RESUMO
Objetivo: construir e validar o conteúdo das definições constitutivas, operacionais, e a magnitude operacional de indicadores selecionados em uma Unidade de Terapia Intensiva para o diagnóstico de enfermagem Risco de infecção.
Método: pesquisa metodológica realizada entre maio a junho de 2021, com oito especialistas que avaliaram as definições quanto ao conteúdo e concordância.
Resultados: as definições constitutivas dos indicadores dos resultados Gravidade da infecção e Controle de riscos: processo infeccioso, obtiveram Scale-level content validity index based on the average method de 1,00 e 0,96 respectivamente. Nas definições operacionais, os indicadores “Identifica fatores de risco para infecção e utiliza precauções universais” apresentaram, respectivamente, Item-level content validity index de 0,98 demonstrando concordância quase perfeita e 1,00, concordância perfeita. Referente à magnitude operacional, foram revisadas as definições dos indicadores do resultado controle de riscos: processo infeccioso, embora o Scale-level content validity index based on the average method tenha demonstrado concordância quase perfeita de 0,96 para cada critério. Sobre as definições das magnitudes operacionais, revisou-se o indicador Febre, mesmo apresentando Item-level content validity index de 1,00 para todos os critérios avaliados.
Conclusão: demonstrou-se que as definições constitutivas, operacionais, e de magnitude operacional construídas possuem validade de conteúdo, constituindo-se em um constructo científico capaz de ser reproduzido nos diversos ambientes de saúde.
DESCRITORES:
Terminologia padronizada em enfermagem; Unidade de Terapia intensiva; Processo de enfermagem; Estudos de validação; Diagnóstico de enfermagem
ABSTRACT
Objective: to construct and validate the content of constitutive and operational definitions and operational magnitude of selected indicators in an Intensive Care Unit for the “Risk for infection” nursing diagnosis.
Method: methodological research carried out between May and June 2021 with eight experts who assessed the definitions in terms of content and agreement.
Results: the definitions of indicators for “Infection severity” and “Risk control: infectious process” outcomes obtained a scale-level content validity index based on the average method of 1.00 and 0.96, respectively. In the operational definitions, the indicators “Identifies risk factors for infection” and “Uses universal precautions presented”, respectively, an item-level content validity index of 0.98, demonstrating almost perfect agreement, and 1.00, perfect agreement. Regarding the operational magnitude, the definitions of indicators for the “Risk control: infectious process” outcome were reviewed, although the Scale-level content validity index based on the average method demonstrated almost perfect agreement of 0.96 for each criterion. As for the definitions of operational magnitudes, the “Fever” indicator was reviewed, even though it presented an Item-level content validity index of 1.00 for all the criteria assessed.
Conclusion: it was demonstrated that the constitutive, operational, and operational magnitude definitions constructed have content validity, constituting a scientific construct capable of being reproduced in different health environments.
DESCRIPTORS:
Standardized nursing terminology; Intensive care units; Nursing process; Validation study; Nursing diagnosis
RESUMEN
Objetivo: construir y validar el contenido de las definiciones constitutivas y operativas y la magnitud operativa de indicadores seleccionados en una Unidad de Cuidados Intensivos para el diagnóstico de enfermería “Riesgo de infección”.
Método: investigación metodológica realizada entre mayo y junio de 2021 con ocho expertos que evaluaron las definiciones en términos de contenido y concordancia.
Resultados: las definiciones constitutivas de los indicadores de resultado “Gravedad de la infección” y “Control de riesgos: proceso infeccioso” obtuvieron un scale-level content validity index based on the average method de 1,00 y 0,96, respectivamente. En las definiciones operativas, los indicadores “Identifica factores de riesgo de infección” y “Utiliza precauciones universales” presentaron, respectivamente, un item-level content validity index de 0,98, demostrando una concordancia casi perfecta, y de 1,00, con una concordancia perfecta. En cuanto a la magnitud operativa, se revisaron las definiciones de los indicadores de resultado “Control de riesgo: proceso infeccioso”, aunque el scale-level content validity index based on the average method demostró una concordancia casi perfecta de 0,96 para cada criterio. En cuanto a las definiciones de magnitudes operativas, se revisó el indicador “Fiebre”, aunque presentó un item-level content validity index de 1,00 para todos los criterios evaluados.
Conclusión: se demostró que las definiciones constitutiva, operacional y de magnitud operacional construidas tienen validez de contenido, constituyendo un constructo científico capaz de ser reproducido en diferentes ambientes de salud.
DESCRIPTORES:
Terminología normalizada de enfermería; Unidades de cuidados intensivos; Proceso de enfermería; Estudio de validación; Diagnóstico de enfermería
INTRODUÇÃO
O Diagnóstico de Enfermagem (DE) Risco de Infecção da taxonomia NANDA International (NANDA-I), tem por definição “Suscetibilidade a invasão e multiplicação de organismos patogênicos que pode comprometer a saúde”. Nas “Condições associadas” a este DE, inclui-se o item “Procedimento invasivo”. Assim, todo e qualquer paciente que é submetido a algum procedimento invasivo tem risco aumentado para manifestar infecção, que nesse caso seria uma Infecção Relacionada à Assistência à Saúde (IRAS), definida como toda a infecção que se manifesta em um sítio específico após a admissão de um paciente no serviço de saúde, ou aquela que se inicia após o terceiro dia (72h) de internação1.
Complementarmente, para atender ao critério diagnóstico de uma IRAS, é necessário definir o que conhecemos como período de janela da infecção, caracterizado por um período de sete dias, durante os quais são identificados sinais, sintomas, e resultados de exames. Assim, deve-se considerar 3 dias antes e 3 dias depois da coleta do primeiro exame laboratorial com resultado positivo ou do primeiro exame de imagem com resultado alterado. Na ausência de exames, deve-se considerar a data do primeiro sinal ou sintoma específico para aquela determinada IRAS. Portanto, no contexto epidemiológico, não será considerada IRAS se os sinais ou sintomas definidos para uma infecção específica estiverem fora do período da janela da infecção2.
Os critérios diagnósticos das IRAS de notificação nacional obrigatória, como as que ocorrem mais comumente nas unidades UTIs, tais como a infecção de corrente sanguínea (IPCS) associada ao cateter central, pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV), e infecção do trato urinário (ITU) associada ao cateter vesical de demora, e as infecções de sítio cirúrgico apresentam as suas próprias especificidades. Nessas situações, dentre outras particularidades consideradas, a data da infecção é bem definida, sendo caracterizada como o dia da instalação do respectivo dispositivo ou procedimento cirúrgico2.
Através de um levantamento prévio, realizado pelos autores do estudo em foco, compreendendo a coleta de informações nos prontuários eletrônicos abrangendo todos os pacientes internados no ano de 2020 em uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) adulto geral de referência, localizada no estado de Santa Catarina, evidenciou-se que 91,1% dos prontuários analisados possuíam o diagnóstico Risco de Infecção. A condição associada nomeada “Procedimento invasivo” estava presente em 90,2% do total analisado. Os resultados Gravidade da Infecção, com os indicadores “Instabilidade da temperatura”, “Febre”, “Escarro purulento”, “Dor”, e “Controle de Riscos: Processo Infeccioso”, com os indicadores “Identifica fatores de risco para infecção”, “Utiliza precauções universais” e “Identifica sinais e sintomas de infecção”, foram os mais prevalentes.
Corroborando com a evidência apresentada anteriormente, nas UTIs os pacientes são submetidos a inúmeros procedimentos invasivos, predizendo a seleção do DE Risco de Infecção3. Assim, para o planejamento do cuidado, utilizando-se a Classificação dos Resultados de Enfermagem (NOC), devem ser selecionados resultados e seus respectivos indicadores os quais orientarão a escolha das intervenções, condizentes com as necessidades de saúde dos pacientes. Entretanto, problematiza-se ser difícil escolher o índice que melhor representa a magnitude operacional do indicador, por não haver definições que as caracterizem, especialmente nas magnitudes intermediárias representadas pelos índices “2”, “3”, e “4”, já que nos extremos “1” e “5” tem-se, respectivamente, a “pior” e a “melhor” condição clínica4. Nesse sentido, discute-se que a acurácia quanto ao uso da NOC envolve a necessidade de construir definições constitutivas, operacionais, e de magnitude operacional para indicadores de resultados que sejam aplicáveis à prática clínica5.
Definições constitutivas podem ser entendidas como uma síntese do conhecimento, definida de acordo com o significado não refinado da palavra; as operacionais atribuem significado a uma determinada palavra, especificando como tal conceito deverá ser mensurado. Por fim, as definições de magnitude operacional representam a descrição detalhada de cada índice da escala de avaliação do tipo Likert6.
Considerando a relevância da utilização do DE Risco de Infecção no cenário da Terapia Intensiva e seleções positivas de resultados e intervenções, acredita-se que a construção e validação de definições para os indicadores de resultados contribua para o aprimoramento do conhecimento e utilização da NOC na prática clínica, pois os indicadores descrevem o estado de um determinado sinal/sintoma e direcionam as atividades de enfermagem5.
Objetivou-se, portanto, construir e validar o conteúdo das definições constitutivas, operacionais, e a magnitude operacional de indicadores dos resultados Gravidade da infecção e Controle de riscos: processo infeccioso evidenciados em uma unidade de terapia intensiva.
MÉTODO
Trata-se de um estudo metodológico fundamentado na construção e validação de instrumentos6. Para seleção dos especialistas, adotou-se o modelo proposto para validação de estudos na enfermagem7.
Foram incluídos docentes especialistas na temática, que obtiveram pontuação igual ou superior a seis, ao atender os seguintes critérios: experiência de, pelo menos, dois anos em ensino de classificações de enfermagem (quatro pontos); experiência em pesquisa, com artigos publicados sobre classificações de enfermagem em periódicos de referência (dois pontos); participação de, pelo menos, um ano em grupo de pesquisa ou de extensão na área das classificações de enfermagem (dois pontos); doutorado em enfermagem, com Tese relacionada às classificações de enfermagem (dois pontos); mestrado em enfermagem, com Dissertação relacionada às classificações de enfermagem (dois pontos); Residência em enfermagem, com Trabalho de Conclusão de Curso relacionado às classificações de enfermagem (dois pontos). Para cada dois anos de experiência clínica ou de ensino, um ponto foi adicionado7. O critério de exclusão compreendeu o não preenchimento completo do formulário de validação.
Foram convidados nove especialistas e oito aceitaram participar. A seleção dos especialistas julgados potencialmente elegíveis ocorreu através da análise do currículo Lattes, abrangendo três instituições de ensino superior do oeste catarinense, que possuem cursos de graduação em enfermagem. Esta seleção levou em consideração a existência de um núcleo de estudos sobre o Processo de Enfermagem (PE) na região, e o emprego das taxonomias NANDA-I, NOC, e NIC, com o envolvimento das respectivas instituições de ensino.
A coleta de dados ocorreu nos meses de maio e junho de 2021, por meio de formulário eletrônico na plataforma Google Forms, contendo o termo de aceite da pesquisa, dados sociodemográficos, e as definições a serem validadas. O convite com o link de acesso ao formulário foi enviado por e-mail, possibilitando a avaliação das definições constitutivas e operacionais através de três opções: “definição está adequada ao indicador”; “definição está de algum modo adequada ao indicador, mas com sugestão”; “definição não está adequada ao indicador”.
Por sua vez, para cada um dos cinco índices da escala de magnitude operacional, foi avaliada a adequação através dos critérios de simplicidade, clareza, e precisão. O critério da simplicidade buscou avaliar se a definição conseguia expressar uma única ideia; o critério da clareza se era inteligível; e o critério da precisão se a definição possuía uma posição definida, distinguindo-se das demais. A cada um destes critérios foram facultados aos especialistas três opções: “o critério é atendido”; “indecisão quanto ao atendimento do critério”; e “o critério não é atendido” 6.
Para avaliar as medidas de concordância entre os especialistas, foi utilizado o Item-level content validity index (I-CVI). Para a análise geral das definições construídas, utilizou-se o Scale-level content validity index based on the average method (S-CVI/Ave), possibilitando analisar a média das pontuações I-CVI para todos os itens do constructo8. Considerou-se neste estudo a concordância mínima de 0,83 tanto para o I-CVI, quanto para o S-CVI/Ave9.
Complementarmente, o índice de concordância (Inter-Rater Agreement) (InC) para cada definição, e para o conjunto de definições, separados de acordo com o respectivo RE, são apresentados em termos de porcentagem. Para esta medida, foi considerado o índice mínimo de 75% para a validação por concordância dos especialistas10. O estudo atendeu às exigências da Resolução no 466/2012.
RESULTADOS
Os oito especialistas participantes eram doutores, sendo que um deles possuía Pós-doutorado. A participação efetiva da maioria dos especialistas, em grupos de pesquisa na área, compreendeu o intervalo entre um e cinco anos. O tempo médio de experiência no ensino, relacionado às classificações de enfermagem NANDA-I, NOC, e NIC, foi de 9,5 anos. A totalidade possuía, pelo menos, uma publicação na área. A pontuação alcançada nos critérios de elegibilidade variou de oito a 17 pontos, sendo a média de 11,87.
Neste estudo construiu-se as definições constitutivas, operacionais, e de magnitude operacional de sete indicadores, sintetizadas nos Quadros 1 e 2. As adequações, conforme sugestão dos especialistas estão destacadas em negrito.
A maior parte das definições constitutivas foi considerada “adequada ao indicador”, com S-CVI/Ave 1,00 para as definições dos indicadores do resultado Gravidade da infecção, e 0,96 para as definições dos indicadores do resultado Controle de riscos: processo infeccioso. Entretanto, mesmo com a concordância perfeita e quase perfeita, respectivamente, houve sugestões pertinentes dos especialistas para as definições dos indicadores Febre, Instabilidade da temperatura e “Utiliza precauções universais”, visando qualificar os conceitos construídos.
Com relação ao indicador Febre, ao definir os valores de normotermia (entre 36º e 37ºC), de estado subfebril (entre 37,1º e 37,7ºC) e de febre (igual ou superior a 37,8ºC) na versão revisada do constructo científico, procedeu-se à adequação das definições de magnitude operacional quanto aos intervalos de temperatura para cada um dos índices da escala de avaliação. Assim, o índice “5” representa a ausência de febre, o índice “4” estabelece a margem de aumento de até 1ºC, acima do limite superior da normotermia (que é de 37ºC) e, a partir deste ponto, considerou-se o aumento cumulativo de 0,5ºC para o restante dos índices, tomando-se o cuidado de apresentar intervalos de temperatura para cada índice, como forma de facilitar a seleção do índice mais adequado, pelo profissional enfermeiro.
Observou-se também que somente a definição constitutiva do indicador “Utiliza precauções universais”, pertencente ao resultado Controle de riscos: processo infeccioso, apresentou I-CVI de 0,88. Neste caso, os avaliadores sugeriram adequações que são mais bem delineadas na discussão.
Quanto às definições operacionais, somente as definições dos indicadores “Identifica fatores de risco para infecção”, “Utiliza precauções universais” e “Identifica sinais e sintomas de infecção”, todos pertencentes ao resultado Controle de riscos: processo infeccioso apresentaram S-CVI/Ave inferior a 1,00 (0,99), e média do InC inferior a 100% (93%). Mesmo apresentando concordâncias quase perfeitas, após a análise das sugestões apontadas pelos especialistas, optou-se pela realização de ajustes para os três indicadores. Os resultados do I-CVI, S-CVI/Ave e InC são apresentados na Tabela 1.
Concernente às definições das magnitudes operacionais dos indicadores, foram revisados quanto à simplicidade, clareza, e precisão a redação da magnitude “5” de cada um dos indicadores do resultado Controle de riscos: processo infeccioso, embora a média do InC tenha se mostrado elevada (entre 89,3 e 93,5%), e o S-CVI/Ave dos três critérios demonstrado uma concordância quase perfeita (0,96 para cada critério) (Tabela 2).
DISCUSSÃO
Seguindo os critérios para seleção de especialistas, 100% dos selecionados foram classificados como master, o que demonstra uma adequada qualificação devido principalmente à prática clínica e ensino das classificações NANDA-I, NOC, e NIC. O especialista júnior deverá apresentar pontuação mínima de cinco; o master, uma pontuação entre seis e 20; e o sênior, superior a 20 pontos7.
Quanto às definições validadas, pondera-se que para as constitutivas dos indicadores Febre e Instabilidade da temperatura associadas ao resultado Gravidade da infecção, mesmo que se tenha obtido um alto nível de concordância entre os especialistas, deliberou-se pela adequação baseada nas sugestões apresentadas. A definição de um ponto de corte para febre ainda é assunto de discussão em muitos grupos de pesquisa, principalmente devido à existência de inúmeras variáveis e incertezas que afetam tanto a definição, quanto a determinação da temperatura normal e da elevada11.
Assim, a proposição inicial para este estudo pautou-se no conceito de Temperatura corpórea considerada ideal, cujo intervalo varia entre 36º e 36,7ºC12. Entretanto, seguindo o apontamento dos especialistas, adotou-se o conceito de normotermia13 com intervalo entre 36º e 37ºC, como parâmetro inicial para o estabelecimento dos intervalos de temperatura, tanto para o indicador Febre, quanto para o indicador Instabilidade da temperatura.
A manifestação de temperatura axilar igual ou superior a 37,8ºC é considerada febre, e o intervalo de temperatura entre o valor limítrofe superior da normotermia (37ºC) e o considerado febre (37,8ºC), pode ser denominado como Estado subfebril14. Diante das várias possibilidades de valores, intervalos de temperatura, e nomenclaturas evidenciadas, ponderou-se também sobre o parâmetro adotado pelo hospital local do estudo, o qual considera febre a temperatura axilar igual ou superior a 37,8ºC.
Quanto ao indicador Instabilidade da temperatura, problematiza-se a dificuldade em encontrar sustentação teórica na literatura, tanto em livros quanto em artigos, com abordagem para esta temática. Observou-se que a maior parte dos estudos, relacionados com a instabilidade da temperatura corporal, refere-se ao contexto do paciente no período perioperatório, ou seja, abordando as respostas reguladoras da temperatura através da oscilação entre a hipotermia, normotermia e hipertermia.
Como forma de auxiliar o enfermeiro na seleção de indicadores mais acurados, diante da manifestação de oscilações na temperatura corpórea dos pacientes, as definições dos índices de magnitude operacional buscam estabelecer um ponto de corte para o indicador Instabilidade da temperatura, com a observância de, no mínimo, três episódios de oscilação de temperatura, abaixo e/ou acima dos valores limítrofes da normotermia, em um período de 24 horas.
A verificação da temperatura corporal em UTIs é fundamental para o manejo dos pacientes críticos e, atualmente, sabe-se que esse monitoramento pode ser realizado de forma invasiva ou não-invasiva, refletindo a temperatura corporal central ou periférica. Os métodos invasivos estão entre os mais fidedignos para a aferição da temperatura, apesar de apresentarem maior risco de complicações e/ou infecções15. A artéria pulmonar se destaca entre os métodos de medição da temperatura central, aferida através do cateter de artéria pulmonar, sendo considerada o padrão ouro entre os métodos de medição. A temperatura vesical, aferida através de um cateter urinário com sensor térmico, tem sido um método apoiado em vários estudos por se demonstrar fidedigno e preciso quanto ao valor da temperatura central16.
A temperatura esofágica, aferida através de sonda própria ou sonda com estetoscópio, também é um método muito adotado na monitorização da temperatura de pacientes críticos. Este avalia a temperatura central do paciente através da colocação da sonda térmica no terço inferior do esófago e tem sido amplamente referido como um método preciso, comparado com o cateter de artéria pulmonar17.
Entre as técnicas não-invasivas mais utilizadas, tem-se a temperatura axilar, a temperatura de artéria temporal, a temperatura oral, e a temperatura de membrana timpânica. Os métodos de termometria não-invasivas não possuem confiabilidade bem estabelecida, especialmente em pacientes que necessitam de cuidados críticos. No entanto, assim como verificado na UTI participante desse estudo, devido à praticidade e baixo custo, a temperatura axilar permanece sendo utilizada em diferentes UTIs como parâmetro de referência para intervenções terapêuticas15.
Quanto ao indicador “Escarro purulento”, pertencente também ao resultado “Gravidade da infecção”, a construção das definições dos índices de magnitude operacional foi igualmente dificultada pela escassez de estudos abordando, dentre outras condições, as características do escarro que fomentassem a sua classificação. Não se encontrou, portanto, na literatura amplamente pesquisada classificações que, por exemplo, remetessem à gravidade segundo as características observadas nas secreções de origem respiratória.
Neste contexto, da elaboração das definições de magnitude operacional para o indicador “Escarro purulento”, as classificações de gravidade, de acordo com os aspectos observados no escarro, foram delineadas com base nos achados mais frequentes nas doenças pulmonares. A partir da análise criteriosa das principais doenças de origem pulmonar18 foi possível classificar os índices da magnitude operacional deste indicador, com ênfase na cor, consistência, odor, e quantidade em uma escala em que o índice “5” é caracterizado pela ausência de escarro e o índice “1” pela pior apresentação possível, tal como “Escarro purulento, amarelo, verde, marrom, róseo, enegrecido, ferruginoso ou sanguinolento, mucoide, espumoso ou espesso, com leve odor ou fétido, em abundante quantidade, obtido através de copiosas expectorações”.
Com relação ao indicador “Dor”, o último da seleção de pertencentes ao resultado Gravidade da infecção, a construção das definições operacionais buscou abordar um dos principais desafios observados na prática clínica, que é a avaliação da dor em indivíduos não responsivos, condição de saúde frequentemente observada nas UTIs. É importante destacar que os protocolos assistenciais têm recomendado fortemente a avaliação da dor durante o exercício do cuidado19.
Problematiza-se ainda que, para os indivíduos com a cognição preservada, a mensuração da dor é mais facilmente realizada através do próprio relato do paciente e uso de escalas visuais. Entretanto, para os pacientes críticos, frequentemente impossibilitados de verbalizar devido às alterações no nível de consciência, tem sido recomendado o uso de escalas observacionais, as quais se baseiam em parâmetros fisiológicos e expressões corporais19.
Nesse sentido, da avaliação da dor em pacientes não responsivos, a definição operacional construída buscou instrumentalizar o profissional enfermeiro através de “gatilhos”, sugerindo a observação das expressões faciais, movimentos corporais, e o comportamento não-verbal do paciente. Outra informação importante abordada nessa definição refere-se às alterações repentinas nos sinais vitais, principalmente durante a realização de procedimentos que possam causar desconforto, as quais podem ser sinais sugestivos de dor.
É importante destacar que a utilização apenas de dados fisiológicos para mensuração da dor é discutível, pois vários fatores como medo, apreensão, e ansiedade podem influenciar diretamente essa avaliação. Além disso, a ausência de alterações nos sinais vitais não indica, necessariamente, a ausência de dor19. Considerando essa importante evidência, a construção das definições dos índices de magnitude operacional fundamentou-se nas duas possibilidades, ou seja, a mensuração da magnitude para pacientes responsivos e não-responsivos.
Assim, para os pacientes verbalizantes, as definições dos índices adotam o uso de informações da escala visual analógica (EVA) que, segundo a Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED)20 compreende uma escala numérica de 0 a 10 e, no caso deste estudo, foi associada a uma escala verbal com cinco descritores. Os descritores serão apresentados aos pacientes para que escolham aquele que representa a intensidade da dor ou do alívio no momento da avaliação. Para cada um dos cinco índices da escala Likert há um intervalo numérico, correspondente à intensidade da dor, e o uso dos descritores (Sem dor; Dor leve/fraca; Dor moderada; Dor forte/intensa; e Dor insuportável/pior dor possível).
Para os pacientes impossibilitados de verbalizar e/ou com alteração no nível de consciência, as definições dos índices de magnitude operacional apresentam uma adaptação da Nociception Coma Scale (NCS). A NCS foi desenvolvida baseada em observações que sugerem comportamentos dolorosos a partir de quatro itens: resposta motora, verbal, visual, e expressão facial, com pontuação onde zero significa ausência de dor frente ao estímulo álgico e 12 pontos seria a máxima resposta frente ao estímulo21. Entretanto, ao utilizarmos a EVA para balizar a intensidade da dor, suprimimos as pontuações sugeridas pela NCS, adaptando-as aos cinco índices da escala Likert.
Ao considerarmos que o controle da dor e alívio do sofrimento constitui responsabilidade dos profissionais da área da saúde e, diante de relatos na literatura especializada de que muitas vezes a dor é subtratada, atestando-a como um sintoma recorrente no ambiente hospitalar20, a utilização ampla deste indicador reforça a importância dada pelos enfermeiros quanto ao bem-estar físico e emocional dos pacientes.
Os indicadores relacionados com o RE Controle de riscos: processo infeccioso, por serem classificados como “Resultados de desempenho”, os quais iniciam com os termos “Conhecimento”, “Comportamento”, “Crenças”, “Controle”, “Autocontrole”, e “Autocuidado”, são considerados como resultados direcionados às ações pessoais dos pacientes4. Logo, as definições constitutivas construídas para os indicadores “Identifica fatores de risco para infecção”, “Utiliza precauções universais” e “Identifica sinais e sintomas de infecção”, iniciam com as palavras “O paciente conhece...” ou “O paciente identifica...”, reforçando com isso o sujeito da ação frente a esses indicadores. É imperativo destacar que as “ações pessoais” referem-se aos cuidados que o próprio paciente deve ter para prevenir infecções, ou seja, os indicadores para este resultado não devem ser selecionados com foco no cuidado prestado pelos profissionais de saúde.
Para as definições operacionais destes indicadores de “Resultados de desempenho”, optou-se por uma descrição mais detalhada, em detrimento às informações objetivas, como forma de proporcionar aos enfermeiros um resgate de conhecimentos científicos e o estímulo ao desenvolvimento do raciocínio clínico. Assim, nas instruções para o processo de validação de conteúdo, tomou-se o cuidado de inserir esta informação aos especialistas.
Tanto para as definições constitutivas quanto para as operacionais, foram poucas as sugestões de adequação, versando sobre questões de ordem gramatical ou de concordância verbal. Um exemplo disso foi a supressão do item 7 da definição operacional do indicador Identifica fatores de risco para infecção, cuja abordagem referente à leucopenia já estava contemplada no item 6. A adequação mais importante foi direcionada ao indicador Utiliza precauções universais, onde os especialistas sugeriram, para a definição constitutiva e, consequentemente, para as definições dos índices de magnitude operacional, a substituição do termo “precauções universais” por “precauções padrão”. Embora o título do indicador, posto pela NOC4, contenha o termo “precauções universais”, decidiu-se pela sua substituição nas definições construídas como forma de adotar uma terminologia comum e atualizada.
Assim, as medidas de prevenção e controle de infecção devem ser implementadas pelos profissionais que atuam nos serviços de saúde, com a finalidade de evitar ou, pelo menos, reduzir ao máximo a transmissão de microrganismos durante toda e qualquer assistência à saúde realizada. Acredita-se também que a cultura organizacional, o modelo de gestão do trabalho, e a valorização dos profissionais de enfermagem contribuam para uma maior adesão e manejo das precauções padrão.
CONCLUSÃO
Defende-se que o processo de validação por especialistas das definições de indicadores de resultados NOC favorece a construção de conhecimento embasado cientificamente e, consequentemente, o fortalecimento da profissão. Os estudos que abordam o uso da NOC ainda são muito incipientes e, diante desta constatação, observa-se que a maioria dos indicadores não apresenta detalhamento na literatura. Assim, a análise crítica dos especialistas foi fundamental para o aperfeiçoamento do constructo científico.
Ademais, a utilização de indicadores NOC na prática clínica, com definições detalhadas, contribui para o desenvolvimento do raciocínio clínico, maior acurácia na seleção de resultados condizentes com as reais necessidades de saúde dos pacientes, e para a tomada de decisão do enfermeiro no contexto do PE.
Sugere-se a realização da validação clínica das definições construídas, objetivando maior fidedignidade e menor subjetividade na aplicabilidade da NOC. Complementarmente, uma das principais implicações deste estudo consiste na contribuição para o processo vigente de implementação do PE na instituição hospitalar participante.
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NOTAS
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ORIGEM DO ARTIGO
Extraído da tese - Construção e validação de definições constitutivas e operacionais de indicadores da Classificação dos Resultados de Enfermagem para os resultados Gravidade da Infecção e Controle de Riscos: Processo Infeccioso, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, da Universidade Federal de Santa Catarina, em 2022.
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FINANCIAMENTO
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
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APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado de Santa Catarina/UDESC, parecer n. 3559186/2019, Certificado de Apresentação para Apreciação Ética 11945519.6.0000.0118.
