Open-access Mães que perpetram violência/negligência: uma leitura psicanalítica a partir do Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema

Mothers who perpetrate violence/neglect: a psychoanalytic reading based on the Thematic Drawing and Story Procedure

Resumo:

Esse estudo buscou compreender como mães que perpetram violência/negligência contra suas filhas adolescentes vivenciam a maternidade. Trata-se de uma pesquisa clínico-qualitativa fundamentada no referencial winnicottiano. As entrevistas com as sete mães foram mediadas pelo Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema. A maternidade estava sendo exercida com uma importante restrição da capacidade transicional, sendo esse um obstáculo para a oferta de um cuidado alinhado às necessidades emocionais das filhas. As manifestações de violência e negligência indicaram a impossibilidade dessas mulheres fazerem uso da transicionalidade para se relacionar com as filhas e para recriar o vínculo na fase da adolescência.

Palavras-chave:
maternidade; violência na família; famílias de baixa renda; Winnicott

Abstract:

This study sought to understand how mothers who perpetrate violence or neglect against their adolescent daughters experience motherhood. It is a clinical-qualitative study grounded in the Winnicottian framework. Interviews with the seven mothers were conducted using the Themed Drawing-Story Procedure. Motherhood was being exercised with a significant restriction on transitional capacity, which served as an obstacle to providing care aligned with the daughters’ emotional needs. The manifestations of violence and neglect indicated the inability of these women to utilize transitionality to relate to their daughters and to reestablish the bond during the adolescent phase.

Keywords:
family violence; low income families; Winnicott

Introdução

Embora as práticas de cuidado com os filhos variem historicamente e entre culturas, a responsabilidade por essa função tem recaído de forma consistente sobre as mulheres, independentemente da classe socioeconômica (Borges, 2020; Bossardi; Vieira, 2015). Como esse papel continua sendo atribuído quase exclusivamente a elas, são também as mulheres as que mais cometem atos de agressão e negligência contra os filhos (Baluta; Moreira, 2019).

A violência doméstica contra crianças e adolescentes (VDCA) é considerada um problema social e de saúde pública, que ocorre no espaço privado da família quando o adulto responsável pelos cuidados abusa de seu poder de autoridade para infligir danos físicos e/ou emocionais e/ou para negar/negligenciar as necessidades e direitos daqueles que estão sob sua tutela (Pinto Júnior et al., 2012). A violência inclui atitudes de ação ou omissão, conforme definições do Ministério dos Direitos Humanos (2018):

  1. ) A violência física ocorre quando alguém, em vantagem de poder, gera (ou tenta gerar) danos não acidentais a outra pessoa, através do uso de força física ou pelo uso de armas, provocando ou não lesões externas e/ou internas;

  2. ) A violência psicológica se refere a toda ação ou omissão que causa (ou tenta causar) danos à autoestima, identidade e ao desenvolvimento da vítima;

  3. ) A violência sexual remete a toda relação sexual em que a pessoa é obrigada a se submeter, contra a sua vontade, por meio de força física, coerção, sedução, ameaça ou influência psicológica;

  4. ) A negligência, enquanto violência por omissão, abarca o abandono, o não provimento das necessidades físicas e emocionais, falhas nos cuidados básicos e de atenção/proteção adequados.

Apesar dessas diferenciações, os quatro tipos de violência aparecem atrelados. A VDCA consiste em problemática complexa, que engloba fatores socioeconômicos, culturais e psicológicos, e está presente em todas as classes socioeconômicas (Ministério dos Direitos Humanos, 2018). Vale destacar que não necessariamente existe intencionalidade na negligência, visto que os recursos necessários para o cuidado integral não são igualmente acessíveis a todas as camadas da população. Nesse sentido, a situação de pobreza é um fator de risco para a negligência, mas não sua causa única (Berberian, 2015; Mata; Silveira; Deslandes, 2017; Pasian et al., 2013).

A vertente winnicottiana afirma que os cuidados oferecidos por um ambiente facilitador, representado inicialmente por uma figura de cuidado, permitem que o indivíduo que nasce em condição de desamparo desenvolva seu potencial inato para o crescimento, o que só será possível a partir da construção do sentimento de confiança em um meio que se apresenta como previsível e capaz de se sintonizar com as necessidades daquele que dele depende. O desenvolvimento emocional saudável reside no alcance de um Self unitário e integrado que está ancorado no viver criativo, isto é, em uma união emocional com a realidade que conduz ao sentimento de que a existência é dotada de um sentido pessoal e que o mundo é um lugar agradável para se viver.

Os distúrbios emocionais têm origem em fracassos em uma ou outra etapa do amadurecimento emocional, no que concerne às conquistas emocionais que elas deveriam promover. Essas falhas de adaptação às necessidades do indivíduo geram a interrupção do crescimento, ocasionando distorções da realidade e reações defensivas desprovidas de valor pessoal (Winnicott, 1971/2019). Nessa direção, pode-se afirmar que a VDCA dificulta o amadurecimento emocional, na medida em que se configura como uma falha ambiental que faz com que o meio não seja vivido como seguro pelo indivíduo (Winnicott, 1965/2022).

As pesquisas convergem em mencionar que as vítimas de violência estão mais suscetíveis à repetição do ciclo de violência em suas famílias constituídas futuramente (Falcke, 2019; Oliveira; Rodrigues; Carvalho, 2018; Rebouças, 2019; Reis; Prata; Parra, 2018). Por essa razão, a transgeracionalidade costuma ser o pilar central das reflexões sobre violência intrafamiliar (Neves; Gomes; Vidal, 2014). Investigando as histórias de vida de mulheres que perpetram violência contra os filhos, identificaram-se rupturas precoces de vínculos, problemas de alcoolismo nos membros da família, contextos marcados pela precariedade material e por relações violentas. Como essas mulheres não puderam contar com um ambiente que fosse facilitador às suas necessidades emocionais na infância e adolescência, a confiança no meio não pôde ser desenvolvida. Consequentemente, o processo de integração de suas personalidades ficou prejudicado, impactando negativamente a qualidade de suas vinculações na vida adulta (Bittar; Nakano, 2011; Bittar et al., 2012; Setubal et al., 2019; Silva; Tardivo, 2019; Xavier; Zanello, 2018).

Além dos aspectos transgeracionais e subjetivos, Aching e Granato (2016) e Tachibana (2011) destacaram a relevância do entorno mais amplo, nomeado pelas autoras de setting social, para que as mulheres consigam se envolver com a maternidade, e pontuaram como a ausência de sustentação do ambiente que as rodeia também pode impactar negativamente essa vivência. Quando o vínculo materno-filial é considerado sob essa ótica, pode-se compreender atitudes violentas e negligentes como indício de falta de provisão ambiental (Tachibana, 2011). Ressalta-se que tais aspectos do entorno social não serão abordados nesse manuscrito, uma vez que se priorizou a análise das conflitivas emocionais das participantes.

O estudo da perspectiva de mães que perpetram a violência/negligência sobre suas maternidades na fase da adolescência das filhas favorece uma compreensão aprofundada dos aspectos emocionais que estão por trás de atos de violência e da omissão da negligência maternas. Além da referida ampliação do conhecimento científico, o material aqui descrito pode contribuir para a formação crítica dos profissionais e para o aprimoramento das intervenções, as quais devem estar comprometidas com a prevenção e a superação da violência/negligência.

Objetivo

Compreender como mães que perpetram violência/negligência contra suas filhas adolescentes experienciam a maternidade nessa fase do desenvolvimento das jovens.

Método

Trata-se de estudo descritivo, exploratório e transversal, que empregou o enfoque clínico-qualitativo e norteou-se pelo referencial teórico da psicanálise winnicottiana.

Participaram sete mães pertencentes às camadas populares¹ que tinham filhas adolescentes com idade entre 12 e 17 anos e que perpetravam violência física, psicológica e/ou negligência contra as jovens. Elas foram selecionadas em um Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) de uma cidade de grande porte do interior do estado de São Paulo. O nível socioeconômico terminou por ser relativamente homogeneizado em razão de o CREAS atender prioritariamente famílias economicamente desfavorecidas.

Para preservar a identidade das participantes, os nomes escolhidos são fictícios. A Tabela 1 descreve nomes, idades, dados das filhas, cor da pele², tipo de violência materna, escolaridade, configuração familiar e ocupação.

Tabela 1
- Caracterização das mães segundo idade, dados das filhas, cor da pele, configuração familiar, tipo de violência materna, escolaridade e ocupaçãoFonte: dados compilados pelas autoras.

Para mediação dos encontros com cada mãe, empregou-se o Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema (Aiello-Vaisberg, 1990), que é uma variação do Procedimento de Desenhos-Estórias de Walter Trinca (1972), ambos fundamentados nos princípios do Jogo do Rabisco, de Winnicott (1971/1984). O D-E com Tema foi idealizado para o estudo de imaginários coletivos e determinada uma temática para as produções (Aiello-Vaisberg; Ambrosio, 2013). Nessa pesquisa, as mães foram instruídas a elaborar um único desenho (cromático ou não) a partir da orientação “desenhe uma mãe com sua filha”, seguida de uma história e um título. Ao final da atividade, a pesquisadora pôde fazer o inquérito, isto é, perguntas de esclarecimento da produção. O conjunto da produção (desenho, história, título e inquérito) compõe a Unidade de Produção (UP), que não serão apresentadas nos resultados, devido à limitação do espaço. Os materiais utilizados na aplicação foram folhas de papel em branco, sem pauta e tamanho ofício; lápis preto (n° 2); e caixa de lápis de cor com doze cores.

As entrevistas foram realizadas individualmente com cada mãe, em um único encontro, em situação face a face, em sala reservada do CREAS. A síntese do conjunto das produções das mães será descrita nesse manuscrito no intuito de criar um panorama geral do agrupamento. Os resultados apresentados correspondem a um pequeno recorte de uma tese de doutorado, delimitado em razão das restrições de espaço.

O estudo foi submetido e aprovado (CAAE n° 55890222.2.0000.5407) pelo Comitê de Ética em Pesquisa e seguiu as diretrizes da Resolução nº 510/16 sobre “Pesquisa Envolvendo Seres Humanos” (Brasil, 2016).

Resultados

Síntese do D-E com Tema de cada participante

Ana desenhou apenas a filha no papel e contou a seguinte história: “Era uma menininha que dava tchau para a mãe todo dia, levava a mãe no portão, dava beijos, abraços, ficava ansiosa para a mãe voltar. Quando a mãe chegava, dava mais beijos, mais abraços, a mãe contava como tinha sido o seu dia e ela ficava muito feliz quando via a mãe”. Questionada sobre o motivo pelo qual tinha desenhado apenas a jovem, a genitora referiu não ter entendido a pergunta, como se as duas tivessem sido retratadas. De modo geral, Ana explicitou sua dificuldade de se perceber diferenciada da filha e de conceber criativamente a consolidação de uma identidade autônoma pela adolescente, o qual pareceu suscitar nela um sentimento insuportável de vazio e abandono.

Berenice, por sua vez, excluiu a filha adolescente de sua produção, desenhando apenas ela e a caçula. A história narrada por ela destacou seus parcos recursos para exercer a maternidade: “A vida não é fácil, ter que criar duas filhas sozinha, é difícil, a gente passa por muita dificuldade. Os filhos pedem as coisas e a gente não tem dinheiro, é complicado”. Quando foi questionada sobre quem eram as personagens que havia desenhado, Berenice ficou constrangida ao perceber que não tinha incluído a filha adolescente. Justificou-se dizendo que a jovem não era carinhosa como a caçula e queixou-se dos embates iniciados pela primogênita. Destacou em seu relato que, em momentos de maior fragilidade emocional, recebia consolo da filha mais nova. Assim, Berenice pareceu buscar nas filhas uma continência emocional e, portanto, os confrontos promovidos pela adolescente exacerbavam seu sentimento de rejeição e desamparo, dos quais ela se defendia excluindo a adolescente.

A produção de Clarice revelou seu desejo de que a filha permanecesse sendo seu “eterno bebê”, tendo em vista que o amadurecimento sexual da jovem implicava, do seu ponto de vista, uma disputa ferrenha entre duas mulheres atraentes e sedutoras, com ela levando desvantagem. Clarice percebia a filha como uma “versão melhorada” de si mesma, por ser mais delicada e mais jovem, e, portanto, uma ameaça para os seus relacionamentos amorosos. Ademais, ela demonstrou ter dificuldade de conciliar o vínculo com seus parceiros e a função materna, tornando-se totalmente dependente dos primeiros e negligente com as necessidades da filha. Nesse cenário, pareceu existir uma busca por se tornar um objeto de atração sexual para o outro que, no fundo, encobria uma necessidade de dependência não atendida. Na falta de companheiros, Clarice fundia-se à filha.

Edite, por seu turno, se sentia pouco confiante com seus recursos pessoais e mantinha uma relação simbiótica com a filha para conseguir ter alguma existência pessoal. Após desenhar ela e a filha, sem que fosse possível diferenciá-las, Edite relatou: “Aqui somos nós duas passeando na praça como sempre, nós somos muito grudadas. Nós duas estamos sempre de braços dados, parece que tem um ímã na gente, quando vemos, estamos cada vez mais perto, coladas, a gente nem percebe”. Na sequência, ela compartilhou seu sentimento de solidão por não ter apoio do marido na criação dos filhos (além de ser vítima de violência doméstica), principalmente na fase da adolescência, e pontuou que, no cotidiano, a filha dava mais suporte a ela do que o contrário.

Flora e Gina, diferentemente das outras, demostraram mais explicitamente seus entraves para se envolver com a maternidade. Flora pareceu ter se refugiado no nomadismo característico da profissão de caminhoneira como forma de se manter distante da função materna; sempre que tentou permanecer envolvida com as responsabilidades domésticas, entrou em depressão. No desenho em que se retratou junto da filha, Flora intitulou a obra de “um pedaço de mãe”, nomeação que pode sugerir tanto a percepção de que a filha é uma extensão dela como a sensação de não conseguir ser “uma mãe inteira” para a jovem. O relato que acompanhou a imagem revelou um impasse: embora desejasse uma ligação próxima com a adolescente, para protegê-la e para sentir que era uma boa mãe, Flora não conseguia suportar esse excesso de proximidade.

Gina, por sua vez, demonstrou ser uma mulher endurecida e desconfiada, com dificuldade de se disponibilizar para o vínculo com a filha. Ela não conseguiu discorrer diretamente sobre a adolescente, expressando impaciência. Verbalizou a intenção de abandonar completamente a jovem em uma instituição de acolhimento e proferiu diversas queixas sobre os comportamentos da garota, os quais a faziam sentir que seus recursos eram escassos e insuficientes para contornar os desafios. Gina também se mostrou resistente à ideia de que a filha pudesse necessitar de um contato afetivo com ela, acrescentando que não tinha tempo para essas “bobagens”.

Daiane reconheceu suas falhas pregressas na maternidade, manifestando sua intenção de recomeçar depois de ter sido a única sobrevivente em um grave acidente automobilístico. Sobre a filha, ela verbalizou, de um jeito afetuoso: “Ela é muito tímida, mas gosta muito de cantar, aí eu falei pra ela que, hoje, ela vai se inscrever pra cantar lá na igreja, falei pra ela esquecer tudo, fechar os olhos e cantar, porque ela fica tentando cantar igual outras pessoas, imitar a voz. Aí eu falei pra ela que cada um tem uma voz, que ela não precisa cantar igual a ninguém, mas cantar com a voz dela, do jeito dela”.

Discussão

As narrativas das mães evidenciaram a presença de adversidades, rompimentos e violências em suas famílias de origem, em conformidade com os resultados de outras pesquisas (Bittar; Nakano, 2011; Bittar et al., 2012; Setubal et al., 2019; Xavier; Zanello, 2018). Nessa direção, pode-se afirmar que elas vieram de ambientes pouco atentos e responsivos às suas necessidades singulares (Winnicott, 1965/2022), de modo que os seus desenvolvimentos emocionais parecem ter ficado estacionados em uma etapa precoce. De acordo com Winnicott (1971/2024), os estágios iniciais do desenvolvimento emocional nunca serão totalmente abandonados. Analisando uma pessoa de qualquer idade, pode-se identificar diferentes necessidades que não foram amadurecidas e integradas na subjetividade a partir da facilitação de um ambiente vivido como confiável.

Na etapa nomeada por Winnicott (1965/2022) de dependência absoluta, o bebê e a primeira figura de cuidado formam uma unidade indiferenciada do ponto de vista do primeiro. Quando o cuidador consegue se adaptar quase totalmente às demandas do bebê, ao lactente é possibilitado vivenciar a ilusão de onipotência, a qual pode ser definida como uma espécie de sensação de que os objetos externos que chegam até ele para satisfazê-lo são produtos de sua criatividade originária. Esta provém da vitalidade das funções corporais da criança, que adquirirá sentido através do encontro entre as necessidades fisiológicas e o objeto oferecido pelo cuidador para satisfazê-las, fazendo coincidir o “criado” e o “encontrado”. A repetição dessa experiência dará origem à conquista do primeiro sentido subjetivo de realidade, que sustentará, posteriormente, o sentimento de ser capaz de criar o mundo e de dotá-lo de um sentido pessoal (Winnicott, 1965/2022).

No estágio seguinte, de dependência relativa, o cuidador, inevitavelmente, dará início a falhas adaptativas graduais na lida com o bebê, não respondendo mais de forma tão imediata às demandas dele. Esse processo de desilusão estimulará o funcionamento mental da criança, capacitando-a a reconhecer outros sinais do ambiente e de seu corpo, os quais a auxiliarão a suportar a os momentos de espera pelo cuidador. A repetição dessa experiência de ausência possibilitará à criança vivenciar o primeiro contato com a realidade externa, caracterizada pela existência de um “não-eu” que difere do “eu” (Winnicott, 1965/2022). A transicionalidade será inaugurada nessa passagem da dependência absoluta para a relativa, viabilizando a criação de uma terceira área da experiência, espaço seguro de união e separação entre os mundos interno e externo. Quando o alcance dessa capacidade for bem-sucedido, estará consolidado o sentimento de confiança do lactente no ambiente. Por conseguinte, a realidade compartilhada poderá ser aceita sem que precise haver uma renúncia completa dos impulsos criativos pessoais (Winnicott, 1971/2019).

Quando as etapas mencionadas anteriormente são atravessadas sem a interferência de falhas ambientais significativas, então a capacidade para estabelecer relacionamentos interpessoais e a capacidade para ficar sozinho se tornarão conquistas do desenvolvimento (Winnicott, 1965/2022). A capacidade de ficar só está interligada à maturidade emocional e nasce da experiência precoce de estar sozinho na presença de alguém que compense, com o seu ego maduro, a imaturidade primordial, até que essa vivência possa ser internalizada. Contudo, quando o indivíduo foi exposto a uma desilusão precoce em seu desenvolvimento, por falhas ambientais ocorridas na etapa da dependência relativa, o contato com a realidade externa será precariamente estabelecido e as trocas entre o mundo interno e o externo ficarão cindidas. Nesse sentido, a relação com o meio se baseará na submissão e o desenvolvimento emocional apresentará distorções (Winnicott, 1971/2024).

Algumas mães (Ana, Berenice, Clarice e Edite) pareceram buscar, ainda que de modo inconsciente, uma compensação para as lacunas emocionais deixadas pelos ambientes primários falhos na relação com as filhas. Mostrando-se necessitadas de receberem o holding (sustentação) das jovens, estariam buscando reviver a ilusão de onipotência que não pôde ser totalmente integrada subjetivamente, invertendo a lógica geracional do cuidado (Goldner et al., 2021). Flora e Gina, por outro lado, demostraram uma indisponibilidade e um distanciamento das filhas, com narrativas que sugeriram que o exercício da maternidade era exigente aos seus recursos criativos precarizados. No caso de Flora, ela pareceu sentir que as demandas da maternidade a faziam se sentir aprisionada. Gina, por seu turno, tinha dificuldade de se abrir para o vínculo com a filha e os comportamentos desafiadores da adolescente pareceram remetê-la ao ambiente hostil e violento de suas origens, levando-a a se retrair defensivamente. Daiane, por outro lado, compartilhou uma experiência diferente com a maternidade em comparação com as outras mães. Depois de ter vivido uma transformação pessoal profunda, ela pareceu ter conseguido resgatar sua capacidade de sonhar um cuidado suficientemente bom a ser oferecido à filha. No entanto, ela esbarrava em suas limitações criativas no momento de transpor suas aspirações para a realidade, o que sugere que o desejo consciente nem sempre é suficiente para concretizar as mudanças almejadas no cuidado a ser oferecido.

Em síntese, nenhuma das participantes pareceu alcançar, de forma suficientemente integrada, o reconhecimento das filhas como pessoas singulares. Em vez de uma vinculação criativa, sustentada pela possibilidade do encontro com a diferença e com o gesto espontâneo das jovens, identificou-se, em algumas mães (Ana, Clarice e Edite), uma tendência à infantilização das filhas, como tentativa de mantê-las indiferenciadas. Em outras (Berenice, Daiane, Flora e Gina), pareceu predominar um movimento de afastamento emocional, instaurando-se uma espécie de abismo relacional entre mãe e filha, possivelmente como defesa frente ao estranhamento suscitado por aquilo que, na filha, emergia como expressão de uma subjetividade pessoal. Nessas configurações, o vínculo materno-filial mostrou-se empobrecido em sua dimensão criativa, sobressaindo-se, nas narrativas das mães, as angústias relativas à separação, à rejeição, à diferença, à impotência e ao desamparo.

As fragilidades pré-existentes no relacionamento entre mães e filhas pareceram se intensificar na adolescência das jovens, confirmando que esse momento de transição também mobiliza os pais (Alves, 2023; França, 2019; Pinho, 2020; Winnicott, 1986/2021). Na adolescência, a díade é impulsionada a transformar a natureza do vínculo e a reinventar suas formas de interação, de modo que o contato corporal que predominava na infância precisa ceder espaço para uma relação de intimidade em que as raízes compartilhadas passam a ser localizadas na área transicional da experiência (Alves, 2023; França, 2019; Zanetti; Cianca, 2017). A probabilidade de um desfecho bem-sucedido para a travessia adolescente relaciona-se com o grau de amadurecimento que os adultos conseguiram alcançar, em termos de integração da personalidade, pois a transição exigirá deles maleabilidade para acolher as transformações e as necessidades paradoxais do adolescente - ora rebelar-se para provar a própria autonomia, ora regredir à dependência (Klein, 2014; Serralha, 2017; Winnicott, 1986/2021). Quando as diferenças geracionais podem ser sustentadas pelos adultos (de um lado, a adulta madura, e, do outro, a jovem imatura), a resolução lúdica tende a prevalecer no vínculo (Klein, 2014), o que não foi observado nas narrativas das mães.

Na dinâmica de interação descrita anteriormente, assentada em falhas na transicionalidade, as passagens ao ato⁴ encontravam terreno fértil para se manifestar, resultando em violências de natureza psicológica (Ana, Berenice, Clarice, Flora e Gina) e física (Ana, Clarice, Flora e Gina), as quais podem ser compreendidas como invasões que desconsideram as fronteiras subjetivas. Na negligência (Berenice, Daiane e Edite), pareceu prevalecer a falta de vitalidade e o desinvestimento emocional das mães, exacerbados pelo contexto de pobreza material em que viviam. Embora sejam reconhecidas suas diferenças, tanto a violência como a negligência podem ser nomeadas como intrusões ambientais⁵ prejudiciais ao amadurecimento das adolescentes, as quais revelaram a precariedade da capacidade criativa das mães para exercer o cuidado, para reconhecer as filhas em suas singularidades e para conseguir recriar o vínculo com as jovens na etapa da adolescência.

Considerações finais

A análise das narrativas sinalizou que as participantes foram expostas a falhas ambientais que prejudicaram seus processos de desenvolvimento emocional, o que impossibilitou a aquisição da confiança no meio externo e na própria capacidade de se relacionar com o mundo a partir de um sentido pessoal e criativo. Nesse sentido, a maternidade estava sendo exercida com uma importante restrição da capacidade transicional, sendo esse um obstáculo para a oferta de um cuidado alinhado às necessidades emocionais das filhas.

A entrada das filhas na adolescência, com seus movimentos emancipatórios e desafiadores, era exigente aos recursos criativos precarizados das genitoras e ao já enfraquecido vínculo materno-filial. Nessa dinâmica, as manifestações de violência e negligência indicaram a impossibilidade dessas mulheres fazerem uso da transicionalidade para se relacionar com as filhas, para reconhecê-las como pessoas singulares e para recriar o vínculo na fase da adolescência. Nos casos de negligência, o contexto de precariedade material também influenciava a qualidade do cuidado.

A atenção às necessidades emocionais de mães que perpetram violência/negligência, bem como a compreensão do impacto das características do setting social em que estão inseridas no cuidado exercido, pode favorecer a construção de espaços de escuta e acolhimento direcionado a elas. Isso porque elas costumam ser relegadas a uma posição estigmatizada quando são fixadas como agressoras, visão que apaga suas humanidades e dificulta a elaboração de intervenções voltadas a elas. Estas devem se comprometer com a superação da violência/negligência, facilitar o acesso e a transformação das experiências emocionais e considerar essas mães como sujeitos ativos e implicados no processo, com potencial para continuarem se desenvolvendo.

O uso do procedimento projetivo como recurso mediador, aliado à escuta e à postura clínicas, mostrou-se eficaz no acesso a conteúdos psíquicos que dificilmente emergiriam apenas por meio da comunicação verbal. Por fim, ressalta-se a importância de que novas investigações sejam conduzidas sobre essa temática, abrangendo participantes de outros segmentos socioeconômicos.

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1

O termo “camadas populares” tem sido empregado para descrever a população de baixa renda das áreas urbanas (Romanelli, 1997).

2

A inclusão deste dado foi considerada relevante porque a literatura científica (Macedo, 2008) aponta que os recortes de gênero, raça e classe socioeconômica desempenham um papel crucial na maternidade.

3

A família recomposta ou reconstituída é formada por um novo casamento ou união, após uma separação, quando um ou ambos os parceiros têm filhos de relacionamentos anteriores. A família monoparental é constituída pela presença de apenas um dos genitores e os filhos. A família nuclear é o modelo tradicional, composta por pais e filhos frutos da união (Simões; Hashimoto, 2012).

4

A passagem ao ato surge como uma saída para um excesso não simbolizado relacionado à vivência de desamparo e como uma busca desesperada de afirmação de um “eu” desintegrado (Zappe; Dias, 2012).

5

Falhas adaptativas que provocam a quebra do sentimento de continuidade existencial, ameaçando o indivíduo e obrigando-o a reagir defensivamente (Winnicott, 1965/2022).

Disponibilização de dados:

Os dados e demais informações obtidas para o presente estudo poderão ser disponibilizados mediante solicitação.

Editora responsável:

Tatiane de Andrade

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    13 Maio 2025
  • Aceito
    15 Jun 2026
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