Pretendo que este ensaio seja um relato reflexivo, pessoal e crítico das experiências de um estudante e ativista indígena brasileiro de antropologia navegando por instituições e espaços acadêmicos europeus. Situo essas experiências em histórias mais amplas de produção de conhecimento colonial, violência legal e injustiça epistêmica. Baseando-me em encontros com tradições científicas de língua alemã e austríaca, arquivos de museus, arenas jurídico-políticas e debates antropológicos contemporâneos, questiono como a Europa continua a imaginar e classificar os povos indígenas por meio de epistemologias coloniais que persistem nesses espaços, por isso chamo de delírios coloniais. Dialogando com acadêmicos indígenas como Shawn Wilson, Vine Deloria Jr., David Kopenawa, Ailton Krenak e Leanne Betasamosake Simpson, meu ensaio desenvolve o conceito de imaginação jurídica xamânica como crítica e método, apresentado como um modo de saber fundamentado na relacionalidade, no território e na ética cosmopolítica. Minha narrativa justapõe exemplos de espaços jurídicos e políticos: as lutas político-jurídicas em curso no Brasil, incluindo o Marco Temporal, correlacionando-se com as pressões dos marcos legais europeus de sustentabilidade, como a CSDDD e a Lei de Matérias-Primas; consigo fazer isso graças à minha experiência em advocacia e ao enfrentamento da opressão epistêmica e racismo estrutural no meio acadêmico europeu. Através dessa lente, o texto propõe uma “contra-antropologia” que recentra as epistemologias indígenas, promove a reciprocidade metodológica e confronta as lógicas extrativistas arraigadas no imaginário e nos regimes jurídicos e acadêmicos do velho continente. Ao dar destaque às cosmologias indígenas, às leituras de arquivo e às metodologias xamânicas, o ensaio argumenta em favor de uma prática antropológica mais audaciosa, capaz de apoiar a soberania indígena, a justiça territorial e o reconhecimento de outros mundos dentro da casa do Outro.
Palavras-chave:
epistemologias indígenas; metodologias xamânicas; resistência epistêmica; experiência acadêmica