RESUMO
Este artigo investiga a interseção entre inteligência artificial, capitalismo linguístico e poesia, analisando como os regimes simbólicos se transformam com novas tecnologias. Com base em Jean Baudrillard e Bernard Stiegler, discutiremos a influência da IA e do Machine learning na produção e circulação da linguagem, resultando em um “empobrecimento semiótico” e na restrição da diversidade discursiva por sistemas algorítmicos. Examinaremos, ainda, um poema de Charles Bernstein gerado por IA que imita seu estilo, refletindo sobre os impactos da automação na escrita. Como resposta, propõe-se a “escrita tentacular”, inspirada na simpoiesis de Donna Haraway, como forma de resistência poética e criação coletiva não hierárquica. Assim, o artigo problematiza a relação entre tecnologia, linguagem e poder, sugerindo alternativas criativas e políticas para a escrita em tempos de automação e vigilância digital.
PALAVRAS-CHAVE:
Inteligência artificial; Capitalismo linguístico; Poesia; Simpoiesis; Escrita tentacular
ABSTRACT
This article investigates the intersection of artificial intelligence, linguistic capitalism, and poetry, analyzing how symbolic regimes are transformed by new technologies. Drawing on Jean Baudrillard and Bernard Stiegler, we will discuss the influence of AI and Machine Learning on language production and circulation, leading to a “semiotic impoverishment” and the restriction of discursive diversity by algorithmic systems. We will also examine a poem by Charles Bernstein generated by AI that imitates his style, reflecting on the impacts of automation on writing. As a response, “tentacular writing” is proposed, inspired by Donna Haraway’s concept of sympoiesis, as a form of poetic resistance and non-hierarchical collective creation. Thus, the article problematizes the relationship between technology, language, and power, suggesting creative and political alternatives for writing in times of automation and digital surveillance.
KEYWORDS:
Artificial Intelligence; Linguistic Capitalism; Poetry; Sympoiesis; Tentacular Writing
Introdução
No fim dos anos de 1970, período que marcaria a história com o nascimento do “Neoliberalismo” e a aceleração da disseminação da informação digital pela então seminal rede de infranet1, o filósofo francês Jean Baudrillard realizou, com seu livro A troca simbólica e a morte (1996), um curioso levantamento sobre o estado das economias monetárias e simbólicas da época. Para o autor, a cada tipo de metamorfose dos regimes socioeconômicos desde a Renascença, pertenceria um regime de linguagem diferente, com o qual cada época, a partir de suas tecnologias, valores em vigor e lógicas de funcionamento, estabeleceria um diagrama de contato, moldando-o e deixando-se por ele moldar. O autor resume tais períodos históricos sob o nome de “As três ordens de simulacro”:
Três ordens de simulacros, paralelamente às mutações da lei do valor, se sucederam a partir da Renascença:
- A contrafação é o esquema dominante da época “clássica”, da Renascença à revolução industrial;
- A produção é o esquema dominante da era industrial;
- A simulação é o esquema dominante da fase atual, regida pelo código (Baudrillard, 1996, p. 63).
Baudrillard, em seguida, esmiúça os regimes de linguagem conectados às ordens dos simulacros. No primeiro caso “um interdito protege os signos e lhes assegura uma clareza total: cada qual remete sem equívoco a um estatuto” (Baudrillard, 1996, p. 65). Os signos, portanto, estariam ainda conectados de maneira direta e transparente àquilo que representariam. No segundo caso, os signos serão “(...) de imediato produzidos numa escala gigantesca. O problema de sua singularidade e de sua origem já não é apresentado: a técnica é sua origem, ele só tem sentido na dimensão do simulacro industrial” (Baudrillard, 1996, p. 71). Aqui, os signos já não possuiriam uma ligação natural com aquilo que representam. É a era do arbítrio e das equivalências gerais, a era da desconstrução, sem um poder central de referência. E no terceiro, por fim, “depois da metafísica do ser e das aparências, depois da metafísica da energia e da determinação, (resta) a do indeterminismo e do código” (Baudrillard, 1996, p. 75).
Os signos, aqui, encontram-se “no limite de uma exterminação sempre mais ampla das referências e finalidades, de uma perda das semelhanças e designações, (...) [é] o signo digital e pragmático, (...) cuja estrutura é a do código micromolecular de comando e controle” (Baudrillard, 1996, p. 75). Aqui, o real já não existe mais como referência, e o código se tornou aleatório e indeterminado; a simulação antecede a realidade e o poder simbólico do signo explodiu.
O diagnóstico do filósofo dos “fenômenos extremos” estaria em assonância com o de Bernard Stiegler, que, mesmo pertencendo a um outro período, possuía uma leitura igualmente afinada com as relações simbólicas que se estabeleciam entre tecnologia, poder e sociedade. Se Baudrillard já antecipava as estruturas de simulação e controle2 referentes às configurações simbólicas, Stiegler atualizaria esta visão contextualizando-a diante de dispositivos tecnológicos contemporâneos, marcadamente o uso em massa da internet e alguns de seus desdobramentos, como a IA, o Machine learning e o Big Data3. Assim, se por um lado Baudrillard constatava algumas das principais características dos signos na era dos simulacros - destacando sua dependência do mercado econômico e de sistemas de controle -, Stiegler seria capaz de aprofundar tais diagnósticos, na medida em que os produtos técnico-comunicacionais de sua época lhe permitiam.
Para Stiegler, o problema nas sociedades “regidas pelo código” não estaria tanto no caráter de simulacro dos signos, mas em como esses estariam cada vez mais envolvidos em uma economia simbólica de destruição da atenção (Stiegler, 2020), com o fim de facilitar a imposição de sistemas de controle característicos das sociedades cibernéticas. A associação entre sistemas de signos com redes massivas de armazenamento e processamento de dados (como o Big Data e o Machine learning), portanto, produziria, para o autor, aquilo que ele chama de “capitalismo linguístico”, um tipo de sistema em que as palavras se tornariam apenas valores a serem estatisticamente rastreados por algoritmos empresariais, como aqueles usados pela Google, por exemplo. Em última instância, isso geraria um “empobrecimento semiótico”: “Ao fazê-lo, o capitalismo linguístico afeta uniformemente as condições elementares da semiose, empobrecendo drasticamente as habilidades e competências dos falantes - e, por sua vez, empobrecendo aquilo que poderíamos chamar de semiodiversidade dialógica que condiciona a semiose” (Stiegler, 2020, p. 323; tradução minha)4. Tal empobrecimento, por sua vez, deixaria uma abertura que, segundo o autor, seria explorada pelo mercado:
O problema, hoje, no período daquilo que chamamos de disrupção, é que parece impossível reconstituir qualquer saber, e que as formas de comportamento passam a ser produzidas não por sistemas sociais, culturas e saberes, mas por um marketing que explora os Big Data e as retenções terciárias digitais na medida em que estas são calculáveis, computáveis e, como tais, constituem a economia mundial de dados (Stiegler, 2020, p. 31; tradução minha)5.
Aquilo que Stiegler chama de retenções terciárias digitais6 nada mais seria do que o próprio arquivo digital, aquilo que, registrado, poderia ser consultado novamente, e, portanto, diferido. Assim, inseridos dentro disso que o autor chama de “capitalismo linguístico”, pessoas não seriam mais do que, literalmente, usuários - cumprindo, assim, a visão distópica proposta por Gilles Deleuze (1998) do divíduo, ou seja, do indivíduo que teve sua subjetividade e sua autonomia completamente cooptadas pelo programa digital proposto pelos sistemas de controle e vigilância do capitalismo7.
O capitalismo linguístico diagnosticado por Stiegler, portanto, radicalizaria os sistemas de simulacros de Baudrillard, produzindo um mundo em que a referência final dos signos seriam os valores abstratos e irreais que circulam no mercado - aquilo que Baudrillard chamaria de código, comando e controle. A vigilância e o controle também são, segundo Kate Crawford (2021), aspectos essenciais da economia de dados, do Machine learning e, portanto, da Inteligência Artificial. Como demonstrado por Lucia Santaella, existe uma relação de dependência entre a IA e os dados:
Sem dados não há IA, tanto é que muitos consideram os dados como o novo petróleo. Está sendo, inclusive, preconizado que o futuro da IA encontra-se nos dados, a saber, os dados de todos os habitantes do planeta. São necessárias toneladas de dados para treinar uma máquina cuja inteligência não apenas engole os nossos dados quanto também aprende a predizer nossos comportamentos com uma poderosa analítica preditiva de tudo, até mesmo daquilo que apenas pressentimos acerca de nós mesmos. O comércio, os aplicativos, as redes sociais e a vigilância são apenas o começo. Logo os dados e o que se pode fazer com eles tomarão conta das finanças, da saúde e até mesmo de nossas escolhas mais íntimas (Santaella, 2019).
A partir da leitura de Baudrillard e Stiegler, portanto, tecemos uma espécie de sistema reticular em que capitalismo - controle - Big Data - linguagem - inteligência artificial - Machine learning estariam, assim, intimamente associados. Existiria, portanto, uma certa partilha do sensível (Rancière, 2009) em negociação dentro desse diagrama; uma certa maneira e política de se consumir a informação. Seguindo essa rede, somos capazes de concluir que, uma vez treinadas em bases de dados estatisticamente viciadas em reduzir a qualidade do repertório linguístico em função de uma eficiência mercadológica, os textos gerados pelas Inteligências Artificiais Generativas (IAGs) seriam eles mesmos um simulacro do sistema financeiro capitalístico.
Visto dessa maneira, os textos produzidos a partir de IAGs nada ou muito pouco teriam a ver com a produção de textos literários. N. Katherine Hayles, no entanto, entende que a relação que poderia existir entre os textos literários (narrativos) e aqueles que formariam a grande ecologia textual da internet (a base de dados) não é apenas inexistente ou negativa; antes, seria uma relação simbiótica:
Como o banco de dados é capaz de construir justaposições relacionais, mas é incapaz de interpretá-las ou explicá-las, ele precisa da narrativa para tornar seus resultados significativos. A narrativa, por sua vez, precisa do banco de dados na cultura computacionalmente intensiva do novo milênio para ampliar sua autoridade cultural e testar a generalidade de suas intuições (Hayles, 2007, p. 1603; tradução minha)8.
Os dados, portanto, seja através do avatar do Big Data ou do Machine learning, possuem uma importância relativa na medida em que são a linguagem instaurada da maioria dos sistemas informacionais. Para Stiegler e Baudrillard, tais configurações informacionais facilitariam os sistemas e redes de controle. Hayles, no entanto, vai além e sustenta uma posição diferente. Independentemente do ponto de vista, nos parece que a lógica de leitura/escritura maquínica deve ser agora levada em consideração, uma vez que, como sustenta Friedrich Kittler, “nenhum ser humano escreve mais. (…) Hoje, a escrita humana passa por inscrições queimadas no silício por litografia eletrônica (…). O último ato histórico de escrita pode assim ter ocorrido no fim dos anos 1970, quando uma equipe de engenheiros da Intel [traçou] a arquitetura de hardware de seu primeiro microprocessador integrado” (Kittler, 1997, p. 147; tradução minha)9. Como afirmado mais acima, estaríamos diante de uma nova configuração do sensível, em que novos suportes e agências estariam em jogo na equação; e dessa maneira temos que entender de que forma tais sistemas nos propõem, justamente, repensar a escrita e as políticas que a envolvem.
À captura da linguagem e da atenção pelo Big Data, e ao empobrecimento semiótico, poderíamos também associar o que Alexandre Nodari chama, astutamente, de a crise do grande relator. Para o autor:
Justamente quando o mito do excepcionalismo humano (o mito-projeto de uma humanidade completamente independente da Terra, do homem como ser extra-terrestre - cf. Nodari, 2013) parece finalmente se realizar, e o Homem se converter em autor da natureza, isto é, quando o homem transforma (nega) a natureza a ponto de se autotransformar, modificando completamente as próprias condições de existência, o resultado parece ser o contrário do esperado: como todo autor, a espécie humana está passando a perceber que não tem total poder sobre aquilo que escreve (ou inscreve ou ex-creve sobre e sob a Terra), o que inclui ela mesma e seu destino, tornando-se um agente geológico (natural) que perdeu o controle das consequências de suas ações - o que se tem chamado de “Antropoceno” (Crutzen e Stoermer, 2000) (Nodari, 2015, p. 77).
Paradoxalmente, portanto, a pretensão de total controle do humano (seja sobre as redes humanas ou não-humanas10 geraria um grau diametralmente oposto de descontrole; sempre restaria o improgramável, a possibilidade de relações imprevisíveis. Assim, se é verdade, por um lado, que o relator humano se encontra em crise, seja porque suas narrativas estão reduzidas a um sistema de economias simbólicas extremamente abstrato e repleto de simulacros, ou por uma quase completa cooptação das estruturas de escrita literária pelo fenômeno do capitalismo linguístico; por outro, a partir da escrita com IAs generativas, por exemplo, abrimos um caminho através das próprias fissuras do sistema, daquilo que restaria ainda inexplorado - mesmo que isso significasse sacrificar a voz “original” do narrador humano: “O narrador descentra-se. Perde o norte. Não dá uma dentro. Não sabe quem fala, nem de quem é sua voz” (Preciado, 2023, p. 116)11.
Como proposto por Donna Haraway e seu mito ciborgue, gostaria de pensar a partir dessa provocação, e de entender que a captura do narrador humano pelo capitalismo linguístico e as IAGs não precisa ser necessariamente algo ruim. Muito pelo contrário, é ao colocar justamente em xeque o que o dizer quer dizer, o que o narrar quer narrar, que acredito que estaríamos diante de um embate verdadeiramente político, ao menos da política como desentendimento, proposta por Jacques Rancière (2018). Portanto, gostaria de propor uma leitura alternativa do fenômeno, uma que se orientasse não para a centralização do humano, de sua escrita e narrativas. Antes, seria um movimento de descentralização; ou melhor ainda: como compreender a inserção de outras formas de inteligência na escrita a partir de perspectivas construtivas? Proponho que a imagem da simbiose, e mais particularmente do conceito de simpoiesis, proposto por Haraway (2023), nos apresentaria um caminho interessante.
1 Escrita generativa e terceirização da subjetividade
A escrita com ferramentas generativas não é algo particular do século XXI, e inclusive já foi teoricamente pensada muito antes da existência da internet, do Big Data e das IAs generativas. É o caso, por exemplo, de Max Bense, importante teórico ligado às vanguardas do modernismo tardio (como o movimento brasileiro-internacional do concretismo). Bense, muito provavelmente, é o primeiro autor a inclusive cunhar e pensar aquilo que ele chama de “estética gerativa”12:
Em 1965, por ocasião de uma primeira publicação sobre “Gráfica de Computadores”, eu concebi [a estética gerativa] como a suma totalizadora de todas as operações, regras, e teoremas, que, aplicados a um repertório de elementos materiais manipuláveis, pudessem criar neste, consciente e metodicamente, estados estéticos. Esta primeira definição, embora um pouco geral, permitia que também fossem admitidos em seu âmbito processos matemáticos e maquinais. [...] A obra não é mais imediata em relação ao criador. É mediada por sistemas de agregados semióticos e maquinais. (Bense, 2009, pp. 135-136)
Mais à frente, ainda, Bense (2009) cita a presença de “computadores” e “procedimentos algorítmicos” no grupo dos “agregados semióticos e maquinais”. A concepção de um tipo de produção estética “imediata em relação ao criador”, portanto, já era conscientemente teorizada pelo menos a partir de meados da década de 196013. Tal teorização, claro, não exclui todos os outros procedimentos da vanguarda que envolviam uma certa automatização dos processos de criação artística, e particularmente da escrita.
Assim, a escrita automática dos surrealistas, os métodos de colagem dadaístas e futuristas, as restrições propostas pela OULIPO14, os experimentos literários de autoras do modernismo norte-americano como Gertrude Stein, bem como boa parte das composições do Concretismo brasileiro, estariam relativamente associadas a esse processo de automatização da escrita. Vale lembrar, no entanto, que, apesar de alguns desses movimentos se utilizarem de computadores e algoritmos informacionais (como é o caso do concretismo, contemporâneo das afirmações de Bense), nenhum deles teve que lidar diretamente com a terceirização dos processos de escrita.
Atualizo, aqui, o termo automatização por terceirização justamente para implicar o emprego de um terceiro no processo de produção artístico-literário - incluindo tal termo no capitalismo linguístico, descrito mais acima. Esse movimento é extremamente importante, uma vez que ele não apenas reconhece a não imediaticidade da criação artística, como nela insere um terceiro, que no caso da IA generativa seria não apenas uma outra inteligência agindo sobre a obra, mas também aquela mesma entidade responsável por responder pela obra. Pensar com e a partir desse outro, escrever com e a partir desse outro, aí estaria uma das principais propostas do artigo aqui apresentado.
Partindo desse movimento de terceirização da subjetividade, no entanto, encontramos, como dito mais acima, uma fissura importante. A inserção de outras formas de inteligência (como no caso da IA) no circuito de produção subjetiva humana, ainda que oriunda de pontos de vista politicamente viciados em um desenvolvimentismo caduco, funciona, por si só, como um importante movimento de descolamento perspectivo do antropocentrismo.
Tal movimento, como nos mostra Haraway, tem a ver com aquilo que a autora chama de simpoiesis. Inspirada pelas ideias da bióloga Lynn Margulis, que nos anos 1970 demonstrou a validade de seu conceito de simbiogênese, Haraway entende que vivemos em um mundo situado e construído a partir de conexões. Diante dessa perspectiva, o humano seria apenas mais um dos pontos de tensão em uma rede de criaturas e inteligências, todas elas agindo inevitavelmente para construir um mundo compartilhado. De fato, o termo Simpoiesis, do grego, segundo Haraway, quer dizer fazer com- (2023, p. 111), e funcionaria como uma releitura levemente irônica do conceito de autopoiese, proposto pelo biólogo e ciberneticista Humberto Maturana15 16. A diferença entre um e outro conceito seria justamente o complexo de redes agenciais que se formaria a partir do ponto de vista simpoiético17. Agir, assim, seria sempre agir com-, ativar a energia de outros seres, e não apenas se autoproduzir, como quer o conceito de autopoiese.
O deslocamento de Haraway, portanto, é importante na medida em que retira o humano do vácuo desenvolvimentista e autocentrado em que ele se encontra, e o situa como parte de um todo. Assim, é inspirado pelo conceito de simpoiesis e pela visão irônica que Haraway propõe, a partir de obras como o Manifesto ciborgue (2009), que tenho pensado ultimamente a partir do conceito de escrever com-. Se, como advoga Haraway, devemos entender como ficar com o problema18, ou seja, como negociar de maneira inteligente com questões complexas como o Antropoceno, ou mesmo a insurgência daquilo que chamamos mais acima de capitalismo linguístico, acredito que é através do escrever com- que podemos ter também uma leitura crítica e relevante das mudanças que a IAG tem produzido em nossos sistemas de escrita e leitura - e consequente produção da subjetividade.
2 O irmão sintético e a política do erro
Foi nos anos 1980 que vimos o surgimento do primeiro livro que tentou endereçar diretamente o problema da produção de textos completamente gerados por IAGs: The Policeman’s Beard is Half Constructed (1984), escrito por Racter (contração de Raconteur - contador de histórias, do francês). A inteligência de Racter, claro, estaria limitada aos avanços tecnológicos do período em que o programa foi criado. Se comparado aos programas de IAG de hoje, Racter é apenas um bebê balbuciando palavras. Apesar disso, o programa já é capaz de levantar questões de interesse, como uma certa “confusão da metafísica da autoria”, proposta pela leitura realizada pelo poeta experimental Christian Bök.
Mas, de todas as limitações de Racter, talvez a maior seja sua base de dados. Hoje, com a implementação do Big Data e do Machine learning, IAs são treinadas com uma quantidade de informação sem precedentes; e, igualmente, colocadas em contato com as mais diversas ecologias textuais/informacionais. É nesse contexto que vemos novas obras artísticas/literárias florescerem, tendo que negociar com sistemas de vigilância complexos (como aqueles propostos pela ideia de capitalismo linguístico) e a expressão criativa da linguagem19.
Charles Bernstein, uma das vozes mais expressivas da poesia contemporânea norte-americana e mundial, é um dos exemplos de artistas/poetas contemporâneos trabalhando com a produção de obras literárias a partir de IAGs. Ainda que não muito conhecido no Brasil20, seu trabalho possui repercussões reconhecidas na obra de alguns dos poetas brasileiros mais importantes da contemporaneidade, como Marília Garcia. No seu último livro de poemas, Poetry Has No Future Unless It Comes to an End: Poems of Artificial Intelligence (Poesia não tem futuro a não ser que chegue a seu fim: poemas de inteligência artificial), Bernstein trabalha em cooperação com o artista visual e programador Davide Balula para criar um livro de poemas completamente escrito por uma IA.
Na introdução que escreve ao livro, Balula explicita alguns dos pontos de produção da obra. Interessa-nos saber aqui, por exemplo, que ela não foi escrita utilizando modelos de IA comercializados em larga escala. Balula aprendeu a mexer com programas de IA generativa a partir de 2018, alimentando-os com uma base de dados criada a partir dos textos da filósofa Catherine Malabou21. Para a obra composta com Bernstein, Balula solicitou a Bernstein que lhe enviasse uma base de dados de seus poemas para que este pudesse treinar a IA em cima deles. Posteriormente, Balula enviou os poemas escritos pelo “irmão sintético” - nome pelo qual a própria IA se reconhecia - para Bernstein, que por sua vez selecionou e editou alguns dos poemas (Bernstein; Balula, 2023). O processo de edição compreendeu apenas a supressão de versos, nunca sua adição por Charles Bernstein. O poeta chama esse processo de “poemas de inteligência artificial com assistência humana”.
Feita essa breve contextualização, gostaria de realizar uma rápida leitura de um dos poemas compostos pelo “irmão sintético” de Bernstein, tendo em vista tudo que discutimos até aqui. É importante nos lembrarmos, inclusive, que Bernstein fez parte do movimento de poesia norte-americano L=A=N=G=U=A=G=E que, como um dos últimos suspiros da vanguarda artística do século XX (o movimento data dos anos 1970), era também afeito às experimentações computacionais, ainda que de maneira mais conceitual do que prática, devido às limitações tecnológicas do período - um pouco parecido com o movimento da poesia concreta no Brasil.
No séc. XXI, no entanto, e particularmente na década de 2010, com o desenvolvimento das IAG e seu consequente acesso a um público maior, teríamos um cenário completamente diverso, no qual artistas e escritores experimentariam cada vez mais tais recursos em suas obras. O livro idealizado por Balula e Bernstein, portanto, surgiria justamente nesse cenário. Vale dizer, no entanto, que apesar de usar uma tecnologia semelhante, os poemas não foram gerados a partir de um banco de dados extenso e comercialmente orientado, como aqueles utilizados por empresas como a OpenAI, criadora do ChatGPT. Vamos à leitura de um dos poemas da antologia:
Sometimes I get defensive
It began life as a red taffy ball and ends as a star
A sun speckled with rays
It is squished into clusters to stop it
Scorching the sky
It is not a sandal but a world of clusters
A breathing world of smudged colors
Splintered
It is not a world but an assemblage of things
A fiery shell around which there is a life
I can no longer keep myself together
But sometimes I let Charles have my back.
There is something intoxicating about a pat on the back, an elbow in the back, an invitation to continue.
By dark the line between the streets of the present and the future appears to blur.
If poetry is not for you, at least it's not forever. 22
Bernstein; Balula, 2023, p. 83.
O poema dá início a um jogo de simulações que a IA estabelece entre o estilo de escrita do próprio Bernstein e a tensão que envolveria a expressão de uma “voz” que lhe fosse própria. Mais acima, quando expus os modelos de configuração semiótica no capitalismo tardio a partir de Baudrillard, fiz menção à ideia de simulação e a como ela operaria criando uma espécie de regime aleatório e indeterminado que, ao fim e ao cabo, esvaziaria a própria linguagem. É interessante repararmos, no entanto, que tal não ocorre no poema criado pela IA acima, e que essa voz não seria somente a expressão de uma máquina esvaziada, que redundaria em um simples simulacro.
Partindo das ideias de Haraway e da crise do relator proposta mais acima, acredito que tal interação entre a escrita humana e maquínica criaria, na verdade, um território muito fértil para pensarmos justamente a decadência da escrita humanamente orientada. Esse seria, me parece, o sentido do título do livro atribuído por Bernstein e Balula: a poesia, ou mesmo a literatura no geral, não tem futuro enquanto somente instrumentos de estruturação de narrativas humanas. Seu fim, nesse sentido, não representaria algo negativo, muito pelo contrário; antes, quer dizer a inserção de outros seres, de outras ecologias e formas de existência até então desprezadas, no seu circuito político. O fim a que Bernstein e Balula se referem, aqui, seria o fim das narrativas e vozes centradas estruturalmente apenas no humano; seria o fim das narrativas contadas e absorvidas apenas pela perspectiva humana.
Bernstein é conhecido por possuir um estilo tortuoso, que ele mesmo define como uma forma de “perplexidade formal” (Bernstein, 2008). Assim, ao recorrer a sentenças sintaticamente inacabadas ou ilógicas, o poema acima, de fato, parece ter vindo de Charles Bernstein - e é interessante repararmos como seu clone sintético, inclusive, em um dos versos, faz menção ao próprio Bernstein, reforçando a ideia de uma conversa. A esse respeito, Balula, no entanto, nos lembra no texto introdutório ao livro de uma interessante anedota. Bob e Alice foram dois chatbots gerados por IA e responsáveis por trocas comerciais que ficaram famosos em 2017 por criarem uma linguagem própria:
BOB: I can i i everything else
ALICE: balls have zero to me to me to me to me to me to me to me to me to
BOB: you i everything else
ALICE: balls have a ball to me to me to me to me to me to me to me to me 23
Bernstein; Balula, 2023, p. 19.
Na época, essa anomalia linguística levantou toda a sorte de comentários e suspeitas. Será que, enfim, um tipo de IA como aquele imaginado pela Skynet havia finalmente surgido? Ironicamente, os chatbots desenvolveram essa linguagem anômala em virtude de seu próprio programa, e não de uma falha conspiratória ou maniqueísta. Desenvolvidos como IAGs para realizarem operações comerciais, Bob e Alice simplesmente julgaram que a sintaxe do inglês - aqui um símbolo da sintaxe humana - não era suficientemente rápida e eficiente para dar conta do fluxo comercial de compra e venda. De maneira muito sóbria, Balula nos lembra que a linguagem maquínica é submetida a um programa para se parecer com a nossa (Bernstein; Balula, 2023). Isso quer dizer que, apesar de baseada em um sistema linguístico mais ou menos relacionado ao nosso, as máquinas também possuem um tipo de linguagem que lhe é característica24.
Essa anedota é importante para nos lembrar que, assim como Bernstein ou qualquer outro poeta e escritor podem incorporar na sua linguagem alguma anomalia linguística que lhe caracterize o estilo, as máquinas também podem realizá-la: nesse sentido, elas também seriam seres capazes de realizar uma reconfiguração da partilha do sensível, determinando o que a linguagem pode ou não querer dizer dentro dos fluxos de troca extremamente acelerados ativados pelo capitalismo tardio. Elas, também, seriam capazes de realizar política.
Nesse sentido, importa entender como a noção de capitalismo linguístico pode errar a partir da literatura e que as IAGs, também concebidas como agentes políticos, são capazes de provocar o erro, e não estariam completamente sujeitas a certo impulso mercadológico. Ora, se a Literatura é também um campo de especulações e de negociações de regimes de sensibilidade, a inserção de outros agentes que não humanos em sua produção, sejam eles maquínicos ou biológicos, também seria capaz de dar início a um jogo próprio de significações que extrapolariam o signo como índice estatístico de simulacros mercadológicos - algo que a leitura de Stiegler sobre o capitalismo linguístico propõe. Ainda a esse respeito, Frédéric Kaplan, pensador do qual Stiegler toma emprestado o conceito de capitalismo linguístico, afirmaria:
O que temem os atores do capitalismo linguístico? A língua que lhes escapa, que se rompe, que é “grafada errado”, que se torna impossível de pôr em equações. Quando o motor de busca corrige em tempo real uma palavra que você escreveu incorretamente, ele não o faz apenas para ajudá-lo: na maioria das vezes, ele transforma algo sem valor significativo (uma palavra mal grafada) em um recurso econômico diretamente lucrativo (Kaplan, 2011, p. 28)25.
Assim, se existe algo que a simpoiesis é capaz de nos mostrar, e particularmente o desdobramento proposto a partir do escrever com-, é que a sensibilidade política e literária não é apenas um atributo humano, mas também de máquinas, ainda que essas sejam configuradas para reproduzir apenas dados viciados. O que estaria em jogo, aqui, seriam, antes de tudo, os modos de usar, uma política de uso, exatamente como acontece com a literatura e a arte humanamente produzidas. O erro, nesse sentido, poderia constituir um ato político maquínico na medida em que ele desorganizaria os índices estatísticos atribuídos aos signos linguísticos, impedindo que esses fossem utilizados meramente como mercadorias. Nesse sentido, a máquina, também, estaria à procura de um estilo que lhe fosse próprio - e a questão principal seria, aí, mostrar a ela que, ela também, é capaz de fazê-lo.26
Essa percepção política só poderia surgir a partir de um ato compartilhado. Pensar de maneira situada, nesse sentido, seria compreender que, como nós, como todos os seres, as máquinas também precisam de uma política - que no nosso exemplo seria uma política da linguagem. Vale lembrar que as IAGs não existem em um mundo à parte do nosso, assim como os dados que as alimentam; elas também precisam de um mundo, de uma terra, e, agora, de um relato.
Conclusão
Em seu livro As três ecologias, Félix Guattari faz um movimento único - à época - de articulação entre aquilo que o autor chama de ecologia mental, social e ambiental. Em um de seus prognósticos, afirma:
Um ponto programático primordial da ecologia social seria o de fazer transitar essas sociedades capitalísticas da era da mídia em direção a uma era pós-mídia, assim entendida como uma reapropriação da mídia por uma multidão de grupos-sujeito, capazes de geri-la numa via de ressingularização (Guattari, 1990, p. 46).
Aquilo que Guattari chama de uma era pós-mídia está claramente associado à ideia de uma mídia que não esteja completamente cooptada pelas raízes do sistema capitalista. Assim como aqui, Guattari propõe que esse exercício de ressingularização está estreitamente associado a novos paradigmas de subjetividade:
Hoje, a especialização internacional do trabalho exportou para o Terceiro Mundo os métodos de trabalho em série. Na era das revoluções informáticas, do surgimento das biotecnologias, da criação acelerada, de novos materiais e de uma “maquinização” cada vez mais fina do tempo, novas modalidades de subjetivação estão prestes a surgir. Um apelo maior se fará à inteligência e à iniciativa e, em contrapartida, ter-se-á um cuidado maior com a codificação e o controle da vida doméstica do casal conjugal e da família nuclear. Em resumo, reterritorializando a família em grande escala (pela mídia, pelos serviços de assistência, pelos salários indiretos...), tentar-se-á aburguesar ao máximo a subjetividade operária (Guattari, 1990, p. 48)
Ao fim e ao cabo, então, o autor afirma que sim, novos modelos estariam para surgir; no entanto, estes estariam igualmente em disputa em relação aos seus contornos políticos e estéticos. É interessante perceber, assim, que modelos de subjetividade estão em disputa, e que eles jamais são um dado preestabelecido. É verdade que, talvez, pensar em uma subjetividade maquínica seria justamente ir contra todos os paradigmas de subjetividade que possuímos até aqui, e muito provavelmente contra o próprio conceito de “subjetividade” - essa é, com certeza, uma discussão sem fim, à qual este artigo não pretende oferecer uma resposta.
O fato é que, ao inserirmos outras formas de inteligência que não humanas no jogo da escrita, isso que chamei de escrita tentacular, de escrever com-, permite que agências humanas e, no nosso caso, maquínicas entrem em contato. Se a poesia é a perplexidade da linguagem, é a linguagem errando a si mesma, é importante que as máquinas, também, sejam expostas a esse tipo de conteúdo, e não apenas às formas linguísticas viciadas em controle e vigilância de consumo, como o modelo proposto pelo capitalismo linguístico.
Ao fim e ao cabo, seria importante, então, percebermos que é apenas uma questão de tempo até que as IAGs comecem a gerar textos que não sejam somente um simulacro dos textos humanos. Por isso, ainda como reivindicam Bernstein e Balula em seu livro, devemos alimentar nossas máquinas e programas, também, com formas políticas que os ensinem a enxergar o erro, aquilo que não participa apenas do estatisticamente programável, como algo politicamente rico. Nesse sentido, gostaria de encerrar meu texto com uma citação de Christian Bök, que tematiza de maneira curiosa, ainda que com um quê irônico, isso que chamei aqui de escrita tentacular:
Somos provavelmente a primeira geração de poetas que pode razoavelmente esperar escrever literatura para uma audiência maquínica de pares artificialmente intelectuais. Não é já evidente, por nossa presença em conferências sobre poética digital, que os poetas de amanhã tendem a se parecer com programadores, exaltados não porque saibam escrever grandes poemas, mas porque saibam construir um pequeno drone feito de palavras para escrever grandes poemas por nós? Se a poesia já carece de qualquer leitorado significativo entre nossa própria população antropoide, o que temos a perder ao escrever poesia para uma cultura robótica que há de inevitavelmente suceder a nossa? Se quisermos cometer um ato de inovação poética numa era de exaustão formal, talvez tenhamos de considerar esta opção até então inimaginada, mas ainda assim proibida: escrever poesia para leitores inumanos, que ainda não existem, porque tais alienígenas, clones ou robôs ainda não evoluíram para lê-la (Bök, 2005, p. 17; tradução minha)27.
REFERÊNCIAS
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- BENSE, Max. Pequena estética Tradução Jacó Guinsburg e Ingrid Dormien Koudela. Antologia bensiana organizada por Haroldo de Campos. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2009.
- BERNSTEIN, Charles. Histórias da guerra: poemas e ensaios. Tradução Régis Bonvicino. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
- BERNSTEIN, Charles; BALULA, Davide. Poetry Has No Future Unless It Comes to an End: Poems of Artificial Intelligence. Roma: Nero Editions, 2023.
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BÖK, Christian. The Piecemeal Bard Is Deconstructed: Notes Toward a Potential Robopoetics. In: UbuWeb Papers [S. l.]: Ubu Editions, 2005. Disponível em: https://ubu-mirror.ch/papers/ol/Bök.html Acesso em: 23 fev. 2025.
» https://ubu-mirror.ch/papers/ol/Bök.html - CALVINO, Italo. Assunto encerrado: discursos sobre literatura e sociedade. Tradução Roberta Barni. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
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- HARAWAY, Donna Jeanne. Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. In: TADEU, Tomaz (org.). Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Tradução Tomaz Tadeu. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. pp. 33-118.
- HARAWAY, Donna Jeanne. Ficar com o problema: fazer parentes no chthuluceno. Tradução Ana Luiza Braga. São Paulo: N-1 Edições, 2023.
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HAYLES, Nancy Katherine. Narrative and Database: Natural Symbionts. PMLA, New York, v. 122, n. 5, pp. 1603-1608, out. 2007. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/25501808 Acesso em: 3 nov. 2024.
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KAPLAN, Frédéric. Vers le capitalisme linguistique: quand les mots valent de l’or. Le Monde Diplomatique, Paris, nov. 2011. Disponível em: https://www.monde-diplomatique.fr/2011/11/KAPLAN/46925 Acesso em: 8 fev. 2025.
» https://www.monde-diplomatique.fr/2011/11/KAPLAN/46925 - KITTLER, Friedrich. There Is No Software. In: JOHNSTON, John (org.). Literature, Media, Information Systems: Essays. Amsterdam: Overseas Publishers Association, 1997. pp. 147-155.
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NODARI, Alexandre André. A literatura como antropologia especulativa. Revista da Anpoll, Florianópolis, v. 1, n. 38, pp. 75-85, 2015. DOI: https://doi.org/10.18309/anp.v1i38.836 Acesso em: 22 dez. 2024.
» https://doi.org/10.18309/anp.v1i38.836 - PARISI, Luciana. Contagious Architecture: Computation, Aesthetics, and Space. Cambridge: The MIT Press, 2013.
- PRECIADO, Paul Beatriz. Dysphoria mundi: o som do mundo desmoronando. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.
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- RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. Tradução Mônica Costa Netto. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2009.
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- SANTAELLA, Lucia. Inteligência artificial & redes sociais São Paulo: Educ, 2019.
- STIEGLER, Bernard. Nanjing Lectures: 2016-2019. Edited and translated by Daniel Ross. London: Open Humanities Press, 2020.
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Declaração de disponibilidade de conteúdo
Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.
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Pareceres
Tendo em vista o compromisso assumido por Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso com a Ciência Aberta, a revista publica somente os pareceres autorizados por todas as partes envolvidas.
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A infranet é uma espécie de “mãe” da internet da maneira como a conhecemos hoje, e era utilizada de maneira bem mais contida apenas para fins militares e estatais.
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Tal alcunha lhe é garantida por seu livro A transparência do mal, que recebe o subtítulo de “ensaio sobre os fenômenos extremos”.
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3
Gilles Deleuze (1998), também, estaria igualmente preocupado em compreender como as “sociedades cibernéticas” possuíam uma relação estreita com a noção de controle.
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No original: “In so doing, linguistic capitalism uniformly affects the elementary conditions of semiosis, drastically impoverishing the skills and competencies of speakers - and in turn impoverishing what we might call the dialogical semiodiversity that conditions semiosis”.
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No original: “The problem, today, in the period of what we call disruption, is that it seems impossible to reconstitute any knowledge, and that forms of behaviour are now produced, not by social systems, cultures and knowledge, but by marketing that exploits ‘Big Data’ and digital tertiary retentions insofar as these are calculable, computable and as such constitute the worldwide data economy.”
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O autor parte de uma complexa leitura das teorias de Edmund Husserl até chegar a esse ponto da discussão. Para nossos breves propósitos, acredito que a explicação apresentada é suficiente.
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Partindo de uma absorção irônica da noção de indivíduo, Deleuze astutamente nomeia o sujeito das sociedades cibernéticas de ultravigilância de “divíduo”, para acentuar seu caráter numérico (como um dígito) e estruturalmente fragmentário.
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No original: “Because database can construct relational juxtapositions but is helpless to interpret or explain them, it needs narrative to make its results meaningful. Narrative, for its part, needs database in the computationally intensive culture of the new millennium to enhance its cultural authority and test the generality of its insights”.
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No original: “no human being writes anymore. (…) Today, human writing runs through inscriptions burnt into silicon by electronic lithography (…). The last historic act of writing may thus have been in the late seventies when a team of Intel engineers [plotted] the hardware architecture of their first integrated microprocessor”.
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E aqui é extremamente interessante perceber a interconexão entre ambas.
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Em seu último livro, Dysphoria Mundi, Paul Preciado se propõe a fazer uma certa leitura do mundo pós-Covid-19 como um mundo em ruínas. Uma das leituras evocadas pelo autor é aquela proposta por Derrida em seu livro Espectros de Marx. Nesse texto, Derrida propõe, a partir de uma leitura de Hamlet, que o tempo estaria out of joint; ou seja, haveria necessariamente um desencontro entre certos conceitos que continuam em sobrevida nos circuitos da sociedade sem, no entanto, estarem de fato operando de maneira funcional ou mesmo existente. Daí a ideia de que viveríamos com espectros: ideias que, mesmo que não vivas, não agenciadas na sociedade, ainda nos assombrariam de alguma maneira. Assim, de maneira similar a Nodari, Preciado propõe que estaríamos assombrados pela ideia do narrador humano, uma vez que esse também estaria out of joint.
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Apesar da quase nula diferença entre as palavras “gerativa” e “generativa”, entendo aqui que ambos os termos se referem a um único fenômeno: a produção de arte por algoritmos maquínicos. Portanto, se podemos falar de uma estética gerativa, certamente podemos falar de uma estética generativa, bem como de um tipo de escrita que fosse generativo.
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Ainda nos anos 1960, vale mencionar o nome de Italo Calvino, que no seu texto Cibernética e fantasmas, endereçava de maneira antecipadora o uso de mecanismos de escrita automática. Na verdade, a partir da leitura de Propp e Lévi-Strauss, Calvino chega a afirmar que a narrativa sempre prescindiu de algum tipo de programa, de algum tipo de pai longínquo do algoritmo (Calvino, 2009).
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A Ouvroir de Littérature Potentielle (algo próximo a “Oficina de Literatura Potencial”) é um dos melhores exemplos que as vanguardas oferecem de aproximação entre as ciências exatas, o avanço tecnológico e a produção artística (particularmente a literária). Muitos de seus autores, como Jacques Roubaud e Raymond Queneau, eram matemáticos de formação. Os métodos de escrita propostos pelo movimento, igualmente, muitas vezes se baseavam em sistemas algorítmicos de composição, com o fim de gerar as restrições literárias, tipos de regras conceituais de composição que eram famosamente empregadas pelos escritores do movimento.
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Ainda segundo Haraway, simpoiese é uma palavra apropriada para designar sistemas complexos dinâmicos, responsivos, situados e históricos (Haraway, 2023, p. 111).
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A autopoiese aparece em um contexto especificamente relacionado às teorias da cibernética, e mais precisamente na sua segunda geração, em que alguns de seus conceitos fundadores, como o feedback, estavam sendo substituídos pelos de recursividade etc.
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Haraway associa o tipo de individualidade produzida pela noção de autopoiese de “individualismo delimitado (ou neoliberal)” (Haraway, 2023, p. 65). Ainda a esse respeito, afirma: “A informação e o controle são distribuídos entre os componentes. Os sistemas são evolutivos e têm potencial para mudanças surpreendentes”. Em contrapartida, os sistemas autopoiéticos são unidades autônomas “autoprodutoras”, “com limites espaciais e temporais autodefinidos que tendem a ser homeostáticos, previsíveis e controlados de forma centralizada” (Haraway, 2023, p. 64).
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Sobre isso, Haraway comenta: “Na realidade, ficar com o problema requer aprender a estar verdadeiramente presente; não como um eixo que se desvanece entre passados terríveis ou edênicos e entre futuros apocalípticos ou salvadores — mas como bichos mortais entrelaçados em uma miríade de configurações inacabadas de lugares, tempos, matérias, significados” (Haraway, 2023, p. 13).
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Sobre os regimes estéticos que emergem desse contexto, ver Manovich (2018), que examina como os modelos de aprendizado de máquina reorganizam as categorias de estilo e de gosto.
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O poeta possui apenas um dos seus vários livros de poemas traduzido para o Brasil. Histórias da guerra, editado pela Martins Fontes, foi lançado em 2008.
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Uma filósofa extremamente importante para a discussão aqui empreendida, sobretudo por Morphing intelligence, em que percorre o deslocamento da inteligência da medição do QI aos cérebros artificiais (Malabou, 2019).
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A seguir, uma tradução livre realizada com a assistência do programa ChatGPT: “A Pessoa Que Parte É um Poema Expositivo/ Às vezes, parece justificável/ Às vezes, me ponho na defensiva/ Começou sua vida como uma bola de caramelo vermelho e termina como uma estrela/ Um sol salpicado de raios/ É comprimido em aglomerados para impedi-lo/ De incendiar o céu/ Não é uma sandália, mas um mundo de aglomerados/ Um mundo pulsante de cores borradas/ Estilhaçado/ Não é um mundo, mas um amontoado de coisas/ Uma casca flamejante ao redor da qual existe uma vida/ Já não consigo mais me manter inteiro/ Mas às vezes deixo Charles me apoiar./ Há algo de embriagante em um tapinha nas costas, um cotovelo nas costas, um convite para continuar/ Ao anoitecer, a linha entre as ruas do presente e do futuro parece se desfazer./ Se a poesia não é para você, pelo menos ela não é para sempre”.
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Tradução livre realizada com a assistência do programa ChatGPT: BOB: “Eu consigo eu eu todo o resto ALICE: bolas não significam nada para mim para mim para mim para mim para mim para mim para mim para mim para / BOB: você eu todo o resto / ALICE: bolas têm uma bola para mim para mim para mim para mim para mim para mim para mim para mim”.
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Skynet é a empresa responsável, nas franquias do filme de sci-fi Exterminador do futuro, por criar a IA que posteriormente escravizaria os humanos.
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No original: “Que craignent les acteurs du capitalisme linguistique? Que la langue leur échappe, qu’elle se brise, se “dysorthographie”, qu’elle devienne impossible à mettre en équations. Quand le moteur de recherche corrige à la volée un mot que vous avez mal orthographié, il ne fait pas que vous rendre service : le plus souvent, il transforme un matériau sans grande valeur (un mot mal orthographié) en une ressource économique directement rentable”.
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Luciana Parisi (2013) desenvolve argumento próximo ao sustentar que os algoritmos não apenas executam regras, mas produzem, na sua incomputabilidade, formas estéticas e espaciais imprevistas.
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No original: “We are probably the first generation of poets who can reasonably expect to write literature for a machinic audience of artificially intellectual peers. Is it not already evident by our presence at conferences on digital poetics that the poets of tomorrow are likely to resemble programmers, exalted, not because they can write great poems, but because they can build a small drone out of words to write great poems for us? If poetry already lacks any meaningful readership among our own anthropoid population, what have we to lose by writing poetry for a robotic culture that must inevitably succeed our own? If we want to commit an act of poetic innovation in an era of formal exhaustion, we may have to consider this heretofore unimagined, but nevertheless prohibited, option: writing poetry for inhuman readers, who do not yet exist, because such aliens, clones, or robots have not yet evolved to read it”.
Parecer I
Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGSParecer I
Excelente trabalho. Deve ser publicado. Bem escrito, formulação bastante clara dos principais argumentos, encadeamento interno consistente e robusto. O único ajuste (em termos gerais) que faria: acho muito adequado o exemplo de BERNSTEIN & BALULA. Sinto falta de um número maior de exemplos, com mais detalhamento. APROVADO
- recomendação: aceitar
Parecer II
Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGSParecer II
“O artigo investiga a interseção entre inteligência artificial, capitalismo linguístico e poesia, analisando como os regimes simbólicos se transformam com novas tecnologias” e "propõe-se a “escrita tentacular”, inspirada na simpoiesis de Donna Haraway, como forma de resistência poética e criação coletiva não hierárquica. [...] sugerindo alternativas criativas e políticas para a escrita em tempos de automação e vigilância digital." Adequação do título ao artigo; sim, o título já aponta resposta à problemática. Demonstra conhecimento atualizado da bibliografia relevante embora faltem o livro de Pascal Quignard , Compléments à la théorie sexuelle et sur l'amour, Seuil, 2024, que ressalta a existência de uma terceira língua acessível apenas a seres humanos e um artigo de Manuscrítica de 2025, no qual sugiro uma posição parecida dos escritores com a IA embora mais dubitative. Originalidade na reflexão Sim! Há clareza, correção e adequação da linguagem a um trabalho científico.
Ressalva: A conclusão inspirada de Christian Bök que propõe que os poetas fazem “poesia para leitores desumanos, que ainda não existem”, isto é, para as máquinas, sublinha um posição controvertida quanto ao futuro da humanidade. (ver a obra de Michel Houellebecq que se contrapõe a de Miguel Nicolelis).
Se a IA se baseia no universo literário do Bernstein para criar, haverá apenas uma lista de palavras que a IA arranjará de seu jeito e que dará um sentido diferente ao do poeta ; nada de “humano” no sentido de estar ligado a um corpo e a suas experiências nem as da comunidade, o que justifica o nome que a IA se dá : o irmão sintético no sentido de não real, mas artificial. Nunca será uma poesia “humana”.
“É que a sensibilidade política e literária não são apenas um atributo humano, mas também de máquinas, ainda que essas sejam configuradas para reproduzir apenas dados viciados”. Frase que deixa dúvidas pois como atribuir sensibilidade a uma calculadora fria de dados? sensibilidade alude aos sentidos que a máquina não tem.
Coerência de seu desenvolvimento no texto: sim! APROVADO
- recomendação: aceitar
Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.
