A pandemia global do COVID-19 impactou o mundo em diferentes aspectos, incluindo-se aí a forma com a qual nos relacionamos com o conhecimento científico especializado. Como indicam Grossi, Toniol, Lozano (2020), no atual cenário tem havido uma ambiguidade na forma com a qual a ciência vem sendo tratada, uma vez que “Por um lado, espera-se de pesquisadores a solução para conter o avanço da doença e também os seus efeitos epidêmicos e sociais. Por outro, vivemos em meio a uma forte onda anti-intelectualista, que coloca universidades e centros de pesquisa no meio de polêmicas fantasiosas e desidrata o financiamento de pesquisas.” (Ibidem, p. 2). Esta ambiguidade é reforçada por um forte negacionismo científico (Caponi, 2020), que inclui tanto as ciências naturais quanto as ciências humanas e sociais. Com efeito, tanto nos países centrais quanto nos periféricos, aparentemente o tradicional consenso que tem se afirmado desde meados do século XX, segundo o qual, a ciência era concebida como um alicerce fundamental do progresso e do desenvolvimento das sociedades, tem se erodido (Piovani, 2019). Nesse processo, o termo “experto” passou de um adjetivo positivo e distintivo a, por vezes, representar quase uma denominação pejorativa (Eyal, 2019).
Este contexto, no qual os argumentos científicos baseados em evidências são questionados ante ao apelo emocional, tem sido marcado pelo que alguns pesquisadores denominam de era da pós-verdade. Como bem evidencia McIntyre (2018), o “pós” presente nesse termo refere-se à perda de relevância da verdade na arena pública, e não a um sentido temporal. Ainda segundo McIntyre (2018), pós-verdade seria uma afirmação de supremacia ideológica pela qual seus praticantes tentam obrigar alguém a acreditar em algo, independentemente das evidências; ou também baseados em evidências alternativas alimentadas por teorias conspirativas segundo as quais o sistema científico seria um dos principais cúmplices na difusão de ideais para controlar os indivíduos e as sociedades.
A eleição de Donald Trump nos Estados Unidos em 2016, assim como o Brexit na Europa no mesmo ano, demonstraram a força da pós-verdade na arena pública e sua capacidade de decidir os rumos políticos e sociais do mundo contemporâneo (Peters, 2017; Mast, Alexander, 2019), o que tem impactado diretamente nas análises realizadas pelas ciências sociais (Lockie, 2016). No Brasil, a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 também mostrou a força das fake news (Araújo, Klem, Pereira, 2020), demarcando a ascensão do populismo digital, que vem se articulando principalmente a partir de significantes vazios a partir dos quais vai se elaborando uma base discursiva própria (Cesarino, 2019). A polarização política que avança em diversas latitudes vai de mãos dadas com a politização da ciência e consequentemente seu descrédito diante de grandes partes da população. As recentes eleições no parlamento europeu, ainda em 2024, apontaram para o fato de que esses movimentos não perderam força, e continuam ativos.
Neste ambiente, o anti-intelectualismo e o questionamento dos expertos é parte fundamental do regimente da pós-verdade (Block, 2018). Sendo assim, encontramo-nos diante de um cenário bastante desafiador e paradigmático para as ciências sociais, pois, por um lado temos uma crescente profissionalização dessas ciências; e, por outro, tem ocorrido um forte questionamento na arena pública sobre o lugar das explicações das ciências sociais para a realidade empírica (Lahire, 2016). Esse fenômeno tem se acirrado em países como Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, Hungria, Polônia, Turquia etc., que tem experienciado uma forte ascensão de populismos autoritários. Essa mesma tendência é visível em outros países onde, como Argentina, partidos de centro-direita vem se aproximando desses discursos extremos para não perder eleitores cada vez mais seduzidos pelas ideias radicais e autoritárias. Nesse marco, não faltam as tentativas, por vezes organizadas nas redes por trols, que buscam desacreditar os cientistas sociais com base em agressivas campanhas de difamação pública.
Ainda que possamos observar um forte questionamento do conhecimento acadêmico e escolar de um modo geral, o que nos leva a crer que o suposto link entre educação, democracia e conhecimento parece estar quebrado (Wight, 2018), parece-nos evidente que as ciências sociais mostram-se especialmente sensíveis aos ataques que são elaborados neste contexto. Assim sendo, mostra-se como uma questão urgente para a comunidade de cientistas sociais refletir sobre o papel dessas ciências e dos próprios cientistas sociais na era da pós-verdade.
O primeiro trabalho que compõe nosso dossiê é o artigo intitulado “Post-truth, or Post-Academic?: The Transformation of Science and the Obsolescence of ‘Reality’” de Stephen Turner discute a transformação da ciência e a obsolescência da "realidade" no contexto da pós-verdade. Ele argumenta que a objetividade científica tem sido atacada como uma ideologia e que epistemologias alternativas têm revelado fatos que essa ideologia exclui. Turner aponta que o desacordo não é sobre os fatos em si, mas sobre a validação de diferentes pontos de vista. Ele também critica a ciência contemporânea por se focar em "conhecimento suficientemente confiável" em vez de uma compreensão abrangente da realidade, gerando uma forma de ciência propensa a erros e fraudes. No contexto sociológico, ele destaca que a sociologia sempre lidou com ideologias, mas sem afirmar qualquer uma delas, problematizando a própria ideologia. Turner conclui que a pós-verdade cria problemas artificiais para o conhecimento sociológico, desviando o foco das verdadeiras questões da variabilidade dos resultados sociológicos.
“La Sociología hostigada. ¿Por qué la extrema derecha la elige como enemigo público?” de María Soledad Segura, Javier Cristiano, Ezequiel Grisendi e Severino Fernández explora as razões pelas quais a sociologia é atacada pela extrema-direita no espaço público argentino, especialmente através da mídia e das redes sociais. A pesquisa recupera o contexto dos primeiros meses de 2023 e traça uma genealogia dos desafios enfrentados pela disciplina desde sua constituição. Os autores argumentam que a sociologia, como disciplina, possui características e promove intervenções sociais que se opõem aos programas da direita. Além disso, examinam a persistência dos ataques, muitas vezes justificados pela suposta natureza "marxista" da sociologia, e concluem que as qualidades epistêmicas e a eficácia social da disciplina em destacar desigualdades são as principais razões para esses ataques.
Dialogando com a Sociologia escolar, Amurabi Oliveira, Cristiano das Neves Bodart e Marcelo Pinheiro Cigales em “Como os livros didáticos de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas abordam as fake news? uma análise de coleções do PNLD 2021”, investigam a presença do tema “fake news” em livros didáticos de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas aprovados no PNLD 2021, focando nas coleções Multiversos e Moderna Plus. Utilizando uma abordagem exploratória descritiva e infométrica com o programa Voyant Tools, os autores analisam qualitativa e quantitativamente as ocorrências, contextos e correlações dos termos relacionados à temática. Os resultados mostram que o tema está presente em ambas as coleções, com uma forte correlação entre notícias e fake news, sendo mais próxima das áreas de Sociologia e Filosofia, mas com poucas menções à produção científica e abordagem conceitual, impactando o aprofundamento do tema no ensino médio brasileiro.
Por outro lado, o trabalho “La prescripción de antidepresivos en la infancia: De negacionismo, ignorancias y certidumbres estratégicas” de Sandra Caponi e Angel Martinez Hernáez, analisa a crescente intervenção de conhecimentos especializados na gestão do desenvolvimento infantil. As autoras criticam a crença de que os métodos das ciências naturais e biológicas são aplicáveis a todas as áreas do conhecimento, o que resulta na insegurança dos pais e professores, que delegam a educação infantil a profissionais como psiquiatras e neurologistas. A psiquiatria biológica, que afirma possuir critérios objetivos para diagnosticar e tratar distúrbios infantis, é questionada por sua fragilidade epistemológica e vínculos com o poder. O artigo destaca o aumento dos diagnósticos de depressão infantil e a prescrição de antidepressivos, exacerbados pela pandemia de Covid-19, que normalizou diagnósticos psiquiátricos e tratamentos farmacológicos. As autoras argumenta que a crítica à psiquiatria biológica não deve ser vista como negacionismo científico, mas como uma necessária contestação às práticas de medicalização da infância, que desconsideram contextos sociais e promovem intervenções baseadas em premissas questionáveis.
Por fim, Monika Sawicka em “Regional identities and roles of the state in populist rhetoric. The cases of Brazil and Poland”, investiga como os líderes populistas de direita do Brasil e da Polônia moldam suas políticas externas em relação às suas regiões. Tendo sido governados por figuras conservadoras e populistas, ambos os países adotaram uma retórica nacionalista que enfatiza a soberania nacional e critica o multilateralismo e as integrações regionais que percebem como ameaças à sua autonomia. Os políticos populistas tendem a retratar seus países como defensores dos interesses do "povo verdadeiro", frequentemente contrastando com elites globais e instituições internacionais. Apesar das semelhanças na retórica, há diferenças significativas baseadas na profundidade das identidades regionais de cada país: enquanto o Brasil, com uma identidade latino-americana mais tênue, dedica menos atenção às questões regionais em seus discursos, a Polônia, com uma identidade europeia mais arraigada, aborda mais frequentemente esses temas, ainda que de maneira mais moderada para não comprometer sua integração europeia.
Esperamos que esse conjunto de trabalhos possa fomentar novos debates, não apenas sobre o conceito de pós-verdade, mas principalmente sobre o lugar das ciências sociais nesta discussão.
Referências bibliográficas
- Block, D. (2018). Post-Truth and Political Discourse. London: Palgrave Macmillan.
- Caponi, S. N. C. (2020). Covid-19 no Brasil: entre o negacionismo e a razão neoliberal. Estudos Avançados , 34 (99), 209-223.
- Cesarino, L. (2019). Identidade e representação no bolsonarismo. Revista de Antropologia, 62 (3), 530-557.
- Eyal, G. (2019). The Crises of Expertise. Cambridge, UK: Polity Press.
- Grossi, M.; Toniol, R.; Lozano, M. L. (2020). Finalizando a primeira série do Boletim Cientistas Sociais e o Coronavírus: um balanço inicial. Boletim Cientistas Sociais, s/v, n. 86, p. 1-8.
- Lahire, B. (2016). Pour la sociologie: Et pour en finir avec une prétendue "culture de l'excuse". Paris: La Découverte.
- Lockie, S. (2016). Post-truth politics and the social sciences. Environmental Sociology, 3 (1), 1-5.
- Mast J., Alexander J. (eds). (2019). Politics of Meaning/Meaning of Politics. Cultural Sociology. Palgrave Macmillan: Cham.
- McIntyre, L. (2018). Post-Truth. Cambridge, MA: MIT Press.
- Piovani, Juan Ignacio (2019). Sobre la utilidad de las ciencias sociales en tiempos de neoliberalismo y posverdad. En F. Brugaleta, M. González Canosa, M. Starcenbaum & N. Welshinger (Eds.), La política científica en disputa: Diagnósticos y propuestas frente a su reorientación regresiva (pp. 115-133). La Plata: UNLP-CLACSO.
- Wight, C. (2018). Post-Truth, Postmodernism and Alternative Facts. New Perspectives Interdisciplinary Journal of Central & East European Politics and International Relations. 26 (3), 17-29.
