Resumo
O presente artigo faz uma reflexão teórica sobre as categorias nomeação (Ullmann, 1964) e nominalização (Halliday; Matthiessen, 1999, 2004, 2014, entre outros) para uma análise de grupos tidos como “minorias sociais”. Para tanto, nos valemos teórica e metodologicamente da Linguística de Corpus (Anthony, 2014; Weisser, 2016; Sinclair, 2001), da Linguística (Aplicada) (van Dijk, 2001; Magalhães, 2004) e das Ciências Sociais (Minayo, 1994; Sodré, 2005; Munanga, 2012; Mbembe, 2016, dentre outros), com o objetivo de analisar alguns itens do léxico associados a minoria, e outros mais específicos na indicação das diferentes possibilidades de compreensão dele, especialmente no que tange às relações étnico-raciais. A metodologia foi quantiqualitativa, com uso do software AntConc, dentro de uma abordagem bibliográfica e interpretativista de natureza lexical pautada de maneira mais estreita na Análise Crítica do Discurso, conforme proposta de Magalhães (2004). O corpus é composto de 100 notícias que contêm a palavra-chave minoria (minorias sociais). Como um dos resultados, temos que, entre os processos de nomeação e nominalização, as nominalizações parecem mais produtivas para problematizar o que envolve as minorias. Quando as nominalizações, enquanto metáforas gramaticais anteveem, indicam, indiciam, sinalizam, denunciam e, às vezes, aclaram o que se esconde nas nomeações, por poderem ser desfeitas e estendidas, também podem se constituir como uma maneira de trazer à discussão elementos essenciais para mudanças nas relações de poder que circundam as questões étnico-raciais.
Palavras-chave
nomeação; nominalização; relações étnico-raciais; Análise Crítica do Discurso
Abstract
This article makes a theoretical reflection on the categories of nomination (Ullmann, 1964) and nominalization (Halliday; Matthiessen, 1999, 2004, 2014, among others) for an analysis of groups considered “social minorities”. To do so, we draw theoretically and methodologically on Corpus Linguistics (Anthony, 2014; Weisser, 2016; Sinclair, 2001), (Applied) Linguistics (van Dijk, 2001; Magalhães, 2004) and Social Sciences (Minayo, 1994; Sodré, 2005, Munanga, 2012; Mbembe, 2016, among others), with the aim of analyzing some lexical items associated with the minority (minoria), and others more specific in indicating the different possibilities of understanding it, especially with regard to ethnic and racial relations.The methodology was quantitative and qualitative, using the AntConc software, within a bibliographic and interpretive approach, from a lexical nature based more closely on Critical Discourse Analysis, as proposed by Magalhães (2004). The corpus is made up of 100 news that contain the keyword minorias (social minorities). As a result, we find that, between the processes of nomination and nominalization, nominalizations seem more productive for problematizing what involves minorities. When nominalizations, as grammatical metaphors, anticipate, indicate, suggest, signal, denounce, and sometimes clarify what is hidden in nomination, because they can be undone and extended, they can also constitute a way of bringing to the discussion essential elements for changes in the power relations surrounding ethnic-racial issues.
Keywords
nomination; nominalization; ethnic-racial relations; Critical Discourse Analysis
INTRODUÇÃO
O presente trabalho faz uma reflexão teórica sobre as categorias nomeação (Ullmann, 1964; Luz, 2011; Ikramboyevna, 2021, 2024; Sadikova, 2024) e nominalização (Halliday; Matthiessen, 1999, 2004, 2014; Camacho, 2009; Liardét, 2016; Serra, 2022; Cecchin; Cargnin, 2023) no que tange às chamadas “minorias sociais” (cf. Carmo, 2016, 2022a, 2024).
Sob o crivo interdisciplinar da Linguística de Corpus (Anthony, 2014; Weisser, 2016; Sinclair, 2001), da Linguística (Aplicada) (van Dijk, 2001; Magalhães, 2004; Carmo, 2022b, 2024) e das Ciências Sociais (Minayo, 1994; Sodré, 2005, Munanga, 2012; Mbembe, 2016, dentre outros), objetivamos analisar alguns itens do léxico associados a minoria, e outros mais específicos na indicação das diferentes possibilidades de compreensão dele. Com isso esperamos relacioná-lo às questões étnico-raciais, a partir do seguinte léxico: escravo x escravizado e escravidão x escravização, também dando destaque àqueles que de maneira específica no cotidiano, pela matriz cromática construída, tendem a reger as relações sociais lato sensu: negro(a)s, pardo(a)s, preto(a)s e branco(a)s.
Nesse sentido, torna-se importante retomar as questões ligadas ao processo de nomeação em si, porque, como esclarece Luz (2011, p. 26),
a nomeação não apenas está relacionada ao referencial [ao referente], mas também cria sentidos, pois é por meio dela que se atribuem estados, predicações, características, ou seja, os sujeitos adquirem certos estados, determinadas feições pela nomeação, que trabalha os sentidos, produzindo novos sentidos, sobre os já existentes, afetando o sujeito em seu processo de identificação.
Sugerimos, na relação entre nomeação e nominalização, o uso das nominalizações minorização e vulnerabilização, para início de reflexão, assim como aquelas em posição adjetival minorizado e vulnerabilizado (com suas flexões acompanhando a palavra grupo) como indicadoras de um processo de marginalização e periferização que foi sócio-historicamente construído e “apagado”, gerando naturalização; mas que não deve mais ser silenciado, invisibilizado nem mantido.
Assim, grupo minorizado e grupo vulnerabilizado, mesmo numa construção fugidia, deixam antevistas as relações de poder envolvidas, no processo de subalternização e subjugação de determinadas pessoas por outras. Objetivamos problematizar a relação que pode ser feita entre escravidão e escravização, assim como em escravo e escravizado, como importantes dilatadores e tensores no pensamento racista e no tratamento a que foram submetidos negros e negras, como se nisso houvesse algo de natural. E assim, marcar o processo de politização de negros e negras que requerem o espaço e o valor que lhes têm sido negados historicamente na sociedade.
A proposição supracitada se assenta no fato de que a nomeação não obrigatoriamente atribui um significado referencial a algo e, especialmente, a um indivíduo ou grupo. No dizer de Luz (2011, p. 26), no caso de um indivíduo - e aqui também grupos (minorias) – não ocorre apenas sua nomeação, “mas transforma-o em sujeito, atribuindo-lhe um lugar social, uma posição-sujeito da qual ele enunciará, afetado por uma ideologia, aquela que o interpelará no processo de identificação a um determinado lugar social”.
A metodologia foi quantiqualitativa, com uso do software AntConc, dentro de uma abordagem bibliográfica e interpretativista, de natureza lexical pautada de maneira mais estreita na Análise Crítica do Discurso, conforme proposta de Magalhães (2004) que se apoia especialmente na visão de Sinclair (2001) para análise de corpus de pequena dimensão e em Williams (1976) para a compreensão de certas palavras socioculturalmente importantes numa sociedade, ou palavras-chave. O corpus é composto de 100 notícias que contêm a palavra-chave minoria(s) (minorias sociais). Como resultado, foi avaliado um número expressivo de nomeações que essencializam condições assimétricas, enquanto as nominalizações colocavam à prova essas condições, apontando o processo em que violentados e violentadores ficavam indexicalizados, indiciados, embora opacizados.
Assim, como principal conclusão, tivemos o realce da importância de se repensarem as formas de denominação de processos opressivos como uma das maneiras mais produtivas de gerar questionamentos e impulsionar mudanças, aqui, com especial atenção às mudanças necessárias nas relações étnico-raciais.
Por outro lado, o trabalho também amplia as relações entre diferentes áreas na mesma esteira de muitos outros em que o apoio mútuo das formas de pensar se tornam tônico para causar propulsão e novas formas de abordar os diferentes fenômenos sociais e culturais de sociedades marcadas pela opressão e pelo desrespeito ao ser humano.
Para consecução de nossa proposta, dividimos o trabalho nas seguintes seções: Nomeação e nominalização: alguns apontamentos, em que trazemos o repertório teórico de base; Aspectos procedimentais, na qual trazemos o norteamento metodológico; e Conectando à questão étnico-racial: nomeações e nominalizações na trajetória do negro brasileiro, com a análise propriamente dita. A estas, seguem as considerações finais e as referências que utilizamos para embasamento da pesquisa.
1. NOMEAÇÃO E NOMINALIZAÇÃO: ALGUNS APONTAMENTOS
A categoria nomeação é compreendida como o ato de dar nome e, por isso, designar, sejam lugares (toponímia), sejam pessoas (antroponímia), sendo o objeto da onomástica (cf. Ullmann, 1964). E as nomeações, como Ullmann (1964) esclarece, estão envoltas em aspectos históricos, políticos, econômicos e sociais.
Ikramboyevna (2024) explica que essa é a visão clássica e corrente de nomeação entre grande parte dos linguistas em geral, a qual também é chamada de nomeação primária. No entanto, vários linguistas têm se interessado pelas nomeações secundárias, dentre as quais se destacam as nomeações conotativas a exemplo dos apelidos. Segundo a autora, a nomeação secundária é diferente da nomeação primária porque “[a nomeação secundária] envolve um relacionamento específico, conexão ou aparência semelhante entre nomes ou objetos que serão nomeados” (p. 538). Tal relacionamento pode se dar por dispositivos estilísticos, como metáfora, alusão e personificação, em particular no que tange a aparência. Mas também pode ser feita via simbolismo e por uma referência cultural, sempre perpassadas pelas questões sociais envolvidas na construção da nomeação no nível morfológico e semântico.
Sadikova (2024), por exemplo, explica que a nomeação primária é o ato de nomear, mas caracterizado por uma relação direta que reflete elementos da realidade, sendo o seu significado principal. Esse significado principal de uma palavra, por sua vez, é sempre o mesmo dentro e fora do contexto numa perspectiva denotativa. Como é observado e destacado, no caso da nomeação secundária, o ato de nomear o objeto, evento ou realidade por uma segunda vez usa um nominativo figurativo, razão que leva outros linguistas a afirmarem que a nomeação secundária se caracterizaria por ser um processo em que a unidade lexical existente toma um segundo significado em um novo contexto.
Também é importante destacar conforme Ikramboyevna (2021) que a nomeação é sobretudo um processo do qual participam um nomeador e o referente, sendo o nomeador a pessoa que dá nomes ao objeto; e o referente, o objeto ou ferramenta que deve ser nomeado. O referente é compreendido como o principal gatilho no processo de nomeação, tendo em vista que o conceito a ser dado a ele é uma categoria da cognição social, logo de conceptualização de mundo. Nas palavras de Ikramboyevna (2021, p. 130),
[um conceito é] uma ideia generalizada de uma classe de objetos [ou pessoas], resumindo as características mais essenciais de uma determinada classe que ajudam a distingui-la de qualquer outra classe de objetos [ou pessoas]. Os conceitos são formados por habilidades cognitivas do ser humano. Tirando isso, os conceitos são semelhantes para todas as pessoas. No entanto, a formulação/formação de conceitos pode influenciar diversos fatores. Devido a esses fatores, os conceitos podem ser modificados com base nas [necessidades das] comunidades linguísticas.
Nesse sentido, destacamos que existem nomes que poderíamos dizer que são socialmente problemáticos, e um recurso que tem sido usado na tentativa de encapsular ou empacotar processos complexos e melindrosos das relações sociais lato sensu e que também faz parte da cognição social tem sido a nominalização. Aqui partimos da discussão empreendida (a) por Luz (2011) sobre o ato de nomear também se relacionar com atribuição de papeis sociais e (b) do pensamento de Sadikova (2024), para pensar minoria (minorias sociais) como uma nomeação secundária discursiva, entendida como aquela originária de um processo de nomear ou criar novos conceitos, eventos ou objetos, porém, já sendo uma palavra derivada (morfologicamente do latim minor – menos, menor – somado ao sufixo -ia, indicando coletividade, agrupamento) e com matizes pejorativos advindos de problemas sociais. E a partir disso, pensar minoria enquanto conceito sociológico, não numérico, que categoriza e define grupos vulneráveis ou vulnerabilizados, especialmente por causa do menor acesso ao poder, a recursos e a direitos, enfrentando desvantagens, discriminação, preconceito e marginalização.
Ainda tomando o pensamento de Sadikova (2024), partimos do princípio de que o uso da nomeação minoria(s), assim como de termos usados em seu lugar, sua semântica e os contrapontos criados – como veremos adiante – são realizados e produzem sentidos indiciadores de conflitos tanto no nível linguístico do texto quanto no âmbito do discurso disseminado socialmente. E isso é diferente de frases curtas, grupos nominais ou palavras individuais (minoria, grupos minoritários, grupos vulneráveis, dentre outros). Ainda na esteira da autora, para ela, o que se pode chamar de uma nomeação discursiva requer um contexto detalhado, incluindo conexões lógicas, argumentação e aspectos pragmáticos, tendo a contextualidade como principal característica da denominação discursiva.
Como observa Sadikova (2024), muitas frases ou mesmo um texto inteiro são necessários para explicar e revelar o significado do nome secundário. E no caso da nomeação discursiva, o propósito do texto ou discurso é o ponto-chave de sua compreensão que tende a ser fugaz ao assumir um determinado ponto de vista com um propósito determinado (discussão, explicação e/ou criação de um novo conceito, por exemplo).
No caso específico das formas de nomeação de indivíduos e grupos, no dizer de Luz (2011, p. 16), “diferentes modos de nomear os sujeitos produzem efeitos de sentido distintos, produzindo sujeitos distintos, que são constituídos pelo procedimento de nomeação afetado pelo simbólico e pelo político”, sendo que esse processo dá início às identificações dos variados grupos sociais, advindas principalmente de determinações referenciais, fenotípicas, que se erigem de aspectos simbólicos que produzem sentidos que significam a partir de ideologias, do tempo, do espaço e dos lugares que ocupam tanto o sujeito ou grupo nomeado quanto aquele que nomeia, tornando-se muitas vezes parte de sua identidade.
Aqui, inserimos, de maneira fulcral nossa visão sobre a importância da nominalização que parece surgir como um importante procedimento linguístico e estratégia para substituição de termos (nomeações) de longa história no senso comum, que ocultam um lado negativo de sua existência, da história e da própria sociedade. Aqui retomamos a nomeação minoria quando aplicada a pessoas por sinalizar uma condição, como algo em essência, em contraponto com o indicado, por exemplo, na nominalização minorização ou na expressão grupo minorizado, em que o caráter processual vai de encontro ao suposto caráter essencial.
Camacho (2009, p. 13) esclarece que
na visão mais tradicional, a nominalização envolve tanto a aquisição de propriedades nominais como a perda de propriedades verbais, numa relação de oposição discreta. Entretanto, segundo Malchukov (2004), a pesquisa tipológica mais recente tem reconhecido que a articulação entre os dois processos acarreta possibilidades mais graduais que discretas e, portanto, empiricamente mais adequadas. E, com efeito, as operações transcategoriais, quando aplicadas à nominalização, envolvem tanto descategorização quanto recategorização.
Esse processo de transcategorização é relevante na medida em que tanto podemos ter um uso substantivado (ou substantivação) de uma categoria ao ser precedida de artigo ou outro determinante (como pronomes adjetivos), quanto a transformação de verbos em substantivos (os chamados deverbais), a que chamamos nominalização propriamente dita. Nas palavras de Cecchin e Cargnin (2023, p. 57), com base em Halliday e Matthiessen (2014), a nominalização é a “realização de um processo por uma classe gramatical atípica como um nome em lugar de um verbo”, o que gera também um processo de transformação de sentidos léxico-gramaticais, tendo em vista que aspectos processuais contidos nos verbos são transferidos para ideias abstratas.
Assim, têm surgido designações que concorrem na língua como escravo x escravizado, marginal x marginalizado, periférico x periferizado, subalterno x subalternizado, vulnerável x vulnerabilizado etc. E também muitas nominalizações indicando questões sociais importantes como minorização, vulnerabilização, subjugação, ao lado de outras já mais comuns como opressão, reunião (na relação com algum conflito), reparação, dominação, dentre outras. Essas denominações carreiam mudanças que impactam na forma de representação desses grupos tendo em vista que
a representação é o processo pelo qual membros de uma cultura usam a linguagem para instituir significados. Essa definição carrega uma premissa: as coisas, os objetos, os eventos do mundo não têm, neles mesmos, qualquer sentido fixo, final ou verdadeiro. Somos nós, em sociedade, entre culturas humanas, que atribuímos sentidos às coisas. Os sentidos, consequentemente, sempre mudarão de uma cultura para outra e de uma época para outra. (HALL, 1997, p. 61).
Liardét (2016), por exemplo, explica que, no discurso acadêmico, existe um movimento de busca de representações estáticas da linguagem com a finalidade de reorganizar interações faladas dinâmicas. E isso faria com que palavras originalmente indicadoras de interação (verbos) fossem modificadas por meio do léxico na forma de substantivos. Para ela, esse seria o movimento linguístico gerador da nominalização. De maneira complementar, Cecchin e Cargnin (2023, p. 58) afirmam que “as nominalizações são um mecanismo semogênico poderoso para a construção do discurso elaborado [porque] revela[ria]m a maturidade linguística do escritor”.
Liardét (2016) também esclarece que a nominalização faz parte de um construto maior, que é a metáfora gramatical. Para Halliday e Matthiessen (1999), que possuem uma perspectiva de linguagem como um sistema sociossemiótico, a metáfora gramatical pode ser compreendida na relação entre os planos de expressão e de conteúdo, uma vez que, dentro do plano de conteúdo, são analisadas as palavras (lexicogramática) e, dentro do plano de conteúdo, o significado (semântica) como extratos de realização linguística.
Nesses termos, para Serra (2022, p. 78), o construto da metáfora gramatical “refere-se à reconstrução dos padrões de realização em uma língua, isto é, à mudança linguística padrão de um determinado significado para um modo alternativo”.
Para nós, o que está sinalizado linguisticamente na criação de nominalizações, entendidas aqui de modo amplo, reside na possibilidade de realização, que se dá entre a realização linguística e a semântica do discurso, como resultantes de redefinições categoriais, pois, durante esse processo, características da categoria de origem e da categoria-fim se mostrarão mais ou menos evidentes, mas indiciando questões sociais e culturais muitas vezes opacizadoras de conflitos e tensões, trazendo implicações e anseios subjacentes. O que se mostra mais evidente, contudo, é que o agente do processo é sempre ocultado. De acordo com Serra (2022, p. 79),
quando os componentes da léxico-gramática e suas respectivas categorias semânticas se ligam de forma direta, diz-se que há forma congruente, como verbos realizam processos, substantivos realizam participantes, adjetivos realizam qualidades [...]. Quando não há uma relação direta entre os estratos da léxico-gramática e da semântica na composição de uma estrutura linguística, diz-se que há incongruência [...].
A nominalização estaria ligada à incongruência, por poder ser considerada um dos mais poderosos recursos para criar metáforas gramaticais, ocultando, sob o encapsulamento/empacotamento linguístico, os participantes do processo, aspectos socioculturalmente imprescindíveis à compreensão das relações de poder, crenças e identidades engendradas no discurso (cf. Carmo, 2024).
Por esse construto, processos que são formulados congruentemente como verbos e propriedades – estas expressas de forma congruente como adjetivos – são reformulados metaforicamente como substantivos ou algum outro nominal. Halliday e Matthiessen (2004; 2014) explicam que, em vez de funcionarem na oração como Processo ou Atributo, funcionam como Ente no grupo nominal.
Resumindo algumas das características das categorias acima explicitadas, teríamos:
Assim, teríamos na questão ligada à nomeação minoria, usada muitas vezes de forma generalizada para falar de grupos minoritários e grupos vulneráveis (cf. Séguin, 2002), a construção de grupos minorizados e grupos vulnerabilizados em que minorizado e vulnerabilizado, originalmente particípios, são usados como nominais, devido à posição e valor adjetival. Tanto uma palavra quanto outra estão em relação direta com as nominalizações minorização e vulnerabilização, que deixam claro que minoria, como uma designação generalizada, não indica algo natural ou em essência.
Retomando Halliday e Matthiessen (2004; 2014), então, o processo da metáfora gramatical envolve, sobretudo, um ato de reconstrução de padrões de realização na linguagem, que se dá na interface entre a gramática e a semântica, pois, enquanto um significado foi originalmente construído por um tipo de fraseado, passa a ser construído por outro, originando metáforas ideacionais. Como Cecchin e Cargnin (2023, p. 58) explicam, “o nome [metáfora ideacional] se justifica pelo fato de que, ao usarmos esse recurso, realizamos o rebaixamento do processo, que pertence originalmente ao nível da oração, para um nível inferior, o do grupo.”
Em minoria, grupo minoritário ou grupo vulnerável, está ocultado o que a nominalização minorização e vulnerabilização deixam antevisto. É o mesmo que fica em evidência na troca por grupo minorizado, minoritarizado ou vulnerabilizado: o aclaramento processual de que X minorizou, minoritarizou ou vulnerabilizou Y ou que Y foi minorizado, minoritarizado ou vulnerabilizado por X.
Ou, ainda, que nunca, por uma perspectiva puramente essencialista, qualquer grupo é qualitativamente, de fato, minoritário ou minoria. No máximo, é assim considerado por razões sócio-históricas e políticas, ligadas às relações de poder e luta hegemônica geradoras de discriminação (cf. Carmo, 2022a, b, 2024). É preciso alguma ressalva, no entanto, para alguns casos de grupos vulnerabilizados, especificamente quando a vulnerabilidade é intrínseca, conforme terminologia de Rogers e Ballantyne (2008), como será visto posteriormente; mas esta não pode ser vista como motivo para desrespeito, violência ou para sustentar qualquer tipo de acinte dos direitos de todo e qualquer ser humano.
2. ANÁLISE CRÍTICA DO DISCURSO E A CONJUNTURA SÓCIO-HISTÓRICA LIGADA À ESCRAVIZAÇÃO DO NEGRO EM SOLO BRASILEIRO
A Análise Crítica do Discurso, compreendida como signatária da Linguística Crítica, emerge da publicação de Language and Control (Fowler et al., 1979), com uma visão linguística calcada na abordagem de M. A. K. Halliday (cf. Halliday, 1978). Nessa obra, espera-se chegar à ideologia codificada implicitamente nas proposições do texto, para prover uma avaliação dos aspectos ideológicos no contexto das formações sociais, com especial interesse no discurso público.
Com base nesse pensamento e mantendo como norte a relação entre linguagem e ideologia dentro da perspectiva Linguística Sistêmico-Funcional (LSF) (cf. Halliday, 1978, 1985, 1994), Fairclough (1989) propõe as bases da ACD, metodologicamente organizada sob a tríade linguagem (texto), interação e contexto, vinculando a Linguística a um pensamento sociopolítico e ideológico.
Em 1992, o autor publica Discourse and Social Change, propondo uma Teoria Social do Discurso, numa perspectiva tridimensional de análise dos textos, por meio de três práticas de linguagem interligadas, em que o discurso figura, ao mesmo tempo, como prática textual, prática discursiva e prática social. Seu objetivo principal é analisar o discurso atentando para a sua materialidade (prática textual), para a interação, por meio da análise da sua produção, distribuição e consumo (prática discursiva), e para o contexto, dando atenção para as questões que inter-relacionam linguagem, poder, ideologia e as lutas hegemônicas na sociedade (prática social).
Nesse sentido, a ACD mostra sua inclinação intervencionista com vistas ao fomento de pensamentos, posturas e condutas emancipatórias na sociedade ao visar contribuir com o combate a injustiças, desigualdades, relações de poder assimétricas, subjugação e opressão ao mesmo tempo que instaura possibilidades, no processo de conscientização de suas possíveis causas e consequências. E aqui, conectamos ao processo de politização.
Enquanto Fairclough (1989; 1992) propõe o discurso dentro de uma visão tripartida, a publicação de Discourse in late modernity em coautoria com Lilie Chouliaraki em 1999 traz uma visão outra ao focalizar o discurso também como prática social, porém com o diferencial de que ele é visto não como a prática social em si, mas como um momento da prática social interligado a diversos outros elementos da semiose, constituindo e veiculando identidades, crenças, formas de pensamento e concepções de mundo. Por isso, dá especial atenção à conjuntura, não como simplesmente um “momento específico”. Para Chouliaraki e Fairclough (1999), a conjuntura se amplia para toda uma articulação específica de relações sociais, práticas discursivas e estruturas de poder em um momento histórico-geográfico particular, como no caso daquele da escravização cujos reflexos e resultados podem ser vistos na sociedade brasileira como configurada hoje. De maneira geral, a conjuntura abrange o contexto material e social, acampando tanto o que “constrange” quanto o que “possibilita” o discurso com seus vieses, por isso, está ligada à compreensão de como a linguagem constrói, mantém ou transforma ideologias e hegemonias, a partir das lutas hegemônicas.
De maneira bem específica ao racismo, van Dijk (2008, 135) esclarece que
as ideologias e os preconceitos étnicos não são inatos e não se desenvolvem espontaneamente na interação étnica. Eles são adquiridos e aprendidos, e isso normalmente ocorre através da comunicação, ou seja, através da escrita e da fala.
Fanon (1952/2008, p. 160) já nos esclarecia que “na Europa, isto é, em todos os países civilizados e civilizadores, o negro simboliza o pecado. O arquétipo dos valores inferiores é representado pelo negro”. Assim, o que está condensado nesse pensamento é que as relações de poder ecoam o processo de colonização e racialização do negro e a pretensa superioridade branca em conformidade com abordagens como as encontradas em Gobineau ([1853] 2021) e Tylor ([1871] 2009). E com isso, a sustentação do racismo como um sistema sobre o qual se sustentam relações de poder e desigualdades socioculturais e humanas.
E isso se deve a uma conjuntura sócio-historicamente construída de maneira bastante peculiar no caso brasileiro. Munanga (2012, p. 45) afirma que “a escravidão reduziu o negro à condição de coisa, despojado de sua humanidade e de seu estatuto de sujeito histórico”. Ou, como propõe Chiavenato (1987, p. 72), “o negro foi o alicerce da economia colonial, mas jamais reconhecido como parte da nação; sua força de trabalho foi explorada, e sua condição humana, negada”. Isso se verifica na conjuntura atual em que o negro ainda permanece, em sua maioria, em posição subalternizada e carente em múltiplas áreas da vida humana. Significa que estamos falando de um negro no sentido tratado por Mbembe (2014), isto é, aquele negro que está para além de uma realidade biológica ou pelo menos que se refere apenas à cor da pele dos sujeitos, mas acima de tudo a uma forma histórica da condição humana.
E é por isso que precisamos de uma “releitura histórica, sociológica, antropológica e pedagógica, para que se possa compreender, reconhecer a humanidade, o potencial emancipatório e contestador do povo negro no Brasil e a nossa ascendência africana” (Munanga, 2012, p. 4). De maneira abrangente, sob a visão do que vimos discutindo sobre a conjuntura brasileira no que tange às relações étnico-raciais e às lutas hegemônicas envolvidas com o povo negro,
uma memória construída, de um lado, pelos acontecimentos, pelos personagens e pelos lugares vividos por esse segmento da população, e, de outro lado, pelos acontecimentos, pelos personagens e pelos lugares herdados, isto é, fornecidos pela socialização, enfatizando dados pertencentes à história do grupo e forjando fortes referências a um passado comum (por exemplo, o passado cultural africano ou o passado enquanto escravizado) (Munanga, 2012, p. 11).
Conforme propomos nesse texto, caminhamos no mesmo sentido de Grada Kilomba (2019), em Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano, quando esta mostra o processo de escravização não como um passado encerrado, mas sobretudo como uma continuidade do próprio racismo e da violência colonial que perdura no presente. Nesse sentido, o termo plantation (plantação) torna-se uma importante metáfora para compreensão do racismo cotidiano, a partir do qual a branquitude mantém o poder enquanto a população negra enfrenta a negação e o apagamento histórico. No que tange à língua(gem) e na esteira de nossa proposta de análise, a autora adverte que “a língua por mais poética que possa ser, tem também uma dimensão política de criar, fixar e perpetuar relações de poder e de violência, pois cada palavra que usamos define o lugar de uma identidade” (Kilomba, 2019, p. 14).
Moura (1988, p. 34) também esclarece que antes de examinarmos qualquer contato cultural, “temos de situar o modo de produção no qual eles se realizam, sem o que ficaremos sem possibilidade de analisar o conteúdo social desse processo”. A partir das pistas linguísticas – no caso, as nomeações e nominalização capazes de fazer a conexão entre língua(gem) e relações étnico-raciais, acreditamos ser possível, na mediação feita entre texto e contexto, entre prática textual e prática social via práticas discursivas promovidas na mídia, contribuir com a discussão de um problema histórico que é o racismo em suas várias facetas, inclusive a negrofobia como aquela que estaria muito especificamente ligada à aversão ao negro e a seu universo (cf. Xavier; Silva, 1992; Schneider, 2006).
Como vimos argumentando, toda essa conjuntura está atrelada ao racismo e a outros sistemas opressivos historicamente mantidos na sociedade brasileira. E, nesse sentido, Gonzalez (2020) é enfática em conectar racismo e sexismo, por exemplo, destacando e denunciando o racismo como ligado ao branqueamento, relacionado à omissão e à denegação, ou seja, disfarçado na forma principalmente de cordialidade, mas mantendo seus tentáculos e o status quo de desigualdade e injustiça ainda vigente.
O racismo é um sistema estrutural e estruturante da sociedade de forma geral, perpassando todas as suas esferas. Francisco (1992), analisando o branqueamento e ideia de democracia racial, afirma que o racismo pode ser compreendido como doutrina ao gerar uma política racial e racista na forma de discriminação e/ou segregação racial. E acrescenta que ele é também integrante do processo de dominação de classe, nos níveis coercitivo, intelectual e moral da sociedade.
Almeida (2019, p. 33), por sua vez, pensa “o racismo [como] uma decorrência da própria estrutura social, ou seja, do modo ‘normal’ com que se constituem as relações políticas, econômicas, jurídicas e até familiares, não sendo uma patologia social e nem um desarranjo institucional”.
Na sua relação com a mídia, Ajzenberg (2002, p. 30) explica que
o importante, antes de mais nada, é constatar que o racismo não está presente apenas em manifestações muito evidentes de intolerância, mas ocorre também de maneira subliminar e muitas vezes difícil de se captar, pelo menos por pessoas que não estão atentas a todo momento para esse assunto.
E como esclarece Oliveira (2002, p. 36), “a imprensa no Brasil está longe de ser neutra e de olhar com imparcialidade a sociedade brasileira”, (...) “o problema é como se quer passar a notícia, o que se quer dizer com ela”, pois grande parte do racismo e do que o envolve calca-se no que as pessoas acreditam que são os papéis naturais a serem desempenhados na sociedade por indivíduos e grupos, como muitas vezes é fortalecido na mídia.
Como destaca Leitão (2002, p. 44), “não existe uma cobertura diária sobre o fato de que 84 milhões de brasileiros são tratados de forma inferior, têm os piores empregos e os piores salários, são barrados ao longo da vida inteira por barreiras fortes, poderosas e invisíveis a olho nu”.
E é por isso que Sodré (2000) pensa a mídia como o intelectual coletivo do poderio que pretende consolidar o velho entendimento de povo como “público”, mas não se compromete verdadeiramente com causas públicas nem com a afirmação da diversidade da população brasileira. Assim, enquanto negros, buscamos nos lembrar de Fanon (1952/2008, p. 107) quando disse: “eu acenava para o mundo e o mundo amputava o meu entusiasmo”, e não permitirmos ser mutilados em nossos corpos e direitos.
3. ASPECTOS PROCEDIMENTAIS
Para consecução de nossa análise, pretendemos manter elementos ligados às questões socioculturais e ideológicas subjacentes aos termos, num contraponto com dados empíricos tirados de um corpus de pequena dimensão (Sinclair, 2001) formado por notícias, uma vez que, diferentemente da visão de especialistas, também circulam e se mantêm ideias no senso comum, as quais, mesmo carentes de mudanças, se perpetuam.
Como explica Fairclough (2015), a natureza do senso comum gera limitações a avaliações e produções intelectuais sobre variados temas, implicando problemas no seu reconhecimento pelas pessoas em geral. Para ele, a mudança dos termos de um debate só poderia ser alcançada por meio de lutas políticas sobre o próprio senso comum, envolvendo ideologias, suposições e o caráter contraditório de qualquer tema; assim como deveria incluir os obstáculos e também as possibilidades de mudança para melhor, numa luta constante para mudar e aprender com ele.
Nesse sentido, de maneira afilada, debruçar-nos-emos sobre os itens escravo x escravizado e escravidão x escravização e os movimentos/buscas de mudanças na sociedade contemporânea brasileira sinalizadas na linguagem por meio do indiciamento de que ainda escondem o processo a partir do qual se constituíram algumas categorias sociais. Também partimos do princípio de que são indicativas de uma possibilidade de transformação e, quiçá, mudança.
Pretendemos, de alguma maneira, fazer uma incursão pelas lutas ideológicas, que se indexicalizam lexicalmente e que podem contribuir para a compreensão de variadas mazelas sociais envolvidas nas representações sociodiscursivas, que “contornam” pessoas e grupos numa histórica luta por poder.
Se o que está sinalizado na linguagem não é algo em essência, precisa ser percebido como um processo discursivo construído com o objetivo de manutenção hegemônica de um “estado em que” nunca foi verdadeiramente. Porém, foi construído sócio-historicamente e colocado dessa maneira, para a qual uma das formas de mudança tem sido indiciar linguisticamente o problema para propiciar o repensar das próprias relações sociais. Por isso, este trabalho se constrói sob uma forma reflexiva, que pretende fomentar uma discussão, a qual carece de diferentes olhares.
Para coleta, triagem e análise de dados empíricos, tomamos um corpus de 100 textos contemporâneos, que considerassem no título, na lide ou no corpo textual a lexia e variações semanticamente correspondentes a “minoria(s)” no sentido de “minorias sociais”. A busca se deu entre os dias 13 e 19/07/2023 e foi feita na plataforma Google Notícias. Como poderia haver significados de minoria(s) com outros sentidos, consideramos apenas o sentido que remetia, de alguma maneira, a grupos sociais, os quais, de algum modo, se encontram numa situação de desvantagem em relação a outro(s) grupo(s). Foi realizado o registro de hypermídia (endereço de web), que pudesse acionar os textos-coletas, além de excluídos os resultados do vernáculo Português de Portugal (PP), para que variações socioculturais não gerassem ponderações exclusivas de outro contexto para a investigação.
Para a produção da abordagem e o cotejamento de dados, optamos pela metodologia proposta por Magalhães (2004), na qual ela alia o uso de corpus de pequena dimensão, em conformidade com Sinclair (2001), com a visão de palavra-chave, tal qual proposta por Williams (1976): palavra culturalmente relevante, que carrega matizes sociais e culturais.
Em termos da constituição do corpus, Sinclair (2001) explica que há (1) corpus de pequena dimensão, porque, em sendo menor, permite avaliações rápidas pelo pesquisador, podendo gerar intervenção humana inicial (EHI – early human intervention); e (2) corpus de grande dimensão, pois, ao trazer maior quantidade de dados, é projetado para intervenção humana tardia (DHI – late or delayed human intervention). A partir desse pensamento, podemos destacar, conforme Berber Sardinha (2004) e Weisser (2016), o quanto ferramentas computacionais possuem significativa capacidade de trazer um suplemento quantitativo para as reflexões qualitativas que empreendemos, potencializando a produção e a análise de dados.
A extração e a triagem dos dados quantitativos foram feitas por meio do programa AntConc (Anthony, 2014), que disponibiliza ferramentas gratuitas para a análise de corpus. Para uso desse recurso, o conjunto de textos deve estar em formato somente texto (.txt) e codificado para UTF-8 (Formato de transformação Unicode). As ferramentas utilizadas para o desenvolvimento deste trabalho foram:
(1) Concordance: consiste na produção de listagens de concordâncias ou ocorrências de palavras com seu cotexto;
(2) Clusters/N-Grams: demonstra os grupos constituídos (pacotes lexicais); ou seja, a recorrência da(s) palavra(s) em análise com outras específicas na forma de agrupamentos lexicais;
(3) Word List: produz listas de palavras para observação de sua frequência.
Assim, de maneira resumida, coletamos – via internet – os 100 primeiros textos disponíveis no sítio do Google Notícias, em que aparecesse pelo menos uma vez a palavra-chave “minoria(s)”, significando grupos socialmente prejudicados. Tivemos um corpus com 63.721 tokens (ocorrências de palavras) e 389 ocorrências da palavra-chave “minoria(s)”, para início da discussão. Depois, passamos a analisar de forma associativa palavras que remetessem de maneira específica às relações étnico-raciais, tais como negro/branco/preto/pardo, escravo, escravismo, escravidão, escravização, a fim de verificar linguisticamente como aspectos das relações étnico-raciais no Brasil estavam sendo construídos e representados.
Começamos com a avaliação cotextual, expandimos o horizonte quando foi necessário com base na confecção de listas de concordâncias e conectamos à produção bibliográfica sobre o tema das relações étnico-raciais.
4. CONECTANDO À QUESTÃO ÉTNICO-RACIAL: NOMEAÇÕES E NOMINALIZAÇÕES NA TRAJETÓRIA DO NEGRO BRASILEIRO
Nesta seção, conectamos a análise lexical a partir das nomeações e nominalizações encontradas nas notícias, nos preocupando em perscrutar o que elas indexicalizam, indiciam ou sinalizam no que se refere às relações étnico-raciais no contexto brasileiro, constituindo, em termos da Análise Crítica do Discurso, uma incursão na prática textual das notícias por meio do léxico.
No domínio das práticas discursivas, isto é, do processo de produção, distribuição e consumo dos textos, podemos afirmar que o corpus sinaliza algo importante, tendo em vista o próprio gênero notícia e sua característica de relatar fatos atuais e de interesse público de forma objetiva, concisa, simples e, supostamente, impessoal.
Isso mostra por um lado a concorrência com outros gêneros mais complexos cujo público seria mais reduzido (a exemplo de reportagens que são mais longas ou artigos cuja profundidade é maior e a inclinação mais visível), assim como as facilidades hodiernas oferecidas pelas redes sociais, a que grande parte da população tem acesso, sendo utilizadas para tratar dos mais diferentes temas. De todo modo, apenas o uso da internet já torna qualquer conteúdo massivo, ampliando o acesso e diversificando o público. Por outro lado, temos que o tema mostra sua relevância também ao ser tratado nas notícias, com a ressalva de as características do gênero não fornecerem a ele a devida acuidade e complexidade com que deveria ser tratado.
Retomando o corpus em termos descritivos, a análise lexical mostra o seguinte quanto ao uso/frequência no corpus de palavras ligadas à categorização social e à cor quando indicativas das relações étnico-raciais: negro (11), negros (82), negra (32), negras (57), pardo (4), pardos (11), parda (1), pardas (4), preto (5), pretos (13), preta (8), pretas (8), branco (11), brancos (24), branca (7) e brancas (6).
Do ponto de vista histórico, buscamos palavras que indicavam o período da escravização a partir do radical escrav- e encontramos os seguintes dados: escravo (1), escrava (0), escravas (0), escravos (0), escravismo (0), escravidão (16), escravização (0).
A categoria negro no Brasil engloba pretos e pardos, logo tivemos menção ao negro 228 vezes, enquanto ao branco 48 vezes. Do ponto de vista do retorno histórico à época da escravização, tivemos escravo por apenas uma vez e escravidão por 16 vezes.
Os dois (escravo e escravidão) então indicam - num corpus que tem minoria como palavra-chave em sua constituição - que o negro é visto como uma minoria e a partir de uma visão essencialista originária no fato de ter sido escravizado na época da escravização, haja visto que o que aparece é a nomeação e não a nominalização; assim como há a indicação da perspectiva racializada do negro e não do branco, pela diferença quantitativa do uso das palavras negro e branco.
Se historicamente houve suposta e nomeadamente a figura do “escravo” e a “escravidão”, os itens lexicais escravizado e escravização encapsulariam ou empacotariam toda uma estrutura, que diria claramente que X escravizou Y ou Y foi escravizado por X.
No caso de escravo x escravizado, o primeiro termo deixa antever que escravo é uma condição supostamente natural, como se alguém já nascesse escravo (ou para ser escravizado), enquanto escravizado deixa claro que há uma ação de escravizar por parte de um agente social enquanto outro é alvo desse processo. Por isso, o que houve não é bem esclarecido na nomeação escravidão, mas está sinalizado na nominalização escravização, que sequer aparece no corpus, inclusive pelo aspecto do contraditório que mostra que onde há poder, opressão, subjugação, há resistência. A forma de pensamento de uma naturalização essencializada nos itens lexicais escravo e escravidão cria inclusive uma ideia de passividade e aceitação que não é verdadeira, tendo em vista a tensão que sempre existiu e as diversas revoltas e criação de quilombos na história do país. No entanto, todo o histórico a que negros e negras foram submetidos ainda é causa de vulnerabilização, subjugação, subalternização, discriminação, preconceito e violência na atualidade.
E isso significa uma dimensão indissociável do aspecto linguístico (prática textual) como um aspecto importante da produção das notícias que estão em circulação e podem impactar no consumo textual (prática discursiva). Por outro lado, traz à tona questões ligadas às relações de poder construídas historicamente na sociedade, sobretudo, indicando lutas por hegemonia entre os grupos, especialmente no que tange às relações étnico-raciais em termos da vulnerabilidade causada aos negros (prática social).
Rogers e Ballantyne (2008) categorizam a vulnerabilidade em dois tipos básicos, quais sejam, vulnerabilidade extrínseca e vulnerabilidade intrínseca. A primeira decorre de circunstâncias externas, a exemplo de “falta de poder socioeconômico, pobreza, falta de escolaridade ou carência de recursos”, enquanto a segunda advém de características dos próprios indivíduos, “tais como doença mental, deficiência intelectual, doença grave, ou os extremos de idade (crianças e idosos)” (p. 32).
Contudo, acreditamos que não podemos partir do princípio de que quaisquer uma delas deve ser tomada na simplicidade da naturalização, como constitutiva de característica de grupos minorizados, embora seja clara a capacidade de afetamento dessas categorias sociais. No dizer de Sodré (2005, p. 11), “[m]inoria não é, portanto, uma fusão gregária mobilizadora, como a massa ou a multidão ou ainda um grupo, mas principalmente um dispositivo simbólico com uma intencionalidade ético-política dentro da luta contra-hegemônica”. E o autor continua: “minoria é uma recusa de consentimento, é uma voz de dissenso em busca de uma abertura contra-hegemônica no círculo fechado das determinações societárias. É no capítulo da reinvenção das formas democráticas que se deve inscrever o conceito de minoria” (Sodré, 2005, p. 14).
No caso específico do negro, todo o processo está intimamente relacionado com o que Mbembe (2016, p. 135) chama de necropoder em conexão com uma ideia de soberania entendida como “[uma suposta] capacidade [de certos grupos hegemônicos] de definir quem importa e quem não importa, quem é ‘descartável’ e quem não é” na sociedade. Todavia, a bibliografia sobre o assunto, de modo geral, indica que grupos minorizados e grupos vulnerabilizados originam-se em relações de assimetria social (econômica, educacional, cultural, identitária etc.). Nessa perspectiva, as chamadas minorias sociais (ou a categoria societária dos grupos minorizados) podem ser definidas a partir de uma particularização, já que a maioria – fora da terminologia técnica – se define por um agrupamento generalizado, ou seja, por um processo de generalização baseado na indeterminação de traços, os quais indicam um padrão de homogeneidade e suposta normalidade, considerada majoritária em relação ao outro, que destoar dele (cf. Carmo, 2016).
No caso de negros (pretos ou pardos), as questões fenotípicas – especialmente a cor da pele, devido à matriz cromática brasileira – são o ponto central para exclusão, vulnerabilização, discriminação e preconceito, o que remonta desde o período da escravização quando uma visão racializada foi utilizada como justificativa para as atrocidades cometidas e que nasceram, se manifestam e se mantiveram por algo que poderíamos chamar de negrofobia, à semelhança de outros termos como aporofobia, LGBTfobia, transfobia, xenofobia dentre outros.
A negrofobia, como faceta do racismo visto como sistema estrutural e estruturante das relações sociais, seria a aversão às pessoas negras, geradora de sentimentos, pensamentos e comportamentos utilizados como instrumento de violência e desumanização, com todo o impacto negativo decorrente do processo desencadeado. A relação da negrofobia com o preconceito, a discriminação, com o racismo e seus tentáculos é algo que não podemos negligenciar, porque a compreensão desses diferentes fenômenos em separado e em conjunto é uma das formas que temos de resistir e lutar por mudanças efetivas na sociedade como uma “releitura histórica, sociológica, antropológica e pedagógica, para que se possa compreender, reconhecer a humanidade, o potencial emancipatório e contestador do povo negro no Brasil e a nossa ascendência africana” (Munanga, 2012, p. 04). Se negligenciamos esse complexo problema, acabamos por sustentar uma violência que aponta para o que, na visão de Minayo (1994), gera a violência estrutural. Como esclarece a autora, violência estrutural é
aquela que oferece um marco à violência do comportamento e se aplica tanto às estruturas organizadas e institucionalizadas da família como aos sistemas econômicos, culturais e políticos que conduzem [à exclusão social], à opressão de grupos, classes, nações e indivíduos, aos quais são negadas conquistas da sociedade [e direitos fundamentais], tornando-os mais vulneráveis que outros ao sofrimento e à morte (Minayo, 1994, p. 8).
Uma compreensão macro desse processo também nos leva a perceber que a negrofobia não tem a ver apenas com o que gerou um processo de vulnerabilização de negros e negras na sociedade brasileira, mas coloca em evidência uma fragilidade histórica da população não-negra. Tem a ver com o trabalho, a força, a intelectualidade, a contribuição e a capacidade de negros e negras, sem os quais o que hoje chamamos de Brasil não teria sido concebido, inclusive em termos do acúmulo de bens do grupo hegemônico.
A capacidade de resistir à hostilidade de toda sorte, à violência física, simbólica, social, cultural, religiosa e epistêmica, assim como a constante postura politizada ao reivindicar direitos e lutar contra todas as formas de colonização, podem ser considerados êmbolos que acabam também por impulsionar a negrofobia, especialmente nos dias atuais em que a meritocracia sem igualdade de condições foi questionada e políticas públicas para promoção da igualdade racial e da equidade social têm sido combatidas e discutidas como se democracia não fosse para todos. Contudo, é importante salientar que essa capacidade não é uma característica do negro em si, mas uma característica humana que se destaca em situações de violência (física ou simbólica) como mecanismo de defesa, de autoproteção que se destaca frente ao racismo como sistema opressivo lato sensu.
E nesse sentido, a releitura a partir da língua(gem) sinaliza questões macro e precisam da atenção de pesquisadores de diferentes áreas. Como observa van Dijk (2001, p. 354), “o uso da linguagem, do discurso, da interação verbal e da comunicação pertence ao nível micro da ordem social. [Contudo], poder, domínio (dominance) e desigualdade entre grupos sociais são termos que tipicamente pertencem ao nível macro da análise” e precisam ser revisitados constantemente para garantia de princípios básicos de promoção de igualdade e justiça social.
Por isso, a minorização que produziu diversas categorias sociais, dentre elas, o negro como grupo minorizado não tem a ver com contingente humano, ou seja, com relação numérica; e pode ser explicada nos termos acima: o grupo considerado hegemônico criou e acredita numa suposta superioridade em relação aos demais grupos e, por razões de manutenção de posição social e poder, consideram as demais categorias como “menores”, “menos importantes” no sentido trazido por Carmo (2022b, p. 191-192):
Nesse sentido, vale ressaltar que minoria não deve ser tomada como uma questão numérica apenas, o que tem gerado, por exemplo, terminologias outras como maioria minorizada, conforme encontramos em Santos (2018). Entendemos minoria a partir da ideia de que, por causa de diferenças constitutivas (cor, raça, sexo, gênero, classe social, nacionalidade etc.), determinados grupos são considerados categorias menores ou menos importantes socialmente, o que lhes traz dificuldades de toda sorte e vulnerabilidade social. Quando analisamos o vocábulo minoria, vemos sua raiz ligada às palavras menor e menos. Por sua vez, ao procurarmos a palavra menor no dicionário etimológico, somos remetidos ao verbete menos (cf. CUNHA, 1982, p. 512-513), que pode ser entendido tanto pelo aspecto quantitativo, ligado à quantidade ou intensidade menor; quanto qualitativo, momento em que, para nós, passa a ser fruto de avaliação e valoração, razão que relaciona minoria (de minorAÇÃO, minorAR, minorATIVO, minorIA, minorITÁRIO) a uma percepção de ser menos ou menor no sentido de pior qualidade, imperfeição, desprezo, descrédito e privação de direitos civis.
O suposto padrão de normalidade que é uma grande fonte de preconceito, discriminação, violência e opressão pressiona tudo e todos, que possam ser considerados diferentes, a uma homogeneidade compulsória e ilusória, gerando vulnerabilização, contrariando a diversidade e a pluralidade da sociedade, causando violência física e simbólica, opressão, exclusão e rejeição, marginalização, periferização e dificuldade de ascensão social, bem como se torna sustentáculo da injustiça e da desigualdade social.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Colocando de maneira resumida frente a toda história oral e escrita sobre a população negra numa retomada de elementos constantes em Carmo (2021), podemos dizer que está no Brasil a maior população negra fora de África; contudo, quando comparamos à forma como ela foi e é tratada em comparação com outros grupos não-negros, vemos o quanto nossa Constituição está longe de garantir igualdade para todos, o que reverbera uma conjuntura iniciada em doutrinas que remontam à própria construção do conceito de raça e ao sistema a que ela deu origem: o racismo.
Somos a nação formada pela maior imigração forçada de africanos; somos frutos da escravização e de uma abolição impiedosa ao supostamente libertar o contingente massivo de negros e negras, sem oferecer nenhuma condição de subsistência e manutenção de um mínimo de dignidade humana. A identidade do Brasil está marcada e manchada principalmente por essa história em que, irmanamente, devemos chamar a relevo a história e a cultura indígenas cuja resistência esteve presente de inúmeras maneiras até os dias de hoje. Negros e indígenas resistiram, resistem e sempre resistirão, colocando em evidência uma característica humana importante que é notada especialmente em contextos de violência física ou simbólica para defesa e autoproteção.
É preciso, no bojo das discussões que são complexas, destacar que outros grupos que vieram em busca de uma vida melhor no Brasil não partilharam dos séculos de escravização e sofrimento provindos desse complexo contexto e dessa conjuntura que reverbera e mescla passado e presente frente à opressão vivenciada pelos negros, causando-lhes vulnerabilidades que não lhes são inerentes. Muitos vieram, tendo como ponto de igualdade sua condição de branco, que cooperava com o eugenismo, com o branqueamento e outros anseios da sociedade branca da época; por isso, estes lutaram por direitos trabalhistas e melhores condições de vida e trabalho, enquanto aqueles lutavam por condições de sobrevivência na forma de luta por direitos essenciais, conforme se verifica ainda na atualidade. Isso é fruto da disparidade existente entre negros – entendido como grupo minorizado no sentido trazido na seção anterior – e brancos.
Na sociedade que se desenhou nessa história que precisa ser renarrada, apenas o fato de ser branco já gera privilégios, enquanto negros e indígenas são marginalizados e precisam lutar por melhores condições de vida, por ascensão social e emancipação, mas com a desigualdade, a discriminação, a injustiça, o racismo (com suas várias facetas) e o preconceito como grandes entraves.
Renomear por meio de nominalizações significa no caso analisado um primeiro passo para se assumir uma nova postura frente a um processo opressivo e subalternizador dentro das relações de poder engendradas na sociedade. A nominalização, ao ser utilizada para nomear grupos minorizados e vulnerabilizados, aponta problemas subliminares ligados à nomeação “minorias” e deixa margem para que as pessoas em geral assumam a existência do problema e possam mudar seus pensamentos e condutas, assim como gerar nova atribuição, novo estado, novo contorno, novas feições a grupos de indivíduos historicamente marginalizados e periferizados, respeitando-os verdadeiramente como os sujeitos de fato e de direito que são, tanto ressemantizando e ressimbolizando-os por meio da troca de nomeações pejorativas por nominalizações, quanto os alçando social e culturalmente como sujeito plenos.
Nesses termos, destacamos, por fim, a importância dessas marcações linguísticas como indiciadoras e sinalizadoras de tensões e problemas sociais, bem como categorias produtivas para a análise sociocultural e textualmente orientada, capazes de levar a reflexões sobre os movimentos da sociedade.
De forma estreita, nomear não é um ato simplório de dar nome, mas também de investir algo de uma carga ideológica, sociocultural e semanticamente orientada. Cabe-nos saber se essa orientação é ética, acolhedora e busca a equidade social e de direitos, promovendo o bem-estar e a dignidade humana, ou se ela marca a exclusão e a degradação como fontes de desumanidade.
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Uma versão inicial deste trabalho foi apresentada oralmente por ocasião do Primer Congreso de Investigadores/as AfroLatinoamericanos y del Caribe (I CINALC) e do V Colóquio Raça e Interseccionalidades, em 2024.
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DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS DA PESQUISA
Declaro que os dados públicos que apoiam as conclusões deste estudo – “NOMEAÇÃO E NOMINALIZAÇÃO COMO INDICIADORES DE CONFLITOS SOCIAIS: PROBLEMATIZANDO “MINORIAS” E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS”– foi publicado no próprio artigo ou é de domínio público, tendo em vista que o corpus se constitui de notícias temáticas disponibilizadas via Internet.
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DECLARAÇÃO DE USO DE IA
Declaro que não foi usada tecnologia de IA para/na produção deste artigo.
REFERÊNCIAS
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Declaro que os dados públicos que apoiam as conclusões deste estudo – “NOMEAÇÃO E NOMINALIZAÇÃO COMO INDICIADORES DE CONFLITOS SOCIAIS: PROBLEMATIZANDO “MINORIAS” E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS”– foi publicado no próprio artigo ou é de domínio público, tendo em vista que o corpus se constitui de notícias temáticas disponibilizadas via Internet.
