Resumo
O artigo abordou a presença do tema “fake news” em livros didáticos de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (CHSA) aprovados no PNLD 2021, com foco nas coleções mais presentes nas escolas públicas brasileiras: Multiversos e Moderna Plus. De forma exploratória, descritiva e infométrica, empregou-se o programa Voyant Tools para analisar qualitativa e quantitativamente o número de ocorrências, o contexto e as correlações entre os termos relacionados à temática. Os resultados revelaram que o tema está presente nas duas coleções, com forte correlação entre notícias e fake news. Houve uma proximidade da temática com as áreas de Sociologia e Filosofia, mas com raras menções à produção científica com uma abordagem conceitual, o que impactou no aprofundamento da temática no ensino médio brasileiro.
Palavras-chave:
fake news; livro didático; CHSA; PNLD 2021
Abstract
This article discusses the presence of fake news in Humanities and Applied Social Sciences (CHSA) textbooks approved in the PNLD-2021, with a focus on the most popular collections in Brazilian public schools, Multiversos and Moderna Plus. In an exploratory, descriptive and infometric approach, we used the Voyant Tools program to qualitatively and quantitatively analyze the number of occurrences, the context and the correlations between the terms related to the theme. The results show that the theme is present in both collections, with a strong correlation between news and fake news. There is a proximity of the theme to the areas of Sociology and Philosophy, but with rare mentions of scientific production with a conceptual approach, which has an effect on an in-depth understanding of the theme in Brazilian secondary education.
Keywords:
fake news; textbooks; CHSA; PNLD 2021
Introdução
A palavra “pós-verdade” tornou-se especialmente popular no ano de 2016, marcado a nível internacional pela eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, e pelo plebiscito a respeito do Brexit, no Reino Unido. Ambas as votações foram marcadas pela disseminação de fake news e pela sobreposição de opiniões sobre fatos. Dois anos depois, o mesmo fenômeno foi observado no Brasil nas eleições presidenciais de 2018, que resultaram na eleição de Jair Bolsonaro.
Uma primeira abordagem para contextualizar esse debate é traduzir fake news não como “notícias falsas”, mas como “notícias fraudulentas”, na medida em que há uma intencionalidade de distorcer uma realidade conhecida, levando propositalmente a um equívoco sobre determinados fatos. Essa distinção é relevante quando situamos essa discussão no contexto da chamada “pós-verdade”4, que em uma definição simples remete a um período no qual as opiniões subjetivas passam a importar mais do que os fatos em si (Mcintyre, 2018). Certamente, essa definição inicial é apenas um ponto de partida, uma vez que as opiniões pessoais sempre tiveram sua importância na análise do mundo. No entanto, novos elementos têm surgido para debate, especialmente com o advento e a popularização das mídias sociais.
Miskolci (2021) destaca a rápida popularização das mídias sociais a partir dos anos 2010 e ressalta como os movimentos de direita souberam aproveitar esse fenômeno de forma assertiva e recursiva. No contexto brasileiro, esse processo ganhou notoriedade principalmente após as manifestações de junho de 2013, marcando um ponto de inflexão significativo para a compreensão da sucessão de eventos que moldaram o debate público na sociedade brasileira nos anos subsequentes.
Podemos argumentar que ocorreram dois fenômenos que, embora analiticamente separáveis, estão empiricamente interligados: a ascensão de movimentos populistas conservadores no Brasil e a massificação do uso das mídias sociais. Aplicativos de trocas de mensagens como o WhatsApp ou o Telegram se tornaram importantes meios de difusão de fake news e foram ostensivamente utilizados por candidatos a cargos eletivos. No caso de Jair Bolsonaro isso se tornou ainda mais significativo. É importante mencionar que parte das teorias difundidas por meio desses aplicativos baseava-se no questionamento da mídia mainstream, de modo que as informações divulgadas por meios alternativos eram tidas como legítimas fontes de informação, mesmo que não fossem verificadas e, portanto, estivessem suscetíveis à falseação com relação ao cenário próprio do bolsonarismo. Cesarino (2019, p. 539) realiza a seguinte observação:
A aliança recente entre neoliberais e conservadores no Brasil espelha essa tendência global. Alguns autores têm destacado a emergência de uma versão brasileira da “guerra cultural” entre liberais e conservadores no cenário político recente (Gallego, Ortellado e Ribeiro, 2017), que teve continuidade e um lugar central na campanha que elegeu Jair Bolsonaro. Embora eu concorde com esse diagnóstico, a separação aparentemente nítida entre um plano da redistribuição (“liberal na economia”) e outro do reconhecimento (“conservador nos costumes’” me parece enganadora. Longe de se resumir a uma guerra cultural no campo políticas de identidade, o bolsonarismo tem como pilar constitutivo um eixo neoliberal que é normalmente obscurecido pelo eixo populista-conservador: nos termos de Fraser (1997), ele seria propriamente bivalente.
As mensagens difundidas pelos apoiadores da campanha de Jair Bolsonaro se retroalimentavam, pois, ao mesmo tempo em que difundiam notícias fraudulentas, também descredibilizavam outras fontes de informações. Concomitante a isso, a lógica dos algoritmos das redes sociais tende a reforçar a própria visão de mundo desses sujeitos, na medida em que continuamente disponibiliza para eles conteúdos digitais que confluem com suas opiniões (Miskolci, 2021).
Notadamente, como bem elucidam Levitsky e Ziblatt (2018), a crise da democracia contemporânea vincula-se à ascensão de líderes populistas (de direita e esquerda), cujo discurso recorrentemente se assenta em ideias ultranacionalistas e que propagam teorias da conspiração, nas quais, amiúde, há um complô da elite contra o povo, o que também incluiria a “mídia tradicional”.
Em um esforço para tentar captar qual seria a visão de mundo presente em tais movimentos, Messenberg (2015) aponta a existência de determinados campos semânticos a partir dos quais se desdobram certas ideias-forças. A autora identifica principalmente três campos semânticos entre lideranças dessa nova direita conservadora no Brasil: a) o antipetismo; b) o conservadorismo moral; c) os princípios neoliberais. É possível inferir que em um movimento duplo esses campos semânticos alimentam e se alimentam da difusão de notícias fraudulentas (mas não exclusivamente), sedimentando uma visão de mundo e um universo de práticas.
Interessa-nos aqui destacar o papel das notícias fraudulentas na transformação do cenário político mundial, e brasileiro em particular, enfatizando como elas moldaram aspectos significativos da sociedade brasileira. Em que pese a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro em 2022 para o cargo de presidente, é importante mencionar que o bolsonarismo não desapareceu da arena pública, pelo contrário, continua sendo uma importante força política, inclusive com significativas vitórias no pleito de 2022, além do fato de que o Partido Liberal (PL), ao qual Bolsonaro está filiado, tornou-se a maior bancada do Congresso Nacional.
Ainda que estejamos focados na realidade brasileira, importa reforçar como esse é um fenômeno global e que impacta todo o campo educacional, porém com uma especial ênfase no ensino das Ciências Humanas e Sociais. Evans (2022), por exemplo, analisa o caso do debate em torno da Teoria Crítica da Raça (TCR) nos estudos sociais nos Estados Unidos durante o governo de Donald Trump, algo que ainda fomenta profundos debates naquele país. Em janeiro de 2024, também nos Estados Unidos, o governador da Flórida, Ron DeSantis, aprovou a exclusão da Sociologia dos currículos das universidades estaduais, substituindo-a por História dos Estados Unidos, o que faria parte do combate à “ideologia woke”5.
Nesse contexto, estratégias para combater as notícias fraudulentas têm sido discutidas. Acredita-se que o ambiente escolar pode desempenhar um papel crucial na conscientização dos jovens sobre a produção e a disseminação de mensagens fraudulentas. Isso pode ser alcançado com eficácia por meio de conteúdos educacionais, especialmente nas disciplinas das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (CHSA), que incluem a Sociologia. Considerando que o material didático, em particular os livros didáticos, desempenha um papel central no currículo escolar e nas práticas de ensino, parte-se do pressuposto de que a abordagem desse tema nesses materiais contribui para mitigar os impactos das notícias fraudulentas na sociedade.
Dado esse cenário, buscamos neste artigo problematizar a relação entre o conhecimento escolar, a temática das fake news e a agenda do Estado para a educação, uma vez que é o Estado que regulamenta, a partir de edital público, a avaliação, a compra e a distribuição dos livros didáticos que chegam às escolas públicas brasileiras. Nossa hipótese é de que a temática das fake news, se posta nos livros didáticos a partir da Reforma do Ensino Médio (2017)6, seria problematizada nas disciplinas de Sociologia, Filosofia, Geografia e História, componentes que integram a área das CHSA. Por esse motivo, voltamos para os livros didáticos de CHSA, mais especificamente para as duas coleções mais distribuídas em 2022 nas escolas brasileiras: Multiversos Ciências Humanas (Boulos Jr.; Adão; Furquim Jr., 2021), publicada pela editora FTDA S.A., e Moderna Plus - Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (Silva et al., 2021), da Editora Moderna LTDA.
Para operacionalização das análises exploratórias, descritivas, infométricas e de conteúdo, definimos nossa amostra nas duas coleções contempladas pelo Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD)7 de 2021 com maior número de distribuição entre as escolas públicas brasileiras de ensino médio. Nesse sentido, buscamos responder à seguinte questão: o tema fake news tem sido tratado nos livros didáticos da área de CHSA? Em caso afirmativo, como tem sido esse tratamento?
Conseguinte, além desta introdução, o artigo divide-se em mais três seções. A seguir, aprofundamos o debate entre pós-verdade e educação, para em seguida apresentar a metodologia, os dados e a análise a respeito da presença das fake news nos livros didáticos da área de CHSA. Por fim, tecemos algumas considerações finais, nas quais destacamos os principais resultados encontrados no estudo, apontando caminhos de pesquisa sobre os livros escolares na Sociologia.
Pós-verdade e educação
Vamos encontrar uma definição formal de pós-verdade em Mcintyre (2018). Ele parte da definição do dicionário de Oxford, indicando que pós-verdade se relacionaria com ou denotaria circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que apelos à emoção e à crença pessoal, porém o autor enfatiza que o “pós”, aqui, não assume a ideia de uma linha temporal, como em pós-guerra, mas a ideia de que a verdade foi eclipsada, tornando-se irrelevante. A concepção de que a era da pós-verdade situa as opiniões pessoais à frente dos fatos parece ser uma contradição direta com a lógica que rege o conhecimento escolar, afinal, o que caracterizaria o conhecimento escolar seria justamente sua especificidade didático-científica, o fato de que o estudante não teria acesso a ele senão por meio da escola, ao menos daquela determinada forma (Young, 2007). Além de ataques à mídia mainstream, também temos observado um ataque crescente às instituições de pesquisa e ensino, bem como a professores e pesquisadores, como demonstraram Bodart e Pires (2023).
Como bem enfatiza Peters (2017), no contexto da pós-verdade passou-se a questionar a capacidade dos professores de arbitrarem sobre a verdade. Em alguns contextos isso tomou a forma da ação ordenada de determinados grupos sociais, como é o caso do Escola sem Partido, fundado em 2004, mas que ganhou notoriedade principalmente a partir do crescente processo de polarização da política brasileira e da crescente onda conservadora que se desenhou principalmente após o ano de 2013 (Burity, 2020).
Apesar de o Escola sem Partido ser talvez o movimento conservador mais famoso que atua no campo educacional brasileiro, é importante indicar que há outros com atuação semelhante, especialmente no ensino superior, como o Docentes pela Liberdade (DPL) e Professores Livres pelo Brasil (PROLIVRES), que apontam para um processo (ainda que incipiente) de bolsonarização da universidade brasileira (Oliveira, 2023). Em todos esses movimentos há um forte questionamento em torno do saber escolar/acadêmico consolidado, recorrentemente produzindo denúncias de doutrinação ideológica nas escolas e universidades.
Vale a pena ressaltar que esse é um movimento global, apesar de possuir uma agenda local (Miskolci, 2021). No caso brasileiro, ganha especial destaque o “combate” à “ideologia de gênero” nas escolas (Barbosa; Oliveira, 2024). Podemos observar movimentos semelhantes em outras partes do mundo, como o combate ao ensino da TCR nos Estados Unidos (Evans, 2022), ou ainda iniciativas de partidos políticos, como o PIN Parental, defendido pelo partido Vox na Espanha, ou o Neutrale Schule, defendido pela Alternativa para a Alemanha (AfD), ambos considerados partidos de extrema direita.
Apesar desses ataques, é importante enfatizar o papel que a educação possui na manutenção do jogo democrático, com destaque para o ensino das Ciências Sociais (Levy et al., 2023). Isso se torna especialmente evidente na medida em que o próprio debate sobre fake news ganha centralidade no currículo escolar e é reconhecida a relevância desse debate para a consolidação de um projeto democrático de sociedade.
Nesse cenário, Wight (2018) enfatiza que a era da pós-verdade parece evidenciar uma suposta contradição na ligação entre expansão ao acesso à escolarização e consolidação da democracia:
Embora a democracia possa ser um princípio político que vale a pena defender, existe uma tensão entre ela e a democratização da epistemologia. A democracia precisa de uma população suficientemente instruída para ser capaz de analisar os argumentos e chegar a julgamentos informados. Esta era a grande esperança do liberalismo iluminista, particularmente no que diz respeito à oferta de educação. O aumento do acesso à educação traria progresso e paz. Uma população altamente educada faria a democracia funcionar melhor. Embora, sob quaisquer padrões, as populações ocidentais sejam agora mais instruídas do que no tempo de Kant, parecemos estar a regredir em vez de progredir em termos de prática democrática. Este é o paradoxo da pós-verdade. Quanto mais educadas se tornaram as sociedades, mais disfuncional parece ser a democracia. A suposta ligação positiva entre democracia, educação e conhecimento parece estar quebrada (Wight, 2018, p. 25).
O desafio, então, está em assegurar não somente a universalização da educação formal, mas também a disseminação de uma educação crítica que habilite os indivíduos a interpretar os fenômenos sociais de maneira consciente e informada. Como nos indica Bowell (2017, p. 584):
Precisamos de uma pedagogia do pensamento crítico que ensine não apenas as habilidades de bom raciocínio e análise crítica do raciocínio dos outros, mas que incuta os valores que compõem a investigação responsável, valores como a mente aberta - estar preparado para abrir as próprias crenças ao escrutínio, abandoná-los ou colocá-los de lado se for demonstrado que não temos boas razões para mantê-los, assumir crenças completamente diferentes se tivermos bons motivos para fazê-lo - e humildade epistêmica - tratar os outros como igualmente habilitados a ter as suas opiniões ouvidas e levadas a sério, independentemente do seu estatuto. Precisamos de uma pedagogia de pensamento crítico que ensine que o ataque ad hominem não é uma forma legítima de discurso político, mas uma estratégia retórica concebida para minar o nosso direito de pensar criticamente e de tomar decisões com base em evidências. Precisamos de uma pedagogia de pensamento crítico que ensine como reconhecer a autoridade adequada e como evitar a deferência à falsa autoridade, uma pedagogia de pensamento crítico que afaste e possibilite a consciência dos vícios intelectuais - credulidade, mente fechada, arrogância intelectual e pensamento positivo, uma pedagogia do pensamento crítico que nos ensine como reconhecer estratagemas retóricos e as respostas afetivas que eles pretendem provocar em nós.
Interessante perceber que, em alguma medida, as fake news tentam incorporar e distorcer parte desse discurso, sugerindo que a busca por “fontes alternativas de informação” é, na verdade, uma postura crítica e não conformista. Isso ressalta a percepção de que o conhecimento acadêmico e escolar fazem parte de um saber “das elites” que supostamente buscam “ocultar a verdade”. Nessa direção, pensar os fundamentos de uma educação que contribua com o projeto democrático de sociedade e de combate às notícias fraudulentas implica também apresentar os fundamentos do que seria um conhecimento crítico, como se produz conhecimento e qual o papel da ciência nesse processo.
Durante a pandemia da Covid-19, a desinformação e o combate ao conhecimento acadêmico e escolar tomaram proporções alarmantes. Isso evidenciou os impactos que esse fenômeno pode ter no mundo social. Todavia, é importante reconhecer que também existe uma disseminação de desinformação relacionada a questões políticas e culturais no âmbito acadêmico, o que também impacta sobre o mundo social.
Um exemplo marcante de desinformação nesse contexto ocorreu durante as eleições de 2018, quando o então candidato Jair Bolsonaro foi entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura, e fez a afirmação de que “O português nem pisava na África. Foram os próprios negros que entregavam os escravos”. Observamos que a afirmação em questão, embora desprovida de fundamentação sólida em termos sociohistóricos - como evidenciado pelo significativo número de ex-colônias portuguesas na África, tais como Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné-Bissau -, é disseminada como uma “suposta verdade” na esfera pública, baseando-se exclusivamente nas convicções pessoais de quem a anuncia. Evidentemente tal afirmação possui uma finalidade em seu contexto de enunciação, buscando deslegitimar a pertinência das políticas de ações afirmativas no Brasil e seu caráter de reparação histórica.
Não nos compete exaurir os exemplos sobre os impactos diretos da pós-verdade no campo educacional, nem mesmo se nos restringirmos ao contexto brasileiro. No entanto, é crucial enfatizar como esse cenário lança novos desafios para a educação e para o ensino das Ciências Sociais em particular. Assim, considerando os livros escolares como currículo editado, buscamos contribuir com pesquisas que analisam os livros didáticos de Sociologia e sua potencialidade heurística para evidenciar intencionalidades pedagógicas voltadas a projetos societários que refletem a constituição e a agência do campo educacional e sociológico no país (Engerroff, 2023; Cigales; Oliveira, 2020; Bodart; Pires, 2023).
Procedimentos metodológicos
Neste artigo, empregamos abordagens quantitativas e qualitativas para avaliar livros didáticos de CHSA destinados ao ensino médio (Objeto 2), selecionados pelo PNLD no ano de 2021. Trata-se de uma pesquisa exploratória, descritiva e infométrica de análise de conteúdo. Inicialmente buscamos identificar os 20 volumes mais adquiridos pelo Ministério da Educação (MEC) e distribuídos em escolas públicas em todo o território brasileiro, visando a selecionar as duas coleções mais presentes nas escolas públicas brasileiras de ensino médio.
Para a identificação dos volumes, acessamos o site do Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação8 mantido pelo MEC, de onde baixamos a planilha contendo o quantitativo das obras adquiridas em 2021. Identificamos os 20 volumes mais adquiridos pelo MEC, os quais representaram 51,73%, ou seja, 7.432.904 exemplares dos 14.366.128.
Embora cada coleção seja constituída por seis volumes, a aquisição do MEC não ocorreu de forma homogênea entre as coleções, como apresentamos no Quadro 1.
Entre os 20 volumes analisados, identificamos duas coleções completas: Multiversos, publicada pela editora FTDA S.A., e Moderna Plus, da Editora Moderna LTDA. Tendo em mente que o tema das fake news está focalizado em um ou mais volumes, devido a escolhas editoriais e autorais, e não abrange todos os seis volumes de cada coleção, nossa decisão foi concentrar a análise exclusivamente nas obras de volume completo encontradas nesse recorte específico. Dessa forma, elegemos estudar as coleções Multiversos Ciências Humanas (Boulos Jr.; Adão; Furquim Jr., 2021) e Moderna Plus - Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (Silva et al., 2021), as quais, em conjunto, totalizam 5.236.126 exemplares adquiridos pelo MEC em 2021, distribuídos nas instituições de ensino público municipal, estadual, federal e distrital que ofertam o ensino médio.
Após a seleção dos volumes para a análise, procedemos ao download dos livros didáticos no formato de arquivo “.pdf” nos websites das editoras correspondentes. Dado que esses livros são integrados aos manuais dos professores, tornou-se imperativo extrair exclusivamente o “manual do estudante” dos volumes selecionados, o qual compôs o corpus da pesquisa. Para realizar essa extração, recorremos a plataformas especializadas9 capazes de dividir arquivos no formato “.pdf”. A escolha de analisar somente o “manual do estudante” fundamenta-se no fato de que esse material é acessado pelos discentes e, portanto, presume-se que seja lido por eles.
Para melhorar a manipulação de cada uma das coleções, procedemos à redução dos tamanhos dos arquivos10, seguida pela consolidação dos seis volumes em um único arquivo no formato “.pdf”11. A decisão de agrupar os volumes foi tomada com base na compreensão de que as temáticas são distribuídas ao longo de toda a coleção, exigindo uma visão panorâmica da obra como um todo. Uma vez que os arquivos das obras didáticas estavam preparados no formato “.pdf”, foram exportados para o programa Voyant Tools12. Utilizamos esse programa para realizar uma série de análises qualitativas e quantitativas, com o objetivo de compreender de que maneira o tema das fake news é apresentado aos estudantes do ensino médio em escolas públicas brasileiras. Para atingir nossos objetivos, exploramos as ferramentas disponibilizadas no programa, permitindo-nos observar: a) o número de ocorrências; b) o contexto dessas ocorrências; e c) as correlações entre os termos relacionados ao tema.
Como apresentado no Quadro 2, o termo “fake news” aparece 54 vezes no corpus desta pesquisa.
As análises das duas coleções selecionadas de livros didáticos de CHSA foram realizadas em separado para posteriormente serem feitas comparações entre os resultados. Os dados serão apresentados e discutidos na seção posterior.
O tema “fake news” na coleção Multiversos (2021)
A coleção Multiversos Ciências Humanas consiste em seis volumes, cada um com seis capítulos e cerca de 160 páginas cada, totalizando 810 páginas no conjunto. Cada volume aborda temas específicos, sendo eles: “Globalização, Tempo e Espaço”, “Populações, Territórios e Fronteiras”, “Sociedade, natureza e sustentabilidade”, “Trabalho, tecnologia e desigualdade”, “Ética, cultura e direitos” e “Política, conflitos e cidadania”. A coleção é escrita por três autores: Alfredo Boulos Júnior, graduado em História e doutor em Educação; Edilson Adão, graduado em Geografia e mestre em Ciências; e Laercio Furquim Jr., graduado e mestre em Geografia. A coleção foi publicada pela Editora FTD S.A. Composta por 337.640 formas únicas de palavras, a coleção tem como palavras mais frequentes “Brasil” (698), “trabalho” (673), “mundo” (640), “países” (490) e “vida” (465). É esse corpus que passamos a examinar a seguir, tomando como referência analítica o termo “fake news”.
O termo “fake news” é mencionado 45 vezes na coleção Multiversos, estando presente em um dos seis volumes, especificamente no volume intitulado “Direitos humanos e princípios éticos”. Esse dado suscita duas questões relevantes. Primeiramente, destaca-se que o termo “fake news” está presente entre os volumes da coleção, ainda que focado na questão ética e nos direitos humanos. Em segundo lugar, observa-se que o termo é concentrado em apenas uma parte da coleção, não sendo abordado em outras categorias frequentes no currículo das Ciências Sociais anteriores à Reforma do Ensino Médio, como aquelas relacionadas por Bispo dos Santos (2012): “trabalho”, “cidadania” e “política”. Isso demonstra certa novidade no debate curricular da área a partir das mudanças curriculares estabelecidas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC)13.
Podemos ainda levantar como hipótese que temas que envolvam os direitos humanos são especialmente sensíveis às fake news. Mais que isso, que a obra em questão percebe que é necessário pensarmos uma formação acadêmica adequada para os estudantes do ensino médio que os possibilite identificar e combater as fake news nesse campo de debates em particular. Por fim, deve-se destacar ainda que, no âmbito das disputas curriculares ocorridas no Brasil em período recente, principalmente no que diz respeito à versão final da BNCC, os diretos humanos surgem como um espaço de disputa semântica, na medida em que grupos conservadores passaram de uma estratégia de combate aos direitos humanos para uma estratégia de disputa em torno de seus significados (Oliveira, 2021)14. No entanto, é fundamental salientar que a pós-verdade constitui um campo de discussão composto por uma intricada rede de temáticas, abrangendo desde o negacionismo científico e a hiperpolarização política até vieses cognitivos, Big Data, mídias sociais, bolhas on-line e pós-modernidade (McIntyre, 2018). Abordar as fake news revela-se, assim, uma questão multifacetada, atravessando uma diversidade de conteúdos educacionais. No caso da coleção Multiversos, o tema das fake news é abordado no contexto da violência, com o título do texto sobre o assunto sendo “Uso da violência na divulgação de notícias”. Observa-se que, na composição do texto, não são mencionadas contribuições explícitas do campo científico, como teorias, conceitos ou pesquisadores específicos. Antes, recorre-se a textos jornalísticos para fundamentar a exposição do tema, tornando a abordagem superficial e imprecisa.
Por meio da análise da árvore de palavras, identificamos cinco itens relevantes, diretamente associados ao termo “fake news”, sendo eles “propagar”, “assunto”, “existem” e “notícias”. Esses resultados instigam reflexões sobre como os livros didáticos da área de CHSA abordam o termo, especialmente no que diz respeito à divulgação de notícias falsas. Por esse motivo, fez-se necessário realizar análises contextuais do tema.
Proximidades entre os termos “notícias”, “mentira” e “fake news” na coleção Multiversos (2021)
No Gráfico 2, apresentamos o teste de proximidade entre os termos “notícias”, “notícia”, “mentira” e “fake news”. Esse resultado evidencia que, ao abordar fake news, a coleção estabelece uma aproximação com o tema “notícias”, já que no último segmento da coleção (10), no qual fake news são discutidas, há uma presença maior desse termo. Realizamos o mesmo teste com a palavra “conhecimento” e não identificamos proximidade. Nesse sentido, na referida coleção, “fake news” e “notícias” estão, de algum modo, relacionados. Apresentamos um trecho que nos permite observar essa proximidade com mais clareza: “Nos últimos anos, a discussão sobre as consequências graves de notícias espalhadas por diversos meios se acentuou. O termo ‘fake news’ passou a integrar o cotidiano de muita gente e integrou debates políticos de variados países” (Boulos Jr.; Adão; Furquim Jr., 2021, p. 123 - vol. Ética, cultura e Direito). De certa forma, o trecho faz uma relação quase direta entre “notícias espalhadas” e “fake news”. Por outro lado, fake news não se vincula à noção de conhecimento. Mais adiante encontramos a seguinte frase: “As fake news são, primeiramente, ligadas à imprensa”.
Rede de termos ligando “notícia*”, “rede social”, “redes sociais”, “internet*” e “fake news*” na coleção Multiversos (2021)
Notamos que o termo “fake news” não aparece na coleção relacionado diretamente aos termos “redes sociais”, “notícias” ou “internet”, mas a termos como “violência”, “espalham” e “existem”. A fim de observar a proximidade do termo “fake news” com os campos disciplinares das CHSA, realizamos um teste de dispersão selecionando os seguintes termos: “Sociologia”, “História”, “Geografia”, “Filosofia”, “Economia” e “Psicologia” e “fake news”. O resultado dos dados é apresentado no Gráfico 3.
Gráfico de dispersão dos termos “Sociologia”, “História”, “Geografia”, “Filosofia”, “Economia” e “Psicologia” em relação ao termo “fake news*” na coleção Multiversos (2021)
Nota-se no Gráfico 3 que o termo “fake news” está mais próximo dos termos “Psicologia”, “Filosofia” e “Sociologia”. A proximidade do termo “fake news” com a Filosofia e a Sociologia, disciplinas tradicionalmente vinculadas à “formação para a cidadania”, pode também revelar elementos interessantes. Apesar de não existir no currículo escolar brasileiro uma disciplina específica como educação cidadã - salvo casos particulares de alguns sistemas de ensino -, parece-nos que o debate sobre fake news estaria inserido no escopo mais amplo de pensar uma educação cidadã, algo que historicamente tem sido associado no currículo brasileiro às disciplinas de Filosofia e Sociologia, como destacaram Pereira e Fusco (2017) e Gallo (2012). Em outros termos, a coleção considera os conhecimentos especializados da Filosofia e da Sociologia como recursos importantes para os estudantes reconhecerem, debaterem e combaterem as fake news, algo fundamental para uma educação cidadã. Já a proximidade dos termos “Psicologia” e “fake news” não significou uma relação direta entre os dois, aspecto observado ao chegarem os registros do termo “Psicologia” na coleção. A relação mais direta ocorre com a Filosofia e a Sociologia, por trazer o tema das fake news no contexto de temas e abordagens dessas disciplinas. No entanto, teorias, conceitos ou pesquisadores dessas áreas não são diretamente utilizados na exposição textual. É possível que o fato de os autores não possuírem formação em nenhuma das duas disciplinas tenha influenciado para que a abordagem não se baseasse nessas áreas de conhecimento, optando-se, assim, por buscar apoio em textos jornalísticos. O caráter “interdisciplinar” dos novos livros didáticos parece resultar em abordagens mais superficiais, aspecto que precisa ser examinado em pesquisas futuras.
Uma análise mais detida dos registros das fake news revela-nos algumas abordagens imprecisas do termo na coleção, especialmente se considerarmos o conceito de fake news que aqui adotamos. Segue trecho extraído do volume “Ética, cultura e direito” (Boulos Jr.; Adão; Furquim Jr., 202, p. 123-124):
O que é uma fake news? A tradução de fake news é notícia falsa, uma fala, um texto, uma reportagem que divulga informação mentirosa sobre algo ou alguém [...] Mentir para alguém pode ser considerado falar uma fake news. [...] No entanto, não usamos o termo fake news para apontar toda e qualquer mentira ou informação errada.
Como destacamos no início deste artigo, fake news não são notícias falsas, mas falseadas. Erros jornalísticos não podem ser interpretados como fake news. A forma como o conceito é apresentado pode levá-lo a ser interpretado pelos estudantes como sinônimo de mentira. Porém em seguida o texto afirma que nem toda mentira é fake news. Nesse sentido, falta uma maior precisão conceitual. Contudo, o texto apresenta assertivamente, em forma de exemplificações, as principais motivações da criação de divulgação de fake news, bem como estratégias que podem ser adotadas pelos estudantes no processo de verificação da veracidade de notícias.
Analisando o contexto semântico do termo “fake news”, quando presente na coleção Multiversos, podemos evidenciar ao menos três questões: a) o conceito de fake news, sua historicidade e atualidade no debate midiático tradicional e virtual; b) o uso das fake news vinculado a posturas violentas, ao racismo e ao prejuízo a determinados grupos políticos ou sociais; c) uma visão crítica de como identificar, a partir do senso crítico, o que são fake news. No Quadro 3 apresentamos o contexto semântico mais amplo, indicando o tema em que o termo “fake news” se insere.
Por meio do Quadro 3, podemos entender melhor o contexto interno da coleção Multiversos, no qual o termo “fake news” está presente. A partir disso, podemos considerar que: a) há uma concentração do debate no volume que discute ética, cultura e direitos, não sendo, portanto, uma temática trabalhada em outros momentos dos livros dessa coleção; b) o termo é apresentado de modo vinculado especificamente à questão da violência no mundo virtual; c) há uma breve discussão sobre o que são as fake news e como elas são usadas a partir das redes sociais; d) o livro utiliza atividades, exemplos reais e ilustrações como forma de mobilizar a operacionalização didática dos objetivos de aprendizado determinados pelo capítulo.
A inclusão do tema em apenas um volume da obra sugere a expectativa, por parte dos autores, de que os estudantes terão acesso, ao longo do ensino médio, aos seis volumes que compõem a coleção. No entanto, essa expectativa pode não se concretizar, especialmente devido ao fato de que os volumes, conforme a recomendação do MEC, devem ser autossuficientes e não depender de utilizações conjugadas ou sequenciais.
Novamente a vinculação com os direitos nos chama a atenção, uma vez que isso visibiliza a guinada política que temos observado e como as fake news atuam como parte dessas estratégias. Se pensarmos em termos de conhecimento escolar, não nos parece que a coleção pressupõe que os estudantes desconhecem o significado do conceito de fake news, mas sim que eles podem eventualmente não perceber a extensão e o impacto delas sobre a realidade social, de modo que se enfatizam os campos nos quais seus efeitos seriam mais sensíveis.
O tema “fake news” na coleção Moderna Plus (2021)
A coleção Moderna Plus - Ciências Humanas e Sociais Aplicadas consiste em 969 páginas divididas em seis volumes, intitulados: “Natureza em transformação”, “Globalização, emancipação e cidadania”, “Trabalho, ciência e tecnologia”, “Poder e política”, “Sociedade, política e cultura” e “Conflitos e desigualdades”. Cada capítulo possui cerca de 160 páginas distribuídas em seis capítulos. A obra é de autoria de 23 autores15, dos quais 65,2% possuem título de doutorado, sendo 16 autores graduados em Ciências Sociais (Bodart; Esteves; Tavares, 2021). A obra é de publicação da Editora Moderna e a coleção é composta por 608.721 formas únicas de palavras, sendo as mais frequentes: “Brasil” (1219), “países” (1014), “trabalho” (999), “sociais” (997) e “Estado” (885). É esse corpus que também passamos a examinar a seguir, tomando como referência analítica o termo “fake news”.
O termo “fake news” aparece 10 vezes na coleção, estando presente em três dos seis volumes, sendo eles “Globalização, emancipação e cidadania”, “Poder e Política” e “Sociedade, política e cultura”. A análise desse dado revela que o termo está intrinsecamente ligado a temas clássicos das Ciências Sociais no ambiente escolar destacados por Santos (2012), tais como “cultura”, “política” e “sociedade”. Entretanto, a baixa frequência com que o termo aparece sugere que o debate pode não ter sido desenvolvido dentro da coleção Moderna Plus, aspecto que examinaremos.
Notamos, por meio da análise da árvore de palavras, três importantes termos que aparecem diretamente associados ao termo “fake news”: “desvendar”, “identificar” e “atual”. A partir disso, levantamos a hipótese de que há uma intencionalidade pedagógica voltada para a apresentação da temática de modo que os estudantes possam identificar as fake news. Os dados sugerem haver uma concepção de que o estudante conhece e está familiarizado com a existência de fake news, porém caberia ao conhecimento escolar próprio das Ciências Humanas e Sociais ajudá-lo a identificá-las. Avançaremos nas análises para uma melhor compreensão sobre o que fazemos a partir de uma análise semântica contextual do uso do termo “fake news”.
Proximidades entre os termos “notícias”, “mentira” e “fake news” na coleção Moderna Plus (2021)
Observamos uma notável correlação entre a frequência de termos como “notícias”, “mentiras” e o termo “fake news”. No segmento da coleção em que o termo “fake news” é mais proeminente (segmento 6), é interessante notar que é exatamente nesse contexto que o termo “notícias” também se destaca. Essa associação próxima entre os termos “notícias” e “fake news” pode representar um risco se não for abordada de maneira adequada pelo professor. Há a possibilidade de criar uma correlação equivocada entre “notícias” e “fake news”, que podem ser erroneamente entendidos pelo estudante como sinônimos.
É crucial que o professor intervenha de forma a evitar essa interpretação equivocada. Embora as notícias não se enquadrem necessariamente como conhecimento científico, elas geralmente consistem em informações relevante, as quais, inclusive, são mobilizadas pelos autores da coleção. Muitas dessas informações são utilizadas com frequência pelos livros didáticos para abordar uma variedade de temas, especialmente na tentativa de aproximar os conteúdos escolares da realidade dos estudantes. Portanto, é fundamental enfatizar a importância de discernir a diferença entre notícias legítimas e fake news. Além disso, é relevante que os conteúdos escolares não sejam baseados de maneira exclusiva em notícias jornalísticas.
Importa destacar que a proximidade de termos não significa relação nem nos permite analisar como ocorrem essas proximidades. Por isso, é necessário realizar no futuro análises complementares que nos permitam melhor compreender essa configuração nos livros didáticos em exame.
Rede de termos ligando “notícia*”, “rede social”, “redes sociais”, “internet*” e “fake news*” na coleção Moderna Plus (2021)
Notamos que o termo “fake news” não aparece na coleção diretamente relacionado a “redes sociais”. Contudo, aparece ligado aos termos “notícias” e “internet”. É interessante perceber que uma crítica recorrente ao conceito de fake news é a de que esse fenômeno não constitui algo novo, afinal, o negacionismo climático, ou mesmo a existência de defensores do terraplanismo, é algo que antecede a popularização desse termo. Todavia, é inegável que a popularização das mídias sociais e, sobretudo, a onipresença da lógica dos algoritmos, que tende a confirmar determinadas visões de mundo nas redes sociais, produziram um fato novo e uma nova forma de as pessoas se relacionarem com os fatos e com suas convicções pessoais (Miskolci, 2021). Nesse sentido, a relação entre fake news e internet, principalmente, evidencia a particularidade do fenômeno observado no contexto da pós-verdade - aspecto que se repete nos livros didáticos examinados.
Para investigar a relação do termo “fake news” com os campos disciplinares das Ciências Humanas, conduzimos um teste de dispersão selecionando termos como “Sociologia”, “História”, “Geografia”, “Filosofia”, “Economia”, “Psicologia” e o próprio termo “fake news”. Os resultados desses dados estão representados no Gráfico 6.
Gráfico de dispersão dos termos “Sociologia”, “História”, “Geografia”, “Filosofia”, “Economia”, “Ciência Política” e “Psicologia” em relação ao termo “fake news*” na coleção Moderna Plus (2021)
A partir do Gráfico 6, nota-se que o termo “fake news” está mais próximo do termo “Ciência Política” e “Economia”. Isso nos faz pensar ao menos em duas questões. A primeira diz respeito à configuração da coleção Moderna Plus, em que o termo “fake news” aparece mais no volume sobre “Poder e política”, o que pode atestar a própria formação dos autores responsáveis pela coleção: dos 23 autores, 69,5% são graduados em Ciências Sociais (Bodart; Esteves; Tavares, 2021). A segunda questão diz respeito à abordagem das fake news de maneira mais próxima da Economia, o que tem ganhado uma maior visibilidade a partir da Reforma do Ensino Médio, já que os currículos atuais, orientandos pela BNCC, evidenciam eixos estruturantes como “Empreendedorismo” e “Projeto de vida”.
A proximidade da Ciência Política com o termo “fake news” está estreitamente relacionada aos conteúdos da disciplina Sociologia, uma vez que a Ciência Política é parte dela. Além disso, há uma relação entre as fake news e sua ameaça à democracia, questão amplamente presente na sociedade, especialmente no contexto de ascensão de populismos autoritários. Avançando nas análises de contextualização semântica, podemos identificar que a coleção Moderna Plus atrela o termo “fake news” a pelo menos três contextos: a) a busca por uma definição em perspectiva histórica ou em debate internacional; b) o cenário de desenvolvimento das redes sociais e da proliferação de notícias falsas; e c) a intencionalidade pedagógica de apresentação aos estudantes em como identificar fake news. Fica em aberto uma questão relevante: o que fazer após identificarmos fake news? Em que pese essa pergunta ter uma resposta óbvia, não está suficientemente respondida nessa coleção.
A partir do Quadro 4, podemos identificar que: a) os volumes sobre “Sociedade, política e cultura” e “Globalização, emancipação e cidadania” concentram, cada um, uma citação sobre o termo “fake news”, estando as demais oito referências no volume sobre “Poder e política”; b) há uma preocupação em identificar fake news, o que aparece em forma de atividades; c) política e comunicação por meio da internet também se atrelam ao termo, o que é importante no cenário sociopolítico brasileiro, especialmente após as últimas eleições presidenciais.
Na coleção Moderna Plus, o tema “fake news” aparece relacionado à iniciativa de alertar os estudantes quanto à sua existência, indicando sua presença em contextos eleitorais e cotidianos. O fato de os autores serem, em sua maioria, formados em Ciências Sociais (Bodart; Esteves; Tavares, 2021), é um indício explicativo da opção em trabalhar o tema “fake news” a partir de temáticas presentes na Ciência Política e na Sociologia Política.
O conceito não é apresentado de forma direta, mas surge vinculado a “notícias falsas”. Também aparece de forma imprecisa, no volume “Sociedade, política e cultura”, ao afirmar que “Em 2016, ‘pós-verdade’ (post-truth) foi eleita a palavra do ano pela Universidade de Oxford, Reino Unido. O termo, que no Brasil se popularizou na expressão ‘fake news’, significa que fatos passam a ter menos importância do que crenças pessoais” (Silva et al., 2021, p. 57). Notamos uma carência conceitual, partindo do pressuposto de que os estudantes já conhecem o conceito. O esforço maior está na indução, via atividade/exercício, de estimular os estudantes a exercitarem suas capacidades de identificar a prática de fake news.
Considerações finais
A partir desta pesquisa, evidenciamos que o termo “fake news” entrou para o vocabulário das duas coleções de maior alcance na educação pública de livros didáticos do Objeto 2 do PNLD do ano de 2021. Esse dado é relevante por atestar, ao menos, duas questões. A primeira se relaciona ao grau de influência que o debate público trouxe para a produção dos materiais didáticos no Brasil. A segunda questão é referente a quanto esse debate presente nos livros didáticos está amparado por uma literatura científica, fato que nos chamou a atenção, dado que não identificamos citações diretas sobre estudos das Ciências Sociais no país sobre o tema das fake news.
Percebemos que o termo “fake news” não ocupa um lugar específico dentro de uma área ou temática, mas é pulverizado em assuntos e discussões que atravessam as redes sociais, a política e a comunicação na era digital. Podemos considerar que isso ocorre pela própria configuração do PNLD 2021, que foi construído não mais tendo por base as disciplinas escolares, mas a área de conhecimento, que cada vez mais tem abrangido outras áreas, o que nos auxiliaria a pensar o porquê de a Psicologia e a Economia se aproximarem do termo nas coleções analisadas.
Bodart, Esteves e Tavares (2021), ao examinarem o perfil dos autores dos livros didáticos selecionados pelo PNLD 2021, destacaram que as mudanças nesse perfil poderiam impactar a forma como os conteúdos são abordados nas obras. Ao considerarmos o tema das fake news, observamos que as coleções examinadas, sem uma representatividade equitativa das áreas de CHSA, trazem o tema, porém não apresentam um tratamento disciplinar robusto, o que resulta em uma exposição imprecisa e/ou superficial que não mobiliza teorias, conceitos e pesquisas das áreas das Ciências Humanas. Certamente por se tratar de coleções “interdisciplinares”, como determinado pelo edital do PNLD, os conteúdos acabaram perdendo em aprofundamento científico das diversas áreas das Ciências Humanas.
Há diferenças significativas da ocorrência do termo em ambas as coleções. Acreditamos que há duas diferenças principais que merecem ser destacadas: a) ao passo que a primeira coleção está preocupada principalmente em enfatizar junto aos estudantes as consequências das fake news, especialmente no campo dos direitos humanos, a segunda se preocupa em instrumentalizar os discentes para identificar tal fenômeno; b) de igual modo, a primeira coleção aproxima mais o debate da Filosofia e da Sociologia, ao passo que a segunda, da Ciência Política (presente no currículo por meio da Sociologia), o que pode indicar distintas concepções sobre o que significa produzir uma educação cidadã no ensino médio.
Destaca-se como que o debate sobre as fake news se tornou rapidamente presente no ensino das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. Retomando a ideia de “conhecimento poderoso” de Young (2007), podemos indicar que cabe à instituição escolar fornecer ferramentas acadêmicas e cognitivas para os estudantes identificarem e reconhecerem os impactos das fake news. Embora os estudantes - supostamente - estejam familiarizados com o termo, caberia ao conhecimento escolar desenvolver tais habilidades (para utilizarmos uma linguagem presente na BNCC) ancoradas nas ciências referências da área de CHSA.
Por último, esperamos que este estudo possa enriquecer o diálogo sobre a produção e a análise de livros didáticos no contexto brasileiro de pós-verdade, proporcionando novas perspectivas de pesquisa e estimulando abordagens científicas com relação a esse objeto. Tendo em vista que se trata de uma política pública que atende a uma parcela substancial da população, acreditamos que ela merece uma atenção mais aprofundada por parte da comunidade acadêmica e científica. Tornam-se necessárias, assim, a análise e a avaliação mais detalhadas desse material, reconhecendo sua relevância para o entendimento e o aprimoramento das práticas manuais no cenário nacional. Como exemplo disso, seria relevante analisar como os agentes escolares se apropriam desses materiais em sala de aula, fazendo ou não uso deles, assim como avaliar o efeito desse material na percepção política dos jovens que frequentam o ensino médio. Diríamos ainda que, na era da pós-verdade, o futuro da democracia dependerá da capacidade de os sistemas de ensino fazerem frente a outras formas de conhecimento presentes no cotidiano das juventudes, assim como às notícias falseadas. Uma educação para a cidadania crítica, que desenvolva um pensamento crítico, reflexivo e desnaturalizado do mundo social, é fundamental para evidenciar e combater as fake news.
Referências
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Ainda que não haja um consenso no uso do conceito “pós-verdade”, ele é colaborativo para delinear o fenômeno observado: ampliação de fake news. Um exemplo da discordância do uso desse conceito é encontrado em Santaella (2019).
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Originalmente, o termo “woke” tinha exclusivamente a conotação de ter consciência das injustiças sociais, especialmente raciais, uma vez que ganhou grande visibilidade com o movimento Black Lives Matter, porém passou também a ser utilizado por movimentos conservadores assumindo uma conotação negativa, algo próximo ao que os movimentos conservadores no Brasil chamam de “mimimi”.
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A Reforma do Ensino Médio foi estabelecida por meio de uma Medida Provisória (MP nº 746/2016) no contexto do governo de Michel Temer (2016-2018), imediatamente após o impeachment de Dilma Rousseff, período marcado por uma profunda crise democrática no Brasil. Posteriormente, a MP foi convertida na Lei nº 13.415 e implicou uma reorganização do ensino médio a partir de percursos formativos. Outra consequência direta dessa reforma foi o fato de que, a partir dela, apenas as disciplinas de Português, Matemática e Inglês se tornaram obrigatórias no currículo escolar.
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O PNLD foi instituído ainda na década de 1980 (Decreto nº 91.542, de 19 de agosto de 1985), tornando-se um importante programa de Estado. Por meio dele, o Estado brasileiro avalia, compra e distribui livros didáticos para as escolas públicas brasileiras. É importante mencionar que, a partir de 2012, o programa foi ampliado para todas as disciplinas do ensino médio, o que teve como uma das implicações diretas a inclusão de disciplinas novas como Sociologia, Filosofia e Espanhol nos editais desse programa. Seguindo ainda o modelo disciplinar, o programa teve três edições com livros para o ensino médio: 2012, 2015 e 2018.
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Os dados coletados estão disponíveis em: https://www.gov.br/fnde/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/programas/programas-do-livro/pnld/dados-estatisticos. Mais especificamente em: https://www.gov.br/fnde/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/programas/programas-do-livro/pnld/dados-estatisticos-1/PNLD2021EnsinoMdioDidticosobjeto2valoresportitulo.xlsx.
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Utilizamos o site I Love PDF, disponível em: https://www.ilovepdf.com.
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Utilizamos o site PDF24 Tools, disponível em: https://tools.pdf24.org/pt/comprimir-pdf. A redução também foi necessária pelos limites do upload do Voyant Tools.
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Para isso utilizamos também o site I Love PDF.
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O Voyant Tools é uma ferramenta de acesso aberto e on-line de análise textual que permite aos usuários explorar e visualizar dados de texto de maneira interativa. Foi desenvolvido para analisar documentos de texto a fim de observar padrões, tendências e relações dentro do texto. A ferramenta está disponível em: https://voyant-tools.org/.
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A proposta inicial de BNCC foi pensada ainda no governo de Dilma Rousseff, porém foi finalizada apenas no governo de Michel Temer, sofrendo pressões de distintos grupos políticos (Michett i, 2020). Em grande medida, podemos avaliar a versão final para o ensino médio publicada em 2018 como bastante esvaziada, não chegando a cumprir seu objetivo inicial de produzir um currículo nacional.
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Um exemplo significativo dessa guinada em termos de estratégia é o fato de que um dos slogans que impulsionaram a carreira de Jair Bolsonaro antes de sua eleição presidencial em 2018 era “Direitos humanos: esterco da vagabundagem” (Cesarino, 2019). Todavia, ao se tornar presidente, fundou o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, que ficou sob o comando durante a maior parte do tempo de Damares Alves, atualmente senadora da República e uma das mais notórias figuras políticas do bolsonarismo.
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Ni siquiera los discursos que fundaron la Sociología bajo la suposición del monismo metodológico, y que concibieron la relación entre ciencia y política a imagen y semejanza del vínculo entre Física e Ingeniería, llegaron jamás al grado de imprudencia asertiva que distingue a las versiones vulgarizadas del pensamiento económico oficial. Puede recordarse, a modo de ejemplo, el tono cauto de las recomendaciones políticas que Durkheim extraía de sus estudios sobre la división del trabajo o el suicidio, puesto que son desde hace más de un siglo constitutivos de la formación “de oficio” (Durkheim, 2007: 415 y ss.; Durkheim, 1928: 403 y ss.).
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Afrânio Silva, Bruno Loureiro, Cassia Miranda, Fátima Ferreira, Lier Pires Ferreira, Lygia Terra, Marcela M. Serrano, Marcelo Araújo, Marcelo Costa, Maria Lúcia de Arruda Aranha, Martha Nogueira, Myriam Becho Mota, Otair Fernandes de Oliveira, Patrícia Ramos Braick, Paula Menezes, Raphael M. C. Corrêa, Raul Borges Guimarães, Regina Araujo, Rodrigo Pain, Rogério Lima, Tatiana Bukowitz, Thiago Esteves e Vinicius Mayo Pires.












Legenda: 1: Multiversos; 2: Moderna Plus.Fonte: Elaboração própria a partir do Voyant Tool (2023).
Fonte: Elaboração própria a partir do Voyant Tool (2023).
Fonte: Elaboração própria a partir do Voyant Tool (2023).
Fonte: Elaboração própria a partir do Voyant Tool (2023).
Nota: O “*” se referente o fato de termos considerado derivações da palavra.Fonte: Elaboração própria a partir do Voyant Tool (2023).
Fonte: Elaboração própria a partir do Voyant Tool (2023).
Fonte: Elaboração própria a partir do Voyant Tool (2023).
Fonte: Elaboração própria a partir do Voyant Tool (2023).
Fonte: Elaboração própria a partir do Voyant Tool
Fonte: Elaboração própria a partir do Voyant Tool (2023).
Fonte: Elaboração própria a partir do Voyant Tool (2023).