RESUMO
Estudo interdisciplinar do termo “Gerais”, abordando-o sob perspectivas históricas, literárias, cartográficas, geográficas e antropológicas. Partindo de nexos geográficos na obra Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, o texto estende-se a fontes cartográficas do século XVIII, identificando os Gerais como uma categoria geográfica e cultural nos chapadões do Cerrado, especialmente no centro-nordeste do Brasil. Caracterizados por relevos planos e vegetação savânica, esses territórios foram historicamente ocupados por povos indígenas, notadamente Jê e, posteriormente, por comunidades tradicionais que desenvolveram formas próprias de territorialidade, centradas no manejo e uso comum da terra, associando seus modos de vida e identidade à paisagem dos Gerais. Hoje, enfrentam ameaças do agronegócio, como monocultivos de soja e eucalipto, e da mineração. A análise propõe critérios fisiográficos para delimitar os Gerais, destacando sua importância histórica, ambiental, cultural e territorial. Argumenta-se que os Gerais constituem simultaneamente uma categoria geográfica, histórica, cultural e territorial do Cerrado, participando ativamente da constituição de modos de vida, territorialidades e identidades. Tal compreensão reforça a necessidade de proteção do bioma e dos direitos territoriais das comunidades tradicionais que o habitam e o conservam.
Palavras-chave:
toponímia; Cerrado; geraizeiros; antropogeografia; cartografia histórica
ABSTRACT
An interdisciplinary study of the term “Gerais”, examined from historical, literary, cartographic, geographic, and anthropological perspectives. Starting from geographic connections in Guimarães Rosa’s work Grande Sertão: Veredas, the text extends to eighteenth-century cartographic sources, identifying the Gerais as a geographic and cultural category in the plateaus of the Cerrado, particularly in Brazil’s central-northeastern region. Characterized by broad flat-topped plateaus covered by savanna vegetation, these territories were historically inhabited by Indigenous peoples, notably Gê, and later by traditional communities that developed distinctive forms of territoriality, based on common land use and environmental management, associating their ways of life and identity with the landscape of the Gerais. Today, they face threats from agribusiness, such as soybean and eucalyptus monocultures, and from mining. The analysis proposes physiographic criteria to delineate the Gerais, highlighting their historical, environmental, cultural and territorial significance. The Gerais are argued to constitute simultaneously a geographic, historical, cultural and territorial category within the Cerrado, actively shaping ways of life, territorialities, and collective identities. Such an understanding reinforces the need to protect the biome and the territorial rights of traditional communities that inhabit it and preserve it.
Keywords:
toponymy; Cerrado; geraizeiros; anthropogeography; historical cartography
INTRODUÇÃO
Qual a origem da toponímia Gerais? Como se caracterizam? Onde se localizam? Qual a sua cronotopia1, ou seja, sua dimensão no tempo e no espaço? Para respondê-las, investigamos de que modo esse termo reúne simultaneamente paisagem e territorialidade, construídas socialmente através de processos históricos de longa duração, permeados por peculiares formas de ocupação e significados sociais que persistem no presente. Para melhor entendê-la, apresentamos inicialmente alguns indícios desse termo na leitura do romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, estabelecendo nexos com a cartografia histórica sobre as origens desse termo e da história social à qual se relaciona. Nas seções seguintes, partimos para o uso de instrumentos de análise das paisagens para descrever a fisiografia dos Gerais, primeiramente a partir da regionalização apontada por Ab’Sáber em seus Domínios de natureza, e em seguida buscando apresentar sua natureza peculiar. Posteriormente, propomos critérios de identificação dessa toponímia específica do Domínio dos Cerrados, os Gerais. Posteriormente, discutimos os Gerais como território e categoria identitária, destacando as relações historicamente construídas entre povos e comunidades tradicionais (PCTs) e os ambientes do Cerrado. Com isso, buscamos compreender os Gerais não apenas como uma paisagem do Cerrado, mas como uma categoria histórica, territorial e identitária dotada de significados sociais persistentes.
O estudo articula diferentes áreas do conhecimento, como a história, a geografia, a antropologia e a linguística, configurando-se como um esforço interdisciplinar para a compreensão de aspectos históricos, socioculturais e ambientais encapsulados pelo topônimo Gerais. Afinal, o ato de nomear um acidente geográfico, físico ou humano depende, na maioria das vezes, de elementos extralinguísticos (Dick 1999).
O presente texto é baseado na pesquisa e dissertação de mestrado O Gê dos Gerais - Elementos de cartografia para a etno-história do Planalto Central: Contribuição à antropogeografia do Cerrado, de autoria de Rodrigo Martins dos Santos, defendida em 2013 sob orientação de Ludivine Eloy e coorientação de Mônica Nogueira no Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais (Mespt) da Universidade de Brasília. Essa pesquisa combinou o levantamento e a análise de dados históricos, cartográficos e de campo em uma investigação sobre a dinâmica de ocupação indígena no centro do Brasil. O mapa de Curt Nimuendaju2 foi ponto de partida para o primeiro autor, que mobilizou também mapas de Čestmír Loukotka3 e de arquivos públicos históricos do Brasil e de Portugal, alguns dos quais revisitados aqui, na análise sobre a toponímia “Gerais”.
O esforço de discussão sobre essa categoria tem, além de um valor histórico evidente, relevância para os estudos do Cerrado, nas interfaces entre geografia física e cultural. As áreas de Gerais (ou de planaltos e chapadas) estão altamente ameaçadas, desde a década de 1970, por serem campo prioritário de expansão de monocultivos de larga escala (especialmente a soja e o eucalipto) e, mais recentemente, da mineração. Mas os Gerais constituem-se também em referência fundamental para povos e comunidades tradicionais (PCTs) do bioma, entre geraizeiros, geralistas, veredeiros, vazanteiros e comunidades de fundo e fecho de pasto, que exercitam sua política de identidade com forte apelo à conservação dessas áreas, costumeiramente de uso comum, seja para o extrativismo de espécies nativas, seja para a criação de gado. Sendo assim, há uma disputa em curso em torno dos usos, significados e formas de apropriação dos Gerais; e revisitar essa categoria pode contribuir para a valorização dessa porção do Cerrado enquanto paisagem e patrimônio, natural e humano.
OS GERAIS NA LITERATURA E NA CARTOGRAFIA HISTÓRICA
“Gerais” é uma toponímia popular consagrada pelo romance de João Guimarães Rosa, intitulado Grande Sertão: Veredas, em que o protagonista, Riobaldo Tatarana, conta sua história de jagunço, vivida durante o século XIX, numa região situada entre o norte de Minas Gerais, o oeste da Bahia e o leste de Goiás (atual nordeste goiano e sudeste tocantinense).
A região coincide com os chamados currais são-franciscanos do período colonial ou currais baianos - embora, nessa época, fizesse parte da Capitania de Pernambuco. Nessa região, as boiadas foram introduzidas ainda no século XVII, para o abastecimento dos engenhos de açúcar do litoral nordestino. Com o início do ciclo do ouro, os Gerais passaram também a abastecer as zonas minerárias de Minas Gerais e de Goiás, período do apogeu pecuário, no século XVIII (Capistrano de Abreu 1963).
O gentílico geralista, usado por Guimarães Rosa, mas também por pesquisadores como Pierson (1972), provavelmente não se estabeleceu como uma autodenominação, mas, sim, como a forma pela qual os mineiros - moradores das serras que foram, no século XVIII, fortemente mineradas e nas quais surgiram grandes cidades coloniais como Sabará, Vila Rica (Ouro Preto) e Mariana - designavam, por oposição, os habitantes dos Gerais. Afinal, desde a formação da Capitania de Minas Gerais havia um reconhecimento das particularidades de cada uma dessas duas regiões, os Gerais e as Minas, que persistiu mais tarde na paridade gentílica expressa na denominação do estado (Costa 2002; Nogueira 2017).
O mapa da Figura 1, elaborado no século XVIII e guardado no Arquivo Histórico Ultramarino de Portugal (AHU 17--), indica as povoações e a hidrografia dos arredores do então arraial de Pracatu, localizado no interior da comarca de Sabará, capitania de Minas Gerais. Esse mapa traz como toponímia da região localizada nos chapadões, ao norte do referido arraial, como Geraes. Destacado no círculo amarelo, encontra-se a vila de Pracatu do Principe (atual cidade de Paracatu). No destaque vermelho, a área identificada como “Jeraes”, designando os chapadões ao norte do arraial, onde estão as nascentes do rio Urucuya.
Mapa do julgado de Pracatu, comarca de Sabará (Rio das Velhas), Minas Gerais, séc. XVIII. Fonte: AHU (17--).
Nessa visualização, o norte foi posicionado na parte superior, em conformidade com as convenções cartográficas atuais. O mapa original, contudo, foi elaborado segundo outra orientação, tendo o sul ou o oeste como referência para a parte superior da representação. O grande rio representado à direita, estendendo-se de sul a nordeste, corresponde ao alto curso do rio São Francisco até a confluência com o rio Correntina, no atual oeste baiano, próximo às divisas com Minas Gerais. Naquele contexto, o rio Carinhanha delimitava as capitanias de Pernambuco e Minas Gerais. Não há, entretanto, qualquer outro elemento gráfico que indique a continuidade dessa divisa nas terras situadas a montante de suas nascentes. Convém lembrar que, ao longo de todo o século XVIII e das primeiras décadas do século XIX, as capitanias de Pernambuco e Minas Gerais eram contíguas. Essa situação permaneceu até 1827, quando a Comarca do São Francisco foi incorporada à capitania da Bahia.
Conforme se observa na figura, há uma linha delimitando a Capitania de Goyas, posta a oeste da toponímia “Jeraes”. Ao se acompanhar seu traçado para o norte, a linha vai se tornando difusa, não chegando a se encontrar com os dois polígonos situados no extremo noroeste, correspondentes às capitanias do Grão-Pará e Maranhão. O mapa também apresenta, no limite entre as capitanias de Minas Gerais e Pernambuco, o rio Carinhanha.
A área localizada entre as cabeceiras dos afluentes esquerdos do rio São Francisco, incluindo o Carinhanha e o Urucuia, até os limites de Goiás, Maranhão e Grão-Pará, aparece no mapa como uma terra sem definição toponímica ou político-administrativa. Embora seja uma área que podemos supor que seja de Gerais, o topônimo só está assinalado nas nascentes do rio Urucuya - provavelmente porque o foco do referido mapa são os arredores do arraial de Pracatu. Essa indicação converge com as afirmações do jagunço Riobaldo Tatarana, personagem do romance Grande Sertão: Veredas:
O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. [...] Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho da autoridade. O Urucúia vem dos montões oestes. [...] O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. [...] O sertão está em toda a parte (Guimarães Rosa 2001 [1956], 30; itálico do autor, sublinhados nossos).
A recorrência da categoria “Gerais” na cultura brasileira não se restringe à obra de Guimarães Rosa. Também na música popular brasileira, Caetano Veloso menciona a expressão na canção “Podres Poderes”:
Ou, então, cada paisano e cada capataz
Com sua burrice, fará jorrar sangue demais
nos pantanais, nas cidades, caatingas
E nos gerais (Veloso 1984, grifo nosso).
Nessa música, o referido compositor evoca os “gerais” entre diferentes paisagens nacionais, associando-os a um cenário de violência e disputas sociais. A referência evidencia que os Gerais permanecem reconhecíveis no imaginário nacional não apenas como uma paisagem do interior do Brasil, mas também como um espaço historicamente marcado por conflitos em torno da terra, do poder e das formas de ocupação do território.
Para escrever Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa atravessou 240 quilômetros do sertão mineiro com oito vaqueiros, da Fazenda Sirga (Três Marias-MG) até a Fazenda São Francisco (Araçaí-MG). O romance utiliza topônimos reais dessas regiões, além de áreas em Goiás e na Bahia. Viggiano (2007) demonstra isso por meio de pesquisa toponímica de rios, veredas, povoados etc. no norte de Minas, leste de Goiás e oeste da Bahia. Assim, a obra reforça as relações entre os Gerais e o Urucuia, aqui já indicadas por registros históricos. Observamos também que “Gerais” frequentemente se confunde com “sertões”, designando um tipo de sertão marcado por campos, cerrados e veredas. Nessa acepção, os campos gerais correspondem às áreas campestres da região.
O trecho acima também faz referência a “pastos que carecem de fechos”, uma expressão literária para designar áreas de uso comum, frequentemente denominadas em escritos históricos no Brasil como terras gerais, ou as áreas devolutas, sem senhor, em contraposição às terras particulares (Nogueira 2017), na região limítrofe entre os estados de Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal, Bahia, Tocantins, Piauí e Maranhão.
Observando os mapas históricos da região, vemos que, nos mapas da tradição Ângelo dos Santos Cardoso, conhecidos por serem os primeiros da capitania de Goiás, e que foram elaborados entre 1749 e 1756 (Martins dos Santos 2018), já se encontra inscrita a “Serra dos Geraez”, nos limites nordeste da capitania (destaque em vermelho) com as capitanias do Maranhão, Piauí e Pernambuco4 (Figura 2). A então “Serra dos Geraez”, atualmente, é denominada de Serra Geral ou Serra Geral de Goiás.
Em outro mapa histórico (Figura 3), identifica-se novamente a serra que marca o limite entre as duas então capitanias de Goyás e Pernambuco (destaque em amarelo). O recorte corresponde ao atual oeste baiano, próximo à tríplice divisa entre os atuais estados da Bahia, Tocantins e Piauí, denotando que o topônimo Geraes era empregado para essas bandas, até mesmo pelas autoridades do reino, já que o mapa era utilizado por governadores e pela alta nobreza (Martins dos Santos 2018, 156). Para adequação às convenções atuais, o norte foi posicionado no topo; no original, a orientação tinha o leste nesta posição. Como referência geográfica, observa-se, na parte superior do recorte (destaques em círculos azuis), o rio Grande, que deságua no São Francisco, próximo à atual cidade da Barra; ao sul, o Bispado de Mariana (círculo verde), comarca de Minas Gerais.
No século XIX, os produtos cartográficos seguem adotando a toponímia Geraes para designar essa região. Na Figura 4, apresentamos um trecho do mapa da Comarca do Rio de São Francisco da Província de Pernambuco (BN 1823). Nela, a região situada no alto curso dos rios da margem esquerda do São Francisco, entre o Carinhanha e o Grande, atualmente pertencente à Bahia, nas divisas com os atuais Goiás e Tocantins, respectivamente, é identificada como “Geraes de Goyaz ou Campos inabitaveis” e também como “Campos Geraes ou dezertos sem logradouros”. Ao sul, no círculo azul, encontra-se a comarca mineira de Piracatu.
Recorte da Carta da capitania de Goyáz da tradição Ângelo dos Santos Cardoso. Fonte: AHU (1751) 5.
Recorte da carta Capitaniá de Goyás com a toponímia “Serra dos Geraes”. Fonte: BPE (17--) 6.
A presença da toponímia “Gerais” em diversos mapas oficiais demonstra que a sua utilização corrente remonta, pelo menos, ao século XVIII, persistindo em documentos do século XIX e mesmo no presente, como categoria êmica, entre populações locais, especialmente entre PCTs dos estados de Minas Gerais e da Bahia. Essa permanência sugere que o termo “Gerais” não constitui apenas uma designação histórica da paisagem, mas também uma categoria socialmente significativa para diferentes coletividades.
Nogueira (2017, 43, grifos da autora) informa que o termo “Gerais” “designava, grosso modo, as vastas paisagens de campos do interior do país. De forma genérica, campos extensos, inaproveitados e desabitados eram campos gerais”. Além dessa acepção, em regiões como o Norte de Minas Gerais, a denominação Gerais pode também ser entendida “grosso modo [...] como sinônimo de cerrado [...], dada pela gente local aos topos de serra, planaltos, encostas e vales” (Nogueira 2017, 15; 23). Pois, como salienta a autora, citando um depoimento de um Geraizeiro: “antes não era cerrado, não. Era tudo Gerais” (Nogueira 2017, 24, grifo da autora). Portanto, Gerais é uma espécie de denominação local para os chapadões ou planaltos recobertos por cerrado8 situados entre Minas Gerais, Goiás, Bahia, Tocantins, Piauí e Maranhão, que antecede a categorização científica das paisagens brasileiras.
Ab’Sáber (1967, 46) informa que a região de campos cerrados dos planaltos paranaenses também é denominada de “campos gerais”, bem como os campos cerrados do Rio Branco, em Roraima, corroborando a hipótese de que “Gerais” seja uma designação dos primeiros luso-brasileiros para as áreas campestres dos cerrados em todo o país.
Ainda assim, os Gerais (também chamado de “o Gerais” ou “as Gerais”) é uma toponímia de difícil delimitação, pois, como sua própria semântica lexical exprime, o termo é “vago, impreciso, superficial; pouco pormenorizado” (Porto 2013). A despeito dessa dificuldade de delimitação, passaremos, a seguir, ao exercício de localizar e caracterizar essa toponímia, a partir de elementos das geociências, mais precisamente dos estudos de paisagens, a fim de apresentar à leitora e ao leitor a natureza dos Gerais.
OS GERAIS NO DOMÍNIO DOS CERRADOS
Os Gerais estão situados em uma região natural (ou paisagística) chamada por Ab’Sáber (2003a [1962], 28) de Domínio dos Cerrados. O autor observou que a província geomorfológica denominada de Planalto Central Brasileiro, composta basicamente de elevados platôs em forma de chapadas, situava-se completamente em uma mesma zona climática, com uma vegetação mais ou menos homogênea em toda a sua extensão. Assim, identificou que lá havia um domínio de natureza, e o denominou de “Domínio dos chapadões tropicais do Brasil Central (área tropical de regime pluviométrico de duas estações - zona dos cerrados e das florestas galerias)”. Ab’Sáber considerou que o núcleo dessa área se estendia pelo centro do Brasil, na mesma posição zonal em que ocorre o vasto domínio das savanas africanas.
Na tentativa de resumir em um nome que pudesse exprimir a inter-relação dos fatores fisiográficos ali recorrentes, o renomado geógrafo denominou-o de “Domínio dos Chapadões Recobertos por Cerrados (Cerradões e Campestres) e Penetrados por Florestas-Galeria no Brasil Central” (Ab’Sáber 1967, 46-47). Em artigo publicado posteriormente, o autor reduziu a denominação para “Domínio dos Chapadões Centrais do Brasil” ou “Domínio dos Campos Gerais” (Ab’Sáber 1977, 19, grifo nosso), assinalando a presença dos Gerais nessa região natural. Para o presente texto, adotaremos a forma “Domínio dos Cerrados”, consagrada pelo geógrafo, que a utilizou na maioria de seus trabalhos a partir de então.
O Domínio dos Cerrados é recoberto, de uma forma mais ou menos homogênea, por uma feição ecossistêmica chamada de cerrado, no interflúvio das principais bacias hidrográficas no Brasil Central. Essas áreas localizam-se em planaltos com altitude variando entre 600 e 1.100 m, alguns cristalinos dotados de superfícies aplainadas de cimeira e outros sedimentares compartimentados. Estes planaltos são típicos, ou seja, de formas similares entre ambos os embasamentos geológicos, e constituem, no Planalto Central Brasileiro, uma vasta área de chapadões (Ab’Sáber 2003c [1983], 122).
Uma rede de depressões interplanálticas, situada a leste, nordeste, norte, noroeste e oeste do Planalto Central, salienta o espaço geográfico principal do Domínio dos Cerrados em sua área nuclear (Ab’Sáber 2003c, 124). A área nuclear do Domínio dos Cerrados abrange os chapadões localizados no centro-sul de Mato Grosso, centro-nordeste de Mato Grosso do Sul, Triângulo Mineiro, Goiás, Tocantins, oeste da Bahia, e sul do Maranhão e do Piauí. O Planalto Central Brasileiro corresponde à área central desse núcleo e é formado sobre uma estrutura complexa de rochas cristalinas e sedimentares.
Além do cerrado, que é a vegetação predominante, cerradões e capões florestais ocorrem em áreas com solos mais férteis ou mais úmidos, geralmente podzólicos, em setores mais convexizados. Nos baixos vales, e acompanhando as linhas de drenagem perenes, ocorrem as florestas-galeria, em forma de corredor contínuo de matas, sobre solos hidromórficos. Estes solos também ocorrem nas áreas alagadiças e nascentes pantanosas, recobertos por campos e veredas (arranjo herbáceo com buritizais). Faixas de campos limpos ou campestres sublinham as áreas de cristas quartzíticas e xistos aplainados e mal pedogenetizados (areias quartzosas) dos bordos de chapadões onde nascem bacias de captação (Ab’Sáber 2003c, 117-118).
Apesar de constituir um domínio de natureza, ou seja, uma região natural mais ou menos homogênea, o Domínio dos Cerrados possui uma variedade paisagística configurada por diferentes combinações de feições fisiográficas (relevo, rochas, clima, solos, vegetação, hidrografia) formando sub-regiões. Mas quais desses aspectos combinados configuram os Gerais? Seria todo o Domínio dos Cerrados? Ou os Gerais apresentam peculiaridades em sua composição natural que os constituem como uma sub-região dentro do Domínio dos Cerrados? Essas são algumas das questões que orientam o exercício a seguir.
A NATUREZA DOS GERAIS
Para investigarmos as feições dos Gerais, utilizamos um estudo de iniciativa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), da década de 1980, que reuniu e correlacionou diversos dados fisiográficos já mapeados no Brasil, principalmente pelo projeto Radam-Brasil9, que naquela época fora recém-concluído. Assim, com esses estudos e subsídios de campo, Cochrane et al. (1985) definiram sub-regiões fisiográficas para o Brasil Central e Amazônia. Com base nesse estudo, e com foco na área dos Gerais, apresentamos na Figura 5 as unidades de relevo da porção centro-leste do Cerrado, onde estão inseridos os Gerais.
Unidades de relevo da porção centro-leste do Domínio dos Cerrados. Fonte: Martins dos Santos (2013, 150).
Destacamos que à esquerda da Figura 5, encontra-se a delimitação sobre hipsometria e modelado do terreno. À direita, o mapa temático das unidades de relevo. Analisando os dois mapas, fica evidente que a unidade de relevo mais próxima da área dos Gerais coloniais - apresentado na primeira seção deste texto - é a dos Chapadões do Espigão Mestre, no extremo oeste do estado da Bahia e noroeste de Minas Gerais. Porém, vale lembrar que os Gerais não possuem um limite demarcável, como um objeto de contornos evidentes. Como tentamos demonstrar, trata-se de uma toponímia que se estabeleceu historicamente para designar genericamente terras desabitadas de paisagens campestres, incluindo aquelas que ocorrem em manchas no Paraná e em Roraima. Tendo em vista, portanto, a grande extensão do Domínio dos Cerrados e a elasticidade dos usos dados à categoria, para fins do presente exercício, focalizaremos a área central dos Gerais, os Chapadões do Espigão Mestre, a fim de reconhecer as feições que podem caracterizar os Gerais como uma paisagem específica desse Domínio.
Como se observa na Figura 5, esses chapadões estão bem compartimentados entre quatro depressões periféricas, ao norte, a do alto Parnaíba, a leste, a do médio São Francisco, ao sul, a do alto São Francisco, e a sudoeste, a do Vão do Paranã - esta que, por sua vez, está contígua à Serra Geral (também conhecida como Serra Geral do Goiás ou Serra dos Gerais), que nada mais é que os bordos da depressão periférica do Vão do Paranã.
Da mesma forma, há dois planaltos que o cercam, um ao noroeste, os Chapadões (ou Tabuleiros) do alto Parnaíba; e ao sudoeste o Planalto Pratinha (também chamado de Planalto Goiano ou de Brasília), por meio das chapadas do Urucuia e Paracatu.
O Espigão Mestre configura-se como um conjunto de planaltos cretáceos da bacia sedimentar Urucuia - que abriga um importante aquífero - situados no noroeste de Minas Gerais e no oeste da Bahia, atingindo pequena porção dos estados do Tocantins, Piauí e Maranhão, nas fronteiras com a Bahia. Constitui-se de planalto sedimentar com topos tabulares (chapadões) e declividades abaixo de 5%, formados no período Mesozoico. A altitude gira em torno dos 1.000 m. A densidade de drenagem é fraca e apresenta padrão paralelo. A maior parte dos cursos d’água escoa para o médio curso do rio São Francisco, enquanto apenas uma pequena porção drena para a bacia do Tocantins, nas vertentes ocidentais da Serra Geral (Felfili 2001).
Superfícies cristalinas aplainadas, como os planaltos da superfície Pratinha no centro do Brasil, são resultado da ação intempérica por milhares de anos. Em passado longínquo, pertenceu às bases de uma cadeia montanhosa muito mais elevada. Seus sedimentos foram depositados nos arredores, formando os planaltos sedimentares, que são as chapadas, como a do Espigão Mestre, cujos estratos demonstram que o processo de compactação sofreu constantes mudanças climáticas ao longo de seu decorrer, sendo as camadas mais arenosas resultantes de carreamentos áridos e secos, e as mais finas, siltosas ou até mesmo argilosas, de climas mais úmidos e quentes.
Esse processo contínuo de compactação deu origem a chapadas sedimentares como a do Espigão Mestre que, após serem formadas, passaram a sofrer erosão periférica, dando origem às depressões como o Vão do Paranã e o vale do São Francisco, culminando nas formas que atualmente reconhecemos nessas chapadas. As depressões interplanálticas que circundam os Gerais são de idade cenozoica e de clima semiárido (Ab’Sáber 2003b [1977], 16-17), e no passado glacial foram recobertas por caatingas.
A Serra Geral é uma feição marcante na fronteira ocidental dos Gerais. Transpassando-a pelo seu lado oeste, encontramos as superfícies de aplainamento do Pediplano do Tocantins, uma extensa área com caimento regional em sentido norte, identificada como o “fundo dos gerais de Goiás” por Guimarães Rosa (2001 [1956], 46) e que, como veremos mais adiante, apresenta uma cobertura vegetal muito semelhante à do Espigão Mestre.
As áreas mais acidentadas, como a Serra Geral do Goiás, e a “Serra dos Canoeiros” - um aglomerado de serras onde atualmente situa-se um território do povo Avá-Canoeiro - são áreas pouco favoráveis a povos com mobilidade característica dos campos abertos, como os Jê - habitantes tradicionais do Domínio dos Cerrados10.
Os campos gerais, vastas regiões recobertas por campos savânicos (campo cerrado, campo sujo, campo limpo), chegou a ser uma das denominações para o Domínio dos Cerrados, como já mencionamos anteriormente.
Vegetação predominante nas unidades de relevo do centro-leste do Domínio dos Cerrados. Fonte: Martins dos Santos (2013, 150).
Na Figura 6, à esquerda, destacamos a sobreposição das unidades de relevo sobre a vegetação original. À direita, uma simplificação, com as classes fitogeográficas que mais se evidenciaram na unidade geomorfológica em análise. Juntos, esses mapas evidenciam que as vegetações savânicas do tipo campestre (campos cerrados, campos sujos e campo limpo) estão mais presentes na porção nordeste do Domínio dos Cerrados, justamente onde se encontram os Gerais, por isso a recorrente designação de campos gerais para essa região. As vegetações arbóreas mais robustas, de cerrado stricto sensu e cerradão11, estão mais presentes na área central do Domínio dos Cerrados, tal como afirmou Ab’Sáber. A Figura 7 apresenta um perfil horizontal da paisagem do Espigão Mestre que reforça essa análise.
Como se pode notar na Figura 7, a área nuclear dos Gerais, que, assumindo serem os chapadões do Espigão Mestre, apresenta uma superfície mais ou menos plana, dominada por campos cerrados, limpos e sujos, com presença de caatingas quando se atinge as proximidades do rio São Francisco, exatamente no local onde se inicia a zona de contato entre os domínios Cerrado e Caatinga.
Dessa forma, podemos afirmar que os Gerais possuem uma paisagem dominada por superfícies planas, altas (chapadas), recobertas por campos de savanas (campos cerrados ou campos gerais). Também, com base nas formações morfológicas e fitogeográficas, podemos estender o entendimento da aplicação toponímica de Gerais, para toda extensão em que coincidem essas duas feições de natureza. Os Gerais seriam então uma porção do Domínio dos Cerrados, onde predominam os chapadões e superfícies de aplainamento (pediplanos) recobertos por savanas campestres, ou campos gerais. Dessa forma, concluímos que as adjacências do Espigão Mestre que apresentam este tipo de característica também podem ser identificadas como Gerais.
Portanto, o limite dos Gerais dentro do Domínio dos Cerrados, para o lado do ocidente, se faz quando os campos deixam de ser predominantes para dar lugar ao cerrado stricto sensu e ao cerradão, bem como uma área mais plana dá lugar para terrenos ondulados ou acidentados, na altura dos estados de Mato Grosso e Goiás, na Serra dos Canoeiros (ou de Cavalcante), e parte do Planalto Goiano (Pratinha, ou de Brasília), além da depressão do Vão do Paranã. Os limites para o lado leste continuam sendo a depressão periférica do rio São Francisco, onde se situa a zona de contato com o Domínio da Caatinga. Entrementes, para o norte e para o sul, os Gerais se estendem pelas chapadas onde predomina vegetação campestre, atingindo os Tabuleiros do Alto Parnaíba no primeiro caso, e as Chapadas do Alto Urucuia, localizadas na porção leste do Planalto Goiano (Pratinha, ou de Brasília). Podem inclusive transpassar esses horizontes e atingir outras paragens, pois como afirma Nogueira (2017), na porção norte do estado de Minas Gerais, à direita do rio São Francisco, também há ocorrência de Gerais.
CRITÉRIOS DE IDENTIFICAÇÃO DOS GERAIS COM BASE NA NATUREZA
Retomando as Figuras 5 e 6, verificamos que algumas áreas, que não apresentam as características topográficas de Gerais, mas possuem cobertura vegetal típica, campestre, podem também ser identificadas como Gerais. Há dois lugares, primordialmente, que podem ser incluídos nesse enquadramento: o Pediplano do Tocantins, a noroeste do Espigão Mestre, uma rampa com leve desnível para o norte, como um chapadão mais baixo; e a Serra do Tabuleiro e as porções setentrionais do Cinturão Orogênico do Atlântico, que apesar de possuírem terrenos mais inclinados, apresentam vegetação predominantemente campestre.
Na Figura 8, tencionamos simplificar o entendimento fisiográfico da região dos Gerais, por meio da relação primordial entre relevo e vegetação. Quanto mais a área possui características semelhantes às do Espigão Mestre - ou seja, terreno plano, alto, com predomínio de campos cerrados -, tanto mais será aplicável o termo Gerais a essa fisionomia.
Aplicação do termo Gerais tendo como base a fisiografia do Espigão Mestre. Fonte: Martins dos Santos (2013, 155).
Essa figura localiza as áreas com maior afinidade a serem denominadas de Gerais, considerando este como uma feição peculiar ao Espigão Mestre. Dessa maneira, é possível perceber que as áreas que mais se assemelham ao Espigão Mestre localizam-se ao norte e ao sul desse enorme chapadão, concentrando-se na porção nordeste do Domínio dos Cerrados, bem como do Planalto Central Brasileiro. O Quadro 1, a seguir, busca resumir a fisiografia predominante dessas áreas. Os itens numerados correspondem àqueles localizados na Figura 8.
O Quadro 1 foi elaborado com base no cruzamento dos dados de relevo e vegetação. O método adotado foi ordenar grupos de aplicação do termo “Gerais”, tendo como principal critério a maior ou menor semelhança com o núcleo dos Gerais (o Espigão Mestre) e suas características fisiográficas. Como se pode notar, quanto mais próxima de uma fisiografia de chapadas recobertas de campos cerrados, mais aplicável o uso do termo.
Resumo das características fisiográficas de relevo e vegetação dos Gerais e entorno. Fonte: Martins dos Santos (2013, 156).
Apesar da cobertura vegetal dos Gerais ser predominantemente constituída de campos, não há uma continuidade monótona na paisagem, pois cerrado stricto sensu, cerradão e pequenas manchas florestais também ocorrem na área, ainda que em menor escala, além da presença recorrente de veredas.
São comuns nessa porção natural dos Gerais espécies vegetais como o caju (Anacardium othonianum), o pau-santo (Guttiferae), capim-fexinha (Gramineae), jatobá (Leguminosae), pequi (Caryocar brasiliensis), mangaba (Hancornia speciosa) e bromélias. Buriti (Mauritia flexuosa) e pindaíbas (Xylopia sp.) estão presentes nas veredas12 - ambientes típicos que entremeiam os Gerais. Angico (Leguminosae), aroeira (Miracrodruon urundeuva), cedro (Cedrella fissilis), ipês (Tabebuia sp.) e perobas (Aspidosperma sp.) povoavam as formações florestais dos Gerais, principalmente as manchas de matas secas mais próximas à depressão do São Francisco, mas essas espécies estão extintas em muitos locais ou ameaçadas de extinção (Felfili 2001, 19-29). Árvores frutíferas como o araticum (Annona crassifolia) e os araçás (Psidum sp.) também são encontradas nas matas (Monti 2007, 34).
Nas áreas alagadiças como as veredas e várzeas inundáveis são encontrados animais como a anta (Tapirusamericanus), a queixada (Tayassualbirostris), o caititu (Tayassutayassu), a capivara (Hydrochoerus hydrochoerus) e o ratão-do-banhado (Myocastor coypus) (Monti 2007).
Monti também concorda que os campos limpos e sujos representam a fisiografia peculiar dos Gerais, por isso a recorrente denominação de campos gerais. O autor cita algumas espécies faunísticas nativas dessa paisagem:
por apresentarem uma predominância de plantas herbáceas, neles é abundante a existência de aves grandes, como a ema (Rhea americana), seriema (Cariama christata) e outras de porte médio, como a perdiz (Rhinchotus rufescens), codorna buraqueira (Nothura maculosa), jaó (Crypturus noctivagus), dentre outras. Entre os cervídeos, destacam-se o veado-do-campo (Mazama americana) e o veado-catingueiro (Mazama simplicicornis). Dentre os tatus, estão o tatu-peba (Eupharactus sexinctus), tatu-veado (Dasypus septemcinctus) e o tatu-galinha (Dasypus novemcinctus). A diversidade de animais aqui encontrada leva a crer que, a principal atividade humana exercida neste subsistema era constituída pela caça de aves e mamíferos, acompanhada com menor intensidade pela coleta de ovos (Monti 2007, 33).
O citado autor informa que esses animais savânicos vivem principalmente nas áreas campestres, evitam as matas e cerradões, tornando a caça uma atraente atividade de subsistência nos Gerais. No entanto, a ocupação humana ocorreu, ao longo do tempo, principalmente onde havia uma maior diversidade de ambientes (campos, cerrados, matas, veredas), devido à maior variedade de espécies vegetais e animais, além da presença da água.
O manejo do fogo, a caça, a coleta de frutos, raízes e cascas na savana aberta, como os Gerais, eram práticas comuns dos povos indígenas habitantes do Brasil Central (Furquim 2021, 26). Os povos da família linguística Jê, habitantes históricos dessa região (Martins dos Santos 2013), transplantavam espécies úteis para as margens de suas trilhas e, assim, criavam aglomerados de recursos no seu ambiente. Sobre isso, Monti informa que:
as roças intinerantes com aparência de áreas abandonadas deixadas para trás, na realidade, criavam fontes de aprovisionamento, durante um longo período de tempo, de diversos produtos como, por exemplo, lenha, frutos, jenipapo e urucum (utilizado na pintura corporal), babaçu (para elaboração de óleo) e plantas medicinais, espécies encontradas ao redor das casas e plantadas com sementes ou mudas obtidas durante as excursões através de seu território [...]. São exemplos de plantas medicinais utilizadas por índios, sertanejos e agora incorporadas pela medicina ocidental: o jaborandi, utilizado como sudorífero e depurativo; a copaíba, que cura feridas e infecções; quinina, antes o único antimalárico disponível; etc. (Monti 2007, 36-37).
Os povoamentos luso-brasileiros, ao perceberem que os campos gerais são pastagens naturais, “boas para o gado, imensos a perder de vista” (Monti 2007, 32), passaram a praticar uma pecuária extensiva que durante muito tempo foi a atividade econômica mais importante, desde os períodos iniciais da colonização sobre aquele ambiente. Destacam-se as criações de bovinos, ovinos, caprinos, equinos, asininos, muares e suínos.
Ao longo da história de ocupação do Cerrado, comunidades que se estabeleceram em porções do bioma, em Minas Gerais e na Bahia13, também passaram a utilizar os Gerais para a criação de gado, combinada ao extrativismo não madeireiro de espécies nativas diversas, como jatobá (Leguminosae), pequi (Caryocar brasiliensis), mangaba (Hancornia speciosa), apenas para citar algumas espécies. Sobretudo, essas áreas são de uso comum das famílias, conforme normas estabelecidas pelo costume, por gerações. Assim, comunidades de geraizeiros, geralistas e fundos de pastos acumularam conhecimento e desenvolveram práticas de manejo e usos que contribuem para a conservação da biodiversidade dos Gerais.
No entanto, essas áreas e os modos de vida a elas associados estão ameaçados pelo avanço dos monocultivos de soja e eucalipto, que vêm descaracterizando severamente parte dos Gerais, desde a década de 1970, e, mais recentemente, pela mineração. Frente a esse processo, os esforços para conhecer e valorizar os Gerais, em sua história e natureza, revestem-se de maior importância científica, social e política.
As características fisiográficas aqui descritas não explicam apenas a configuração natural dos Gerais. Elas também influenciaram formas peculiares de ocupação humana, circulação, uso dos recursos naturais e construção de territorialidades. Compreender os Gerais exige, portanto, considerar não simplesmente sua natureza, mas também as relações históricas estabelecidas entre essa paisagem e os grupos sociais que nela viveram e vivem. É justamente dessas relações duradouras entre paisagem, uso social do espaço e pertencimento que emerge a dimensão territorial e identitária dos Gerais.
Dessa forma, a persistência do topônimo Gerais pode ser interpretada como uma forma de resistência epistemológica: enquanto o conceito científico de Cerrado tende a enfatizar atributos ecológicos e fitogeográficos da paisagem, a categoria êmica “Gerais” reafirma a anterioridade da ocupação tradicional e a indissociabilidade entre a paisagem e a cultura (Nogueira 2017).
Essas características fisiográficas não apenas distinguem uma paisagem específica do Cerrado, mas também influenciaram formas particulares de relação humana com a terra, tema abordado na seção seguinte.
TERRITÓRIOS E TERRITORIALIDADES NOS GERAIS
A identificação dos Gerais por atributos fisiográficos não esgota seus significados, exigindo considerar também sua dimensão social e histórica. Para além de uma unidade de paisagem, os Gerais constituem um espaço historicamente apropriado por distintos grupos sociais, cujos modos de vida foram construídos em estreita relação com os ambientes do Cerrado.
Adota-se aqui uma compreensão de território não apenas como base material de reprodução social, mas como resultado das relações historicamente construídas entre grupos humanos e seu ambiente, envolvendo dimensões políticas, simbólicas, econômicas e ecológicas. As territorialidades correspondem às práticas por meio das quais essas relações são produzidas e reproduzidas no espaço, manifestando-se nos sistemas de uso da terra, nas formas de manejo dos recursos naturais, nos conhecimentos ecológicos locais e nos sentidos de pertencimento associados à paisagem (Raffestin 1993). Tal compreensão aproxima-se das reflexões de Bispo dos Santos (2023) e Krenak (2020), para os quais território, natureza e vida coletiva não constituem domínios separados, mas dimensões interdependentes de uma mesma realidade relacional.
Essa associação entre comunidades tradicionais e ambientes dos Gerais pode ser compreendida também à luz do conceito de refúgio biocultural (Martins dos Santos 2024), aqui empregado como ferramenta interpretativa para compreender a persistência histórica de territorialidades tradicionais no interior da cronotopia dos Gerais. O conceito refere-se a territórios de resistência de determinados modos de vida que contribuem simultaneamente para a conservação de conhecimentos, práticas culturais e elementos da biodiversidade. Os Gerais sustentam territorialidades do Cerrado, favorecendo a continuidade de identidades coletivas, conhecimentos e ancestralidades.
As características ambientais dos Gerais influenciaram formas específicas de mobilidade, uso da terra e aproveitamento dos recursos naturais, contribuindo para a formação de territorialidades próprias (Nogueira 2017). Xakriabá, geraizeiros, veredeiros, vazanteiros, geralistas e comunidades de fundo e fecho de pasto desenvolveram sistemas de uso e manejo adaptados às condições ecológicas dos chapadões, campos cerrados, veredas e áreas de transição, estabelecendo relações duradouras com a paisagem e produzindo conhecimentos acumulados ao longo de gerações (Costa 2002). Nesse mosaico identitário, a figura do vazanteiro revela a complementaridade entre o uso sazonal das margens dos rios e as pastagens nativas dos chapadões, evidenciando que a territorialidade tradicional no Norte de Minas não se encerra em divisões fisiográficas, mas se organiza em redes de uso de múltiplos ambientes interconectados (Oliveira 2005).
Nesse contexto, os Gerais podem ser compreendidos como um território não simplesmente porque abrigam determinados grupos sociais, mas porque participam ativamente da constituição de suas cosmovisões. Conforme observam Bispo dos Santos (2023) e Krenak (2020), a separação entre sociedade e natureza, característica do pensamento moderno ocidental, não corresponde necessariamente às formas pelas quais muitos povos e comunidades tradicionais compreendem suas relações com o mundo. Para essas populações, a paisagem não constitui apenas o cenário da vida social, nem seus elementos são simples recursos. Ao contrário, integra um universo de relações que conecta seres humanos e não humanos, memórias, experiências e ancestralidades, compondo uma mesma trama de existência.
O território assume, assim, uma dimensão simultaneamente material e simbólica, reunindo recursos naturais, memórias coletivas, práticas produtivas e referências culturais que contribuem para a reprodução social dessas comunidades. Esse processo transparece na evolução das categorias identitárias associadas aos Gerais: enquanto o termo “geralista” consolidou-se historicamente como um marcador externo de diferenciação regional, a autodenominação “geraizeiro” assume hoje um caráter político de resistência. Essa transição ilustra o movimento de “englobamento e resistência” descrito por Costa (2002), no qual a cronotopia dos Gerais deixa de ser apenas uma marcação cartográfica antiga para afirmar-se como fundamento da identidade coletiva e da luta pela permanência no território.
As transformações recentes observadas nos Gerais, associadas à expansão dos monocultivos, da silvicultura e de outros empreendimentos intensivos em terra e recursos naturais, introduzem novas dinâmicas de uso e apropriação do espaço. Tais processos frequentemente implicam a substituição de paisagens diversificadas por formas homogêneas de ocupação territorial, afetando sistemas tradicionais de manejo, áreas de uso comum e modos de vida historicamente vinculados ao Cerrado.
Sob essa perspectiva, a permanência dos Gerais como categoria socialmente significativa depende não apenas da conservação de determinadas características naturais, mas também da continuidade das relações históricas entre comunidades e território. Esse cenário de resistência é agravado pelo atual contexto de desmonte ambiental e de recorrentes violações de direitos territoriais, no qual a imposição de lógicas produtivas exógenas sobre regimes tradicionais de uso da terra compromete as condições de reprodução física e cultural dessas populações (Anaya, Bronz e Magalhães 2024).
No contexto contemporâneo dos Gerais, os conflitos fundiários e as transformações recentes podem ser compreendidos também como expressões de um processo de redução desnaturada (Martins dos Santos 2024), caracterizado pela retração concomitante da diversidade biológica e cultural. A conversão de paisagens tradicionalmente manejadas por comunidades locais em áreas destinadas a usos homogêneos da terra tende a comprometer simultaneamente a biodiversidade do Cerrado e os conhecimentos, territorialidades e modos de vida historicamente associados aos Gerais. Nesse sentido, a proteção dos Gerais envolve não apenas a conservação de uma paisagem singular do Cerrado, mas também a preservação das relações históricas e cosmológicas que lhe conferem significado social e continuidade territorial.
Nessa perspectiva, a cronotopia dos Gerais expressa não apenas a permanência histórica de uma paisagem do Cerrado, mas também a continuidade de territorialidades, cosmovisões e refúgios bioculturais, hoje ameaçados.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo do texto, buscamos apreender a cronotopia do topônimo “Gerais” por meio da literatura, da cartografia histórica, da análise da paisagem e de sua dimensão social e histórica, expressa nas territorialidades construídas por povos e comunidades tradicionais. A permanência da denominação Gerais ao longo de séculos evidencia a sobreposição de diferentes temporalidades em uma mesma paisagem, conectando registros cartográficos coloniais, formas tradicionais de uso da terra e identidades.
A análise realizada demonstra que a articulação entre processos históricos e sociais em torno dos Gerais como topônimo brasileiro remonta, pelo menos, ao século XVIII, permanecendo viva no presente tanto como designação de uma paisagem específica do Cerrado, associada às chapadas recobertas por campos cerrados, quanto como categoria territorial mobilizada por grupos sociais tradicionais. Para essas comunidades, a categoria é carregada de sentidos, relacionados à sua história e aos seus modos de vida.
A região dos Gerais, no Domínio dos Cerrados, abrange o norte e noroeste de Minas Gerais, o oeste da Bahia, o sul do Piauí e do Maranhão, o sudeste do Tocantins, o nordeste de Goiás, além do Distrito Federal. Por ser predominantemente campestre e plana, tornou-se hábitat de diversas espécies da fauna caçadas por sociedades indígenas historicamente associadas à região, a exemplo dos Xakriabá, tradicional povo Jê dos Gerais. Há também uma grande diversidade de espécies arbóreas, arbustivas e gramíneas nos Gerais. Com as invasões luso-brasileiras setecentistas, foi introduzida a pecuária. Nos últimos anos, a grande ameaça aos Gerais e às populações tradicionais que neles vivem está representada pela expansão de commodities da agroindústria monocultural de soja e eucalipto, bem como da mineração.
Contudo, os Gerais não constituem apenas uma categoria fisiográfica. Como procuramos demonstrar, essa denominação também permanece viva entre coletividades que associam seus modos de vida, práticas produtivas, memórias coletivas e formas de pertencimento a essa paisagem do Cerrado.
Em áreas de transição para a Caatinga, a importância dos Gerais se expressa na própria autoidentificação de algumas dessas comunidades, como geraizeiras, associando-as fortemente à paisagem, desde o nome, como povo desse lugar. Essa vinculação predispõe à defesa dos Gerais contra os processos que os ameaçam de degradação.
O presente exercício, ao articular elementos de cartografia histórica, literatura e geografia, visou contribuir para uma consideração abrangente e consistente do topônimo Gerais. Sua permanência ao longo de mais de dois séculos evidencia a capacidade dessa denominação de condensar e transmitir experiências históricas, paisagens e territorialidades socialmente construídas. Tão importante quanto reconhecer a profundidade histórica de seu uso, é tomar os Gerais como uma categoria com valor heurístico presente. Afinal, para alguns povos e comunidades tradicionais, Gerais é uma categoria presente e operativa, não uma reminiscência do passado. É uma das paisagens de Cerrado reconhecidas e defendidas, como parte de seus territórios.
Corroborando posicionamentos expressos por comunidades indígenas, como os Xakriabá, e tradicionais geraizeiras, veredeiras, vazanteiras, de fundo e fecho de pasto e outras, este estudo buscou demonstrar que os Gerais possuem história, natureza e territorialidades próprias. Destarte, a defesa dos Gerais representa, simultaneamente, a proteção de ecossistemas singulares, a valorização de conhecimentos tradicionais e a preservação da diversidade sociocultural produzida ao longo da ocupação humana dessa porção do Cerrado.
Diante do exposto, os Gerais configuram uma formação socioespacial do Cerrado na qual se articulam dimensões geográficas, históricas, territoriais e identitárias, cuja permanência expressa a continuidade das relações entre sociedade e natureza construídas ao longo do tempo. A persistência histórica dos Gerais e sua contínua atualização pelas territorialidades contemporâneas revelam a sobreposição de múltiplas temporalidades em uma mesma paisagem. É justamente nessa articulação entre paisagem, história e territorialidade que reside a cronotopia dos Gerais, conferindo permanência histórica e significado social a essa toponímia.
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1
Cronotopo: articulação entre temporalidade e espacialidade (Bakhtin 1981).
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2
Curt Nimuendajú (1883 - 1945), etnólogo autor do Mapa etno-histórico do Brasil (1943).
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3
Čestmír Loukotka (1895 - 1966), linguista e antropólogo, desenvolveu estudos de classificação das línguas indígenas sul-americanas.
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4
No período colonial, a capitania da Bahia não fazia divisa com Goiás. A comarca de São Francisco passou de Pernambuco para Minas Gerais (1824) e para a Bahia (1827).
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5
Fac-símile em Silva e Vieira Júnior (2018, 57) — https://bit.ly/3S2wBcp
-
6
Fac-símile em Silva e Vieira Júnior (2018, 226) qhttps://bit.ly/4vKiFC4
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7
Fac-símile na Biblioteca Nacional — https://bit.ly/4vNrtHp
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8
Acompanhamos Ribeiro e Walter (1998, 100-101): Cerrado (maiúscula) para o bioma; cerrado (minúscula) para suas fitofisionomias savânicas e campestres.
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9
Projeto federal de levantamento de dados físicos e ambientais do território brasileiro.
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10
A distribuição histórica dos povos Jê coincide amplamente com o bioma Cerrado (Schwerin 1974).
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11
O cerrado stricto sensu possui estratos de árvores baixas, tortuosas e esparsadas por arbustos e ervas; o cerradão corresponde à formação florestal do cerrado, com árvores de até 15 metros (Ribeiro e Walter 1998).
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12
Fitofisionomia associada a solos hidromórficos, comum em vales, nascentes e margens de drenagem (Ribeiro e Walter 1998).
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13
Referimo-nos aqui apenas a esses dois estados, embora práticas semelhantes ocorram em outros estados dos Gerais.
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Declaração sobre a disponibilidade das informações
As fontes bibliográficas e os documentos utilizados na elaboração deste artigo encontram-se relacionados na lista de referências. Os dados que fundamentam este estudo derivam da dissertação de mestrado do primeiro autor, intitulada O Gê dos Gerais - Elementos de cartografia para a etno-história do Planalto Central: contribuição à antropogeografia do Cerrado, disponível no Repositório Institucional da Universidade de Brasília (UnB).
Editado por
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Editor Chefe
Carlos Sautchuk (https://orcid.org/0000-0002-2427-2153)
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Editores Associados
Rosana Castro (https://orcid.org/0000-0002-1069-4785)Sara Morais (https://orcid.org/0000-0003-1490-1232)Jose Arenas Gómez (https://orcid.org/0000-0002-2159-0527)Alberto Fidalgo Castro (https://orcid.org/0000-0002-0538-5582)Elisabeth Defreyne (https://orcid.org/0009-0009-2559-0047)
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Aprovado para publicação por Sara Santos Morais (https://orcid.org/0000-0003-1490-1232)
As fontes bibliográficas e os documentos utilizados na elaboração deste artigo encontram-se relacionados na lista de referências. Os dados que fundamentam este estudo derivam da dissertação de mestrado do primeiro autor, intitulada O Gê dos Gerais - Elementos de cartografia para a etno-história do Planalto Central: contribuição à antropogeografia do Cerrado, disponível no Repositório Institucional da Universidade de Brasília (UnB).
















