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Revista Brasileira de Educação

Print version ISSN 1413-2478

Rev. Bras. Educ.  no.16 Rio de Janeiro Jan./Apr. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782001000100016 

RESENHAS

 

 

Marilia Pontes Sposito

Faculdade de Educação da USP

 

 

NOGUEIRA, Marialice, ROMANELLI, Geraldo, ZAGO, Nadir (org.). Família & escola: trajetórias de escolarização em camadas médias e populares. Petrópolis: Vozes, 2000.

A circulação de novos títulos na área da educação tem sido intensa nos últimos anos. As reuniões da Anped têm congregado os lançamentos, cada vez mais numerosos, exprimindo parte dessa produção que cresce significativamente. Um balanço da década de 1990 se faz necessário de modo a aferirmos se, de fato, esse crescimento exprime a socialização de conhecimentos novos e relevantes, a necessária elevação do padrão de qualidade da produção ou se trata, sobretudo, da formação de um mercado editorial lucrativo. Chama a atenção, no entanto, o lançamento de coletâneas que retratam a produção acadêmica recente, derivada dos Grupos de Trabalho da Anped. Essa prática, aliada ao papel que a Revista Brasileira de Educação vem assumindo nacionalmente, tem sido benéfica para a área, pois permite a circulação mais rápida do debate e da pesquisa em torno de eixos temáticos importantes.

O livro Família & Escola exprime essa nova tendência de forma particularmente bem sucedida. Organizado por pesquisadores que há vários anos estão voltados para o tema, Marialice Nogueira, Geraldo Romanelli e Nadir Zago, oferece um panorama importante sobre essa área de investigação no interior do GT Sociologia da Educação.

Alguns aspectos que orientaram a organização dos textos merecem ser destacados, pois constituem pontos fortes que recomendam a leitura dos vários capítulos.

Em primeiro lugar, situa-se o próprio tema objeto de análise: as intricadas relações entre duas fortes instituições socializadoras – a família e a escola. Há muito tempo se verifica a ausência de estudos sistemáticos sobre os grupos familiares em sua interação com a escola, embora a família sempre estivesse de certa forma presente no discurso educacional. Carregado de estereótipos ou aprisionado pelo senso comum, o pensamento educacional recente atribuiu valores, carências ou virtualidades bastante distantes dos arranjos e práticas reais dos grupos familiares.

Em um período marcado pela extensão da escolarização aos setores mais amplos da população, os mecanismos da reprodução social, como afirma François Singly na esteira do pensamento de Pierre Bourdieu, decorrem, fortemente, da posse do capital escolar, caracterizando o mode de production à composante scolaire. Nesse caso, a família moderna, menos centrada no patrimônio econômico, volta-se para a aquisição ou manutenção do capital escolar, o modo dominante da reprodução social.

Em segundo lugar, emerge outra virtualidade do trabalho. Além de trazer de forma rica a pesquisa sobre a importância do grupo familiar, a coletânea trabalha com segmentos sociais diversos, ampliando o campo de estudos da área. Tanto as famílias de classes populares como as que ancoram sua origem nos denominados setores médios são objeto de estudos minuciosos, que propõem um amplo quadro de referências passível de estabelecer compreensão mais densa das trajetórias escolares de seus membros: crianças e jovens.

Outra característica importante que marca os textos escritos é a adoção de referenciais teóricos claros, sobretudo aquelas derivados das reflexões de Pierre Bourdieu. No entanto, evitando leituras funcionalistas do autor, os artigos examinam as estratégias mobilizadas pelos grupos familiares para alcançar o sucesso em trajetórias que, em primeiro momento, poderiam ser condenadas ao fracasso. Assim, o tema das razões "do sucesso improvável", expressão cunhada por Bernard Lahire, estimulou vários dos estudos relatados no livro.

Finalmente, há que se destacar a preocupação dos organizadores com os aspectos metodológicos da pesquisa sobre os grupos familiares, tema abordado por Zaia Brandão no artigo que encerra a coletânea. Situando alguns dos dilemas da pesquisa, sobretudo as falsas antinomias que se estabelecem na área da educação entre o quantitativo e o qualitativo, o micro e o macrossocial, a autora percorre o tema mostrando a complexidade de cada uma dessas questões. Propondo a importância dos procedimentos de cunho quantitativo, a autora mostra, também, os difíceis desafios presentes nas abordagens qualitativas, às vezes apressadamente adotadas pelos jovens pesquisadores, sob o pretexto de certa facilidade no trabalho de campo e no tratamento analítico dos dados.

Os caminhos promissores para novas investigações estão abertos, pois o tema da crise da eficácia e da mutação das instituições socializadoras, os processos de "desinstitucionalização", examinados por François Singly e François Dubet, entre outros, constituem um leque amplo de indagações que poderão oferecer caminhos importantes para o desenvolvimento do campo. Família & Escola traduz um momento fecundo dessa trajetória.