Resumo
Numa perspectiva contra-hegemônica, este artigo, fundamentado em textos de pensadores que compõem o Pensamento Latino-Americano em Ciência, Tecnologia e Sociedade (PLACTS), tem o objetivo de apresentar temáticas que podem contribuir para a discussão sobre as relações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) no âmbito do Ensino de Física. Nesse contexto, as reflexões aqui apresentadas se afastam das concepções de Ciência e Tecnologia (C&T) difundidas nos países centrais do capitalismo, especialmente nos Estados Unidos e na Europa. Para tanto, são utilizadas as propostas fundamentais de dois autores relevantes do PLACTS: Oscar Varsavsky e José Leite Lopes. Com base nesses autores, são elencadas categorias temáticas que podem contribuir para as discussões e oferecer diferentes perspectivas para a CTS no Ensino de Física. Por fim, são apontadas perspectivas para a discussão CTS no Ensino de Física, por meio da visão social da C&T fundamentada no PLACTS.
Palavras-chave:
José; Leite Lopes; Oscar Varsavsky; ensino de física; ciência; tecnologia e sociedade; pensamento latino-americano em ciência; tecnologia e sociedade.
Abstract
Adopting a counter-hegemonic perspective based on the works of thinkers connected to the Latin American School of Science, Technology and Society (LASTS), this article aims to explore themes that can contribute to discussions on the relationships between Science, Technology and Society (STS) in the context of Physics Education. In this particular context, the presented reflections diverge from the prevalent conceptions of Science and Technology (S&T) in core capitalist countries, particularly the United States and Europe. To achieve this objective, the fundamental proposals of two prominent LASTS authors, Oscar Varsavsky and José Leite Lopes, are employed. These author have identified thematic categories that contribute to discussions and offer different perspectives on STS in Physics Education. Finally, the article outlines perspectives for STS discussion in Physics Education based on the social view of S&T advocated by LASTS.
Keywords:
José; Leite Lopes; Oscar Varsavsky; physics education; science, technology, and society; Latin American school on science, technology, and society.
Introdução
No âmbito do Ensino de Física, temáticas relacionadas ao campo Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) tornaram-se mais frequentes nas últimas duas décadas. Essas temáticas são abordadas, em geral, por meio da sua possível inserção nos currículos de Física, tanto na educação básica como na educação superior. Esse fato, percebido no Ensino de Física em particular, repete-se no âmbito mais geral do Ensino de Ciências. Nessa perspectiva, Freitas e Ghedin (2015) estabeleceram um panorama comparativo entre pesquisas sobre o estado da arte em CTS, assinalando a relevância que a temática tem adquirido nas últimas décadas.
Alguns dos trabalhos sobre CTS no Ensino de Física concentram-se em introduzir temas relacionados à Física moderna (a partir do século XX) com o objetivo de atualizar os conteúdos trabalhados em Física na educação básica, como visto em Oliveira (2016). Já no âmbito do ensino superior, um estudo de Rufo e Machado (2023) evidenciou que a maior parte dos trabalhos, diferentemente da educação básica na qual algumas discussões CTS se preocupam com questões político-econômicas e ambientais, foca-se em aplicações tecnológicas das ciências, como a Física e a Química. Além disso, têm sido produzidos alguns trabalhos que se apropriam do Pensamento Latino-Americano em Ciência, Tecnologia e Sociedade (PLACTS) com o objetivo de discutir temáticas CTS no Ensino de Ciências, conforme pode ser visto em Auler e Delizoicov (2015), Oliveira e Pereira (2024), Roso, Auler e Delizoicov (2020) e Schwan e Santos (2021). Por se tratar de um tema multidisciplinar, não há consenso sobre quais discussões, relativas ao campo CTS, devem ser abordadas nas propostas curriculares. O que se percebe, ao longo do tempo, são propostas que apontam para temáticas difusas relacionadas à CTS (Auler, 1998). Essas temáticas, segundo Auler (2007, p. 1), apresentam-se em três dimensões: “[...] a abordagem de temas de relevância social, a interdisciplinaridade e a democratização de processos de tomada de decisão em temas envolvendo Ciência e Tecnologia”.
O campo CTS emerge a partir da segunda metade do século XX como uma resposta crítica à chamada concepção tradicional de Ciência e Tecnologia (C&T), que vigorava até então. De acordo com Garcia, Cerezo e López (2000), tal concepção reforçava o caráter linear do desenvolvimento científico, no qual a pesquisa em ciência básica e sua aplicação gerariam, de maneira direta, o progresso econômico-social das sociedades. Para o modelo linear de desenvolvimento, tanto a Ciência como o seu produto, a Tecnologia, possuíam uma racionalidade interna apartada do seu contexto social. Contudo, ainda conforme Garcia, Cerezo e López (2000), esse modelo, influenciado pelo Relatório Science: The endless frontier1, passou a ser contestado de maneira mais direta após os desastres ocasionados pela C&T a partir do final da década de 1950. Por esse motivo, os primeiros estudos CTS problematizavam a questão da neutralidade da C&T, investigando seus antecedentes e consequências no âmbito social e ambiental. Esses estudos tiveram origem, inicialmente, nos Estados Unidos e na Europa, ou seja, em regiões industrializadas formadas pelos países dominantes do capitalismo (Auler; Bazzo, 2001; Bazzo; Von Linsingen; Pereira, 2003).
Na América Latina, a partir das décadas de 1960 e 1970, vários autores passaram a contestar não somente o modelo linear de desenvolvimento, mas também as concepções críticas defendidas pelos teóricos estadunidenses e europeus no campo CTS. Para esses autores, os avanços produzidos pelos estudos CTS nos EUA e na Europa não eram capazes de apreender a realidade dos países periféricos do capitalismo. Esses pensadores, embora heterogêneos em suas abordagens, desenvolveram análises críticas voltadas às particularidades regionais, enfatizando o papel social da C&T e questionando modelos de transferência tecnológica associados à substituição de importações. Refletindo, sobretudo, orientações político-ideológicas distintas, enquanto compartilhavam a visão de que C&T deveriam estar alinhadas às demandas locais e ao desenvolvimento nacional, eles divergiam quanto às estratégias para alcançar esses objetivos, assumindo concepções que influenciavam suas propostas teóricas e práticas. Essa corrente crítica consolidou-se como a base do PLACTS, marco teórico que busca reinterpretar a dinâmica da C&T a partir da realidade material latino-americana (Dagnino, 2008; Dagnino; Thomas; Davyt, 1996).
Nesse contexto, o PLACTS passou a congregar o pensamento de muitos cientistas e pesquisadores latino-americanos, entre os quais se destacam Amílcar Oscar Herrera, Jorge Sábato e Osvaldo Sunkel. Herrera (1920-1995) foi um geólogo argentino, professor titular da cátedra de Geologia Econômica na Universidade de Buenos Aires (UBA). Sábato (1924-1983) foi um físico e tecnólogo argentino, também professor da UBA. Sunkel (1927-) é um economista chileno ligado à Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), da ONU, e à Universidade do Chile.
Além de Herrera e Sábato, também na Argentina, Oscar Varsavsky (1920-1976) produziu uma série de discussões relativas à política científico-tecnológica. Varsavsky foi um cientista argentino graduado em Química e com doutorado em Física, com contribuições importantes na área da Matemática. Na Física, seus estudos concentravam-se na Mecânica Quântica, e na Matemática seus trabalhos versavam sobre Análise, Álgebra e Topologia. Além da Física e da Matemática, a partir de 1961, Varsavsky passou a aplicar modelos matemáticos às Ciências Sociais, sendo um dos pioneiros da área. A partir desses estudos, desenvolveu um método matemático-computacional, denominado experimentação numérica, que buscava cobrir as lacunas das aplicações matemáticas utilizadas em modelos sociais até então. Foi com a aplicação da experimentação numérica à realidade latino-americana que Varsavsky (1976) concebeu seu famoso livro, Por uma Política Científica Nacional.
No Brasil, José Leite Lopes (1918-2006) desenvolveu uma série de discussões relacionadas à produção científico-tecnológica e suas relações econômico-políticas. Lopes foi um físico brasileiro que desenvolveu trabalhos importantes em Teoria Quântica de Campos e Física de Partículas. Iniciou sua vida acadêmica em 1935, cursando Química Industrial na Escola de Engenharia de Pernambuco. Em 1940, iniciou o curso de Física na Faculdade Nacional de Filosofia, localizada no Rio de Janeiro, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em 1943, por meio de uma bolsa, começou a lecionar e pesquisar na Universidade de São Paulo (USP). Em seguida, mudou-se para os Estados Unidos para cursar seu doutorado na Universidade de Princeton. Lopes teve contato com os mais reconhecidos físicos do período, como, por exemplo, seu orientador de doutorado, Wolfgang Pauli. Após sua defesa de doutorado, em 1946, Lopes voltou ao Brasil e participou ativamente da fundação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) (Lopes, 1998).
As contribuições de Lopes e Varsavsky foram muito além de suas áreas de formação. Ambos conceberam trabalhos relacionados à produção científico-tecnológica, à concepção de C&T, ao desenvolvimento tecnológico, à C&T dependente, à transformação social por meio da C&T, à ideologia da C&T produzida nos países capitalistas dominantes e ao projeto nacional de C&T, entre outros temas presentes, principalmente, nos livros Ciência e Liberdade (Lopes, 1998) e Por uma Política Científica Nacional (Varsavsky, 1976), referências basilares para a elaboração deste artigo.
Ciência e Liberdade (Lopes, 1998) é uma coletânea de textos publicados entre as décadas de 1940 e 1990. Neles, o autor aborda múltiplos temas relacionados à C&T. Ao longo dos anos, principalmente a partir da década de 1960, Lopes assumiu uma posição cada vez mais crítica, reconhecendo as particularidades do capitalismo dependente brasileiro e sua relação com a situação político-econômica e cultural do país. Nesse sentido, suas reflexões se tornaram cada vez mais relevantes para o campo da Física, em particular, e para a C&T brasileira, em geral (Lopes, 1998).
Varsavsky (1976), em Por uma Política Científica Nacional, realiza uma análise mais ampla da realidade latino-americana, embora seu foco esteja nas questões científico-tecnológicas. Nesse texto, Varsavsky elabora, a partir de seu próprio método matemático, possibilidades para um desenvolvimento científico-tecnológico autônomo, tendo como objetivo último a transformação social. Nesse sentido, indica caminhos possíveis a partir das realidades nacionais latino-americanas. Ele propõe uma transformação radical das sociedades latino-americanas, por meio da superação do sistema de produção capitalista. A partir desses dois trabalhos e do que já foi produzido sobre o tema, nota-se que o PLACTS tem muito a contribuir para as discussões sobre CTS no âmbito do Ensino de Física, principalmente por tratar a ciência e a tecnologia como processos sociais, produtos da realidade histórica e vinculados às dinâmicas econômicas, políticas e culturais.
Contexto latino-americano e o surgimento do PLACTS
Localizado na periferia do sistema de produção capitalista global, o Brasil, assim como outros países latino-americanos, historicamente ocupa uma posição de subordinação econômica, política e sociocultural em relação aos países centrais do capitalismo, notadamente os EUA. Nesse contexto periférico, o capitalismo assume contornos particulares, distante das dinâmicas observadas nos centros hegemônicos. Ao longo do século XX, debates teóricos buscavam elucidar as singularidades da inserção das nações latino-americanas na ordem capitalista mundial. Entre essas perspectivas, destacavam-se as teorias liberais do desenvolvimento - um conjunto de teorias que possuíam concepções comuns relacionadas à superação do subdesenvolvimento dos países dependentes - representadas, principalmente, pela Teoria da Modernização e pela Teoria do Capital Humano. Ambas as teorias defendiam que a superação do atraso econômico e social desses países dependeria da importação de modelos institucionais, culturais e científico-tecnológicos das nações centrais. Segundo essa visão, o desenvolvimento científico-tecnológico seria uma fase subsequente, condicionada à implementação prévia de reformas em áreas como economia (Teoria da Modernização) e educação (Teoria do Capital Humano), no marco do sistema capitalista de produção (Bambirra, 2019; Machado, 1989; Marini, 2017; Santos, 2015).
Em contraponto, teóricos vinculados à Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), conhecidos como desenvolvimentistas, e os teóricos da dependência, predominantemente latino-americanos, compartilhavam a interpretação de que o atraso regional derivava de uma condição histórica e estrutural. Entretanto, enquanto os primeiros2 defendiam o Estado como agente central do desenvolvimento nacional - sem questionar a lógica capitalista de produção -, priorizando a substituição de importações como estratégia viável para a industrialização, os teóricos da dependência, como os brasileiros Ruy Mauro Marini, Vania Bambirra e Theotonio dos Santos, entendiam o subdesenvolvimento como resultado direto da expansão global do capitalismo. Para esses autores, tal realidade não representava uma etapa transitória, mas uma configuração específica do sistema, na qual o subdesenvolvimento é resultado do desenvolvimento capitalista mundial, portanto caracterizado como uma configuração específica do capitalismo (Bambirra, 2019; Marini, 2017; Santos, 2015, 2018). Essa dinâmica geraria economias periféricas, como a brasileira, marcadas pelo que se convencionou denominar de: capitalismo dependente (Santos, 2015; Traspadini; Stedile, 2022).
É nessa conjuntura que surge o PLACTS, que congrega diversos pensadores latino-americanos para discutir questões de C&T no âmbito da América Latina. Por reunir pensadores de variadas matrizes ideológicas, o PLACTS é um campo heterogêneo que, segundo Dagnino, Thomas e Davyt (1996), se divide em dois extremos: o radicalismo preconizado por Varsavsky e o pragmatismo defendido por Sábato. Contudo, apesar das discordâncias - na maior parte das vezes relacionadas aos métodos propostos para superar o subdesenvolvimento científico-tecnológico da América Latina -, todos os teóricos do PLACTS se contrapunham ao discurso modernizador estadunidense, difundido tanto por teóricos liberais do desenvolvimento quanto pela Aliança para o Progresso3 (APP) (Dagnino; Thomas; Davyt, 1996; Loureiro, 2020; Machado, 1989). Esse discurso considerava
[…] el desarrollo científico y tecnológico como una condición necesaria y suficiente para generar el desarrollo económico y social de los países periféricos. A partir de la acción de organismos internacionales - centralmente UNESCO - se difundió en América Latina un modelo institucional que, en términos históricos, implicaba la difusión a escala planetaria de las experiencias de reconstrucción de posguerra de los sistemas CyT de algunos países europeos (Dagnino; Thomas; Davyt, 1996, p. 19).
O discurso modernizador preconizava o desenvolvimento linear da C&T, desconectado da realidade social. Em síntese, os organismos internacionais indicavam que o modelo, baseado nas teorias liberais de desenvolvimento, utilizado nos países centrais do capitalismo, deveria ser exportado e copiado pelos países dependentes. Além disso, esse modelo procurava garantir, no âmbito ideológico, a reprodução do sistema capitalista de produção (Santos, 2015).
Os pensadores do PLACTS criticavam esse modelo, objetivando uma mudança socioeconômica nos países latino-americanos. A crítica ao desenvolvimento linear da ciência e tecnologia ia de encontro às teorias liberais do desenvolvimento. Os pensadores do PLACTS demonstravam os aspectos políticos e sociais da C&T com base na realidade social e nas contradições existentes nos países dependentes latino-americanos. Em suas análises, segundo Dagnino, Thomas e Davyt (1996, p. 20), propuseram “[...] instrumentos analíticos como ‘proyecto nacional’, ‘demanda social por cyT’, ‘política implícita y explícita’, ‘estilos tecnológicos’, ‘paquetes tecnológicos’ [...]”, para fundamentar a compreensão da realidade latino-americana.
Com o crescimento da industrialização por substituição de importações, as condições econômicas e sociais dos países latino-americanos se agravaram. Esse modelo permitia que alguns bens, antes importados, pudessem ser produzidos no próprio país, por meio da implantação de indústrias estrangeiras. Nesse tipo de industrialização, as corporações transnacionais repetiam os processos desenvolvidos em seus países de origem. Dessa forma, não permitiam o avanço da pesquisa e da inovação a partir da produção científico-tecnológica local, reforçando o caráter dependente do capitalismo brasileiro e impedindo o desenvolvimento autônomo das sociedades latino-americanas (Marini, 2017).
Diante dessa realidade, o PLACTS propunha soluções para que o desenvolvimento latino-americano ocorresse de maneira autônoma e atendesse às demandas sociais. Tanto os radicais, como Varsavsky, quanto os pragmáticos, como Sábato, defendiam, em última instância, o desenvolvimento socioeconômico da América Latina a partir da realidade nacional, objetivando a transformação social. Nesse aspecto, é também possível perceber semelhanças entre o PLACTS e a Teoria da Dependência. A C&T, quando transferida dos países centrais para os países periféricos, adquiriam um caráter dominante, facilitando a acumulação de capital das burguesias nacionais e internacionais e aprofundando a condição dependente dos países latino-americanos. Em outras palavras, a ciência e a tecnologia (C&T) eram mais uma forma de aprofundar a dependência econômica, política e cultural dos países latino-americanos diante do capital internacional.
Os escritos de José Leite Lopes (Lopes, 1998) e as proposições de Oscar Varsavsky (Varsavsky, 1976) carregam as determinações históricas desse período, compreendido entre as décadas de 1960 e 1970. Esses debates, protagonizados pelos economistas da CEPAL, pelos teóricos da dependência e pelos divulgadores das teorias liberais do desenvolvimento, estão presentes, direta ou indiretamente, nas obras desses dois autores, cujas temáticas serão mais bem detalhadas e que podem contribuir com a discussão CTS no Ensino de Física.
Temáticas abordadas por Oscar Varsavsky em Por uma Política Científica Nacional
Em Por uma Política Científica Nacional, Varsavsky (1976) investiga a questão da autonomia cultural nos países latino-americanos, caracterizados por sua condição de subdesenvolvimento estrutural. Em seu conceito de autonomia cultural, estão implícitos os campos tecnológico, produtivo e educacional. O autor aborda o aspecto ideológico da C&T, definindo-as construtivamente, ou seja, como construções sociais não neutras e que carregam consigo determinações histórico-políticas. Nesse sentido, tanto a Ciência quanto a Tecnologia são orientadas ideologicamente pelos regimes econômico-políticos que as originaram. Por esse motivo, Varsavsky evidencia que a C&T produzidas nos países centrais do capitalismo respondem a esse tipo específico de sociedade e não podem ser simplesmente copiadas ou transplantadas para outras regiões do globo. Para o autor, são necessários diferentes estilos científico-tecnológicos para cada tipo de sociedade. Dessa maneira, ele propõe que a América Latina tenha estilos tecnológicos e científicos próprios, novos métodos, uma nova metodologia de pesquisa e um novo sistema de produção científica.
O posicionamento crítico de Varsavsky, principalmente em relação aos estilos tecnológicos e científicos, aproxima-o dos teóricos da dependência. Varsavsky mostra que a substituição de importações, defendida pelos desenvolvimentistas como alternativa para o desenvolvimento econômico-social da América Latina, não é suficiente, pois os desenvolvimentistas não vislumbravam a superação do sistema de produção capitalista. Essa análise, com suas particularidades, converge com o que os teóricos da dependência, de matriz marxista, defendiam (Bambirra, 2019; Marini, 2017; Santos, 2015; Varsavsky, 1976).
Além disso, Varsavsky (1976) propõe uma solução alternativa ao modo de produção capitalista. Nesse sentido, define três estilos de produção científico-tecnológica: Neocolônia, que representa, de maneira geral, a condição dependente da América Latina diante do capital internacional; Desenvolvimentismo Nacional, que se assemelha às teses defendidas pela CEPAL; e Socialismo Nacional Criativo, estilo defendido pelo autor, que representa a superação do sistema de produção capitalista e a autonomia cultural, científica e tecnológica. A alternativa proposta por Varsavsky, com o Socialismo Nacional Criativo, baseia-se numa sociedade fundamentada na solidariedade e na participação popular nas decisões, que promova uma distribuição de riqueza igualitária, desencorajando o consumo excessivo, de modo que não haja países líderes ou modelos externos a serem seguidos. Ainda, o autor defende que esse tipo de sociedade deve valorizar uma cultura nacional autônoma, assegurando sua independência econômica, cultural, científica e tecnológica (Varsavsky, 1976).
A produção de C&T, na proposta de Varsavsky (1976), considera as demandas locais e sociais, afastando-se de sua função adquirida no sistema de produção capitalista. Com isso, o autor defende que todo o desenvolvimento científico e tecnológico seja orientado à realidade local, sugerindo, inclusive, que pesquisas que não possuam aplicações imediatas sejam pausadas, para que os cientistas possam atuar na resolução de problemas sociais relevantes (saneamento básico, fome, mobilidade urbana, distribuição de renda etc.). Desse modo, C&T são tratadas como construções sociais com finalidades sociais, por isso, para que o Socialismo Nacional Criativo obtenha êxito, é necessário romper, segundo o autor, com o sistema de produção vigente (Varsavsky, 1976).
Com relação aos temas discutidos por Varsavsky em Por uma Política Científica Nacional, uma série deles pode contribuir com discussões críticas relacionadas à CTS no Ensino de Física brasileiro, dentre os quais se destacam as seguintes categorias: (i) produção científico-tecnológica autônoma; (ii) Ciência aplicada para transformação social; (iii) Tecnologia social; (iv) novos métodos científicos.
A respeito da primeira categoria, a produção científico-tecnológica autônoma, é possível incorporar ao Ensino de Física a ideia de que o desenvolvimento científico-tecnológico pode se basear na realidade material nacional. Dessa forma, discute-se o papel de uma ciência e tecnologia (C&T) desenvolvida localmente, em vez da importação de modelos e agendas de pesquisa estrangeiras. No que concerne à segunda categoria, ciência aplicada para transformação social, traz-se para o Ensino de Física um dos aspectos mais importantes das propostas de Varsavsky, no qual a Ciência é tomada como um processo social dinâmico, cujo fim é a transformação da realidade social brasileira. Essa segunda categoria dialoga com propostas pedagógicas associadas ao pensamento Freiriano (Auler; Delizoicov, 2015; Schwan; Santos, 2021) e com as proposições feitas pelos teóricos da dependência (Bambirra, 2019; Marini, 2017; Santos, 2015) para a América Latina em geral e para o Brasil em particular.
No âmbito da terceira categoria, Tecnologia social, a tecnologia pode ser discutida também como um processo social em constante modificação. Nesse sentido, sua contribuição para o Ensino de Física se refere a discussões sobre os impactos sociais da tecnologia na sociedade brasileira. Nesse contexto, é possível estabelecer um diálogo entre Varsavsky (1976) e Langdon Winner (Winner, 1986), discutindo a importância de se compreender a dimensão sociopolítica da tecnologia e seus desdobramentos na realidade social brasileira. Por fim, a proposição de novos métodos científicos problematiza a adoção passiva de metodologias de investigação provenientes dos países centrais do capitalismo. No Ensino de Física, isso se traduz na valorização de abordagens pedagógicas que enfatizem a problematização e a contextualização a partir da realidade brasileira, propondo discussões relativas aos processos de construção do conhecimento científico, seus condicionantes sociais e suas possíveis alternativas.
Em síntese, essas categorias temáticas podem evocar debates relacionados à discussão CTS no Ensino de Física, de modo que, ao discutir a C&T, sejam apresentadas alternativas para a superação da condição dependente brasileira, ao mesmo tempo em que se coloca a C&T como processos sociais determinados pela realidade histórica.
Discussão a partir das categorias temáticas em Por uma Política Científica Nacional
Varsavsky, ao discutir a questão científico-tecnológica, indica que nos países latino-americanos dependentes, como o Brasil, a agenda de pesquisas é estabelecida pelos países centrais do capitalismo, como os EUA, cujas recomendações científicas desconsideram a realidade material de cada região. Tais recomendações, segundo Varsavsky (1976, p. 15), são:
[...] estar em dia com todas as descobertas científicas e técnicas do mundo, elevar o nível de ensino universitários e secundário, melhorar a qualificação técnica dos operários, destinar mais fundos à pesquisa e dar mais estímulos materiais e mais “liberdade” aos pesquisadores, sem colocar em nenhum momento problemas do conteúdo dessa Ciência e dessa educação. Tal posição se baseia na tese da universalidade da Ciência.
A Ciência produzida pelos países centrais está em consonância com o sistema de produção capitalista. Dessa maneira, ela só é universal porque “[...] responde a um tipo de sociedade que domina quase todo mundo: a sociedade de consumo, individualista-competitiva, burocratizada” (Varsavsky, 1976, p. 16).
No âmbito da produção científica nacional, Varsavsky defende a Ciência Aplicada, em vez da Ciência Pura, com o objetivo de se obter uma transformação social radical. Nessa perspectiva, segundo o autor,
Se pensarmos a médio prazo [...] o déficit menor está nas Ciências Físicas. O que hoje se conhece sobre elas é suficiente para iniciar a construção do socialismo; só faltariam complementos e modificações menores. As forças produtivas físicas da sociedade industrial são suficientes, em primeira instância, para sua sucessora, como poderia ser demonstrado pelo fato de que a metade do mundo é hoje [década de 1970] socialista sem grandes inovações em Tecnologia Física. [...] Não são necessários, pois, avanços científicos essenciais para dominar a natureza no grau adequado, para implantar uma sociedade mais justa, com um nível de vida razoável (Varsavsky, 1976, p. 39).
Para tanto, Varsavsky define dois tipos de tecnologia: física e social. Segundo o autor, a tecnologia física, no período analisado em Por uma Política Científica Nacional - as décadas de 1960 e 1970 - se preocupa em satisfazer os anseios do livre mercado, tendo como função primária a reprodução do sistema de produção capitalista. Para ele, esse tipo de tecnologia é dominante nos países dependentes, embora sua aplicação seja diferente em cada um deles. Mesmo assim, com um avançado domínio da natureza, a tecnologia física, por si só, não é capaz de realizar a transformação social. Por esse motivo, é necessária a tecnologia social, pois, para Varsavsky, ela permite uma maior eficiência ao enfrentar os problemas reais das sociedades periféricas. A tecnologia social é fundamentada na realidade material e nasce a partir das demandas sociais. Dessa forma, a tecnologia social estaria vinculada à planificação econômica. Varsavsky (1976) explica que, em alguns momentos da história, como na União Soviética de Lênin, foi possível observar uma inter-relação entre as tecnologias física e social, em prol da transformação da realidade social. Segundo o autor, a planificação econômica possibilita enfrentar problemas criados e não resolvidos pelo sistema de produção capitalista, pois
[...] permite e obriga a usar critérios mais racionais de eficiência e produtividade ao considerar as necessidades de recursos totais do país, em vez da conveniência individual guiada por hipotéticas “mãos invisíveis”. [Nesse aspecto], pode-se colocar, então, racionalmente o problema de integrar os marginalizados - problema que a atual sociedade criou e que não pode resolver - não para que possam comer, pois esse direito lhes é garantido pelo socialismo, mas para cumprir os objetivos sociais de participação e solidariedade (Varsavsky, 1976, p. 29).
O exemplo acima, sobre a questão dos marginalizados, é apenas um dos problemas que a planificação econômica no Socialismo Nacional Criativo, preconizado por Varsavsky, poderia confrontar. Muitas outras questões poderiam ser tratadas racionalmente, caso não fossem ditadas pelas leis do mercado, como, por exemplo, a incorporação de tecnologias que permitam a redução da jornada de trabalho dos trabalhadores.
Por fim, na esfera dos métodos científicos, Varsavsky defende a necessidade de serem elaborados novos métodos científicos capazes de dar conta da complexa realidade social latino-americana. Nessa perspectiva, defende que os novos métodos científicos estejam a serviço da transformação social. Dessa forma, ao criticar os métodos científicos oriundos do centro do capitalismo global, afirma que
[...] Todos esses métodos inadequados, criados para resolver outro tipo de problemas, podem ocasionar atrasos consideráveis na solução dos problemas de Tecnologia social que enfrenta uma nova sociedade. Esta pode chegar a desviar-se e recuar por falta das “forças produtivas” [...] necessárias à transformação desejada (Varsavsky, 1976, p. 52).
Em síntese, as categorias temáticas aqui apresentadas, fundamentadas no trabalho de Varsavsky, apontam uma série de questões que podem contribuir para discussões relacionadas à CTS no Ensino de Física. Além disso, tais temáticas são fundamentais para se compreender as relações entre a produção de C&T e a realidade nacional brasileira. A produção de C&T está profundamente interligada ao contexto social e às suas determinações históricas, sendo inviável sua discussão apartada desse âmbito.
Temáticas abordadas por José Leite Lopes em Ciência e Liberdade
Na coletânea Ciência e Liberdade, de 1998, encontram-se textos de José Leite Lopes publicados em jornais, revistas e eventos entre 1948 e 1997. Por esse motivo, é importante observar que cada texto carrega as determinações históricas de sua época de elaboração. Além disso, é possível perceber que o posicionamento de Lopes em relação à C&T torna-se cada vez mais crítico. Inicialmente, ele compartilhava da visão hegemônica de Ciência difundida pelas potências capitalistas, ou seja, uma Ciência universal e, até certo ponto, neutra. A partir de sua atuação no Brasil, confrontado com a realidade dependente do país, Lopes percebe que, na verdade, a Ciência é ideológica e repleta de intencionalidade, capaz de legitimar a reprodução do sistema de produção vigente.
Nos textos publicados, Lopes aborda temas relacionados ao desenvolvimento tecnológico, C&T dependentes, universidade brasileira, responsabilidades dos cientistas brasileiros, problemas enfrentados pelo Brasil em relação à C&T e a necessidade de uma política nacional relacionada a C&T, entre outros. A partir desses textos, foram elaboradas quatro categorias temáticas abordadas por José Leite Lopes que podem contribuir para as discussões CTS no Ensino de Física: (i) política científica nacional; (ii) ciência como fator de desenvolvimento; (iii) C&T dependentes; e (iv) influência externa no planejamento econômico-social brasileiro. Essas categorias temáticas posicionam a C&T brasileira como eixo central do debate, considerando seus aspectos sociais e políticos. Assim como os teóricos do PLACTS, Lopes entende a C&T como construções sociais não neutras - ainda que seus escritos iniciais apresentem certo tom triunfalista em relação à C&T -, marcadas por determinações ideológico-políticas.
Discussão a partir das categorias temáticas em Ciência e Liberdade
As categorias temáticas encontradas no trabalho de Lopes dialogam, de maneira geral, com as proposições de Varsavsky (1976), diferenciando-se principalmente no contexto de análise, pois Lopes escreveu a partir da realidade particular brasileira. No entanto, como mostraram Bambirra (2019) e Santos (2018), a realidade latino-americana, em traços gerais, é semelhante à realidade brasileira, pois a integração dos países latino-americanos ao capital internacional ocorreu por meio do capitalismo dependente. Por esse motivo, Lopes criticou a instalação de empresas estrangeiras no Brasil focadas nos lucros a serem exportados para os países capitalistas dominantes:
Chegou-se, atualmente a um estágio de transplantação de filiais de indústrias estrangeiras no país, que dá uma aparência de progresso. Mas essas indústrias limitam-se a realizar os projetos e plantas enviadas pelas matrizes e, assim, não estimulam a inventividade nacional. As indústrias no Brasil não possuem - ao que saibamos - laboratórios de pesquisa científica e tecnológica, não contribuem com as universidades e institutos científicos, e poucas são as que possuem laboratórios de controle de rotina de produtos (Lopes, 1998, p. 75).
Além disso, Lopes destaca que o aprofundamento contínuo da disparidade entre as potências capitalistas centrais e os países periféricos acentua progressivamente as condições estruturais do subdesenvolvimento, ou seja:
[...] a distância que nos separa, em 1962, dos países avançados é muito maior do que há vinte anos atrás. [...] Em 1962, a ameaça é igualmente grave: a da permanência da nação em um estado crônico de subdesenvolvimento; a da incapacidade de aproveitar os recursos naturais e as suas fontes de energia em benefício do seu povo. A de um progresso aparente; a de um desenvolvimento menor. Estamos diante da ameaça da epidemia da fome, da ignorância de muitos e da cultura importada para poucos (Lopes, 1998, p. 76).
O autor defende que as problemáticas enfrentadas pelo Brasil no âmbito da C&T dependem da produção nacional nessas áreas. Para Lopes (1998, p. 57), o “Brasil necessita verdadeiramente de tecnologistas, de escolas e institutos que ensinem e promovam a pesquisa tecnológica”. Dessa forma, ele defende uma política científica nacional cujo objetivo seja desenvolver programas de pesquisa alinhados à realidade local. Lopes (1998, p. 82-86) afirma ainda que:
Nações como o Brasil [...] necessitam de uma tecnologia local [...] uma rede de institutos [...] equipados com homens treinados e com equipamento para assessorar a indústria nacional, resolver os seus problemas técnicos, vários dos quais são específicos daquele país; institutos de cientistas em contínuo trabalho de pesquisa pura e aplicada. [...] Pois, de outra maneira, estaríamos diante de um novo tipo de dependência colonial e o desenvolvimento da ciência e da tecnologia nesses países menos avançados seria artificial, isolado das aplicações práticas.
Outro problema característico de países capitalistas dependentes, como o Brasil, é a migração de cérebros, aliada à vinda de missões de peritos estrangeiros para a modernização tecnológico-educacional desses países. Os acordos MEC-USAID4 (Arapiraca, 1982) e a Aliança para o Progresso (Loureiro, 2020) ilustram bem esse fato. Lopes (1998, p. 101) demonstrou preocupação com o tema, ao afirmar que:
Ao mesmo tempo [em que ocorria emigração de cérebros], missões de “peritos” em educação e tecnologia de agências estrangeiras vêm sendo levadas aos países subdesenvolvidos e encarregados de reformar o sistema educacional, científico, tecnológico e econômico destas nações - tarefa à qual ilustres educadores, cientistas e peritos locais não são convidados a participar em sua própria casa.
As categorias temáticas selecionadas a partir da obra de Lopes (1998) possibilitam analisar o papel da C&T no contexto do capitalismo dependente brasileiro. Lopes defende que a Física, assim como as demais ciências e a Tecnologia, mantenham uma relação estrutural com a realidade social.
Visão social de C&T como contribuição à discussão CTS no Ensino de Física
O PLACTS assume as questões relativas à C&T como processos sociais complexos, que carregam as determinações históricas de sua concepção e desenvolvimento. Lopes (1998) e Varsavsky (1976), como representantes do PLACTS, discutem temáticas fundamentais no âmbito do campo CTS, principalmente porque colocam em questão a produção social da C&T e sua vinculação com o sistema de produção capitalista. Enquanto Lopes faz a crítica aos modelos de C&T dos países centrais do capitalismo e propõe soluções orientadas a uma política científica nacional, Varsavsky sugere um novo estilo de produção científico-tecnológico aliado à planificação econômica, resultante de uma perspectiva socialista.
Assim, é importante evidenciar que a Física, assim como todas as outras ciências, é fruto de um processo social não neutro, carregado de intencionalidades e com determinantes históricos e políticos. Essa perspectiva permite associar ao Ensino de Física a discussão sobre ciência e tecnologia fundamentada no PLACTS, incorporando a ela discussões que levem em questão, entre outros aspectos, o capitalismo dependente brasileiro, a não neutralidade da C&T, a situação dependente da C&T brasileira e a necessidade de uma C&T articulada aos problemas encontrados na realidade brasileira. Nesse contexto, as reflexões e os textos de Lopes (1998) e Varsavsky (1976) servem como balizadores da discussão CTS no Ensino de Física. Embora seus escritos sejam determinados pelo período histórico de sua produção, suas reflexões continuam importantes, ao abordarem temas que se agravam com o passar do tempo no capitalismo dependente brasileiro.
Perspectivas e considerações finais
Ao compreender a Física como uma Ciência marcada pelas determinações sociais das potências hegemônicas em sua construção, percebe-se como seu ensino ou aplicação, descontextualizados, podem intensificar a condição dependente brasileira. Essa relação fica clara nas análises de Lopes (1998) e Varsavsky (1976), que identificavam no ensino e na aplicação da C&T na América Latina - frequentemente baseados na transferência acrítica de conhecimentos e programas de pesquisa dos países centrais do capitalismo mundial - um caráter essencialmente colonial.
As categorias elaboradas a partir de Varsavsky (1976) e as temáticas trabalhadas por Lopes (1998) fornecem um arcabouço teórico importante para o campo CTS, no âmbito do Ensino de Física. As principais contribuições para o Ensino de Física, a partir da discussão realizada neste trabalho, podem ser sintetizadas em três pontos: (i) a compreensão da C&T como processos sociais condicionados pela realidade histórica; (ii) o desenvolvimento de uma consciência crítica sobre a realidade dependente brasileira; e (iii) a articulação da discussão sobre CTS com a realidade brasileira e seus problemas específicos.
No primeiro ponto, evidencia-se a importância da compreensão da C&T como produtos do sistema de produção capitalista. Nesse sentido, ao trazer essa perspectiva para o Ensino de Física, questiona-se o modelo global de produção da C&T, evidenciando sua dimensão social, e as discussões advindas dos países centrais do capitalismo sobre o campo CTS. Assim, abre-se espaço para debater não apenas C&T, mas um Ensino de Física que considere a realidade local.
No segundo ponto, busca-se uma articulação entre o PLACTS e a teoria da dependência no âmbito do Ensino de Física. Ao trabalhar temáticas relacionadas ao campo CTS, é importante considerar o caráter dependente do capitalismo brasileiro. Como Lopes (1998) e Varsavsky (1976) argumentaram, a C&T na América Latina, em geral, e no Brasil, em particular, adquire contornos específicos e deve ser tratada, também, de maneira específica.
Por fim, no terceiro ponto, destaca-se a importância de as temáticas relacionadas ao campo CTS estarem relacionadas às problemáticas locais. Nesse contexto, as contribuições aqui apresentadas, a partir de Lopes (1998) e Varsavsky (1976), apontam possíveis caminhos para a abordagem CTS no Ensino de Física fundamentada na realidade brasileira. Portanto, as temáticas e categorias elaboradas a partir dos trabalhos desses dois autores podem ser consideradas como discussões iniciais ou aprofundadas em trabalhos posteriores.
Ao discutir CTS no Ensino de Física brasileiro, é significativo estar ciente das condições materiais da reprodução social e da C&T e questionar modelos importados que buscam desvincular a C&T de suas determinações histórico-políticas, tornando-as ferramentas ideológicas das potências capitalistas globais. Para tanto, é importante apropriar-se de um referencial teórico que permita tal reflexão crítica, como o PLACTS, que oferece um referencial analítico que permite uma análise no âmbito CTS baseada na realidade latino-americana.
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Declaração de Disponibilidade de Dados
Todos os dados que dão suporte aos resultados da pesquisa estão disponíveis no próprio texto deste artigo.
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