RESUMO
Este artigo avalia os efeitos de uma intervenção com vídeos fundamentados no Guia Alimentar e nos pressupostos do Letramento em Saúde sobre o status de peso e sobre os marcadores de consumo alimentar de pessoas com excesso de peso atendidas em Unidades de Atenção Primária à Saúde (Uaps). Trata-se de um estudo realizado no período de setembro de 2022 a março de 2023, e a intervenção ocorreu em Uaps na cidade de Fortaleza. O Grupo Controle incluiu 159 pessoas, e o Grupo Intervenção, 160. Os vídeos foram utilizados como ferramenta educativa no grupo intervenção, que recebeu contato telefônico quinzenal do profissional de saúde e teve acesso aos vídeos produzidos. Após as análises observou-se que, com relação ao nível de Letramento em Saúde, ambos os grupos apresentaram valores baixos, com limitações nos quesitos ‘compreensão’, ‘disponibilidade’ de apoio por parte de profissionais da saúde, de informações suficientes para cuidar da saúde, de contar com cuidado ativo da saúde, e de conseguir navegar no Sistema de Saúde. Infere-se que a intervenção não favoreceu a perda de peso, mas promoveu a redução do número de pessoas que realizam suas refeições em frente a telas, no número daquelas que realizam apenas duas refeições por dia, e daquelas que consumiram bebidas adoçadas no dia anterior.
PALAVRAS-CHAVE
Filme e vídeo educativo; Programas de redução de peso; Letramento para a saúde; Intervenção educacional precoce; Ingestão alimentar.
ABSTRACT
This article evaluates the effects of an intervention using videos based on the Dietary Guidelines and Health Literacy principles on the weight status and food consumption markers of overweight individuals attending Primary Health Care Units (PHCU). The study was conducted from September 2022 to March 2023, with the intervention taking place in PHCU in Fortaleza. The Control Group included 159 people, and the Intervention Group included 160. The videos served as an educational tool for the intervention group, which also received bi-weekly telephone contact from a health professional and access to the produced videos. Analysis showed that both groups had low levels of Health Literacy, with limitations in ‘understanding’, ‘availability’ of support from health professionals, sufficient information to care for their health, access to active health care, and the ability to navigate the Health System. The intervention did not promote weight loss but did reduce the number of people who ate meals in front of screens, those who ate only two meals a day, and those who consumed sweetened beverages the previous day.
KEYWORDS
Instructional film and video; Weight reduction programs; Health literacy; Early intervention; educational; Eating.
Introdução
Nos anos recentes, a prevalência de obesidade adquiriu proporções pandêmicas, variando, em todo o mundo, de 3,7% a 38,2%1. No Brasil, de acordo com o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), de 2023, a prevalência de obesidade entre adultos variou entre 17,7% e 30,4%, dependendo da cidade avaliada2.
Paralelamente, os estudos apontam sucessivos fracassos de estratégias tradicionais de combate à obesidade focadas apenas no balanço energético, com resultados insatisfatórios e não sustentados a médio e longo prazos. Essa constatação demanda uma abordagem mais holística e intersetorial, contemplando outras áreas de enfrentamento, como rotulagem dos alimentos, medidas fiscalizatórias e ações de educação em saúde3-8.
Uma abordagem indireta da obesidade é a orientação para a utilização de guias alimentares, que, assim como outras medidas de combate à obesidade, promovem uma alimentação adequada e saudável, com potencial de agir na prevenção do ganho excessivo de peso e/ou na perda de peso9. No caso do Brasil, dispomos do ‘Guia Alimentar para a População Brasileira’10,11.
No entanto, este guia é um recurso de difícil leitura e consequente compreensão, o que pode limitar seu alcance junto à população a que se destina. Daí decorre a importância da construção de materiais educativos fundamentados no Letramento em Saúde, uma vez que tendem a ser mais frutíferos em seus objetivos, por utilizarem linguagem simples e se adequarem ao contexto social e de saúde das pessoas12,13.
Assim sendo, urge rever as práticas educativas para controle de peso, tendo em vista as diversas estratégias frustradas no objetivo específico de reduzir o avanço da obesidade no Brasil, como as políticas intersetoriais, a saber: Promoção da Alimentação Adequada e Saudável (PAAS); incentivo à atividade física, por meio de programas como o Saúde na Escola (PSE) e Academia da Saúde; a própria implementação do Guia Alimentar; e o Apoio à Agricultura Familiar (Programa de Aquisição de Alimentos - PAA, Cozinha Solidária). Portanto, o objetivo deste trabalho é avaliar os efeitos de uma intervenção realizada a partir de vídeos fundamentados no Guia Alimentar e nos pressupostos do Letramento em Saúde, que permitiu registrar dados sobre o status de peso e sobre os marcadores de consumo alimentar de pessoas com excesso de peso que frequentaram unidades de atenção básica.
Material e métodos
Trata-se de um estudo realizado no período de setembro de 2022 a março de 2023. A intervenção ocorreu em Unidades de Atenção Primária à Saúde (Uaps) ligadas à prefeitura da cidade de Fortaleza. Foram selecionadas 12 Uaps - duas em cada uma das seis Regionais de Fortaleza, uma para o Grupo Controle e uma para o Grupo Intervenção. Embora haja atualmente uma divisão setorial do município em 12 regionais, a estrutura física das Secretarias Regionais à época da pesquisa ainda era de seis, e por esse motivo foi a distribuição adotada para seleção das unidades.
As unidades foram indicadas pela Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza. Os critérios de escolha foram o fato de serem unidades abertas à colaboração em pesquisas científicas e de não disporem de profissionais da área da Nutrição em seu quadro de lotação. A ausência dessa especialidade profissional foi necessária para evitar viés na etapa de intervenção.
Para determinação da amostra, foi utilizada a estratégia de Amostragem por Conveniência, incluindo todos os pacientes portadores de obesidade que compareceram às Unidades de Saúde participantes da pesquisa no período da intervenção, desde que atendessem aos critérios de inclusão e aceitassem participar do estudo.
Foram critérios de inclusão: adultos (20-59 anos); estar com sobrepeso ou obesidade grau I; e possuir telefone celular com acesso à internet. Foram critérios de exclusão: portadores de condições mórbidas que pudessem estar relacionadas ao peso, e condições que comprometessem a mobilidade; estar em tratamento com medicamentos que levassem à oscilação ponderal, como antidepressivos, antipsicóticos, corticoides, entre outros; e mulheres gestantes e nutrizes. A opção pela inclusão de obesidade leve (Grau I), e não a moderada e grave, se deu pela necessidade de conferir maior homogeneidade à amostra.
Uma vez selecionados os participantes, deu-se a alocação no grupo de intervenção ou controle, dependendo da Uaps em que foram captados e acompanhados, de forma que não houvesse interação entre os participantes dos grupos. O Grupo Controle incluiu 159 pessoas, e o Grupo Intervenção, 160.
Na primeira consulta de ambos os grupos, definida como sendo a Linha de Base da intervenção, os participantes tiveram peso e altura aferidos, e responderam aos seguintes instrumentos: 1. Questionário de Linha de Base, com dados de identificação, socioeconômicos e de conhecimento do ‘Guia Alimentar para a População Brasileira’; 2. Questionário para avaliação do Letramento em Saúde, tendo sido utilizado o Health Literacy Questionnaire, em sua versão validada para o Brasil (HLQ-Br)14; 3. Questionário de marcadores de consumo alimentar do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan).
No período de espera para o atendimento, os participantes foram entrevistados por estudantes de Iniciação Científica vinculados ao projeto, previamente treinados, e preencheram os instrumentos de próprio punho, sob a supervisão de um(a) nutricionista. O tempo de entrevista foi em torno de uma hora e trinta minutos.
Ainda na primeira consulta, além de responder aos questionários, os pacientes foram orientados quanto à alimentação a ser seguida. O Grupo Controle recebeu orientações de acordo com o protocolo das Uaps; o Grupo Intervenção recebeu orientações de acordo com o ‘Guia Alimentar para a População Brasileira’, na forma dos vídeos já validados15.
Após a primeira consulta, o Grupo Intervenção recebeu contato telefônico quinzenal do profissional de saúde por meio de mensagem de texto ou Whatsapp, e ao longo de quatro semanas, foram disponibilizados os vídeos16, como discriminado a seguir: Semana 1. Vídeo 1 (O que é um peso saudável) e Vídeo 2 (Como meu peso pode proteger minha saúde); Semana 2, Vídeo 3 (Conhecendo e selecionando alimentos quanto ao grau de processamento), Vídeo 4 (4 Recomendações para você não esquecer); e Vídeo 5 (Uma Regra de Ouro pode ajudar você a ter uma alimentação saudável); Semana 3, Vídeo 6 (Como eu vou combinar os alimentos); Vídeo 7 (Comer não é só engolir os alimentos); e Vídeo 8 (São só 10 passos para ter uma alimentação saudável); Semana 4, Vídeo 9 (Como eu posso ter uma dieta saudável e perder peso); Vídeo 10 (Dicas para o planejamento da alimentação do dia a dia).
Após um mês, tanto os participantes do Grupo Controle como os do Grupo Intervenção foram avaliados por meio dos marcadores de consumo alimentar do Sisvan, e o peso foi novamente aferido, utilizando a mesma balança da primeira pesagem. Estas variáveis foram avaliadas e comparadas quanto a mudanças ocorridas no período.
Para análise e tratamento dos dados, utilizaram-se o programa Microsoft Office Excel®, versão 13.0, e o programa estatístico Statistical Package for Social Sciences (SPSS), versão 23.0. Na análise descritiva utilizaram-se as frequências absolutas e percentuais. Na análise inferencial, foram verificadas as associações por meio do teste Qui-quadrado de Pearson17. Para a comparação de médias, após análise de normalidade de distribuição dos dados por meio do teste de Kolmogorov-Smirnov18, utilizou-se o teste t de Student19. Para todas as análises, o nível de significância adotado foi de 5% (p<0,05)
Este projeto está inserido em uma pesquisa guarda-chuva intitulada ‘Plano Conecta Saúde: aliando inovação tecnológica e Letramento em Saúde na luta contra as doenças crônicas não-transmissíveis’ aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Estadual do Ceará, sob Parecer número 3.795.260.
Resultados
Participaram da pesquisa 319 pessoas, das quais 160 fizeram parte do Grupo Intervenção e 159 do Grupo Controle.
Em relação às características socioeconômico-demográficas, o Grupo Intervenção foi composto, em sua maioria, por mulheres não casadas, com idade entre 30 e 49 anos. Nesse grupo, a maioria dos participantes tinha escolaridade acima de nove anos de estudo, tinha emprego, com renda familiar entre um e três salários mínimos, e identificou-se como de cor parda, conforme dados apresentados na tabela 1.
Dados socioeconômico-demográficos dos usuários com excesso de peso atendidos nas unidades de atenção primária. Fortaleza, Ceará, Brasil, 2023
Letramento em Saúde de dos usuários com excesso de peso atendidos nas unidades de atenção primária. Fortaleza, Ceará, Brasil, 2023
O Grupo Controle apresentou características semelhantes às do Grupo Intervenção, exceto por ter, em sua maioria, pessoas desempregadas e com renda familiar inferior a um salário mínimo. Em relação à escolaridade, a maioria dos participantes do Grupo Controle também tinha mais de nove anos de estudo. No entanto, em comparação com o Grupo Controle, o número de pessoas com escolaridade abaixo de oito anos era duas vezes maior neste grupo em comparação com o Grupo Intervenção.
Com relação ao nível de Letramento em Saúde, ambos os grupos apresentaram valores baixos, com limitações nos quesitos ‘compreensão’, ‘disponibilidade’ de apoio por parte de profissionais da saúde, de informações suficientes para cuidar da saúde, de contar com cuidado ativo da saúde, e de conseguir navegar no sistema de saúde. Em contrapartida, apresentaram potencialidades em relação a ter a capacidade de interagir ativamente com os profissionais da saúde, e a encontrar boas informações sobre saúde, compreender as informações sobre saúde e saber o que fazer com elas, uma vez que as médias de ambos os grupos ficaram acima de 3. Ou seja, de maneira geral, o perfil em relação ao nível de letramento é muito semelhante entre os dois grupos, tendendo para baixo.
No entanto, vale ressaltar que, embora a média dos dois grupos tenha sido baixa, o Grupo Controle apresentou médias estatisticamente ainda mais baixas do que as do Grupo Intervenção nas dimensões ‘Compreensão e apoio dos profissionais de saúde’, ‘Avaliação das informações em saúde’, ‘Capacidade de interagir ativamente com os profissionais de saúde’ e ‘Compreender as informações sobre saúde e saber o que fazer’, o que retrata um nível de letramento ainda mais baixo nessas dimensões.
Quanto ao conhecimento sobre o Guia Alimentar, a tabela 3 demonstra que, em ambos os grupos, a maioria relatou não ter ouvido falar nesse Guia, embora afirme já ter ouvido falar de alimentos naturais, processados e ultraprocessados. Por outro lado, no que diz respeito aos processados, o número de pessoas que não tinham sequer ouvido falar sobre eles foi significativamente maior no Grupo Controle.
Conhecimento do Guia Alimentar e marcadores de consumo alimentar (Sisvan) dos usuários com excesso de peso atendidos nas unidades de atenção primária. Fortaleza, Ceará, Brasil, 2023
Quanto aos marcadores do consumo alimentar, os grupos de intervenção e controle foram semelhantes, como descrito na tabela 3. No início da pesquisa, em ambos os grupos a maioria dos participantes afirmou realizar as refeições diante de telas, consumir entre três e cinco refeições por dia, e ter consumido no dia anterior bebidas adoçadas, frutas, feijão e verduras/legumes - embora a proporção em relação a este último grupo de alimentos os resultados tenham sido equiparáveis entre os dois grupos.
Em contrapartida, a maioria relatou não ter consumido biscoitos, doces ou guloseimas; macarrão instantâneo, salgadinhos de pacote ou biscoitos salgados; hambúrguer e/ou embutidos.
Em relação aos dados antropométricos, o Peso Inicial Médio (PIM) do Grupo Intervenção foi 70,79 kg (±9,53), enquanto o Índice de Massa Corporal (IMC) foi 28,48 kg/m2 (±2,03). Por outro lado, os dados do Grupo Controle foram: PIM de 72,85 kg (±8,54) e IMC de 29,88 kg/m2 (±2,38). Não houve diferença estatisticamente significativa na comparação entre os pesos (p=0,137) de ambos os grupos na fase inicial. O IMC foi um pouco mais alto no Grupo Controle, porém sem diferença na categoria de estado nutricional (sobrepeso).
Após intervenção de 30 dias, não houve diferença significativa na comparação entre os grupos em relação a dados antropométricos, como mostram os dados apresentados na tabela 4, que, portanto, não foi verificada redução de peso ou de IMC no Grupo Intervenção.
Comparação de peso e Índice de Massa Corporal (IMC) do Grupo Controle e grupos de intervenção após 30 dias de acompanhamento. Fortaleza, Ceará, Brasil, 2023
Vale ressaltar, porém, que não foi possível coletar o peso após 30 dias de todos os participantes, uma vez que muitos deles tiveram o acompanhamento de forma remota. Assim sendo, essa comparação entre os pesos incluiu 66 integrantes do Grupo Intervenção e 54 do Grupo Controle. Em relação aos dados dos marcadores de consumo alimentar, foi possível coletar dados de 75 participantes do Grupo Intervenção e de 75 do Grupo Controle.
Quanto aos dados de comparação dos marcadores de consumo alimentar após 30 dias, observou-se que, no Grupo Intervenção, a proporção de pessoas que realizam suas refeições expostas às telas caiu de 71,25% para 45,33% (p<0,001). Houve redução também no número de pessoas que realizam até duas refeições ao dia, reduzindo - queda de 10,63% para 2,67%, assim como na proporção daquelas que realizam 6 refeições por dia - de 10% para 5,3% (p=0,043). Por fim, houve redução da proporção de pessoas que relataram ter consumido bebidas adoçadas no dia anterior - de 58,75% para 41,33% (p=0,013), como mostra a tabela 5.
Comparação entre os marcadores do consumo alimentar do grupo controle e grupos de intervenção após 30 dias de acompanhamento. Fortaleza, Ceará, Brasil, 2023
Em relação aos demais marcadores, não houve alteração estatisticamente significativa, assim como não houve modificações em nenhum marcador do grupo não submetido aos vídeos.
Discussão
O perfil socioeconômico e demográfico do público desta pesquisa é semelhante ao perfil de pacientes atendidos na Atenção Primária à Saúde (APS) na região Nordeste, conforme os dados apresentados por Guibu e colaboradores (2017) - ou seja, maioria composta por mulheres, não casadas, auto-identificadas como de cor parda, com escolaridade até o Ensino Fundamental, e pertencentes a classes sociais D e E20.
Uma análise um pouco mais recente (2020) do perfil de pacientes com obesidade atendidos na APS de Chapecó, Santa Catarina, constatou que a maioria também era do sexo feminino e que 50% do grupo tinha escolaridade até o Ensino Médio21. Ou seja, embora o Grupo Intervenção apresentasse níveis de renda e escolaridade um pouco melhores que o do Grupo Controle, ambos ainda permanecem com um perfil semelhante ao do público atendido na região Nordeste e em outras partes do Brasil.
Vale lembrar que as unidades que compuseram cada grupo foram selecionadas de forma aleatória, sendo moradores dos mesmos bairros, o que permitiu características socioeconômicas semelhantes entre elas. E, assim sendo, as diferenças de renda e de escolaridade entre os grupos não eram achados esperados.
Quanto à análise do nível de letramento, alguns autores já se propuseram a avaliar o nível dos usuários da APS com os mais diversos instrumentos. De maneira geral, o primeiro resultado sugere que o nível de letramento é baixo e está relacionado à baixa escolaridade e baixa renda22,23. Embora a verificação da associação entre essas variáveis não tenha sido efetuada, foi possível constatar dificuldades em algumas dimensões do Letramento em Saúde. O pior desempenho do Grupo Controle, verificado em três dimensões do Letramento em Saúde, também se deve ao acaso, uma vez que a seleção das Unidades de Saúde foi feita de maneira aleatória.
Especificamente quanto a possuir informações suficientes para cuidar da saúde, ambos os grupos obtiveram pontuações baixas, o que se infere da afirmação de mais de 80% dos participantes dos dois grupos de que não tinham sequer ouvido falar sobre o Guia Alimentar. Considerando que são pacientes já em atendimento nas Uaps, o fato de não terem conhecimento dessa ferramenta de orientação de alimentação saudável aponta para uma questão importante nesse nível de atenção: o desconhecimento ou despreparo dos profissionais para utilizar essa ferramenta. Este estudo mostra que, com exceção do/da profissional nutricionista, o conhecimento e a eficácia para aplicar o Guia Alimentar foram relativamente baixos entre os demais profissionais que atuam na atenção primária24. O fato de o atendimento por nutricionistas nas unidades ainda ser insuficiente - em algumas delas essa especialidade sequer existe - favorece o desconhecimento desse instrumento por parte da população em geral25. Por outro lado, mesmo desconhecendo o Guia, a maioria relatou já ter ouvido falar em alimentos naturais, processados e ultraprocessados.
Quanto aos marcadores de consumo alimentar do Sisvan - ferramenta de rastreio rápido do consumo de alimentos in natura e ultraprocessados no dia anterior -, não havia na linha de base da pesquisa diferença entre os dois grupos pesquisados, tendo havido relatos de consumo de alimentos naturais, mas também de bebidas açucaradas, além do hábito de realizar refeições em frente a telas.
Após os 30 dias, o Grupo Intervenção registrou redução significativa do número de pessoas que realizam refeições em frente a telas, redução do número de pessoas que realizam apenas duas refeições por dia, e redução no número de pessoas que no dia anterior haviam consumido bebidas adoçadas.
Especificamente quanto ao consumo em frente a telas, já é fato conhecido que se trata de um hábito associado à pior qualidade da alimentação, a um consumo exagerado de alimentos, a um consumo calórico aumentado, e à redução de consumo de alimentos saudáveis26.
De forma semelhante, o consumo de bebidas adoçadas, que é uma fonte líquida de adição de açúcares na dieta, está associado a uma potencial desregulação hormonal, à resistência à insulina, à dislipidemia e à obesidade. Além desses prejuízos, esse hábito leva também a uma pior qualidade da dieta, a maior consumo de alimentos com alta densidade energética, e a ingestão insuficiente de várias vitaminas e minerais. E esse hábito está relacionado também a comportamentos obesogênicos, tal como comer em frente à televisão27.
Apesar de não ter sido constatada mudança de peso antes e após a intervenção, provavelmente em decorrência do pouco tempo de acompanhamento, essas mudanças de comportamento poderão levar, no longo prazo, à redução de peso e mudança de estado nutricional.
Embora seja o parâmetro utilizado, o peso, por si só, é insuficiente para avaliar eventual sucesso das intervenções, uma vez que a etiologia da obesidade é complexa e multifatorial, resultando da interação de genes, ambiente, estilos de vida e fatores emocionais, dietas restritivas que favorecem perda de peso rápida favorecem também o reganho a longo prazo. Mudanças comportamentais parecem ser mais efetivas28,29.
Por outro lado, no Grupo Controle não houve qualquer modificação comportamental ou relativa à antropometria. Esse dado também é relevante, pois, além de indicar um resultado positivo da intervenção, ainda que discreto, aponta também para uma baixa efetividade das ações realizadas na APS no combate à obesidade.
O manejo da obesidade nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) brasileiras suscita preocupações legítimas, uma vez que ainda há muitas unidades sem a adequada estrutura física para o cuidado da obesidade, carecendo inclusive de balanças com capacidade de até 200 kg, baixa frequência de equipes estendidas e pouca capacitação para um processo de trabalho adequado da equipe, além de ausência de salas para atividades coletivas e de registros dos usuários com obesidade resultam na precariedade do cuidado com a obesidade na APS do Brasil, com disparidades significativas entre regiões29,30.
Esse cenário de precariedade esteve presente nos dois grupos analisados, uma vez que tanto o Grupo Intervenção como o Grupo Controle foram acompanhados em Uaps, o que ressalta a vantagem de utilizar uma abordagem adequada no nível de letramento da população, mesmo diante de um cenário desfavorável.
Uma revisão sistemática das intervenções educativas baseadas no Letramento em Saúde, realizada em países de baixa a média renda, mostrou que, quando fundamentadas no Letramento em Saúde, as intervenções são mais assertivas na prevenção de doenças crônicas não transmissíveis. Uma vez que envolve medidas facilmente aplicáveis, mesmo em situações de restrições específicas de recursos em cada cenário específico, e independentemente do tempo de acompanhamento12, os benefícios da educação em saúde2 são sustentados mesmo nas situações sociais mais adversas, podendo ser implementados com eficácia em diversos contextos sociais e em vários tipos de populações.
No caso desta pesquisa, os vídeos, enquanto tecnologia leve, de baixo custo e facilmente propagáveis, foram disponibilizados via plataforma gratuita, e estão disponíveis através do link disponível no final deste artigo, podendo ser facilmente acessados e utilizados na rotina de trabalho dos profissionais nesse nível de atenção, a fim de que outros resultados positivos possam advir da utilização desse material. Vale ressaltar que a adoção de uma alimentação saudável é indicada em outros quadros de doenças crônicas além da obesidade em si31.
Especificamente em relação a esta pesquisa, ocorreu uma perda de dados de comparação devido ao baixo retorno dos pacientes ao segundo encontro, por receio de exposição ainda decorrente da pandemia de covid-19, cujo fim foi decretado somente em maio de 202332. Embora não tenha sido prevista inicialmente, essa redução não foi inesperada diante do cenário instalado, uma vez que houve diminuição de procedimentos de saúde e consultas médicas na APS após o início da pandemia de covid-1933. Uma vez que era possível coletar os dados do Sisvan por telefone, o número de informações coletadas após 30 dias foi um pouco maior que o quantitativo de medidas antropométricas.
Mesmo com essa limitação, o estudo mostrou que ações educativas fundamentadas no Letramento em Saúde, ainda que com pouco período de acompanhamento, apresentam resultados positivos nas mudanças de comportamento alimentar.
É importante ressaltar que outra limitação é a pequena, porém existente, diferença na escolaridade, e no nível de letramento entre os grupos comparados. Embora não intencional, uma vez que a seleção dos participantes se deu por conveniência, seria possível questionar se o resultado positivo não teria decorrido se houvesse um melhor nível de compreensão das informações transmitidas. No entanto, o desempenho geral de todos os participantes do estudo, independentemente do grupo, evidenciou mais limitações que potencialidades para o Letramento em Saúde.
Conclusões
A intervenção a partir de vídeos fundamentados no Guia Alimentar e nos pressupostos do Letramento em Saúde sobre o peso e sobre os marcadores de consumo alimentar de pessoas com excesso de peso atendidas na atenção básica não favoreceu a perda de peso, mas promoveu redução significativa no número de pessoas que realizam suas refeições diante de telas, redução no número de pessoas que realizam apenas duas refeições por dia, e redução no número de pessoas que consumiram bebidas adoçadas no dia anterior.
Sugere-se uma intervenção por um período maior de tempo, a fim de verificar mudanças adicionais.
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Suporte financeiro:
Chamada CNPq/MS/SAPS/DEPROS Nº 27/2020 - Pesquisa em Doenças Crônicas Não Transmissíveis e Fatores de Risco Associados - ‘Programa Meu NutriGuia: Letramento e Inovação em Saúde na promoção da adesão ao Guia Alimentar para a População Brasileira como estratégia de combate à obesidade’
Disponibilidade de dados:
os dados de pesquisa estão contidos no próprio manuscrito
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Editora responsável:
Camila Elizandra Rossi, Universidade Federal da Fronteira Sul (UFSS), Realeza (Paraná/PR), Brasil. Lattes: http://lattes.cnpq.br/4570265927067952, Orcid: https://orcid.org/0000-0003-0925-0703, e-mail: camilarossi@uffs.edu.br
