RESUMO
O estudo objetiva avaliar a implementação dos serviços clínicos desenvolvidos por farmacêuticos do estado do Rio Grande do Sul, no âmbito do Programa Farmácia Cuidar+, implantado em 2021. Uma matriz composta por 22 indicadores distribuídos em 8 dimensões que compõem uma nota de zero a 100 foi aplicada na fase inicial (2022) e na fase intermediária (2023), nos 446 municípios que aderiram ao programa. A nota média dos municípios nas fases inicial (n = 351) e intermediária (n = 386) foi de 20,1 e 32.8 (p = 0,000), respectivamente. Houve aumento significativo nas dimensões: adesão ao tratamento, atividades clínicas, consultório, segurança e educação em saúde. Os municípios de menor porte (menos de 500 atendimentos ao mês) tiveram melhores notas que municípios de maior porte em ambas as fases. A implantação do Programa Farmácia Cuidar+ apresentou resultados significativos nas notas gerais dos indicadores propostos para avaliar os serviços clínicos providos por farmacêuticos. Este resultado aponta avanços com relação às atividades clínicas e fragilidades, que devem ser discutidas amplamente e aprimoradas para a efetiva implementação da Política de Assistência Farmacêutica.
PALAVRAS-CHAVE
Indicadores de qualidade em assistência à; saúde; Assistência farmacêutica; Medicamentos do componente especializado da assistência farmacêutica; Atenção Primária à; Saúde; Farmacêuticos.
ABSTRACT
The study aims to evaluate the implementation of clinical services by pharmacist in state of Rio Grande do Sul (RS), within the scope of Farmácia Cuidar+ Program, established in 2021. A matrix consisting of 22 indicators distributed across 8 dimensions with a score ranging from zero to 100 was applied during the initial phase (2022) and the intermediate phase (2023), in all 446 municipalities that joined the program. The average score of the municipalities in the initial phase (n = 351) and intermediate phase (n = 386) was 20.1 and 32.8 (p = 0,000), respectively. There was a significant increase in the following dimensions: treatment adherence, pharmacist’s clinical services, pharmacist’s office, safety, and health education. Smaller municipalities (less than 500 monthly consultations) achieved higher scores than larger municipalities in both phases. The implementation of the Farmácia Cuidar+ program showed significant results in the overall scores of the indicators proposed to evaluate pharmacist’s clinical services. This outcome highlights progress regarding the clinical services as well as certain weaknesses that must be thoroughly discussed and improved for the effective implementation of Pharmaceutical Services Policy.
KEYWORDS
Quality indicators; health care; Pharmaceutical services; Drugs from the specialized component of pharmaceutical care; Primary Health Care; Pharmacists.
Introdução
No Brasil, a Política Nacional de Medicamentos1 e a Política Nacional de Assistência Farmacêutica (PNAF)2 foram instituídas com o objetivo de qualificar o acesso e o uso racional de medicamentos. Na perspectiva histórica de mais de 30 anos de Sistema Único de Saúde (SUS) e 20 anos da PNAF, alguns avanços foram perceptíveis, como a descentralização e estruturação da gestão da Assistência Farmacêutica (AF) para os municípios e a ampliação do acesso aos medicamentos essenciais3-6. Além disso, é possível observar um aumento do número de farmacêuticos atuantes na Atenção Primária à Saúde6-9.
Além das atividades de gestão que envolvem os medicamentos, tradicionalmente atribuídas aos farmacêuticos, as atividades clínicas voltadas ao paciente ganharam evidência a partir da atuação do farmacêutico enquanto responsável pela efetividade e segurança da farmacoterapia10-13. No entanto, muitos desafios ainda precisam ser superados para a efetiva implantação das atividades clínicas do farmacêutico no âmbito do SUS.
Inicialmente, é necessário revisar o entendimento de que a AF é meramente uma área de apoio às ações e aos serviços de saúde, focada apenas no fornecimento de suprimentos e logística, com práticas sociais de cuidado e prestação de serviços farmacêuticos incipientes14,15. Ainda, o financiamento centrado no acesso ao medicamento11,16,17, a elevada demanda de atividades gerenciais relacionadas à provisão do medicamento e as deficiências na formação do farmacêutico para a assistência direta ao usuário7,16 dificultam o planejamento e a execução de atividades clínicas do farmacêutico.
Recentemente, foram publicadas as Diretrizes Nacionais do Cuidado Farmacêutico18, e, no Rio Grande do Sul (RS), estado onde este estudo foi desenvolvido, foi publicada a Política Estadual de Assistência Farmacêutica do RS19, que apresenta diretrizes específicas para a implementação do cuidado farmacêutico com o objetivo de impulsionar esse modelo de prática. Neste sentido, com o objetivo de ampliar e qualificar os serviços clínicos desenvolvidos por farmacêuticos nas Farmácias de Medicamentos Especiais (FME) que dispensam medicamentos do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (Ceaf) e do elenco complementar do estado, foi instituído no RS, no ano de 2021, de forma pioneira, o Programa Farmácia Cuidar+20.
O Ceaf está descentralizado em todos os municípios do RS, e o Programa Farmácia Cuidar+ teve adesão de 446 (89,7%) municípios21. Os recursos financeiros repassados poderiam ser utilizados em três eixos: estrutura, identidade visual e cuidado farmacêutico22. Os recursos foram distribuídos de acordo com o porte do município, classificados a partir do número de usuários atendidos mensalmente nas FME. Em contrapartida aos recursos recebidos, os municípios devem implantar os serviços clínicos prestados por farmacêuticos20.
Este estudo tem como objetivo avaliar a implementação dos serviços clínicos desenvolvidos por farmacêuticos do RS no âmbito do Programa Farmácia Cuidar+, implantado em 2021.
Material e métodos
Estudo de avaliação da implementação, cuja amostra é constituída pelos 446 (89,7%) municípios do RS que foram agrupados por porte, de acordo com o número de atendimentos de pacientes/mês: I (até 500), II (501 a 1.000), III (1001 a 2.000), IV (2001 a 3.000) e V (mais de 3.000).
Uma matriz de avaliação dos serviços clínicos desenvolvidos pelo farmacêutico foi elaborada, validada e valorada por especialistas17. Essa matriz é composta por 22 indicadores que compõem uma nota de zero a 100, distribuídos em 8 dimensões: efetividade do tratamento de asma, efetividade do tratamento da Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), adesão ao tratamento, atividades clínicas do farmacêutico, consultório, segurança, educação em saúde e educação continuada, conforme pode ser observado no quadro 1.
Indicadores dos serviços clínicos desenvolvidos por farmacêuticos no âmbito do Programa Farmácia Cuidar+
Para as FME de portes I, II, III e IV, não são aplicados os indicadores 1 e 2 relacionados aos resultados de efetividade dos tratamentos de asma e DPOC, pois nesses municípios não há obrigatoriedade de realização de testes para o monitoramento do controle dessas doenças, de acordo com normativas do Programa Farmácia Cuidar+, sendo a pontuação máxima para esses municípios de 80 pontos. Entretanto, a nota final é calculada ponderada, para permitir a comparação entre todos os municípios. A fonte e a fórmula de cálculo de cada indicador podem ser visualizadas em publicação prévia17.
Os dados para o cálculo dos indicadores foram obtidos por meio de questionário elaborado na plataforma Google Forms e enviados por correio eletrônico aos farmacêuticos coordenadores das FME. As informações para os indicadores relacionados à efetividade do tratamento da asma e da DPOC, bem como para a adesão ao tratamento, foram coletadas do sistema de informação da Secretaria Estadual de Saúde (SES) do RS - Sistema AME - utilizado para gerenciamento de informações dos pacientes e seus tratamentos relacionados ao Ceaf. A avaliação foi realizada na fase inicial (março de 2022) e na fase intermediária (dezembro de 2023) do programa.
No início do Programa Farmácia Cuidar+, foi elaborado e disponibilizado um curso on-line sobre as atividades clínicas do farmacêutico para o cuidado de pessoas com asma e ou DPOC, além do Manual do Programa Farmácia Cuidar+ - Eixo Cuidado Farmacêutico. Além disso, foram realizados encontros presenciais da equipe de pesquisa com os farmacêuticos atuantes nas FME, organizados nas macrorregiões de saúde. Esses encontros tiveram como objetivos apresentar a matriz de avaliação e os resultados da fase inicial, além de realizar atividade de simulação de atendimentos, a fim de desenvolver habilidades de realização dos serviços clínicos. Durante esses encontros, foram realizadas simulações de primeira dispensação, dispensação recorrente e acompanhamento farmacoterapêutico para pessoas com asma. Outras iniciativas incluíram um curso on-line autoinstrucional e manuais impressos para os farmacêuticos, materiais de educação em saúde, vídeos e reuniões temáticas do programa, além de encontros com gestores municipais para sensibilizar sobre a morbimortalidade relacionada a medicamentos e apresentar os resultados obtidos.
Na análise de dados, foram consideradas as pontuações alcançadas para cada indicador em cada fase, levando em conta todos os municípios que responderam ao formulário. O banco de dados com as respostas foi compilado em planilha no software Microsoft Excel. A análise estatística foi realizada através do software Stata, com nível de significância de 5%; foram utilizados Qui-Quadrado, teste t de Student e ANOVA de medidas repetidas, com teste de Sidak para as comparações múltiplas. As notas dos indicadores foram apresentadas de modo descritivo na forma de média e Desvio-Padrão (DP), estratificados por porte dos municípios e/ou macrorregião de saúde.
Os farmacêuticos que aceitaram participar da pesquisa preencheram o Registro de Consentimento Livre e Esclarecido (RCLE). Nessa pesquisa, foram respeitadas todas as exigências éticas e científicas fundamentais, baseadas nas orientações e disposições da Resolução da Comissão Nacional em Saúde do Ministério da Saúde, nº 466/201223, e do Ofício Circular nº 2/202124, da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa para procedimentos em pesquisas com qualquer etapa em ambiente virtual, além da recente Lei nº 14.874, de maio de 202425. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, parecer nº 5.235.955, CAAE número 53806421.7.0000.5345.
Resultados
Entre os 446 municípios que aderiram ao Programa Farmácia Cuidar+, 351 farmacêuticos responderam ao formulário na fase inicial e 386 na fase intermediária, o que representa um percentual de respostas ao questionário on-line de 78,7% e 86,5%, respectivamente. A nota média dos municípios na fase inicial foi de 20,1 (DP = 15,6), enquanto na fase intermediária foi de 32,8 (DP = 17,7), p = 0,000. Também houve aumento significativo nas dimensões: adesão ao tratamento, atividades clínicas do farmacêutico, consultório, segurança e educação em saúde, conforme pode ser visualizado na tabela 1.
Resultados da avaliação da implantação dos serviços clínicos desenvolvidos por farmacêuticos nas fases inicial (n = 351) e intermediária (n = 386) do Programa Farmácia Cuidar+ nos municípios do Rio Grande do Sul, por dimensão
Na fase inicial, as pontuações foram baixas para a maioria dos indicadores. Os indicadores que mais pontuaram nessa fase foram: orientação para o transporte do medicamento, orientação para o armazenamento do medicamento e educação continuada do farmacêutico. Na fase intermediária, além dos já citados, os indicadores de adesão do paciente ao tratamento farmacológico, consultório e material de apoio em saúde tiveram melhores pontuações.
Ao comparar os dados da fase intermediária com a inicial, pôde-se observar aumento significativo dos indicadores de: adesão do paciente ao tratamento farmacológico, primeira dispensação pelo farmacêutico, orientação para o processo e uso do medicamento, orientação para resultados esperados do uso do medicamento, avaliação e monitoramento dos exames, conciliação medicamentosa, avaliação de interação medicamentosa, orientação para possíveis efeitos adversos, consultório, registro de suspeita de eventos adversos, registro de erros de dispensação, dupla checagem na dispensação, material de apoio e grupo de dispensação em saúde, conforme pode ser visualizado na tabela 2.
Resultados da avaliação da implantação dos serviços clínicos farmacêuticos nas fases inicial (n = 351) e intermediária (n = 386) do Programa Farmácia Cuidar+ nos municípios do Rio Grande do Sul, por indicador
Na tabela 3, é possível visualizar as notas médias de cada indicador, nas fases inicial e intermediária, de acordo com o porte dos municípios. A nota média dos municípios aumentou entre as fases para todos os portes de atendimento. Os municípios de porte I (menos de 500 atendimentos/mês) atingiram a maior nota média. Os municípios de porte V (mais de 3.000 atendimentos/mês) obtiveram o menor aumento médio da nota quando comparados os dois períodos.
Resultados da avaliação da implantação dos serviços clínicos desenvolvidos por farmacêuticos nas fases inicial (n = 351) e intermediária (n = 386) do Programa Farmácia Cuidar+ nos municípios do Rio Grande do Sul, distribuídos por porte do número de atendimentos de pacientes/mês
Com relação aos indicadores de efetividade do controle de asma e DPOC, nenhum município alcançou o percentual mínimo de pacientes com DPOC controlado para pontuar nesse indicador, por isso, a nota foi zero nas duas fases avaliadas. Para asma, o percentual de pacientes que usam os medicamentos e têm a doença controlada é muito pequeno.
Discussão
Cerca de um ano e meio após o início do Programa Farmácia Cuidar+ foi possível observar aumento significativo nas notas médias dos municípios que aderiram ao programa com relação aos indicadores propostos para a avaliação da implantação dos serviços clínicos desenvolvidos por farmacêuticos. Tal resultado demonstra que programas específicos com repasse de recurso financeiro para além da compra de medicamentos, que buscam a estruturação das farmácias e oferecem apoio técnico aos farmacêuticos com foco no cuidado farmacêutico, conseguem promover modificações nos processos de trabalho relacionados aos serviços clínicos desenvolvidos por farmacêuticos no SUS.
Avaliar esse programa possibilita a sua sustentabilidade enquanto ferramenta de qualificação do SUS e auxilia o desenvolvimento de estratégias efetivas para áreas que sejam consideradas prioritárias. Em uma revisão sistemática que buscou identificar as estratégias usadas para avaliar a implementação de serviços de atendimento ao paciente em farmácias comunitárias, identificou-se que ‘treinar e educar as partes interessadas’ e ‘engajar o consumidor’ foram as estratégias de implementação mais frequentes. Outras estratégias também citadas foram: ‘fornecer assistência interativa’, ‘adaptar ao contexto’, ‘incentivo financeiro’ e ‘mudança de infraestrutura’26.
Os municípios de porte I possuem melhores resultados nas atividades clínicas do farmacêutico, tais como a primeira dispensação, orientações de modo geral e monitoramento de exames. Esse resultado pode estar relacionado à existência de maior vínculo entre os farmacêuticos e usuários em municípios com menor número de atendimentos/mês, onde o farmacêutico é o responsável pela dispensação dos medicamentos27,28. A construção de vínculo entre usuários e trabalhadores da saúde favorece relações de confiança e facilita a adesão do usuário ao cuidado, permitindo o aprofundamento do processo de corresponsabilização pela saúde29.
Municípios de porte I representam a realidade da maioria dos municípios gaúchos21 e do Brasil30. Municípios menores, geralmente, possuem apenas um farmacêutico responsável por serviços técnico-gerenciais e técnico-assistenciais17. O aspecto negativo é que as muitas demandas que envolvem as atividades gerenciais podem suprimir as atividades clínicas11. Por outro lado, apesar das múltiplas demandas, o farmacêutico, quando trabalha sozinho, é quem efetivamente acompanha o paciente, especialmente no processo de dispensação, embora muitas vezes não reconheça a dispensação como uma atividade clínica. Entrevistas do componente dos serviços da Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos no Brasil mostram que apenas 21,3% dos farmacêuticos afirmaram fazer atividades clínicas, sendo orientação farmacêutica e atenção farmacêutica as mais citadas10.
Ademais, o pequeno número de profissionais nas farmácias públicas é apontado como barreira para a implantação de serviços clínicos desenvolvidos por farmacêuticos, que acabam priorizando serviços gerenciais de logística dos medicamentos10. Mudar essa lógica é um desafio para os próprios farmacêuticos, que, muitas vezes, não se sentem preparados para realizar as atividades clínicas31.
Nos municípios de porte V, as notas foram um pouco melhores com relação aos aspectos de estrutura, como, por exemplo: presença de consultório farmacêutico, dupla checagem na dispensação dos medicamentos e possuir material de apoio para a orientação do paciente na dispensação. Tais tarefas são geralmente possíveis quando se dispõe de uma equipe maior e/ou de espaço maior. Além disso, em municípios com uma demanda maior de pacientes, em geral, faz-se necessária uma melhor organização dos processos.
Cinco das oito dimensões propostas para a avaliação da implantação dos serviços clínicos apresentaram diferenças significativas, demonstrando que diferentes ações foram executadas pelos farmacêuticos entre os períodos de avaliação. O fomento financeiro para implantação dos serviços clínicos, atividades de educação continuada e de avaliação parecem ser importantes para a efetividade das ações pretendidas. As notas médias ainda estão, de certa forma, distantes da nota máxima, mas entende-se que esse é um processo gradual e de sensibilização de farmacêuticos e gestores. É importante destacar a importância da avaliação durante o processo de implantação de um programa e da disseminação dos resultados26,32. Assim, os farmacêuticos dos municípios conseguem visualizar a sua realidade, comparar com a realidade de municípios semelhantes, bem como entender qual é a meta e quais são os pontos a serem melhorados.
As dimensões relacionadas à efetividade do tratamento de asma e DPOC, que avaliam resultados, foram aplicadas apenas aos municípios de porte V (n = 17). Na asma, verificou-se um pequeno aumento do número de pacientes com controle da doença, mas ele não foi significativo, enquanto na DPOC o número de pacientes com controle da doença é ínfimo. Não obstante, a complexidade clínica da DPOC resulta em uma resposta reduzida ao tratamento quando as medidas de modificação do estilo de vida não são adotadas em conjunto com o uso correto e seguro dos medicamentos33.
Os resultados de efetividade sugerem que a avaliação de tratamentos complexos requer um acompanhamento prolongado e uma abordagem integrada que inclua tanto os aspectos clínicos quanto os comportamentais dos pacientes. Vários estudos já reportaram que intervenções em saúde engajadas por farmacêuticos geram impacto na adesão ao tratamento e na realização correta da técnica de inalação de medicamentos de pacientes em asma e DPOC33-37.
Na dimensão ‘Atividades clínicas do farmacêutico’, não houve mudança significativa entre as fases para ‘dispensação pelo farmacêutico para asma e DPOC’, ‘Orientação para o transporte do medicamento’ e ‘Orientação para o armazenamento do medicamento’, porém, esses indicadores já tinham pontuação mais elevada na fase inicial, sendo, portanto, as orientações sobre transporte e armazenamento as mais comumente fornecidas previamente à implantação do Programa Farmácia Cuidar+. Esse achado está de acordo com pesquisas de âmbito nacional e regional que destacam a dispensação como o serviço clínico mais comum10,27,31,38. Apesar disso, o conceito de dispensação como serviço clínico, e não apenas como a entrega de medicamentos, não está disseminado nem mesmo entre a classe farmacêutica10,30.
Os resultados da dimensão ‘atividades clínicas do farmacêutico’ apresentam variações, que estão de acordo com as práticas adotadas nos diferentes municípios. Para alguns municípios, pode ser necessário um maior tempo para organização, treinamento e priorização das atividades clínicas. Muitos dos medicamentos que fazem parte do elenco do Ceaf englobam doenças com uma menor prevalência na população e que possuem maior complexidade em termos de cuidados, monitoramento e efetividade do tratamento, como, por exemplo, transplante, esquizofrenia, asma e DPOC. Todas essas doenças possuem protocolos clínicos, dos quais o farmacêutico deve se apropriar para garantir o cuidado centrado no paciente39,40. Enquanto serviço clínico, o seguimento farmacoterapêutico é o mais estudado, contudo, as atividades clínicas comumente desenvolvidas na atenção primária do Brasil são a dispensação e a orientação do usuário para o uso correto dos medicamentos27.
Outro aspecto importante dos serviços clínicos prestados por farmacêuticos é a documentação do processo, realidade ainda muito incipiente nos municípios investigados. Tal resultado está possivelmente associado à incipiência da prática clínica do farmacêutico41, à fragmentação da AF no contexto do Componente Especializado em relação a outros serviços de saúde42 e à formação insuficiente para o cuidado farmacêutico41,43,44. A incorporação do registro do serviço clínico em prontuário como parte essencial do atendimento favoreceria aos farmacêuticos não apenas documentar o cuidado, mas, também, permitir o acompanhamento do paciente e fortalecer a sua integração e colaboração dentro da equipe de saúde, contribuindo de forma mais significativa para o cuidado integral do usuário e tendo as suas atribuições clínicas reconhecidas45,46.
Com o incentivo à realização das atividades clínicas do farmacêutico, esperava-se encontrar aumento das notas dos indicadores. Paradoxalmente, a orientação para o processo de uso do medicamento apresentou redução significativa dos valores na comparação das fases intermediária e inicial, no total e nos municípios de porte I. Mesmo que os farmacêuticos reconheçam as atividades clínicas como importantes, a complexidade e as multitarefas relacionadas à Farmácia podem impedir a priorização da orientação ao usuário8,30,38, o que pode impactar negativamente os resultados de efetividade dos tratamentos disponibilizados4,17.
A dimensão ‘segurança’ apresentou avanço apenas no indicador que mede o registro de suspeita de efeitos adversos. A utilização de dupla-checagem do item a ser dispensado e o registro de erros de dispensação são processos ainda pouco realizados nas farmácias e que necessitam ser implementados para garantir a segurança do usuário de medicamentos. Em estudo realizado em municípios de Santa Catarina, foi igualmente constatada a ausência de ações voltadas à segurança do paciente no âmbito da AF47.
A educação em saúde é importante estratégia de fomento ao uso racional de medicamentos e de promoção do autocuidado, podendo ser realizada individualmente ou em grupos. A pesquisa de Araújo et al.10 destaca a baixa participação dos farmacêuticos nessas atividades, o que é preocupante, considerando o papel central desses profissionais na orientação adequada sobre medicamentos.
No presente estudo, foi observada evolução no indicador ‘Material de apoio em saúde’, o que demonstra progresso na disponibilização desses materiais ao longo do tempo. A coordenação do Programa Farmácia Cuidar+ desenvolveu materiais voltados para orientação aos usuários e os disponibiliza para os farmacêuticos das FME, como diário de autocuidado; fichas com a descrição sobre a correta utilização de dispositivos inalatórios; vídeos sobre agravos específicos para serem enviados por WhatsApp ou sala de espera, ou, ainda, durante a consulta farmacêutica. Os materiais estão inseridos no sistema de dispensação estadual, com a opção de impressão para entrega ao usuário, constam no Manual do Programa Farmácia Cuidar+ - Eixo Cuidado Farmacêutico - e na página do programa na Internet. A entrega de materiais já prontos para os trabalhadores aparenta ser um fator incentivador para a realização de atividades de educação em saúde, mas isso não impede que cada farmacêutico desenvolva os seus materiais de apoio à dispensação de medicamentos e orientação para os usuários.
A dimensão de educação continuada não mostrou uma diferença entre as fases, apesar das iniciativas do Programa Farmácia Cuidar+. Nos últimos anos, os serviços clínicos desenvolvidos por farmacêuticos têm desafiado educadores, gestores e trabalhadores em demandas relacionadas à formação48. Muitos farmacêuticos não têm um conhecimento advindo da graduação que tenha explorado as complexidades da Farmácia Clínica e do Cuidado Farmacêutico, o que limita o desenvolvimento das habilidades clínicas necessárias para a rotina e os processos de trabalho48,49. Nesse âmbito, percebe-se a necessidade de sensibilização da gestão local para coordenar iniciativas que visem à capacitação dos farmacêuticos e da equipe ou ao fomento de programas de formação que tenham esse objetivo.
As limitações deste estudo estão relacionadas, em parte, ao uso de dados provenientes de um sistema informatizado, cujas qualidade e precisão dependem diretamente da consistência e exatidão dos registros inseridos, além de a fonte dos indicadores dos serviços clínicos ser o próprio farmacêutico responsável pela execução dessas atividades. Por outro lado, esta é, no momento, a melhor fonte disponível, e, ainda que incipiente, permite comparações e reflexões. Além disso, os encontros presenciais onde a matriz de indicadores e os resultados da etapa inicial foram apresentados aos farmacêuticos podem ter introduzido um viés de resposta com relação aos resultados da etapa intermediária, já que os participantes foram expostos a informações anteriores. Embora essa dinâmica possa ter, de alguma forma, impactado a espontaneidade e independência das respostas na etapa subsequente, acredita-se que os resultados ainda fornecem subsídios valiosos sobre a percepção dos farmacêuticos acerca dos indicadores avaliados. A participação no preenchimento do questionário era voluntária, e, embora se tenha alcançado um percentual elevado de respostas, os não respondentes podem ter sido aqueles farmacêuticos que não fazem e ou não querem realizar nenhuma atividade clínica, ou, ainda, municípios que não possuem farmacêutico.
No processo de avaliação da AF na atenção primária, foi identificado que a lacuna principal está relacionada ao processo de avaliação dos serviços clínicos prestados por farmacêuticos50-52. Nesse sentido, além de avaliar a estrutura e o processo, faz-se necessário avaliar os resultados obtidos por meio dessas ações53. Estudos que investigam a prestação de serviços clínicos no âmbito do Ceaf são escassos e evidenciam a necessidade de avanços em sua implementação50-52.
Ao longo dos últimos anos, está claro que o acesso ao medicamento por si só não garante resultados clínicos. Uma política de AF precisa garantir que os medicamentos sejam usados de maneira correta e alcancem os resultados terapêuticos desejados, e isso está intrinsecamente relacionado à valorização da atividade clínica como atividade técnico-assistencial e exclusiva do farmacêutico, bem como ao trabalho do farmacêutico integrado à equipe de saúde. Após quase três anos desde o início do Programa Farmácia Cuidar+, é preciso discutir estratégias de sensibilização de gestores, farmacêuticos e da população para a importância das atividades clínicas farmacêuticas, visando à sustentabilidade das ações.
Conclusões
A implantação do Programa Farmácia Cuidar+, um programa inédito de financiamento estadual para a implantação dos serviços clínicos desenvolvidos por farmacêuticos no contexto do Ceaf, apresentou resultados significativos nas notas gerais dos indicadores propostos para avaliar os serviços clínicos, bem como nas dimensões adesão ao tratamento, atividades clínicas do farmacêutico, consultório, segurança e educação em saúde.
Os resultados observados neste estudo evidenciam que a implantação do Programa Farmácia Cuidar+ está avançando, e, ainda que os resultados obtidos estejam distantes da pontuação plena proposta nos indicadores avaliados, o que refletiria uma situação ideal, foram percebidas mudanças. Além disso, é perceptível a heterogeneidade entre os municípios, com destaque para aqueles com menor número de atendimentos de paciente/mês. Além do repasse de recursos financeiros, diversas estratégias foram adotadas para fomentar a implantação dos serviços clínicos. Entre estas, destacam-se os encontros presenciais realizados nas sete macrorregiões de saúde do estado, visando a disseminar o programa e capacitar farmacêuticos por meio de educação continuada, com foco em serviços clínicos para usuários com asma e DPOC.
Este estudo demonstra que programas específicos, implementados em âmbito estadual, com repasse de recurso financeiro, realização de apoio técnico e avaliação por parte da gestão estadual, fomentam a realização dos serviços clínicos desenvolvidos por farmacêuticos, contribuindo para o alcance das diretrizes estabelecidas na PNAF.
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Suporte financeiro: este estudo recebeu financiamento do Edital Fapergs 07/2021 - Programa Pesquisador Gaúcho - PqG e apoio do Departamento de Assistência Farmacêutica do Estado do Rio Grande do Sul
Disponibilidade de dados:
os dados de pesquisa estão contidos no próprio manuscrito
Referências
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Editora responsável:
Maria Lucia Frizon Rizzotto
