Editor: Dr. Felipe de Almeida Ribeiro; Fabio Guilherme Poletto. Editoras convidadas: Dra. Inês de Almeida Rocha; Dra. Luciana Requião.
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