Open-access Mulheres “emocionadas”: gênero, emoções e poder na negociação dos relacionamentos amorosos

“Emotional” women: emotions and power in the negotiation of heterosexual relationships

Mujeres “emocionadas”: género, emociones y poder en la negociación de las relaciones amorosas

Resumo

Resumo  Este artigo baseia-se em uma pesquisa realizada com 43 pessoas entre 19 e 31 anos, de camadas médias urbanas e escolarizadas. A partir do termo nativo “emocionada”, categoria de acusação que remete a um imaginário sobre um estilo emocional feminino, discuto a forma como o gênero estrutura a negociação dos relacionamentos amorosos heterossexuais. Buscando distância desse estereótipo, muitas mulheres evitam expressar seus desejos sobre as relações, deixando os homens definirem o ritmo do seu desenvolvimento. A figura da mulher “emocionada” age como uma imagem de controle, de forma que mesmo entre jovens que compartilham um discurso igualitário, os homens continuam a deter um poder maior sobre os termos do encontro heterossexual.

Palavras-chave:
relacionamentos amorosos; amor; sexualidade; emoções; gênero


Abstract

Abstract  This paper is based on a research with 43 people aged between 19 and 31 years old, from the urban and schooled middle classes. Taking as a starting point the native expression “emotional”, an accusation category that describes a stereotypically feminine emotional style, this paper discusses how gender structures the negotiation of heterosexual romantic relationships. Seeking distance from this stereotype, many women avoid expressing their desires about relationships, letting men define the rhythm of their development. Thus, the image of the “emotional” woman acts as a control image, so that even amongst young people who share an egalitarian discourse, men continue to possess a greater power over the terms of heterossexual encounters.

Keywords:
romantic relationships; love; sexuality; emotions; gender


Resumen

Resumen  Este artículo se basa en una investigación realizada con 43 personas de entre 19 y 31 años, pertenecientes a capas medias urbanas y con nivel educativo alto. A partir del término nativo “emocionada”, categoría de acusación que remite a un imaginario sobre un estilo emocional femenino, analizo la forma en que el género estructura la negociación de las relaciones amorosas heterosexuales. En un intento de distanciarse de este estereotipo, muchas mujeres evitan expresar sus deseos respecto de las relaciones, dejando que los hombres definan el ritmo de su desarrollo. La figura de la mujer “emocionada” actúa como una imagen de control, de modo que incluso entre jóvenes que comparten un discurso igualitario, los hombres continúan detentando un mayor poder sobre los términos del encuentro heterosexual.

Palabras clave:
relaciones amorosas; amor; sexualidad; emociones; género


Introdução

Nos anos 1990, surgiram nas Ciências Sociais trabalhos importantes que manifestaram o interesse crescente pelas transformações nas dinâmicas dos relacionamentos amorosos. Giddens (1993) e Beck e Beck-Gernsheim (2017) observaram que, a partir da chamada “revolução sexual”, do feminismo e da popularização dos discursos psi, o formato, o significado e o funcionamento dos vínculos amorosos eram vistos cada vez mais como resultado de uma negociação entre duas individualidades. Noções de intimidade, compartilhamento emocional, igualitarismo e autonomia ganhavam centralidade nessas interações.

No Brasil, tanto Heilborn (1993) quanto Salem (1989) enfatizaram o ethos igualitário que permeava o engajamento amoroso entre as camadas médias urbanas, que trazia consigo a ideia de que as duas partes da relação devem estar em pé de igualdade na negociação sobre o rumo e o ritmo do relacionamento. Para Heilborn (1993), essa transformação era parte do individualismo que caracterizava cada vez o sistema de valores das classes médias, contrapondo-se ao tradicionalismo da sociedade brasileira.

Já naquele momento, a autora percebia uma proliferação dos arranjos conjugais que, nos últimos anos, têm ganhado bastante atenção em pesquisas sobre o poliamor (Pilão 2022) e as diversas formas da não-monogamia (Pilão et al 2021; Fernandes 2022). Outros pesquisadores também têm se dedicado a estudar a ascensão dos aplicativos de encontro, e de que forma eles influenciam o desenvolvimento das relações (Beleli 2015; Pelúcio 2019).

Estes trabalhos apontam que, atualmente, quando duas pessoas começam a interagir amorosamente, não há certeza de que ambas estejam buscando o mesmo tipo de relacionamento, ou que vejam aquela relação do mesmo modo. O grau de incerteza que permeia as relações parece ser intensificado; por isso, é importante entender as estratégias que as pessoas desenvolvem para administrá-la, a fim de construir vínculos. Nesse contexto, o contratualismo torna-se uma linguagem central na regulação dos relacionamentos amorosos (Illouz 2019).

Assim, o objetivo da minha pesquisa de mestrado era contribuir com o debate no campo brasileiro, buscando compreender mais de perto a microdinâmica do início do engajamento amoroso, investigando as estratégias utilizadas pelas pessoas para interpretar as interações, administrar suas emoções e seu investimento amoroso, e negociar implícita ou explicitamente o ritmo, formato e significado dos relacionamentos. Foi assim que, ao longo de 2023, conversei com jovens de camadas médias sobre suas experiências amorosas, para entender quais os sinais trocados pelo casal que permitiam a percepção de que um vínculo estava se desenvolvendo, e de que forma eles decidiam que tipo de vínculo era aquele (Espindola 2024).

Nesse artigo, meu foco recai especificamente sobre a forma como o gênero estrutura o início dos relacionamentos cisheterossexuais1. Apesar de os entrevistados compartilharem um discurso igualitário no que diz respeito ao gênero, e enxergarem como ultrapassadas expectativas rígidas quanto ao papel de homens e mulheres no início das relações, o gênero continuava a influenciar a posição de ambos na negociação do formato e do ritmo do relacionamento.

A partir de uma discussão sobre o sentido acusatório do termo “emocionada”, usado principalmente em referência às mulheres, exploro o imaginário compartilhado pelos entrevistados sobre estilos emocionais “tipicamente” masculinos e femininos. Observo que o estigma da “mulher emocionada” faz com que muitas delas evitem colocar abertamente seus desejos e expectativas sobre as relações. O resultado é que, mesmo em meio a um ethos igualitário, os homens costumam deter um poder maior na hora de negociar o formato e o ritmo dos relacionamentos.

Por outro lado, exploro também os momentos em que as mulheres demonstram o desejo de que seus parceiros assumam um papel masculino tradicional ritualizado. Esse desejo é manifestado de forma mais clara no ato de “pedir para ser pedida em namoro”, que foi relatado somente pelas mulheres entrevistadas. Assim, discuto também o modo como as relações de gênero não agem somente de forma repressiva sobre os desejos das mulheres, mas produzem ativamente esses desejos, através de uma erotização dos papeis de gênero tradicionais.

Metodologia

Os entrevistados tinham entre 19 e 31 anos e pertenciam majoritariamente às camadas médias urbanas2, eram em maioria brancos (72%), cisgênero (93%), fizeram ensino superior (95%), e fizeram terapia (84%)3. Devemos lembrar, portanto, que estamos lidando com um modo socialmente específico de lidar com os relacionamentos amorosos, ligado às experiências das classes médias urbanas, escolarizadas, e familiarizadas com o discurso terapêutico.

Para chegar até essas pessoas, compartilhei convites para participar da pesquisa no meu Instagram e nos meus grupos de Whatsapp, dando início a um esquema de bola de neve. Posteriormente, tentando diversificar a amostra em termos de gênero e orientação sexual, busquei outros participantes através de um aplicativo de relacionamentos, o Bumble, deixando claro no meu perfil minha identidade de pesquisadora.

Após explicar brevemente o objetivo da pesquisa e garantir a anonimidade, dava início à entrevista inspirando-me no modelo narrativo de Rosenthal (2014), que busca reproduzir uma conversa informal, utilizando perguntas abertas para estimular o entrevistado a responder através de narrativas mais aprofundadas. Inicialmente, eu pedia aos entrevistados que me contassem sobre suas experiências amorosas, e principalmente sobre como esses relacionamentos haviam começado. 30 pessoas foram entrevistadas pessoalmente, 2 por meio de videochamadas, e 11 por meio de mensagens de voz no WhatsApp. Implicações das técnicas de entrevistas são discutidas com maior profundidade na minha dissertação (Espindola 2024).

Escutando novamente e transcrevendo as entrevistas, fui observando os temas mais frequentes, reunindo separadamente trechos em que eles apareciam, e observando as diferenças e similaridades na forma como os entrevistados narravam seus sentimentos, comportamentos e relações. Assim, foi possível identificar os valores e crenças compartilhados, os pontos de discordância, as contradições recorrentes entre discurso e prática e as coincidências entre as trajetórias e impasses dos relacionamentos narrados.

O script do engajamento amoroso

Apesar dos múltiplos formatos e trajetórias dos vínculos românticos na contemporaneidade, meus interlocutores compartilhavam expectativas bastante similares sobre o desenrolar “natural” dos relacionamentos. Chamei de “script do engajamento amoroso” esse imaginário que orienta tanto a forma como eles interpretam os sinais trocados, quanto a forma como se comportam e se sentem no desenvolvimento inicial de uma relação.

O conceito de script popularizou-se através dos estudos de John Gagnon e William Simon sobre a conduta sexual (Gagnon e Simon 2005; Gagnon 2006). Eles utilizaram o termo para se referirem aos esquemas explícitos e implícitos que orientam as pessoas na hora de identificar uma situação e uma sensação como sexual, saber o que fazer e como interpretar o comportamento do outro. Esses autores propuseram analisar os scripts sexuais em sua dimensão intrapsíquica (relativa à subjetividade conformada por uma história de vida), interpessoal (relativa às relações que vivemos e presenciamos) e cultural (relativa ao repertório cultural de forma mais ampla).

Em sua pesquisa sobre o engajamento amoroso entre jovens americanos, Bogle (2008) utiliza o conceito de script para falar não somente sobre as interações sexuais, mas sobre o desenvolvimento dos relacionamentos amorosos de forma mais ampla. Ela observou que os vínculos se formavam através de estruturas típicas em um dado contexto, distribuindo papeis e recursos diferentes a homens e mulheres.

No script do engajamento amoroso compartilhado pelos jovens que entrevistei, espera-se que o início de um relacionamento seja marcado por um período mais ou menos longo em que o casal está “saindo”, mas em que o significado, o formato e o horizonte do vínculo ainda está indefinido. Esse período de indefinição é visto por eles como necessário, pois permitiria que as pessoas se conheçam melhor, desenvolvam intimidade e sentimentos tidos como profundos o suficiente para sustentar um compromisso. Como veremos na próxima sessão, esse período de indefinição é cercado por convenções sobre quais sentimentos, e em qual intensidade, são apropriados para serem sentidos e demonstrados.

O imperativo de autocontrole

De acordo com Lutz (1998), nossas ideias sobre as emoções, assim como a forma como as sentimentos e demonstramos, são práticas sociais, relacionadas a contextos culturais e históricos específicos. O papel da cultura na produção da nossa vida emocional foi tema da obra de Elias (1993, 2011), que buscou demonstrar que a emergência da modernidade coincidiu com a produção de um modelo de subjetividade cada vez mais auto reflexivo, baseado no aprofundamento do autocontrole: um cálculo sobre o comportamento dos outros e sobre nosso próprio comportamento. O próprio vocabulário do “autocontrole” passa a caracterizar a “etnopsicologia ocidental” (Lutz, 1998), na medida em que as emoções são vistas como forças irracionais que devem ser controladas pela razão, uma dimensão da personalidade vista como oposta.

Na visão de Illouz (2012, 2019), a necessidade do cálculo e da reflexividade seria intensificada no engajamento amoroso contemporâneo. Trata-se de um contexto onde sexo, sentimentos e compromisso não vêm de mãos dadas, diversificando os formatos e trajetórias possíveis para uma relação afetiva. Por isso, quando duas pessoas começam a interagir amorosamente, não há certeza de que ambas estejam buscando o mesmo tipo de relacionamento, ou que vejam aquela relação do mesmo modo. Assim, o engajamento amoroso estaria permeado por um grau maior de incerteza, estimulando o desenvolvimento de estratégias mais ou menos conscientes para lidar com essa ambiguidade e nos proteger de possíveis frustrações amorosas.

Estas estratégias podem ser compreendidas através do conceito de “trabalho emocional”. Este termo foi introduzido por Hochschild (1979) para falar sobre o fato de que, no decorrer das interações sociais, administramos nossas emoções de forma a torná-las “apropriadas” à definição das situações que vivenciamos, a partir de regras mais ou menos tácitas que criamos coletivamente sobre como deveríamos nos sentir em determinados eventos. Trata-se não somente de uma administração da forma como as emoções são reveladas através do comportamento aparente, mas de uma tentativa de controlar a forma como nos sentimos subjetivamente.

Na visão dos entrevistados, o ideal é “ir com calma”, não se entregar rapidamente, e eles relatam um trabalho emocional constante para adequar seus sentimentos a essas normas. Chamei esse tipo de trabalho emocional característico do início dos relacionamentos de imperativo de autocontrole, pois há uma dimensão moral implícita: esta é a forma “apropriada” de se comportar, tanto para você (para evitar se magoar) quanto para o outro (para não pressioná-lo). Trata-se de uma vigilância sobre o comportamento e as palavras do outro, que podem ser interpretados como sinais de engajamento ou desengajamento na relação, e que servem para orientar as expectativas e sentimentos que nos autorizamos a cultivar.

Através do imperativo de autocontrole, esses jovens tentam moldar suas emoções e a forma como as demonstram para não serem vistos como “emocionados”, posição que fere as regras sobre sentimentos (Hochschild 1979) associadas ao período de indefinição. Ser “emocionado” é um termo nativo que se refere àquele que se entregou rapidamente, criando expectativas que não correspondem ao grau de intensidade dos sinais recebidos. Apesar da diversidade das histórias contadas pelos entrevistados, alguns comportamentos se repetiam constantemente como símbolos de envolvimento ou desinteresse na relação. O fato de serem amplamente referenciados pelos entrevistados indica que seu significado é bastante compartilhado, dando indícios relativamente claros sobre o engajamento de cada pessoa naquele vínculo, apesar de que o fato de não serem explícitos pode deixar margem para ambiguidade e insegurança. Na Tabela 1 em anexo, reuní de forma sistemática os principais sinais mencionados pelos entrevistados.

Tabela 1
Sinais de engajamento e desengajamento formulados a partir das narrativas dos entrevistados.

Quando coerentes e recíprocos, esses sinais criam um clima de previsibilidade e segurança ao redor da relação; mas quando sinais de engajamento e desengajamento se intercalam de forma confusa, uma das partes pode sentir-se incomodada e sem saber como interpretar as intenções da outra. O próximo passo desse script é a chegada do momento em que alguém se sente suficientemente seguro (ou suficientemente incomodado) para puxar o assunto: “que tipo de relação nós temos?”.

Enquanto o conceito de script coloca em evidência as crenças dos entrevistados sobre “como as coisas geralmente acontecem”, as interações são interpretadas e narradas através de uma moralidade que chamei de “paradigma da responsabilidade afetiva”. “Responsabilidade afetiva” é um termo nativo que coloca como imperativo moral a responsabilização das pessoas pelos sinais emitidos através do seu comportamento e pelas expectativas que o outro cria com base nesses sinais. Um relacionamento é estabelecido processualmente, e portanto, mesmo que seja rotulado oficialmente somente a partir de um dado momento, os entrevistados acreditam que é necessário tomar cuidado para enviar sinais condizentes com seu investimento emocional na relação, e explicitar suas intenções, caso percebam que sua visão sobre a relação não coincide com a do outro.

Procurei pensar no paradigma da responsabilidade afetiva como um estilo emocional (Illouz 2008), ou seja, como um imaginário sobre as relações, sobre as emoções que elas produzem e sobre como lidar com elas. Trata-se tanto um modelo das relações, quanto um modelo para as relações. Enquanto estilo emocional, o paradigma da responsabilidade afetiva remete à ideia do “amor confluente” de Giddens (1993), no que diz respeito à importância da intimidade e da negociação entre individualidades. Remete também a elementos do “casal igualitário” de Salem (1989), pelo foco na troca emocional, na comunicação verbal e na reflexividade sobre a relação; porém, o modelo do casal aqui não é de simbiose, e sim de salvaguarda da autonomia e singularidade de cada um, característica do modelo de conjugalidade associativa (Torres, 2004). Este paradigma parece ser um desenvolvimento do ethos igualitário que Heilborn (1993) observou entre as camadas médias, pois baseia-se em um compromisso autoconsciente com a desconstrução de papeis de gênero tradicionais nos relacionamentos amorosos.

Nas próximas páginas, vamos discutir a forma como o gênero estrutura o período de indefinição e a negociação da definição do relacionamento heterossexual. Como veremos, apesar do ethos igualitário que caracteriza o estilo emocional que orienta esse script, os homens ainda parecem deter um poder maior de barganha na hora de negociar o horizonte, o ritmo e o significado dos relacionamentos amorosos.

O princípio do menor interesse

Embora a chamada “revolução sexual” tenha permitido às mulheres participarem de interações sexuais casuais de forma mais livre, historicamente a evitação do compromisso tem sido identificada como um comportamento relacional predominantemente masculino (Illouz 2012). Em pesquisa recente com 12 mil universitários de Brasília, Neiva e Araújo (2023) observaram que tanto homens quanto mulheres buscavam relações estáveis; porém, trabalhos como os de Pelúcio (2019) frequentemente encontram que as mulheres “[…] ainda se machucam mais com os ‘ghostings’ (desaparecimentos súbitos) ou embarcam mais facilmente em conversas que parecem promissoras, nas quais o cara se declara [...], mas que pouco depois também some” (Vasconcelos, 2020, p. 4).

Essa desigualdade de gênero na interação heterossexual pode ser analisada a partir de diversas dinâmicas. Trago aqui o argumento de Illouz (2012), que investiga as transformações no “mercado” amoroso e sexual que criam as condições para que, no geral, os homens sejam a parte da relação que tende a evitar o compromisso.

Segundo a autora, a decadência relativa do poder masculino no ambiente doméstico e no mercado de trabalho, e a autonomização do mercado sexual como um campo relacional desligado do mercado matrimonial, aumentaram a importância da sexualidade como uma esfera onde os homens podem exercer poder e adquirir status. Ao demonstrarem desapego nas relações afetivas, eles podem reproduzir três características históricas da masculinidade: autoridade (sobre as relações), solidariedade (através da competição pelas mulheres, para ganhar o respeito de outros homens) e autonomia. A distância emocional, a evitação do compromisso e a demonstração de comportamentos imprevisíveis por parte dos homens seriam estratégias que tem como efeito exercer controle sobre os relacionamentos.

As dinâmicas de demonstração de interesse ou disponibilidade, em oposição à demonstração de indiferença e distanciamento, parecem ser estratégias relacionais que diferenciam-se em sua capacidade de valorizar uma pessoa no mercado amoroso/sexual. No imaginário cultural, esses estilos relacionais são generificados, ou seja, associados ao comportamento esperado de homens e mulheres. Espera-se que as mulheres, com sua proximidade “natural” com a vida emocional e seu desejo de vinculação, almejem mais o compromisso do que os homens, que são “naturalmente” distantes. Essa crença reproduz, portanto, nosso imaginário sobre a forma como homens e mulheres diferenciam-se em sua vida emocional (Lutz, 1998).

Esse imaginário manifestou-se claramente entre os jovens que entrevistei, frequentemente através da percepção de que “mesmo que” às vezes o homem possa estar mais interessado em definir a relação em termos de compromisso do que a mulher, “geralmente” ocorre o contrário. Essa percepção era frequentemente articulada até mesmo quando os entrevistados haviam vivenciado situações opostas, ou seja, nos casos em que o mais interessado era o homem.

Apesar da crença recorrente na naturalidade da forma como homens e mulheres lidam com as emoções, sabemos que esses padrões de comportamento são fruto de estilos emocionais e relacionais culturalmente construídos e estruturados por relações de poder na interação heterossexual. Segundo o argumento clássico de Chodorow (1979), a partir do século XIX, as mulheres foram circunscritas à função de cuidadoras e gestoras dos relacionamentos, enquanto os homens tomaram a esfera pública. Na família nuclear burguesa, elas são ensinadas a buscar e cuidar de vínculos afetivos, ao passo que a educação dos meninos valoriza o distanciamento e a independência frente a esses vínculos. Assim, se os estilos emocionais frequentemente variam em função do gênero, essas diferenças são socialmente produzidas.

Segundo Illouz (2012), até meados do século XX, a “seriedade” de uma mulher — sua resistência a avanços sexuais, reforçando a intenção de assumir um compromisso — era uma forma de manter sua reputação e valor no mercado matrimonial. Hoje em dia, porém, se uma mulher explicita seu interesse em um relacionamento sério, isso parece trazer o risco de ser vista como desinteressante, por manifestar um “excesso de disponibilidade”, “carência” ou “desespero”. É o caso de Paula, que preferiu não expor seu desejo por um compromisso por receio de parecer “emocionada”:

Eu queria um relacionamento sério, mas não queria pagar de emocionada [risos]. Tipo: “nossa, tadinha, tá procurando relacionamento sério em aplicativo”. Tinha a opção de colocar [no perfil do aplicativo de encontros] que queria relacionamento sério, ou só algo casual, ou que não tinha isso definido. E eu botei essa do “se rolar, rolou”. Mas na verdade não era bem isso que eu queria [risos] (Paula, 19, parda, heterossexual).

Em sua pesquisa sobre mulheres que usam aplicativos de encontro, Beleli (2015) também encontrou entre suas interlocutoras o medo recorrente de parecerem “desesperadas”. Para Illouz (2012), essa demonstração de interesse não é atrativa para os homens, porque torna desnecessário o processo de conquista, que significaria ganhar a disputa por uma mulher que está momentaneamente disponível a outros homens. Se há a crença de que as mulheres são mais disponíveis emocionalmente — mesmo que nem sempre seja o caso na prática —, há um excesso de oferta de pessoas dispostas a estabelecerem uma relação, do ponto de vista dos homens heterossexuais. Em um espaço urbano caracterizado por um maior liberalismo sexual, redes sociais e aplicativos de encontro, a percepção sobre a infinidade de opções faz com que cada uma delas perca seu valor em comparação.

Para Illouz (2012), a performance hegemônica de masculinidade é marcada pela contenção das emoções, pelo distanciamento e pela demonstração de interesse em novas conquistas sexuais, supostamente como produto de um desejo sexual difícil de ser contido. Através da demonstração de relutância, cautela ou desinteresse em assumir um compromisso, os homens exercitam um poder maior sobre os termos do encontro heterossexual, pois o interesse masculino no compromisso é visto como estando em falta.

As observações de Illouz (2012) vão de encontro aos achados de Bogle (2008) em sua pesquisa sobre a cultura do hooking up (análoga ao “ficar” no Brasil) nas universidades americanas, onde opera o que ela chama de “princípio do menor interesse”: aquele que tem o menor interesse na continuidade da relação tem maior poder sobre a definição do seu horizonte e intensidade. Embora tanto homens quanto mulheres possam ocupar essa posição, são os homens os que mais frequentemente a ocupam, através de uma demonstração de desengajamento na relação:

Os estudantes homens estavam cientes de que algumas mulheres queriam que as ficadas evoluíssem para relacionamentos. Por isso, eles desenvolveram estratégias para comunicar sua falta de interesse em ter algo a mais. Especificamente, os homens falaram sobre evitar as meninas depois de uma ficada, ‘não telefonando de volta’ ou ‘pensando em boas desculpas’ para não ter que passar tempo com elas (Bogle 2008, 98, tradução livre).

Esse quadro também se manifestou em algumas falas dos jovens que entrevistei, recorrendo à moralidade dos “dois pesos, duas medidas”, historicamente característica da sociedade brasileira:

ELE: Não sei se as mulheres trazem mais essa conversa sobre sentimentos, mas eu acho que elas têm mais naturalidade pra lidar. Mas se normalmente são elas que puxam o assunto ou não, aí eu não sei. Comigo não é, mas acho que eu sou um ponto fora da curva. Mas por mais que eu ache que elas têm mais naturalidade de lidar com o assunto, acho que também existe um estigma social de que se espera que as mulheres tragam esse assunto. Acho que como a gente está em 2023, o pessoal relaxa um pouco com isso, eu não sinto dos meus amigos esse tipo de coisa, mas… sei lá, a ideia de que mulher fala mais sobre sentimento do que homem é um lugar comum.

EU: E na questão de puxar a conversa sobre “que tipo de relacionamento a gente tem”, tu acha que são as mulheres que trazem mais isso? [...]

ELE: A impressão que me dá é a seguinte — era isso que eu ia falar do estigma social. Hoje é esperado que o homem peça em namoro, por exemplo. Mas ninguém espera que o pedido de namoro seja feito para ser recusado. E aí eu tenho essa impressão de que a expectativa hoje do homem trazer o assunto namoro, tá associado à expectativa de que a mulher quis primeiro, começou a querer primeiro, e que portanto é o homem que falta querer. Por quê? Porque o homem tem que sair e querer estar pegando todo mundo, e quem tem que querer estar no relacionamento é a mulher. Portanto quem tem que tomar iniciativa é o outro [o homem], porque ele é o que pode (Vinícius, 28, homem cis, branco, heterossexual).

ELA: Do que eu observo, eu acho que nós mulheres somos mais sentimentais na grande maioria. Apesar da gente querer mais ter um relacionamento sério, a gente acaba esperando a iniciativa do homem, porque a princípio homem faz mais o tipo pegador e mulher faz o tipo romântica e namoradeira. Então para tirar o homem do estereótipo namorador e ficar só com uma mulher, sem parecer ser chata, de estar querendo cobrar o cara de alguma coisa, eu acho que a gente quer antes, mas espera o cara dar a iniciativa.

EU: E tu acha que nesse negócio de conversar sobre “o que que a gente tá tendo”, geralmente parte de quem?

ELA: Eu acho que parte da mulher, pela incerteza do que tá rolando, porque eu acho que as mulheres são muito mais fáceis de firmar com o cara e os caras são mais difíceis de firmar com a mulher (Luísa, 25, mulher cis, branca, heterossexual).

Interessante notar que Vinícius, apesar de observar a existência desse padrão, não sente que ele se reproduz nas suas próprias relações. Já Luísa tinha acabado de narrar seu último relacionamento, no começo do qual seu parceiro tinha um interesse maior em ter algo mais sério, enquanto ela preferiu não assumir um compromisso inicialmente. Ou seja, nem sempre os padrões que os entrevistados observam como vigentes para a sociedade de forma ampla são percebidos como presentes nos seus próprios relacionamentos, e por vezes, a experiência pode contradizer suas crenças.

Em uma pesquisa com 1279 jovens de camadas médias em 1998, Goldenberg (2006) argumentou, já naquele momento, que os comportamentos de homens e mulheres em termos de iniciação sexual e número de parceiros aproximavam-se bastante. Contudo, em seus discursos, os entrevistados afirmavam que “todo homem é” galinha e infiel, enquanto “toda mulher é” sensível e romântica. As mulheres também tendiam muito mais a se mostrarem insatisfeitas com diversos aspectos das relações que viveram. A autora conclui que elas tendiam a adotar um discurso de vítima frente à dominação masculina, que as representava como impotentes, o que acabava contribuindo para reafirmar as diferenças de gênero.

Porém, coincidências no comportamento sexual não significam que homens e mulheres estejam se sentindo da mesma forma sobre o que está acontecendo. Relatos sobre sofrimentos e incômodos também são dados que devemos levar em consideração. Além disso, como revelam as entrevistas que realizei, apesar de que homens e mulheres se comportam muitas vezes de formas parecidas — se revezando na posição de quem está mais disponível emocionalmente e está mais interessado em um compromisso sério —, a existência de estereótipos de gênero faz com que cada um tenha que lidar com enquadramentos específicos que recaem sobre suas ações, em referência aos quais devem posicionar-se simbolicamente quando estão se relacionando. Quando começam uma relação, a posição de cada um está associada a toda uma série de imagens e narrativas sobre homens, mulheres, emoções e heterossexualidade.

O que quero apontar com isso é que, mesmo quando esses jovens não vivenciam situações exemplares desse padrão, a crença na existência do padrão influencia sua visão de mundo. O imaginário compartilhado sobre os estilos emocionais e relacionais “tipicamente” femininos e masculinos contribui para colocar homens e mulheres em posições distintas na negociação do relacionamento, fazendo com que as mulheres tenham que administrar estereótipos que as colocam em desvantagem.

Mulheres emocionadas?

Nesta sessão, gostaria de retomar a discussão sobre o termo “emocionado/a” em sua relação com o imperativo do autocontrole. O termo “emocionado” é geralmente usado de forma pejorativa para caracterizar alguém que se entrega de forma “rápida demais” à relação, demonstrando um investimento afetivo que não condiz com o comportamento do parceiro, e não respeitando o tempo visto como necessário para o desenvolvimento da credibilidade de certas emoções e da legitimidade da própria relação nesse script. Agora, podemos entender que o fato de que as pessoas evitam serem vistas como emocionadas tem a ver também com o fato de que se mostrar excessivamente disponível, no contexto de ampla oferta de relações sexuais e amorosas descrito por Illouz (2012), parece trazer a possibilidade da desvalorização aos olhos do parceiro.

Descrevi o imperativo de autocontrole como sendo um trabalho emocional (Hochschild 1979) destinado a manter uma correspondência entre nossos sentimentos e o modo como os demonstramos em relação aos sinais de engajamento emitidos pela outra pessoa, de forma a manter uma equiparação no nível de entrega e vulnerabilidade dos envolvidos. Agora, podemos também compreender o imperativo de autocontrole como uma estratégia de criação e manutenção do nosso valor aos olhos do outro, mas também aos nossos próprios olhos, assegurando nossa autoestima, nosso orgulho, e nos protegendo de possíveis decepções amorosas.

Illouz (2012) observa que as mulheres, por serem culturalmente descritas como mais propensas à disponibilidade emocional, estão em desvantagem em relação aos homens porque a evidência (ou pressuposição) do seu interesse na relação as desvaloriza nesse jogo. De fato, apesar de que tanto as mulheres quanto os homens que entrevistei demonstraram seu receio, em diversas ocasiões, de serem vistos como emocionados, alguns mencionaram que as mulheres são mais frequentemente taxadas como tal:

ELA: Eu acho que tem meio que uma tensão em relação ao quanto de atenção que a pessoa demanda de você. Eu diria que homens se incomodam mais com isso do que mulheres. [...] Acho que as pessoas te taxam mais de emocionada se você expressar: “ai, estou animada por ver essa pessoa…”. Acho que principalmente homem tem esse negócio de dizer: “ah, tô conhecendo ela, mas vamos ver no que vai dar…”.

EU: Tu acha que são principalmente as mulheres que são taxadas de emocionadas?

ELA: Sim, sim. Já vi homens serem taxados de emocionados, mas são mais mulheres. Mas é porque a gente fala mais sobre as coisas, a gente tem uma rede de apoio muito melhor pra falar sobre isso, e os homens que eu conheço são mais de: “ah, tô ficando com ela sim…” [tom blasé]. Por exemplo, nessa relação que eu tive, os dois tavam iguais em relação ao tanto que um gostava do outro. Só que eu falava dele toda hora no meu círculo de amigos, e ele no grupo de amigos dele era assim: “ah, a gente tá ficando, mas não vai dar em nada não”. E aí o julgamento das outras pessoas acaba sendo esse: eu como a emocionada e ele como o fechadão, mas no particular a gente era igual (Isabel, 24, mulher cis, branca, bissexual).

Em resposta, vemos uma série de livros de autoajuda, reportagens, cenas de filmes e séries, que ensinam às mulheres como se mostrarem menos disponíveis, mais indiferentes, e assim, aumentarem seu valor aos olhos dos homens.

Essa observação combina com a análise de Lutz (1990) sobre o fato de que as mulheres, em sua pesquisa, recorriam muito mais do que os homens a uma retórica de controle e autovigilância para falarem sobre suas emoções. Na etnopsicologia ocidental, na maior parte dos contextos, as emoções são vistas como forças irracionais que devem ser controladas pela razão, e portanto, o sujeito ideal é aquele que consegue controlar-se. A oposição entre emoção e razão e a atribuição de uma maior emocionalidade a certos grupos vem sendo uma forma de estigmatizá-los (Lutz, 1998). Nessa tradição, as emoções, assim como as próprias mulheres, são vistas como próximas à natureza, irracionais e caóticas. O controle sobre as emoções significa poder, e historicamente, masculinidade. O uso exacerbado da retórica do autocontrole pelas mulheres, na perspectiva de Lutz (1990), parece ser uma tentativa de contrariar a desvalorização do feminino que ocorre através de sua associação a comportamentos dominados pelas emoções.

A evitação do sentimentalismo é justamente uma estratégia mencionada por Bela nas suas relações:

ELA: Uma vez na cozinha eu falei: "pega não sei o que pra mim, amor". Senti uma coisa no meu estômago, tipo “noooossa”. Eu fiquei aterrorizada. Ele reagiu super bem, achou bonitinho, me deu um beijinho. Mas eu fiquei aterrorizada. Eu fiquei tipo: “meu deus, que nojo”.

EU: Mas porque tu acha brega ou pelo que significava?

ELA: Eu acho que é uma questão de ter crescido numa era e numa geração em que a gente precisava muito romper com certas coisas do passado e padrões femininos. O que eu geralmente falo com as minhas amigas é sobre um medo meu: eu sempre tive medo de ser aquele tipo de garota. [...] Tipo não ser muito feminina, não ser muito afetiva, [...] porque se não fica parecendo: “nossa, que garota melosa, que garota dependente emocionalmente”. A gente tem que ser sempre fodona e independente, sabe? A minha mãe é meio assim, então o meu exemplo sempre foi uma mulher que não é super apaixonada e entregue, ou a garota que corre atrás de homens ao invés de estudar, tipo esses estereótipos de filmes dos anos 2000, sabe? [...] Eu tinha pavor disso. E isso virou uma dificuldade de demonstrar os meus sentimentos em relações, por medo de ser categorizada assim (Bela, 28, mulher cis, preta, bissexual).

Bela descreve um sofrimento vivido através da dificuldade de demonstrar seus sentimentos ao outro, por medo de ser enquadrada em um estereótipo de feminilidade que poderia desvalorizá-la.

Segundo Heilborn (1993), desde os anos 1960 ocorreram mudanças significativas no perfil sociocultural das camadas médias brasileiras. As mulheres sentem-se hoje mais livres para exercer sua sexualidade fora de um relacionamento estável. Para Illouz (2012), a sexualidade feminina sem compromisso se transformou em uma atitude celebrada em setores progressistas como símbolo de libertação. Parte desse processo seria caracterizado por um mimetismo da forma como os homens demonstram poder nas relações através do desprendimento e da distância.

Porém, esses novos valores convivem com estruturas de sentimentos (Williams 1979) persistentes na experiência social feminina que valorizam conexões estáveis, e com transformações recentes no engajamento amoroso que colocam como modelo a intimidade baseada na comunicação aberta sobre emoções — uma característica do paradigma da responsabilidade afetiva compartilhado pelos jovens que entrevistei. O resultado é que muitas mulheres querem se conectar emocionalmente, mas procuram negar seu desejo de conexão, com receio de serem desvalorizadas. De forma similar, Pilão (2021), em sua pesquisa com poliamoristas brasileiros, observou que as mulheres, mais do que os homens, sentem uma pressão para multiplicarem seus vínculos amorosos e aceitarem novas experiências especificamente por receio de parecerem atrasadas e submissas à monogamia compulsória. Para Illouz (2012, 106, tradução livre), “as mulheres tendem mais a experimentar desejos conflitantes, empregar estratégias emocionais confusas, e serem dominadas pela maior habilidade dos homens de evitar o compromisso por meio do sexo casual”.

Na opinião de Paula, a tendência do homem de guardar seus sentimentos e “se fazer de difícil” está justamente relacionada a um receio de parecer emocionado:

EU: E tu falou que ficou surpresa porque ele falou “eu te amo” primeiro por ele ser homem. Então tu acha que são as mulheres que falam primeiro?

ELA: Eu imagino que sim.

EU: Entre as tuas amigas geralmente é assim?

ELA: Acho que sim. Claro que tem uns homens que são os últimos românticos… mas eu me surpreendi por ter sido tão rápido e por ele ter sido sentimental. Acho que o homem geralmente tem uma tendência a guardar os sentimentos e não querer ser o emocionado, se fazer de difícil… e só se rende quando tá muito apaixonado, ou já tem muito tempo e tem muita certeza (Paula, 19, parda, heterossexual).

A demonstração de sentimentos por parte dos homens é vista por Paula como uma “rendição”, e como algo que ocorre somente quando as emoções são muito intensas ou quando ele já tem muita certeza sobre a relação. O medo de parecer emocionada, por parte das mulheres, parece estar mais relacionado ao receio de serem enquadradas em um estereótipo de feminilidade que as desvaloriza. Já o medo de parecer emocionado por parte dos homens, parece estar mais relacionado ao receio de perder o poder sobre os termos do encontro heterossexual, ao abrirem mão da demonstração de desinteresse. Vejamos a fala de Luan, o único entrevistado a dizer que os homens são mais frequentemente taxados de emocionados do que as mulheres:

EU: Nessa questão de puxar essa conversa sobre “o que a gente tá tendo”, tu acha que vem mais do homem ou da mulher, ou varia muito?

ELE: Eu acho que varia muito. Eu acho que quem tiver vontade de perguntar, pergunta. De preferência a mulher, porque normalmente homem fica sem graça.

EU: Como assim?

ELE: É, porque se a gente falar a gente tem a fama de emocionado né?

EU: Os homens ficam com fama de emocionado?

ELE: Ficam, muito rápido (Luan, 24, homem cis, pardo, heterossexual).

Luan acredita que o homem fica “sem graça” ao expor seus sentimentos, algo que poderia fazê-lo parecer emocionado, ao passo que expor os sentimentos é um comportamento perfeitamente esperado da mulher. Podemos relacionar essa crença à mesma lógica usada por Luísa e Vinícius algumas páginas atrás: no geral, como se acredita que a mulher é a parte mais interessada no compromisso, cabe a ela puxar o assunto sobre sentimentos e sobre a relação, mas cabe ao homem dar a cartada final e pedi-la em namoro. De forma similar, Bogle (2008, 173, tradução livre) observou que o maior diferencial de poder exercido pelos homens não se dava mais em relação à iniciativa, mas em relação à evolução da relação:

No script da ficada, o poder de iniciar é menos generificado; tanto os homens quanto as mulheres podem sinalizar interesse em ficar com alguém. Então, em relação à iniciativa, as mulheres na era da ficada podem ter mais poder do que as mulheres tinham na era dos encontros. Contudo, na era da ficada, não é o poder da iniciativa, mas a habilidade para conseguir, afinal, o que eles querem, que demonstra a continuidade da dominação masculina. [...] As mulheres não objetam necessariamente à ficada em si; mas sim, à quantidade de vezes em que uma ficada falha em evoluir para algo que se pareça com um relacionamento. As mulheres sentem, sobretudo, que os homens têm o poder de decidir se uma ficada se transformará em um “estamos saindo” ou “estamos juntos”.

Esse poder diferencial sobre a evolução da relação se revela na fala de muitos entrevistados, e foi o padrão mais claro em relação à forma como o gênero estrutura a negociação da definição das relações amorosas:

EU: Tu acha que ela já esperava que tu fosse pedir ela em namoro?

ELE: Sim. Eu tenho certeza porque ela falou. Ela queria que eu já tivesse pedido ela em namoro antes. Só que tem essa construção social [...], tem essa questão do homem ter que pedir e tal, e na sociedade que a gente vive, não tem muito para onde escapar, né? Eu não julgaria ela, mas eu entendo ela ter esperado o pedido. [...] Entre os meus amigos mais próximos, o que eles me contam, é que na maioria das vezes são as mulheres, as parceiras deles, que começam a pressionar, não sei se essa é palavra certa, mas começam a botar as cartas na mesa e querer saber em que status eles estão né? [...] Só que ao mesmo tempo eu não acho que os homens [...] se sintam pressionados a ceder, sabe? Eu acho que é só questão da iniciativa delas que faz com que eles comecem a conversar sobre, mas não é questão de tipo: “ah, já aquela pediu vou ter que…”. Não acho que seja o caso. Elas dão dicas: “E aí, que que a gente tá fazendo? Você tá só me enrolando, você quer só brincar comigo?” (Pedro, 26, homem cis, branco, heterossexual).

EU: E aí foi tu que pediu ela em namoro então?

ELE: Sim.

EU: Mas foi ela que começou a falar sobre ter um relacionamento?

ELE: Sim, ela começou a dar ideia.

EU: E tu acha que ela tava esperando tu pedir em namoro?

ELE: Tava, porque depois ela falou que tava esperando [risos]. Porque normalmente quem pede é o homem. Não é obrigação, mas é tradicional. E ela tinha aquele pensamento tradicional, então eu sabia que pra ela quem pede em namoro é o homem (Luan, 24, homem cis, pardo, heterossexual).

Pelo menos no meu círculo social, rolava muito de: “ah, tô gostando dele, mas vamos ver no que dá”. Mas esse “vamos ver no que dá” significa “vamos ver o que ele vai trazer”, sabe? Deixando a responsabilidade na mão do cara. Tipo: “vamos ver se ele tá afim. Porque eu tô afim, mas não vou falar”. Eu não lembro de nenhum amigo homem ter falado: “tô gostando da menina, mas vamos ver o que ela vai fazer com isso, pra onde ela vai guiar isso aí…” (Olívia, 25, mulher cis, branca, heterossexual).

Na superfície há uma relação igualitária entre homens e mulheres, em um contexto de liberdade sexual. Ambos podem estar saindo com outras pessoas, ambos estão trocando sinais de engajamento, construindo confiança e um clima de previsibilidade ao redor da relação, e avaliando se querem assumir um compromisso. Mas na hora de negociar abertamente o formato e o status do relacionamento, eles costumam estar em posições diferentes:

EU: Tu acha que tem muita diferença entre o que se espera que os homens façam e que as mulheres façam nesse início do relacionamento?

ELE: É, desde a adolescência eu ouvi que é o homem que tem que tomar iniciativa, né?

EU: Só na hora de chegar na pessoa ou em outros momentos?

ELE: Eu acho que em geral. Eu tento não levar muito essas coisas em conta, mas acho que a expectativa é de que o homem dê os primeiros passos. Tipo chamar pra sair primeiro, beijar primeiro, querer transar primeiro. [...]

EU: E nessa conversa de “o que que a gente tá tendo”, tu acha que parte mais de algum dos lados?

ELE: [silêncio] É... A primeira namorada que eu tive, no dia seguinte ela já falou que queria algo sério. Mas as outras esperaram eu ter essa iniciativa sobre a conversa.

EU: Mas tu falou que uma delas comentou contigo que um amigo tinha perguntado qual relação vocês tinham…

ELE: É, então. Pareceu uma maneira mais sutil de tentar introduzir o assunto. Se os papeis estivessem trocados, provavelmente ela teria só me perguntado (Otávio, 29, homem cis, branco, heterossexual).

A atitude esperada do homem, que a princípio parece uma tomada de risco que o torna vulnerável, só é tomada quando ele já tem bastante certeza sobre a resposta, ou seja, quando os sinais emitidos pela mulher deixam claro seu interesse:

Normalmente é o homem que pede em namoro, mas a mulher também pode pedir — já vi acontecendo. Mas normalmente o homem que pede não faz antes da mulher dar um indício de que ela também quer alguma coisa certa. Até porque ganhar um "não" é meio chato, é meio incomum o pessoal ganhar "não". Quando você tá ficando com uma pessoa, normalmente alguém acaba demonstrando em algum momento que tá gostando da outra pessoa. E se o outro não corresponde àquela demonstração, a pessoa já fica com o pé atrás, né? Não alimenta a ideia de pedir a outra pessoa em namoro. Se a gente tá conversando e a pessoa faz um comentário sobre relacionamento sério, e a outra já não reagiu bem... Agora se a mulher deu a ideia primeiro de ter alguma coisa séria, eu acho que fica mais tranquilo pra pedir. Eu acho que sem saber, a probabilidade de pedir é muito baixa (Luan, 24, homem cis, pardo, heterossexual).

A evitação da posição de vulnerabilidade em que nos encontramos quando somos vistos como a parte da relação que “ama mais” parece estar relacionada, nesse contexto, com a celebração individualista do sujeito autônomo. O ethos igualitário manifestado pelos entrevistados distancia-se da diluição da individualidade no casal simbiótico descrita por Salem (1989), e aproxima-se ao individualismo do “amor confluente” de Giddens, na medida em que coloca como modelo uma relação negociada entre duas individualidades: tão importante quanto a igualdade, é a salvaguarda da autonomia dos parceiros. O sujeito ideal, historicamente marcado como masculino, é aquele que se mostra independente do vínculo social, encontrando satisfação e realização pessoal em si mesmo. Nessa lógica, o casal deve permanecer unido na medida em que os interesses de cada parte sejam satisfeitos na relação, e a dependência emocional e a carência são vistas como um fracasso na demonstração de autonomia.

Porém, a busca pela performance de autonomia afeta homens e mulheres de formas diversas. Na hora de negociar a evolução do relacionamento, as mulheres dão dicas, criam situações para que o assunto venha à tona, mas esperam que os homens o abordem diretamente. Considerando o ethos igualitário característico desse script, o motivo para esse padrão parece ser menos uma adesão dessas mulheres a papeis de gênero tradicionais (caberia ao homem pedir em namoro porque ele é homem), e mais um receio de serem desvalorizadas nesse mercado amoroso competitivo, por um lado, e de serem vistas como insuficientemente independentes, “mulheres que não sabem ficar sozinhas”, e serem estigmatizadas a partir de um estereótipo negativo de feminilidade. Percebemos, portanto, que há uma transposição das relações de poder e dos estereótipos de gênero para esse script através da linguagem aparentemente igualitária da autonomia e independência, na medida em que ela celebra um modelo de sujeito historicamente associado à masculinidade.

A partir desses apontamentos, acredito que podemos, por fim, pensar no estigma da “emocionada” como uma imagem de controle (Collins 2019). Este conceito é desenvolvido por Collins para analisar a forma como diferentes estereótipos sobre as mulheres negras enquadram seus comportamentos de modo a apagar sua subjetividade e legitimar relações de exploração e opressão. De forma similar, a imagem da “mulher emocionada” abafa a heterogeneidade dos estilos relacionais e emocionais das mulheres reais, colocando-as em uma posição desvantajosa no encontro heterosseuxal. Mesmo que uma mulher não esteja em busca de um compromisso, na hora de interagir afetivamente com um homem, ambos devem se posicionar em relação a imagens distintas com referência às quais seus comportamentos são interpretados.

Ao buscarem se distanciar desse estereótipo, muitas mulheres procuram performar desinteresse e descontração, e acabam não expressando seus desejos e expectativas sobre as relações, deixando os homens definirem o ritmo do seu desenvolvimento. Assim, essa imagem exerce um controle sobre o comportamento tanto das mulheres de fato enquadradas como “emocionadas”, quanto daquelas que buscam afastar-se do estereótipo. O resultado é que, mesmo em relações entre jovens que compartilham um discurso igualitário, os homens tendem a exercer um poder maior sobre a intensidade e o horizonte da relação.

Poder e desejo: a erotização das relações de gênero

Parece ser que, ao esperarem a definição da relação por parte dos homens, as mulheres estão em certa medida presas em uma armadilha que lhes concede um poder menor sobre os vínculos. Ao longo do artigo, portanto, prestamos atenção à forma como as relações de poder que estruturam a negociação do relacionamento heterossexual têm efeitos de certa forma repressivos sobre os sentimentos que as mulheres se autorizam a cultivar e demonstrar, inibindo sua agência na hora de dar voz às suas expectativas sobre o relacionamento.

Porém, pelo menos desde Foucault (2017) temos prestado atenção à forma como as relações de poder operam não somente através da repressão, mas também da produção do desejo. Segundo Collins (2015), um dos motivos pelos quais arranjos opressivos tornam-se eficazes é que, ao mesmo tempo em que distribuem níveis variados de punições de acordo com o posicionamento social em relação a marcadores sociais da diferença, eles também distribuem pequenos privilégios, seduzindo aqueles que oprimem. Assim, para Connell (2009) os arranjos de gênero são fontes de injustiça e opressão, mas também fontes de prazer, reconhecimento e identidade. Seguindo essas pistas, nessa conclusão quero olhar para outro lado da dinâmica dos relacionamentos heterossexuais: o desejo das próprias mulheres, e mais especificamente, o desejo de serem pedidas em namoro.

Vamos prestar atenção à forma como geralmente ocorre a negociação explícita da definição do relacionamento. Esse processo ocorre através de três estruturas rituais típicas: o primeiro é o pedido, em que uma das partes propõe diretamente à outra uma definição da relação. O segundo é o combinado, em que alguém puxa o assunto “o que nós temos?”, dando início a uma conversa que visa criar um acordo sobre a definição da relação. O terceiro é a declaração de um estado de coisas, em que ambos simplesmente chegam à conclusão de que uma definição da relação já foi imposta na prática, e a tornam oficial4.

A estrutura ritual que se revelou mais marcadamente heterossexual na minha pesquisa foi a do pedido. No imaginário acerca do pedido, fazê-lo fica a cargo do homem, porém, nos exemplos concretos trazidos por meus interlocutores, as posições variam, e há vezes em que as mulheres pedem os parceiros em namoro. Mas há uma variação do pedido de namoro que parece ser usada somente pelas mulheres — é o “pedido para ser pedida em namoro”:

E aí se estabeleceu uma relação romântica muito forte, eventualmente a gente... Tava há muito tempo juntos, tinha uma gaveta dela na minha casa, e eu falei: “pô, a gente tá namorando, tá ligado?”. Aí ela falou: “não tamo não”. Aí eu falei: “o que tu precisa pra dizer que tá namorando? Quer que eu te peça em namoro?”. Ela disse que sim. Aí eu falei: “quer namorar comigo?” (Augusto, 27, homem cis, pardo, bissexual).

É uma situação em que o homem considera óbvio que já está namorando, mas a mulher deseja um momento de definição explícita da relação, através do ritual heterossexual típico do pedido de namoro. Ela solicita ao homem que desempenhe seu papel de gênero tradicional, para que ela também possa desempenhar o seu.

Na formulação de Zanello (2018), que se tornou bastante popular, as relações amorosas são um caminho central para a subjetivação das mulheres, pois seu valor e reconhecimento social têm sido historicamente ligados ao seu sucesso em conquistar e manter esses vínculos, medido pelo fato de terem sido “escolhidas” por um homem. Indo além de questões ligadas ao reconhecimento social, proponho prestarmos atenção agora à dinâmica do desejo e erotismo. Sobre esse ponto, Illouz (2012) se pergunta:

Por que práticas fortemente codificadas pelo gênero – como “abrir a porta para a dama”, ajoelhar-se para se declarar, mandar grandes buquês de flores – são “sentidas” como mais eróticas do que pedir permissão para tocar os seios de uma mulher? Isso é porque práticas fortemente codificadas pelo gênero alcançam várias coisas de uma vez: elas estetizam o poder que os homens têm sobre as mulheres; elas revestem a dominação de sentimento e deferência – ou seja, elas tornam o poder velado e implícito; elas permitem a ritualização das relações entre os sexos – isto é, as organizam em padrões claros de significado; e elas permitem um jogo com os significados, uma vez que a deferência (abrir a porta) pode ser sedutor apenas quando é uma deferência simulada – ou seja, realizada pela parte mais poderosa (Illouz 2012, 185-186, tradução livre).

Para a autora, ao longo do processo de essencialização das identidades de gênero no Ocidente, as relações entre homens e mulheres tem sido erotizadas através do desempenho de identidades densas (thick identities) e opostas. Relações de poder requerem a criação de significados ricos e complexos para, simultaneamente, reforçar e mascarar a violência que produzem, tornando-os não apenas naturais, mas desejáveis. Um exemplo disso é justamente a estetização e erotização das relações de gênero através dos rituais típicos da galanteria masculina, como o pedido de namoro.

Essa dinâmica entre poder e desejo exemplificada pelo “pedido para ser pedida em namoro” complexifica nosso olhar tanto sobre a agência das mulheres quanto sobre os processos de subjetivação que as atravessam, tocando em questões interessantes ao feminismo: de que forma a performance de feminilidade e masculinidade são capazes de produzir sofrimento e, paradoxalmente, prazer? Há aspectos das masculinidades hegemônicas que paradoxalmente ainda nos atraem, como mulheres heterossexuais e feministas? Até que ponto podemos “desconstruir” nossos desejos? Em que medida, e em quais situações, “devemos” tentar desconstruir nossos desejos? Esta “desconstrução” seria necessária a um projeto de maior igualdade? Desejos que surgem de (e envolvem) relações de poder podem conviver com, e produzir, relações igualitárias? No fim, trata-se também de refletir sobre o que queremos dizer quando falamos em “relações igualitárias”, e de que forma elas podem ser produzidas na prática.

Considerações finais

Nesse artigo, dialogando com a sociologia e antropologia das emoções e com os estudos de gênero, meu objetivo foi investigar a forma como o gênero continua a estruturar a negociação dos relacionamentos heterossexuais, mesmo entre jovens que compartilham um estilo emocional baseado em um ethos igualitário e no paradigma da responsabilidade afetiva.

Raça, corporalidade, classe, escolaridade, nacionalidade, entre outros marcadores sociais da diferença, também contribuem de formas complexas e interrelacionadas para produzir posições desiguais na negociação das relações. Strings (2024), por exemplo, argumentou que mulheres negras encontram maiores dificuldades em fazer valer seu desejo de definição da relação frente a seus parceiros, sobretudo quando são brancos, pois as interações com elas são mais facilmente lidas como casuais. A erotização da mulher negra somada à sua desvalorização como parceira no contexto brasileiro foi analisada por Gonzales (1984). Uma análise interseccional feita a partir de um trabalho de campo mais diverso, portanto, com certeza traria outros dilemas. Meu foco aqui recaiu sobre o gênero, uma vez que esse marcador se mostrou o fator mais marcante nas narrativas dos entrevistados, embora na prática, a posição de homens e mulheres em um encontro heterossexual não possa ser reduzida a esse fator.

O termo nativo “emocionada” ganhou centralidade na discussão, pois trouxe à tona a percepção dos entrevistados sobre os diferenciais de poder que atravessam o engajamento amoroso, e que relacionam-se à administração generificada dos sentimentos e demonstrações de sentimentos.

Procurei mostrar, por fim, que a tendência das mulheres heterossexuais a esperarem que os homens deem o ritmo ao desenvolvimento da relação está relacionado ao receio de serem vistas como “emocionadas”, e enquadradas em um estereótipo negativo de feminilidade; mas também à importância do olhar masculino na subjetivação das mulheres e à estetização histórica das relações de gênero, que tem como efeito a ritualização erótica da desigualdade na dinâmica do engajamento amoroso.

  • 1
    74% dos entrevistados identificavam-se como heterossexuais ou bissexuais, e suas experiências em relacionamentos heterossexuais são tomadas como referência para a discussão que se segue.
  • 2
    Tomei como referência a quantidade de pessoas que estudaram em escolas particulares em algum momento da sua trajetória (79%) e a passagem dos pais pelo ensino superior (76% das mães ou figuras parentais 1, e 53% dos pais ou figuras parentais 2).
  • 3
    Os dados foram coletados através de um questionário online preenchido pelos próprios entrevistados após a entrevista.
  • 4
    Para uma discussão mais aprofundada dessas estruturas rituais, ver o trabalho original (Espindola 2024).
  • Declaração de dados:
    Todos os dados estão disponíveis no texto.

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Editado por

  • Editor-chefe:
    Sergio Carrara
  • Editor Associado:
    Romário Nelvo

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    29 Ago 2025
  • Aceito
    11 Fev 2026
Creative Common - by 4.0
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/), que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.
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