Resumo
Resumo A amamentação é peça central no imaginário do que constitui uma “boa mãe”, tendo sido fundamental na construção do “mito do amor materno”. Neste artigo, analisamos concepções sobre gênero e maternidade, a partir da atuação de consultoras de amamentação, profissionais que orientam pessoas com dificuldade para amamentar. Nosso material é composto por entrevistas, pela observação de um curso de formação de consultoras e por postagens em redes sociais. Nosso objetivo é discutir tensões entre diferentes perspectivas sobre gênero, maternidade e amamentação, ao analisamos um tema considerado especialmente polêmico entre elas: o desmame, momento em que a amamentação chega ao fim. A partir de controvérsias sobre tempo e modo ideal de desmame, e se ele deve ou não fazer parte do escopo das consultoras, investigamos como se expressam diferentes perspectivas sobre maternidade e feminismos.
Palavras-chave:
amamentação; desmame; maternidade; gênero; feminismos
Abstract
Abstract Breastfeeding is central to the concept of a "good mother" and was essential in constructing the "myth of maternal love." In this article, we analyze conceptions of gender and motherhood based on the work of lactation consultants, professionals who guide people experiencing breastfeeding difficulties. Our material consists of interviews, observations of a lactation consultant training course, and social media posts. Our goal is to discuss tensions between different perspectives on gender, motherhood, and breastfeeding by analyzing a topic considered particularly controversial among them: weaning, the moment when breastfeeding ends. Starting from controversies about the ideal time and method of weaning, and whether or not it should be part of the consultants' scope, we investigate how different perspectives on motherhood and feminism are expressed.
Keywords:
breastfeeding; weaning; motherhood; gender; feminisms
Resumen
Resumen La lactancia es fundamental para el concepto de “buena madre” y fue esencial en la construcción del “mito del amor maternal”. En este artículo, analizamos las concepciones de género y maternidad a partir del trabajo de las consultoras de lactancia, profesionales que orientan a personas con dificultades para amamantar. Nuestro material se compone de entrevistas, observaciones de un curso de formación de consultoras de lactancia y publicaciones en redes sociales. Nuestro objetivo es abordar las tensiones entre diferentes perspectivas sobre género, maternidad y lactancia mediante el análisis de un tema particularmente controvertido: el destete, el momento en que finaliza la lactancia. Partiendo de las controversias sobre el momento y el método ideales para el destete, y sobre si debería o no formar parte del ámbito de actuación de las consultoras, investigamos cómo se expresan diferentes perspectivas sobre maternidade y feminismo.
Palabras clave:
lactancia; destete; maternidad; género; feminismos
A amamentação é peça central no imaginário do que constitui uma “boa mãe”, tendo sido fundamental no processo de construção do “amor materno” como um sentimento inato e universal (Badinter 1985). Embora a entendamos aqui como uma técnica corporal aprendida pela socialização (Mauss 2003a), ela é com frequência, no senso comum, vista como prova máxima da natureza instintiva feminina (Schiebinger 1998). Por isso mesmo, a amamentação nos proporciona uma lente de análise capaz de ampliar as “rachaduras” das construções em torno do papel de mãe na atualidade (Blum 1993).
Embora não seja possível desenvolver esse argumento mais detidamente aqui, é possível afirmar que, a partir da medicalização da gravidez, parto e puerpério, a amamentação, enquanto técnica corporal, vai se afastando progressivamente do aprendizado transmitido pela socialização. Neste processo de medicalização, questões que antes não eram vistas como médicas – como, neste caso, a gravidez, o parto, o puerpério e o cuidado com os filhos – passam a ser entendidas como de sua “jurisdição”, sendo cada vez mais informados e regulados pela ciência médica (Conrad 2007). Embora também possamos entender o saber médico como uma forma de socialização – que produz um ideal de maternidade a partir da “prescrição” de certos tipos de cuidados com os filhos –, a mudança que a intensa medicalização da maternidade proporciona faz com que certos saberes sejam hierarquizados e vistos como mais adequados – pois "científicos" – em detrimento a "crendices" ou "conselhos de comadres".
Mais recentemente, assistimos a importantes transformações nessa regulação dos processos reprodutivos, com o surgimento de recomendações da OMS a partir das quais um conjunto de procedimentos médicos antes adotados como padrão para gravidez, parto e puerpério são condenados em nome de um processo menos intervencionista.
A partir disso, nas últimas décadas podemos ver – sobretudo em camadas médias das grandes cidades –, o crescimento de um ideário de maternidade que preconiza uma espécie de “retorno à natureza”, articulado às recomendações da OMS. Neste ideário são valorizadas experiências como parto e amamentação, ao mesmo tempo em que se critica a interferência médica excessiva nesses processos (Tornquist 2002; Alzuguir e Nucci 2015; Russo et al 2019; Hernandez e Victora 2019; Carneiro 2019). Nota-se, também, uma ressacralização da maternidade, articulada a uma concepção de “natureza corporal” feminina (Russo e Nucci 2020). Assim, para esta corrente, a melhor forma de criar os filhos seria aquela que promoveria um contato corporal intenso entre mãe e bebê, principalmente nos primeiros meses de vida, através de práticas como a amamentação, o compartilhamento de cama, e o uso de panos (“slings”) para amarrar e carregar o bebê junto ao corpo (Hernandez e Victora 2019). Seguindo as orientações da OMS, a amamentação deve ser por livre demanda, exclusiva durante os seis primeiros meses, devendo se estender por pelo menos dois anos. Por fim, ligado a este ideário, surgem novas profissionais voltadas à perinatalidade, entre as quais podemos destacar as doulas, que auxiliam no parto (Silva e Russo 2019) e, mais recentemente, consultoras de amamentação, que orientam pessoas com dificuldades para amamentar1.
Este artigo é decorrente de uma pesquisa de pós-doutorado que procurou refletir acerca das concepções em torno de gênero e maternidade em discursos sobre aleitamento, a partir da trajetória e atuação das consultoras de amamentação. Aqui, focaremos nossa discussão em um tema considerado especialmente polêmico e controverso entre elas: o desmame, isto é, o momento (ou processo) em que a amamentação chega ao fim. Assim, procuraremos discutir como tal controvérsia lança luz nos componentes morais que se entrelaçam à maternidade e à amamentação.
Para esta pesquisa foram realizadas dez entrevistas com consultoras de amamentação, e uma com uma professora responsável por cursos de capacitação voltados para formar consultoras. As consultoras e a professora eram em sua maioria brancas e tinham idades entre 30 e 43 anos. Todas possuíam formação universitária, sendo quatro em Psicologia, e as demais em cursos como Fisioterapia, Fonoaudiologia, Nutrição, Economia, Engenharia, Sociologia e Arquivologia. Todas realizavam outras ocupações remuneradas paralelamente à consultoria de amamentação, como atendimento privado em consultório, no caso das psicólogas ou nutricionistas. Sete delas também atuavam como doulas. As entrevistadas foram selecionadas a partir de contatos da primeira autora através de redes sociais, e de indicações da professora e das demais entrevistadas.
Além das entrevistas, participamos da edição de um dos cursos de formação para consultoras, ministrado pela professora entrevistada, com a presença de 35 alunas. O curso teve a duração de quatro dias, com aulas de manhã e à tarde. Os temas abordados variavam entre fisiologia da amamentação, aspectos nutricionais do leite humano, principais intercorrências e manejo, ética profissional, e questões emocionais e sociais ligados à amamentação.
Por fim, de modo complementar, foram coletadas postagens públicas em perfis de redes sociais de consultoras e ativistas sobre amamentação. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Medicina Social Hesio Cordeiro (IMS/ UERJ). Nosso texto se estrutura em duas partes. Primeiro, apresentamos uma discussão teórica sobre a relação entre natureza, cultura e amamentação, traçando um breve histórico do processo de valorização do aleitamento, além de discutirmos tensões entre feminismos, maternidade e amamentação. Na segunda parte do artigo, tomando como objeto de análise a polêmica do desmame entre consultoras, apresentamos como tais tensões se desenrolam em seus discursos e práticas, principalmente através de uma oposição entre “escolha da mãe” e “escolha do bebê” – revelando diferentes moralidades e perspectivas sobre maternidade e feminismos.
Enquadramentos teóricos sobre amamentação, maternidade e feminismos
Natureza, cultura e o tempo “natural” do desmame
Em Amamentação: um híbrido natureza-cultura, livro de João Aprígio de Almeida (1999), referência central sobre o tema no Brasil, o autor chama atenção para a complexidade da amamentação. Através do pensamento de Bruno Latour (2005), conceitua a amamentação enquanto um híbrido de natureza e cultura, constituído ao mesmo tempo por fatores sociais e biológicos. Entretanto, tal como descrito por Latour, podemos observar diversas tentativas de “purificação” desse híbrido, isto é, tentativas de separar, de forma rígida, esferas biológicas das culturais. Esta tentativa de separação é também uma separação disciplinar, em que as ciências biológicas e biomédicas – tradicionalmente encaradas como neutras, e capazes de “desvendar” a “verdade” da natureza – se ocupariam apenas de fatos biológicos, supostamente isolados de fatores sociais.
Um exemplo de tentativa de “purificação” é o artigo da antropóloga biológica Katherine Dettwyler (2004): Quando desmamar: perspectivas biológicas versus culturais. A autora parte da caracterização da amamentação tanto como um processo biológico quanto uma atividade altamente culturalizada. Para ela, é justamente por ser uma atividade “culturalizada” que a duração da amamentação se modifica de acordo com cada cultura, e a idade média de desmame varia consideravelmente de lugar para lugar. Assim, a pesquisa de Dettwyler, partindo do que ela chama de uma “perspectiva biológica sobre o desmame”, procura estabelecer a faixa de idade “natural” para o desmame em humanos, que variaria entre no mínimo dois anos e meio até no máximo sete anos – tempo pelo qual, segundo ela, as crianças humanas estariam “biologicamente programadas” para mamar.
Dettwyler afirma que seu interesse de pesquisa surgiu ao realizar trabalho etnográfico em Mali, na África, e verificar que a maioria das crianças era amamentada até os dois anos de idade, enquanto que nos Estados Unidos – país da pesquisadora – a amamentação dura em média apenas algumas semanas ou poucos meses. Deste modo, para responder à pergunta sobre quanto tempo crianças humanas iriam mamar (ou ser amamentadas) se seguissem um “padrão fisiológico” e “natural”, não influenciado por “crenças culturais”, Dettwyler examina dados de primatas não-humanos, relacionando-os com variáveis como tamanho, duração média da gestação, e tempo médio de vida.
A comparação com primatas não-humanos é uma estratégia frequente na prática científica (embora seja também bastante criticada por suas extrapolações), considerada “a prova maior” de que determinado comportamento ou característica é inata e “natural”, e não aprendido ou adquirido socialmente (Nucci 2010). Além disso, como observa a teórica feminista Donna Haraway (1989), há a crença de que a primatologia – como uma espécie de jogo de espelhos – seria capaz de dizer muito sobre nós mesmos, questionando fronteiras entre humanos e animais.
O estudo de Dettwyler possui objetivos específicos. Segundo ela, ele ajudaria a despatologizar, no contexto dos Estados Unidos, práticas de amamentação que fugiriam da média nacional:
Ao ajudar uma mãe que amamenta, profissionais de saúde são eticamente obrigados a apresentar a duração fisiológica normal da amamentação para a espécie, e os riscos de um desmame precoce, deixando que a mãe tome suas próprias decisões.
[...] Sem informações precisas, mulheres não são capazes de fazer escolhas informadas. Sem informações precisas, podem estar baseando suas decisões por conta própria em perspectivas culturais de seus médicos, que podem ter pouco a ver com a realidade biológica dos seres humanos.
[...] Embora nem todas as mulheres escolham amamentar por 2,5 anos ou mais, toda mulher merece estar empoderada para amamentar, e empoderada para continuar a amamentar pelo tempo em que ela e seus filhos desejarem. (Dettwyler 2004, 722, tradução nossa)
Nota-se como a autora defende que a “duração fisiológica normal” da amamentação, determinada a partir de sua pesquisa, deveria ser informada às mulheres pelos profissionais de saúde, assim como os “riscos” de um desmame antes deste tempo (isto é, “precoce”), para que possam “fazer escolhas informadas”. Além disso, ela coloca as “perspectivas culturais” dos profissionais de saúde e a “realidade biológica” dos seres humanos como polos opostos. Essa oposição entre natureza e cultura, e o debate acerca do tempo “correto” de desmamar, também aparecerá nos discursos das consultoras de amamentação pesquisadas, como veremos na segunda parte deste artigo.
Em um ponto de vista da crítica feminista à ciência, Donna Haraway (2009) expõe, em Manifesto Ciborgue, uma perspectiva similar à de Latour sobre o entrelaçamento entre natureza e cultura. Haraway discute especificamente a amamentação em outro trabalho seu. Opondo-se às dicotomias natureza e cultura, observa que:
Enfatizar que a amamentação é prática e cultura, assim como a tecnociência é prática e cultura, é destacar que o corpo é simultaneamente uma entidade histórica, natural, técnica, discursiva e material. O leite humano não é a natureza, em relação à fórmula da Nestlé como a cultura. Ambos os fluidos são objetos naturais-técnicos, inseridos em matrizes de cultura prática e prática cultural. Mulheres podem perder, recuperar ou aprimorar o conhecimento natural-técnico necessário para a amamentação, assim como elefantes jovens podem perder a capacidade de encontrar água em longos períodos de seca, quando a maioria dos animais mais velhos e experientes são mortos por caça ilegal. Essa comparação não é uma naturalização das mulheres, mas uma insistência na questão natural-técnica compartilhada entre criaturas mortais inteligentes neste planeta. Dentro do tipo de estudos feministas da tecnociência que fazem sentido pra mim, práticas de amamentação, transmissão cultural entre elefantes, conhecimento produzido em laboratório e produção de mercadorias são ontológica e epistemologicamente semelhantes (Haraway 1997, 209, tradução nossa).
O “dever” de amamentar
Como observado na introdução, Badinter (1985) argumenta que a amamentação é elemento chave para o processo de construção do “amor materno” como um sentimento inato e universal. Havia na França, desde o século XIII, o hábito – entre famílias aristocráticas – de se contratar amas-de-leite. A partir do início do século XVIII, o envio de bebês para a casa de amas começa a se estender a todas as camadas da sociedade urbana. A amamentação era considerada ridícula, repugnante e vulgar, e as demais tarefas maternas não eram objeto de nenhuma atenção ou valorização pela sociedade.
Em meados do século XVIII, a imagem da mãe na sociedade europeia começa a se modificar radicalmente, e o mito do instinto materno – e do amor espontâneo de toda mãe pelo filho –, começa a ser delineado. Neste período, diversas publicações passam a recomendar que mães cuidem pessoalmente de seus filhos e, principalmente, que os amamentem. O novo imperativo é a sobrevivência das crianças, já que as altas taxas de mortalidade infantil passaram a preocupar o Estado. As mães, portanto, precisavam ser convencidas a amamentar, através de um sedutor discurso de valorização da maternidade trazido por especialistas. Deste modo, a maternidade torna-se um papel gratificante quando passa a estar impregnada de ideal – sendo chamada ora de “nobre função”, ora de “nobre sacrifício” –, devendo a mãe ser a maior responsável pela saúde, desenvolvimento e felicidade dos filhos (Badinter 1985).
A ideia difundida entre os defensores da amamentação, na passagem do século XVIII para o XIX, era que as mulheres deveriam seguir os exemplos dos animais e amamentar seus próprios filhos. Voltar à natureza e suas leis era visto como a maneira mais segura de regenerar o Estado moral e economicamente. Jean-Jacques Rousseau, por exemplo, figura importante na campanha contra amas-de-leite na Europa, e autointitulado porta-voz da natureza, via na recusa das mães em amamentar a fonte da depravação e degeneração nacional. Entre diversos perigos físicos e morais, o caráter das crianças de classes altas poderia ser corrompido pelo leite das amas de classes inferiores, ao passo que, caso amamentasse seus próprios filhos, as crianças beberiam junto com o leite materno “seu caráter nobre, seu amor e sua virtude” (Schiebinger 1998, 238).
Também no Brasil, a medicina higienista no século XIX condenou as amas-de-leite e apontou no aleitamento materno a solução para as altas taxas de mortalidade infantil do país. A medicina higienista se valia, sobretudo, de uma perspectiva moralizante e determinista, com comparações exaustivas entre a mulher e as fêmeas de demais mamíferos, a partir das quais se extraía lições sobre a moral materna (Costa 1983). Tais discursos eram marcadamente racistas, já que, durante o período da escravidão no Brasil, o ofício das amas-de-leite era realizado principalmente por mulheres negras escravizadas. Assim, a promoção da amamentação do bebê por sua própria mãe, ao mesmo tempo em que o protegeria dos “perigos” transmitidos pelo leite, possibilitaria uma mudança na ordem familiar alinhada às propostas de modernização do país (Carula 2012; Langland 2019; Costa 1983).
Como observa Martha Freire (2008), neste processo, a visão de que a maternidade era a função primordial das mulheres associou-se a uma valorização social da ciência. Assim, a ciência foi acionada na conformação de um determinado modelo de maternidade, que seria ao mesmo tempo um instinto inerente à natureza feminina, uma missão divina e um dever social. Apoiados em preceitos da higiene, médicos se atribuíram a tarefa de preparar as mulheres para o exercício da maternidade segundo a racionalidade científica, contribuindo para a redefinição dos papeis femininos e a configuração do papel social da mãe moderna (Freire 2008).
Neste sentido, Almeida (1999) observa que a forma hegemônica de pensar o conhecimento científico, fez com que o paradigma de amamentação estabelecido no Brasil fosse marcado pelo reducionismo biológico. Assim, é possível afirmar que, na atualidade, ainda que com pesos e enfoques distintos daqueles da medicina higienista, a amamentação continua tendo destaque no imaginário do que se constituiria uma “boa mãe”.
Mais recentemente, em sua tese sobre discursos oficiais de promoção e orientação ao aleitamento no Brasil, Irene Kalil (2015) observou como a amamentação continua sendo tratada como um imperativo, no qual caberia à mãe, pelo bem irrefutável de seu bebê, amamentar. Ao concentrar a atenção no incentivo à prática e valorização de seus benefícios, os discursos oficiais secundarizam seus aspectos subjetivos. Além disso, como afirmam Cadoná e Strey (2014), a ideia de que uma boa mãe deve amamentar – pois amamentar é “muito mais do que alimento”, é “dar ao bebê saúde em forma de amor” – está presente em diversas campanhas recentes de incentivo à amamentação, elaboradas pela Sociedade Brasileira de Pediatria e pelo Ministério da Saúde. No mesmo sentido, Ana Nakano (2003) observa como a amamentação – engendrada em um universo moral em que maternidade é vista como um sinônimo de dever, responsabilidade e resignação – se constituiria emblematicamente como condição para ser uma “boa mãe”, ao dar “o melhor para o bebê”. Tais noções, fortemente moralizadas, conformam o que chamamos no início deste artigo de uma “ressacralização da maternidade”. Nos contextos europeu e norte-americano, esse ideário de maternidade tem sido chamado de diferentes denominações, como “maternidade natural”, “intensiva” ou “total”, (Hays 1996; Wolf 2007; Bobel 2002).
Maternidade, amamentação e feminismos
É possível verificar uma espécie de “nó” na discussão sobre maternidade e feminismos e, mais especificamente, entre feminismos e amamentação. No que diz respeito à relação mais ampla, Lucila Scavone (2001) organiza esquematicamente três diferentes posicionamentos sobre o tema. No primeiro, a maternidade seria vista como um “handicap”, ou “defeito natural”, que confinaria as mulheres a uma posição de subalternidade. Seria necessário, portanto, recusar a maternidade em busca da libertação feminina. Em um segundo posicionamento, a ideia de “handicap” é negada, e a maternidade é considerada um valioso poder feminino. Já no terceiro, informado pela perspectiva dos estudos de gênero, a dominação de um sexo sobre o outro seria explicada social, e não biologicamente – isto é, o problema não seria a maternidade em si, mas a forma como o trabalho de cuidado e criação de filhos seria organizado socialmente. Embora Scavone apresente tais posicionamentos organizando-os como diferentes momentos (em um sentido temporal), consideramos que, devido aos crescentes movimentos de valorização do parto e da amamentação, houve uma reatualização deste segundo posicionamento.
Neste mesmo sentido, Adriana Piscitelli (2002) observa como diferentes correntes do pensamento feminista desenvolvidas a partir de 1960, embora compartilhassem de pressupostos em comum, apresentaram distintas percepções acerca das origens e causas das desigualdades entre homens e mulheres. Assim, para a corrente chamada de “feminismo radical”, que tem como principal representante a autora Shulamith Firestone, as origens da subordinação feminina estariam localizadas no processo reprodutivo. Por serem as mulheres a engravidar e amamentar, seriam prisioneiras da biologia, fato que as forçaria a depender dos homens. Para liberar a mulher seria necessário derrotar o patriarcado, o que só seria possível a partir do controle feminino sobre a reprodução, substituindo-a pela reprodução artificial.
Outro modo de abordar a discussão é pensar nas oposições entre uma corrente feminista que enfatiza a igualdade entre homens e mulheres, e outra, também chamada de “feminismo da diferença”, que valoriza especificidades femininas. Enquanto o “feminismo da igualdade” (também chamado em alguns contextos de “feminismo liberal”) recebe críticas por levar a alguns becos sem saída – pois, como ironiza Schiebinger, “apenas as mulheres têm bebês, mas espera-se que o parto ocorra exclusivamente aos finais de semana e feriados, para não perturbar o ritmo de trabalho cotidiano” (Schiebinger 2001, 23) –, o “feminismo da diferença” também pode ser criticado por um essencialismo, que reproduz estereótipos acerca da feminilidade2.
Longe de dar conta da discussão de forma exaustiva, ou de definir, de modo estanque, correntes e posicionamentos, nosso objetivo é chamar atenção para, de um lado, a tensão colocada pela maternidade e, por outro, para as diferentes perspectivas feministas que irão responder a esta tensão3.
Diferentes posicionamentos também permeiam a discussão específica sobre amamentação (ver Nucci 2024). Em revisão da literatura sobre o tema, Kalil e Costa (2014) identificam diferentes perspectivas, ora enquadrando a amamentação como um direito, ora como um dever da mãe em relação à saúde de seus filhos. Já para Orit Avishai (2010), a amamentação se encontra em uma espécie de encruzilhada, atravessada por ideais moralizantes de maternidade, campanhas de saúde pública, ativismos, disparidades econômicas e raciais4, contextos medicalizados e mercantilizados.
Outra autora que chama atenção para a complexidade da discussão é Glenda Wall (2001). Segundo ela, a amamentação pode ser encarada como uma experiência empoderadora, pois, considerando a intensa medicalização do corpo feminino e os escândalos da indústria de fórmula infantil em países do sul global5, amamentar seria um modo de ter controle sobre o próprio corpo, desafiar a hegemonia médica e boicotar a indústria da fórmula. Já por outro lado, como aponta Linda Blum (1993), a amamentação é uma experiência que exige intensa disponibilidade de tempo e dependência do bebê pela mãe, além de ser alvo frequente de argumentos biologizantes e deterministas, que podem ameaçar direitos sexuais e reprodutivos e servir para aumentar a culpa materna. Assim, tais fatores fazem com que o tema siga como alvo de grande desconfiança entre feministas.
É, portanto, partindo desta complexa relação, que procuraremos, a seguir, olhar para nosso material de análise e para o foco deste artigo: o desmame na perspectiva de consultoras de amamentação.
O tabu do desmame entre consultoras de amamentação
Ao analisar campanhas e materiais do Ministério da Saúde sobre amamentação, Kalil (2015) observa a produção de certos silêncios. Entre eles, destaca o desmame, tema tabu e praticamente inexistente nos materiais, relegado à mera transição do leite materno a outros alimentos, sem que sejam consideradas subjetividades e sentidos envolvidos neste processo. Nos raros momentos em que o desmame aparece, o termo remete ao abandono da amamentação através da oferta de leites artificiais e mamadeira. Isto é, o desmame aparece sempre em sua conotação negativa – o chamado “desmame precoce” –, como um problema de saúde pública que deve ser solucionado através de educação à saúde e leis de proteção à amamentação. Já o desmame como encerramento total de um processo “bem-sucedido”, por iniciativa da mãe ou do bebê, não é mencionado (Kalil 2015; Kalil e Aguiar 2017).
Em nossas entrevistas com consultoras de amamentação, algumas mencionaram que, justamente pela escassez de orientações sobre o tema, muitas mulheres se sentiam desamparadas no momento de desmamar seus filhos. Nas falas de algumas consultoras, se o papel delas seria ajudar no começo da amamentação, elas também não poderiam deixar as mães “abandonadas” no final. Além disso, como o trabalho de consultoria não é regulamentado no país, muitas se guiam pelo Conselho Internacional de Consultores(as) em Lactação (em inglês, IBLCE - International Board of Lactation Consultant Examiners). Tal conselho inclui no escopo de atuação dos profissionais o dever de “proteger, promover e apoiar” a amamentação da “preconcepção até o desmame”6.
Por conta disso, muitas consultoras passaram a atender quem buscasse ajuda não apenas para amamentar, mas para desmamar. Há, inclusive, no curso de formação para consultoras observado nesta pesquisa, uma aula específica sobre técnicas de condução de desmame.
Adjetivando o desmame: “gradual”, “gentil” e “respeitoso”
É preciso destacar que, tanto as técnicas ensinadas no curso, como as técnicas que as consultoras entrevistadas relatam seguir, não visariam qualquer tipo de desmame, mas um desmame que qualificam como “gradual”, “gentil” e “respeitoso”. Por isso, a idade ideal para iniciar a condução deste processo seria a partir de quando o bebê tenha completado, aproximadamente, 1 ano e meio7. Antes desta idade, por conta das necessidades do bebê, não seria feito um desmame, mas sim uma “troca” – por outros leites, mamadeiras e chupetas. Como explica uma das consultoras, este marco etário seria necessário:
Porque é quando a criança tem uma linguagem bem estabelecida. Mas o desmame, sem ser gradual ou gentil, ele pode ser realizado em qualquer fase da vida. Mas a gente [...] vai chamar de troca. Então, por exemplo, se uma mulher me procura com 8 meses porque ela quer desmamar, eu não tenho como ajudar ela a desmamar sem colocar uma mamadeira. Porque eu vou causar um trauma naquele bebê desnecessário. Eu vou tirar a forma dele sugar. Eu preciso oferecer outra coisa até 1 ano e meio mais ou menos, e essa coisa vai ser um bico de silicone. Então não é desmame, é troca. Então eu acredito que a criança tem que ter uma linguagem bem estabelecida pro desmame ser feito (Consultora 7).
O desmame “gradual” se distinguiria, portanto, da “troca” pela mamadeira – o “desmame precoce” retratado nos materiais do Ministério da Saúde, analisados por Kalil e Aguiar (2017). Ele se distinguiria também de um desmame “abrupto”, em que a mãe simplesmente pararia de dar o peito de uma hora para outra, muitas vezes lançando mão de subterfúgios como um esparadrapo ou algo de gosto ruim no mamilo, para que o bebê sinta desconforto ao mamar, rejeitando o peito.
O desmame “gradual” é realizado em diferentes etapas. Como a professora explica em seu curso, a primeira etapa seria a “organização” das mamadas, limitando-as a momentos específicos do dia. Para isso, são sugeridas atividades, técnicas e materiais (como livros infantis que tratem do tema). Em um momento seguinte, é feita a regulação das mamadas da noite. Embora a grande queixa que leve mulheres a buscar pela consultoria seja, em geral, justamente a privação de sono por amamentar de madrugada, esta não seria a primeira parte do processo. De acordo com a professora, o ideal é a criança entender primeiro o que se passa durante o dia, para que o desmame da madrugada funcione mais tranquilamente. Após a etapa noturna, as mamadas diurnas (que, como vimos, ficaram organizadas em momentos específicos do dia) são gradualmente suprimidas. Quando de fato todas as mamadas forem suprimidas, a professora sugere que seja feita algum ritual de despedida (que, segundo ela, serviria mais à mãe do que à criança), como uma sessão de fotos ou uma “Festa do mamá”.
Como nos foi relatado pela professora do curso, e por outras consultoras entrevistadas, não é incomum que mães procurem uma consultoria de desmame. Feitas as organizações iniciais das mamadas, e, principalmente, feito o desmame noturno, muitas seguem ainda amamentando por mais tempo do que inicialmente previam. Neste sentido, segundo elas, a consultoria de desmame ajudaria, em muitos casos, a prolongar a amamentação, limitando-a a momentos estabelecidos pela mãe, e não pela livre demanda do bebê.
2.2 Ativismo x consultoria
Ainda que as consultoras justifiquem que o desmame deva ser “respeitoso” e “gradual”, o tema é visto com ressalvas por muitas. Como observa a professora, em seu curso: “Antes as consultoras não falavam sobre desmame. Aqui no Brasil, até recentemente, o tema era visto como tabu, palavrão”. Nas entrevistas, ao serem perguntadas sobre isso, as consultoras marcavam a diferença entre o trabalho de consultoria e o ativismo:
Entrevistadora: Você acha que o desmame é um tabu entre as consultoras?
Consultora 6: Um pouco. É, sim. Acho que principalmente entre ativistas. As consultoras que vêm desse lugar de muito ativismo, em geral, têm uma birra muito grande com a questão do desmame, justamente, porque, né, tem essa ideia de que, poxa, a gente já tem uma média de amamentação tão baixa… [...] Inclusive, eu fui apedrejada na internet com um texto que eu escrevi sobre isso, […] por esse discurso de que “quem é ativista em amamentação de verdade não fala de desmame” (Consultora 6).
Eu acho que hoje, quando a consultora sabe que existe uma forma respeitosa de fazer o desmame, sem trauma, isso não é um tabu. Eu acho que é um tabu praquelas que acreditam que a mulher não tem direito de escolha (Consultora 7).
A fala acima marca uma diferença entre o que seria o ativismo e o que seria o trabalho da consultora – que deveria considerar o direito de escolha da mulher. Ao ser perguntada se ela se considerava uma ativista em relação à amamentação, uma das consultoras responde do mesmo modo, ressaltando esta diferença:
Sim. Mas dentro da escolha da mulher, né. Eu [...] sou ativista da mulher decidir pelo corpo dela. [...] Porque parece que se eu falar ativista da amamentação é, tipo, a qualquer custo, né. Então eu sou ativista da mulher, da autonomia dela, dela poder decidir sobre o que ela quer (Consultora 9).
Além disso, há nos discursos uma separação entre o ativismo que seria realizado na esfera pública – postagens em redes sociais, manifestações, rodas de debate –, mas que nunca deveria ser “levado para a casa” de quem a consultora irá atender:
Quando eu tô fazendo ativismo eu tô fazendo ativismo na esfera pública, pensando nas questões coletivas, sociais, culturais. Se eu tô atendendo uma mulher, eu sou uma consultora de amamentação, e eu vou dar apoio inclusive praquela mulher não amamentar, se esse for o caminho dela. Se for isso que ela estiver me demandando né? [...] Então, no momento em que eu estou atendendo, eu procuro deixar esse ativismo de lado (Consultora 6).
Eu não levo ativismo pra casa de quem eu vou atender, não mesmo. […] Eu tenho muito medo de me tornar aquela profissional que desempodera. Eu tô ali pra empoderar aquela mulher. […] Acho que se a gente entrar naquele lugar do especialista e ficar dizendo o que cada um tem que fazer, e a mulher tem que ficar se referindo a mim como quem diz pra ela o que ela faz e como ela cria o filho dela... Não. Ela vai saber como criar o filho dela, vai fazer todas as escolhas dela, desde que ela tenha acesso às informações corretas. Então é uma linha muito fina, você chegar ali militando, impondo, e você compartilhar uma informação, mas empoderando aquela mulher em fazer as próprias escolhas (Consultora 8).
Este é um ponto debatido em diversos momentos ao longo do curso de capacitação. Como nos explica a professora em entrevista:
No atendimento um a um não tem lugar pra nenhum ativismo, sob pena de me cegar em relação à demanda daquela mulher. [...] [Além disso] a família não estando bem, também não é bom do ponto de vista da saúde mental do bebê, sabe? Essas coisas é que acho que o ativismo não deixa a pessoa enxergar, né, que tem uma coisa antes da amamentação, que é o vínculo familiar. Que todo mundo precisa estar bem. Cada um sabe o seu limite, não é a consultora que sabe o limite do outro, a gente não sabe o limite de ninguém. E pode parecer a princípio que isso é desestimulante pra amamentação, mas eu de fato acho que, assim... [...] trabalho no mundo de possibilidade, não de ideais. Não tem isso, não tem ideal, não cabe ideal ali. Ideal pra quem? (Professora).
2.3 A questão da escolha: da mulher ou do bebê?
Há posições discordantes no movimento em prol da amamentação. Em posts publicados em redes sociais, por exemplo, encontramos muitas opiniões contrárias à consultoria de desmame. É importante destacar, porém, que tais posicionamentos não apareceram diretamente nas entrevistas realizadas, apenas na menção a “outras consultoras” ou “ativistas”, como vimos nas falas da seção anterior.
Podemos explicar essa maior homogeneidade nos posicionamentos entre entrevistadas, tanto pela quantidade de entrevistas, como por um possível viés ocasionado pela estratégia metodológica – que se utilizou da técnica de bola de neve, em que cada consultora poderia sugerir outros nomes para serem entrevistados, indicação esta, provavelmente guiada por afinidades pessoais, e também teóricas e políticas. Entretanto, outra explicação possível de ser pensada, em conjunto à primeira, é uma maior modulação do discurso nas entrevistas, em comparação com o acirramento de controvérsias que geralmente se dá em redes sociais. Assim, em nossa pesquisa, complementamos o material analítico com a coleta de postagens públicas em redes sociais8, de ativistas e consultoras sobre amamentação, com o objetivo de refletir sobre as diferentes concepções sobre o desmame.
Um aspecto que chama atenção é que, tanto nas críticas, como na defesa do trabalho de consultoria de desmame, a ideia de “escolha” é fortemente valorizada. Vimos acima as palavras da consultora 7: “Eu acho que [o desmame] é um tabu praquelas que acreditam que a mulher não tem direito de escolha”, e da consultora 9: “eu sou ativista da mulher, da autonomia dela, dela poder decidir sobre o que ela quer”. Mais abaixo, lemos a afirmação da consultora 8: “Ela vai saber como criar o filho dela, vai fazer todas as escolhas dela, desde que ela tenha acesso às informações corretas”.
As opiniões contrárias acionarão a categoria “escolha” de outra forma:
O que ninguém te conta é que para a maioria das pessoas a maternidade é MUITO difícil e a amamentação IDEM! Fazer dar certo é uma escolha ativa e diária, dependente de inúmeros esforços, estudos, sacrifícios. E muitas vezes relativizamos algumas escolhas cujas evidências se mostram prejudiciais ao bebê alegando que ele estará bem se a mãe estiver bem, [e] não é bem assim que acontece! (post 1).
Observamos também uma possível oposição entre “escolhas” e “evidências”, ou seja, em certos momentos, as evidências (científicas) podem se chocar com as escolhas da mãe. Trata-se de uma tensão entre escolha da mãe e necessidade do bebê. O importante aqui é assinalar que a escolha pela amamentação deve ser “ativa e diária”, dependendo de “inúmeros esforços, estudos, sacrifícios”.
A autora do post continua sua argumentação, apontando a possível incompatibilidade entre o conforto da mãe e o bem-estar do bebê, insistindo na potencial necessidade do sacrifício materno:
Eu sempre digo que eu gosto de amamentar, mas que se eu não gostasse, eu amamentaria do mesmo jeito, por estar absolutamente convencida da sua importância em todos os aspectos da vida do meu filho em curto, médio e longo prazo! Por isso, diante da responsabilidade de colocar um ser humano no mundo, eu faria qualquer escolha que pudesse trazer esse nível de benefícios, mesmo que isso signifique inúmeros sacrifícios para mim. (post 1).
Ou seja, caberia à mãe escolher, porém, dentro dos limites colocados pelas evidências científicas, pensando sempre na saúde, felicidade e bem-estar do bebê – estando sua própria felicidade e bem-estar subordinados a ele.
Nos posts da internet, as consultoras que trabalham o desmame são acusadas de interesse econômico:
Desmame virou um comércio e a criança não é enxergada por essas pessoas. É a história do feminismo liberal lucrando sobre a vulnerabilidade materna. A consultora vende seu produto, é contratada, precisa entregar resultado e fazer o desmame acontecer. E a criança? (post 2).
A falácia do “meu corpo minhas regras”: [...] Não é seu corpo suas regras, quando este discurso serve para o lucro. [...] Quanto mais bebês desmamados, mais lucro. [...] Não existe ‘meu corpo, minhas regras’, quando seu corpo é objetificado, e as regras vão servir ao patriarcado. (post 3).
Não deixe ninguém colocar neura na sua cabeça de que o seu desmame precisa ser conduzido, gradual ou como dizem, "gentil". Ha muitas intenções financeiras por trás dessas induções ao desmame. É sutil. Livros de desmame sendo lançados, cursos pra formar consultora de desmame, maior demanda por ajuda pra desmamar. (post 4).
É possível ver acima, também, uma crítica ao “feminismo liberal” (do qual, supostamente, as consultoras que atenderiam o desmame seriam representantes), e sua noção de libertação e autonomia do corpo feminino. Nesta crítica, tais noções, resumidas em palavras de ordem como “meu corpo, minhas regras” – ou, parafraseando, “meu peito, minhas regras” – visariam lucros e serviriam ao patriarcado, além de deixarem de lado as necessidades do bebê. Deste modo, embora não seja nosso objetivo aqui categorizar posicionamentos de consultoras e/ou ativistas em relação a uma ou outra corrente feminista, é possível afirmar que a crítica ao trabalho de consultoras com desmame se assenta em críticas mais amplas a perspectivas como as do “feminismo liberal” ou “feminismo da igualdade”, e suas noções sobre corpo e autonomia.
Nas postagens críticas ao desmame conduzido, outro aspecto que observamos é a valorização do chamado “desmame natural” – isto é, um desmame “no tempo do bebê”, “espontâneo”, sem uso de mamadeiras ou chupetas e sem a intervenção direta da mãe ou de uma consultora. Como é possível ver nos trechos abaixo, o “desmame natural” é descrito como o ideal, e a natureza como positiva (linda e sábia):
Conecte-se com seu filho, e o peito é uma forma de conexão. [...] Não force situações. A natureza é linda e sábia, é lindo vê-los se desenvolvendo no tempo deles, de forma natural (post 4).
Você não precisa esperar um desmame natural se não quiser, mas pode saber que ele existe. E você pode observar os sinais do seu filho, esperar que ele esteja pronto pra um desmame que não traga sofrimento. Para isso ele precisa FALAR BEM e COMPREENDER. Algo bem difícil antes de 2 anos e meio, 3 anos (são bebês até 3 anos). [...] Seremos mães a vida toda, e eles só serão bebês agora. (post 5).
Por fim, vejamos o seguinte post:
Achei uma consultora de desmame e me senti apoiada em fazer o desmame gentil. Eu não enxergava o fator mais importante da amamentação: a vontade da criança.
A [minha filha] não estava pronta para ser desmamada. E deixo a pergunta vaga no final desse post: DESMAME GENTIL PRA QUEM?
Todo desmame antes dos dois anos é precoce e não existe desmame gentil com uma criança que não queria desmamar (post 6).
Voltamos aqui ao que nos referimos como uma tensão entre a mãe e o bebê. Nos discursos críticos ao desmame conduzido, portanto, expressa-se a ideia de que é preciso ouvir “a vontade da criança”, procurando entender e levar em conta sua subjetividade. Esse tipo de atitude, por sua vez, implicará na produção de um certo tipo de pessoa9 – no caso, indivíduos dotados de autonomia e compreensão de seus próprios interesses. Ou seja, vemos operar, junto ao ideal de natureza sábia, um ideal em torno da criação e educação dos filhos, que se apoia em normas que procuram produzir um ser individualizado, dono de suas próprias aspirações.
Considerações finais
Como procuramos salientar neste artigo, há uma espécie de “nó” nas discussões sobre maternidade e feminismos e, mais especificamente, entre feminismos e amamentação. Trata-se de um debate que revela perspectivas que nem sempre dialogam entre si. Em resumo – como argumentamos a partir de trabalhos como de Badinter (1985), Blum (1993), Avishai (2010), Kalil e Aguiar (2017), entre outras – a amamentação é uma questão paradoxal para o feminismo. Por um lado, há o risco de essencialismo biológico, do reforço de um conservadorismo no papel da mulher e de culpabilização da mãe. Por outro, a prática pode ser encarada como uma realização prazerosa de uma capacidade corporal, exercício de um direito reprodutivo, além de uma oposição à medicalização e mercantilização – como aquela realizada pela indústria do leite em pó e seu marketing agressivo. Independente do enquadre, é importante salientar que a prática é sempre atravessada por contextos específicos, políticos, econômicos e sociais, precisando ser conectada a discussões mais amplas sobre raça e classe.
Tal paradoxo em torno da amamentação também se apresenta na controvérsia do desmame entre consultoras, analisada por nós. As discordâncias em torno da idade ideal em que o desmame deve acontecer, se ele pode ser conduzido pela mãe ou se deve partir “naturalmente” do bebê, e se a consultora pode ou não orientar este processo, revela diferentes concepções em torno de gênero e maternidade, natureza e cultura, e diferentes concepções de feminismo e autonomia.
Neste debate, como vimos, a ideia de “escolha” é valorizada por ambos os lados, ainda que de modo diferente. Ainda que exista, em ambas as perspectivas, um esforço em considerar “aspectos sociais” que possam influenciar as escolhas, condicionantes econômicos e socioculturais são tratados sem grandes nuances, tendo como pano de fundo uma lógica neoliberal. Assim, a partir das “informações corretas” a mulher deve decidir aquilo que é melhor para si, e/ou para seu filho – estando essas dimensões, muitas vezes, supostamente, em oposição. Cabe nos perguntarmos, portanto, como isso tudo pesa e conforma a agência do par mãe-criança. Como podemos pensar sobre a ideia de “escolha informada” – tão fortemente valorizada nos discursos atuais sobre maternidade, parto e amamentação – uma vez que há sempre imperativos morais conformando as escolhas?
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1
É preciso destacar que o Brasil, desde 1998, conta com uma rede de Bancos de Leite Humano (BLH) considerada referência no mundo (ver Almeida 1999), que atua na orientação e apoio ao aleitamento. O trabalho das consultoras seria diferente dos BLH, por um lado, por acontecer através de consultas privadas, na maioria das vezes no domicílio das mulheres (e, por isso mesmo, restritas às camadas médias e altas). Outra diferença importante é sua relação, de origem, com grupos de apoio mútuo à amamentação e outras formas de ativismos ligados ao aleitamento. Discutimos estas particularidades em Nucci e Russo (2021).
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2
Para mais sobre o feminismo da diferença, ver, por exemplo, Rohden (1996).
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3
Vale mencionar que, mais recentemente, há um amplo debate ligado à transexualidade – uma vez que homens trans também engravidam, gestam, parem e amamentam. Não será possível entrar nesta discussão aqui.
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4
É importante observar que a amamentação é uma prática que exige grande disponibilidade física da mulher – principalmente considerando as recomendações de amamentação em livre demanda. Assim, fatores econômicos e sociais influenciam sua prática, evidenciando desigualdades de classe e raça.
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5
Na bombástica publicação “The baby killer”, Mike Muller (1974) demonstrava como o marketing das indústrias de leite em pó elevava índices de mortalidade infantil em populações pobres de países da África, Ásia e América, por conta da diarreia e desnutrição causadas pela baixa higiene e água contaminada utilizada no preparo de mamadeiras. A publicação causou grande impacto, fazendo com que a OMS e a UNICEF iniciassem mobilizações em todo o mundo com a finalidade de valorizar a amamentação (Almeida 1999).
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6
Ver em IBLCE (2025).
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7
Entre consultoras, não há uma determinação precisa de quando a designação “bebê” deva ser substituída pelo termo “criança”. “Bebês” podem ter um ano e meio, dois, ou até mesmo três anos. É comum também que a idade seja expressa em meses, como, por exemplo, “um bebê de 24 meses”. Verificamos, porém, que algumas consultoras começam a utilizar o termo “criança” no marco temporal de 1 ano e meio, para frisar seu crescimento que possibilitaria a passagem para outra “fase” na relação entre mãe e filho.
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8
Mantivemos o anonimato das autoras das postagens, da mesma forma que não nomeamos as entrevistadas. Além disso, ainda que no campo das consultoras exista, notadamente, figuras-chave mais conhecidas, procuramos não deter nossa análise em pessoas específicas, mas na pluralidade de enquadres e posicionamentos.
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9
Para esta discussão, ver Mauss (2003b).
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Declaração de dados:
Todos os dados estão disponíveis no texto.
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