Open-access Avaliações da práxis da primeira infância utilizadas na Integração Sensorial: uma revisão de escopo

Resumo

O cérebro recebe continuamente informações sensoriais de diferentes partes do corpo e do ambiente, produzindo, respostas motoras e comportamentais adequadas para que o corpo possa aprender a mover e agir funcionalmente. No entanto, quando esse processo não ocorre de forma harmoniosa, podem surgir disfunções de Integração Sensorial, entre elas a dispraxia, que se refere à dificuldade de planejar e executar ações motoras intencionais. Esta pesquisa visa identificar quais instrumentos têm sido utilizados para avaliar a práxis sob a perspectiva da Integração Sensorial, as faixas etárias contempladas e busca identificar instrumentos avaliativos para crianças abaixo de três anos. Trata-se de uma revisão de escopo, cujos termos de busca foram: “sensory integration and children”, “sensory integration” and “sensorimotor performance”, “sensory integration test and praxis” e “sensory integration assessment and babies”. As buscas foram realizadas nas bases de dados Pubmed, Web of Science, BVS, Scopus e Capes. Foram incluídos 95 artigos, nos quais foram identificados 33 instrumentos utilizados na avaliação de integração sensorial, dos quais 16 instrumentos contemplam a avaliação da práxis ou de componentes relacionados à práxis. Foram encontrados três instrumentos de avaliação para idades abaixo de 36 meses: um instrumento de medida indireta e dois instrumentos de medida direta destinados à avaliação da práxis em crianças pequenas, ambos com idade mínima de aplicação superior a um ano. Embora, existam instrumentos de avaliação de práxis na primeira infância, há uma importante lacuna na avaliação de medida direta para crianças menores de 36 meses, indicando a necessidade de instrumentos específicos para esta população.

Palavras-chave:
Terapia Ocupacional; Desenvolvimento Infantil; Percepção; Desempenho Psicomotor.

Abstract

The brain continuously receives sensory information from different parts of the body and the environment, producing appropriate motor and and behavioral responses that enable the body to learn to move and act functionally. However, when this process does not occur harmoniously, Sensory Integration dysfunctions may arise, including dyspraxia, which refers to difficulty in planning and executing intentional motor actions. This study aims to identify which instruments have been used to assess praxis from the perspective of Sensory Integration, the age groups covered, and to identify assessment instruments for children under three years of age. This is a scoping review, in which the search terms were: “sensory integration and children”, “sensory integration” and “sensorimotor performance”, “sensory integration test and praxis”, and “sensory integration assessment and babies”. The searches were conducted in the PubMed, Web of Science, BVS, Scopus, and CAPES databases. Ninety-five articles were included, identifying 33 instruments used in sensory integration assessment, of which 16 included the assessment of praxis or praxis-related components. Three assessment instruments for children under 36 months of age were identified: one indirect measure instrument and two direct measure instruments intended for the assessment of praxis in young children, both with a minimum application age above one year. Although there are praxis assessment instruments for early childhood, there is an important gap in direct assessment measures for children younger than 36 months, indicating the need for specific instruments for this population.

Keywords:
Occupational Therapy; Child Development; Perception; Psychomotor Performance

Introdução

O cérebro, segundo Ayres (1972, 2004), recebe e processa continuamente um número infinito de sensações sensoriais por diferentes órgãos do corpo, produzindo respostas motoras e comportamentais adequadas, de modo que a criança possa se movimentar de maneira funcional. Ao detectar informações sensoriais do próprio corpo e do ambiente, a criança consegue responder adequadamente às demandas da vida cotidiana (Ayres, 1972, 2004). A Integração Sensorial de Ayres® (ISA) visa organizar as sensações recebidas por meio dos cinco sentidos e, também, das vias proprioceptivas e vestibulares, para que a criança possa gerar uma resposta adaptativa adequada (Ayres, 1972). Entretanto, quando esse processo não ocorre de forma harmônica, desencadeia-se uma disfunção na Integração Sensorial. As disfunções sensoriais são classificadas em disfunções de modulação e dispraxia (Bundy & Lane, 2020). Os problemas de modulação contemplam respostas hiper-reativas ou hiporreativas (Bundy & Lane, 2020; Oliveira & Souza, 2022), e a dispraxia refere-se à dificuldade de idealizar e planejar novas ações motoras (Ayres & Cermak, 2011; Cermak & May-Benson, 2020; Vives-Vilarroig et al., 2022).

Para avaliar os problemas relacionados à práxis, Ayres (1972, 2004) desenvolveu, na década de 1970, o primeiro instrumento para avaliação das disfunções sensoriais, o The Southern California Sensory Integration Test (SCSIT), que avaliava a percepção visual, tátil, cinestésica e a função percepto-motora. Posteriormente, desenvolveu o Sensory Integration and Praxis Tests (SIPT), que avalia as disfunções das percepções sensoriais e as práxis, permitindo compreender as dificuldades de aprendizagem apresentadas pelas crianças (Ayres, 1989; Ayres & Cermak, 2011). Desde então, muitos instrumentos de Integração Sensorial foram desenvolvidos para avaliar essa problemática; porém, a maior parte dessas avaliações destina-se a crianças em idade pré-escolar e escolar. Sendo assim, este estudo tem como objetivo realizar uma revisão de escopo para identificar quais instrumentos estão sendo utilizados na avaliação das práxis na Integração Sensorial, quais faixas etárias estão sendo contempladas e se existe algum instrumento para avaliação da práxis em bebês e crianças pequenas.

Método

Inicialmente, foi realizada uma revisão de escopo, metodologia que tem por objetivo mapear e explorar a literatura disponível sobre um tema específico para verificar a existência de instrumentos de Integração Sensorial capazes de avaliar a práxis em bebês e crianças pequenas. A questão de revisão foi formulada com base na estratégia PCC (População, Conceito e Contexto), sendo: “Quais são os instrumentos de avaliação utilizados na área de Integração Sensorial para avaliar a práxis em crianças abaixo de três anos de idade?”.

Os termos de busca foram: “sensory integration and children”, “sensory integration and sensorimotor performance”, “sensory integration test and praxis” e “sensory integration assessment and babies”, e as bases de dados consultadas foram: PubMed, Web of Science, BVS (LILACS, MEDLINE e PsycINFO), Scopus e CAPES. A pesquisa foi realizada entre julho de 2023 e maio de 2024, com o armazenamento dos artigos na plataforma Rayyan. A seleção foi conduzida por dois revisores independentes, em modo blind on. Os critérios de inclusão foram artigos publicados em periódicos, escritos em inglês, espanhol ou português, com texto completo disponível nos provedores universitários ou na internet, que abordassem a práxis na avaliação da Integração Sensorial para crianças de zero a 12 anos e contassem com pelo menos um terapeuta ocupacional entre os autores.

Após a remoção das duplicatas, os estudos foram avaliados e selecionados com base nos critérios de elegibilidade por dois revisores independentes, por meio da leitura dos títulos e resumos dos estudos (fase 1), seguida da leitura do texto completo dos estudos selecionados na fase 1 (fase 2). Eventuais divergências no processo de seleção dos estudos foram resolvidas por um terceiro revisor.

No total, foram encontrados 8.485 artigos nas seguintes bases de dados: PubMed (n = 1.006), Web of Science (n = 1.476), BVS (n = 4.444), Scopus (n = 1.011) e CAPES (n = 548). Após a exclusão de 3.449 artigos duplicados, restaram 5.036 artigos para análise. Após a análise inicial, realizada por meio da leitura dos títulos e resumos em modo blind on, foram selecionados 343 artigos para leitura na íntegra. Desses, 327 artigos foram excluídos por não apresentarem instrumentos ou questionários padronizados sobre práxis, 16 artigos não foram localizados e, ao final, 95 artigos foram incluídos na análise.

Por se tratar de um estudo de revisão de instrumentos, foram respeitados os princípios éticos da pesquisa e da integridade acadêmica durante a extração e a análise dos dados, bem como o devido reconhecimento da autoria dos instrumentos incluídos. O fluxograma desse processo é apresentado na Figura 1.

Figura 1
Diagrama de fluxo.

Resultados

Dos 95 artigos científicos analisados, observou-se que alguns utilizaram instrumentos de avaliação da práxis, enquanto outros associaram a avaliação da práxis a questionários de modulação sensorial. Nesta revisão, não foram analisados o nível de evidência dos artigos nem o rigor psicométrico dos instrumentos, uma vez que foram considerados apenas os temas abordados. As avaliações de Integração Sensorial localizadas foram classificadas em duas categorias: 1) medida direta – testes abrangentes de administração direta à criança; e 2) medida indireta – questionários destinados aos pais ou cuidadores para avaliação da integração sensorial. Essas categorias foram apresentadas nas Tabelas 1 e 2, que descrevem a faixa etária de aplicação, o objetivo dos instrumentos e a frequência com que foram utilizados nos estudos analisados.

Tabela 1
Instrumentos de medida direta que avaliam crianças menores de três anos.
Tabela 2
Instrumentos de medida direta que avaliam crianças maiores de três anos.
  1. Instrumentos de Medida Direta: Testes abrangentes de administração direta à criança, os quais são apresentados a seguir. Dos 22 instrumentos identificados nesta categoria, nove avaliam a modulação sensorial, enquanto 13 mensuram a discriminação sensorial e/ou as dificuldades de práxis.

Em relação à faixa etária, os instrumentos encontrados para crianças menores de três anos de idade foram: Postrotary Nystagmus Test (Lucas et al., 2023; Mailloux et al., 2014, 2018); Preschool Imitation and Praxis Scale (PIPS) (Lucas et al., 2022, 2023; Vanvuchelen et al., 2011); Tactile Defensiveness and Discrimination Test–Revised (Baranek, 2010; Lucas et al., 2023); Gravitational Insecurity Assessment (Lucas et al., 2023; May-Benson & Koomar, 2007); Test of Sensory Functions in Infants (TSFI) (DeGangi & Greenspan, 1989; Alves et al., 2010; Beltrame et al., 2021; Huang et al., 2020; Jorquera-Cabrera et al., 2017; Lin et al., 2013; Lucas et al., 2022, 2023; Moosa et al., 2023; Niutanen et al., 2019); Touch Inventory for Preschoolers (Jorquera-Cabrera et al., 2017; Parush et al., 2006; Royeen, 1987); e Miller Assessment for Preschoolers (MAP) (Miller, 1985; Alves et al., 2010; Iwanaga et al., 2014; Jorquera-Cabrera et al., 2017; Lucas et al., 2023; Moosa et al., 2023; Niutanen et al., 2019; Paul et al., 2003; Schaaf & Miller, 2005; Schaaf et al., 2018; Schoen et al., 2019a). Os instrumentos que contêm itens de práxis estão apresentados na Tabela 1 e encontram-se destacados em cinza.

Os testes a partir de três anos identificados foram: Sensory Processing 3-Dimensions Scale (SP3D) (Miller et al., 2020; Lucas et al., 2023; Mulligan et al., 2019; Schoen et al., 2019b); Evaluation in Ayres Sensory Integration (EASI) (Mailloux et al., 2018; Gándara-Gafo et al., 2021; Lamash et al., 2022; Mailloux et al., 2021; Schaaf et al., 2023) e DeGangi–Berk Test of Sensory Integration (TSI) ((DeGangi & Berk, 1983b; Jorquera-Cabrera et al., 2017; Lin et al., 2012; Moosa et al., 2023; Paul et al., 2003). Os três testes contêm itens de práxis. Os instrumentos que avaliam a práxis estão representados na Tabela 2 e encontram-se destacados em cinza.

Os instrumentos localizados para avaliação de crianças a partir dos quatro anos de idade foram: Sensory Adventure Measure (SAM) (Liberman et al., 2021; Lucas et al., 2023); Sensory Integration Clinical Observations (Lucas et al., 2023; May-Benson & Teasdale, 2020); Sensory Processing Scale Assessment 2.0 (SPS Assessment 2.0) (Jorquera-Cabrera et al., 2017; Lucas et al., 2023; Schoen et al., 2014); Observations Based on Sensory Integration Theory (Alves et al., 2010; Blanche & Reinoso, 2008; Zambruno, 2020); Pediatric Clinical Test of Sensory Interaction for Balance (P-CTSIB) (Crowe et al., 2009; Jorquera-Cabrera et al., 2017); Sensory Integration and Praxis Tests (SIPT) (Alkhalifah et al., 2022; Alves et al., 2010; Asher et al., 2008; Blanche & Reinoso, 2008; Bodison & Mailloux, 2006; Bundy et al., 2007; Cermak & Murray, 1990; Cermak et al., 1990; Chang & Yu, 2018; Hurst et al., 2006; van Jaarsveld et al., 2012; Jorquera-Cabrera et al., 2017; Kilroy et al., 2022; Lane et al., 2019; Lennox et al., 1988; Lin et al., 2005, 2012; Lin & Wu, 2014; Lucas et al., 2023; Mailloux et al., 2011; May-Benson & Koomar, 2010; Moosa et al., 2023; Mulligan, 1996; Mulligan, 1998; Mulligan, 2000; Mulligan, 2011; Niutanen et al., 2019; Omairi et al., 2022; Parham et al., 2019; Parush et al., 2006; Reeves, 1998; Reynolds et al., 2016; Siaperas et al., 2012; Roley et al., 2015a, Roley et al., 2015b; Romero-Ayuso et al., 2020; Schaaf et al., 2012, 2014; Schoen et al., 2019b; Alvarez et al., 2020); Southern California Sensory Integration Tests (SCSIT) (Alves et al., 2010; Atwood & Cermak, 1986; Cermak et al., 1980, 1986; Kimball, 1977; Lin et al., 2012; Lindquist et al., 1982; Schaaf & Miller, 2005; Tran et al., 2022); e Ayres Clinical Observations (Alves et al., 2010; Lindquist et al., 1982). Desses, cinco instrumentos avaliam a práxis. Esses instrumentos estão apresentados na Tabela 3 e encontram-se destacados em cinza.

Tabela 3
Instrumentos de medida direta que avaliam crianças maiores de quatro anos.

Os instrumentos localizados para avaliação de crianças a partir dos cinco anos de idade foram: Comprehensive Observations of Proprioception–Revised (COP-R) (Blanche et al., 2012, 2021; Jorquera-Cabrera et al., 2017; Lucas et al., 2023); Motor Planning Maze Assessment (MPMA) (Jorquera-Cabrera et al., 2017; May-Benson, 2006); Test of Ideational Praxis (TIP) (May-Benson & Cermak, 2007; Jorquera-Cabrera et al., 2017; Lane et al., 2014, 2019; Hagihara et al., 2016; Lucas et al., 2023; Serrada-Tejeda et al., 2021); e Observaciones Clínicas Sensorio-Motoras (Blanche et al., 2016; Jorquera-Cabrera et al., 2017). Desses, três instrumentos avaliam a práxis. Esses instrumentos estão apresentados na Tabela 4 e encontram-se destacados em cinza.

Tabela 4
Instrumentos de medida direta que avaliam crianças maiores de cinco anos.
  1. Instrumentos de Medida Indireta: (Questionário de Integração Sensorial para pais/cuidadores) Dos onze instrumentos localizados nesta categoria, oito avaliam a modulação sensorial da criança, enquanto três mensuram a discriminação sensorial e/ou as dificuldades de práxis. Em relação à faixa etária, os instrumentos encontrados para crianças menores de um ano de idade foram:

Sensory Integration Infant Routines Questionnaire (SIIRQ) (Lucas et al., 2022); Sensory Processing Measure–2 (SPM-2) (Parham et al., 2021; Brown et al., 2023; Gándara-Gafo & Beaudry-Bellefeuille, 2023; Narzisi et al., 2022; Parham et al., 2019); Sensory Profile 2 (SP2) (Dunn, 2014; Asher et al., 2008; Brown et al., 2010; Bundy et al., 2007; Polatajko & Cantin, 2010; Schaaf & Miller, 2005; Schaaf et al., 2012, 2014; Roley et al., 2015a; Jorquera-Cabrera et al., 2017; Schoen et al., 2019a; Niutanen et al., 2019; Huang et al., 2020; Beltrame et al., 2021; Tran et al., 2022; Lucas et al., 2022, 2023; Moosa et al., 2023; Balikci et al., 2023); e Sensory Rating Scale (Provost & Oetter, 1994; Lucas et al., 2022). Os instrumentos que avaliam a práxis estão apresentados na Tabela 5 e encontram-se destacados em cinza.

Tabela 5
Instrumentos de medida indireta que avaliam crianças menores de um ano.

A partir dos dois anos de idade, os instrumentos encontrados foram: Sensory Processing Measure–Preschool (SPM-P) (Ecker & Parham, 2010; Alkhalifah et al., 2022; Balikci et al., 2023; Kuhaneck et al., 2023; Lucas et al., 2022); e Sensory Experiences Questionnaire (SEQ) (Baranek, 1999; Jorquera-Cabrera et al., 2017; Schaaf et al., 2012; Lucas et al., 2022, 2023). Os instrumentos que avaliam a práxis estão apresentados na Tabela 6 e encontram-se destacados em cinza.

Tabela 6
Instrumentos de medida indireta que avaliam crianças maiores de dois anos.

A partir dos três anos de idade, os instrumentos encontrados foram: Behavioral Observation on Sensory Stimuli Questionnaire for Parents (BOSS-P) (Barrios-Fernández et al., 2020); Sensory Profile (SP) (Dunn, 1999; Alves et al., 2010; Alvarez et al., 2020; Oh et al., 2024); Sensory Sensitivity Questionnaire–Revised (SSQ-R) (Jorquera-Cabrera et al., 2017; Talay-Ongan & Wood, 2000); Developmental and Sensory Processing Questionnaire (DSPQ) (Cermak & Miller, 1993; Lin et al., 2005); e Sensory Processing Measure (SPM) (Parham et al., 2007; Miller-Kuhaneck et al., 2007; Asher et al., 2008; Brown et al., 2010; Mailloux et al., 2011; Schaaf et al., 2011; Roley et al., 2015a, 2015b; van Jaarsveld et al., 2016; Allen & Casey, 2017; Jorquera-Cabrera et al., 2017; Schaaf et al., 2018; Parham et al., 2019; Dadson et al., 2020; Hen-Herbst et al., 2020; Zambruno, 2020; Omairi et al., 2022; Yela-González et al., 2021). Os instrumentos que avaliam a práxis estão apresentados na Tabela 7 e encontram-se destacados em cinza.

Tabela 7
Instrumentos de medida indireta que avaliam crianças maiores de três anos.

Foram encontrados onze instrumentos de medida indireta, em formato de questionário destinado aos pais ou cuidadores, que buscam identificar aspectos do processamento sensorial. Desses, oito avaliam a modulação sensorial da criança em casa e/ou na escola. Apenas três instrumentos possuem itens relacionados à práxis: Sensory Processing Measure (SPM), Sensory Processing Measure–Preschool (SPM-P), and Sensory Processing Measure–2 (SPM-2).

Discussão

Atualmente, as práxis, dentro da Integração Sensorial de Ayres, são definidas como práxis ideacional, visuodispraxia, somatodispraxia (Cermak & May-Benson, 2020; Mailloux et al., 2018). Entretanto, os primeiros instrumentos de avaliação da práxis não contemplavam todas as formas de dispraxia, como o Southern California Sensory Integration Tests (SCSIT), identificado em nove artigos, e o Sensory Integration and Praxis Tests (SIPT), encontrado em 42 artigos. Este instrumento, embora seja considerado um instrumento padrão ouro (Ayres, 1989), apresenta limitações de uso devido ao elevado custo de aquisição e correção, bem como à ausência de validação e adaptação transcultural para diversos países (Mailloux et al., 2018). Visando ampliar a acessibilidade e favorecer sua aplicação em diferentes contextos culturais, foi desenvolvido o Evaluation in Ayres Sensory Integration (EASI), que avalia a práxis ideacional, bem como a percepção sensorial, a integração motora postural, ocular e bilateral, as habilidades práxicas e a reatividade sensorial (Mailloux et al., 2018). Embora se trate de um instrumento recente, ele foi citado em seis artigos incluídos nesta revisão. Apesar de o EASI apresentar vantagens relacionadas ao custo-benefício e à adaptação transcultural em diversos países, inclusive no Brasil (Massoqueto, 2023), o instrumento ainda se encontra em processo de validação. O SIPT é considerado um instrumento padrão ouro, com elevado rigor psicométrico, porém validado apenas para crianças norte-americanas. Por sua vez, o EASI ainda está em desenvolvimento, e suas publicações têm se concentrado em estudos psicométricos e adaptações transculturais. Não foram localizados artigos que empregassem o EASI em avaliações clínicas ou intervenções terapêuticas. Diferentemente, o SIPT tem sido amplamente utilizado em pesquisas envolvendo avaliação e intervenção, inclusive no Brasil, como demonstra um ensaio clínico randomizado controlado (Omairi et al., 2022). Tendo em vista que, dos 95 artigos analisados, 53 foram conduzidos nos Estados Unidos e apenas três eram brasileiros, esses resultados evidenciam a escassez da produção científica brasileira na área da Integração Sensorial e reforçam a necessidade de ampliar as pesquisas nacionais sobre o tema.

O Miller Assessment for Preschoolers (MAP),foi identificado em onze artigos, porém sua utilização no Brasil ainda é limitada, foi identificado em onze artigos e avalia habilidades de discriminação sensorial, fundamentos posturais e práxis, além de detectar atrasos visuais, perceptivos e de linguagem (Miller, 1985). O Test of Ideational Praxis (TIP), encontrado em oito estudos, é um instrumento de avaliação da práxis ideacional, pouco difundido no país e cujo treinamento é realizado apenas no exterior (May-Benson & Cermak, 2007). O DeGangi-Berk Test of Sensory Integration (TSI), também pouco difundido no Brasil, foi identificado em cinco artigos e avalia o controle postural, a coordenação bilateral e a integração motora (De Gangi & Berk, 1983a). O Preschool Imitation and Praxis Scale (PIPS), também pouco utilizado no Brasil, foi encontrado em três artigos e avalia os padrões de imitação (Vanvuchelen et al., 2011). O Sensory Processing 3-Dimensions Scale (SP3D), ainda em fase de validação nos Estados Unidos, identificado em três estudos, avalia habilidades sensoriais, desafios do processamento sensorial relacionados à modulação, à discriminação, às habilidades motoras e à práxis (Mailloux et al., 2018). Por fim, o Sensory Processing Measure-2 (SPM-2), identificado em quatro artigos, foi o único instrumento localizado que avalia crianças a partir dos quatro meses de idade e contempla funções relacionadas à práxis (Parham et al., 2021). Entretanto, trata-se de uma medida indireta e o instrumento ainda não possui adaptação transcultural para o Brasil.

Em algumas pesquisas, foram localizadas as Ayres Clinical Observations, compostas originalmente por onze observações clínicas que examinavam as funções cerebelares e vestibulares, com o objetivo de complementar as informações obtidas por meio de testes padronizados (Ayres, 1972). As Ayres Clinical Observations, identificadas em dois artigos (Ayres, 1972), consistem em um conjunto de tarefas motoras estruturadas para avaliar reflexos posturais primitivos, co-contração de músculos antagonistas, tônus muscular, controle muscular extraocular, função do sistema vestibular, integração da função dos dois lados do corpo e habilidades de práxis (May-Benson & Teasdale, 2020). Outras observações clínicas também foram desenvolvidas, como as Observations Based on Sensory Integration Theory (Blanche, 2002), identificadas em 3 artigos; e o Sensorimotor Clinical Observations (Blanche et al., 2017), identificado em dois artigos. Entretanto, esses instrumentos são aplicáveis apenas a crianças a partir dos quatro e/ou cinco anos de idade.

Em diversas pesquisas, foram utilizados, de forma associada, instrumentos de avaliação, como o Sensory Integration and Praxis Tests (SIPT) e/ou as Ayres Clinical Observations, em conjunto com questionários destinados aos pais sobre modulação sensorial, como o Sensory Processing Measure (SPM) (Parham et al., 2007), identificado em 18 artigos, nas versões Home e School, e o Sensory Profile 2 (SP2) (Dunn, 2014), identificado em 17 artigos.

As avaliações clínicas de Ayres foram difundidas no Brasil pelas terapeutas ocupacionais Blanche, Reinoso e May-Benson. Trata-se de avaliações observacionais amplamente utilizadas no país, sem custo, de fácil acesso e de fácil aplicação. Entretanto, todas apresentam como fator limitante a idade mínima para aplicação, sendo destinadas a crianças a partir dos quatro anos de idade.

No Brasil, os primeiros instrumentos de Integração Sensorial utilizados pelos terapeutas ocupacionais foram o SP1 e o SIPT, ambos sem adaptação transcultural e validação para a população brasileira. Atualmente, estão sendo difundidos instrumentos com adaptação transcultural e validação para a população brasileira, como o SP2 (Almohalha, 2018), o SosiM/COP (Ovando, 2023) e o EASI (Massoqueto, 2023). Dentre os instrumentos citados, apenas o SP2 está validado para o Brasil e contempla as faixas etárias iniciais dos bebês. Entretanto, embora seja um instrumento de Integração Sensorial, ele não avalia as práxis.

Foram encontrados três instrumentos de avaliação destinados a crianças com idades inferiores a 36 meses. Entre as medidas diretas, foram identificados dois instrumentos destinados à avaliação da práxis em crianças pequenas, com idades iniciais superiores a um ano. A idade mínima mais precoce encontrada nesta revisão correspondeu ao Preschool Imitation and Praxis Scale (PIPS), aplicável a partir de um ano e cinco meses, seguida pelo Miller Assessment for Preschoolers(MAP), cuja idade mínima de aplicação é de dois anos e nove meses. Entre as medidas indiretas, o Sensory Processing Measure-2 (SPM-2) foi o único instrumento que avalia a ideação e o planejamento na faixa etária de quatro a 30 meses.

A ausência de instrumentos nacionais ou devidamente adaptados transculturalmente para avaliar esse construto compromete tanto o processo avaliativo quanto as intervenções terapêuticas, que devem ser fundamentadas em evidências científicas. Avaliações desenvolvidas em outros países refletem padrões culturais, familiares e contextuais próprios de suas populações de origem. Considerando que o Brasil possui dimensões continentais e elevada diversidade sociocultural, faz-se necessária a disponibilização de instrumentos validados para as diferentes regiões e realidades socioculturais do país. Dessa forma, a simples tradução linguística não é suficiente para garantir a equivalência conceitual, funcional e semântica dos instrumentos (Beaton et al., 2000). Nesta revisão, ficou evidente a escassez de instrumentos robustos capazes de avaliar, de forma direta, as práxis ou seus componentes em bebês menores de três anos de idade, sob a perspectiva da Integração Sensorial de Ayres (ISA). Além disso, observou-se escassez de estudos que discutam o desenvolvimento dos componentes das práxis nessa população, bem como a emergência das habilidades práxicas na primeira infância.

Diante desse cenário, evidencia-se a necessidade de desenvolver um instrumento nacional para avaliar a práxis de crianças brasileiras, sensível ao contexto sociocultural do país e capaz de representar as experiências significativas e singulares relacionadas ao desenvolvimento das habilidades de práxis nessa população, permitindo interpretações clínicas mais confiáveis.

Conclusão

Esta revisão teve como objetivo identificar as idades iniciais das crianças contempladas nos instrumentos analisados e verificar a existência de instrumentos de avaliação da práxis para bebês e crianças pequenas. Foram identificados poucos instrumentos de avaliação e/ou estudos que abordam a avaliação clínica da práxis na primeira infância, sendo que muitos dos instrumentos localizados foram identificados em artigos de revisão sistemática e de revisão da literatura.

Embora exista um número crescente de adaptações transculturais de instrumentos de Integração Sensorial de Ayres (ISA) no país, todos os instrumentos adaptados apresentam idade mínima de aplicação superior a 36 meses. A faixa etária entre recém-nascidos e crianças de um ano e cinco meses merece maior atenção, pois há escassez de pesquisas voltadas a essa população e, consequentemente, o conhecimento científico sobre a Integração Sensorial e o desenvolvimento das práxis nessa fase da vida ainda é limitado. Portanto, os resultados desta revisão evidenciam a necessidade de que mais pesquisas envolvendo crianças desde o nascimento até os 36 meses de idade sejam desenvolvidas.

Como citar:

Silva, K. C., Scofield, R. S., & Pfeifer, L. I. (2026). Avaliações da práxis da primeira infância utilizadas na Integração Sensorial: uma revisão de escopo. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, 34, e4227. https://doi.org/10.1590/2526-8910.cto427042271

Disponibilidade de Dados

Os dados que sustentam os resultados deste estudo estão disponíveis com o autor correspondente, mediante solicitação.

Fonte de Financiamento

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.

Referências

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Correspondência

Autora para correspondência: Kátia Cezário da Silva E-mail: katia_cezario@yahoo.com.br

Editora de seção

Profa. Dra. Iza de Faria-Fortini

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    05 Set 2025
  • Revisado
    27 Nov 2025
  • Revisado
    09 Abr 2026
  • Aceito
    20 Maio 2026
Creative Common - by 4.0
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/), que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.
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