Resumo
Resumo As plataformas digitais de busca de parceiros são permeadas por manifestações implícitas e explícitas de aversão, subjugação e preconceito com gays considerados afeminados. Este estudo objetivou compreender as implicações na saúde mental de gays afeminadas(os) usuárias(os) do Grindr. Foram realizadas 12 entrevistas abertas, mediadas e gravadas por plataformas digitais, posteriormente transcritas e submetidas à análise de conteúdo temática. Os resultados constataram que subjugação e discriminação contra gays afeminadas(os) no ambiente digital acarretam implicações na saúde mental e situações de violências psicológicas. Ademais, evidencia-se estratégias de enfrentamento e preservação construídas frente à afeminofobia e atribuição pessoal valorativa à identidade afeminada, representando produção de ranhuras nas monolíticas normatizações acerca do gênero e das masculinidades.
Palavras-chave:
homossexualidades; masculinidades; afeminofobia; ambiente digital; saúde mental
Abstract
Abstract Digital partner-seeking platforms are permeated by implicit and explicit manifestations of aversion, subjugation, and prejudice against gay men considered effeminate. This study aimed to understand the implications for the mental health of effeminate gay users of Grindr. Twelve open interviews were conducted, mediated and recorded through digital platforms, later transcribed and submitted to thematic content analysis. The results found that subjugation and discrimination against effeminate gay men in digital environments led to mental health implications and psychological violence. Furthermore, coping and preservation strategies developed in response to effeminophobia and personal value attribution to effeminate identity were evidenced, representing the production of cracks in the monolithic normatizations of gender and masculinities.
Keywords:
homosexualities; masculinities; afeminophobia; digital context; mental health
Resumen
Resumen Las plataformas digitales de búsqueda de parejas están permeadas por manifestaciones implícitas y explícitas de aversión, subyugación y prejuicio hacia los gays considerados afeminados. Este estudio tuvo como objetivo comprender las implicaciones en la salud mental de gays afeminadas(os) usuarias(os) de la plataforma de citas Grindr. Se realizaron 12 entrevistas abiertas, mediadas y grabadas por medios digitales, posteriormente transcritas y sometidas a análisis de contenido temático. Los resultados constataron que la subyugación y la discriminación contra gays afeminadas(os) en el entorno digital conllevan implicaciones en la salud mental y situaciones de violencias psicológicas. Además, se evidencian las estrategias de afrontamiento y preservación construidas frente a la afeminofobia, así como una atribución valorativa personal hacia la identidad afeminada, lo que representa la producción de boquetes en las monolíticas normatizaciones acerca del género y las masculinidades.
Palabras clave:
homosexualidades; masculinidades; afeminofobia; ambiente digital; salud mental
Introdução
Contemporaneamente a conectividade em rede integra significativamente o cotidiano e as interações interpessoais. As redes comunicacionais online reformulam, ampliam e desenvolvem novos arranjos interacionais e de sociabilidade (Nicolaci-da-Costa 2002; Miskolci 2017). Nesta conjuntura, surge e se expande plataformas digitais para busca de pares para relações afetivas e/ou sexuais. Para pessoas homossexuais, constituíram-se como uma possibilidade interessante e atrativa de encontrar potenciais parceiros sem exposição a sanções sociais no ambiente público (Miskolci 2017; Kurashige 2014).
Nesse contexto, destaca-se o Grindr, aplicativo pioneiro, muito conhecido e majoritariamente utilizado por homens que se relacionam afetiva e/ou sexualmente com outros homens, como possibilidade de alcançar potenciais parceiros e estabelecer relações. Segundo seu site oficial, o Grindr foi lançado em 2009 e é voltado a gays, bissexuais, transexuais e pessoas queer1, e dispõem de geolocalização facultando o contato a partir da proximidade entre usuários(as)(es), e atualmente possui milhões de usuários(as)(es) em várias partes do globo (Grindr 2026).
O Grindr, assim como outros ambientes digitais similares, é permeado pelo enaltecimento dos ideais de masculinidades hegemônicas, pautados na virilidade, força, dominação, comportamentos másculos, preconceituosos e machistas (Sousa et al. 2020). Tais masculinidades são partícipes do regime da paquera, logram status valorado e operam na subalternização de outras expressões de masculinidades, como no caso de homens cujos signos identitários são associados aos estereótipos de feminilidade, o que culmina em manifestações explícitas e implícitas de aversão, recusa, subjugação e preconceito (Braga 2013; Miskolci 2017; Eccel et al. 2015; Corrêa e Cruz 2019; Saraiva et al. 2020; Beltrán 2019).
A estigmatização e manifestação de preconceitos com pessoas genereficadas como homens que integram em si comportamentos e/ou traços socialmente considerados femininos, foi conceituado por Eve Sedgwick (1993) de afeminofobia. Tal preconceito ocorre de forma velada e explícita, e de igual modo nos ambientes digitais, como aqueles destinados à busca de relações afetivas e/ou sexuais. As interações online reproduzem preconceitos, estereótipos e significados de uma sociedade mais ampla, além de favorecerem a construção de novos arranjos de manifestação, uma vez que dispõem de signos comunicacionais próprios (Miskolci 2017).
No que concerne ao conceito de gênero, a presente pesquisa se guiará por uma perspectiva construcionista e não essencialista. Historicamente, o gênero foi construído sob bases biologicistas e naturalistas, reduzindo-o a suposta diferenciação anátomo-fisiológica, e circunscrevendo duas opções bem delimitadas: homem/mulher, masculino/feminino (Butler 2020). Em cada construto são determinadas e esperadas certas expressões e comportamentos, ou seja, para as pessoas generificadas como homens há um arcabouço de signos de masculinidades estabelecidos, assim como em relação às mulheres e às feminilidades (Connell e Pearse 2015).
O gênero é engendrado no seio de processos de significação históricos, culturais e políticos. Incluindo, para tanto, todas as pessoas de modo abrangente e suas múltiplas conexões, hierarquias e relações de poder (Scott 1995; Butler 2020; Connell e Pearse 2015). Em conformidade, o conceito butleriano de performatividade compreende que o discurso acerca das identidades de gênero, constroem aquilo que nomeiam, dito de outro modo, as pessoas ao performar os atributos das categorias prescritas “mulher/feminino” e “homem/masculino”, criam e retroalimentam as normatizações dos próprios construtos que performam (Butler 2020).
Como visto, numerosos são os estudos, nos ambientes digitais de busca de parceiros, principalmente o Grindr, que evidenciam (re)produções de ideários de masculinidade e afeminofobia (Miskolci 2017; Eccel et al. 2015; Corrêa e Cruz 2019; Saraiva et al. 2020), assim como apontam para a possibilidade de implicações subjetivas negativas e/ou sofrimentos (Saraiva et al. 2020; Beltrán 2019). Partindo desses apontamentos, o presente artigo objetivou compreender as implicações na saúde mental de pessoas que se autodeterminam homossexuais e que se identificam como afeminados(as), usuários(as) do Grindr.
Para os objetivos elencados, fez-se necessário também apreender os usos desse espaço digital, suas dinâmicas, experiências e percepções, bem como se presentifica os preconceitos baseados na expressão de gênero. Considerando que gays não afeminados e/ou aqueles que buscam encontros sigilosos nas plataformas, costumam se descrever como sujeitos “discretos e fora do meio”, conforme apontam os colaboradores de Miskolci (2017), o título deste estudo buscou parodiar essa descrição.
Diante do contexto social que deslegitima vivências não cisheteronormativas, marcado por preconceitos, sanções sociais e violências diversas com as pessoas LGBTQIAPN+, justificam-se pesquisas, inclusive no contexto virtual, que se dediquem a apreender as implicações na saúde mental dessa população, com isso almejando construir substratos para intervenções em diversos âmbitos, além de ampliar os estudos acerca da relação entre gênero, sexualidade e saúde mental.
Caminho teórico e metodológico
A delimitação do objeto de estudo é política e teórica, ao passo que pretende analisar as experiências de pessoas que caminham nas linhas das fronteiras do gênero, apreender as cotidianidades daqueles(as) que rompem com a rigidez dos papéis de gênero preconizados pelo binarismo hegemônico masculino/feminino e lançar um olhar para as relações de poder presentes nas questões de gênero e sexualidade.
O presente estudo nasce da pesquisa intitulada Indiscretos(as) e dentro do meio: Subjetividades de homossexuais afeminados usuários do Grindr, aprovada pelo comitê de ética em pesquisa sob o CAAE: 50020921.4.0000.5115. A captação de colaboradoras(es) foi realizada por meio da divulgação de um informativo gráfico nas redes sociais Facebook e Instagram, juntamente com um formulário eletrônico de manifestação de interesse, que facultou o contato com as pessoas interessadas e agendamento das entrevistas.
Foram realizadas entrevistas individuais com duração aproximada de trinta minutos cada, mediadas e gravadas por videochamada através de tecnologias de comunicação. Adotou-se a entrevista aberta, pois essa modalidade permite às pessoas entrevistadas falarem de forma livre sobre o tema, e permite o aprofundamento de reflexões (Minayo 2014; Minayo et al. 2016). As entrevistas foram iniciadas com questões relativas às experiências gerais de ser homossexual e se identificarem como afeminada(o), e após eram introduzidas e aprofundadas questões relativas aos ambientes digitais de busca de parceiros.
A amostra foi composta por 12 pessoas que se autodeterminam homossexuais, das quais 11 se identificam como afeminadas(os) e uma (1) não, mas que por ser constantemente compreendido como nas interações online, manifestou interesse em colaborar. Em relação à identidade de gênero, nove (9) se identificam como homens cisgênero, três (3) como pessoas não binárias e uma (1) se identifica tanto como uma pessoa queer, como homem cisgênero. Em relação à autodeterminação raça/cor, duas (2) se autodeclaram como negras, duas (2) pardas e oito (8) se autodeclaram brancas. As idades variaram entre 20 e 34 anos, sendo a média 24,8 anos (DP = 3,6).
A pesquisa circunscreveu o território brasileiro, e contemplou os seguintes estados: Minas Gerais (5), São Paulo (2), Ceará (1), Paraná (1), Rio de Janeiro (1), Rondônia (1), Paraíba (1). Devido à natureza qualitativa e à adoção do critério de saturação, isto é, a interrupção da inclusão quando as informações das entrevistas começam a apresentar regularidades (Minayo et al. 2016), não foi possível contemplar todos os estados brasileiros e o Distrito Federal.
Considerando a matriz de compreensibilidade cultural binarista, que possui como sustentação a suposta determinação anátomo-fisiológica (Butler 2020), as pessoas que colaboraram na pesquisa, em algum momento de suas histórias de vida, foram alocadas no sexo/gênero homem/masculino. No decorrer do artigo serão utilizados nomes fictícios escolhidos pelas pessoas interlocutoras, preservando o anonimato. Nas menções e nas unidades de registro (os fragmentos das entrevistas analisados) a flexão textual de gênero será singularizada, respeitando a preferência de cada pessoa.
As entrevistas, antes e após as gravações, contaram com diálogos entre o primeiro autor e as pessoas interlocutoras, permitindo a exposição de curiosidades acerca do foco e objetivos da pesquisa, a manifestação de interesse aos produtos da pesquisa, assim como propiciou outras partilhas. Estes elementos, somados à rápida manifestação de interesse em colaborar com a pesquisa, evidenciam, em alguma medida, a necessidade e a relevância de estudos que se dediquem a compreender as implicações de ser quem é em um contexto opressivo e preconceituoso, como veremos.
Os dados foram submetidos à análise de conteúdo temática, que analisa as comunicações e visa obter indicadores que permitam traçar inferências válidas sobre os dados de uma determinada comunicação. Tal metodologia compreende um conjunto de técnicas sistemáticas e objetivas que procuram “[…] conhecer aquilo que está por trás das palavras sobre as quais se debruça” (Bardin 2011, 50). Em consonância, Minayo (2014) afirma que a análise de conteúdo temática objetiva descobrir, dentro das falas, os sentidos que compreendem os elementos da comunicação, isto é, os núcleos de sentidos contidos. Os recortes dos trechos das entrevistas representam as unidades de registro, que facultaram a construção dos núcleos de sentido. Na pré-análise e constituição do corpus foi utilizado o softwareMaxQda (2021) versão 2022, que auxilia no processo de categorização da análise de conteúdo textual, além de facilitar o processo de criação de códigos e categorias, além da otimização do tempo (Nodari et al. 2014).
A fim de contribuir na compreensão de gênero e das masculinidades, a pesquisa dispõe dos campos do saber que compreendem o cistema2 de gênero segundo uma perspectiva construcionista e não naturalista (Scott 1995; Butler 2020; Connell e Messerschmidt 2013; Connell e Pearse 2015; Oliveira 2004). Segundo essa perspectiva, gênero é uma construção social e cultural, que se constitui nas relações entre pessoas e sociedade, assim como uma categoria analítica, um terreno marcado por relações de poder, um fator constituinte das relações sociais, além de envolver outros elementos, como um arcabouço de símbolos culturais e de identidade subjetiva (Scott 1995).
Os marcos identitários de gênero são gestados discursivamente no seio das relações de poder e determinam o próprio construto que nomeiam. Há um conjunto de prescrições que são desejadas na performance do masculino, assim como para o feminino. Contudo, a despeito das normatizações e imposições sociais, as pessoas constroem as próprias identidades, ora negando as prescrições sociais, ora borrando seus limites (Butler 2020).
Tal perspectiva se debruça na contestação e no questionamento de identidades de gênero estáveis, definidas, determinadas e hegemônicas, lançando olhar para as construções subversivas, que rompem com as demarcações e atributos sancionados e prescritos. Alinhado a essa perspectiva a presente pesquisa se norteará pela concepção de identidades, como entidades múltiplas, complexas, não determinísticas e não essencialistas, e como um conjunto de elementos construídos singularmente (Butler 2020).
Inspirada por este pensamento, a presente pesquisa no âmbito dos construtos identitários de gênero e no percurso de suas rupturas, vai ao encontro das subversões da identidade de homens homossexuais, das Bixas, dos Viados e das Pocs3 que a despeito das prescrições do masculino, performam elementos que são considerados e esperados do feminino. Nesse sentido será utilizado o adjetivo afeminado, fazendo menção a construção identitária pessoal que assimila arcabouços e atributos socialmente considerados do feminino.
Resultados e discussões
Os resultados e as discussões serão apresentados a partir dos eixos: o primeiro momento compreenderá experiências e percepções nas interações em aplicativos de busca de parceiros; em seguida, serão apresentados os elementos das interações online que repercutem negativamente na saúde mental, bem como as violências sofridas; depois serão discutidas as inflexões em relação à própria identificação como gay afeminada(o); por último, serão apresentadas as estratégias de enfrentamento e de preservação da saúde mental construídas diante da afeminofobia.
“O aplicativo, considero ele um lugar tóxico”: percepções sobre o Grindr
Esta seção reúne percepções das pessoas colaboradoras de elementos presentes no Grindr, e que fazem coro aos resultados de outras pesquisas que possuem o mesmo lócus de estudo. Inicialmente será apresentado o processo de inserção, no período de realização da pesquisa, ano de 2022, para maior compreensão das configurações, dinâmicas e funcionalidades da plataforma.
Instalada a versão gratuita do aplicativo, exige-se um registro para criação da conta/perfil. Após o registro, inicia-se a edição do perfil, no qual faculta adicionar ou não, nome, fotos, e se sua idade e distância poderão ser visíveis para as(es)(os) demais usuárias(es)(os), bem como outras características, pretensões e práticas. A mídia digital possui restrição de uso para pessoas abaixo da maioridade legal, no caso do Brasil abaixo dos 18 anos. Contudo durante esse período de imersão na plataforma, não possuía exigência de comprovação etária, o que possibilitaria a utilização, sem entraves, por pessoas menores de 18 anos4.
A edição do perfil permite a modificação e/ou acréscimo de informações como aspectos físicos, altura, peso e etnia, assim como outras características como “posição” (que faz menção às preferências no ato sexual5) e “tribos”6 (características diversas, sejam elas físicas, culturais, étnico-raciais, da personalidade e identidade, orientação sexual, gênero e sobre a saúde). Observou-se no período da realização destas análises, a ausência de signos que faziam menção direta a traços identitários femininos. O que não se mantém nos anos posteriores, exprimindo novas propostas do aplicativo, pluralizando características identitárias e de expressões de gênero, como por exemplo a adição das “tag’s”7 afeminado, drag e lingerie, que expressam atributos femininos.
Tais características, dentre outras, se constituem como mediadores e como filtros de seletividade nas interações. A lógica de seletividade, núcleo de sentido apreendido, aponta para crivos de eleição e exclusão, como são evidenciados nas falas: “[...] você entra lá e parece que ele tá escrevendo um cardápio, sei lá, um, é um checklist né, tem que ser isso, [...] não pode ser peludo, é, não pode ter tal coisa, é um checklist né” (Mascarenhas, 32 anos); “[...] são aplicativos de pegação e de sexo né, então é um grande mercado de carne praticamente assim, e daí é um catálogo, você escolhe e manda uma mensagem né, e daí, eu acho que é um ambiente que objetifica muito mais todo mundo que tá lá” (Wagner, 25 anos).
Outros núcleos de sentido apreendidos dizem respeito à centralidade dos aspectos físicos e à configuração relacional centralizada na busca de relações sexuais. O foco no aspecto corpóreo é notório nas interações e no regime de visibilidade sexual, como um elemento mediador da paquera na busca de potenciais parceiros. Evidenciando uma limitação à dimensão anatômica que aponta para a presença de uma espécie de reducionismo materialista, e como refletem Crist e Hennigen, configuram-se como “processos de hierarquização dos corpos” (Crist e Hennigen 2022, 12), sinalizando para objetificação, classificação, seletividade e ideários segregacionistas. Para Wagner (25 anos), essa lógica produz inseguranças diversas, como apresenta a unidade de registro:
[…] mexe muito mais com as inseguranças todas, com relação ao corpo, com relação a sexo, e com relação a ser afeminado, então eu acho que quando cê entra e fica vendo as pessoas, aí exigindo que seu corpo seja de um jeito x, y ou z, e que você não seja afeminado, e que você não seja gordo, e que você não seja negro, e que você não seja baixo, e que você, sabe, daí eu acho que vai trazendo à tona muitas inseguranças (Wagner, 25 anos).
Nas interações online nas plataformas de paquera há uma dimensão mercadológica na seleção dos potenciais parceiros, na qual se negociam os atributos hegemônicos de masculinidade. Essa lógica é evidenciada por Braga (2015), que destaca a simetria esperada entre alguns usuários em relação aos atributos de tais masculinidades. Nas interações mediadas pelo Grindr são permeadas de ideários de masculinidade hegemônica, tais como virilidade, força, dominação, comportamentos másculos e afastamento de atributos considerados femininos (Connell e Messerschmidt 2013; Miskolci 2017), elementos que encontram confluência aos ditames cisheteronormativos (Paranhos e Costa 2022). O interlocutor Ney (20 anos) apresenta sua percepção sobre este imagético de masculinidade máscula presente na plataforma:
[…] a própria plataforma [...] se vende a partir de um imagético másculo né, então se você vai por exemplo, no aplicativo pra baixar, cê vai ver fotos de caras que são, né, malhados, são aparentemente másculos, cê não vê um cara tipo, sabe de cabelinho rosa e magrinho usando uma saia, tá ligado? cê vai ver um padrão (Ney, 20 anos).
Destaca-se o enaltecimento e valorização de signos de masculinidades hegemônicas, principalmente a atributo másculo. As masculinidades hegemônicas, sustentam-se em símbolos que servem como exemplos, como modelos que “[…] expressam, em vários sentidos, ideais, fantasias e desejos muito difundidos” (Connell e Messerschmidt 2013, 253). Em contraponto às masculinidades hegemônicas, as demais identificações e/ou expressões de masculinidade, que destoam desse ideário, são alocadas em posição subalterna (Kimmel 1998; Connell e Messerschmidt 2013).
Na estante de perfis dispostos nas telas dos celulares, é evidente a aversão, exclusão e rejeição às(aos) gays afeminadas(os) - alocadas como masculinidades subalternizadas - que se materializa textualmente nas descrições dos perfis, como relata Mascarenhas (32 anos): “[…] a pessoa, ela cria um perfil, e aí ela já coloca lá nas características que não quer contato com homens afeminados”. Em relação a construção dos perfis dos demais usuários que expressam a recusa e/ou a não desejabilidade por afeminados(as), é manifesto também pelas unidades de registro:
[…] é sempre assim, não curto isso, isso, isso e afeminados, e assim eu percebo que afeminados quase sempre, tá entre outras características, outros grupos, que, assim, como eu posso dizer?, que quase como se o afeminado estivesse no mesmo nível de nojo que esses outros grupos possam causar, sabe? (Nina, 26 anos).
[…] as vezes ela vem de uma forma mais velada né, tipo no "discreto procura os discretos", ou tipo "macho a fim de macho", sabe? "não curto afeminados" assim, a pessoa perde um tempo ali da descrição que era pra ela falar sobre ela, pra falar que ela não quer um/ alguém como você {risos} assim, sendo que ela podia não colocar aquilo ali (Gaya, 29 anos).
A semântica dos enunciados expressa aversão, rejeição e afastamento dos construtos identitários considerados femininos, muitas vezes de modo direto, vexatório e violento. Para além das descrições de alguns perfis, as interações nos Chats representam um lugar fecundo à manifestação direta da afeminofobia, como a unidade de registro a seguir apresenta na forma de aversão, exclusão e insultos: “[...] já aconteceu de eu tá lá existindo, não ter falado nada com ninguém e eu receber umas mensagens, tipo assim ‘nossa que aberração’, ‘nossa que que cê tá fazendo aqui?’” (Gaya, 29 anos).
Observa-se que como critério de seletividade os atributos afeminados são alocados, predominantemente, no âmbito da não desejabilidade. O gosto pessoal, no sentido de atração por outrem, participa no tecido social e de igual modo enaltece atributos físicos e comportamentais de determinadas masculinidades, em detrimento de outras, como evidenciado em relação às masculinidades afeminadas, corroborando as apreensões de Beltrán (2019). Nesse escopo a unidade de registro a seguir é elucidativa:
[…] já recebi muitos, muitos comentários assim é, ‘nossa, mas, eu tô procurando transar com homem pra que que você vai colocar uma foto de uma figura feminina, não tô a fim, vai procurar outro aplicativo’ ou mandar um "oi" ou mandar uma mensagem e a pessoa falar assim ‘Não, tô fora, muito mulherzinha pro meu gosto’ (Pietra, 25 anos).
A construção social que permeia os gostos pessoais na cultura contemporânea ocidental, tem o imagético da masculinidade hegemônica como destino e alvo de investimento. O desejo enquanto construção social “[…] é um eixo articulador entre o sujeito e a sociedade sendo moldado na interação social” (Miskolci 2017, 27), e comporta construções acerca das performances de gênero, no caso da masculinidade, alguns modelos alçam hegemonia, enaltecendo atributos como força, dominação e virilidade. No âmbito das interações online nos aplicativos, para além dos atributos mencionados, muitas vezes, são desejados homens discretos e corpos malhados (Miskolci 2017).
Outros núcleos de sentido apreendidos expressam a presença de anonimato, de perfis falsos e a percepção de que a idade participa como crivo no regime de visibilidade e desejabilidade, diante da qual homossexuais idosos, ou considerados velhos, podem ocupar lugar de aversão e preterimento. O Grindr não encerra as questões aqui apresentadas, como destacado por Juju (29 anos), o aplicativo Scruff, e para Wagner (25 anos) o aplicativo Hornet, apresentam dinâmicas relacionais similares, que, de igual modo, a afeminofobia se faz presente, assim como o enaltecimento de um ideário de masculinidade másculo e viril.
“Um espaço não saudável”: vivências no Grindr
Esta seção condensa vivências e violências psicológicas sofridas durante as interações no aplicativo, possuindo como substrato a afeminofobia. Ambas dimensionam os elementos que implicaram de forma negativa na saúde mental das(os) gays afeminadas(os) colaboradoras(es). Os núcleos de sentido apreendidos em relação às situações sentidas como negativas foram as manifestações explícitas e implícitas de preterimento e/ou aversão, o término de interações após identificação como afeminada(o) e a suposição de que gays afeminadas(os) são submissas(os) e/ou que possuem posição sexual passiva.
O sentimento de rejeição e as manifestações de preterimento foram vivenciadas por Nina (26 anos), como destacado na unidade de registro:
[…] é uma aversão muito forte e muito perversa e, assim, as pessoas não têm o mínimo pudor de dizer que não tem atração, tentam até amenizar, assim dá uma passada de pano neles mesmos dizendo "ai não tenho nada contra, é uma questão de tesão, de atração, mas não curto", mas assim disso pra baixo, sabe? E, afeta a gente (Nina, 26 anos).
A rejeição é vivenciada de modo interseccional com a questão racial: “[…] uma coisa que eu percebo, é que existem níveis de rejeição, sabe? Eu sendo uma bicha preta afeminada pobre, então assim é quase que o subnível do subsolo” (Nina, 26 anos). A dimensão da interseccionalidade demarca que as vivências não ocorrem desconectadas de outros marcadores sociais (Oliveira 2018). Similarmente, Sheilla (28 anos), afirma: “[...] consigo articular que quando expresso a minha sexualidade, ela vai sempre estar atrelada a raça [...] não tem como separar, a tipo, ele é viado, não. Viado preto!”.
Tais elementos evidenciam, em consonância a Kurashige (2014), que as interações e os critérios de seletividade são atravessados, orientados e eleitos valendo-se de marcadores como classe, cor, raça e etnia. Como apresentado na fala de Nina acima, a cor confere elemento de preterimento, nessa acepção é necessário também considerar o padrão estético branco hegemonicamente difundido nas sociedades racistas, que aloca a branquitude no status de beleza e, por conseguinte, de desejabilidade (Fanon 2020).
Tal construto social coexiste com estereótipos que recaem sobre homens negros fruto de uma herança escravocrata que “[…] animalizaram a corporalidade, e especificamente, a sexualidade negra” (Caetano e Silva Junior 2018, 209). Imaginário pautado em masculinidades viris, másculas, sexualizadas e que se distanciam de qualquer atributo considerado feminino (Caetano e Silva Junior 2018). As características afeminadas, conflitam com tais estereótipos, fato que vai de encontro às formulações de Megg Oliveira (2018), e ainda segundo a pesquisadora, representam uma posição reivindicatória na construção e no direito de expressar outras masculinidades.
Ainda sobre as implicações negativas oriundas das manifestações implícitas e explícitas de aversão à afeminação no Grindr, a fala a seguir, endossa a percepção de exclusão e afastamento em tal ambiente:
[…] eu ficava muito mal assim, muito mal mesmo, eu ficava muito triste, eu ficava arrasado assim, eu ficava gente pra que isso? né, tipo assim, então aqui, esse espaço não é pra mim, se eu não tô de acordo com todos os pré-requisitos eu não posso tá aqui? Porque né, eu tô aqui simplesmente existindo e alguém vem dizer que eu não posso tá aqui ou que eu ser do jeito que eu sou não tá certo, assim, eu lembro que isso eram coisas que eu ficava pensando muito assim, muito mesmo (Gaya, 29 anos).
Cícero (27 anos), também percebe essa rejeição como algo que implica negativamente em sua saúde mental, e ademais afirma que já mascarou sua identidade afeminada, com intuito de alcançar sucesso em encontros sexuais: “[...] foi a única vez que eu me propus a fazer isso, a falar que eu não era afeminado [...] foi a única vez que, de fato, aconteceu isso. Mas ele dentro desse encontro, ele perguntava: ‘você é afeminado?’ eu: ‘não’ [risos] (Cícero, 27 anos). E completa que se arrepende de ter agido assim: “[...] faria de novo? não, mas foi a única experiência que eu tive dessa forma, né? Fingindo ser o que eu não sou” (Cícero, 27 anos).
Wagner (25 anos), que assim como a maioria das demais pessoas colaboradoras, passou em sua trajetória de vida por um processo de construção da expressão de gênero afeminada como algo positivo, ao se inserir em um contexto em que esse aspecto identitário ocupa lugar de aversão, preterimento e rejeição, afirma:
[…] volta esse estigma que meio que eu tirei da minha cabeça de que ser afeminado é algo ruim volta pro ser afeminado é horrível. [...] parece que tudo que eu passei na vida pra aceitar que eu era gay, as pessoas falando que é ruim, que não pode, e ninguém fala, e ninguém vê, e ninguém quer falar com você e ninguém quer saber. Enfim, parece que é a mesma coisa com ser afeminado, parece que eu voltei pra quando eu tinha doze anos e não entendia o que tava acontecendo e tinha medo de rejeição, sabe? (Wagner, 25 anos).
Na totalidade das vivências partilhadas, é notável que as situações de afeminofobia não se restringem às interações online nos aplicativos de busca de parceiros, essas últimas, constituem-se como uma reatualização de um ideário social mais amplo. Fato endossado por narrativas que rememoram momentos da vida, nos quais a assimilação dos signos identitários femininos, foram alvos de retaliação, investimentos disciplinadores e corretivos.
No contexto do Grindr, assim como em outros, identificou-se situações de violência psicológica, como insultos, discriminação, humilhações, mensagens abusivas de cunho sexual e exclusão, que foram orientados pelo preconceito afeminofóbico, como evidenciado pela unidade de registro: “[...] já fui vítima de pessoas que vão lá, puxam conversa comigo e já diz logo: ‘que bicha nojenta, cria jeito de macho, porra’, bem assim” (Juju, 29 anos). As situações de violência foram motivadas pela própria autodeterminação da pessoa como afeminada(o) ou pela presunção de quem violenta, como representado: “[...] quando começava a dialogar com uma pessoa [...] mandava a foto, que ela/ que eu entendia que ela percebia esses sinais né, ela lia como algo afeminado para ele, aí já começava né o preconceito” (Mascarenhas, 32 anos).
Socialmente é esperado e, sistematicamente exigido, que as pessoas adotem os atributos identitários correlatos ao gênero imposto no nascimento, dispondo para tal de ideários, fantasias e símbolos associados a cada um dos gêneros sancionados (Connell e Pearse 2015). Em consonância, a noção de inteligibilidade cultural butleriana, lança luz a essa questão ao destacar que, pelo e no cistema sexo/gênero binário hegemônico há elementos disponíveis, significados socialmente, que circunscrevem as possibilidades e os limites de (in)compreensão em relação às expressões de gênero (Butler 2020). Portanto, há uma tentativa de leitura das expressões de gênero, orientada por estes conjuntos socialmente significados.
Outro núcleo de sentido apreendido refere-se à associação da característica identitária afeminada a posição sexual passiva, nexo transposto do universo estereotipado heteronormativo, no qual a feminilidade ocupa papel submisso, inclusive nas práticas sexuais, aproximando o ser penetrado com a submissão, e a masculinidade na posição de penetrador, ocupa posição hierárquica superior e de poder. A associação de construtos identitários de gênero às práticas sexuais, direciona expectativas e cristaliza papéis, dos quais almeja-se e/ou pressupõe-se que gays másculos e viris são ativos (penetradores) e gays afeminados são passivos (penetrados) (Fry 1982; Lemebel 2017; Oliveira 2018). Esse reducionismo e fixidez inviabiliza a pluralidade das experiências pessoais em relação às práticas sexuais.
Em decorrência das experiências negativas e das violências psicológicas apresentadas anteriormente, apreenderam-se implicações na saúde mental, como dimensiona os seguintes núcleos de sentido: rejeição, baixa autoestima, incômodo e desconforto na utilização, traumas, frustração, raiva, fragilização emocional, reforço de ideários negativos de ser afeminado, sujeição ao desejo dos outros, autoquestionamento e tentativas de adequação aos papéis cisnormativos, desenvolvimento de inseguranças pessoais e/ou no estabelecimento de relações.
A presente pesquisa se concentrou nas vivências atravessadas pelas questões de gênero e pela afeminofobia, outrossim vale destacar que no ambiente dos aplicativos de paquera, se presentifica preconceitos, exclusões e hierarquizações de toda ordem. A afeminofobia é uma, dentre as vastas discriminações presentes nas interações online, tais como preconceito racial, de biotipo corporal, etário, dentre outros (Paranhos e Costa 2022).
A despeito dessa conjuntura, que permeia as interações online, na qual testemunha a reafirmação de estigmas negativos associados aos gays afeminadas(os) e de violências psicológicas, evidencia-se um movimento de afirmação dos construtos identitários afeminados como enfrentamento, contestação e valoração, além de se constituir um movimento de livre expressão de suas características identitárias sem a necessidade de se retrair ou mascarar, como veremos nas próximas seções.
Botando a cara no sol: a construção do perfil
Esta seção apresenta elementos da construção do perfil e da apresentação pessoal, dos quais desvelou-se a exposição de modo valorativo dos marcos identitários afeminados, configurando inflexões no comportamento online e nos modos relacionais, como representa a unidade de registro:
[…] escolho fotos com as quais eu gosto, não fotos que as pessoas vão curtir mais ou deixar de curtir né, isso é o perfil que eu monto, eu até, na biografia dos perfis de aplicativos de namoro, eu coloco que eu me considero uma pessoa queer, que eu sou completamente aberta, que eu sou uma pessoa totalmente dentro do meio né, então assim, é, é uma construção de perfil de quem eu sou, mas que dá muito aversão principalmente em aplicativo (Pietra, 25 anos).
A construção do perfil com características socialmente associadas ao feminino significa a expressão de si, sem a preocupação de mascarar ou de esconder sua identidade, como é perceptível também na fala: “[...] na época que eu me maquiava mais, que eu me produzia mais eu não fazia nenhuma questão de esconder isso, então tipo assim as minhas fotos eu tava de unha pintada, nas minhas fotos eu tava de maquiagem” (Gaya, 29 anos). Evidenciou-se à utilização de signos considerados femininos, tanto como modo de expressão identitária, e como estratégia para se proteger de interações indesejáveis, mecanismo que nasceu diante de situações pretéritas, nas quais tais características identitárias, fomentaram manifestações de preconceito e violência psicológica.
A exposição das identidades afeminadas e de masculinidades não hegemônicas tomam o ambiente online, e como apontado por Grohmann (2016), representam o surgimento de ranhuras na cultura digital, que manifestam, nas palavras do autor, uma “resistência queer”. Os espaços digitais, além de serem palcos em que orquestram os arranjos do cistema de gênero hegemônico, também são arena de tensionamentos, movimentações e produção de novas configurações que esfacelam as normatizações binárias do gênero.
Nos círculos interacionais, virtuais ou face a face, como uma estratégia de autopreservação, muitos homossexuais afeminados se sujeitam ao mascaramento de seus marcos identitários femininos (Miskolci 2017). Contudo, evidencia-se uma atitude oposta, de exposição, enaltecimento e valoração, denotando um caráter de contestação e reafirmação de identidades afeminadas e outras expressões de masculinidade não hegemônicas. Esse movimento contestador, subversivo e inventivo, vai de encontro aos apontamentos de Butler (2020), no que concerne a desconstrução de identidades fixas, promovendo descontinuidades com as prescrições conservadoras, ao passo que promovem rupturas com as determinações essencialistas e universalizantes do gênero.
“Essa bixa sabe afrontar”8: enfrentando a afeminofobia
Como exposto, as interações nas mídias digitais de busca de parceiros são permeadas de manifestações explícitas e implícitas de aversão para com pessoas consideradas afeminadas, além de preconceitos e violências psicológicas cujo substrato possui a discriminação pela expressão de gênero. Diante disso, foram desenvolvidas habilidades para a preservação da saúde mental e a criação de estratégias de enfrentamento e/ou de defensiva.
No que concerne os mecanismos para a preservação da saúde mental, apreenderam-se os núcleos de sentido: ignorar, bloquear; deixar de utilizar, interromper interações indesejadas, deixar explícita as características afeminadas, não interagir ou se relacionar com “discretos e fora do meio”, evitar potenciais situações de risco físico e/ou psicológico e criar diálogo com amigos que também são usuários sobre as situações vivenciadas. Frente às situações de afeminofobia, alguns recursos também foram adotados pelas pessoas colaboradoras com o sentido de enfrentamento, tais como: buscar estabelecer um diálogo para conscientização de usuários preconceituosos, responder as investidas afeminofóbicas e utilizar do sarcasmo nas respostas.
Deixar explícito as características afeminadas, núcleo de sentido apreendido, comporta, como visto anteriormente, uma valorização da própria expressão identitária, bem como uma forma de evitar possíveis situações de preconceito, como destaca Carlinhos (23 anos): “[…] eu deixava bem explícito [...], ficar com outras pessoas, que teria preconceito com isso, não faz sentido pra mim”, e como uma estratégia de defensiva e enfrentamento frente à possibilidade de violências, como destaca Gaya (29 anos):
[…] eu sempre tive muito medo de acontecer alguma coisa presencialmente né, eu moro sozinho há muito tempo, então eu ficava pensando se esse cara resolver me bater, se ele resolver fazer alguma coisa aqui comigo, eu tô sozinho né, não tenho pra quem, é, não tem como pedir um socorro né, então eu sempre fiz questão de deixar muito claro assim, que sou afeminado (Gaya, 29 anos).
“Não fico com discreto e fora do meio”, essa sentença de Ney (20 anos), assim como a de Carlinhos (23 anos) “[…] eu sou gay afeminado, não gosto de discreto”, representam, como visto, a construção de critérios seletivos entre os usuários das mídias digitais. Essa seletividade caracteriza as interações em aplicativos de busca de parceiros, contudo ela é mais presente quando parte dos “discretos”, “machos”, e demais pessoas que, via de regra, delimitam suas preferências preterindo e excluindo gays afeminadas(os).
Evidenciou-se que o autoconhecimento e a autoestima constituíram elementos facilitadores e mediadores no desenvolvimento destas estratégias, bem como elementos orientadores na construção de sentidos positivos da expressão de gênero afeminada. A unidade de registro a seguir é elucidativa dessa construção:
Essa identificação, ela fez quem eu sou hoje em dia, a não ter medo, não ter medo de quem eu sou, a não viver no armário, a não ligar para opinião alheia, do que os outros acham, consideram errado, isso foi fazendo ser quem eu sou hoje em dia, foi dando uma autoestima (Darcy, 34 anos).
O processo de construção positiva da autoestima, é apreendido no contexto da pesquisa em relação a autopercepção positiva dos construtos identitários da expressão de gênero. A autoestima, é concebida como conjunto de sentimentos construídos sobre si mesmo e possui uma dimensão processual e de elaboração por cada pessoa, além de ser um elemento que acarreta implicações na saúde mental e qualidade de vida (Aprile e Schultheisz 2013). Há nas vivências das pessoas colaboradoras um movimento de ruptura do conjunto de valores negativos do gay afeminado. Essa posição de descontinuidade eleva a autoestima e promove, por conseguinte, saúde mental.
A construção da autoestima ultrapassa a esfera individual, orientando as relações interpessoais. A visão da própria identidade afeminada de forma valorada e positiva, elemento constituinte da autoestima, alcança condição inegociável no estabelecimento ou na continuidade de interações, sendo elas online ou presenciais. Contrariando as prescrições sociais na construção das masculinidades, as gays afeminadas valoram os atributos e comportamentos socialmente considerados femininos, representando rupturas com as monolíticas estruturas binárias do gênero, pretensamente inflexíveis.
Considerações finais
A afeminofobia como uma manifestação dentre as diversas discriminações relativas às expressões de gênero, nas plataformas digitais de busca de parceiros, ocorre de modo explícito e implícito, sob a forma de aversão, preterimento, não desejo e exclusão. Ademais, ocorre como substrato simbólico para a profusão de violências psicológicas, como as que foram evidenciadas. Ampliar estudos acerca dos ambientes digitais, enquanto elemento contemporâneo de interação e sociabilização entre as pessoas, bem como nas múltiplas manifestações de preconceitos e violências orientados pela expressão de gênero, contribui enquanto subsídio para profissionais da saúde mental, em destaque psicólogas(os), em seus diversos campos de atuação, ao lançar luz sobre as interações contemporâneas, bem como acerca das implicações subjetivas e na saúde mental.
O compartilhamento dos resultados, inclusive das estratégias de enfrentamento e autopreservação construídas e utilizadas, pode se configurar como elemento de ampliação da reflexividade de outres(as)(os) usuáries(as)(os) no enfrentamento de situações similares.
O movimento de valorização identitária, a despeito das normatizações e imposições de gênero, as inflexões de postura e exposição nos ambientes digitais de busca de parceiros, assim como em outros espaços de socialização e a construção de formas de enfrentamento aos preconceitos, evidencia um movimento, que não é inédito na história das homossexualidades e demais autodeterminações identitárias não cisheteronormativas no Brasil, de resistência e luta pelo direito de ser e existir.
Os fragmentos biográficos apresentam histórias marcadas pela tentativa de adequação às normas, às condutas e aos modos de ser e estar pautados no gênero imposto, mas que ao construírem uma nova apreensão de si mesmas e de suas identidades, promovem rupturas e descontinuidades com as prescrições. As Bixas, os Viados, as Pocs, as gays afeminadas com suas vivências não hegemônicas em relação às expectativas de masculinidade, desencadeiam processos contestadores às normas prescritas dos papéis de gênero, ora o rompem, ora borram seus supostos contornos. Vidas subalternizadas por masculinidades hegemônicas, mas que se celebram pela não conformação às prescrições, em suas singularidades e coletivamente.
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1
De origem inglesa, o termo significa “estranho” e é usado de forma ofensiva contra quem rompe com a cisheteronormatividade. Contudo sua utilização é ressignificada, e designa contestação, oposição e não identificação à designação binária em relação à identidade de gênero.
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2
A redação com a letra C se inspira em pesquisadoras(es) de gênero e diversidade sexual, em especial destaque Viviane Vergueiro Simakawa (2015), precursora na disseminação de tal grafia. O neologismo nasce da união das palavras “cisgênero” e “sistema”, caracterizando assim as normatizações e prescrições sociais do regime de gênero binário, alicerçadas na cisgeneridade.
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3
Termos usados de forma pejorativa para se referir a gays afeminados(as), mas que são ressignificados de maneira afirmativa, valorizando sua identidade e desafiando estigmas.
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4
A Grindr inicia a verificação etária por FaceTec (ferramenta que realiza estimativa de idade por meio de vídeo curto facial) ou por meio de verificação documental (Grindr 2026), a datar da promulgação da Lei Nº 15.211 de 17 de setembro de 2025, conhecido como ECA Digital, importante marco jurídico nacional na proteção de crianças e adolescentes em contextos digitais (Brasil 2025).
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5
Com termos geralmente utilizados entre homens que se relacionam sexualmente com outros homens (passivo, ativo, versátil, versátil passivo e versátil ativo).
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6
Urso, Elegante, Papai, Discreto, Nerd, Barbie, Couro, Malhadinho, Soropositivo, Cafuçu, Trans, Garotos e Sóbrio. A pesquisa de Crist e Hennigen (2022) analisa e discute de modo pormenorizado tais categorias.
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7
Funcionalidade que faculta a adição de características pessoais, físicas, identitárias e/ou da personalidade, bem como passatempos, gostos pessoais, fetiches, desejos e intenções.
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8
Verso da música “Bixa” de autoria de Oxa.
Declaração de dados:
Todos os dados estão disponíveis no texto.
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