Natural de Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém (PA), Inácio Saldanha tem uma trajetória que articula formação acadêmica e ativismo bissexual, sendo uma das figuras centrais no desenvolvimento recente dos estudos bissexuais no Brasil. Sua atuação fundamental no Grupo Amazônida de Estudos sobre Bissexualidade (GAEBI) e, posteriormente, no desdobramento do grupo na Rede Brasileira de Estudos sobre Bissexualidade e Monodissidência (REBIM) insere seu trabalho em um contexto de reflexões coletivas e articulação nacional de um campo em formação.
O livro A viagem da bissexualidade: classificações da sexualidade em Belém no fim do século XX é fruto de sua pesquisa de mestrado em Antropologia Social na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), orientada por Regina Facchini, que o prefacia. Foi lançado durante o III Seminário Nacional de Estudos Bissexuais (SENABI) em 2025, integrando a coleção Saberes Bissexuais da REBIM. A coleção tem o objetivo divulgar produções recentes sobre o tema, com reflexões inovadoras.
Durante a mesa de lançamento, em julho de 2025, Saldanha caracterizou seu livro como um “esforço de pensar a bissexualidade para além estritamente do movimento social, tentando entender que outros sentidos de bissexualidade são possíveis ao longo da história” (YouTube, 2025). Sua fala corrobora com a perspectiva de inovação das obras da coleção, marcando uma divergência com relação ao que vinha sendo produzido nos estudos sobre o tema ao longo das últimas décadas.
A viagem da bissexualidade analisa como a categoria “bissexual” emergiu e circulou em Belém (PA) no final do século XX, mais especificamente nas décadas de 1980 e 1990. Curiosamente, Saldanha não conseguiu encontrar pessoas que se identificassem como “bissexuais” no período de abrangência da pesquisa, mas isso não prejudicou o trabalho. Na verdade, essa é uma das características mais inovadoras da pesquisa: pensar a “bissexualidade” como uma categoria que circulava em relação com outras e com o contexto da época, sem depender de sua associação constante a um grupo específico que pudesse representá-la. Nas palavras do autor, ainda durante o lançamento, trata-se de “[...] assumir o desafio de pensar a bissexualidade sem que necessariamente haja pessoas se identificando como bissexuais” (YouTube, 2025).
A pesquisa que originou a obra foi realizada através de conversas informais, análise de conteúdo de jornais de grande circulação na cidade à época (O Liberal e O Diário do Pará), arquivos pessoais, produção intelectual e documentos de movimentos sociais. Além disso, Saldanha entrevistou sete pessoas que estiveram em Belém durante o período e que atuaram em diferentes espaços relevantes para discussões sobre sexualidade.
O principal argumento do livro é que a categoria “bissexualidade” é contextual e circulou com sentidos múltiplos no contexto pesquisado. O autor destaca que a literatura sobre bissexualidade, como MacDowall (2009), Lewis (2012) e Eisner (2021), apresenta o desenvolvimento dessa categoria como um processo quase evolutivo em que diferentes sentidos surgem e vão substituindo os anteriores ao longo do tempo. Contrariamente, ele defende que novos sentidos de “bissexualidade” não suplantam os anteriores. Na verdade, os diferentes sentidos coexistem, motivo pelo qual ele chama atenção para o caráter polissêmico da bissexualidade.
Por outro lado, importa salientar que as produções intelectuais sobre o tema nem sempre são tão categóricas em relação à substituição dos sentidos quanto a análise de Saldanha pode levar a crer. Elizabeth Lewis (2012), por exemplo, deixa implícita a coexistência do sentido anatômico com o da psicanálise ao descrever que o primeiro foi usado do século XVII até o início do XX e o segundo durante os séculos XIX e XX. Além disso, apesar de reconhecer que há uma perspectiva mais forte atualmente, ela parece admitir que todas elas conviveram em alguma medida: “a segunda definição (bissexualidade psicológica) e a terceira definição (bissexualidade do desejo) têm tido uma influência maior e mais duradoura do que a primeira (a bissexualidade como hermafroditismo anatômico); porém, a terceira é a mais comum hoje em dia” (Lewis, 2012, 27).
Ainda assim, a terceira definição citada por Lewis tende a ser a mais considerada tanto no movimento social quanto nos trabalhos acadêmicos que se debruçam sobre a bissexualidade. Desse modo, é pertinente a proposta de Saldanha de pensar sobre a sua polissemia. Ele dialoga com o trabalho de Fernando Seffner (2016), que identificou diferentes sentidos e representações da masculinidade bissexual que conviveram no Brasil entre 1995 e 2000.
Devemos questionar o pressuposto de que a ideia de bissexualidade como “orientação sexual” superou os seus sentidos anteriores. Acredito que as conclusões de Seffner são importantes para que pensemos que, em vez de se superar ao longo do tempo, os diferentes sentidos de “bissexualidade” vêm se multiplicando (Saldanha, 2025, 96).
No mesmo sentido, a categoria “bissexualidade” não foi simplesmente importada de contextos estrangeiros, mas foi produzida localmente em Belém. Ainda que as palavras em si possam ter origens externas, enquanto categorias descritoras de práticas, sujeitos ou posições elas são moldadas e incorporadas, ganhando e transformando seus sentidos.
Esse ponto é importante para que a categoria “bissexual” (e outras) não seja tomada como dada. Entretanto, a abordagem de outras autorias nem sempre pode ser reduzida à negação da polissemia. A maioria dos trabalhos produzidos nacionalmente enfoca justamente a tensão entre diferentes sentidos da bissexualidade, usualmente dois: aquele defendido pelo movimento social, considerado correto, e o sentido de uma espécie de senso comum que seria equivocado e até mesmo caracterizado como “bifóbico”. A multiplicação de listas de “mitos e verdades” sobre a bissexualidade, tanto em redes sociais quanto em trabalhos acadêmicos (ver, por exemplo: Cavalcanti, 2007), é uma evidência de que a existência de múltiplos sentidos é reconhecida, ainda que eles estejam em disputa.
Portanto, talvez o aspecto mais crucial da crítica de Saldanha seja que ela nos leva a pensar por que e como alguns dos sentidos atribuídos à categoria “bissexual” se estabelecem como “verdadeiros” e outros como “falsos”, ou “mitos”, ainda que coexistam. E, alinhado a isso, quais são as disputas e processos envolvidos não só no desenvolvimento, mas também na valoração de diferentes sentidos.
Além da polissemia, outro conceito importante — e mais recorrente nos estudos e no ativismo bissexual — é o de apagamento. Mais especificamente, o livro questiona a aplicabilidade a qualquer contexto do que Kenji Yoshino (2000) chama de contrato epistêmico do apagamento bissexual. Saldanha argumenta que o modelo de Yoshino foi elaborado para pensar um cenário distinto, isto é, estadunidense, num período e local em que já havia um movimento bissexual organizado em torno dessa categoria. Mas, na Belém do final do século XX, os discursos sobre bissexualidade se desenvolveram sem que houvesse uma forma de classificação da sexualidade estabelecida previamente. Assim, não faria sentido falar em “apagar” uma categoria que não estava delimitada.
Por outro lado, pesquisas sobre contextos mais recentes, já em meio a um movimento social organizado, têm mostrado que a noção de apagamento pode ser particularmente útil para traduzir algumas das experiências vivenciadas por pessoas bissexuais. Assim, creio que a crítica de Saldanha não é direcionada a desqualificar e descartar qualquer uso do conceito, mas para questionar, caso a caso, sua utilidade e aplicabilidade.
Como aponta Regina Facchini em seu prefácio, o livro nasce do contexto de formação da REBIM e está profundamente inserido nos debates que vêm sendo realizados nos SENABI ao longo dos anos recentes. Sendo integrante de espaços de discussão sobre sexualidade, Saldanha relata que A viagem da bissexualidade é fruto de uma construção coletiva, o que é evidenciado pelo seu lançamento como parte de uma coleção e no âmbito do III SENABI, evento que vem sendo construído a muitas mãos. Mas o livro é também resultado da perspectiva singular de Saldanha como um pesquisador situado em meio a diversas ambiguidades. Sua formação como historiador se revela tanto na escrita quanto no manejo do material de campo, enriquecendo a análise antropológica.
Ainda que o próprio autor não o caracterize dessa forma, vejo esse trabalho como fruto de uma pesquisa antropológica feminista, que não nega o envolvimento do autor na produção de um conhecimento situado. De fato, é sua posição ocupando múltiplos lugares, em meio a inúmeras tensões, que permite um tratamento rico e responsável das diferentes categorias encontradas em campo. Desde o início do livro, a começar pelos agradecimentos, a pessoa leitora vislumbra a relação de Saldanha com o tema, destacando-se seu compromisso ético, teórico e epistemológico na caracterização da própria trajetória como parte integrante da pesquisa em si.
Numa direção semelhante, a localização da pesquisa na cidade de Belém é relevante não apenas por ter sido o campo de estudo do trabalho seminal de Peter Fry (1982), com o qual Saldanha dialoga e problematiza intensamente. A cidade também tem suas características ambíguas que a aproximam da categoria de interesse do trabalho. Ao mesmo tempo em que é um centro regional, ela ocupa um lugar de “outro” no cenário nacional e internacional, como uma espécie de periferia. E a relação de Saldanha com Belém é também ambígua. Tendo morado em Ananindeua por muitos anos, Belém ocupava o lugar de um centro regional; entretanto, ao mudar-se para o estado de São Paulo, deparou-se com uma relação regional em que a cidade ocupava uma posição distinta, periférica.
O lançamento do livro em 2025, ano em que Belém sediou a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), também contribui para reforçar as ambiguidades que atravessam a cidade, centrais na análise de Saldanha. A visibilidade nacional e internacional momentânea evidencia as tensões de uma posição ambivalente: ora como centro, ora como um “outro” periférico. É curioso, ainda, que, como local de criação do GAEBI, esse “outro” do Brasil tenha sido também o berço da articulação nacional recente dos estudos sobre bissexualidade. Tal como a categoria “bissexual”, a Belém ambígua e camaleônica, que muda de forma a depender de quem (e desde onde) está olhando, é também polissêmica.
Do ponto de vista da bissexualidade, a abordagem de Saldanha é inovadora ao fazer um resgate histórico sem impor uma leitura contemporânea a contextos passados. Isso se evidencia pelo tensionamento e estranhamento das categorias, que nunca são tomadas como autoevidentes, mas sempre contextuais e relacionais. É dessa maneira que o autor marca sua divergência com o que vem sendo produzido sobre o tema, chamando atenção para os limites de uma perspectiva unívoca sobre a (bis)sexualidade.
A viagem da bissexualidade não fala de um grupo restrito — bissexuais — mas de como funcionam os processos de formação, transformação e coexistência de diferentes formas de classificação da sexualidade. E, nesse sentido, é uma referência importante para leitores que desejam compreender esses processos de forma nuançada; sejam aqueles interessados especificamente na categoria bissexual ou em qualquer categoria de gênero e sexualidade — e, por que não, outras formas de classificação.
Em concordância com Saldanha, argumentei em outro trabalho (Monaco, 2025), que existem, mesmo hoje, espaços em que a categoria “bissexual” não aparece associada à sua politização, mas a outros sentidos — no caso de minha pesquisa, ligados a estéticas e ao erotismo. Assim, A viagem… nos convida a pensar que outras formas de fazer pesquisa e de imaginar a sexualidade são possíveis, para além das categorias sexuais de demandas por direitos.
Para os estudos bissexuais, trata-se de uma contribuição singular que demonstra a importância de se pensar essa e outras categorias usualmente menos exploradas pela literatura de modo a compreender esses processos. Pesquisas com o foco em categorias como “bissexual”, “pansexual”, “assexual” e outras, para além de informar sobre grupos, práticas e demandas políticas específicas, também contribuem para analisar de forma mais ampla o pensamento sobre sexualidade e as diferentes formas de classificação. O trabalho de Saldanha tem o potencial de inspirar mais pesquisas que tomem categorias como essas como ponto de partida e referência para refletir sobre a produção de saberes a respeito de gênero e sexualidade.
Declaração de dados:
Não se aplica. Por se tratar de uma resenha, este manuscrito não gerou nem analisou dados de pesquisa.
Referências bibliográficas
- Cavalcanti, Camila Dias. 2007. “Visíveis e invisíveis: práticas e identidade bissexual.” Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Pernambuco.
- Eisner, Shiri. 2021. Bi: notas para uma revolução bissexual. Linha a Linha.
- Fry, Peter. 1982. Para inglês ver: identidade e política na cultura brasileira. Zahar Editores.
- Lewis, Elizabeth Sara. 2012. “‘Não é uma fase’: construções identitárias em narrativas de ativistas LGBT que se identificam como bissexuais” Dissertação de mestrado, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
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MacDowall, Lachlan. 2009. “Historicizing contemporary bisexuality.” Journal of Bisexuality 9 (1): 3–15. https://doi.org/10.1080/15299710802659989
» https://doi.org/10.1080/15299710802659989 - Monaco, Helena. 2025. “Entre mundos: política, erotismo e produção de sentidos em espaços bissexuais digitais.” Tese de doutorado, Universidade Federal de Santa Catarina.
- Saldanha, Inácio. 2025. A viagem da bissexualidade: classificações da sexualidade em Belém no fim do século XX. Rede Brasileira de Estudos sobre Bissexualidade e Monodissidência.
- Seffner, Fernando. 2016. Derivas da masculinidade: representação, identidade e diferença no âmbito da bissexualidade masculina Paco Editorial.
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Yoshino, Kenji. 2000. “The epistemic contract of bisexual erasure.”. Stanford Law Review 52 (2): 353–478. https://doi.org/10.2307/1229482
» https://doi.org/10.2307/1229482 -
YouTube. 2025. Lançamento de publicações - III Seminário Nacional de Estudos Bissexuais. YouTube, 29 jul. https://www.youtube.com/live/EVxRL4ZmDoA?si=ZRbPpPrp-UORIiq_
» https://www.youtube.com/live/EVxRL4ZmDoA?si=ZRbPpPrp-UORIiq_
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