Resumo:
Este artigo problematiza o processo de mercantilização universitária na Espanha, relacionando-o às tendências globais, mediante realização de pesquisa bibliográfica. Destaca o papel crucial desempenhado pela Agência Nacional de Avaliação da Qualidade e Acreditação (ANECA) e a imposição progressiva de fatores de impacto em periódicos científicos como expressão do fortalecimento do denominado capitalismo acadêmico e do trabalho digital nas universidades, no âmbito das reformas universitárias dos anos 2000.
Palavras-chave:
Mercantilização; Geopolítica; Capitalismo acadêmico; Pesquisa; Índice de impacto
Abstract:
This article problematizes the process of university commodification in Spain, relating it to global trends, through bibliographic research. It highlights the crucial role played by the National Agency for Quality Evaluation and Accreditation (ANECA) and the progressive imposition of impact factors in scientific journals as an expression of the strengthening of academic capitalism and digital work in universities, within the framework of the university reforms of the 2000s.
Keywords:
Commodification; Geopolitics; Academic capitalism; Research; Impact index
1. Introdução
Gabriel García Márquez, escritor e jornalista colombiano, escreveu, em 1981, o romance Crônica de uma morte anunciada. Neste, reconstrói a maneira como Santiago Nasar é assassinado pelos irmãos Vicário, como vingança por ter tirado a virgindade da irmã deles. O romance assume a forma de gênero policial - desde o início sabemos o que acontece e o interesse se concentra em descobrir como os eventos aconteceram.
Algo semelhante ocorre com a pesquisa em Comunicação na Espanha, quando, no final do século XX e início do século XXI, levantaram-se vozes críticas que, em consonância com análises anteriores realizadas em outras partes do mundo (Aronowitz; Giroux, 2000; Bousquet, 2008), previram uma submissão da universidade e do conhecimento produzido à lógica da mercadoria sob o capitalismo acadêmico (Jessop, 2018; Allmer, 2018).
Essas análises premonitórias eram avisos de fogo,1 antecipavam consequências previsíveis: a mercantilização estava sendo anunciada. O que, naquele momento, não estava evidente eram quais seriam os mecanismos, os processos e os instrumentos específicos segundo os quais essa mercantilização na pesquisa espanhola, em geral, e na pesquisa em comunicação, em particular, seria implementada na prática.
A alusão ao gênero policial e ao romance de García Márquez é pertinente para investigar a maneira pela qual a universidade espanhola chegou à mercantilização anunciada. No caso espanhol, o processo ocorreu doravante a implementação de uma intensa cultura de avaliação (Martínez-Nicolás, 2020; Wouters, 1999), canalizada por um organismo público, a ANECA,2 que tomou como principal instrumento de avaliação a medição de artigos de impacto, publicados por investigadores espanhóis no índice JCR.3
As consequências dessas medidas são inúmeras, entre elas, a hipertrofia da publicação de artigos em Comunicação. Neste ínterim, a qualidade anunciada é baixa ou de nenhum impacto para a comunidade científica internacional (Rodríguez-Gómez; Goyanes; Rosique, 2018). Com isso, gerou-se um processo de implosão do campo comunicacional espanhol (Sáez; Ceballos-Castro, 2019) devido à falta de consistência e rigor do modo como esse conhecimento é construído.
Propomos, neste texto, analisar o processo de implementação da cultura de avaliação, o como da mercantilização da universidade espanhola. Para isso, destacamos as características específicas do caso espanhol em comparação com a dinâmica promovida em outros contextos internacionais. Dessa forma, analisaremos algumas das ausências no processo de promoção da internacionalização e da produção científica de qualidade na Espanha: (1) a omissão de uma análise da produção científica, a partir das lógicas sistêmicas do centro-periferia (Wallerstein, 1974; 1991); (2) e a ausência de políticas de produção de conhecimento que se distanciem das imposições feitas pelos critérios mercantilistas e neoliberais.
Este trabalho, de natureza teórica, leva em conta os dados empíricos e as análises prévias realizadas por pesquisadores espanhóis em comunicação que, durante esse período, trabalharam em torno do objeto de estudo (Costa, 2017; Martínez-Nicolás, 2020; Seoane; Martínez-Nicolás; Vicente, 2020; Piñeiro-Naval; Morais, 2019; Rodríguez-Gómez; Goyanes; Rosique, 2018; Soriano, 2008; Reig, 2015, entre outros). Reconstruímos, assim, o processo de mercantilização anunciada.
2. Uma determinada cultura de avaliação
No campo da construção e da avaliação do conhecimento, os termos nomotético e ideográfico, com fortes ressonâncias kantianas, são utilizados para se referir aos polos de uma tensão. A avaliação nomotética aponta para uma tendência à generalização, típica das ciências naturais que baseiam seus julgamentos em dados “objetivos”.4 Pelo contrário, a avaliação ideográfica avalia as questões do contexto e os elementos particulares e específicos de um caso. Cada um desses dois polos leva a duas culturas radicalmente diferentes de avaliação.
Dentro da avaliação educacional, autores como Stake (1976) e Kemmis (1978) refletem, criticamente, sobre os limites da aplicação do modelo nomotético à avaliação. Nessa linha, Herrán e Coro (2011) consideram, para o caso espanhol, que a cultura da avaliação nomotética representa uma cultura de citação (Wouters, 1999) ou uma cultura de impacto.
Martínez-Nicolás (2020) estabelece uma série de etapas no desenvolvimento de uma cultura de avaliação na Espanha: implementação (1983-1989), reforço (2001) e generalização (2008). Além disso, segue uma evolução que visa não apenas intensificar os critérios e a aplicabilidade, mas, fundamentalmente, tornar o desempenho científico um fator determinante para o acesso, a consolidação e a promoção da carreira profissional dos investigadores.
Com este intuito, há a criação de organismos públicos, como a já referida ANECA, em 2002, e a implementação do programa ACADEMIA5 e a CNEAI.6 Estes constituem um “Triângulo das Bermudas”, em que a investigação, a crítica e a qualidade correm o risco de naufragar em nome de um desejo frenético de publicar obras, que, na maioria dos casos, são de baixa ou nenhuma qualidade e impacto (Costa, 2017).
O trabalho desses órgãos e os registros introduzidos por eles fazem a pesquisa e a produção científica espanholas adquirir uma série de características específicas. Soriano (2008) dá o nome de “efeito ANECA” para se referir às consequências desse processo - toma emprestado o nome da principal instituição espanhola que contribui para a instauração dessas dinâmicas perniciosas na pesquisa crítica. O “efeito ANECA” leva ao aprimoramento de um tipo de produção científica que satisfaz mais às exigências de reconhecimento dessas agências do que à impulsão de conhecimento útil para a sociedade.
Desde a criação desses órgãos, o número de faculdades de comunicação, o de teses de doutorado defendidas ou o de artigos publicados em revistas científicas internacionais aumentou na Espanha (Palma, 2019). Todavia, continuando com o leitmotiv do nosso artigo - destinado a prestar mais atenção ao como do que ao quê, à qualidade do que à quantidade -, há, também, uma longa lista de consequências negativas para a pesquisa em Comunicação espanhola. Rodríguez-Gómez, Goyanes e Rosique (2018) conseguem radiografar a situação de forma precisa e, aqui, sintetizamos: um elevado número de autocitações (Fernández-Quijada; Masip; Bergillos, 2013), escassa transparência metodológica (Martínez-Nicolás; Saperas, 2011), superabundância de obras imaturas (Piñuel; Lozano; García, 2011), renúncia à análise crítica das empresas de mídias (Martínez-Nicolás, 2006) e o valor e a utilidade da pesquisa para a sociedade (Quirós, 2016).7
Testemunhamos, para tanto, a subsunção da pesquisa crítica nas mãos da pesquisa administrativa.8 De mãos dadas com um novo funcionalismo, a cultura da avaliação se impõe no atual sistema universitário espanhol, minando as possibilidades materiais para a promoção e a proliferação de pesquisas em comunicação e cultura críticas ao capitalismo.
2.1 Um instrumento de avaliação decisivo: a publicação em periódicos indexados no Journal Citation Reports
Dentre os instrumentos e os procedimentos previstos para a implementação da cultura da avaliação, um deles merece destaque: a utilização de artigos publicados em periódicos de impacto, especialmente aqueles que o fazem no Journal Citation Reports/JCR (Web of Science, Clarivate). Este elemento serve como critério de avaliação definitivo na medição da produção de investigadores espanhóis no “período ANECA” e, também, como critério decisivo na passagem dos investigadores de vínculos contratuais mais precários e temporários para vínculos mais estáveis.
No caso da Espanha, Martínez-Nicolás (2020, p. 398) chama esse período da ANECA de triunfo del paper. Assim, com base em pesquisas anteriores (Piñeiro; Morais, 2019), observa uma importância progressiva desse critério - publicação de artigos científicos em periódicos de impacto - em áreas como Ciências Sociais e Comunicação, em que, historicamente, o formato de livro ou monografia predominou como principal mecanismo de disseminação do conhecimento e da pesquisa.9
A tendência de priorizar e de valorizar a publicação nesse tipo de periódico é certamente global. No entanto, existem variações de país para país. A Espanha está entre os países mais comprometidos com a incorporação desse instrumento, a ponto de entrar em um grau de detalhe e exigência que sequer se aplica nos países anglo-saxões - em que a referência a esse tipo de visão vem de mais longe.10 A publicação nessas revistas é vista, por muitos pesquisadores, como uma batalha pessoal, como uma competição de cada pesquisador contra todos e contra o mundo.
Algumas chaves de análise desmascaram as armadilhas desta atualização do mito de Sísifo, agora em sua batalha para erguer a pesada pedra da produção acadêmica contra a encosta montanhosa íngreme das instituições credenciadoras. Assim, tendo em vista os dados sobre as publicações de pesquisadores espanhóis no campo da Comunicação em revistas de impacto, observa-se que as primeiras posições são ocupadas por pesquisadores ligados às primeiras Faculdades de Comunicação criadas na Espanha: a Universidade Complutense de Madrid, a Universidade de Navarra, a Universidade Autônoma de Barcelona e a Universidade do País Basco (Gómez; Bernardo, 2015, p. 502).11 Em outras palavras, universidades inicialmente bem posicionadas no mercado acadêmico ou que desfrutam de uma vantagem comparativa sobre as universidades que chegam mais tarde.
Na mesma linha, De-Filippo (2013) observa que as universidades espanholas com mais volume de produção nos periódicos de Comunicação incluídos no SCCI (Social Science Citation Index of Web of Science) são as quatro mencionadas anteriormente, às quais se somam a Universidade Pompeu e Fabra (Catalunha) e a Universidade Jaume I (Comunidade Autônoma de Valência). Percebe-se, portanto, uma correlação entre o nível de riqueza (Produto Interno Bruto) das regiões em que as universidades residem e o nível de produção acadêmica mais proeminente; ou, dito de outra forma, a influência que as lógicas de centro e periferia (Wallerstein, 1974; 1991) em nível nacional exercem sobre a produção acadêmica em termos gerais. O triângulo clássico em que se concentram a riqueza e a produção industrial na Espanha (composto de Madri, País Basco e Catalunha) também ocupa posições centrais no que diz respeito à produção científica.
Uma segunda chave de análise identifica os temas mais abordados na produção científica espanhola em Comunicação para apreender o efeito ANECA e como este influencia os temas de pesquisa através dos quais os pesquisadores espanhóis se consolidam no sistema universitário. Nesse sentido, Costa (2017, p. 11) faz um estudo com base em periódicos incluídos no Scopus (que destaca a linha temática relacionada ao ensino em comunicação) e verifica que os temas abordados podem ser considerados transversais e não, especificamente, vinculados a objetos de estudo no campo da Comunicação. Por sua vez, Rodríguez-Gómez, Goyanes e Rosique (2018) apontam para um crescimento da pesquisa empírica, especialmente por meio de técnicas como a análise de conteúdo. Piñeiro-Naval e Morais (2019) confirmam essa predominância e acrescentam que, embora as redes sociais e as TICs12 tenham ganhado destaque nos últimos tempos, os meios de comunicação tradicionais continuam sendo os mais proeminentes na pesquisa em Comunicação espanhola.
Portanto, uma primeira consequência dessas políticas institucionais é a perda de importância das pesquisas teóricas e das que orientam suas análises para questões estruturais ou sistêmicas, como as realizadas a partir da Economia Política da Comunicação (Sáez, 2021). Para alcançar a hiperprodutividade exigida pelo sistema, os pesquisadores recorrem aos temas e às metodologias de pesquisa mais rentáveis no contexto da McDonalização (Ritzer, 1992) da produção científica (Hayes, 2017): o estudo das mídias convencionais (imprensa, televisão), baseadas em metodologias quantitativas simples, como a análise de conteúdo. Além disso, esse desejo de alta produtividade acadêmica leva, em muitos casos, à proliferação de lógicas perniciosas para pesquisas de qualidade, como o chamado salami-slicing (Jackson et al., 2014; Tolsgaard et al., 2019).13
Com isso, as produções científicas de cada pesquisador são infladas, uma estratégia legítima de luta pela sobrevivência, mas que, muitas vezes, é feita à custa da má qualidade do que é publicado, do baixo impacto internacional da pesquisa ao baixo índice-h dos pesquisadores espanhóis em comunicação (Costa, 2017; Tuñez-López et al., 2014) ou da desconexão da pesquisa espanhola das tendências predominantes em todo o mundo (Seone; Martínez-Nicolás; Vicente, 2020).
Há uma profunda contradição: uma agência preocupada com a qualidade (ANECA) gera perda de qualidade, pouco ou nenhum impacto e significado no cenário internacional. Em suma, uma medida como o incentivo à publicação de artigos em periódicos - o que por si só não é negativo e bem contextualizado geraria dinâmicas positivas - torna-se, dentro da cultura da avaliação fomentada na pesquisa espanhola, uma lógica perversa.
Detrás desse processo, há uma fetichização da mercadoria14 em torno do artigo de impacto, pelo menos como é entendido por autores da teoria crítica, como Walter Benjamin. Esse é o autor do texto intitulado O capitalismo como religião (1921), no qual demonstra que o capitalismo é, essencialmente, um fenômeno religioso (Zamora, 2009, p. 59).15 Outra característica é que se trata de um culto que produz culpa e dívida. Nesse sentido, Zamora (2009) discorre que o conceito de culpa/dívida em alemão (Schuld) tem um duplo sentido, econômico e religioso, que se perde quando traduzido para outras línguas.
A tradução dessas categorias de análise para o assunto em questão - a produção de artigos de impacto - é esclarecedora. Os pesquisadores espanhóis, em sua ânsia hiperprodutivista como consequência da lógica de produção intensiva a que estão submetidos, veem como o capitalismo acadêmico produz novas subjetividades - caracterizadas pela dominação, extração ou exploração - que são acompanhadas pelo sentimento de culpa presente em muitos deles (Victoriano, 2017) por não produzirem o que deveriam produzir (de acordo com suas agências de avaliação ou seus chefes de unidades acadêmicas) e pela personalização e moralização das lógicas sistêmicas de dominação.
3. O processo de mercantilização anunciada
Nesta seção, analisaremos o processo de mercantilização anunciada da pesquisa na Espanha por intermédio de categorias e de perspectivas que foram, em alguma medida, ignoradas tanto pelas autoridades acadêmicas quanto pela maioria dos pesquisadores espanhóis nos seus diagnósticos e proposições. Fundamentalmente, o que tem sido ignorado é uma análise sistêmica da produção científica espanhola (e do campo da Comunicação, em particular) que contemple a dimensão geopolítica da pesquisa (Deméter, 2019), por meio das chaves do sistema-mundo e, com ela, das relações centro-periferia estruturalmente determinadas (Wallerstein, 1974; 1991).
Após a leitura da literatura científica sobre o tema, constata-se uma super-representação dos esforços individuais realizados no campo da pesquisa, uma ênfase que convive com um fenômeno de sinal oposto: a sub-representação das lógicas sistêmicas que geram essa situação. Historicamente, a pesquisa espanhola e a realizada no campo da Comunicação ocupam uma posição marginal em todo o mundo, em termos estruturais. Portanto, seria ingênuo pensar que somente, ou de preferência, com o esforço individual dos pesquisadores essa tendência histórica e sistêmica poderia ser revertida.
Para alcançar os objetivos desejados, não basta promover uma cultura de avaliação que lance pesquisadores espanhóis, individualmente, para competir no campo científico global. Para sair do voluntarismo ingênuo, precisamos, por exemplo, de uma política em matéria científica que parta de fortes investimentos econômicos em P & D.16 Neste ponto, emergem alguns dos princípios sistêmicos da investigação espanhola. De acordo com dados do Eurostat, a Espanha já está atrás de alguns dos países europeus com menos esforço de investimento em P + D, como a Grécia, a Polônia ou Portugal.17
No caso espanhol, o investimento público em pesquisa é fundamental, uma vez que as universidades públicas são as que concentram a maioria das investigações do país - verificou-se que, nos últimos oito anos, a dotação dedicada ao ensino superior caiu 14,7% e as reduções no financiamento de programas e projetos de P & D registraram um decréscimo de 31% (Mineco, 2018, p. 19, apudRodríguez-Gómez, Goyanes e Rosique, 2018, p. 233).18
Portanto, a análise dessa situação não pode ignorar a existência de uma geopolítica do conhecimento científico. Autores como Slater (2020), de posições decoloniais, lembram o modo como a localização geográfica afeta a produção de cultura e do conhecimento, em continuidade com as propostas de Mignolo (2000) e Walsh (2020). Sendo um aspecto crucial, é necessário complementá-lo com uma perspectiva sistêmica e econômica, a partir da Economia Política, para localizar o fenômeno numa dimensão mais global.
Deméter (2019) e Canagarajah (2002) propõem um eixo duplo para a análise da produção de conhecimento diante de uma perspectiva sistêmica. O eixo horizontal leva em conta características geográficas, o que permite falar de uma hegemonia ocidental - mais especificamente anglo-americana - e de periferias geográficas na produção de conhecimento. Por outro lado, o eixo vertical toma como critério decantatório a existência de comunidades marginalizadas no centro do sistema (grupos étnicos, por questões sociais ou de gênero), sujeitas aos interesses dos grupos dominantes existentes em suas próprias sociedades.
Neste contexto, uma possível saída para os desequilíbrios existentes é a migração de áreas periféricas do conhecimento científico para os centros do sistema, como é o caso de outros setores da economia. A diáspora científica e acadêmica (Seoane; Martínez-Nicolás; Vicente, 2020), crescente à medida que o capitalismo acadêmico (Jessop, 2018) avança, obriga uma multidão de pesquisadores a migrar da periferia para o centro para acumular capital no mais puro sentido bourdiano.19
A pesquisadora argentina Daniela Perrota (2017) confirma as consequências que essas políticas de avaliação da produção científica têm em escala internacional. Afirma que os critérios de avaliação, elaborados no Norte e disseminados em escala global, “colocam em xeque não apenas as políticas de internacionalização da universidade, mas também todas as suas dimensões e missões, rompendo seu próprio sentido” (Perrota, 2017, p. 50).
Mas não apenas as periferias acadêmicas da América Latina, África ou Ásia são afetadas. A transnacionalização da educação superior (Robertson; Dale, 2015) também afeta as semiperiferias acadêmicas (Boatca, 2006), incluindo países como a Espanha. Portanto, a introdução acrítica desses critérios globais nas políticas nacionais de ciência, conhecimento e ensino superior reduz, como no caso da Espanha, a capacidade de sair das posições estruturais de dependência em que historicamente se situa.
Por outro lado, a posição espanhola de semiperiferia, teoricamente, dar-lhe-ia a opção de captar uma parte do talento acadêmico que, das periferias do Sul Global, compõe a diáspora acadêmica que migra para os centros. Todavia, esse potencial não se materializa, pelo menos no caso de pesquisadores doutores em busca de uma posição estável, uma vez que as condições específicas de acesso a posições de pesquisa e ensino nas universidades públicas espanholas (a maioria e as mais importantes) exigem um processo de acreditação altamente burocratizado, atuando como uma barreira dissuasiva.
Afonso (2016) afirma que o mercado de trabalho acadêmico na Espanha, de forma semelhante ao que acontece na França e na Itália, é caracterizado por altas barreiras à entrada de estrangeiros, sendo altamente regulamentado. O obstáculo mais comum à internacionalização é a prevalência do recrutamento endogâmico.20 Dessa forma, a Espanha se encontra numa situação curiosa e pouco inteligente em que partilha elementos negativos - como consequência de ser parcialmente periférica - e deixa de usufruir de alguns dos benefícios potenciais de ser parcialmente central.
4. Conclusões e discussão
O poder local das universidades espanholas exerce forte influência na seleção de candidatos que acessam posições mais estáveis de pesquisadores e professores (apesar dos progressos no estabelecimento de critérios de seleção mais abertos e sujeitos a sistemas de responsabilização). Este debate serve como elemento de transição para abordar as conclusões desta pesquisa, visto que algo semelhante acontece com as publicações espanholas de referência no campo da Comunicação.
Distante do modelo americano em que a ICA21 exerce uma função de dinamização e coordenação da atividade das publicações ligadas a ela, o modelo espanhol seguiu outros caminhos e, apesar do bom trabalho realizado pela Associação Espanhola de Pesquisa em Comunicação (AE-IC), o contexto das publicações científicas configuradas na Espanha, nos últimos anos, está longe de ser ideal.
A endogamia e a forte influência do poder local adquirem características especiais na Espanha e, por extensão, no mundo latino, traços que aparecem no romance de García Márquez, com o qual iniciamos a reflexão e ao qual voltamos agora. Esse fenômeno é especificamente chamado de caciquismo.22 O caciquismo e, com ele, a reflexão sobre os modos como o poder político e o econômico se estruturam são temas que permeiam toda a Crônica de uma morte anunciada. Além disso, caracteriza-se pelo abuso de poder sobre os mais fracos e pela ostentação da superioridade econômica, dois elementos constantes ao longo da obra de García Márquez.23
Para muitos pesquisadores espanhóis, a estratégia de sobrevivência para fazer uma carreira acadêmica neste contexto - hostil e competitivo - é colaborar com alguns dos caciques, em torno dos quais o poder acadêmico local está concentrado. É contraditório que as reformas universitárias não só não tenham posto fim à endogamia e às cotas de poder dos dirigentes locais, mas também, em certa medida, as tenham reativado.
Diante desse cenário e das tendências apontadas, as soluções passam, pelo menos do ponto de vista crítico, pelo desenho de políticas científicas e de ensino superior, elaboradas segundo critérios alternativos aos dominantes. Este é o caminho iniciado por alguns países latino-americanos. Como indica Perrota (2017, p. 50), a partir de contextos periféricos e dependentes, as respostas regionais, baseadas em um regime de solidariedade, permitem configurar modelos alternativos de internacionalização da universidade que atualizam os debates sobre o papel da ciência e da universidade na promoção do desenvolvimento.
Semelhantemente, Vessuri, Guédon e Cetto (2014) argumentam que existem outras formas de articular excelência e qualidade científica, alternativas àquelas disseminadas pelas organizações globais. Propõem o desenho de uma política de pesquisa que busque melhorar os níveis de ciência na América Latina - e, por extensão, em outras regiões periféricas do mundo -, ao mesmo tempo que contemplam a possibilidade de resolver problemas relevantes para a região. Sugerem a implementação de relações estratégicas com outras redes científicas globais, que também estejam interessadas em promover iniciativas alternativas às dominantes, especialmente no campo das publicações científicas, uma vez que este é um espaço estratégico no qual os debates sobre qualidade, excelência e internacionalização da investigação e da ciência materializam-se.
No caso espanhol, a pressão é semelhante à de outros países, em relação aos grandes oligopólios de publicação científica (Larivière, Haustein, Mongeon, 2015), com os correspondentes indicadores e regras impostas a pesquisadores e aos governos do mundo. Bermejo (2015) estimou que o acesso a esses periódicos e a bases de dados custou às universidades públicas espanholas cerca de um bilhão de euros por ano. Por outro lado, nacionalmente, a ANECA é responsável por reproduzir indicadores internacionais como critério para que os investigadores alcancem posições mais estáveis e progridam nas suas carreiras acadêmicas. Esse duplo cenário (internacional e nacional) de precariedade e competitividade é sintetizado por Víctoriano (2017). Para ele, as reformas universitárias desenham um cenário:
[...] cada vez mais precário no ambiente de trabalho, onde um setor cada vez mais amplo de professores se explora até serem queimados (burnout). Forçados a competir na lagoa de piranhas da ANECA ou no oceano de tubarões de rankings internacionais, o seu projeto profissional de ensino e investigação revelou-se como um projétil em que são obrigados a dirigir para si próprios (Victoriano, 2017, p. 101).
Desse modo, é necessário sair dos dois círculos viciosos (Maceiras, 2018) em que se encontra a investigação espanhola: a privatização da ciência e a progressiva irrelevância do conhecimento público. O primeiro resulta na naturalização dos indicadores de impacto, o que faz o conhecimento público ter de ser validado por meio das mesmas regras do mercado. O segundo leva ao fato de que os incentivos (monetários e de prestígio) que a ciência pública pode oferecer “são progressiva e comparativamente inferiores aos oferecidos pela esfera privada”. Consequentemente, agudiza-se a natureza privada do conhecimento e dos agentes capazes de dar respostas aos grandes problemas a serem resolvidos através do conhecimento científico (Maceiras, 2018).
Como sair desses círculos viciosos? Os pesquisadores Perrota (2017) e Vessuri, Guédon e Cetto (2014) apontam para o caminho necessário de desenhar políticas científicas nacionais e regionais que proponham alternativas viáveis e permitam recuperar, como indica Bustamante (2018), a soberania científica cedida às grandes multinacionais. Não é uma saída fácil e exige um longo caminho a percorrer. Um dos primeiros passos é o sugerido pelo provérbio chinês “A primeira coisa a fazer para sair do poço é deixar de cavar”. Caso contrário, em poucos anos, rescreveremos uma comparação metafórica que não vem do romance de García Márquez, Crônica de uma morte anunciada, mas de outro de seus best-sellers: Cem anos de solidão.
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1
Expressão referida a autores como Walter Benjamin (Mate; Mayorga, 2000).
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7
Em alguns estudos bibliométricos, de natureza qualitativa, verifica-se que muitos dos trabalhos citados não incluíam evidências suficientes para demonstrar que haviam sido lidos e compreendidos como formulados pelo autor citado (Sáez; Ceballos-Castro, 2019).
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8
Adorno já sinalizou que sofreu pessoalmente em seu período de exílio nos Estados Unidos, expressando em seus debates e confrontos com Lazarsfeld (Mattelart; Mattelart, 1995, p. 53).
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14
O fetichismo da mercadoria é uma expressão utilizada por Marx (2013) para revelar o tipo de relação social que as mercadorias criam sob o capitalismo.
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18
Entrando em mais detalhes, Caffarel (2018, p. 294) aponta que a área de Ciências Sociais obtém cerca de 30% do orçamento dedicado ao financiamento de projetos de pesquisa na Espanha e, dentro dessa área, apenas 1% é dedicado à pesquisa em Comunicação.
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20
Baseado em contatos e não no desempenho da pesquisa ou do ensino, além de sistemas centralizados de “acreditação”, destinados a controlar a oferta de mão de obra por insiders - conclusão também compartilhada por estudos recentes sobre esse caráter endogâmico e refratário ao recrutamento de talentos do sistema universitário espanhol (Seoane; Martínez-Nicolás; Vicente, 2020).
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Este artigo foi possível devido à Bolsa Unión Europea-Next Generation/Ministerio de Universidades de España RD 289/2021 y UNI/551/2021), Universidad de Cádiz (UCA/R155REC/2021), concedida ao Professor Víctor Manuel Marí Sáez, e à bolsa de doutorado sanduíche concedida à professora Clara Martins do Nascimento, financiada pelo PRINT-CAPES- Programa Institucional de Internacionalização, Edital n. 41/2017. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior/Capes como instituição de fomento. Também contou com o financiamento da Agencia Estatal de Investigación (AEI) de España: proyecto “Comunicación Solidaria Digital. Análisis de los imaginarios, los discursos y las prácticas comunicativas de las ONGD en el horizonte de la Agenda 2030” (PID2019-106632GB-IOO/AEI/10.13039/501100011033). Agradecemos também ao Programa UCA Internacional para a realização de teses em regime de cotutela.
