Resumo
O propósito deste artigo é problematizar o papel da filosofia na pesquisa historiográfica em Educação Matemática. Para isso, fazemos a filosofia terapêutico-gramatical do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein contracena com a filosofia desconstrucionista do filósofo franco-argelino Jacques Derrida, sobretudo em referência a um aforismo das Investigações Filosóficas, de Wittgenstein, que compara a nossa linguagem a uma cidade antiga.
Palavras-chave:
Pesquisa Historiográfica; Educação Matemática; Terapia Wittgensteiniana; Desconstrucionismo Derridiano
Abstract
The purpose of this article is to discuss the role of philosophy in the historiographical research in mathematics education. For this purpose, we make the therapeutic grammatical philosophy of Austrian philosopher Ludwig Wittgenstein act with the deconstructionist philosophy of French-Algerian philosopher Jacques Derrida, especially in reference to an aphorism of Wittgenstein's Philosophical Investigations comparing our language to an ancient city.
Keywords:
Historiographical Research; Philosophy of Mathematics Education; Wittgensteinian Therapy; Derridean Deconstructionism
Neste artigo, temos como propósito problematizar o papel da Filosofia na pesquisa historiográfica - e, particularmente, na pesquisa historiográfica em Educação Matemática – fazendo o que tem sido denominada a filosofia terapêutico-gramatical do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein contracenar com a filosofia desconstrucionista do filósofo franco-argelino Jacques Derrida, sobretudo em referência ao aforismo do parágrafo 18 das Investigações Filosóficas de Wittgenstein (1986) que compara a nossa linguagem a uma cidade antiga1.
Penso estarmos todos cientes da longevidade do debate acadêmico relativo aos papéis da Filosofia na pesquisa historiográfica. Sabemos também que um dos efeitos de maior força desse debate foi a disseminação da imagem do poder constituinte e fundante do discurso filosófico em relação às práticas de pesquisa historiográfica. Poderíamos então perguntar: essa imagem de poder poderia também ser vista como poder dessa imagem? Para investigar isso, vamos nos por nos rastros do pensamento de Wittgenstein:
Uma imagem nos mantinha presos. E não pudemos dela sair, pois ela residia em nossa linguagem, que parecia apenas repeti-la para nós inexoravelmente (WITTGENSTEIN - IF-§ 115).
Seria possível desafiar o poder dessa imagem? A questão que estamos aqui submetendo à investigação envolve outros campos do conhecimento como a Educação e a Matemática. Isso parece tornar o debate mais complexo, sobretudo, porque essa imagem de poder do discurso filosófico parece impactar de modos diferentes a pesquisa nos campos isolados da Educação e da Matemática e, por extensão, nos campos da Educação Matemática e da história da Educação Matemática. Inspirando-me sobretudo em Wittgenstein, quero aqui sugerir uma reorientação radical da natureza desse debate. Observemos a imagem2 seguinte e atentemo-nos para o que Wittgenstein nos diz sobre a filosofia:
Um problema filosófico tem a forma: “Eu não sei mais nada” (WITTGENSTEIN - IF-§ 123).
A filosofia simplesmente coloca as coisas, não elucida nada e não conclui nada. Como tudo fica em aberto, não há nada a elucidar […] (WITTGENSTEIN - IF-§ 126).
A filosofia não deve, de modo algum, tocar no uso efetivo da linguagem; em último caso, pode apenas descrevê-lo. Pois também não pode fundamentá-lo. A filosofia deixa tudo como está […] (WITTGENSTEIN - IF-§ 124, itálicos nossos).
A imagem acima remete a um acontecimento de nossa história. Ela é uma ilustração midiática de uma cena que suspende, no tempo, a iminência de um confronto entre manifestantes e policiais. Associei esta imagem àquela que Wittgenstein faz da filosofia, porque ela me parece representar bem a batalha incansável travada por esse filósofo contra os modos metafísicos de pensar. Se as passagens mencionadas parecem sugerir que Wittgenstein estaria reduzindo, até quase ao esvaziamento, a importância e o propósito da Filosofia, as que se seguem parecem sugerir que ele estaria, na verdade, redefinindo o seu papel:
Qual é o seu objetivo em filosofia?
– Mostrar à mosca a saída do vidro (WITTGENSTEIN - IF-§ 309).
Os resultados da filosofia consistem na descoberta de um simples absurdo qualquer e nas contusões que o entendimento recebeu ao correr de encontro às fronteiras da linguagem. Essas contusões nos permitem reconhecer o valor dessa descoberta (WITTGENSTEIN - IF-§ 119).
[…] Não há um método da filosofia, mas sim métodos, como que diferentes terapias (WITTGENSTEIN - IF-§ 133, itálicos do autor).
Parece, então, que, ainda que a Filosofia quase nada possa fazer, pode ainda fazer alguma coisa. O quê? Levar-se e levar ao divã todos os discursos que façam “maus usos da linguagem” e submetê-los a diferentes terapias locais que os tratem diferentemente como “doenças” diferentes. E por “maus usos da linguagem” deve-se entender “usos metafísicos da linguagem”, isto é, usos que produzem pseudoproblemas que, por ultrapassarem os limites e os poderes da linguagem, não podem, por essa razão, receber esclarecimentos adequados por nenhum outro recurso humano. Daí, ser o propósito de tais terapias o de dissolvê-los enquanto problemas. Mas, como? Ouçamos Wittgenstein:
Poder-se-ia pensar que quando a filosofia fala do uso da palavra “filosofia”, deveria haver uma filosofia de segunda ordem. Mas isso não se dá […] (WITTGENSTEIN - IF-§ 121).
Quando falo da linguagem devo falar a linguagem do cotidiano (WITTGENSTEIN - IF-§ 120, itálicos nossos).
Quando os filósofos usam uma palavra – “saber”, “ser”, “objeto”, “eu”, “proposição”, “nome” – e procuram apreender a essência da coisa, deve-se sempre perguntar: essa palavra é usada de fato desse modo na língua em que existe? – Nós reconduzimos as palavras do seu emprego metafísico para seu emprego cotidiano (WITTGENSTEIN - IF-§ 116, itálicos do autor).
Esta luta contra usos metafísicos da linguagem leva Wittgenstein a uma valorização sem precedentes dos usos cotidianos da linguagem. Isso porque, para ele, os usos especializados não podem se constituir autonomamente, independentemente dos usos ordinários da linguagem. E, ao considerar os modos como as pessoas praticam ordinariamente a linguagem, Wittgenstein sugere que essas práticas, para se tornarem significativas, não podem ser desligadas das ações corporais situadas dos seus próprios praticantes. De fato, para ele, “Palavras são também ações” (WITTGENSTEIN, IF-§546). E, num aforismo que nos remete a rastros de significado do Fausto, de Goethe, não só esclarece os laços de continuidade e não dissociabilidade entre jogos de linguagem e ações corporais, como também sugere o primado e a conexão, ainda que remota, destas últimas em relação a formas abstratas e supostamente incorpóreas de se praticar a linguagem: “A linguagem - gostaria de o dizer - é um aperfeiçoamento, no princípio era a ação” (WITTGENSTEIN, 2000, p. 53, itálicos meus).
Wittgenstein sugere também que a linguagem não é usada de modo unitário e uniforme, mas de modos ilimitadamente heterogêneos e nem sempre regrados3. Esses usos da linguagem são denominados jogos de linguagem e são eles que indicam, em cada situação contextual em que são praticados, os sentidos variáveis de palavras, objetos e das próprias ações corporais que esses jogos encenam:
Na práxis do uso da linguagem, um parceiro enuncia as palavras, o outro age de acordo com elas. […] chamarei de jogos de linguagem o conjunto da linguagem e das ações com as quais está interligada (WITTGENSTEIN, IF-§7).
Este modo de Wittgenstein falar da linguagem vem logo após um exemplo de jogo de linguagem no qual cada palavra enunciada por um pedreiro é seguida de uma ação do seu ajudante que lhe passa o material de construção solicitado. Assim, a linguagem vista como práxis sugere que praticar um jogo de linguagem se assemelha a participar de uma encenação, de uma performance corporal efetiva. O que Wittgenstein está querendo dizer com isso é que sempre praticamos a linguagem com o corpo todo, e não apenas com a vibração culturalmente regrada de sons emitidos por nossas cordas vocais.
Pensamos, portanto, não ser arbitrário este nosso modo de ver os jogos de linguagem, assimilando-os, sempre, a jogos de cena, o que nos permite, a partir de agora, usar de modo intercambiável as expressões “jogos de linguagem” e “encenações da linguagem”. De fato, já assinalamos, em outro contexto (MIGUEL, 2014), que Wittgenstein era leitor e admirador do filósofo, astrônomo e matemático alemão Georg-Christoph Lichtenberg (1744-1799), de cuja obra aforística o filósofo - tal como também o fizeram Kant, Schopenhauer, Nietzsche, Freud e Tolstoi - provavelmente também se inspirou para a redação do seu Tractatus e das suas Investigações Filosóficas. Lichtenberg, ao longo de sua vida, ocupou-se, dentre outros, de problemas tais como os das relações entre o corpo e a mente, a razão e o sentimento, a linguagem e o pensamento, o homem e a mulher, a ideia e a realidade. Lichtenberg empreendeu essa reflexão através de uma escrita literária carregada de humor refinado e ironia sutil, tal como o atesta o seguinte aforismo: “Tenho observado frequentemente que sinto dor de cabeça quando me contemplo por longo tempo em um espelho côncavo” (LICHTENBERG, 1966, p. 43).
A Matemática e os matemáticos de sua época também não escaparam ao seu agudo olhar crítico:
Na lei 2 vezes 2, 4 ou 2.2 = 4, há já, verdadeiramente, alguma coisa da paralaxe do sol e da terra em forma de laranja (LICHTENBERG, 1966, p. 48).
A matemática é uma ciência muito bonita. Mas os matemáticos muitas vezes não valem o diabo. Os matemáticos são quase desnecessários para a Matemática quanto o são para a Teologia. Assim como os homens que se dedicam a esta última, se eles ocupam cargos públicos, pretendem-se possuidores de uma exclusiva santidade e de um relacionamento mais próximo de Deus, de modo que existe entre eles um grande número de vilões autênticos, e os chamados matemáticos, muitas vezes, exigem ser vistos como profundos pensadores, embora seja entre eles que se encontrem as cabeças mais cheias de lixo, incapazes de fazer qualquer tarefa, desde que ela exija reflexão e não possa ser reduzida imediatamente àquela fácil combinação de sinais que é obra da rotina, mais que do pensamento (LICHTENBERG, 1966, p. 59-60).
O modo como estamos aqui nos propondo a ver os jogos wittgensteinianos de linguagem - isto é, como encenações simbólicas do corpo humano – pode ser comparado à maneira como, na década de 1930, o artista plástico alemão Hans Bellmer - também leitor e admirador de Lichtenberg - estabelecia relações entre o corpo e a linguagem. De fato, segundo Taylor, Bellmer
sustentava o ponto de vista de que todos os tipos de produção simbólica estão, em última instância, enraizadas na experiência corporal, tais como, por exemplo, aquelas nas quais estão envolvidos gestos, reflexos, sons, palavras, grafismos e objetos. Para ele, figuras de linguagem tais como a hipérbole e a metáfora não pertencem unicamente à literatura, mas também, ao próprio corpo humano, o mesmo ocorrendo com os processos matemáticos que operariam não apenas no domínio abstrato, mas também na carne. Para sugerir que o corpo participa da vida intelectual e que não é a cabeça sozinha que inventa matemática, invocava o aforismo de Lichtenberg de que a nossa convicção sobre a validade de uma equação algébrica reside no cérebro, mas também, em certa medida, no polegar” (TAYLOR, 2000, p. 101-102).
Tal como Lichtenberg e Bellmer o fizeram de modo incidental e não sistemático, também Wittgenstein, com sua devastadora máquina pós-metafísica4 de guerra, invadiu o santuário sagrado da Matemática e minou a sua estrutura ao denunciar que ela não poderia operar como uma meta-máquina fundante de si mesma, uma vez que essa suposta meta-máquina depende, em última instância, da máquina da linguagem ordinária para poder operar. Ele disse isso assim, no seu costumeiro estilo aforístico:
[…] Um “problema central da lógica matemática” é para nós um problema da matemática como outro qualquer (WITTGENSTEIN - IF-§ 124).
[…] Se esgotei as justificações, então, atingi a rocha dura e minha pá entortou. Estou então inclinado a dizer: “é assim que eu ajo!” (WITTGENSTEIN, IF-§ 217).
Entretanto, a máquina pós-metafísica de Wittgenstein parece ter incomodado bem mais uma Matemática fundamentalista, estaticamente organizada e vista como um domínio de conhecimento, abalando-a com o propósito de se ressaltar um modo irreverentemente original de se vê-la de outra maneira, isto é, como Matemática em ação, como conjuntos heterogêneos e dinâmicos de encenações simbólicas regradas do corpo humano. Assim, Wittgenstein irá olhar a Matemática bem acomodada no alto de sua torre de marfim e gritar, em linguagem ordinária: “Vem pra vida! Para as diferentes formas de vida!”. Ouçamos a sua pauta de reivindicações:
Certamente a matemática é, em certo sentido, uma doutrina - mas também um fazer. (WITTGENSTEIN, 1979, IF- Parte II, p. 219, itálicos do autor).
Se a matemática é um jogo, então, jogar um jogo é fazer matemática, e se assim é, por que dançar não é também matemática? (WITTGENSTEIN, 1998, p. 258); (WITTGENSTEIN, 1987, p. 216).
Por que eu não deveria dizer que o que chamamos de matemática é uma família de atividades em conformidade a uma família de propósitos? (WITTGENSTEIN, 1998, p. 273); (WITTGENSTEIN, 1987, p. 228).
Para Wittgenstein, ver Matemática em encenações corporais é facultativo, mas não é arbitrário. Mas se a Matemática é também um fazer presente na vida cotidiana, seria possível, por exemplo, ver Matemática nos modos como funcionários do mundo dos correios encenam a linguagem para fazer uma carta chegar ao endereço indicado? Podemos significar e distinguir os sinais impressos no envelope com base nas regras gramaticais de dois jogos de linguagem distintos: o da prática cultural da escrita na língua portuguesa e o das práticas culturais de orientação e localização espaciais baseadas no CEP, isto é, no Código de Endereçamento Postal. São essas regras que orientam a significação a ser dada aos sinais impressos no envelope. E são também elas que orientam as performances corporais dos funcionários para que a carta chegue inequivocamente no endereço indicado.
O jogo do CEP está pautado em regras de um sistema decimal diferente daquele que utilizamos na Matemática escolar para registrar e operar com números. O primeiro dígito da esquerda para a direita identifica inequivocamente a região do país, dentre as 10 regiões em que o território brasileiro foi convencionalmente dividido para o caso particular desse jogo. O dígito seguinte identifica inequivocamente a sub-região, dentre as 10 em que cada região foi convencionalmente dividida. O terceiro dígito identifica inequivocamente o setor de cada sub-região dentre os 10 setores em que cada sub-região foi convencionalmente dividida, e assim por diante. Já os 3 algarismos do sufixo destinam-se à identificação individual de logradouros, códigos especiais e unidades do correio. Temos razões para acreditar que a carta chegará inequivocamente no endereço indicado. Mas isso não significa que ela não possa, por alguma razão, ser extraviada. Mas se isso ocorrer, tenderíamos a investigar as “razões empíricas” do extravio, e não a duvidar das regras gramaticais dos jogos de linguagem. Para Wittgenstein, um extravio da carta em nada comprometeria o caráter inequívoco dessas regras em relação ao propósito social visado. Assim, podemos ver Matemática nas encenações dos funcionários, não porque haja números no envelope, mas porque suas ações são orientadas pelo significado inequívoco que eles devem atribuir ao uso combinado dos sinais gráficos presentes no envelope. Diz Wittgenstein:
[…] é essencial para a matemática que seus signos sejam também usados no civil. É o uso fora da matemática, isto é, é o significado dos signos, aquilo que converte em matemática o jogo de signos (WITTGENSTEIN, 1998, RFM, p. 257, itálicos do autor).
Tenho menos certeza de que este homem tem dores do que de 2 X 2 ser igual a 4? É por isso que esta última afirmação seria uma certeza matemática? ‘Certeza matemática’ não é um conceito psicológico. O gênero de certeza é o gênero do jogo de linguagem (WITTGENSTEIN, 1979, IF - Parte II, p. 216-217, itálicos meus).
Ver Matemática em encenações corporais ordinárias permite desatrelá-la daquela imagem disciplinar exclusivista - escolar ou acadêmica - a que nos acostumamos aprisioná-la. Ajuda-nos a vê-la no plural, como “matemáticas”, como aquilo que as pessoas podem fazer, podem aprender a fazer ou fazem sem saber que o fazem quando praticam certos jogos de linguagem. Permite-nos ver a própria Educação Matemática de outra maneira e olhar de forma crítica para o que se tem feito secularmente na escola em nome do que temos chamado “educação matemática escolar”. Permite-nos considerar outros inesgotáveis modos como as pessoas se educam matematicamente em todos os contextos de atividade humana. Não seria exagerado dizer que a maior parte de nossa produção de pesquisa em história da Educação Matemática se resume a pesquisas em histórias da Educação Matemática escolar. Para essa produção, a história da Educação Matemática parece começar no século XIX e terminar quando a Matemática deixar de existir como disciplina escolar.
Passemos, em seguida, a considerar alguns modos como a perspectiva wittgensteiniana, em diálogo5 com a derridiana, impacta a pesquisa historiográfica em sentido amplo. Ambas partem do pressuposto pós-epistemológico da impossibilidade de existência de conhecimento e de pensamento que sejam anteriores, transcendentes ou independentes de jogos de linguagem, no caso de Wittgenstein, ou de escrituras6, no caso de Derrida. Esses modos distintos, porém semelhantemente pós-epistemológicos, de se conceber a linguagem por parte de Derrida e Wittgenstein abrem o campo da pesquisa historiográfica a um conjunto ilimitado de novos objetos e fontes de investigação que sequer chegaram a ser incluídos nas histórias convencionais da Matemática e da Educação Matemática. Deixam de ser vistas como categóricas ou fixas todas as distinções usuais entre objetos e fontes de pesquisa; entre fontes primárias e secundárias; e entre fontes orais, escritas, imagéticas, iconográficas, literárias, ficcionais etc. Todas essas fontes passam a ser vistas como modos diversos de se encenar corporalmente a linguagem.
Um outro impacto é que essas próprias encenações passam a ser vistas como auto-memorialísticas. Para entender isso, ouçamos Wittgenstein:
Nossa linguagem pode ser considerada como uma velha cidade: uma rede de ruelas e praças, casas novas e velhas, e casas construídas em diferentes épocas; e isto tudo cercado por uma quantidade de novos subúrbios com ruas retas e regulares e com casas uniformes (WITTGENSTEIN, IF-§ 18).
Esta analogia entre a linguagem e uma cidade antiga nos permite ver cada encenação da linguagem, ao mesmo tempo, como iterativa e performativa7. Iterativa ou repetitiva, porque cada encenação da linguagem mobiliza ou reencena rastros de significados das próprias encenações precedentes da cidade, preservando-lhe, em grande medida, a memória. Mas, as reencenações da linguagem podem também se mostrar performáticas sempre que, ao mobilizarem imprevisíveis rastros de significados de outras encenações, inventam inéditas e surpreendentes composições cênicas da memória da cidade da linguagem.
Assim, a velha cidade que é a nossa linguagem, ela própria, no conjunto de sua materialidade arquitetônica, está sempre sendo reencenada, e o conjunto dessas reencenações simultâneas e heterogêneas itera conservando e performa transformando a paisagem e a memória de toda a cidade8.
Um outro impacto é que também as encenações da linguagem orientadas por propósitos narrativos, como todas as outras, passam a ser vistas como modos diferenciados de se encenar corporalmente a linguagem e, ainda que possam ser distinguidos, não podem mais ser desconectados das próprias narrativas que eles encenam. Como não pode haver significação fora de um jogo de linguagem, não faz mais sentido desconectar a “realidade” de um evento da “realidade” de suas encenações pela linguagem, o que não significa negar a ocorrência efetiva do evento, mas destacar que também essa ocorrência efetiva, para ser significativa, não pode ser independente de sua encenação através de um jogo de linguagem. Do mesmo modo, as encenações narrativas posteriores desse evento não são postas em dúvida enquanto eventos culturais distintos entre si e distintos da ocorrência encenada do evento, e todos eles distintamente situados no tempo e no espaço. Até mesmo a nossa “certeza” de distinguir temporalmente e espacialmente essas encenações do evento assume um caráter normativo, uma vez que ela é uma regra que participa da gramática de um jogo de linguagem que constitui culturalmente o nosso modo de falar sobre as noções de tempo e de espaço, do mesmo modo como a distinção que estabelecemos entre as cores só é possível devido à gramática das cores de um de nossos jogos culturais de linguagem. Entretanto, para esse modo pós-epistemológico como tanto Derrida quanto Wittgenstein veem a linguagem, não faz mais sentido distinguir essas encenações do evento com base no critério de atribuição de um estatuto de “ficcionalidade” a umas e o estatuto de “realidade” a outras9, ainda que um tal tipo de distinção costume ser feita por concepções hegemônicas de história disseminadas nos mundos acadêmico e escolar. Assim, a Alegoria da batalha de Lepanto, de Veronese, bem como a ilustração de uma batalha de rua entre manifestantes e policiais, costumam ser vistas como narrativas fictícias dessas batalhas. Porém, tanto sob uma perspectiva wittgensteiniana quanto derridiana, tanto as próprias encenações dessas batalhas quanto quaisquer outras que as encenem narrativamente podem ser vistas como encenações corporais da linguagem. E se algumas dessas encenações são vistas como fictícias, não é porque, como se costuma alegar, elas não retratem essas batalhas com fidelidade, ou porque as distorçam ou simplesmente as imaginam, mas porque os modos como Veronese e os ilustradores da Folha encenam narrativamente a linguagem subvertem concepções hegemônicas de história e de narrativa historiográfica10.
Penso, entretanto, que a subversão performática não é uma prerrogativa das narrativas ficcionais ou literárias, mas pode também ocorrer em encenações da linguagem em quaisquer contextos de atividade humana, dentre eles, os denominados “científicos”. A matéria pode ser vista como se fosse um conjunto de partículas elementares. Conjunto discreto ou contínuo, finito ou infinito? Partículas divisíveis ou indivisíveis? Átomos, prótons, elétrons, quarks, categorias diferentes de quarks …. até onde mais? Não. Podemos ver as coisas de outra maneira. Em vez de partículas materiais adimensionais e indivisíveis, ou divisíveis sem possibilidade de se saber até onde, a matéria pode ser vista como se fosse um conjunto de diferentes filamentos energéticos unidimensionais vibrantes como se fossem as cordas de um violão … teoria das cordas ou das supercordas.
Desse modo, a abrangência e o poder do discurso ficcional11 – do discurso do “como se” - estão baseados na abrangência e poder das comparações analógicas ou, para usarmos uma expressão wittgensteiniana, das associações por “semelhanças de família” que podemos estabelecer entre dois ou mais jogos de linguagem distintos. Assim, o poder de subversão performática do discurso ficcional reside no poder dos efeitos de analogias discursivas inusitadas e surpreendentes para se lidar com problemas postos em diferentes campos de atividade humana, neles incluídos os campos ditos “teóricos” de investigação acadêmica. Nesse sentido, se podemos “ver Matemática” na encenação corporal da linguagem que faz um carteiro para entregar uma carta, é porque esse modo de vê-la subverte concepções hegemônicas de Matemática, com base na percepção de que a gramática do jogo de linguagem do CEP poderia resolver um problema posto no “mundo dos Correios” se funcionasse como se fosse a gramática do jogo de linguagem do sistema de numeração decimal.
Assim, diante da abrangência e poder indisciplinares do discurso ficcional do modo como o estamos aqui concebendo, penso não ser necessário estabelecer uma linha demarcatória rígida entre narrativas ficcionais e narrativas historiográficas, uma vez que ambas participam igualmente da formação de nossas concepções de realidade e lidam com o evento transcorrido como se fosse … O problema então, se problema há, não consiste em se ver ilegitimidade de qualquer natureza no poder ficcional da linguagem da imaginação e, até mesmo, no poder ficcional da linguagem do delírio, mas em interrogarmo-nos acerca dos efeitos desses poderes e do maior ou menor consentimento que a eles se atribuem em diferentes contextos de atividade humana.
Se nos permitirmos, portanto, investigar a cidade wittgensteiniana da linguagem consentindo também em deixarmo-nos acompanhar por rastros de um olhar fantasmático da “presença ausente” de Derrida, esta “aventura” heterogeneamente compósita não tenderia a ver o historiador como um cientista empírico-verificacionista, vasculhando arquivos nos edifícios judiciários da cidade à busca de documentos comprobatórios da solidez de sua fundação. Também não tenderia a vê-lo como um detetive empírico-indiciário percorrendo ruas, perseguindo pistas e abduzindo rotas para decifrar crimes e enigmas. E nem como um pastor ou cientista hermenêutico, nos templos de todos os tempos espalhados pela cidade, interpretando e elucidando textos para fornecer versões múltiplas - igualmente ou mais ou menos convincentes ou convenientes - de evangelhos e parábolas. Esse historiador poderia se interessar por tudo isso, mas por outras razões12.
Esse historiador heterogeneamente compósito poderia ser visto como um terapeuta gramatical-desconstrucionista13 que precisa cruzar pontes que estabelecem vínculos entre as diferentes camadas geológico-arquitetônicas da cidade da linguagem. Porém, inexplicavelmente, uma densa névoa de casualidade, imprevisibilidade e indecidibilidade nublou toda a cidade e as suas pontes não param de se replicar desordenadamente, desorientando o fluxo linear das temporalidades sobrepostas de seus edifícios. Eis o dilema da névoa na voz de Wittgenstein14:
Você deve atentar-se para o fato de que um jogo de linguagem é, por assim dizer, imprevisível. Quero dizer: não se baseia em fundamentos. Não é racional (ou irracional) (WITTGENSTEIN, 1969, OC-§ 559, p. 73); (WITTGENSTEIN, 1990, SC-§ 559, p. 157).
E agora, o dilema da névoa na voz de Derrida15:
Para melhor analisar esse afastamento […] foi preciso analisar no texto da história da filosofia tanto quanto no texto dito “literário” certas marcas do que chamei de “indecidíveis”, isto é, unidades de simulacro, “falsas” propriedades verbais, nominais ou semânticas, que não se deixam mais compreender na oposição filosófica (binária) e que, entretanto, habitam-na, opõem-lhe resistência, desorganizam-na, mas, sem nunca constituir um terceiro termo, sem nunca dar lugar a uma solução na forma da dialética especulativa (o pharmakon). [O indecidível] não é nem o remédio nem o veneno, nem o bem nem o mal, nem o dentro nem o fora, nem a fala nem a escrita; o suplemento não é nem um mais nem um menos, nem um fora nem um complemento de um dentro, nem um acidente nem uma essência etc. […]. Nem/nem quer dizer ou “ao mesmo tempo” ou “ou um ou outro” (DERRIDA, 2001, p. 49-50).
Desse modo, o historiador terapeuta gramatical-desconstrucionista está impedido de atravessar as pontes da cidade da linguagem, apenas munido da confiança dogmática em lógicas dedutivas, indutivas, abdutivas, ou quaisquer outras, porque, para ele, elas não têm o poder de dissipar a névoa16. E mesmo quando conseguem iluminar parte da cidade, só o fazem ao preço de lançar as outras em zonas sombrias de profundo esquecimento17:
“Recordo-me de que naquela ocasião teria permanecido com prazer por mais tempo”. – Que imagem desse desejo surgiu em minha alma? Nenhuma. O que vejo na minha lembrança não autoriza nenhuma conclusão sobre meus sentimentos. E, no entanto, recordo-me claramente de que eles existiam (Wittgenstein - IF-§ 651).
Diante da situação contraditória gerada pela recusa a se atribuir poder inferencial a algo que nos acostumamos a chamar de memória, mente ou eu18, Wittgenstein transfere o problema das conexões inferenciais19 entre as pontes que ligam o presente ao passado ao domínio das encenações cotidianas da linguagem, dizendo assim:
O fato fundamental aqui é que fixamos regras para um jogo e que quando as seguimos, as coisas não se passam como havíamos suposto. Que, portanto, nos aprisionamos em nossas próprias regras. Este aprisionamento em nossas regras é o que queremos compreender. A posição cotidiana da contradição ou sua posição no mundo cotidiano: este é o problema filosófico (WITTGENSTEIN - IF-§ 125).
Não se trata da elucidação de um jogo de linguagem pelas nossas vivências, mas da constatação de um jogo de linguagem. […] Pois o que está oculto não nos interessa (WITTGENSTEIN-IF-§ 655, itálicos meus) e (WITTGENSTEIN - IF-§ 126).
O historiador terapeuta deve, então, confiar apenas na constatação das rachaduras e fendas expostas nas superfícies das paredes dos presídios obscuros da cidade da linguagem20. São elas os rastros de significados que podem atenuar a névoa e dar visibilidade parcial às pontes que conectam as ruínas da cidade antiga aos edifícios reparados da nova cidade. Wittgenstein parece dizer isso assim:
[…] Pode-se chamar de “filosofia” o que é possível antes de todas as novas descobertas e invenções21 (Wittgenstein - IF-§ 126).
Assim, a atitude metódica que orienta o historiador terapeuta é a desconstrução22, isto é, a descompactação - por constatação e descrição - dos tipos de enxertos utilizados em diferentes reencenações narrativas dessas rachaduras e fendas, nos contextos dos presídios que essas próprias reencenações construíram para si mesmas. O propósito visado pela investigação historiográfica é o de descrever como e com base em que estratégias e recursos retóricos, argumentativos, imagéticos, cênicos, literários ou ficcionais esses enxertos produzem seus efeitos performáticos, isto é, como performam as suas próprias dissonâncias e contradições, as transgressões de regras de suas próprias gramáticas, os seus agramaticais, o sem sentido23. O historiador terapeuta jamais se esquece da máxima derridiana de que “toda tese é uma prótese”24. E nem do aforismo wittgensteiniano que inspirou esta nossa encenação terapêutica da linguagem:
Uma imagem nos mantinha presos. E não pudemos dela sair, pois ela residia em nossa linguagem, que parecia apenas repeti-la para nós inexoravelmente (Wittgenstein - IF-§ 115).
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Referências
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