Resumo
As grandes cidades e a vida do espírito é um dos ensaios mais importantes de Simmel devido ao feliz e condensado recorte em que expõe o moderno estilo de vida e sua relação com as grandes cidades. Os estímulos que gera se fazem notar nas muitas e variadas interpretações que recebeu. Entretanto, de que modo as circunstâncias em que foi tecido podem acrescentar algo à sua compreensão? Este artigo é uma tentativa de aproximar o ensaio dessas circunstâncias, quando foi proferido em Dresden a propósito da celebração da Primeira Exposição Municipal Alemã.
Palavras-chave
Simmel; Grandes Cidades; Conferência; Exposições; Modernidade
Abstract
The Metropolis and Mental Life is one of Simmel’s most important essays due to the happy and condensed approach he exposes on the modern lifestyle and its relationship with Metropolis. The stimuli it generates are noticeable in the many and varied interpretations it has received. However, how could the circumstances in which it was made add something to its comprehension? This article is an attempt to bring the essay closer to these circumstances, when it was presented in Dresden on the occasion of the celebration of the First German Municipal Exhibition.
Keywords
Simmel; Metropolis; Lecture; Exhibitions; Modernity
INTRODUÇÃO
Segundo Simmel, o ensaio “Die Großstädte und das Geistleben” (Simmel, 1903 ) – As grandes cidades e a vida do espírito –, “por sua própria natureza, não remonta a uma literatura própria. A fundamentação e apresentação de suas principais ideias histórico-culturais é dada pela minha Philosophie des Geldes” (Simmel, 2005: 591). No entanto, mesmo que a composição do ensaio tenha se dado a partir da seleção de algumas questões já tratadas em A filosofia do dinheiro , percebe-se nele grande coerência interna, que o dota de relativa autonomia.
Este é um traço dos ensaios de Simmel, pois geralmente apresentam um pequeno quadro coeso internamente, em que determinada questão tratada em outra oportunidade é modelada a partir de nova perspectiva, criando algo novo. A história da recepção deste ensaio sobre as grandes cidades, principalmente nas ciências sociais americanas, comprova sua força e grau de autonomia, pois deu impulso a diversas pesquisas, com orientações distintas entre si (Levine et al., 1976: 1112-1114; Aguiar, 2022 ).
Ainda que o ensaio simmeliano pareça ser uma criação independente, sua autonomia é relativa, pois, de forma ambígua, ele se caracteriza pelo inacabamento. Um caráter propositalmente inconclusivo, que incita a buscar conexões com outros de seus textos, como também tende a implicar seu leitor e estimulá-lo 1 . Pois o “quadro de referência” apresentado por Simmel tende a requerer aproximações com as “paredes de experiência” do próprio leitor (Goffman, 2008: 9-10). Portanto, da mesma forma que a conexão com A filosofia do dinheiro , sinalizada por Simmel e desenvolvida por Waizbort (Waizbort, 2006: 311-340), é muito enriquecedora, outras podem ser sugestivas. Principalmente porque o estímulo produzido por seu inacabamento nos induz a estabelecer conexões. Como a que pretendo empreender neste artigo: relacionar “As grandes cidades e a vida do espírito” com alguns ensaios de Simmel e, principalmente, com a circunstância da sua elaboração.
Com algumas exceções (Stewart, 2009 ; Frisby, 2001 ; Waizbort, 2006 ), essa circunstância foi pouco analisada ou mencionada. “As grandes cidades e a vida do espírito”, talvez o mais conhecido texto de Simmel (Frisby, 2014: 31), foi escrito para ser proferido em um evento sediado em Dresden, organizado pela Fundação Gehe para a celebração da Primeira Exposição Municipal Alemã (Stewart, 2009: 2). Posteriormente publicou-se a coletânea que reunia outras conferências do evento, todas com as grandes cidades como tema (Petermann, 1903 ). Uma conferência sobre as grandes cidades em um evento que expunha as novidades do mundo comercial e industrial produzidos pela e principalmente para a cidade moderna, além de outras atrações e curiosidades para entreter e maravilhar.
O contexto da própria conferência é por si só significativo e emblemático, e não passaria desapercebido a quem em 1896, alguns anos antes da exposição de Dresden, escreveu a “Exposição industrial de Berlim” (Simmel, 2013 ). Partirei justamente desse ensaio para analisar até que ponto a própria percepção de Simmel sobre as exposições pode ter corroborado para orientar a retórica de sua conferência. Após esse primeiro passo será possível identificar e compreender como algumas questões suscitadas em “As grandes cidades e a vida do espírito” podem ser conectadas ao contexto da conferência, e se tal ligação contribui para indicar outras leituras deste famoso e importante ensaio de Simmel.
O MODERNO E SUAS VITRINES
Um dos aspectos mais importantes do ensaio “Exposição industrial de Berlim”, publicado no jornal austríaco Die Zeit em julho de 1896, é a correlação entre o evento e a própria cidade de Berlim. Das muitas relações possíveis entre ambas, uma merece destaque: se a exposição é uma representação da metrópole ou se oferece possibilidades criativas para a própria metrópole.
David Frisby segue o primeiro desses caminhos ao mencionar sua intenção de reunir escritos de Simmel sobre a metrópole moderna para pensá-los de forma conectada, como uma “interseção de textos”, inclusive os aspectos comuns entre especificamente “A exposição industrial de Berlim” e “The Metropolis and Mental Life”. Essa intenção se justificaria devido ao “particular” interesse de Simmel nessas exposições como representações simbólicas das metrópoles modernas (Frisby, 2001: 101-102). Este interesse na exposição como representação simbólica pode ser verificado em determinadas passagens do próprio ensaio sobre a exposição de Berlim:
É mesmo bastante notável: o objeto individual no interior de uma exposição mostra as mesmas relações e modificações que são próprias ao indivíduo no interior da sociedade: de um lado, rebaixamento por meio do vizinho que possui outras qualidades; de outro, acentuação à custa do mesmo; de um lado, nivelamento e indiferenciação por meio de arredores similares; de outro, a intensificação que o individual e o indivíduo experimentam justo pela acumulação de impressões; de um lado, o indivíduo é apenas elemento de um todo, apenas membro de uma unidade mais elevada; de outro, tem a pretensão de ser ele mesmo um todo e uma unidade. Portanto, as impressões das coisas reunidas num mesmo espaço, com suas forças reciprocamente estimuladas, suas contradições, bem como seu convívio, refletem as relações objetivas dos elementos sociais
(Simmel, 2013: 75-76).
Percebe-se como aspectos cruciais na modelagem subjetiva dos habitantes da metrópole 2 podem ser expressos através dessa cultura das coisas em sua forma de exposição, o que aponta para o caráter de representação simbólica das exposições salientado por Frisby. Entretanto, mesmo ao afirmar que os objetos em exposição “refletem as relações objetivas dos elementos sociais”, Simmel acrescenta que esta “fecundidade” se deve “[…] à intensificação, desencadeada pelas exposições, do que se poderia chamar de qualidade-vitrine das coisas.” Como sugere Frisby, a exposição pode representar simbolicamente a metrópole, mas através de intensificações, do “mais extremo aumento desse superadditum estético” (Simmel, 2013: 75). A exposição reflete, mas intensificando, o que aponta para algumas diferenças entre o mundo extra cotidiano das exposições e a vida cotidiana das grandes cidades. Pois, ainda que ambas apresentem correspondências em sua feição geral, como a aceleração, o hiperestímulo e a tensão entre individualização e nivelamento dos sujeitos e objetos, essas correspondências diferem em intensidade.
Além disso, Simmel destaca também a criatividade da exposição berlinense e uma inovação estética vinculada ao “moderno estilo de vida” com implicações no espaço urbano: a arquitetura. As construções das exposições são “transitórias” e, ao imprimir em sua forma este caráter “efêmero” diretamente vinculado ao moderno, fazem de “sua efemeridade sua riqueza” (Waizbort, 2006: 346). Essa criatividade estética contribui até mesmo para sugerir novos desdobramentos para a arquitetura, pois
Se, em geral, o sentido de toda arte é o de corporificar em materiais transitórios a eternidade das formas, se, em geral, é justo na arquitetura que o ideal da duração tende a se expressar e a se efetivar – o encanto e o aroma da transitoriedade formam neste caso um estilo próprio, e, o que é ainda mais característico, a partir de um material que contudo parece novamente almejar uma duração ilimitada
(Simmel, 2013: 74).
Com isso, o moderno ganha também feição estética nas exposições. Pois oferece alternativas para a imagem urbana da grande cidade, principalmente, como Simmel destaca a respeito da exposição de Berlim, através da “negação consciente do estilo monumental” com a estética da “transitoriedade” expressada pelos “prédios principais” da exposição (Simmel, 2013: 74).
A partir da imagem oscilante das possibilidades da exposição, pode-se supor que a exposição é uma vitrine em que se expõe o moderno estilo de vida das grandes cidades, o refletindo, intensificando e também o criando. Porém, até aqui, essa oscilação entre criação/representação foi apresentada a partir dos objetos. Como seria tratá-las segundo as interações sociais? Stewart ( 2009 ) nos oferece uma interessante direção.
EXPOSIÇÃO E SOCIABILIDADE
Exposições como na qual Simmel discursou abrigavam um conjunto de novidades e maravilhas modernas. Arquitetônicas, nos prédios construídos exclusivamente para as exposições; tecnológicas, principalmente de mobilidade urbana e de comunicação; além de produtos comerciais (Stewart, 2009: 7). Tais maravilhas modernas eram importantes para pelo menos uma das versões modernistas do final do século XIX e princípios do século XX, ao destacar a tecnologia exposta como principal meio de desenvolvimento e progresso (Stewart, 2009: 4). Desse modo, eventos como a Primeira Exposição Municipal de Dresden em 1903, a Exposição Industrial de Berlim de 1896 e a Exibição do Jubileu Imperial de Viena, de 1898, pretendiam apresentar imagens positivas do mundo moderno, “uma visão da cidade moderna do futuro, com particular ênfase em seu potencial de comunicação” (Stewart, 2009: 2).
Porém, além de tecnologias, nesses eventos circulavam discursos sobre o moderno e a cidade moderna, principalmente através das conferências que sediavam. Não apenas se expunha a cidade moderna, nas exposições, “a cidade moderna, como ideia, estava sendo construída através do discurso” (Stewart, 2009: 9). Esta criação, segundo a autora, dependeria de outra propriedade desses eventos: proporcionar condições de sociabilidade. Isso seria sugerido pelo próprio Simmel no parágrafo introdutório do ensaio “Exposição industrial de Berlim”, ao enquadrar a exposição como um evento histórico carente de finalidade específica para além da “força agregadora”, pois permanece “mesmo quando os motivos e os estímulos objetivos da associação perderam sua eficácia” (Simmel, 2013: 71). Por isso, apesar de Simmel não afirmar literalmente, percebe-se a aproximação entre a forma de interação propiciada pela exposição e a sua concepção de sociabilidade (Simmel, 2006 ). O que desenvolverei brevemente a seguir.
Ao mencionar que a energia desta “força agregadora” é impulsionada pelos “prazeres sociais” que “acompanham toda socialização” (Simmel, 2013: 71), Simmel identifica nas exposições mundiais algo decisivo para a sociabilidade: a “liberação” em relação aos “conteúdos materiais” e motivações “objetivas” (Simmel, 2006: 64). A “vida própria” da sociabilidade requer, portanto, uma existência aparentemente separada da convivência cotidiana. Aparentemente separada, pois a sociabilidade absorve das formas de interação cotidianas o que há de “sociável” nelas, a “força agregadora” relativa aos “prazeres sociais”, mas sem suas motivações práticas. Por isso Simmel define a sociabilidade como “a forma lúdica de sociação” (Simmel, 2006: 65).
Este aspecto lúdico da sociabilidade não significa fuga. Pelo contrário, o que está em jogo é justamente a realidade, pois na sociabilidade “joga-se de fato a sociedade”. O prazer e a força agregadora, que isenta a interação de conteúdos concretos, excessivamente singulares ou objetivos, tornam possível que a realidade da vida social compareça sem o seu peso e seriedade. Na sociabilidade brinca-se livremente com seus conteúdos e formas. Assim, o tempo e espaço próprios da sociabilidade oferecem um tipo de distância frente ao cotidiano, similar à relação entre arte e realidade. A arte não é a própria realidade e sim uma forma de recriá-la, segundo suas leis. Do mesmo modo, a liberdade e autonomia da sociabilidade permitem jogar com o real e também criar configurações que dão inteligibilidade a determinados elementos dispersos e fragmentários na existência cotidiana. Portanto, a sociabilidade reflete e cria o real, e sua existência depende dessa fina relação entre estes dois modos de se conectar à realidade.
Em “Exposição industrial de Berlim”, Simmel pontuou o que o universo lúdico da exposição apresentava, criando ou refletindo, a vida moderna. É justamente nesse sentido que ele destaca a qualidade-vitrine das coisas e o estilo transitório das suas construções. Mas não menciona a sociabilidade discursiva das exposições, nem das conferências. Este é um ponto interessante desenvolvido pela própria Stewart, que considera exposições como a de Dresden como espaços de sociabilidade para interações “comunicativas face-a-face”, principalmente através das conferências (Stewart, 2009: 8), onde se elaboraria a ideia de cidade moderna. Ainda que sigamos a sugestão teórica de Stewart, considero necessárias algumas observações.
Em primeiro lugar, é importante destacar como Simmel qualificou o tipo geral das interações entre pessoas e objetos nessas exposições. Para ele, a diversão das exposições é caracterizada pelo “efeito massivo do que se oferece”, cuja “abundância” e “colorido de impressões ligeiras estão adaptados à necessidade de comoção de nervos superestimulados e extenuados”. Hiperestímulo que oferece ao indivíduo contraponto e compensação para “a monotonia e a uniformidade de sua atividade na divisão do trabalho” (Simmel, 2013: 72) através da diversão pelo excesso, disponível nas grandes cidades e acentuada nas exposições. Com isso, essa interação das pessoas com aquilo que é exposto ganha uma feição de baixo teor estético, pois corresponde à necessidade de promover, com velocidade e de modo concentrado, a variedade de impressões que o “microcosmo” da “alma humana” requer como alternativa à rotina repetitiva e especializada do trabalhador moderno (Simmel, 2013: 72). Isto não impede que também ocorram circunstâncias de sociabilidade em meio a esses estímulos, pois a dimensão lúdica vinculada à busca pelo prazer ainda está presente, bem como a absorção/criação do estilo de vida moderno. Identifica-se, portanto, certa variedade de contextos. Mesmo a sociabilidade não pode ser qualificada de maneira homogênea, dependendo substancialmente da sua feição geral e de que coletivo de pessoas se trata, pois pode-se “falar de uma onda de sociabilidade superior e inferior para os indivíduos” (Simmel, 2006: 68).
Nesses termos é possível compreender a afirmação de Simmel, ao desdobrar sua análise do papel das exposições como forma de compensação da necessidade por variedade de estímulos não satisfeita pelo trabalho especializado, de que
Fenômeno algum da vida moderna vai tão incondicionalmente ao encontro dessa necessidade quanto as grandes exposições; em nenhum outro lugar reuniu-se numa unidade exterior uma abundância tão ampla de impressões as mais heterogêneas, a ponto de essa unidade aparecer à superficialidade mediana como coesa e justamente desse modo se produzir entre elas essa interação vivaz, esse contraste e essa elevação recíprocos, que são recusados àquilo que se justapõe sem vínculo algum
(Simmel, 2013: 73).
Nessa passagem observa-se a sociabilidade das exposições devido à configuração de elementos difusos na realidade, unidos através da vivacidade e diversão, porém, contraposta à sua qualificação estética mais apropriada à “superficialidade mediana”. Pois a unidade de impressões também fazia com que “toda sensibilidade apurada” se sentisse “aturdida e violentada pelo efeito massivo do que se oferece” (Simmel, 2013: 72). Principalmente por exagerar aquilo que Simmel identificou nas grandes cidades: “a intensificação da vida nervosa” (Simmel, 2005: 577). Esta característica cria dificuldades para a exposição abrigar a criação da sociabilidade, pois um dos fundamentos da manutenção da sociabilidade como definida por Simmel é sua “estrutura democrática”, um “jogo de cena” em que se “cria, caso se queira, um mundo sociologicamente ideal”. Essa estrutura democrática somente é possível “no interior de um estrato social – já que, muitas vezes, uma sociabilidade entre membros de diferentes estratos sociais se torna algo contraditório e constrangedor” (Simmel, 2006: 69).
A concepção de sociabilidade de Simmel, assim, é bem mais estrita do que as interações em uma exposição. E provavelmente por essa razão ele destaque sua “superficialidade mediana” e seu “efeito massivo”, evitando considerá-la abertamente como sociabilidade. Devido à própria dificuldade de Simmel em vislumbrar um “jogo de cena” capaz de simular a igualdade almejada pela sociabilidade em público tão amplo e diverso. Por isso, oscila entre enquadrar a exposição como sociabilidade ou entretenimento massificado. Pois o nivelamento massificado desse grau de diversidade, para Simmel, somente seria possível com o apelo aos indivíduos de suas “camadas inferiores e sensorialmente primitivas” (Simmel, 2006: 47), movidos pelo “arrebatamento” e pela “intensificação do grau emocional” (Simmel, 2006: 53). Esse nivelamento seria para muitos um rebaixamento não em função da média e sim da mediocridade (Simmel, 2006: 55). Portanto, não é sem fundamento que Waizbort destaca que com os hiperestímulos das exposições não “se trata mais de choques, como no cotidiano da cidade grande; o indivíduo já está hipnotizado” (Waizbort, 2006: 342), e que esta hipnose está na base do “maravilhamento” produzido pelo efeito “massivo do que se oferece”.
Se as conferências são formas discursivas de sociabilidade em que se configura as ideias “da” e “sobre” a cidade moderna, percebe-se a existência simultânea de pelo menos dois modos distintos de se reportar à realidade moderna das grandes cidades. Um caminho para se lidar com esse contraste é seguir a mesma dicotomia já apontada anteriormente, de que as exposições são espaços de representação simbólica da cidade bem como de criação de novos estilos de vida. Ao transpor isso para as interações sociais vigentes nas exposições, nota-se tanto a representação intensificada do hiperestímulo da vida das grandes cidades, como a criação/configuração de traços do moderno nas grandes cidades através das conferências.
Em segundo lugar, as conferências não são em sentido estrito uma conversa “puramente” sociável. A vivacidade da conversa, muitas vezes o eixo decisivo de interação na sociabilidade, foi sugestivamente delineada por Simmel como um “intercâmbio vivo do discurso”, em que o assunto “é somente o suporte indispensável do estímulo” (Simmel, 2006: 75). E essas características da conversa como “forma lúdica de sociação” não são os aspectos decisivos da interação entre palestrante e público nas conferências. Pois a principal interação não se dá pela troca discursiva, e o tema da conferência pretende ser o eixo central da reunião.
Como se percebe, alguns traços ambivalentes dos objetos em exposição são verificados na interação social e na própria conferência. É possível, através dela, fazer circular com liberdade novas formas de consideração sobre a cidade moderna, inclusive de sua criação como ideia, mas, não necessariamente como “intercâmbio vivo do discurso”. O que cria dificuldades até mesmo de considerá-la como uma forma de sociabilidade em sentido estrito. Portanto, do mesmo modo como a exposição oscila entre arte e entretenimento, a conferência sediada por ela também oscila entre a modalidade objetiva de discurso e o “intercâmbio vivo do discurso”. Por isso é necessário preservar essas ambivalências conferidas por Simmel à exposição como parâmetro para analisar sua conferência. O que exige, ainda, compreender o seu contexto.
CIRCUNSTÂNCIAS DA CONFERÊNCIA DE SIMMEL E SUAS RUPTURAS
A Primeira Exposição Municipal Alemã, sediada em Dresden entre os meses de maio e setembro de 1903, com mais de 400 mil visitantes pagantes, voltou-se para o planejamento urbano, representando 128 governos municipais. Seu principal intuito era “transmitir ao público a visão dos administradores e empresários sobre a grande cidade como um lugar que se torna cada vez mais atraente para trabalhar e viver” (Lees, 2002: 53).
A exposição comprometeu-se com a indicação de parâmetros tecnológicos/urbanísticos para o desenvolvimento das cidades, e possuía dois núcleos centrais: Expor (1) as condições e o “progresso” das cidades alemães no período e (2) os produtos industriais para uso dos municípios. Esses dois núcleos de expositores se subdividiriam nos seguintes departamentos: Tráfego, expansão, assistência pública, escritórios de empregos municipais, saúde pública, educação, arte pública, finanças públicas e estatísticas (Woodhead, 1904: 433-434). Percebe-se o caráter estruturante tanto da exposição como das especialidades que deveriam ser consideradas, projetando uma visão racionalizada da cidade moderna, cuja imagem de conjunto passaria pela articulação desses vários “departamentos”.
O ciclo de palestras foi motivado pela exposição, e os temas deveriam seguir as linhas gerais do próprio evento, observados principalmente pela perspectiva histórica. No entanto, as conferências ocorreram antes da abertura oficial da exposição. Karl Bücher proferiu a primeira em outubro de 1902, com o título “Grandes cidades no presente e no passado”. Seguida em novembro pela palestra “A situação geográfica das grandes cidades” conduzida por Friedrich Ratzel e em dezembro pela “A população das grandes cidades” apresentada por Georg von Mayr. De janeiro a março de 1903 foi realizado o segundo bloco de conferências, primeiro com a apresentação de Waentig “A importância econômica da grande cidade”, em fevereiro Simmel proferiu a sua e em março Dietrich Schäfer, com o título “O significado político e militar das grandes cidades” (Frisby, 2001: 130-139) 3 . Assim, as conferências parecem cumprir um papel preparatório para a própria exposição, como se fornecessem as condições a um público, provavelmente, em sua maioria, masculino (Frisby, 2001: 139) e com certa formação intelectual ou especializada, para se compreender o atual “estágio” de desenvolvimento das grandes cidades. Reconhecendo a importância do papel das grandes cidades, mas sem desconsiderar a necessidade de planejamento, racionalização e dos progressos técnicos na solução de seus problemas ou potencialização de seus atributos.
Um motivo de surpresa para a organização do ciclo de palestras foi a diferença entre o tema tratado por Simmel e o que lhe sugeria o convite. Simmel deveria abordar “O significado intelectual das cidades metropolitanas” e segundo Theodor Petermann, principal organizador, Simmel adotou outro caminho. Ao invés de considerar “as forças intelectuais coletivas da metrópole e seus efeitos coletivos”, Simmel, segundo Petermann, preferiu abordar “a influência das grandes cidades na ‘vida mental’ dos metropolitanos” (Frisby, 2001: 133). Por esse motivo, Petermann escreveu ele mesmo um texto com o título indicado pelo convite, “O significado intelectual das cidades metropolitanas”, para ser publicado na coletânea. Neste texto abordou o que julgava indispensável, a “vida intelectual e cultural da metrópole em sua música, teatro, jornais, universidades”, com o intuito de preencher a lacuna deixada por Simmel (Frisby, 2001: 138). Segundo a organização, Simmel parece ter rompido ao mesmo tempo com a lógica estruturante do ciclo de conferências, bem como com a conexão entre sua apresentação e a exposição. Colocou em jogo, portanto, a racionalidade esquemática que pairava sobre o evento e a visão da cidade moderna que este representava.
Não há dúvida de que as exposições ofereciam oportunidade, através das conferências, para a difusão de ideias sobre a cidade moderna, estruturando discursivamente sua imagem. Mas a sociabilidade gerada com esse intuito é muitas vezes vinculada a interesses práticos e objetivos, o que enfraquece a dimensão lúdica e o intercâmbio vivo do discurso. A exposição de Dresden e o ciclo de conferências que a antecede absorveram a “força agregadora” que constitui a sociabilidade, mas segundo uma forma global mais rigidamente estabelecida. Simmel, estudioso da dimensão espacial das relações, provavelmente notou o perfil esquemático do evento, pois definia a “simetria” como a forma estética mais representativa do racionalismo (Simmel, 1986: 217). Assim, do ponto de vista da forma projetada pela organização das conferências, Simmel representou uma ruptura e como veremos, também em relação ao conteúdo.
Na abertura de sua conferência, em 21 de fevereiro, apresenta uma antinomia, como era comum aos seus ensaios (Frisby, 2001: 143), e que motivou reação em uma resenha anônima publicada no jornal Dresdner Anzeiger três dias após a palestra. Segundo a resenha, a conferência transmitiu uma imagem pessimista da grande cidade, com a predominância de um único eixo: definir que o mais profundo problema da vida moderna emerge da tentativa de o indivíduo afirmar sua independência contra os poderes coletivos que criaram a vida moderna (Frisby, 2001: 139-140). A resenha não é fidedigna à exposição dos argumentos, e a homogeneização representada pelo termo “poderes coletivos” contrasta com a frase introdutória:
Os problemas mais profundos da vida moderna brotam da pretensão do indivíduo de preservar a autonomia e a peculiaridade de sua existência frente às superioridades da sociedade, da herança histórica, da cultura exterior e da técnica da vida – a última reconfiguração da luta com a natureza que o homem primitivo levou a cabo em favor de sua existência corporal
(Simmel, 2005: 577).
A antinomia apresentada é entre o indivíduo e a dimensão objetiva da vida moderna, o que difere substancialmente do contraste entre o indivíduo e os “poderes coletivos” relatado na resenha. De qualquer modo, o papel de destaque conferido por Simmel a essa antinomia provoca surpresa e rejeição por parte desse expectador. Apesar de concordar com o ponto de Simmel a respeito das características gerais dos citadinos devido à necessidade de autopreservação frente ao ambiente, o autor da resenha no jornal afirma que a relação entre estes e a metrópole não é apenas de oposição, como inimigos, pois o indivíduo também se beneficia de seus estímulos, elevando e enriquecendo sua individualidade ao realizar as tarefas que lhes são atribuídas pela metrópole (Frisby, 2001: 140). Segundo esse argumento, a racionalidade coletiva, encarnada na metrópole, guiaria os indivíduos para o desenvolvimento das potencialidades deles mesmos, não havendo tensões ou crises significativas que alterassem essa sintonia. Como se pode perceber, Simmel também provocou, do ponto de vista do conteúdo, uma ruptura de expectativa. E não apenas esta.
A relação entre subjetividade e cidades modernas era recorrente ao debate do período e se manifestou também nas conferências. A maioria dos conferencistas do evento seguiriam, por exemplo, a afirmação feita por Dietrich Schäfer de que “até agora a grande cidade não gerou um grande homem” (Frisby, 2001: 139). Karl Bücher, de acordo com sua teoria evolucionista, afirmou que os metropolitanos, representantes de um novo tipo de homo sapiens, “raramente têm o tempo e espaço para concentrar atenção sobre eles mesmos”, devido ao “denso tumulto e urgências do dia” (Frisby, 2001: 134). Apesar desse consenso em relação à intensidade de estímulos e seus efeitos negativos, era comum atenuar suas consequências ou, mais frequentemente, indicar soluções. A atmosfera das conferências, em sintonia com a exposição, acabava por sugerir essa postura. Waentig, por exemplo, também destaca o excesso de excitações, e quanto aos efeitos negativos dessa elevação da “vida urbana ao seu mais alto potencial”, estes poderiam ser resolvidos com a construção de casas familiares distantes do seu centro, misturando elementos entre a cidade e o campo nesses novos modelos de bairros residenciais (Frisby, 2001: 137-138). Mesmo Schäfer, que tinha conclusões bastante pessimistas a respeito do modo de vida das grandes cidades, acreditava que a exposição de Dresden teria um efeito positivo para reverter esses problemas (Frisby, 2001: 139). Simmel, no entanto, manteve e aprofundou a antinomia inicial e não sugeriu qualquer forma de planejamento racional do espaço.
A RETÓRICA DO CONFERENCISTA: ENTRE RUPTURAS E CORTESIAS
Não se sabe exatamente a motivação para o recorte pelo qual Simmel optou, mas é possível levantar algumas questões a partir de seus próprios argumentos apresentados na conferência e tentar entrelaçá-los ao contexto do evento. Um dos principais argumentos apresentados no ensaio é o papel do ambiente moderno citadino na intelectualização da existência e seus desdobramentos. A intelectualização da existência nesse caso é compreendida em sentido amplo, como racionalidade cotidiana que envolve as múltiplas e variadas relações em uma grande cidade. Para Simmel, a hipertrofia da consciência é uma forma de adaptação dos sujeitos ao ambiente altamente estimulante. Pois para se lidar com a intensificação da vida nervosa seria necessário resguardar o ânimo através da imposição de distâncias promovidas pelo entendimento. Portanto, Simmel desviou-se da sugestão do tema para a conferência, as forças intelectuais na cidade, com o intuito de abordar a intelectualização que acaba por regular e delimitar o campo de interpretações e relações dos indivíduos com o mundo externo. Como o tempo “supra-subjetivo” (Simmel, 2005: 580) que coordena a vida cotidiana e as relações de troca mediadas pelo dinheiro e pela racionalidade econômica. O desvio em relação à sugestão se parece mais um “recuo” a um ponto mais decisivo: observar o papel de destaque da cidade grande e moderna como centro irradiador de energias e estímulos causadores de choques, reações e adaptações nos e pelos indivíduos, que acaba por desencadear a intelectualização da existência e a tecnificação dos modos de vida.
Simmel recuou em relação ao tema das forças coletivas intelectuais e artísticas e colocou no centro da sua exposição a crise nas formas de subjetivação. Isso fica ainda mais evidente por acrescentar uma segunda antinomia àquela antinomia inicial entre cultura objetiva e indivíduos. Essa nova antinomia se desdobra nos próprios indivíduos, como duas formas opostas de individualismos. Assim, a tecnificação dos modos de vida e a intelectualização da existência, que produzem as distâncias e isolamento, oferecem as condições para dois modos distintos de adaptação na cidade moderna: o caráter blasé e o espírito de reserva. Ao que parece, é provável que Simmel tenha incluído parte do parágrafo inicial do ensaio e parte do parágrafo final apenas na versão publicada. Justamente os trechos em que apresenta mais diretamente as duas formas de individualismo e traça breves panoramas históricos de suas formações (Frisby, 2001: 141). Desse modo, os tipos blasé e o espírito de reserva são as referências para atitudes ou modos de subjetividade dos individualismos proferidos na conferência, o que sinaliza a preferência de Simmel em tratar mais diretamente essas categorias.
O caráter blasé, associado ao conceito de individualismo qualitativo, é um comportamento “embotado” frente à cultura objetiva, com a finalidade de preservação da própria singularidade. Embora tal preservação signifique na prática “embotamento frente a distinção das coisas”, que “degrada irremediavelmente a própria personalidade em um sentimento de igual depreciação” (Simmel, 2005: 581-582). O espírito de reserva, vinculado ao conceito de individualismo quantitativo, é de “natureza social”, um comportamento defensivo para impedir que a “antipatia” e a “aversão” emerjam no trato cotidiano. Esse comportamento reservado é identificado por Simmel a partir das circunstâncias específicas da vida moderna nas grandes cidades, cuja “organização interior de uma vida de circulação ampliada” requer distâncias. Por isso a forma de “socialização” comum ao espírito de reserva se dá a partir dessas técnicas impessoais de comportamento, para impedir maior conexão intersubjetiva e conter o risco de emergência do “antagonismo latente” (Simmel, 2005: 583). A antinomia inicial, entre sujeito e cultura objetiva, se desdobra, portanto, nestes dois tipos ou formas de comportamento. O individualismo qualitativo como a ênfase na singularidade e incomparabilidade através da renúncia a interagir significativamente com a cultura objetiva e o individualismo quantitativo com a hipertrofia da cultura objetiva no próprio indivíduo.
A inserção posterior – ou a omissão de sua leitura durante a conferência – do trecho em que traça o panorama histórico da formação dos individualismos é sugestiva para se compreender de que modo o contexto da conferência pode ter tido implicações no recorte da sua apresentação. Não ter correlacionado, na conferência, as atitudes blasé e o espírito de reserva diretamente com as concepções de indivíduo dos séculos XVIII e do século XIX, ou o individualismo nietzscheano e o socialismo, as partes acrescentadas ao ensaio publicado, parece apontar que Simmel deliberadamente realizou esse recuo. Ao contrário da ruptura de expectativas que produziu no autor da resenha, na organização do evento devido ao desvio do tema e ainda da dissonância entre sua apresentação e o conjunto das conferências, o provável recuo da abordagem de Simmel revela um certo tato. Um tato com motivações paradoxalmente pedagógicas, com a intenção de evitar conceitos abstratos que estivessem completamente separados das circunstâncias concretas e suas representações no próprio público. Como ele próprio advertiu em suas “lições de pedagogia”, a se evitar que o conteúdo ganhasse autonomia como objeto em relação aos estudantes, e se buscasse integrar esse objeto com suas experiências (Simmel, 2008: 44-45).
É possível supor que esse tato e cuidado pedagógico influenciasse sua escolha em relação à conferência das grandes cidades. Pois ao mesmo tempo que destaca a crise na subjetivação moderna, sua abordagem revela uma retórica cuidadosa que buscava envolver seu público. Portanto, evitou tratar a vida intelectual e artística da grande cidade para considerar atitudes mais gerais e essenciais e “sondar a profundidade da alma”, pois para ele “todas as exterioridades, mesmo as mais banais, estão ligadas, por fim, mediante linhas de direção, com as decisões últimas sobre o sentido e o estilo de vida” (Simmel, 2005: 580). Esse trecho soa como um convite ao público para mobilizar suas próprias experiências e considerar as “exterioridades, mesmo as mais banais”. Tais exterioridades formam, com a apresentação de Simmel, um universo comum a todos.
Como vimos, Simmel caracterizou as exposições em uma forma indefinida e oscilante. As conferências que sediavam também eram marcadas por essa indefinição, pois oscilavam entre o “intercâmbio vivo do discurso” e a transmissão mais objetiva de certa visão de mundo, entre a dimensão mais lúdica no tratamento de alguns conteúdos e a racionalidade esquemática. Simmel reconheceu esta brecha, e tentou criar, através de sua fala, a atmosfera discursiva da sociabilidade, convidando seu público a participar dela através do acolhimento desse universo em comum e sua sensação de igualdade retoricamente elaborada. A exposição desse universo em comum, as exterioridades cotidianas das grandes cidades, é uma porta de entrada para perceber a densidade dessas superfícies e como toda essência pode vir colada às banalidades cotidianas. Mas, para o reconhecimento de um mundo em comum, pelo menos segundo os moldes da sociabilidade, seria necessário a criação discursiva de formas especiais de distância, discrição e liberdade.
DISTÂNCIA
A distância é necessária como condição para apreciação dos temas. Pois não se pode tocar incisivamente nos pontos sensíveis dos indivíduos, como Simmel expõe em seu ensaio “Estética sociológica”. Entrar em atrito com as suscetibilidades poderia desencadear uma reação de fuga, devido ao “gosto refinado, a espiritualidade, a sensibilidade diferenciada”. Essa suscetibilidade se deve ao “gosto negativo” frente às coisas, a precária definição de si através da rejeição daquilo que não confirma seu estilo. Além desse impulso de rejeição, precisa levar em consideração o que Simmel define como “medo do contato”, esta reação comum do homem moderno individualista cujo gosto estético por formas mais alusivas sinaliza como apenas por desvios e pela distância é possível alcançar seu íntimo (Simmel, 1986: 226).
Essa dimensão do gosto moderno é uma faceta do caráter blasé e sua distância protetora dos choques provocados pela intensificação da vida nervosa. No entanto, tal forma de distância não é a mesma da estratégia discursiva empregada por Simmel. Sua retórica sociável, ao contrário, requer a distância comum à sociabilidade e apreciação estética, em que os temas podem ser considerados com desprendimento. O evento em si simboliza essa distância, com seu tempo e espaço próprios, afastados do cotidiano. Mas não é suficiente. O discurso precisa ser capaz de tocar à distância esse moderno público, através do destaque conferido a certo objeto, mas sinalizando suas aproximações e especificidades diante de outros objetos tratados. A vivacidade gerada por essa alternância incita o blasé a romper seu embotamento e interessar-se pelas variadas circunstâncias que lhes são apresentadas, estimulando-o a discernir e desenvolver uma imagem de conjunto nesse contato.
DISCRIÇÃO
O segundo elemento que compõe a retórica sociável possível de ser identificado no ensaio de Simmel é a discrição. Para Simmel, a discrição é “a primeira condição de sociabilidade perante o outro” e se caracteriza pelo cuidado com a manutenção de um tipo de vivacidade baseada na “comunhão”. Assim, a discrição requer tanto a “redução da primazia e da relevância da personalidade individual” como também a exclusão das “significações objetivas”, como “posição social, erudição, fama” (Simmel, 2006: 66-68). Mas, considerando apenas o conteúdo, como contribuir para criar discursivamente tal forma de atmosfera social na conferência, tendo em vista que o princípio da objetividade é o parâmetro para um conferencista acadêmico? Nesta situação é importante enfrentar o desafio de tornar o discurso mais acessível sem comprometer a objetividade. Simmel observava esse tipo de desafio a seu modo, baseando-se em uma concepção de objetividade diversa das outras conferências do mesmo evento.
Ao apresentar a correlação entre o entendimento e a economia monetária, Simmel qualifica uma forma cotidiana de objetividade moderna. Nas grandes cidades, locais dessa interseção entre o entendimento e a economia monetária, é comum “a pura objetividade no tratamento de homens e coisas, na qual uma justiça formal frequentemente se junta com uma natureza brutal”. Uma “objetividade impiedosa” que visa aniquilar a “dispersão devida aos imponderáveis das relações pessoais” (Simmel, 2005: 579). Esta objetividade, principalmente quando aplicada às interações sociais, é o que garante a reserva, que, como vimos, evita as repulsas de tomarem parte nas fugidias relações de trato cotidiano. Mas Simmel aborda ainda outros aspectos da objetividade.
O conhecimento sobre o mundo social das grandes cidades modernas que mais se adequava ao espírito da exposição de Dresden, e também da conferência que lhe antecedeu, baseou-se naquilo que Simmel definiu como a “redução de valores qualitativos a valores quantitativos” (Simmel, 2005: 580). E, para tanto, os dados gerais como, por exemplo, sobre a vida econômica, educação e criminalidade, ganhavam preponderância para se abarcar a totalidade dos fenômenos da grande cidade, apontando a primazia da técnica estatística de investigação. Por isso a “simetria” entre a divulgação de ampla informação estatística durante a exposição e a conferência de dezembro de 1902, “A população das grandes cidades” apresentada por Georg von Mayr. Em sua apresentação, Georg von Mayr esperava que as “evidências estatísticas contribuíssem para se compreender os impactos positivos e negativos da existência metropolitana sobre a cultura contemporânea”. Esse tipo de conhecimento estatístico é apresentado por Simmel na conferência como parte do ideal da “ciência natural de transformar o mundo em um exemplo de cálculo e de fixar cada uma de suas partes em fórmulas matemáticas” (Simmel, 2005: 580).
Simmel não tece essas considerações sobre a quantificação dos modos de vida e a estatística para rejeitá-las como método de conhecimento. A tecnificação dos modos de vida e também a propensão ao cálculo e quantificação são aproximadas do espírito de reserva e compõem, em termos gerais, uma forma de vida. E como forma de vida podem ser apreendidas através da observação de suas relações, o que inclui também as relações de oposição, rejeição e indiferença. Os mais diversos aspectos da realidade social compõem de algum modo os indivíduos, ainda que por efeitos muitas vezes imperceptíveis. E somente ao estabelecer essas correlações sutis e os conflitos latentes entre atitudes e individualismos é possível apresentar, como tentativa, a vida social. Por isso as antinomias, que põem em lados opostos disposições e atitudes individuais, tornam-se um caminho para evidenciar os inúmeros e quase invisíveis fios que entrelaçam esses mesmos lados opostos.
Ao invés da “objetividade impiedosa”, Simmel lança um olhar objetivo para a “linguagem” das interações. Para isso, é importante apresentar a realidade sem reificações, como se fosse um dado externo aos indivíduos, o que cristalizaria essa disposição fria da atitude de reserva. Sem essa barreira, ou com a consciência dela, é possível envolver o expectador e o convidar a tecer aproximações entre as considerações apresentadas e suas experiências, e assim o tocar sem afugentá-lo. Conciliar, portanto, objetividade e discrição. Pois, para o discurso ser capaz de manter a receptividade da sociabilidade é importante que a discrição se torne a “ação específica que sustente a legitimidade do outro” (Simmel, 2006: 66).
LIBERDADE
Na conferência, a reserva e a atitude blasé tornam possível a emergência de uma forma de liberdade típica do moderno ambiente das grandes cidades, pois ambos os individualismos constituem as distâncias protetoras frente a coisas e a pessoas. Liberdade que ocorre a “medida em que o grupo cresce – numericamente, espacialmente, em significação e em conteúdos de vida”, afrouxando-se “a sua unidade interior imediata”. A distensão da “unidade centrípeta” dá ao indivíduo “liberdade de movimento para muito além da delimitação inicial, invejosa, e ganha uma peculiaridade e particularidade para as quais a divisão do trabalho dá oportunidade e necessidade” (Simmel, 2005: 584).
Este modo de liberdade, poder se desvencilhar das coerções e imposições externas através da tecnificação dos modos de vida, desencadeia uma sensação de abandono e irrelevância que pode ter consequências inesperadas de dependência diante do outro. Com a tecnificação das relações,
a vida compõe-se cada vez mais desses conteúdos e programas impessoais, que pretendem recalcar as colorações verdadeiramente pessoais e o que é incomparável. E isso de tal modo, que para salvar o que há de mais pessoal é preciso convocar o que há de extremo em peculiaridade e particularização, e é preciso exagerá-las para que se possa tornar audível, inclusive para si mesmo
(Simmel, 2005: 588).
A crise deflagrada por este modo de liberdade reside na ambivalência diante do outro e da vida externa, em garantir a liberdade pelo isolamento, mas ao mesmo tempo necessitar reconhecimento. O que costuma provocar o exagero da singularização, tendendo à excentricidade e artificialidade. Mas, apesar da feição trágica entre isolamento e reconhecimento, esta liberdade individual não é apresentada apenas em seu aspecto negativo. Pois o:
Seu traço essencial é de fato que a particularidade e incomparabilidade que, no final das contas, toda natureza possui, se exprime na configuração da vida. Que sigamos as leis da própria natureza – e isso é decerto liberdade –, só nos é claro e convincente, assim como aos outros, quando as manifestações dessa natureza se distinguem também das dos outros; somente a sua não-intercambialidade com as dos outros comprova que nosso modo de existência não nos é imposto pelos outros
(Simmel, 2005: 586).
O problema, portanto, não é a liberdade de seguir a própria natureza, mas se ao exprimir-se na configuração da vida a natureza singular realmente se aperfeiçoa.
Simmel não apresenta soluções, mas o seu tratamento do tema oferece os estímulos que tornam isso possível. Assim como é necessário conciliar objetividade e discrição, a retórica sociável que adota também implica na aproximação entre objetividade e liberdade. Para que a manifestação externa da própria natureza não sofra os “recalques” que a ameaçam ou ganhe contornos exagerados e artificiais, é necessário a liberdade para se jogar com as formas que tornam possíveis sua expressão. Um primeiro passo nessa direção é a clareza. A objetividade que permeia a conferência fornece a clareza a respeito desses mecanismos de defesa e adaptação, tais como o caráter blasé e o espírito de reserva, ao invés de substancializá-los. Clareza também a respeito das múltiplas e ambíguas determinações que definem o espaço social das grandes cidades e também o indivíduo:
Assim como um ser humano não se esgota nos limites de seu corpo ou do distrito que ele preenche com sua atividade imediata, mas somente na soma dos efeitos que se irradiam dele temporal e espacialmente: assim também uma cidade constitui-se da totalidade de seus efeitos, que ultrapassam seu imediatismo
(Simmel, 2005: 586).
Ser capaz de identificar esses fios que complementam o dentro e o fora significa ter consciência de uma forma de totalidade mais elástica e permeável, cujas trocas constantes conferem um caráter movediço às fronteiras dos espaços e também dos indivíduos. Mas a clareza a esse respeito não é suficiente por si mesma.
Sua conferência, e também o ensaio, estimula ao não determinar e nem concluir, ao apontar direções distintas diante de uma circunstância comum. Leitores e expectadores são incitados a complementar as peças inacabadas de seus argumentos, principalmente através da aproximação destas com suas próprias experiências. A objetividade, portanto, não determina os caminhos de interpretação, e abre as categorias para a negociação com as subjetividades que as acolhe. O que significa poder considerar em aberto sua própria conduta e subjetividade, principalmente suas tendências blasé e atitudes reservadas. Ter clareza sobre essas categorias e, ao mesmo tempo, perceber as circunstâncias postas em jogo dão a sensação de uma relação com o mundo externo inconclusa e dependente dos próprios indivíduos. Por isso a conferência oferece um contexto totalmente em aberto:
Na luta e nas escaramuças mútuas desses dois tipos de individualismos, a fim de determinar o papel dos sujeitos no interior da totalidade, transcorre a história interior e exterior de nossa época. A função das cidades grandes é fornecer o lugar para o conflito e para as tentativas de unificação dos dois, na medida em que suas condições peculiares se nos revelam como oportunidades e estímulos para o desenvolvimento de ambas
(Simmel, 2005: 589).
Mesmo sem as condições para o “intercâmbio vivo do discurso” e sua flutuação da conversa em interação, Simmel ofereceu as circunstâncias discursivas para a atmosfera de sociabilidade. Pois o conteúdo do seu discurso ajuda na criação de uma situação em aberto. Seus argumentos também não são articulados de modo sistemático, ainda que apresentados objetivamente e com a finalidade de viabilizar a apreensão. A propósito desse caráter assistemático de Simmel, Kracauer oferece uma interessante imagem que cabe tanto aos seus ensaios como também à suas apresentações públicas. Afirma que a função do seu procedimento
[…] é tornar visíveis as conexões ocultas, os fios entrelaçados entre os fenômenos que se ligam de modo irregular e arbitrariamente, o não-sistemático torna-se aqui sistema, não importa onde se chega, a não ser que, lançando-se fora e juntando estes fios, se possa chegar a qualquer conclusão. Este tecido não é feito segundo um plano, como uma ordenação bem estruturada de pensamentos; o seu único fim é, sobretudo, o de estar lá e o de demonstrar com a sua existência o entrelaçamento das coisas.
(Kracauer, 2009: 272).
Seus pensamentos, apresentados ou impressos, compõem tecidos sem “uma ordenação bem estruturada”, seguindo um fluxo que sugere a dinâmica da conversa, ainda que a alternância de temas e questões possuam “conexões ocultas”.
A liberdade do seu discurso expressada pela flutuação e pela abertura para a interpretação ganha contornos qualitativos distintos da oscilação trágica entre isolamento e reconhecimento. É uma liberdade sem o peso e densidade das formas de manifestação externas de si, com os papéis impostos pela “objetividade impiedosa” ou pelo exagero na estilização da particularidade. Pois,
É exatamente o homem mais sério que colhe da sociabilidade um sentimento de libertação e alívio. Porque ele desfruta, como numa representação teatral, de uma concentração e de uma troca de efeitos que representam, sublimadas, todas as tarefas e toda a seriedade da vida. A um só tempo, também, as dissolve, porque as forças da realidade carregadas de conteúdo soam como que ao longe, deixando desvanecer seu peso e convertendo-se em estímulo
(Simmel, 2006: 82).
Ao colocar o blasé, o espírito de reserva e a liberdade das grandes cidades modernas no centro da sua apresentação, Simmel implicou seu próprio público. Tocou diretamente em pontos facilmente reconhecíveis por todos e sondou suas profundidades. As antinomias apresentadas ao longo do ensaio/conferência são transferidas, assim, ao seu público, nesse jogo sutil de proximidade e distância, reconhecimento e suspensão do juízo. Ou seja, cria-se as condições para se “jogar” com as categorias apresentadas através da atmosfera discursiva de sociabilidade. Um jogo que “estimula” criar pontes entre a dimensão interna e externa que nos constitui.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: A PERFORMANCE DO CONFERENCISTA
Obviamente sua conferência não se limita ao conteúdo, e se perde muito da análise sem a descrição dos gestos, entonações, ênfases, improvisação, ou a simulação de improvisação, que constituem a interação face-face. Ainda que se restringisse exclusivamente à sua leitura, sem todos esses e outros elementos que compõe sua presença, Simmel não estaria puramente transmitindo o texto, pois mesmo assim ocorreria a mediação descrita por Goffman, um corpo, espacial e temporalmente delimitado, capaz de permitir “acesso ritual ao assunto”, e aos propósitos objetivos da linguagem escrita (Goffman, 1981: 187).
Na ausência de descrições sobre a atitude de Simmel nesta conferência em específico, é possível recorrer aos registros de outras ocasiões de falas públicas, principalmente feitos por seus alunos. Janet Stewart, apoiada neste material, afirma que “seu estilo de discurso público ‘reproduzia em gestos’ (mimicked) a metrópole”, ou seja, manifestava visualmente a luta entre a cultura objetiva e a subjetiva, característica do estilo de vida da cidade moderna (Stewart, 2009: 114). Sua performance geral como professor e conferencista, desse modo, estaria sintonizada com o conteúdo da conferência sobre as grandes cidades. Ao contrário, creio que Simmel buscava criar um espaço de sociabilidade retoricamente sustentado. Pois ao mesmo tempo em que apresentava em sua conferência a “objetividade impiedosa”, o isolamento da liberdade moderna garantido pela atitude de “reserva” e a distância produzida pela indiferença “blasé”, ele estimulava, através de sua performance, outra modalidade de liberdade e de distância para se lidar com as circunstâncias externas. O que ficou registrado na impressão daqueles que o viram e ouviram.
Em 1914, Ferdinand Bruckner tece um importante comentário sobre a dimensão teatral de Simmel na cátedra. Ressaltou que ele “pensava de modo visível”, envolvendo a todos em sua apresentação, pois o “ouvir significa então alguma coisa como: construir em conjunto. Na verdade, não se ouve: antes se pensa, se pensa em conjunto” (Waizbort, 2006: 573). Ao comentar esse testemunho, Waizbort qualifica o pensar em conjunto da seguinte forma:
Construir em conjunto: é como se Simmel jogasse com seus alunos. O pensamento, o que há de mais subjetivo, ganha uma intersubjetividade absolutamente peculiar. O que vemos aqui é a própria interação simmeliana: ele se relaciona a tudo e tudo se relaciona a ele. […] Sozinho sobre a cátedra, ele parece romper a solidão do homem moderno em meio aos ouvintes. Ele joga com eles
(Waizbort, 2006: 574).
Essa atmosfera de envolvimento de suas aulas é praticamente uma unanimidade dos muitos relatos transcritos por Waizbort. Uma forma de implicar os ouvintes na aula, como descrito por Nicholas J. Spykman, pois ajudava-os “a viver e a encontrar uma adaptação àquele ambiente cultural vasto que é a herança social europeia” (Waizbort, 2006: 575). Isso era possível porque, como testemunha Max Dessoir, “ele sabia fazer o espiritual viver e espiritualizar a vida” (Waizbort, 2006: 577).
Envolver pelo jogo discursivo traz as marcas do modo de interação em uma sociabilidade, ainda que como recurso performático. Muitos, como Richard Kroner, relataram a perfeita correspondência entre os modos de “manifestar” o pensamento com suas gesticulações (Waizbort, 2006: 578). A performance pública de Simmel, assim, costumava basear-se na conexão entre gestos, entonações, formas de expressão e conteúdo de uma maneira muito especial, aproximando-se da criação artística. Como ressalta Emil Ludwig ao destacar que Simmel era “artista suficiente para encobrir amigavelmente o movimento do pensador mediante a apresentação cabalmente perfeita”. Este tom “amigável” cria a atmosfera de sociabilidade ao conduzir todos por um caminho sem choques ao longo de “uma viagem de três quartos de hora” (Waizbort, 2006: 571-572).
A busca por converter em totalidade o fragmento de tempo e espaço que constitui uma aula ou conferência orientava, portanto, a performance de Simmel. Para isso era necessário envolver seus ouvintes, de pretender fundir por um instante seu horizonte de compreensão com o dos alunos (Vernik, 2009: 71). A atmosfera de totalidade de suas aulas pode ser ainda verificada em outro trecho do testemunho de seu aluno Emil Ludwig: “Cada uma de suas aulas pode ser ouvida isoladamente, assim como cada ato de um bom drama pode ser lido isoladamente e causar a maior impressão, sem que seja necessário um relato prévio ou posterior” (Waizbort, 2006: 572). Ainda que curiosamente incitasse seus desdobramentos, pois, como relata Arthur Salz, “Todos se perguntavam no final da apresentação da aula como a estória continuaria, o que viria depois” (Waizbort, 2006: 574-575).
Interessante perceber a preocupação de Simmel em lidar com a cultura do hiperestímulo moderno. Principalmente pelo contraste entre aquilo que, para ele, caracterizava a vida de uma metrópole como Berlim, onde proferia suas aulas, com sua intensificação da vida nervos a e sucessivos choques, e, de outro lado, sua postura como professor/conferencista. Certamente o grau de sucesso em oferecer uma contrapartida ao ambiente agressivo da cultura objetiva através da performance tem seus limites, pois requer o criar e “pensar junto” a disposição da plateia para acolher esta sociabilidade projetada. E talvez devido a essa dificuldade, Simmel tenha manifestado desconforto com o convite para o Congresso de Artes e Ciências que a exposição de St. Louis, nos Estados Unidos (EUA), sediaria em 1904. Ele recusa apesar dos esforços de Albion Small, vice-presidente da organização do congresso, diretor do departamento de sociologia e antropologia da Universidade de Chicago e um dos principais propagadores da obra de Simmel nos EUA. Sua recusa não foi polida, pois denomina as exposições de “circo de celebridades”, acrescentando que dispunha em Berlim dos interlocutores que precisava, seus destacados colegas e contemporâneos (Jaworski, 1997: 14). Teria sido a atmosfera da conferência em Dresden uma situação limite para sua retórica sociável ao se sentir convertido a um objeto em exposição? Pode ser. Todavia, como afirma Waizbort ao comentar as descrições daqueles que frequentaram seus cursos, “algo dos gestos de Simmel continua presente em seus textos. Isto só acontece na medida em que eles são ensaios” (Waizbort, 2006: 585). Dessa forma, tendo sido ou não uma experiência desagradável, a performance que preparou para Dresden permanece um pouco viva através de seu ensaio.
REFERÊNCIAS
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