Open-access Condições paleoambientais e as vivências durante o Holoceno Médio no território de Serra Negra, Alto Vale do Araçuaí, Minas Gerais, Brasil

Paleoenvironmental conditions and life experiences during the Middle Holocene in the territory of Serra Negra, High Araçuaí Valley, Minas Gerais State, Brazil

Resumo

A área de Serra Negra, composta por 77 sítios arqueológicos, está localizada na face nordeste da Serra do Espinhaço Meridional, Brasil. O objetivo deste artigo é analisar os dados paleoambientais e arqueológicos dessa importante área no contexto da ocupação indígena na América do Sul, contribuindo para a discussão sobre o que tem sido chamado de Hiato do Arcaico. A discussão baseia-se no que está consolidado na literatura sobre ocupações do Planalto Central Brasileiro durante o Holoceno, destacando também especificidades regionais. Como conclusão, demonstramos que naquela região o Hiato durante o Holoceno Médio não ocorreu, pois a região permaneceu continuamente ocupada nesse período, com uso persistente e articulação de paisagens que estavam em contínua demanda, permitindo, assim, a ideia de um território estruturado ao longo dessas ocupações, bem como a permanência das tecnologias sociais utilizadas para a produção da cultura material. Portanto, a conjunção de contextos, cronologias e dados arqueológicos e paleoambientais corroboram a hipótese de um quadro de estabilidade regional (recursos e visão de mundo), com permanência de uso e articulação entre locais em uso contínuo, permitindo a ideia de um território estruturado ao longo dessas ocupações do Holoceno médio.

Palavras-chave
Planalto central brasileiro; Arqueologia; Dados paleoambientais; Holoceno Médio; Vale do Araçuaí; Serra do Espinhaço Meridional

Abstract

The Serra Negra Area, comprising 77 archaeological sites, is located on the northeast slope of the Southern Espinhaço Mountain Range, Brazil. The purpose of this paper is to analyze the paleoenvironmental and archaeological data of this important area in the Indigenous occupation’s context of South America, contributing to the discussion of what has been referred to as the Archaic Gap. The discussion is grounded in the established literature on occupations of the Brazilian Central Plateau during the Holocene, while also highlighting regional specificities. In conclusion, we demonstrate that in this region the so-called Archaic Gap during the Middle Holocene did not occur, as the region remained continuously occupied during this period, with persistent use and articulation of landscapes that were in continuous demand, thereby permitting the idea of a structured territory throughout these occupations, as well as the continuity of social technologies used in the production of material culture. Therefore, the combination of archaeological and paleoenvironmental contexts, chronologies, and archaeological and paleoenvironmental data corroborate the hypothesis of a framework of regional stability (resources and world view), with the continued use and articulation of sites, thereby allowing for the concept of a structured territory throughout the Middle Holocene occupations.

Keywords
Brazilian Central Plateau; Archaeology; Paleoenvironmental data; Mid-Holocene; Araçuaí Valley; Southern Espinhaço Mountain Range

INTRODUÇÃO

O objetivo deste artigo é analisar os dados paleoambientais e o contexto arqueológico acerca do(s) comportamento(s) de sociedades de caçadores-coletores em relação às variações climáticas durante o Holoceno em uma área da América do Sul. Dessa forma, enseja-se contribuir para a discussão sobre o período denominado de Hiato do Arcaico (Araújo, 2014; Araújo et al., 2003, 2005, 2006; Borella, 2022; Bueno & Isnardis, 2018; Fagundes, 2022; Machado et al., 2021; Perillo Filho, 2024; Sousa et al., 2020, 2022; Rodet, 2006, 2009; Rodet et al., 2020). Para tanto, são apresentadas informações sobre a Serra do Espinhaço Meridional (SdEM1), especialmente sua face nordeste, conhecida como território de Serra Negra (Fagundes, 2022).

O fenômeno denominado Hiato do Arcaico foi sugerido a partir de análises dos sítios arqueológicos em Lagoa Santa, em Minas Gerais, em que se observou a existência de dois picos de aumento populacional: (a) 10.000-8.000 anos AP; (b) 2.000-1.000 anos AP. Por outro lado, o período de 6.000 anos AP, que entremeia esses picos, não apresenta dados e indícios de enterramentos (Araújo et al., 2003, 2005, 2006).

Ao ampliar o enfoque geográfico das pesquisas desenvolvidas, observou-se que outras áreas do Planalto Central Brasileiro (PCB) também indicaram a presença desse hiato de ocupação (Araújo, 2014; Araújo et al., 2003, 2005, 2006; Koole, 2014). Uma das principais teorias propostas é a de que, com as mudanças climáticas acontecidas a partir do final do Holoceno Inicial, ocorreu um déficit hídrico, que resultou em um clima mais seco e uma baixa nos recursos de subsistência. Com isso, humanos que ocuparam a região migraram para áreas com ambientes mais ricos em recursos (Araújo et al., 2003, 2005, 2006).

As comparações realizadas pelos autores também indicam que, enquanto o PCB sofria com um estresse hídrico e os indícios de ocupação humana regionais desapareciam, no Sul do Brasil os dados eram contínuos e o clima manteve-se úmido, ou seja, as datações contínuas através do Holoceno não indicam que um hiato tenha ocorrido nessa região (Araújo et al., 2003, 2005, 2006).

No entanto, há hipóteses que defendem que as pessoas podem ter tomado diferentes decisões frente ao déficit hídrico durante o Holoceno Médio. Bueno e Isnardis (2018) propõem que uma mudança climática resultou, em verdade, em uma adaptação no sistema de mobilidade e nas práticas de ocupação do território, mas que não houve grandes abandonos de uma paisagem que, há muito tempo, era conhecida, sendo familiar aos seus ocupantes.

Nossa hipótese principal, comum à de outros autores (Rodet, 2006, 2009; Rodet et al., 2011; Sousa et al., 2020, 2022), está associada ao fato de que as oscilações climáticas não poderiam, sozinhas, ter sido as responsáveis pelas alterações na dinâmica social e na ocupação dos territórios, sobretudo em abrigos do PCB. De qualquer forma, temos ciência da gradual baixa na temperatura, favorecida, principalmente, pelas dificuldades de descolamentos das massas úmidas na parte central da América do Sul (Ledru, 1993).

Todavia, essas oscilações, que acarretaram a diminuição da pluviosidade, atingiram diretamente os territórios onde essas pessoas se estabeleciam, suas vivências e experiências? Um déficit hídrico influenciaria diretamente os territórios consolidados, com ontologias e ancestralidade estabelecidas? Como se deram essas mudanças? Foram lentas ou repentinas? Quão grande foi esse estresse hídrico e de temperaturas anuais em Serra Negra durante o Holoceno Médio?

Mediante esse emaranhado de questões, nossa discussão visa compreender como a união de dados paleoambientais e arqueológicos pode permitir o entendimento (ou mesmo inferências) das vivências no tempo-espaço de populações do Alto Vale do Araçuaí durante todo o Holoceno, em especial o Médio (ou seja, entre 8.326 e 4.200 anos AP – datas calibradas; Quadro 1). Essa inquietação se fundamenta, portanto, nos estudos interdisciplinares (Leis, 2005), com o objetivo de entender o paleoambiente desse território e suas implicações (ou efeitos) para a vida dos povos desse território (International Chronostratigraphic Chart, 2020)2.

Para a região de Diamantina (onde está inserido o Alto Araçuaí), os estudos estão subdivididos em duas áreas distintas: (a) Planalto Diamantinense, pesquisado pelo Setor de Arqueologia do Museu de História Natural e Jardim Botânico da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), produtor de conhecimento significativo sobre a região e responsável por identificar um vasto repertório cultural da passagem do Pleistoceno para o Holoceno e do Holoceno Superior (Isnardis, 2009); (b) Serra Negra, pesquisada pelo Laboratório de Arqueologia e Estudo da Paisagem (LAEP/UFVJM), com resultados significativos acerca das trajetórias dos povos, com ocupações ocorridas a partir do Holoceno Médio (Fagundes, 2022) (Figura 1).

Figura 1
Localização de Serra Negra. Mapa: França (2023).

Assim, o foco principal desta pesquisa centra-se no território de Serra Negra, composto por 77 sítios arqueológicos (conhecidos), todos implantados em abrigos rochosos de afloramentos quartzíticos proterozoicos pertencentes ao Supergrupo Espinhaço (Vasconcelos et al., 2018)3. Dos sítios arqueológicos já conhecidos, sete foram alvo de escavações sistemáticas, encontrando-se um registro arqueológico diversificado, datado do Holoceno Médio, sem lapsos ocupacionais significativos. Assim, as cronologias estão distribuídas em dois períodos claros de ocupação: (a) Holoceno Médio (a partir de 7.169 anos AP, probabilidade média em Serra Negra) – ocupações de caçadores-coletores, ocorrendo em três épocas distintas; (b) Holoceno Superior (a partir de 4.200 anos AP) – ocupações realizadas pelos grupos que, além da coleta, pesca e caça, virão a praticar a horticultura, mesmo que incipiente (Quadro 1)4.

Quadro 1
Datações da região de Diamantina, Minas Gerais. Legendas: LAB = laboratório; PD = Planalto Diamantinense; AMS = espectrometria de massa com aceleradores; 14C/LSC = datação via liquid scientilation couting (contagem por cintilação líquida); SN = Serra Negra; LOE = datação por luminescência oticamente estimulada, utilizando 15 alíquotas de sílica do sedimento para análise.

Todos os abrigos possuem uma rica materialidade que inclui: (a) arte rupestre extremamente complexa, associada ao que foi definido por Tradição Rupestre do Planalto, descrita por Prous (2019) para o PCB, e vista como um advento do Holoceno Médio por Bueno e Isnardis (2018); (b) conjuntos líticos em diferentes estágios de produção, desde detritos até instrumentos acabados e mais bem elaborados (formais), principalmente em quartzo anédrico, tais como: instrumentos bifaciais, raspadores unifaciais e raspadores plano-convexo (Perillo Filho, 2024); (c) fragmentos cerâmicos extremamente raros na região, todos finos, com queima reduzida – quatorze vestígios em estratigrafia no sítio Cabeças 4; (d) estruturas de combustão, sempre muito pequenas, não ultrapassando 50 cm de diâmetro, sem uma estruturação visível/definida; (e) raros vestígios faunísticos e botânicos, além dos sedimentos, onde foram coletados fitólitos e material para datação por OLS (Chueng et al., 2018, 2023; Fagundes, 2019, 2022; Fagundes et al., 2024; Perillo Filho, 2024; L. Silva, 2017).

No que diz respeito à arte rupestre em Serra Negra, as pesquisas de Greco (2019) têm contribuído para os nossos estudos. Fazendo uso de uma visão estruturalista, o autor buscou não condicionar função, razão e poder da arte rupestre, fato que, segundo suas análises, limitaria o potencial da humanidade de pensar, fazer ou querer diferente; de se (re)pensar, se (re)fazer e se querer sob outras lógicas: de mudar. Isso porque é inquestionável a habilidade imensurável da humanidade de se (re)interpretar e se relacionar, consigo e com seu meio, em processos múltiplos de usos da natureza, dinâmica social e contextos culturais (Greco, 2019).

Para tanto, Greco (2019) considera a arte rupestre como um sistema de códigos que só funciona e tem função em sua lógica própria, ou seja, só tem sentido dentro de seu contexto, lugar e paisagem, sendo uma ação de estruturação das organizações e elaborações humanas, isto é, a arte rupestre se dá de modo coletivo e enquanto pensamento inconsciente. Logo, as pesquisas de arte rupestre em Serra Negra não têm se preocupado com tipologias ou identificação das figuras. A compatibilidade entre elas se deu de maneiras diferentes,

. . . em que o posicionamento da figura em relação às demais do conjunto passa a ser o vetor de agência, em detrimento até da própria forma da figura. Ou seja, é possível inferir que a unidade mínima de significação dos processos de constituição dos painéis era maior que a forma das figuras, seja de antropomorfo ou zoomorfo, e se dava no jogo de posicionamento entre elas. Logo, os estratos de pinturas não foram entendidos como camadas que se encaixam, mas sim como membranas que se aglutinam, e também interagem com todas as cores que estão na paisagem

(Fagundes et al., 2021a, p. 88).

Mesmo não sendo o problema deste texto, cumpre destacar o valor atribuído à arte rupestre em Serra Negra, independentemente de seus significados. Trata-se de um conjunto de símbolos que continua, em cada geração, a renovar sua importância, seu valor e tem sua interpretação atualizada (Cosgrove, 1984; Fagundes et al., 2021a, 2021b, 2024).

Entendemos, assim, que a paisagem envolvente é uma construção simbólica no sentido de que é tanto um constructo como um vetor de ação humana, não se resumindo apenas à materialidade vista na própria arte. Isso se dá porque a paisagem (e a arte rupestre nela) é uma criação fenomenológica; desse modo, ela se insere pelas atividades humanas nos movimentos da vida social (Fagundes et al., 2021a).

Além disso, Appoloni et al. (2019) realizaram medidas in situ utilizando o equipamento portátil de fluorescência de raios-X por dispersão em energia nos sítios Cabeças (1 ao 5) e Três Fronteiras (1 ao 7). Os resultados mostraram grande diversidade nas tintas, sobretudo nas vermelhas. Os pigmentos vermelhos apresentaram maior concentração dos elementos Al, P, S, K, Ti e Fe em relação à rocha sem pintura. A alta concentração de Fe indica a presença da hematita. Já os pigmentos amarelos apresentaram maior concentração de Al, P, S, Ca, Ti, Mn, Fe e Ni em relação à rocha sem pintura. Além do elemento-chave Fe, o vermelho se caracteriza pela alta concentração de P, S e K, e o amarelo, pela alta concentração de Si, Ca e Ti. Essas análises preliminares mostram duas categorias de pigmentos vermelhos do tipo terra, ocre de óxido de Fe, sendo um deles mais escuro devido à clara presença de óxido de Mn.

Feita essa síntese sobre a arte rupestre a fim de complementar as análises que se seguirão, este texto foca nos dados paleoambientais que foram obtidos, sobretudo, por meio do exame de fitólitos e da palinologia, além das datações por Carbono 14 – feitas por acelerador de espectrometria de massa (AMS) e contagem de cintilação em meio líquido (LSC) – e Luminescência Opticamente Estimulada (OSL ou LOE), todos utilizados para buscar marcadores de impactos ambientais provocados por mudanças climáticas e, principalmente, para verificar como puderam (ou não) afetar as vivências, uso dos sítios arqueológicos, cosmologias e, sobretudo, todos os processos de formação do registro arqueológico.

Os dados também pretendem contribuir para entender como humanos do Holoceno Médio conseguiram, em longa duração, apropriar-se dessa fisiografia para o estabelecimento de seus conhecimentos e vivências: cosmologias, paisagem, territórios, captação de recursos, além dos aspectos dos comportamentos, ancestralidades, tecnologias sociais e cultura, os quais, aliás, perduram até hoje (Fagundes et al., 2024; Greco et al., 2021; F. Silva, 2024).

A literatura arqueológica, como indicado, tem apontado para a mobilidade populacional dos abrigos do PCB durante este período, provavelmente causada pelas oscilações climáticas (Araújo, 2014), enquanto outros autores sugerem diferentes usos das tecnologias sociais entre os Holocenos Inicial e Médio (Bueno & Dias, 2015; Bueno & Isnardis, 2018). Ainda para outros autores, apesar dessas variantes tecnológicas, sobretudo nos conjuntos líticos, o PCB nunca deixou de ser vivido em diferentes formas de ocupação, seja para o Vale do Peruaçu, Jequitaí, Vale do São Francisco, Serranópolis ou Santana do Riacho, para citar alguns poucos (Borella, 2022; Fagundes, 2022; Perillo Filho, 2024; Sousa et al., 2020, 2022; Rodet, 2006, 2009; Rodet et al., 2011, 2020).

Apesar de alguns desses autores supracitados terem uma visão divergente, se assim podemos nos referir, sobretudo sobre a mobilidade do PCB, onde pessoas se moviam por questões além de mudanças climáticas, essa questão está muito mais próxima, ao que parece, da realidade em Serra Negra, Alto Araçuaí, Minas Gerais, claramente uma região de ecótono muito próxima do Vale do Rio Doce, mais inserida no Alto Araçuaí, portanto no PCB (Gontijo, 2022).

Assim, dados obtidos em escavações através de estudos de fitólitos e palinológicos de sedimentos arqueológicos, perfis de solo próximos aos assentamentos e turfeiras, indicam outras possibilidades para o entendimento das ocupações humanas em Serra Negra (Bispo et al., 2015; Costa, 2018; Costa et al., 2022; Chueng et al., 2018, 2023; Horák-Terra et al., 2011, 2020; Machado et al., 2021; M. Silva & A. Silva, 2017).

MATERIAIS E MÉTODOS

Neste artigo, procurou-se comparar os resultados dos estudos arqueológicos da região de Serra Negra com estudos paleoambientais realizados nas proximidades. Dentre esses estudos, destacamos os que trabalharam com materiais de sítios arqueológicos. Chueng et al. (2018) utilizaram fitólitos como proxy para as condições paleoambientais do sítio Cabeças 4 de um perfil de Organossolo próximo ao sítio arqueológico, em Felício dos Santos, Minas Gerais. Posteriormente, os autores também trabalharam em duas das cinco quadrículas escavadas (5 m2), localizadas em um abrigo rochoso formado pelo abatimento de rochas quartzíticas na Serra do Matão, Alto Araçuaí, borda leste da SdEM (Chueng et al., 2023). Foram calculados índices fitolíticos como a densidade de cobertura arbórea (D/P), o estresse hídrico (Bi%) e o índice climático (Ic%) (Chueng et al., 2018, 2023).

Todas as idades de radiocarbono são relatadas como anos AP (antes do presente - 1950) e normalizadas para resultados individuais de δ13C (Stuiver & Polach, 1977). Todas as novas idades 14C foram calibradas de acordo com a curva do modelo SHcal20 (Hogg et al., 2020), considerando incertezas 2 sigma no programa CALIB 8.20 (Stuiver et al., 2021) e idades 14C obtidas da literatura, recalibradas pelo mesmo método para comparar resultados de idades semelhantes, sendo eles relatados como cal. AP. O modelo de idade foi desenvolvido no CLAM, usando a regressão linear simples entre cada ponto de empate de idade, com intervalo de confiança de 95% (Blaauw, 2010), também calibrado de acordo com a curva do modelo SHcal20 (Hogg et al., 2020).

Os resultados cronológicos do SdEM (Quadro 1) foram obtidos por pesquisas realizadas pela UFMG e LAEP/UFVJM, em um total de 44 datas ao longo do Holoceno, com base em treze sítios arqueológicos. Como já dito, os resultados da datação por radiocarbono foram realizados para esta pesquisa usando o acelerador de espectrometria de massa (AMS) pelo Laboratório BETA Analytic e no Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (CENA/USP) pelo método de contagem de cintilação em meio líquido (LSC).

Os dois diferentes métodos de datação de radiocarbono oferecem datações confiáveis; a principal diferença está na quantidade de material disponível para a análise, visto que é um método destrutivo. Além disso, a precisão do LSC é inferior, fornecendo eventualmente erros pouco maiores nas idades do que o método de 14C. Apesar disso, o intervalo de idades apresentado por ambos os métodos se sobrepõe, não oferecendo inconsistência cronológica nas interpretações apresentadas, independentemente do sítio estudado.

CRONOLOGIAS DOS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS DO ALTO JEQUITINHONHA

As ocupações humanas regionais podem ser agrupadas em três períodos distintos do Holoceno, obtidas da escavação de quatorze sítios arqueológicos, nos municípios de Diamantina, Felício dos Santos, Itamarandiba e Senador Modestino Gonçalves (Figura 1), a saber: (a) Holoceno Inicial – com cronologias entre 12.500 e 8.000 cal. anos AP, em quatro sítios arqueológicos no lado sul de Diamantina, todos localizados na bacia do São Francisco; (b) Holoceno Médio – obtidos durante a escavação de três sítios arqueológicos em Serra Negra (Cabeças 4, Três Fronteiras 7 e Sampaio), com cronologias entre 7.169 até 4.388 cal. anos AP (data 14C, probabilidade média); todos os assentamentos estão localizados na bacia do rio Jequitinhonha; (c) Holoceno Superior – com cronologias a partir de 4.200 anos AP até a invasão dos territórios indígenas pelos europeus, obtidas em dez sítios arqueológicos, localizados nos municípios mineiros de Diamantina, Itamarandiba, Senador Modestino Gonçalves e Felício dos Santos (Quadro 1).

Os sítios arqueológicos com datações mais antigas estão todos localizados no Planalto Diamantinense, incluindo datas entre 12.549 e 9.481 cal. anos AP (probabilidade média). As datas mais antigas estão na faixa de 12.000 cal. anos AP, e todos os locais foram estudados por Isnardis e sua equipe (Isnardis, 2009; Isnardis & Linke, 2021; Linke et al., 2020). O mais conhecido é o sítio Lapa do Caboclo, sobretudo pelos sepultamentos encontrados nas suas camadas iniciais, embora exista também a datação obtida para o sítio arqueológico Lapa do Peixe Gordo (Isnardis, 2009). Ambos são abrigos sobre rocha quartzítica, localizados em áreas de campos rupestres, um dos quatro tipos de Cerrado stricto sensu. Esta fitofisionomia, estabelecida sobre um substrato rochoso, inclui exemplares herbáceos e arbustivos com menos de dois metros de altura, adaptados a altitudes elevadas, ventos fortes e variações extremas de temperatura (J. Ribeiro & Walter, 2008).

Segundo Isnardis (2009), o material lítico associado a essas cronologias mais antigas é majoritariamente em quartzito, com componentes muito homogêneos e cores diversas, características que permitiram a obtenção de lascas para a produção de ferramentas de rochas/minerais. Os principais vestígios são plaquetas retocadas com perfil distal curvo. As estruturas de combustão, das quais resultaram cronologias, são pequenas, com diâmetro não superior a 50 cm, sem blocos associados, pouca profundidade e carvões pouco abundantes, sendo que o mesmo ocorre com restos faunísticos. Essas características permitiram ao autor inferir tratar-se de acampamentos temporários.

Quanto às cronologias do Holoceno Médio, elas eram desconhecidas no Alto Araçuaí, Minas Gerais, sendo evidenciadas nas escavações dos sítios Cabeças 4, Três Fronteiras 7 e Sampaio, todos em Felício dos Santos, Minas Gerais, nas nascentes do rio Araçuaí. As cronologias e os dados obtidos nas escavações desses assentamentos são de extrema importância para a Arqueologia, em um ambiente igualmente estável, conforme foi observado pelos dados do paleoambiente (Figura 1; Quadro 1) (Bispo et al., 2015; Costa, 2018; Costa et al., 2022; Chueng et al., 2018, 2023; Horák-Terra et al., 2011, 2020; Machado et al., 2021; M. Silva & A. Silva, 2017). As cronologias mais recentes, do Holoceno Superior, foram alcançadas tanto nos sítios do Planalto Diamantinense quanto em Serra Negra. Segundo Isnardis (2009), apesar de haver apenas datações absolutas do sítio Lapa do Caboclo (datação de 1.087 cal. anos AP, probabilidade média), outros sítios estudados pelo autor e sua equipe apresentam camadas sedimentares associadas a esse período, onde é forte a evidência de horticultura (milho ainda não modificado geneticamente), embora com pouquíssimos fragmentos cerâmicos (Isnardis, 2009). Em Serra Negra, todos os sítios escavados apresentaram estratigrafias e materialidades do Holoceno Superior, entretanto os materiais orgânicos são muitos raros, em função da acidez do solo, sendo evidenciados poucos ossos de pequenos mamíferos e sementes não identificadas (Fagundes, 2022).

PALEOAMBIENTES NO TERRITÓRIO DE SERRA NEGRA

As amostras coletadas em sequência no perfil situado dentro da escavação do sítio Cabeças 4 (todas as quadrículas escavadas) e no perfil de um Organossolo próximo ao sítio indicaram a predominância dos tipos de fitólitos relacionados à vegetação de gramíneas (Poaceae) e de palmeiras (Arecaceae) (Chueng et al., 2018). A comparação entre os perfis possibilitou encontrar os mesmos tipos de fitólitos, indicando uma vegetação semelhante à atual. Logo, os dados sugerem que, na faixa cronológica de ocupação do sítio arqueológico, sobretudo durante o Holoceno Médio, a região foi coberta predominantemente por campos rupestres, com estresse hídrico moderado (Chueng et al., 2018). Além disso, a boa preservação dos fitólitos, distribuídos de forma homogênea em profundidade e com índices que não variaram ao longo do perfil, sugeriu condições estáveis (Figura 2).

Figura 2
Dados paleoclimáticos das regiões do Planalto Diamantinense e de Serra Negra.

Esses resultados corroboram as pesquisas arqueológicas já desenvolvidas na área, que destacam essa região como propícia para a ocupação de grupos de caçadores-coletores e horticultores que souberam utilizar muito bem os recursos que esse ecótono proporcionava (e proporciona) (Gontijo, 2022).

Resultados semelhantes foram encontrados por Chueng et al. (2023) no sítio Matão 1. A vegetação atual é considerada um ecótono entre a floresta estacional, o Cerrado e os campos rupestres (Gontijo, 2022). Em todas as amostras analisadas, foram observadas grandes quantidades de fitólitos muito bem conservados. Durante o período observado (de cerca de 3.400 a 900 anos AP), predominaram os fitólitos de Poaceae e os de Arecaceae, provavelmente advindos da palmeira Syagrus ruschiana, abundante na região.

Assim, é inegável que há uma quantidade significativa de seixos, visível na escavação (Figura 3). Muitos desses seixos apresentam sinais de afundamento central ou marcas laterais que nos levaram a crer que estavam associados, unicamente, ao lascamento bipolar (Prous et al., 2012). Contudo, as análises de fitólitos realizadas por Chueng et al. (2023) apontaram para outra possibilidade de uso da materialidade escavada (quebra-coquinhos5), havendo uma quantidade imensa de fitólitos, em todas as camadas, de Poaceae (blocky, bulliform flabellate e acute bulbosus) e os de Arecaceae (spheroid echinate), como dito, provavelmente da palmeira Syagrus ruschiana, responsável por fornecer o chamado coco-de-pedra, apreciado pelas comunidades até hoje. Essas conclusões nos fizerem levantar o uso dos utensílios do sítio arqueológico, lembrando que a presença de fitólitos é marcante em todas as camadas de ocupação do assentamento (Chueng et al., 2023).

Figura 3
Seixos do sítio Matão 1, Serra Negra, Minas Gerais.

Machado et al. (2021) contribuíram para a reconstrução paleoambiental das cabeceiras do rio Preto (afluente da margem esquerda do Araçuaí), próximas aos sítios arqueológicos, utilizando biomineralizações de sílica associadas a outros indicadores (análise multiproxy). Os autores inferiram que não houve alteração nas fitofisionomias a partir de cerca de 23.330 cal. anos AP até o presente, embora tenha sido possível identificar quatro períodos com oscilações entre um ambiente mais frio e seco no Pleistoceno Superior, que gradualmente se tornou mais quente e úmido no Holoceno Superior (Figura 2). De todos os períodos analisados por Machado et al. (2021), o que trata do Holoceno é o que mais nos interessa. Nele não ocorreu alteração na cobertura vegetal, havendo uma tendência de aumento gradativo da temperatura.

Bispo et al. (2015), utilizando datações isotópicas 14C e δ13C, realizadas em duas turfeiras nas cabeceiras do rio Araçuaí, a quatro quilômetros da área amostrada, detectaram uma mudança de clima mais seco para mais úmido entre 7.664 e 4.226 anos AP, com maior contribuição de gramíneas até 7.664 anos AP, e mistura de plantas, com contribuição de plantas lenhosas, até 4.426 anos AP.

Na turfeira de Rio Preto, os dados de Costa (2018) indicam uma tendência de aumento da umidade e da temperatura no Holoceno Superior. Outros estudos de paleovegetação no estado de Minas Gerais encontraram dados semelhantes no período. Por exemplo, Parizzi et al. (1998), com base em dados polínicos, registraram aumento gradativo da umidade em Lagoa Santa, Minas Gerais, a partir de 6.100 anos AP, enquanto, entre 5.300 e 4.600 anos AP, teria havido uma mistura de Cerrado com matas de galeria, e há aproximadamente 4.600 anos AP o clima teria sido semiúmido, semelhante ao atual.

As análises multiproxy de Costa et al. (2022) identificaram cinco fases para a turfeira Araçuaí na SdEM. Na fase 1 (8.900 a 6.600 anos AP), houve um período mais úmido com aumento de temperatura, exceto por um resfriamento pontual em 8.200 anos AP. A fase 2 (6.600 a 3.900 anos AP) apresentou tendência de decréscimo de temperatura. Na fase 3 (3.900 a 2.100 anos AP), houve redução da umidade e aumento de temperatura. Já na fase 4 (2.100 a 250 anos AP), ocorreu decréscimo na temperatura e aumento de umidade. Finalmente, na fase 5 (últimos 250 anos), as condições ambientais são semelhantes às atuais.

Horák-Terra et al. (2011), realizando estudos palinológicos em uma turfeira no município de Diamantina, Minas Gerais, a trinta quilômetros da área de estudo, obtiveram evidências de vegetação com plantas mais lenhosas, com expansão da floresta no Holoceno Superior/Médio (entre 8.090 e 4.100 anos AP), condição que levou os pesquisadores a concluírem que havia um clima regional mais úmido (Figura 2). Os autores mencionam ainda que ocorreu um período mais seco desde 2.500 anos AP até 430 anos AP, quando a umidade aumentou para as condições atuais.

Os estudos palinológicos de Behling (1995, 2003), na região de Lagoa Nova e Lago do Pires, indicam dois períodos consecutivos de umidificação no Holoceno Superior. De acordo com as análises polínicas de Meyer et al. (2014), a Turfeira Pau-de-Ferro, no SdEM, apresenta diversas oscilações de umidade ao longo da segunda metade do Holoceno. Desde 5.700 anos AP, as turfeiras tenderam a se transformar em um pequeno lago e as florestas se desenvolveram, indicando um clima muito úmido, com pico de 4.700 anos AP. Finalmente, Horák-Terra et al. (2020), desenvolvendo análises multiproxy na turfeira do Pinheiro, mostram que um clima mais úmido foi predominante na área do Cerrado desde o Holoceno Médio até os dias atuais.

Contudo, em outras regiões do PCB, estudos têm mostrado muitas semelhanças em relação aos realizados em Serra Negra. Sousa et al. (2020, 2022), por exemplo, discutem os sedimentos indicando o uso/a permanência constante dos abrigos, com presença de conjuntos líticos em todas as camadas. Esse fato ocorre em Serra Negra (Fagundes, 2022), mesmo porque nossa noção de abandono está mais próxima ao que foi discutido por Fagundes e Arcuri (2023).

Indiferente aos métodos que arqueólogos e outros pesquisadores estão utilizando, a discussão sobre o chamado Hiato do Arcaico deve ser levada muito a sério, uma vez que todos os autores citam ocupações ininterruptas durante o Holoceno Médio (Borella, 2022; Prous et al., 2011; Rodet, 2006, 2009; Rodet et al., 2011, 2020; Sousa et al., 2020, 2022).

OS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS DO HOLOCENO MÉDIO

Conforme será discutido adiante, as escavações de três sítios em Serra Negra obtiveram resultados inesperados no que tange às suas cronologias. A literatura indica que, ao longo do Holoceno Médio, houve: (a) quase nenhuma ocupação humana em abrigos (Araújo, 2014) ou (b) uso diferenciado dos sítios arqueológicos em abrigos (Bueno & Isnardis, 2018).

No entanto, para a área de estudo, os dados indicam que os abrigos continuaram a ser utilizados como centro gravitacional, assim como alguns foram usados como temporários neste território. De qualquer maneira, o registro arqueológico não informa qualquer tipo de abandono material (Borella, 2022; Fagundes, 2022; Fagundes & Arcuri, 2023; Prous et al., 2011; Rodet et al., 2011; Sousa et al., 2020, 2022).

Como já citado, Sousa et al. (2020), por exemplo, realizaram um estudo em sustentabilidade magnética (SM) focado na queima permanente de fogueiras em abrigos, distinguindo fatores naturais de antrogênicos. Para tanto, realizaram coletas de sedimentos de sítios arqueológicos da bacia do rio São Francisco (sítios Bibocas II, Santana do Riacho, Lapa da Passagem, Lapa do Boquete, Lapa Pintada etc.), inclusive da região amazônica. Concluíram, então, que houve uso constante de fogueiras antrópicas nesses locais, cooperado com a presença do lascamento de rochas e/ou minerais. De qualquer forma, a pesquisa tratou de diferenciar os incêndios arqueológicos daqueles de origem natural, cooperando, assim, com a hipótese de uso constante dos abrigos durante o Holoceno Médio.

Borella (2022), ao estudar os sepultamentos do sítio Caixa d’Água, em Buritizeiro, no vale do São Francisco mineiro, destaca a importância do assentamento, com 43 sepultamentos bem preservados e com datas do Holoceno Médio. Mesmo sendo um assentamento a céu aberto, o sítio, como a Lapa do Gentio, no vale do Peruaçu, é um abrigo onde as práticas de sepultamento ocorrem durante o Holoceno Médio, ou mesmo no nordeste do país, como o de Pedra do Alexandre ou Lapa do Buíque (Borella, 2022). Portanto, a prática de sepultamento em abrigos com datas do Holoceno Médio continua sendo uma realidade no PCB. Na letra da autora:

Em Lagoa Santa, não somente o uso dos abrigos como a área de deposição dos mortos parece ter sido abandonado como também o uso de práticas fúnebres cuja manipulação do corpo (e.g. descarnamento, corte e decapitação) desaparecem da região. A prática de se utilizar blocos para demarcação ou cobertura da estrutura funerária, em contrapartida, parece se manter em todo Brasil Central. Em sítios como Lapa do Boquete e também Caixa d’Água, os blocos de pedra eram utilizados para cobrir o indivíduo, delimitá-lo e/ou para “forrar” a cova funerária

(Borella, 2022, p. 307).

Assim, as ocupações durante o Holoceno Médio (sobretudo em abrigos) são comprovadas em outras regiões do PCB por estudos paleoambientais e arqueológicos, sendo que a hipótese do Hiato do Arcaico cai por terra quando comparada aos estudos de Borella (2022), Fagundes (2022), Rodet (2006, 2009), Rodet et al. (2011) ou Sousa et al. (2020, 2022).

De qualquer maneira, as oscilações climáticas têm sido frequentemente apontadas como a principal causa de mudança na implantação dos sistemas de assentamento, sendo muito provável que as populações que habitaram essas regiões por milênios tenham migrado para áreas ambientalmente mais estáveis (Araújo, 2014). Alguns autores também destacam mudanças no modo de vida dos grupos de caçadores-coletores em relação à mobilidade e às tecnologias sociais, havendo uma maior regionalização nas estratégias de uso da terra (Bueno & Isnardis, 2018).

Quando o primeiro abrigo escavado em Serra Negra apresentou cinco datas do Holoceno Médio, distribuídas em diferentes camadas de ocupação (Cabeças 4), entendeu-se que seria possível contribuir para a discussão com pontos relativos a: (a) extensão das escavações para abrigos com sistema de implantação semelhante ao sítio Cabeças 4; (b) execução de novas técnicas que poderiam contribuir para a compreensão das condições do território Serra Negra; (c) ampliação do quadro cronológico regional; (d) própria memória das populações indígenas do antigo Distrito Diamantífero, onde, além de essas populações terem sido aniquiladas fisicamente, suas memórias também foram anuladas e esquecidas.

Assim, nenhuma das conjeturas que buscam explicar o Hiato do Arcaico no PCB foi descartada. Na verdade, com base nessas teorias, buscou-se desenvolver análises que pudessem contribuir para a compreensão dessa realidade nos abrigos do território. Ou seja, para melhor compreensão desses dados e da discussão posterior, é necessário apresentar as principais características de implantação desses abrigos e as materialidades evidenciadas em sua escavação, especialmente no que diz respeito aos conjuntos líticos e à arte rupestre (Fagundes, 2022; Fonseca, 2023; Greco, 2019; Perillo Filho, 2024).

O sítio Cabeças 4 está localizado em um grande abrigo sobre rocha quartzítica em área de Floresta Tropical Semidecidual, na Serra do Gavião. Esta é atualmente uma área bem irrigada, que pode ser considerada uma zona de transição (Fagundes, 2022; Gontijo, 2022). A escavação ocorreu em 2013, abrindo uma área de 3 m2 até a profundidade de 70 cm, utilizando como técnica as decapagens por níveis naturais6 (Figuras 4A, 4C). A ocupação por grupos horticultores é representada por meio da identificação de fragmentos cerâmicos, material botânico e faunístico (raros devido à acidez desse sedimento); vários tipos de material lítico em quartzo (instrumentos expeditos ou de ocasião, sem usos posteriores, como lascas retocadas) e uma lâmina de machado completa polida em batólito do Itanguá (uma rocha básica). A datação foi do século XIV, em 480 ± 30 anos AP (calibrada entre 531 e 541 cal. anos AP).

Figura 4
Sítio Cabeças 4, Felício dos Santos, Minas Gerais: A) escavação; B) material lítico associado aos grupos de caçadores-coletores; C) imagem do final da escavação; D) arte rupestre do teto do abrigo.

Durante o Holoceno Médio, ou seja, entre 7.259-7.154 e 4.449-4.287 cal. AP. (Quadro 1), o sítio está marcado pela presença de pelo menos três ocupações de caçadores-coletores entre o nível 11/12 ao final da escavação, com indícios de conjuntos líticos, destacando-se a presença do quartzo7 (87,42% do total, equivalente a 2.353 vestígios), além de quartzito e fragmentos de óxido de ferro (totalizando 2.788 vestígios). A técnica de lascamento unipolar com uso de percutor duro é predominante, apesar de 6% do material terem sido obtidos pela técnica bipolar (Perillo Filho, 2024). Entre os vestígios, a presença majoritária é de resíduos do processo de redução do núcleo, com quantidade significativa de lascas de debitagem e façonagem. Além desses refugos, também foram evidenciados vários instrumentos (plano-convexos, lascas retocadas, raspadores, furadores etc.), núcleos e percutores (Fagundes et al., 2022; Perillo Filho, 2024; L. Silva, 2017) (Figura 4B).

No horizonte mais antigo, associado aos grupos de caçadores-coletores, observou-se a existência de três ocupações distintas, as quais foram comprovadas por meio de datações por radiocarbono (Quadro 1). Apesar da aparente estabilidade técnica dos conjuntos líticos, há nuances importantes para a discussão a seguir:

  1. Primeira ocupação – ocorreu entre 6.290 ± 30 e 6.140 ± 40 anos AP, calibrada entre 7.259 e 6.854 cal. anos AP, onde pode ser observada a produção de artefatos bifaciais, principalmente em cristal de quartzo anédrico. Há ocorrência discreta de quartzito, uma quantidade significativa de pequenas lascas de façonagem e retoque, e uma baixa densidade de artefatos acabados (formais). A evidência dessas grandes concentrações de lascas é decorrente de processos secundários de redução, ou seja, sem a presença de córtex, e pode indicar que a redução inicial ocorreu nas fontes de matéria-prima (menos de 50 metros do local), com produção de artefatos ocorrendo no abrigo8;

  2. Segunda ocupação (camada intermediária) – ocorreu entre 6.035 e 5.912 anos AP (datas calibradas). A predominância de quartzo anédrico continua nos conjuntos líticos, com menor uso de quartzito, alguns dos quais de origem exógena9, como um fragmento mesial de um artefato unifacial sobre uma plaqueta de quartzito (Figura 4B-3). A quantidade de detritos provenientes de processos de redução secundária permanece elevada, embora a partir daqui se observe a presença de diversos instrumentos (lascas unipolares, raspadores, furadores etc.), obtidos por meio do lascamento unipolar com uso de percussão direta dura (Figuras 4B-1, 4B-2);

  3. Terceira ocupação – entre 4.010 ± 40 e 3.980 ± 30 anos AP (calibrada em 4.532 e 4.287 anos AP), apresenta em sua maioria detritos de processo de debitagem mais avançada, diminuição das lascas secundárias (façonagem e retoque), com presença mais nítida de detritos e lascas unipolares sem modificação das bordas.

Em síntese, pode-se dizer que os conjuntos líticos nesse sítio eram claramente baseados na exploração de blocos/veios de quartzo anédricos, com forte presença de lascas de retoque e façonagem, especialmente em níveis mais antigos, sobretudo para a produção de instrumentos formais unipolares, na maioria, e bipolares10 (Figuras 4B-4, 4B-5, 4B-6). Há uma tendência à produção de instrumentos sobre lascas e, embora tenham sido detectadas lascas bipolares (12, equivalentes a 6% de toda a montante), a tecnologia unipolar com uso de percutor duro é majoritária, com 94% (2.620 vestígios) das lascas estudadas (Perillo Filho, 2024; L. Silva, 2017).

Essa característica está associada ao modo como a matéria-prima mineral ocorre na região, na forma de blocos/veios anédricos, existindo poucas lascas com córtex presentes no registro arqueológico estudado. Por outro lado, há grandes concentrações de pequenas lascas oriundas do processo de lascamento secundário, uma vez que a maior parte dos vestígios, como já dito, está sem a superfície cortical, principalmente devido ao processo de pré-preparação dos núcleos, provavelmente no local de captação da matéria-prima, muito perto dos abrigos, como mencionado na nota de rodapé nº 10.

As análises de diversos autores indicam a presença de tecnologia social notoriamente de ocasião (ou expedita) para esse período (fase 4 de ocupação do PCB, segundo Bueno e Isnardis, 2018). No entanto, os resultados das análises dos conjuntos líticos do sítio Cabeças, especialmente para as camadas mais antigas entre 7.259 e 6.854 cal. anos AP, apresentam grande concentração de lascas de façonagem e retoque, indicando que esse conjunto contou com elaboração de instrumentos formais (ou de curadoria), apesar dos raros exemplos de todos os produtos da cadeia operatória (Fagundes et al., 2017, 2022; Fagundes & Perillo Filho, 2018; Perillo Filho, 2024; L. Silva, 2017; Soressi & Geneste, 2011).

Esse dado indica uma alta especialização no manejo da matéria-prima para lascamento, associada ainda à elaboração de instrumento formal (curado). No sítio, não foi identificada grande quantidade de instrumentos formais; no entanto, esse tipo de lasca pode estar associado diretamente a técnicas de redução ligadas a um maior controle do suporte de lascamento para elaboração de instrumentos. Ademais, podemos também associar a presença de lascas de pequeno porte com negativos centrípetos, perfis curvilíneos à intenção de realizar não apenas reduções volumétricas no suporte, mas também modificações morfológicas, transformando a lasca bruta no instrumento curado/formal intencionado.

Devemos nos lembrar que nossas análises economicistas (reducionistas) só pensam nos instrumentos líticos, exclusivamente, para questões cotidianas (para a caça, por exemplo). Percepção da paisagem, cosmologias, relações de poder, identidades (coletiva ou individuais), conflitos, agências, entre outros aspectos, estavam presentes na vida material e nas vivências dessas pessoas, mesmo que para isso usemos de hipóteses e inferências (ou mesmo de outros vestígios arqueológicos, como a arte rupestre), já que sabemos o quão difícil é a observação de todas essas características via conjuntos líticos, exclusivamente, mesmo se tratando de Homo sapiens sapiens (Dietler & Herbich, 1998; Schlanger, 1992; F. Silva, 2024; Wiessner, 1983).

Dessa forma, aqueles elementos não podem ser esquecidos nas análises sobre a materialidade, mesmo que sejam atos subjetivos. Nesse caso, inferências se fazem indispensáveis, muitas vezes buscando na arqueologia etnográfica algumas proposições. Porém, tem-se consciência de que a analogia direta não deve ser realizada, sendo um grave perigo para as pesquisas arqueológicas (Dietler & Herbich, 1998; Fagundes & Arcuri, 2023; Fagundes et al., 2024; Hamilakis & Anagnostopoulos, 2009; Isnardis & Linke, 2021; González-Ruibal, 2006, 2017; Schlanger, 1992; F. Silva, 2013, 2024; Wiessner, 1983).

O sítio Sampaio está implantado num abrigo quartzítico situado em meia encosta, no município de Felício dos Santos, próximo à nascente do rio Araçuaí, onde foi realizada uma escavação de 1 x 1 metro (1 m2). Apesar de ter espaço significativo nessa escavação, grande parte dela é composta por solo rochoso (Figuras 4B, 4C e 5A). Os resultados indicaram três camadas estratigráficas de ocupação, entre as quais apenas a última foi datada, em 4.280 ± 30 anos AP (4.870 a 4.797 anos cal. AP), em um total de 336 vestígios líticos evidenciados. O sítio foi estudado por Fagundes et al. (2017), estando composto majoritariamente de quartzo anédrico (276 peças, equivalentes a 84,96% do total), embora existam também materiais em quartzito (46 peças, equivalentes a 14,11%), óxidos de ferro (duas peças, equivalentes a 0,61%) e sílex (duas peças, equivalentes a 0,61%). Trata-se de uma indústria baseada no lascamento unipolar, sendo o único tipo utilizado neste conjunto. Quanto à morfologia, o conjunto lítico é composto majoritariamente por partes de lascas (91,70%, equivalentes a 299 vestígios), seguido de instrumentos, sobretudo lascas retocadas (2,44%, equivalentes a oito vestígios), lascas com marcas de utilização (4,29%, equivalentes a 14 vestígios) e plaquetas naturais (1,53%, equivalentes a cinco vestígios) (Fagundes et al., 2017).

A escavação do abrigo Três Fronteiras 7, na cidade de Senador Modestino Gonçalves, Minas Gerais, ocorreu em julho de 2017, por meio de decapagem natural (Figuras 5E, 5G, 5H). Ao final do processo de intervenção, pôde-se observar que o comportamento estratigráfico permaneceu o mesmo nas seis quadrículas escavadas (total de 6 m2), com três camadas estratigráficas distintas no mesmo espaço escavado, sem qualquer tipo de separação (Figura 5F), resultando na identificação de quatro estruturas de combustão e um total de 4.157 itens de material lítico (Fagundes et al., 2020; Perillo Filho, 2024)11. Quanto à matéria-prima, pelo fato de o sítio se encontrar muito próximo dos locais de afloramentos de blocos de quartzo (anédrico), esse mineral representa 95,88% do total (3.986 peças), seguido pelo sílex (3,22%, ou seja, 134). Juntos, arenito silicificado, hematita e quartzito representam 0,9% (37 vestígios) do material lítico encontrado na escavação. Portanto, o conjunto lítico do sítio Três Fronteiras 7 é marcado pela predominância do quartzo para produção de instrumentos, utilizando no lascamento a percussão direta com uso de percutor duro, embora em alguns exemplares tenha havido o uso de retoque com percutores macios (com presença de lábios sobressalentes em alguns vestígios). Por outro lado, entre os vestígios recuperados na escavação, há uma quantidade significativa de pequenas lascas de façonagem, indício de que os artefatos podem ter sido produzidos localmente e levados para outras áreas. Contudo, os detritos do processo de debitagem in situ cobrem 98% do conjunto artefatual em quartzo, em que lascas e instrumentos têm um número insignificante (Fagundes et al., 2020; Perillo Filho, 2024). Entre os principais instrumentos in situ, podemos ditar as lascas com retoques e pequenos raspadores unifaciais.

Figura 5
Escavações dos sítios Sampaio e Três Fronteiras 7: A-B) processo de escavação do sítio Sampaio; C) grafismos do sítio Sampaio, painel B; D) aspecto geral da fisiografia de Três Fronteiras; E-H) processo de escavação do sítio Três Fronteiras 7, com destaque para a estratigrafia com datações radiocarbônicas.

OCUPAÇÕES HUMANAS DURANTE O HOLOCENO MÉDIO EM ABRIGOS DO PLANALTO CENTRAL BRASILEIRO

A diversidade de sítios e de registro arqueológico associada ao Holoceno Inferior (Araújo, 2014; Bueno & Dias, 2015; Bueno & Isnardis, 2018; Rodet, 2006, 2009) não ocorre com a mesma frequência, variedade e densidade durante o Holoceno Médio. De qualquer forma, essa escassez de cultura material em estratigrafia provocou debate sobre o que pode ter levado ao provável abandono de paisagens inteiras durante quase quatro milênios, com breves interrupções (Bueno & Isnardis, 2018, p. 107).

Sabemos que, embora muitas áreas brasileiras estivessem densamente ocupadas durante o Holoceno Inferior – por exemplo, Serra da Capivara, no estado do Piauí; região cárstica de Lagoa Santa, Vale do Rio Peruaçu, região de Montalvânia e Planalto Diamantinense, no estado de Minas Gerais; bacia hidrográfica do rio Tocantins; Santa Elina, no estado de Mato Grosso, entre outras (Bueno, 2007; Bueno & Dias, 2015; Bueno & Isnardis, 2018; Isnardis, 2009; Lourdeau, 2019; Prous et al., 1984; L. Ribeiro, 2006; Rodet, 2006; Vialou, 2005) –, no Holoceno Médio há uma baixa no número de datas, o que não significa que todo o PCB foi despovoado por questões de oscilações climáticas (Rodet, 2006) (Figura 6).

Figura 6
Áreas arqueológicas brasileiras com datações do Holoceno Inferior. Mapa: Perillo Filho, 2023.

Ao longo dos anos, algumas hipóteses foram levantadas a esse respeito. Há autores que sugerem o despovoamento daquelas áreas como resultado de fortes instabilidades climáticas (sobretudo, no índice hídrico), o chamado Hiato do Arcaico. Nesse cenário, grandes contingentes de grupos de caçadores-coletores migraram para outras regiões (Araújo, 2014; Araújo et al., 2003, 2005, 2006), alterando o sistema de povoamento, a implantação de sítios arqueológicos e tecnologias sociais, bem como o seu território e, consequentemente, a sua paisagem, o que implicaria mudanças em suas concepções de mundo ou cosmologia (ordinário e extraordinário) ou agências, estratégias fundamentais para o seu modo de vida (F. Silva, 2024).

Para discutir o Hiato do Arcaico, vários pesquisadores têm baseado seus trabalhos na revisão de estudos paleoambientais regionais, especialmente para a região cárstica de Lagoa Santa, no estado de Minas Gerais, a cerca de duzentos quilômetros de Serra Negra, em linha reta (Araújo, 2014; Araújo et al., 2005, 2006). Nos estudos de Araújo (2014) são apresentados dois pacotes ocupacionais claros para os locais pesquisados: (a) um com cronologias entre 10.300 e 7.000 anos AP; (b) outro entre 1.960 e 900 anos AP. A priori, haveria um grande lapso de ocupações de quase cinco mil anos, o que, segundo o autor, se repete em outras regiões do PCB, tais como locais no vale do São Francisco, a exemplo de Diamantina, Montalvânia, Peruaçu, Montes Claros, Jequitaí, sítio Caixa d’Água etc. (Borella, 2022; Bueno & Dias, 2015; Isnardis, 2009; Prous et al., 1984; L. Ribeiro, 2006; Rodet, 2006, 2009; Rodet et al., 2011, 2020; Sousa et al., 2020, 2022).

Com base em estudos paleoclimáticos, Araújo (2014) indica que, para a região cárstica de Lagoa Santa, o Holoceno Médio é marcado por inconstância climática, com sucessões de episódios de seca e de umidade extrema. Ou seja, “... o abandono da área poderia ser desencadeado não por uma seca generalizada, mas por um ambiente muito inconstante e, portanto, pouco fiável” (Araújo, 2014), afetando fortemente o modo de vida das populações, cuja alimentação se baseava na coleta de produtos vegetais (dados encontrados por meio de análise dentária de esqueletos e registro botânico dos sítios) (Araújo, 2014).

Com novos resultados sobre cronologias para a região e dados revisados, Araújo (2014) indica que esse grande lapso temporal de cinco mil anos foi interrompido por ocupações mais discretas, entre 5.300 e 4.000 anos AP. Sua hipótese, portanto, é de que as oscilações climáticas foram responsáveis por uma reviravolta na forma de como esses caçadores-coletores se apropriaram de seus territórios, com abandono da paisagem original (pelo menos parcialmente), constituindo uma nova paisagem, mantendo a antiga como parte de um território expandido (ancestral).

Em contrapartida, em uma revisão da discussão, Bueno e Isnardis (2018) apresentam outra perspectiva baseada teoricamente nos conceitos de território, mobilidade e tecnologia. Eles indicam mudanças de acordo com períodos distintos entre os Holocenos Inferior e Médio (num total de quatro períodos), que teriam impactado, sui generis, o modo de vida dos grupos humanos, levando em consideração aspectos que vão além das questões geoclimáticas (ou fisiográficas), havendo uma conjunção de culturas socialmente definidas, bem como estratégias com impactos na demografia, no sistema de assentamento e na resposta à variabilidade ambiental. Como tal, há um aumento significativo na diversidade de ocupações e no uso do território durante todo o período do Holoceno Médio.

É precisamente essa variedade nas tecnologias sociais (F. Silva, 2024), no tipo e na mobilidade do local, bem como nos usos dos mais variados territórios que poderia fornecer a chave para compreender a ausência de vestígios culturais na estratigrafia de muitos abrigos, densamente povoados no período mais antigo (Fagundes & Arcuri, 2023).

Em suma, mudam-se as estratégias de apropriação de abrigos, alguns com pouca evidência estratigráfica, outros com ausência total, mas com forte indicação de uso para a arte rupestre enquanto um lugar sagrado, de culto à ancestralidade (Bueno & Isnardis, 2018; Fagundes & Arcuri, 2023; Fagundes et al., 2024; Greco, 2019).

A fase 4, com ocupações posteriores a 7.000 anos AP, é a que mais interessa, principalmente pelo aumento e diversidade dos sítios de arte rupestre. Apesar de alguns locais partilharem elementos nas tecnologias sociais líticas, sobretudo em Minas Gerais, existe uma tendência para a especificação nas escolhas regionalmente: seja no tipo de matéria-prima, no lascamento ou no instrumento obtido. Com base na revisão dos dados disponíveis nos registros arqueológicos de diversas áreas, Bueno e Isnardis (2018, p. 104) indicam que alguns locais foram abandonados, enquanto outros foram provavelmente reorganizados no uso dessas paisagens.

Para discutir o território de Serra Negra nesse complexo emaranhado de ideias sobre o povoamento do PCB durante o Holoceno Médio, é fundamental conceituar abandono. Como dito, entendemos o abandono como um fenômeno complexo e não simplesmente como um acontecimento isolado. Jamais pode ser entendido, exclusivamente, como presença ou ausência de materialidade nos pacotes estratigráficos dos sítios arqueológicos (Darras, 2003; Fagundes & Arcuri, 2023).

O ato de abandonar deve ser compreendido a partir das escolhas e estratégias que definiram trajetórias históricas dos grupos humanos; consequentemente, essa ação, necessariamente, vai impactar a cosmologia, o território ancestral, a paisagem e suas formas tradicionais de uso, bem como a nossa compreensão do sistema de assentamento, que diz respeito à captação de recursos e tecnologias sociais associadas12. É preciso estar consciente de que o abandono deve ser entendido a partir da compreensão de territórios culturalmente definidos (Cameron & Tomka, 1993; Colwell-Chanthaphonh & Ferguson, 2006; Darras, 2003; Fagundes & Arcuri, 2023; Fagundes et al., 2024; Politis, 1996).

Em segundo lugar, para definir o paleoambiente no território de Serra Negra durante o Holoceno Médio, referimo-nos, como foi discutido, a várias pesquisas dedicadas exclusivamente à área de estudo e à SdEM (Augustin et al., 2014; Barros et al., 2011; Bispo et al., 2015; Chueng et al., 2018, 2023; Costa, 2018; Costa et al., 2022; Horák-Terra, 2014; Horák-Terra et al., 2011, 2014, 2020; Machado et al., 2021; M. Silva & A. Silva, 2017). Por exemplo, os resultados fitolíticos e isotópicos de Chueng et al. (2018, 2023), em três áreas (incluindo Serra Negra), não indicaram grandes mudanças no tipo de vegetação durante todo o Holoceno Médio.

As reconstituições paleoclimáticas realizadas a partir de estalagmites feitas no norte de Minas Gerais13 indicam que não houve grandes modificações na quantidade de chuva ao longo dos Holocenos Médio e Tardio, sendo registrados eventos de seca com periodicidade de cerca de oitocentos anos (Stríkis et al., 2011), mas com pequenos impactos ambientais, de acordo com os registros multiproxies (Azevedo et al., 2021). Segundo nossa teoria, isso não teve impacto devastador no modo como essas pessoas viam, viviam e experienciavam seus mundos, suas cosmologias, suas ancestralidades e seus territórios. Em suma, não afetou a maneira como viviam, especialmente acerca da territorialidade, mobilidade e tecnologias sociais. Nossa conjetura é de que existem especificidades ambientais-climáticas e culturais que precisam ser mais bem compreendidas (Ingold, 2015).

Apesar de ser uma questão complexa, os dados até agora produzidos para o Planalto Diamantinense e para Serra Negra indicam que houve oscilações climáticas durante o Holoceno. Ocorreram variações entre frio e quente, úmido e seco, mas nada assolador. Especificamente para o Holoceno Médio, na maioria dos casos, observa-se um período mais estável, com clima quente e úmido para esta face da SdEM, especialmente entre 7.000 e 4.000 anos AP (Bispo et al., 2015; Costa et al., 2022; Horák-Terra et al., 2011; Machado et al., 2021).

De acordo com os resultados paleoambientais regionais (Bispo et al., 2015; Chueng et al., 2018; Costa, 2018; Costa et al., 2022; Machado et al., 2021), além do que se sabe sobre antigas ocupações para o território de Serra Negra, trazendo à tona novas cronologias e resultados arqueológicos, esta região não pode ser entendida como uma exceção, isolada dos quadros ocupacionais do PCB. De fato, três abrigos conhecidos e escavados ao longo da bacia do rio Araçuaí tiveram ocupações significativas, com densidade de cultura material lítica em suas estratigrafias, além das cronologias que estão entre 7.169 cal. anos AP (probabilidade mediana) e a transição para o Holoceno Superior, mais ou menos continuamente.

Estes sítios apresentam um conjunto artefatual lítico muito semelhante, sendo a matéria-prima preferida o quartzo anédrico em bloco/veio e o lascamento unipolar com percutor duro (apesar do aumento de lascamento bipolar durante o Holoceno Superior), com utilização de matérias-primas locais (constituídas por blocos/veios de quartzo anédricos e, raramente, cristais hialinos), para a produção de líticos formais/curados nas ocupações mais antigas do sítio Cabeças 4. Há presença marcante de lascas de façonagem e retoque e de um material mais expedito entre cerca de 5.000 e 4.000 anos AP14, presente nos registros dos sítios Três Fronteiras 7 e Sampaio, além de Cabeças 4 (Fonseca, 2023; Perillo Filho, 2024; L. Silva, 2017).

No entanto, lascas de façonagem e retoque também ocorrem nos registros arqueológicos mais recentes, embora de forma mais discreta. A exploração é feita por meio da utilização de percussão direta com uso de percutor duro, em que a redução inicial provavelmente ocorreu em ângulos naturais. Perillo Filho (2024) atesta que, para o Matão 1 (sítio do Holoceno Superior), foi extremamente utilizado o percutor macio, dada a observação dos estigmas de lascamento (Rodet & Alonso, 2004). Nos demais sítios escavados (Itanguá 2, Cabeças 1 e Cabeças 3), não há estigmas de percussão macia nos vestígios analisados, mesmo sendo o quartzo a escolha dessas pessoas e o lascamento ser do tipo unipolar com uso de percutor duro. Os instrumentos são poucos nesses sítios do Holoceno Superior, sobretudo de ocasião (expeditos), com baixa modificação pós-debitagem ou retoques.

Assim, é fato que nas escavações foi encontrado um baixo número de lascas totalmente corticais. A hipótese levantada baseou-se na ideia de que a redução inicial dos núcleos ocorreu nos depósitos (veios naturais de quartzo), geralmente muito próximos aos sítios. Da mesma forma, existem poucos artefatos finalizados em contexto, sendo geralmente peças pequenas, com poucas ações transformativas pós-debitagem e bordos com pouco ou nenhum retoque (Fagundes, 2019, 2022; Fagundes et al., 2017, 2020, 2022, 2024; Fagundes & Perillo Filho, 2018; Perillo Filho, 2024; L. Silva, 2017).

Os diferentes tipos de implantação dos sítios arqueológicos na paisagem são também um indicador importante na presente análise, especialmente entre os abrigos em áreas de vale, perto de cursos de água e o que definimos como sítios arqueológicos de passagem, implantados nas encostas superiores, em áreas de contrafortes que dão acesso à Mata Atlântica (Floresta Estacional Semidecidual) (Gontijo, 2022). Acreditamos que sejam caminhos bem demarcados no território de contato entre os biomas Cerrado e Mata Atlântica e que façam parte da mobilidade logística desses grupos15.

Em síntese, o contexto arqueológico indica que, no território de Serra Negra, durante o Holoceno Médio, os abrigos foram parte dos centros gravitacionais das ocupações regionais, permanecendo assim por um longo período, havendo estabilidade nas ocupações, além de uma diversidade de atividades. A densidade dos sítios arqueológicos, a dispersão e aparente interrelação entre os abrigos, as semelhanças nas tecnologias sociais, incluindo a arte rupestre (Greco, 2019; Fagundes et al., 2021a, 2021b, 2024), a gestão das matérias-primas, entre outras, são características que indicam um território estruturado e consolidado, com um modo de vida regionalmente estabilizado e com resiliência das vivências durante os Holocenos Médio e Superior, interrompido pela invasão dos europeus.

Por conseguinte, o conjunto de dados ambientais e arqueológicos indica uma região de clima estável e baixa probabilidade de ocorrência de ocupações unicamente oportunistas nesses abrigos. Pelo contrário, o contexto arqueológico indica uso constante e contínuo do território, inclusive durante as ocupações de horticultores (Chueng et al., 2018, 2023; Fagundes, 2022; Fagundes et al., 2020, 2022, 2024; Fonseca, 2023; Machado et al., 2021; Perillo Filho, 2024; Vasconcelos et al., 2018).

Tal inferência está fundamentada nas seguintes características: (a) gestão de matérias-primas locais, com provável pré-debitagem nas áreas de captação e transporte de núcleos pré-moldados até os locais; (b) densidade e variedade de utensílios líticos, que podem ter sido usados em diferentes atividades cotidianas (ou das relações de poder, ritualisticamente ou no que concerne a identidades individual e coletiva, além de semelhanças em aspectos técnicos entre os conjuntos evidenciados em diferentes sítios arqueológicos16); (c) quantidade de estruturas de combustão encontradas no interior dos abrigos17; (d) ocorrência de material faunístico, ainda que bastante deteriorado, dadas as condições de preservação desses ambientes quartzíticos; (e) hipótese de Bueno e Isnardis (2018) de que a inserção da arte rupestre como repertório cultural ocorreu a partir do Holoceno Médio, tendo os abrigos de Serra Negra semelhanças com áreas vizinhas, ainda que com especificidades, conforme indicado em diversos estudos (Fagundes et al., 2021a, 2021b, 2024; Greco, 2019).

Portanto, a conjunção do contexto arqueológico, das cronologias e dos dados paleoambientais corrobora a teoria de um quadro de estabilidade regional (recursos, paisagem e cosmologias dos habitantes desse território), com uso e articulação constante e contínua entre sítios, possibilitando, assim, a ideia de um território estruturado em longa duração em todo o Holoceno Médio.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo deste artigo foi apresentar dados dos contextos arqueológico e paleoambiental que pudessem contribuir para a compreensão de como grupos humanos se comportaram diante das possíveis oscilações climáticas ao longo do Holoceno, sobretudo o Médio. Para tanto, outra preocupação foi discutir a materialidade da face nordeste da SdEM, território de Serra Negra, divisa com o vale do rio Doce, a partir do que se consolidou na literatura nacional sobre ocupações do PCB durante o Holoceno Médio, destacando, sobretudo, as especificidades regionais. Há dados que colaboram para essa discussão, embora também existam lacunas no registro arqueológico que, de certa forma, o fazem se distanciar dos resultados alcançados para outras áreas de ocupações humanas em territórios do centro-sul-americano.

Por exemplo, os conjuntos líticos de Serra Negra priorizam o uso do quartzo em relação a outras matérias-primas, diferentemente do Planalto Diamantinense, onde se destaca o quartzito (da formação Galho do Miguel). Quanto ao uso do quartzo, esta realidade também foi encontrada no carste de Lagoa Santa e no Planalto Diamantinense.

Sabe-se que em Serra Negra os veios de cristal de quartzo anédrico são os mais explorados localmente para a produção de suportes, que parecem ter sua redução primária realizada direto nas fontes. O uso do cristal anédrico parece estar diretamente relacionado ao tipo de lascamento mais comum nos sítios regionais do Holoceno Médio: técnica unipolar com uso de percussão direta, para as duas sequências operacionais descritas a seguir. Cristais de quartzo bem formados (euédricos) são raros no registro arqueológico; entretanto, para confirmar semelhanças e diferenças no uso desses cristais (intra e intersítio), precisaríamos da parte cortical e de bordas/ângulos das lascas iniciais, que são extremamente raras nos abrigos do Holoceno Médio (Bassi, 2015).

Desse modo, duas sequências operacionais podem ser sintetizadas para o Holoceno Médio em Serra Negra: (a) sequência operacional 1 – baseada no registro arqueológico do sítio Cabeças 4, o pacote de ocupação mais antigo (6.290 ± 30 e 6.140 ± 40, calibrado entre 7.259 e 7.154 anos AP), no qual a presença majoritária de lascas secundárias, bifaciais, é observada (a partir de façonagem e retoque), indicando a produção de instrumentos mais formais ou curados em quartzo, como pontas de projétil, plano-convexos e lascas bifaciais retocadas. O quartzito também ocorre neste contexto; (b) sequência operacional 2 – entre 5.000 e 4.000 anos AP, baseada nos conjuntos líticos Cabeças 4, Três Fronteiras e Sampaio, onde se observa maior concentração de detritos de quartzo provenientes do processo de debitagem. Façonagem e lascas de retoque permanecem, mas ocorrem de forma discreta, indicando maior preocupação com a produção de instrumentos expedientes (ou de ocasião), tais como lascas retocadas para uso imediato, sem reaproveitamento. Observa-se também a presença de outras matérias-primas, como sílex e arenitos silicificados, embora em número muito reduzido (menos de 2% das assembleias), geralmente associadas a lascas provenientes de façonagem e/ou retoque.

A arte rupestre em Serra Negra corrobora as descrições para todo o PCB, com técnica e temática de pintura próximas às pinturas encontradas em outros sítios de Minas Gerais. Contudo, combinando a análise macro com uma abordagem micro, e multiplicando os vetores, pode-se considerar mais assertivo discutir esse segmento espacial como uma área de regionalização da Tradição do Planalto (Fagundes et al., 2021a).

No território de Serra Negra há evidências dos marcadores temáticos que são associados a essa tradição, com grafismos monocromáticos, com destaque para: uso de tintas vermelhas; presença marcante de zoomorfos, especialmente cervídeos e peixes, embora existam também outros zoomorfos (especialmente mamíferos e aves18), além de antropomorfos, formas abstratas e até seres fantásticos; sobreposições e justaposições intensas etc. (Greco, 2019). Porém, há aspectos estilísticos diferenciados em relação a outras áreas arqueológicas e até mesmo a outros locais de Serra Negra quando se comparam os painéis dos sítios implantados em áreas florestais e aqueles em campos rupestres com tantas outras formas de utilização dos suportes rochosos, sendo observados estilos gráficos (das pinturas), uso de tintas etc. (Fagundes et al., 2021a, 2021b, 2024; Greco, 2019).

Com os dados até aqui alcançados, pode-se afirmar que a Serra Negra é um território de regionalização da arte rupestre, em que os marcadores clássicos da tradição do PCB são redefinidos ou reorganizados nos painéis dos sítios mais afastados da margem direita do rio Araçuaí. Entendemos esse contexto como decorrente de escolhas culturalmente definidas, baseadas nas ancestralidades, nos territórios e nos significados amplamente conhecidos.

Defende-se, portanto, que essa recombinação de atributos é, no mínimo, um vestígio da diversidade da macrotradição, fortalecida pelo contato, pela troca e pela persistência nas rotas de mobilidade, nas estratégias de comunicação, na manutenção do território e, principalmente, na resiliência dos povos que habitaram a Serra Negra. Tais povos foram aniquilados pela colonização, inclusive suas memórias.

De qualquer forma, essas pessoas deixaram marcas claras de suas existências. Os sítios arqueológicos abrigavam outras atividades, além da arte rupestre, que devem ser consideradas no estudo dos grafismos, visto que a arte não pode ser vista como uma atividade à parte das demais, uma vez que afetava todos os atributos e usos do sítio arqueológico. Aliás, a presença dessa arte rupestre impacta e traz afetos até hoje (Greco et al., 2021).

Nas análises sobre as diferentes materialidades, não foi intenção estabelecer um modelo de ocupação e mobilidade para o território de Serra Negra, mas apenas observar as ocupações no Holoceno Médio, bem como suas especificidades e semelhanças com o entorno sob investigação em longa duração. Não se trata de um território exclusivamente periférico ou áreas fronteiriças de outros segmentos espaciais discutidos arqueologicamente, muito menos de novos territórios após adventos climáticos descritos para o Brasil Central a partir de 7.000 anos AP.

Por fim, reflitamos sobre como os sítios arqueológicos datados de Serra Negra se relacionam e diferem do que foi mostrado na literatura, especialmente sobre ocupações no Holoceno Inferior. Conforme discutido anteriormente, os dados paleoambientais, arqueológicos e cronológicos de Serra Negra corroboram o entendimento de que os abrigos continuaram como parte do centro gravitacional do território dos caçadores-coletores em uma área que pode ser considerada hoje um ecótono (Gontijo, 2022). Apesar das escassas evidências botânicas e faunísticas, o que se conhece sobre a arte rupestre e os conjuntos líticos (e dos poucos elementos cerâmicos) pode indicar uma apropriação deste território, com a realização de atividades sociais bem estruturadas.

Sem qualquer dúvida, as variações ambientais ocorreram durante o Holoceno Médio, mas de uma forma que teria pouco impacto no modo de vida estabelecido, provavelmente por gerações, além do fato de que essas oscilações entre clima frio e seco/quente e úmido ocorreram entre gerações, e não de forma abrupta, possibilitando, assim, processos de aclimatação às novas condições.

Portanto, mesmo com um quadro de datações a ser ampliado, os dados até agora levantados, pioneiros para o PCB, mostram que a face nordeste da SdEM permaneceu ocupada durante o Holoceno Médio e era um território estável (populacional e ambientalmente). Na dinâmica, na resiliência e na persistência, além dos abrigos, toda a paisagem fez parte das atividades ordinárias e extraordinárias desses povos.

  • 1
    A SdEM é um planalto que corta o interior do Brasil no sentido Norte-Sul, entre o sul do estado de Minas Gerais e o norte do estado da Bahia. É um grande mosaico fitofisionômico com fisiografias distintas, ou seja, há a presença marcante de espécies endêmicas e fauna diversificada (Gontijo, 2022). Além disso, é responsável pela formação e divisão de importantes bacias hidrográficas, como as dos rios São Francisco, Doce e Jequitinhonha (Saadi, 1995).
  • 2
    Segundo a International Chronostratigraphic Chart (2020), o Holoceno está assim dividido: (a) Inferior, entre 11,6 e 8,3 mil anos AP; (b) Médio, entre 8,326 e 4,2 mil anos AP; (c) Superior, a partir de 4,2 mil anos AP até o presente.
  • 3
    Com presença de rochas não aptas ao lascamento.
  • 4
    Tal realidade pode ser vista pela quantidade de sítios com fragmentos cerâmicos e lâminas de machado polidas, todas em batólito do Itanguá (que aflora na região), sendo apenas uma em estratigrafia, datada de 501 anos AP (probabilidade média).
  • 5
    Schlanger (1992) chama esse tipo de materiais (fixos ou não) como lugares persistentes (persistent places), ou seja, territórios que são usados frequentemente como áreas para o desenvolvimento de determinada atividade social.
  • 6
    Todos os demais sítios citados neste artigo são de abrigos sob rocha, escavados utilizando a técnica de decapagem por níveis naturais.
  • 7
    Dependendo da maneira como esses veios/blocos são debitados, pode-se obter quarto translúcido ou leitoso, embora haja cristais no registro arqueológico do Cabeças 4.
  • 8
    Os veios de quartzo, refugos de lascamento e até um instrumento quebrado foram evidenciados nesse local, visto como principal fonte de matéria-prima. Entretanto, nada foi realizado, sendo hoje usado como caminho de gado.
  • 9
    Tratamos como exógeno, uma vez que o quartzito local não é apto ao lascamento (homogêneo). Todavia, todos os conjuntos analisados em Serra Negra demostram uma predileção pelos blocos/veios de quartzo anédrico. Em alguns sítios, como o Matão 1, foram evidenciados seixos de quartzo.
  • 10
    Detalhes podem ser vistos em L. Silva (2017) e Perillo Filho (2024).
  • 11
    A camada 3 obteve duas datações por LOE/SARS15, uma de 6.525 ± 690 e outra de 6.165 ± 515, comprovando nossa hipótese de que essa camada, com pouquíssima materialidade, teria sido ocupada temporariamente durante o começo do Holoceno Médio (Quadro 1).
  • 12
    Não é demais recordar que se trata de pessoas que, além de comer e sobreviver, viviam seu mundo de maneira muito particular (Ingold, 2015). Temos que decolonizar ideias e análises.
  • 13
    Sítio Lapa Grande, município de Montes Claros, Minas Gerais (Stríkis et al., 2011).
  • 14
    Apesar de termos consciência de não haver um período transitório entre o Holoceno Médio para o Superior (em termos geológicos), nesse quase um milênio (ou seja, muitas gerações entre 5.000 e 4.000 anos AP), uma nova organização tecnológica vai aparecendo no registro de muitos sítios arqueológicos em Serra Negra, em que instrumentos mais sofisticados, típicos dos níveis mais antigos do Holoceno Médio, são ‘substituídos’ por aqueles menos elaborados (ou expeditos), já no Holoceno Superior (Fagundes, 2019; Fagundes et al., 2017, 2020; Galvão, 2020; Perillo Filho, 2017; L. Silva, 2017).
  • 15
    As comunidades atuais usam os mesmos caminhos para suas atividades cotidianas (Greco et al., 2021).
  • 16
    Temos consciência de que a análise de qualquer conjunto lítico não nos dará informações para inferências nos aspectos citados. Entretanto, como já dissemos, trata-se de humanos e suas vivências.
  • 17
    Só no Cabeças 4, em uma escavação de 3 m2, foram evidenciadas dez estruturas de combustão, infelizmente, nem todas datadas.
  • 18
    Mais recentemente, nos sítios Água Quente (quatro abrigos em Felício dos Santos, em uma área de ecótono, divisa com o rio Doce), uma cena foi registrada no Água Quente l e fitomorfos em negro no Água Quente 3, cuja escavação está marcada para julho/agosto de 2024.
  • Fagundes, M., Coe, H., Chueng, K. F., Utilda, G., Vasconcelos, A. M. C., Perillo Filho, A., & Machado, D. O. B. F. (2025). Condições paleoambientais e as vivências durante o Holoceno Médio no território de Serra Negra, Alto Vale do Araçuaí, Minas Gerais, Brasil. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 20(1), e20240036. doi: 10.1590/2178-2547-BGOELDI-2024-0036.

AGRADECIMENTOS

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por financiar esta pesquisa.

  • DADOS DA PESQUISA
    Os dados não foram depositados em repositório.
  • PREPRINT
    O artigo não foi publicado em repositório de preprint.
  • AVALIAÇÃO POR PARES
    Avaliação duplo-cega, fechada.

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Editado por

  • Responsabilidade editorial: Fernando Ozório de Almeida

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    03 Maio 2024
  • Aceito
    27 Set 2024
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