RESUMO
A Inteligência Artificial (IA) está revolucionando a assistência médica com soluções para desafios complexos, aprimorando o diagnóstico, o tratamento e o cuidado. No entanto, sua integração levanta questões sobre aplicações, benefícios e desafios. Esta revisão teve como objetivo discutir o uso de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) para melhorar a gestão, o diagnóstico e o cuidado na Atenção Primária à Saúde (APS). Para atender a esse propósito, foram utilizadas as bases de dados Web of Sience, Proquest Central, Emerald Management Journals, PubMed e Scopus/Elsevier. A seleção de estudos envolveu triagem de títulos, revisão de resumos e exame de textos completos, aderindo às diretrizes PRISMA-ScR durante todo o processo. Os estudos examinaram as TIC sobre o uso potencial de ferramentas baseadas em IA no atendimento de pacientes na APS (11/34, 32,35%), e quanto aos desafios do uso da IA na APS (23/67,65%). A aplicação da IA na APS destaca a promessa de melhorias significativas, mas também a complexidade envolvida em sua implementação. A eficácia da IA nesse contexto está diretamente ligada a uma abordagem integrada que deve considerar a infraestrutura tecnológica existente, essencial para suportar as demandas de processamento de dados e a implementação de sistemas inteligentes.
PALAVRAS-CHAVE
Inteligência Artificial; Atenção Primária à; Saúde; Saúde digital; Revisão.
ABSTRACT
Artificial Intelligence (AI) is revolutionizing healthcare with solutions to complex challenges, improving diagnosis, treatment, and care. However, its integration raises questions about applications, benefits, and challenges. This review aimed to discuss the use of Information and Communication Technologies (ICTs) to improve management, diagnosis and care in Primary Health Care (PHC). In order to meet this purpose, the Web of Science, Proquest Central, Emerald Management Journals, PubMed, and Scopus/Elsevier databases were used. Study selection involved title screening, abstract review, and full-text examination, adhering to the PRISMA-ScR guidelines throughout the process. Studies examined ICTs on the potential use of AI-based tools in patient care in PHC (11/34, 32.35%), and on the challenges of using AI in PHC (23/67.65%). The application of AI in PHC highlights the promise of significant improvements, but also the complexity involved in its implementation. The effectiveness of AI in this context is directly linked to an integrated approach that must consider the existing technological infrastructure, which is essential to support data processing demands and the implementation of intelligent systems.
KEYWORDS
Artificial Intelligence; Primary Health Care; Digital health; Review.
Introdução
O uso de Inteligência Artificial (IA) na Atenção Primária à Saúde (APS) tem sido amplamente recomendado1. Os sistemas de IA têm sido cada vez mais usados na área da saúde, em geral2, dada a esperança de que tais sistemas possam ajudar a desenvolver e aumentar a capacidade dos humanos em áreas como diagnóstico, terapêutica e gerenciamento de sistemas de atendimento ao paciente e à saúde2. Os sistemas de IA têm a capacidade de transformar a APS, por exemplo, melhorando a previsão de riscos, apoiando a tomada de decisões clínicas, aumentando a precisão e a pontualidade do diagnóstico, facilitando a revisão e documentação de prontuários, aumentando as relações médico-paciente e otimizando as operações e a alocação de recursos3.
A APS, como a força dominante na base da pirâmide da assistência médica, com sua interconexão incomparável com todas as partes do sistema de saúde e seu profundo relacionamento com pacientes e comunidades, é a especialidade mais adequada para liderar a revolução da IA4, ou seja, técnicas avançadas de computação para processamento de informações, na assistência médica5. É o primeiro nível de atenção em saúde e se caracteriza por um conjunto de ações de saúde, nos âmbitos individual e coletivo; e, por conseguinte, um pilar fundamental na assistência à saúde, servindo como o primeiro ponto de contato e gerenciando o número mais significativo de pacientes. Dessa forma, oferece atendimento centrado no paciente, abrangente, longitudinal e coordenado entre os setores clínicos em suas especialidades6.
À medida que o uso de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) se desenvolveu e avançou ao longo do século XX, essas foram incorporadas à assistência médica de muitas maneiras7. Inicialmente, isso começou com sistemas de administração hospitalar computadorizados para permitir que a organização de áreas clínicas e departamentos de serviço dentro de um hospital fosse mais eficiente8. Mais tarde, formas simples de sistemas de suporte à decisão clínica foram desenvolvidas e implementadas em hospitais e outras instalações de assistência médica para dar suporte a médicos, enfermeiros e outros profissionais para melhorar as decisões tomadas e o atendimento prestado. Conforme os anos passaram, a tendência de usar tecnologia na assistência médica continuou9. Outros tipos de aplicativos de computador, como sistemas de entrada de pedidos, registros eletrônicos de saúde e prescrição eletrônica foram projetados e implantados para reduzir o número de erros médicos que ocorreram para melhorar a qualidade e a segurança do atendimento ao paciente10. Essa tendência ficou conhecida como saúde eletrônica (eHealth), e, agora, como saúde digital, assim definida por Eysenbach e Jadad11(1):
[...] um campo emergente na intersecção da informática médica, saúde pública e negócios, referindo-se a serviços de saúde e informações entregues ou aprimoradas por meio da Internet e tecnologias relacionadas. Em um sentido mais amplo, o termo caracteriza não apenas o desenvolvimento técnico, mas também um estado de espírito, uma maneira de pensar, uma atitude e um compromisso com o pensamento global em rede, para melhorar os cuidados de saúde local, regional e mundialmente usando tecnologia de informação e comunicação.
Desde a introdução da tecnologia na assistência médica, houve graus de sucesso e fracasso ao implantá-la em ambientes clínicos4. Embora alguns formuladores de políticas, gerentes de serviços de saúde e profissionais de saúde possam estar entusiasmados com a adoção de novas tecnologias, muitos problemas podem ocorrer à medida que elas são implementadas. Por exemplo, Hamade et al.12 revisaram a literatura sobre barreiras que afetaram como os registros eletrônicos foram implementados na atenção primária. Isso mostrou inúmeras dificuldades relacionadas a quão bem o sistema técnico se ajustava aos fluxos de trabalho clínicos e à cultura de prestação de cuidados. O tipo de abordagem de gerenciamento de projetos usada para adquirir e implantar o sistema de TIC e o nível de treinamento e suporte que foi oferecido àqueles que usavam registros eletrônicos também foram problemáticos. Em outro estudo, Lorenzi et al.13 se concentraram em como os registros eletrônicos relataram que o custo da tecnologia e a resistência dos profissionais de saúde em mudar suas práticas eram todos desafios que tinham que ser enfrentados para garantir uma implementação bem-sucedida. Essas barreiras indicam que a incorporação de novas tecnologias na assistência médica pode envolver processos de mudança complexos nos níveis individual e organizacional.
Embora a saúde digital tradicionalmente se concentrasse na tecnologia em hospitais de emergência ou em ambientes de cuidados primários, seu foco mudou nos últimos anos para o uso individual da tecnologia por pacientes e membros do público. Isso se deve aos desenvolvimentos tecnológicos e sociais nas últimas décadas. À medida que os computadores pessoais e a internet evoluíram nas décadas de 1980 e 1990, os sistemas de computadores e os ambientes on-line se tornaram mais acessíveis e baratos para o público em geral14. Isso foi rapidamente seguido pelo surgimento da tecnologia móvel, que permite que as pessoas gerenciem dados pessoais eletronicamente e tenham acesso a uma riqueza de informações e serviços pela internet, quase em qualquer lugar e a qualquer hora. Esses tipos de tecnologias agora são onipresentes e estão se tornando cada vez mais sofisticados15. Vários aplicativos e dispositivos podem ser integrados em computadores de mesa ou plataformas móveis, por exemplo, smartphones, tablets ou laptops, permitindo que os pacientes e o público os usem para gerenciar sua saúde e bem-estar, se assim o desejarem1.
Alowais et al.16 apontam que os cuidados primários são ‘cuidados de saúde essenciais’ e a característica central de um sistema de saúde eficaz. Dessa forma, têm o potencial de melhorar a qualidade, reduzir custos e aumentar a equidade, fornecendo primeiro contato e agilidade a cuidados médicos abrangentes, contínuos e coordenados para pacientes e populações. A prevenção de doenças e suas complicações está entre as funções mais fundamentais da atenção primária, podendo, inclusive, diminuir a mortalidade e a morbidade em condições crônicas e agudas17.
Muitos estudos investigaram as fontes de prestação de serviços de saúde preventiva6,18,19. Entre as principais barreiras à implementação de cuidados preventivos por clínicos está o tempo. Estudos mostraram que 8,6 horas por dia de trabalho são necessárias para que um clínico atenda totalmente às recomendações de cuidados preventivos20. Um crescimento constante nas demandas concorrentes em todo o gerenciamento de necessidades agudas, crônicas e preventivas e uma população envelhecida com comorbidades crescentes21 tornam quase impossível para um clínico fornecer serviços preventivos recomendados sem suporte. Inovações na prestação de cuidados, como o serviço de assistência domiciliar centrado no paciente, o uso de agentes comunitários de saúde e a integração da atenção primária com a saúde pública podem ajudar a reduzir essa carga sobre os clínicos. Ademais, com a rápida evolução da tecnologia da informação, as TIC são cruciais para abordar a prevenção6,22.
Com efeito, as TIC são entregues por meio de tecnologias digitais para dar suporte a várias necessidades do sistema de saúde e são usadas formal e informalmente por médicos, pacientes e partes interessadas da população23. Exemplos dessas tecnologias incluem sistemas de telessaúde para serviços clínicos remotos, dispositivos médicos como suporte à decisão clínica, imagens médicas etc. Outras facetas da saúde digital, como análise avançada de dados e a IA, podem ser usadas como intervenções autônomas ou componentes integrados dentro das tecnologias digitais24.
Aplicação da IA nos cuidados de saúde
A IA é um campo em rápida evolução na assistência médica, com grande potencial para informar a tomada de decisões com base em evidências e, em última análise, melhorar os resultados de saúde5,8,24.
As principais funções e benefícios esperados de IA nos cuidados de saúde, de acordo com Chen e Asch25, apontam três vertentes principais, tais como:
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Apoio ao diagnóstico e à tomada de decisão clínica: a) Sistemas de IA podem auxiliar profissionais de saúde na identificação precoce de doenças, fornecendo diagnósticos baseados em padrões em grandes volumes de dados clínicos, como exames laboratoriais, históricos médicos e imagens, por exemplo, com algoritmos usados para identificar sinais precoces de comprometimento com alguma disfunção do paciente;
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Gestão e monitoramento de pacientes: a) Ferramentas de IA permitem monitorar pacientes com condições crônicas por meio de aplicativos que coletam dados em tempo real e alertam profissionais sobre alterações significativas;
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Otimização de fluxos de trabalho e alocação de recursos: a) Algoritmos podem ser usados para prever demanda por serviços, facilitando a alocação de recursos humanos e materiais em clínicas e hospitais, promovendo eficiência operacional.
Dado o papel crescente da APS em nossa sociedade, é importante desenvolver estratégias que abordem as limitações do sistema de saúde existente e melhorem a qualidade geral do atendimento prestado. Isso inclui esforços para reduzir a crescente carga de cuidados de saúde, bem como a carga de doenças crônicas, diminuindo as taxas de classificação e diagnósticos incorretos, reduzindo os casos de doenças mal administradas e aumentando a acessibilidade aos cuidados26.
Este artigo relata os resultados de uma série de estudos projetados para explorar essas questões, identificando questões-chave relacionadas ao uso de ferramentas de IA na APS, explorando as opiniões da APS e das partes interessadas em saúde digital. Buscamos obter uma compreensão holística dessas questões, envolvendo as diferentes perspectivas trazidas nos dados obtidos nesta pesquisa. Por conseguinte, essa revisão teve como objetivo discutir o uso das TIC para melhorar a gestão, o diagnóstico e o cuidado na APS.
Material e métodos
Esta revisão de escopo aderiu às diretrizes PRISMA-ScR (Itens de Relatórios Preferenciais para Revisões Sistemáticas e Extensão de Meta-Análises para Revisões de Escopo) para garantir a transparência e confiabilidade do estudo27. As diretrizes PRISMA-ScR, recomendadas pelo Joanna Briggs Institute28 e pela Cochrane para revisões de escopo29, garantem relatórios rigorosos e padronizados.
O protocolo desta revisão foi registrado na plataforma Open Science Framework30.
Esta revisão partiu da seguinte pergunta norteadora: em que medida se encontra a aplicação dos dados digitais de saúde dos pacientes usando a IA na atenção primária?
Quanto às fontes de informação e à estratégia de busca, realizou-se uma busca abrangente nos bancos de dados eletrônicos: Web of Sience, Proquest Central, Emerald Management Journals, PubMed e Scopus/Elsevier. A busca descobriu que a base Web of Sience contém a maior parte da literatura e, após a triagem e remoção de duplicatas, é a principal fonte de literatura. Ela possui literatura de maior qualidade e precisão de citação significativamente melhor do que outros bancos de dados. O PubMed continua sendo uma ferramenta importante na pesquisa eletrônica biomédica. O Scopus cobre uma gama mais ampla de periódicos, de ajuda tanto na pesquisa de palavras-chave quanto na análise de citações. A base ProQuest Central reúne muitos de nossos bancos de dados mais usados para criar o banco de dados de pesquisa multidisciplinar abrangente, diversificado e relevante. A base Emerald Management Journals é uma das principais editoras digitais do mundo, compondo uma gama de revistas importantes.
A estratégia de busca foi projetada para capturar todos os estudos relevantes sobre IA dentro do domínio da saúde. A busca foi realizada no período de julho a setembro de 2024. Os descritores e termos foram extraídos dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH), respectivamente. As palavras-chave usadas na pesquisa incluíram combinações de: (“artificial intelligence” OR “expert systems”) AND (“primary health care” OR “health” OR “health care” OR “medical” OR “wellness” OR “healthcare system”) AND (“application”).
A estratégia de investigação empregada foi delineada para identificar os artigos que tivessem pelo menos um dos descritores utilizados. Todos os registros identificados foram importados para o software de acesso aberto Rayyan. Duplicatas foram removidas, e os títulos e resumos dos registros restantes foram selecionados para elegibilidade por pelo menos um dos autores. Qualquer incerteza ou conflito foi discutido até que um consenso fosse alcançado entre todos os autores. Também revisamos continuamente nossas interpretações dos critérios de seleção. Quando surgiram dúvidas, voltamos atrás para garantir que os critérios tivessem sido aplicados corretamente e de forma universal, independentemente de quem havia selecionado os registros. Pelo menos dois pesquisadores, então, selecionaram artigos de texto completo de forma independente. Conflitos e incertezas foram novamente resolvidos por meio de discussão, até que o consenso fosse alcançado entre todos os pesquisadores.
As informações extraídas incluíram características do estudo (autor, ano de publicação), objetivos da pesquisa, aplicação de IA na atenção primária, principais benefícios relatados e desafios identificados. Os dados foram sintetizados narrativamente para fornecer ao autor todos os dados inseridos meticulosamente revisados, realizando tarefas como verificação ortográfica e formatação de células, para garantir a precisão da síntese de dados. Posteriormente, métodos estatísticos descritivos, incluindo cálculos de frequência e porcentagem, foram empregados para apresentar as descobertas. Os dados descritivos derivados dos estudos incluídos foram sistematicamente organizados em tabelas e figuras, alinhando-se com os objetivos do estudo conforme determinado.
Para esta revisão, foram considerados elegíveis artigos de periódicos revisados por pares, com espaço temporal em aberto, que tivessem sido publicados até setembro de 2024, escritos em português, inglês ou espanhol. Utilizou-se como critério de exclusão artigos que não se relacionassem à questão de pesquisa. Adicionalmente, incluem-se, também, artigos de revisão, meta-análises e metassínteses; entretanto, analisaram-se as referências desses artigos de forma a examinar a existência de alguma publicação que não tenha sido encontrada na pesquisa. Por fim, complementou-se eliminando conferências, resumos, editoriais, relatórios, dissertações e teses.
A bibliometria, como uma análise quantitativa da literatura, serve como uma ferramenta metodológica para delinear tendências de desenvolvimento dentro de campos acadêmicos específicos, enfatizando a obtenção de resultados quantificáveis, replicáveis e objetivos. Neste estudo, conduziu-se uma análise utilizando o software VOSViewer versão 1.6.20, uma ferramenta amplamente reconhecida de análise bibliométrica para examinar visualmente a literatura31. O VOSviewer utiliza as inter-relações entre entidades acadêmicas, como autores, periódicos e palavras-chave, para descrever tendências de pesquisa científica dentro de um domínio específico. As unidades de análise no VOSviewer abrangem países, autores, periódicos, palavras-chave e muito mais, adaptadas ao foco analítico e ao tipo de banco de dados. Os nós na visualização representam unidades de análise, com o tamanho do nó indicando sua significância na rede. As conexões entre os nós são representadas por linhas, com linhas mais grossas denotando conexões mais fortes. As cores dos nós denotam clusters distintos, em que nós da mesma cor pertencem ao mesmo cluster32. Neste estudo, inicialmente, analisamos redes colaborativas para identificar e descrever o escopo e o uso das intervenções digitais na saúde com o subsídio da IA na APS. Posteriormente, uma análise de cocitação com base em fontes de publicação foi conduzida para revelar potenciais composições disciplinares dentro desse
O diagrama de fluxo ilustra o fluxo de informações através das diferentes fases da revisão de escopo, incluindo o número de registros identificados, registros incluídos e excluídos e os motivos da exclusão
Conforme é apresentado na figura 2, os estudos incluídos foram publicados entre 2014 (2,94%) e 2024 (14,70%), com a produção atingindo seu ápice no ano de 2022 (26,47%). A maioria desses estudos foi realizada em diferentes países, como Romênia, Taiwan, Israel, Suíça, Bélgica, Itália, Escócia, Indonésia e Chile (n = 1), China e Inglaterra (n = 2), Austrália (n = 3), Espanha, Brasil e Estados Unidos da América (n = 4), e Canadá (n = 6). Dessa forma, a maioria dos estudos foi conduzida em países de renda média-alta (n = 31; 91,17%) e países de renda média-baixa (n = 3; 8,83%).
O quadro 1 apresenta as características gerais dos artigos selecionados para esta pesquisa, que foram identificados e categorizados segundo autor, ano de publicação, periódico, descrição do objeto de pesquisa e resultados.
Características descritivas dos 34 estudos selecionados que examinaram o uso das intervenções digitais na saúde com o subsídio da IA na APS
Hotspots de palavras-chave relacionadas a aplicação da IA na APS
As informações elaboradas por meio de estudos bibliométricos medem a contribuição do conhecimento científico derivado de publicações em determinada área. Os indicadores de produção são benéficos para o conhecimento da comunidade científica sobre o sistema em que atua. A bibliometria envolve a observação do estado da ciência através da produção científica registrada em um repositório de dados específico31. Dessa forma, com o auxílio do software VOSviewer, foi possível detectar as principais palavras-chave nos títulos e resumos dos artigos dos periódicos selecionados. As palavras-chave foram detectadas com base em uma rede de coocorrência, como pode ser visto na figura 3. Utilizando a técnica de agrupamento VOSviewer, observa-se que três clusters foram formados a partir de 26 palavras-chave identificadas algoritmicamente pelo software. Verificou-se, também, que as palavras-chave apresentadas em cada cluster estão estritamente relacionadas ao tema de pesquisa.
As ligações mostradas nos clusters formados são aleatórias, separando apenas os grupos de palavras. Cada círculo representa um termo, e apenas uma parte deles tem seu nome apresentado, pois o software, para evitar sobreposições, identifica apenas alguns. O tamanho do círculo refere-se ao número de ocorrências do termo. As palavras presentes nos clusters possuem relação direta entre si, correspondendo ao seu fator de separação. O tamanho de cada palavra do cluster está relacionado ao seu peso, ou seja, à sua coocorrência nas postagens.
Coocorrência dos artigos obtidos na pesquisa da aplicação da IA na APS
O arcabouço documental importado para o software VOSviewer dos achados da pesquisa produziu, após tratamento, 32 termos que coocorreram mais de uma vez e compuseram o mapa de coocorrência, distribuídos em cinco agrupamentos apresentados na figura 4, com linhas conectando nós indicando relações cooperativas de pesquisa. Linhas mais grossas denotam colaboração mais próxima. Esta análise inclui apenas pesquisas que contribuíram com um mínimo de 6 artigos para o conjunto de dados.
Mapa de coocorrência sobre a aplicação da IA na APS em documentos indexados nas bases bibliográficas pesquisadas
O termo que mais coocorreu nesse cluster - ‘university’ -, seguido do segundo nesse ranking, ‘telemedicine’, ‘technology’, ‘machine learning’, ‘research council’, ‘intervention’, ‘population’, ‘quality’, customizam o processo de translação do conhecimento, em que as evidências científicas são aplicadas na prática, embasando as ações da IA na APS. Os demais termos nos clusters com menor impacto mantêm sincronismo com o supradescrito, visto que correlacionam terminologias cuja abordagem aparece nos desfechos dos artigos obtidos na pesquisa.
Discussão
Os sistemas de saúde enfrentam desafios estruturais e organizacionais que limitam sua capacidade de atender à população de maneira equitativa e eficiente62. O uso da IA na prestação de serviços de saúde tem crescido exponencialmente nos últimos anos, transformando a forma como diagnósticos, tratamentos e monitoramento de pacientes são realizados. A IA permite a análise de grandes volumes de dados de saúde em alta velocidade, auxiliando na identificação de padrões e na tomada de decisões clínicas mais precisas. Tecnologias computacionais e redes neurais estão sendo aplicadas em diversas áreas, como radiologia, onde algoritmos são capazes de detectar anomalias em exames de imagem com alta precisão, e na gestão de doenças crônicas, por meio de sistemas de monitoramento remoto e preditivo63. Esse crescimento reflete a busca de soluções mais eficientes e acessíveis em meio aos desafios enfrentados pelos sistemas de saúde globalmente.
Além disso, a adoção da IA tem sido impulsionada pela sua capacidade de melhorar a experiência do paciente e otimizar os fluxos de trabalho dos profissionais de saúde64. O aumento do envelhecimento da população com múltiplas doenças crônicas e o aumento dos gastos com saúde em todo o mundo são alguns dos principais fatores que pressionam os sistemas de saúde65. De acordo com Laranjo et al.66, ações baseadas em IA demonstram potencial para melhorar o acesso e a continuidade dos cuidados, especialmente em populações subatendidas. A APS, em certa medida, pode responder a essas demandas tanto na população quanto na comunidade, não apenas em termos de políticas de saúde, mas, também, tecnologicamente67. Sistematicamente, a operacionalidade funcional na gestão da APS tende a estar digitalizada, usando, por conseguinte, sistemas de informação de saúde como parte da prestação de cuidados68,69. Com efeito, o uso da IA na saúde também levanta desafios éticos e regulatórios, como a privacidade dos dados e a responsabilidade em decisões clínicas, que exigem atenção cuidadosa na medida em que sua aplicação continua a se expandir70. Os muitos ambientes e disciplinas clínicas diferentes podem corroborar a natureza orientada por dados dos cuidados de saúde; o fato de que a IA é altamente aplicável.
Os resultados obtidos nesta pesquisa evidenciaram que a aplicação de sistemas de IA na área da saúde é variada e se baseia em muitos tipos de desenhos e metodologias de estudo. Um pouco mais da metade dos estudos incluídos forneceu uma motivação clara para a implementação de um sistema de IA, que é um fator-chave para a adoção bem-sucedida da IA na área da saúde, através de uma motivação clara indicando alinhamento com necessidades bem definidas da prática clínica. Essa observação pode refletir uma compreensão consistente do que se entende por implementação de IA na prática diária e uma consistência metodológica em como tais implementações devem ser operacionalizadas. E, de tal forma, a maioria dos estudos tinha uma compreensão técnica ou computacional da implementação sistemática da IA na APS em termos da eficácia nos processos clínicos advindos da intervenção na gestão de atendimento ao paciente. De acordo com Davenport e Kalakota71, isso indica a natureza relativamente promissora das evidências nesse campo e é semelhante a outros estudos, que destacam que muitas das publicações sobre IA na área da saúde se concentram nos métodos e aspectos técnicos da aplicação do modelo de IA a cenários clínicos, e fornecem dados relevantes sobre o processo real de sua implementação na prática.
A maioria dos estudos foi publicada muito recentemente (2014-2024), o que não é surpreendente, dada a distribuição temporal dos estudos de saúde de IA. A pesquisa sobre a implementação da IA na área da saúde é predominantemente de natureza conceitual, dominada por comentários, perspectivas, artigos de opinião e estruturas conceituais que levantam questões importantes, e com evidências empíricas muito necessárias. Como a base de evidências empíricas para a implementação de soluções de IA na rotina da assistência à saúde ainda é estreita e prematura, sobretudo em países de baixa renda, ela limita as possibilidades de generalização tanto para a prática quanto para o avanço das abordagens metodológicas. A maioria dos artigos foi publicada em países de alta renda, principalmente no Canadá22,47,52,54,55,58; entretanto, o Brasil15,33,40,63 tem se mostrado atento a essas questões. Essa descoberta é consistente com a infraestrutura de saúde digital mais desenvolvida, e se alinha com aplicações de IA em vários campos da saúde72,73.
O uso crescente de sistemas de registros médicos eletrônicos nas últimas décadas significa que há um grande volume de dados disponíveis para utilização de aplicativos de IA3. A IA pode ajudar aumentando (apoiando) tarefas como a tomada de decisões para reduzir a carga cognitiva dos médicos. Isso seria particularmente útil para desafiar a tomada de decisões diagnósticas ou terapêuticas. Outrossim, pode fazer a análise de dados em segundo plano para permitir que se tenha um registro mais integrado dos pacientes durante uma consulta67.
A necessidade de médicos conduzirem a prestação de cuidados não desaparecerá e, de fato, se tornará mais crítica, pois vários resultados sugeridos por aplicativos de IA exigirão validação médica para o paciente. À medida que os médicos aprendem a validar ou refutar decisões de aprendizado profundo, que, inicialmente, podem parecer não plausíveis, isso aumentará a confiança dos médicos nos processos de IA. Com o tempo, podemos aceitá-las como boas decisões de IA ou aprender quando o cérebro humano pode precisar substituir uma proposição para uma decisão final.
Em uma avaliação crítica, a aplicação da IA na APS é promissora, mas também complexa. A eficácia da IA na melhoria dos cuidados depende de uma abordagem integrada que leve em consideração a infraestrutura tecnológica, o treinamento contínuo dos profissionais de saúde e uma sólida base ética e regulatória39,70. Apesar das dificuldades, os avanços nas áreas de diagnóstico e monitoramento remoto já mostram resultados positivos, sugerindo que, com os investimentos adequados em infraestrutura e educação, a IA pode representar uma grande mudança na prestação de cuidados de saúde na APS61. Contudo, é necessário garantir que as implementações de IA complementem, e não substituam, o aspecto humano do cuidado, mantendo a empatia e o julgamento clínico dos profissionais de saúde como elementos centrais no atendimento ao paciente.
Considerações finais
Esta revisão destacou vários caminhos transversais e fatores contextuais que, provavelmente, moderaram os efeitos das intervenções de saúde digital na APS. Ao avaliar o papel das soluções digitais nos ambientes de APS, é importante considerar não apenas a funcionalidade técnica da tecnologia e as respostas comportamentais dos usuários finais, mas, também, as necessidades mais amplas do sistema de saúde e a prontidão do ecossistema digital, incluindo a capacidade disponível no nível da APS para acomodar a introdução de soluções digitais. Há uma necessidade de estruturas conceituais e/ou metodológicas para melhor entender, classificar e examinar os mecanismos associativos dos resultados da aplicação da IA na APS, e entender como vários fatores individuais, organizacionais, tecnológicos e de nível de sistema influenciam o desempenho das soluções clínicas no atendimento.
O atual corpo de evidências empíricas demonstra uma concordância entre as necessidades de pesquisa e prática. Por um lado, a pesquisa conceitual e metodológica de IA baseia-se em revolucionar os cuidados de saúde e estimula sua implementação na prática, mostrando a exequibilidade do processo. Por outro lado, o conhecimento empiricamente suportado atual deriva, principalmente, de implementações de sistemas de IA, no caso do Brasil e países concomitantes, com realidades distantes, por incentivo financeiro deficiente, com baixa autonomia de ação, somente tendo destaque lições sobre o processo de implementação que são típicas de implementações de outros tipos de sistemas de informação. Isso destaca a necessidade de pesquisas futuras avançarem em duas correntes principais: 1) estudar empiricamente os processos de implementação de vários tipos de sistemas de IA na prática de saúde; e 2) apoiar pesquisas empíricas e implementações práticas, desenvolvendo e disseminando uma estrutura de implementação específica de IA que leve em consideração alguns dos aspectos únicos relacionados à adoção da IA na área da saúde, como construir confiança, abordar questões de transparência, desenvolver soluções explicáveis e interpretáveis e abordar questões éticas em torno da privacidade e proteção de dados.
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Suporte financeiro:
não houve
Referências
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Editora responsável:
Jamilli Silva Santos





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