Open-access Uma travessia topográfica, histórica e cultural de Berlim

RESUMO

Este é o relato de uma travessia de Berlim, realizada em 2023, por um grupo de pesquisadores brasileiros, com o objetivo de conhecerem os principais marcos topográficos, históricos e culturais da capital da Alemanha. Na parte I é dada uma introdução às oito épocas da história de Berlim, com referências aos marcos dessas épocas encontrados no percurso da travessia. A parte II é um relato da travessia da cidade durante dez dias, com cinco dias de caminhadas pelo eixo Norte-Sul e mais cinco dias, pelo eixo Leste-Oeste. Na parte III é apresentado um resumo das características mais relevantes da cidade: a integração entre espaço urbano e natureza; os tipos de bairros e classes sociais; o sistema do transporte público; as atividades econômicas; espaços e atividades culturais; a presença de Berlim na literatura e no cinema; e os investimentos em educação e pesquisa.

PALAVRAS-CHAVE:
Berlim; História; Topografia; Cultura

ABSTRACT

This is the report of a crossing of Berlin, carried out in 2023 by a group of Brazilian researchers with the aim of them getting to know the main topographic, historical and cultural landmarks of the german capital. In part I an introduction is given to the eight eras of Berlin’s history, with references to the landmarks from those times found on the crossing route. Part II is a description of the crossing of the city during ten days, with five days of walking along the North-South axis and another five days along the East-West axis. Part III presents a summary of the most relevant characteristics of the city: the integration between urban space and nature; the types of neighborhoods and social classes; the public transport system; the economic activities; cultural spaces and activities; the presence of Berlin in literature and cinema; and the investments in education and research.

KEYWORDS:
Berlin; History; Topography; Culture

A inspiração para o planejamento dessa travessia de Berlim veio da minha participação em duas caminhadas “eco-sócio-literárias” coletivas: uma travessia, em julho de 2017, do sertão de Minas Gerais, baseada no romance Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa; e uma travessia, em março de 2018, d’Os sertões da Bahia, por lugares descritos na obra homônima de Euclides da Cunha. Essas experiências me motivaram a organizar, em 2023, uma travessia da minha cidade de origem para um grupo de oito pesquisadores brasileiros, com o objetivo de eles conhecerem os principais marcos topográficos, históricos e culturais da capital da Alemanha e, com isso, estimular o diálogo intercultural entre instituições de pesquisa e ensino do Brasil e da Alemanha.

Este artigo é composto de três partes: I. Uma síntese das oito principais épocas da história de Berlim, como preparação para o contato com os lugares de memória a serem conhecidos durante a travessia. II. Uma descrição da topografia de Berlim, baseada no relato da nossa travessia da cidade, durante dez dias; com cinco dias de caminhadas pelo eixo Norte-Sul, e mais cinco dias pelo eixo Leste-Oeste. III. Um resumo das características mais relevantes dessa cidade cosmopolita, com um balanço dos dados que fazem de Berlim uma metrópole exemplar.

As oito principais épocas da história de Berlim

A base para esta síntese são sobretudo esses dois livros: Berlin: Biographie einer großen Stadt, de Jens Bisky (2019), que retrata a cidade desde sua fundação na Idade Média até os tempos atuais da Alemanha reunificada; e Berlin in the Twentieth Century: A Cultural Topography, de Andrew Webber (2008), que focaliza as épocas mais recentes. Além deles, serão mencionadas também algumas referências complementares. O seguinte quadro historiográfico é organizado em oito épocas:

  1. A cidade comercial medieval. A referência topográfica é o Nikolaiviertel, na margem direita do rio Spree, onde Berlim (nome derivado da palavra eslava berl = “brejo”) foi fundada em 1237, juntamente com a cidade-gêmea de Cölln, na ilha fluvial em frente. A cidade dupla era um entreposto comercial no trajeto entre a cidade alemã de Magdeburg, no Oeste, e a cidade polonesa de Posen, no Leste. A fundação ocorreu no contexto histórico da expansão da colonização alemã, a partir do século XII, em direção ao Leste, sobre os territórios habitados por povos eslavos, que também contribuíram para o crescimento da cidade. Berlin-Cölln fazia parte do “Marco” de Brandemburgo, sendo o nome Mark atribuído às regiões fronteiriças. Em 1356, esse Mark ou ducado foi promovido a principado eleitoral (Kurfürstentum), sendo assumido a partir de 1415 pela dinastia dos Hohenzollern.

  2. A cidade residencial do principado de Brandemburgo (1448-1701). O principal marco arquitetônico é o Palácio da Cidade de Berlim (Berliner Stadt- schloss), erguido em 1443, reconstruído entre 1698 e 1713 em estilo barroco, atingido pelos bombardeios da Segunda Guerra Mundial, demolido pela RDA e reconstruído depois da reunificação da Alemanha. Durante a Guerra de Trinta Anos (1618-1648), Berlim perdeu a metade de seus habitantes. A cidade foi cercada então por muros de fortaleza, que foram substituídos, em torno de 1730, por portões de alfândega, cujos nomes são relembrados em estações de metrô. Em 1640, o governo foi assumido por Friedrich Wilhelm, o Grande Príncipe Eleitor (cf. Kroll, 2000). Como luterano, ele acolheu cerca de 6 mil huguenotes, que tinham sido expulsos da França. Eles contribuíram substancialmente para o desenvolvimento comercial e intelectual de Berlim. Um marco topográfico complementar é, a Oeste do centro, o bosque do Tiergarten, que era inicialmente uma área de caça para os príncipes. O caminho equestre do Palácio para lá foi ampliado a partir de 1647 e transformado depois na alameda Unter den Linden.

  3. A capital do estado da Prússia (1701-1870). Em 1701, com a autopromoção do príncipe eleitor Friedrich III a rei, com o novo nome Friedrich I, Berlim passou a ser a capital do reino da Prússia (cf. Owzar, 2019), cujo nome veio do ducado de Preußen. Sob Friedrich II, o Grande (1740-1786), que criou um poderoso exército, conduziu várias guerras exitosas e anexou territórios como a Silésia e a Pomerânia, a Prússia tornou-se uma potência europeia. O rei, que costumava encontrar-se com o filósofo Voltaire, elevou Berlim a um centro das artes, das ciências e da filosofia da Aufklärung. Devido ao estilo classicista dos prédios no centro, Berlim passou a ser chamada de “Atenas às margens do Spree”. No início do século XIX foi fundada a Universidade de Berlim, onde lecionavam cientistas como Wilhelm e Alexander von Humboldt. No período entre 1815 e 1848 iniciou-se na cidade a Revolução Industrial, com a instalação de muitas fábricas e ferrovias. Com isso, houve um grande aumento da classe operária (cf. Weipert, 2013). No campo político-social acirraram-se os conflitos entre, por um lado, a população pobre e de classe média e, por outro, a sociedade da Corte. A tentativa de uma revolução, em 1848, foi duramente reprimida pelos militares, resultando em 270 mortes (Bisky, 2019, p.246-65). Em 1850, a Prússia tornou-se uma monarquia constitucional, mas com uma lei contra os socialistas. A força política do reino cresceu a partir de 1867, com a fundação do Norddeutscher Bund, a Associação dos Estados do Norte da Alemanha.

  4. A capital do Império Alemão (1871-1918). Em 1871, depois da vitória da Prússia e dos outros estados alemães sobre a França, foi fundado o Império Alemão: Berlim tornou-se a capital e Wilhelm I, o soberano. Nas décadas seguintes a cidade firmou-se como uma metrópole industrial. Na política externa houve, por um lado, uma marcante diferença entre a concepção de Otto von Bismarck (chanceler de 1871 a 1890), que considerava o país como “territorialmente satisfeito” e defendia diplomaticamente o status quo, e por outro lado, as pretensões do Imperador Wilhelm II (1888-1918), que o demitiu e ambicionava fazer do Império Alemão uma potência mundial (cf. Fischer, 2009; e Haffner, 1987, p.65-6). Em agosto de 1914, com operações militares contra a Rússia e a França, a Alemanha iniciou a Primeira Guerra Mundial, na qual acabou sendo derrotada em 1918.

  5. A metrópole cosmopolita na República de Weimar (1918-1933). Por causa da guerra perdida pelo Império Alemão, foi proclamada em 9 de novembro de 1918 a República; simultaneamente pelas lideranças divergentes do Partido Social-Democrata Alemão (SPD) e do movimento revolucionário marxista, que fundou, no início de 1919, o Partido Comunista da Alemanha (KPD). Assim, a república foi marcada desde o início por conflitos violentos entre as diferentes facções políticas, inclusive a direita e extrema direita, com intervenções de militares e grupos paramilitares, que resultaram em assassinatos. Por isso, a Assembleia Nacional foi transferida de Berlim para a cidade de Weimar, símbolo do Classicismo literário (Goethe e Schiller) e do Humanismo alemão. Devido às onerosas reparações que a Alemanha foi obrigada a pagar às potências vencedoras, o país sofreu uma grave crise econômica, que culminou na hiperinflação de 1923. Em contraste com essa situação, surgiu a expressão “os dourados anos 1920”, para realçar a riqueza cultural que se desenvolveu na segunda metade daquela década (Webber, 2008, p.22). Berlim chegou a ser a quarta maior cidade do mundo, com 4 milhões de habitantes, e tornou-se um dos centros culturais da Europa (cf. Hermand; Trommler, 1978). Em 1929, porém, começou a crise econômica mundial, que abalou profundamente a Alemanha. A máquina de propaganda do Partido Nacional-Socialista (NSDAP) apresentou, então, o seu líder Adolf Hitler como o “salvador da pátria”. Depois de o partido ter obtido, em julho de 1932, o maior número de votos para o parlamento alemão, Hitler foi nomeado chanceler do Reich, em 30 de janeiro de 1933.

  6. Berlim na época do nacional-socialismo (1933-1945). Um mês depois da nomeação de Hitler como chanceler, ocorreu o incêndio do Reichstag, sede do parlamento alemão. O governo decretou, então, o estado de exceção, que se tornou um pretexto para aprisionar e executar seus adversários políticos (comunistas, social-democratas e democratas em geral), transformando o país numa ditadura. Além disso, conforme a ideologia racista de Hitler, foram considerados como arqui-inimigos do povo alemão os judeus, que se tornaram as principais vítimas do terror nazista; a partir de 1942, eles foram exterminados em campos de concentração (cf. Topographie des Terrors, 2018). As ambições geopolíticas de Hitler (cf. Aly, 2005) ficaram evidentes a partir de setembro de 1939, com o ataque do exército alemão à Polônia, que foi o início da Segunda Guerra Mundial. Os momentos decisivos foram a invasão da União Soviética, em junho de 1941, e a declaração de guerra aos Estados Unidos, em dezembro do mesmo ano. O projeto megalomaníaco do Führer - depois da suposta vitória sobre as potências inimigas - era transformar Berlim em “Germânia, capital do Mundo” (cf. Reichhardt; Schäche, 2008). A guerra resultou na derrota total da Alemanha, em maio de 1945.

  7. A divisão da Alemanha e de Berlim (1945-1989). Depois da capitulação da Alemanha, as potências vencedoras União Soviética, Estados Unidos, Inglaterra e França dividiram o país em quatro zonas de ocupação, e a capital Berlim, em quatro setores. Contudo, surgiram conflitos entre os aliados ocidentais e a União Soviética, que se configuraram como a “Guerra Fria”, cujo palco principal era Berlim (cf. Bisky, 2019, p.652-70). De junho de 1948 a maio de 1949, os russos impuseram um bloqueio a Berlim Ocidental, mas os Estados Unidos o superaram com a criação de uma “ponte aérea”. Em 1949, a junção das três zonas ocidentais resultou na fundação da República Federal da Alemanha (RFA), com Bonn como capital; e no território ocupado pela União Soviética foi criada a República Democrática Alemã (RDA). Berlim teve um estatuto especial: os três setores ocidentais foram mantidos, e o setor soviético passou a ser a capital da RDA. A divisão foi reforçada pela RDA a partir de 13 de agosto de 1961 com a construção do Muro de Berlim. Em cada uma das duas partes da “cidade dos escombros” (Webber, 2008, p.23) o desenvolvimento urbano ocorreu de forma concorrente. Os prédios novos construídos em Berlim Ocidental visavam apresentar essa parte da cidade como uma “vitrine do Oeste” (cf. Rott, 2009). E em Berlim Oriental, construções como o Palácio da República (erguido no lugar do Stadtschloss, que foi demolido) e a Torre de Televisão (Fernsehturm), com 368 metros, o edifício mais alto de toda a Alemanha, enalteciam esta parte da cidade como “capital da RDA” (cf. Volk, 1977). Na segunda metade de 1989 ocorreram na cidade de Leipzig e em Berlim Oriental grandes manifestações contra o regime, que resultaram, em 9 de novembro, na queda do Muro e numa revolução pacífica na RDA.

  8. A reunificação. Em 3 de outubro de 1990 foi ratificada a reunificação da Alemanha, e Berlim tornou-se novamente a capital do país; e, com isso, também um “gigantesco canteiro de obras” (Bisky, 2019, p.875). A sede do parlamento, o Reichstag, foi reestruturada como Bundestag, e nas proximidades foi construí- do o novo bairro do governo. Também a rede das ferrovias, do S-Bahn e do U-Bahn, foi reorganizada. Um importante lugar de reconstrução no centro da cidade foi a Potsdamer Platz, que tinha se tornado uma área desértica durante os anos do Muro. O Palast der Republik, símbolo da RDA, foi demolido, e nesse lugar histórico foi reconstruído parcialmente o Schloss dos tempos da Prússia e do Império, mantendo-se a antiga fachada e preenchendo-se os espaços interiores com o Humboldt-Forum, que abriga vários museus e a exposição permanente “Berlin Global”. Quanto à globalização, um dos principais desafios sociais e econômicos na capital alemã tem sido a integração dos grandes contingentes de imigrantes e de refugiados (cf. Allers, 2017; Buschkowsky, 2012), que representam 23% da população. Em suma: Berlim é uma cidade que vive o desafio de “precisar constantemente se reinventar” (Webber, 2008, p.284).

A nossa travessia de Berlim, durante dez dias

Depois da introdução às principais épocas da história de Berlim, vamos “ler esses tempos na sua dimensão espacial”, segundo o método do historiador Karl Schlögel (2003), que o formulou assim no livro Im Raume lesen wir die Zeit. Para descrever a nossa travessia do espaço urbano, utilizaremos como guia a figura emblemática do flâneur, que é destacada por Schlögel (2003, p.260-5) como “forma de movimento” e “forma de conhecimento”. O texto paradigmático é o livro de Franz Hessel (1984), Spazieren in Berlin, reeditado com o título Ein Flaneur in Berlin, incluindo a resenha de Walter Benjamin, “O retorno do flâneur” (1929). A obra de Hessel, que assume o papel de um pesquisador, é valorizada por Schlögel (2003, p.262) como “uma grandiosa medição topográfica de Berlim”.

Hessel (1984, p.51-136) começa o seu “tour” pela capital alemã como participante de um “sight seeing” com vários visitantes estrangeiros. Durante o percurso, ele assume o papel do guia e explica o que é “flanar”: “É uma espécie de leitura da rua, na qual rostos humanos, vitrines, ofertas de mercadorias, terraços de café, trens, automóveis, árvores tornam-se letras equivalentes que resultam em palavras, frases e páginas de um livro sempre renovado” (ibidem, p.145). É nesse sentido que incorporamos a flânerie à nossa caminhada coletiva, juntamente com a atividade de spazieren (“passear”), a qual, tendo sua origem na palavra italiana spazio, é a investigação de um espaço; no caso do flâneur: um espaço urbano.

A qualidade do relato de Hessel como “forma de conhecimento” e “pesquisa” é realçada por Schlögel (2003, p.264) nesses termos: “Epistemologicamente falando, a flânerie é a denominação para um movimento de reintegração, que é indispensável também para a ciência”. “O flâneur/voyageur” realiza “uma reabilitação do viajar com objetivos científicos”. Almejando, assim como Hessel, “uma visita sistemática aos bairros da cidade, aos lugares e eixos importantes” (ibidem, p.262), com destaque para os “marcos históricos”, vamos relatar agora a nossa travessia, que foi realizada num tempo bem mais breve, em apenas dez dias.1

1º dia: Antes da travessia, dei para o nosso grupo uma introdução geral à topografia da cidade.2 Como local para essa reunião inicial escolhemos a Cafeteria Kranzler, que foi nas décadas iniciais do século XX o ponto de encontro dos boêmios de Berlim. Localizada inicialmente no bulevar Unter den Linden, ela existia, a partir de 1932, também na Kurfürstendamm, onde nos reunimos. Inspirando-nos em Hessel (1984, p.145), que realça esse “bulevar de Berlim” como lugar por excelência para ensinar a “arte de flanar”, e também no estudo de Dunker e Metzger (1986), realizamos uma flânerie por esta avenida cheia de glamour, que é a mais famosa de Berlim Ocidental, observando nas suas lojas o fenômeno da “moda”, descrito por Walter Benjamin no Trabalho das Passagens. Em seguida, fomos caminhar pelo bulevar Unter den Linden, destacado por Hessel (1984, p.117) como “o coração e o centro da capital”. Passamos por vários prédios que representam o estilo do reino da Prússia: a Ópera Estatal (Staatsoper), a Universidade Humboldt e o Zeughaus (Museu Histórico Alemão).3 Chegamos ao Palácio da Cidade de Berlim, que é um dos símbolos da capital. Na controvertida reconstrução recente do Schloss foi instalado o Humboldt-Forum. Do terraço avistamos a Fernsehturm, na qual subimos para ter uma vista sobre a cidade em todas as direções. Realizamos ainda um percurso, de aproximadamente uma hora, pelas 27 estações do anel de S-Bahn em torno do centro expandido da cidade.

Depois dessa introdução, iniciamos a primeira metade da caminhada: a dos cinco dias pelo eixo Norte-Sul (Figura 1). Partimos sempre dos pontos cardeais em direção ao centro da cidade. Fomos de S-Bahn até a primeira estação situada fora do município de Berlim, na direção Norte: Hohen Neuendorf. De lá, caminhamos até a entrada da cidade, no bairro de Frohnau, que faz parte do distrito de Reinickendorf.

Figura 1
O percurso da nossa travessia pelo eixo Norte-Sul.

Durante a travessia desse bairro-jardim criado entre 1908 e 1910, passamos por ruas com nomes elegantes como “Edelhofdamm” e “Maximiliankorso”, beiradas por mansões. Como pontos emblemáticos destacam-se a praça central, com uma estátua de ninfa, e a torre panorâmica do restaurante Kasino, ao lado da estação de S-Bahn.

2º dia: De Frohnau fomos de S-Bahn até Hermsdorf. Nesse bairro, que se originou de uma aldeia medieval, encontra-se o museu local (Heimatmuseum), cuja coleção é exemplar sob vários aspectos. A topografia do Norte de Berlim é apresentada por uma maquete centrada no lago de Tegel, que é uma extensão do rio Havel, que beira a cidade pelo Oeste, levando suas águas para o rio Elbe e, com isso, até o mar. No norte do lago instalaram-se aldeias medievais como Tegel, Hermsdorf e Lübars. Caminhamos pelos campos do riacho Fließ para conhecer Lübars, a aldeia mais antiga de Berlim (cf. Das letzte Berliner Dorf: 750 Jahre Lübars, 1997). De lá, fomos ao bairro de Waidmannslust, onde visitamos a escola de Ensino Fundamental, que é um bom exemplo do investimento na educação pública.4 Essa escola, que frequentei como aluno, foi muito importante para a minha formação, especialmente por causa da matéria Heimatkunde, na qual a professora nos introduziu ao estudo dos bairros locais - ensinamentos que repercutiram, muitos anos depois, nas minhas pesquisas de topografia cultural. Em seguida, passamos pela Freie Scholle, um conjunto habitacional com jardins, criado nos anos 1920. Seguimos o riacho Fließ até a sua foz, onde foi instalado o Moinho de Tegel. No seu entorno, segundo as lendas, moravam bruxas e fantasmas. Goethe refere-se a esse lugar na sua tragédia Fausto, onde a figura caricaturesca do Proctofantasmista declara: “Somos tão inteligentes e, mesmo assim, há fantasmas em Tegel” (cf. Goethe, 1980, p.130).5 Perto do moinho, visitamos o palacete da família Humboldt, relembrando os dois famosos irmãos: o filósofo e linguista Wilhelm, fundador da Universidade de Berlim, e o pesquisador viajante cosmopolita Alexander. Rumo ao centro de Berlim, passamos por mais três lugares que fizeram de Tegel uma referência universal: o local da antiga fábrica de locomotivas Borsig; o presídio, onde se inicia o enredo do romance Berlin Alexanderplatz (Döblin, 2009); e o antigo campo de aviação, onde o engenheiro Wernher von Braun realizou nos anos 1930 testes com foguetes.

3º dia: A partir da estação de U-Bahn Afrikanische Straße, entramos no Bairro Africano, que é um lugar propício para uma reflexão crítica sobre a colonização realizada pelo Império Alemão entre 1885 e 1918 nos territórios de Togo, Camarões, África Oriental (atual Tanzânia) e sobretudo África Sudoeste (atual Namíbia). Quem estimula essa reflexão anticolonialista são guias africanos, que nos conduzem pelo bairro. De lá, prosseguimos até o Wedding, o mais tradicional bairro operário de Berlim, que foi a base de militantes socialistas e comunistas (Weipert, 2013). Ele é conhecido pelas Mietskasernen (“quarteis de aluguel”), as moradias precárias dos operários construídas a partir de meados do século XIX, quando a cidade começou a transformar-se numa metrópole industrial (cf. Hessel 1984, p.219-220; Hegemann, 1988). Terminamos a caminhada na estação de S-Bahn Gesundbrunnen, ao lado do Humboldthain. No morro desse parque público, criado em 1869, encontram-se dois marcos da Segunda Guerra Mundial: um bunker e uma torre de defesa antiaérea.

4º dia: Retomamos a travessia no ponto cardeal oposto: no Sudoeste. No percurso de ônibus do centro até lá fomos conhecer a Grunewald, a floresta mais extensa no território berlinense, e o rio Havel, que beira a cidade pelo lado Oeste, descendo até o lago e o bairro de Wannsee e passando em seguida perto da Glienicker Brücke, onde iniciamos a caminhada. Essa ponte, que liga a cidade de Berlim com a de Potsdam, foi usada durante a Guerra Fria pelos Estados Unidos e a União Soviética como local para a troca de espiões. Caminhamos de lá até o bairro nobre de Wannsee, onde visitamos o museu “Haus der Wannsee-Konferenz”. Nessa mansão, o governo nazista decidiu, em janeiro de 1942, a “solução final”, ou seja, o extermínio dos judeus (cf. Topographie des Terrors, 2018, p.139). Prosseguimos até o bairro residencial e universitário de Dahlem, onde se localiza a Freie Universität, fundada em 1948 em contraposição à Humboldt-Universität, no então setor soviético. Em seguida visitamos o Jardim Botânico, que apresenta a geografia das plantas em reproduções de diversos ambientes: desde pradarias e florestas da Alemanha, passando por trechos dos Alpes e do Mediterrâneo, até o Großes Tropenhaus, com amostras da vegetação tropical. No final da tarde chegamos à Schloßstraße, o eixo central do bairro burguês de Steglitz e uma das principais ruas comerciais da cidade. No bairro vizinho de Schöneberg visitamos o prédio da prefeitura, que foi a sede do governo de Berlim Ocidental entre 1948 e 1989. Terminamos o dia no bairro de Tempelhof, em frente ao antigo aeroporto, onde foi erigido o Monumento da “Ponte Aérea” de 1948/1949.

5º dia: De Tempelhof fomos até a estação de S-Bahn Neukölln, o bairro vizinho, onde mora um grande contingente de imigrantes. Caminhando pela movimentada rua comercial Karl-Marx-Straße, chegamos na Hermannplatz. De lá, depois de cruzar o Landwehrkanal (cf. Hessel 1984, p.167-73), entramos em Kreuzberg. Esse bairro recebeu, a partir dos anos 1960, um grande número de imigrantes, sobretudo turcos; além disso, tornou-se nas décadas de 1970 e 1980 um agitado cenário da cultura estudantil alternativa. Continuando em direção ao centro de Berlim, chegamos na Friedrichstraße, que é o segmento central do eixo Norte-Sul da cidade. Ali, uma placa e uma exposição permanente relembram o Checkpoint Charlie, o qual, na época da divisão de Berlim, foi o principal ponto de passagem para carros e pedestres entre os setores ocidentais e o setor soviético. O cruzamento dessa rua comercial com o bulevar Unter den Linden é o mais famoso da cidade. A duas quadras de lá fica a estação de S-Bahn Friedrichstraße, onde existia, na época da RDA o ponto de controle chamado “Tränenpalast” (Palácio das Lágrimas), por onde passaram os visitantes do Oeste, sobretudo para verem seus parentes. Atravessamos a ponte sobre o rio Spree e fomos conhecer o teatro Berliner Ensemble, que se tornou mundialmente famoso a partir de 1954 com as apresentações das peças de Bertolt Brecht. Um pouco mais adiante, na Chausseestraße, fica a Casa de Brecht, contendo o arquivo do dramaturgo e escritor e funcionando como local para eventos literários. Na vizinhança, na Luisenstraße, encontra-se o Arquivo Walter Benjamin. Durante a tarde chegamos à Bernauer Straße, onde foram mantidos alguns trechos do Muro de Berlim (1961-1989) e onde foi instalado um memorial (cf. Klausmeier, 2018). Para concluir a travessia no eixo Norte-Sul, caminhamos ainda até o ponto de chegada do nosso terceiro dia: Humboldthain e estação de S-Bahn Gesundbrunnen.

6º dia: A segunda metade da nossa travessia de Berlim - cinco dias pelo eixo Leste-Oeste (Figura 2) - foi iniciada pelo lado Sudeste, com a nossa entrada, a partir da pequena cidade de Erkner, no distrito de Treptow-Köpenick. Escolhemos esse ponto, porque perto dali o rio Spree entra no território de Berlim, passando inicialmente pelo Müggelsee, o maior lago da cidade. Caminhando por uma trilha entre o Müggelsee e a floresta de Köpenick, subimos em seguida até os Müggelberge, com 115 metros a elevação natural mais alta de Berlim, e a Müggelturm, uma torre com uma bela vista panorâmica sobre a extensa floresta e o lago. De lá, fomos pelo bairro de Köpenick até o Museu de Karlshorst, que foi instalado no prédio onde o comandante-chefe do exército alemão assinou, no dia 8 de maio de 1945, a ata da capitulação. O museu, que é uma cooperação entre Alemanha e Rússia, reúne documentos sobre a guerra travada entre os dois países, de 1941 a 1945. Dentre os mapas históricos desse conflito mais marcante da Segunda Guerra Mundial, destacam-se o da invasão da União Soviética pelas tropas nazistas, em 22 de junho de 1941; o avanço até Stalingrado, que foi o ponto de virada da guerra, em fevereiro de 1943; a contraofensiva das tropas soviéticas; e finalmente, o seu cerco a Berlim e a conquista da capital alemã, documentada por uma foto mostrando a bandeira da União Soviética sendo hasteada sobre o Reichstag em 30 de abril de 1945; no mesmo dia, Hitler se suicidou.

7º dia: Entramos pelo lado Nordeste, passando da aldeia de Hönow para o bairro de Hellersdorf. Os prédios ali construídos com placas pré-fabricadas são exemplos típicos do estilo da Berlim Oriental socialista. Nesse distrito foi criado, em 1987 - por ocasião da comemoração dos 750 anos de Berlim - o Parque de Marzahn, com os “Jardins do Mundo”, representando diversas culturas do nosso planeta. Saindo de lá, descemos beirando o riacho Wuhle, envolto pela vegetação típica da região de Berlim-Brandemburgo, até a aldeia de Biesdorf. De U-Bahn fomos até o Frankfurter Tor, até onde se estendia a avenida denominada entre 1949 e 1961 de Stalinallee. Era a mais emblemática da Berlim comunista, com prédios no estilo de Moscou. Na fachada de um prédio no ponto inicial, está gravada uma citação do Fausto, de Goethe, da qual o regime comunista se apropriou. É uma declaração do colonizador Fausto, expressando o seu desejo utópico: “Quisera eu ver tal povoamento novo, / E em solo livre ver-me em meio a um livre povo” (Goethe, 2007, p.983). Caminhando em direção a Alexanderplatz, fomos conhecer a Casa do Professor (Haus des Lehrers), construída pela RDA entre 1961 e 1964, com um ampla biblioteca e espaços para eventos culturais. A faixa de mosaicos que circunda esse prédio mostra a interação de docentes com crianças, trabalhadores, cientistas e com o nosso universo planetário.

Figura 2
O percurso da nossa travessia pelo eixo Leste-Oeste.

8º dia: Mudando para o ponto cardeal oposto, entramos em Berlim pelo lado Oeste, no distrito de Spandau. Passeamos pelas ruas da cidade antiga de Spandau, fundada em 1232 pelos eslavos, no lugar estratégico onde o rio Havel recebe o Spree como afluente. Nesse local foi erguida na Idade Média uma fortaleza (a Zitadelle), na qual está documentada a história dessa cidade. Seguimos até o Estádio Olímpico, que foi a arena do Jogos de 1936. Uma foto, na Torre dos Sinos, mostra a inauguração por Hitler, que apresentou a Alemanha para o mundo como uma “nação pacífica”. Olhando de lá de cima para o lado direito, pode se ver o resultado dessa promessa: a Montanha do Diabo (Teufelsberg), criada no meio da floresta de Grunewald com o amontoado dos escombros de Berlim, causados durante a Segunda Guerra Mundial pelos bombardeios das forças aliadas, que destruíram cerca de 600 mil apartamentos. Subimos na Teufelsberg, onde os Estados Unidos construíram durante a Guerra Fria uma estação de controle aéreo e de espionagem, que eles abandonaram em 1990, depois da reunificação da Alemanha. Além de uma vista esplêndida sobre a Grunewald em direção ao Wannsee, apreciamos nesse observatório, que está se deteriorando, uma galeria de grafites. A obra mais bela e inspirada mostra uma moça em traje de astronauta, sonhando viajar pelo espaço sideral.

9º dia: Antes da nossa caminhada, que começou no distrito de Charlottenburg-Wilmersdorf, junto à Funkturm, subimos nessa torre de rádio (inaugurada em 1926), para ter uma vista até o ponto terminal, a Fernsehturm em Alexanderplatz. Caminhamos pelo Kaiserdamm, que faz parte do imponente eixo Oeste-Leste de Berlim, até o desvio que leva ao Palácio de Charlottenburg, que o rei da Prússia, Friedrich I, mandou construir para a sua esposa Sophie Charlotte. No bairro abastado de Charlottenburg flanamos pelas ruas comerciais Wilmersdorfer Straße e Kantstraße. Prosseguimos até a Ernst-Reuter-Platz, subindo até o topo do prédio da Universidade Técnica. De lá, se tem uma das mais amplas vistas panorâmicas sobre Berlim. Olhando para a frente, até a Fernsehturm, e para trás, até a Funkturm, destaca-se a grandiosa avenida do eixo Leste-Oeste, que se estende desde o Palácio da Cidade até além do rio Havel. Fizemos um desvio em direção ao Sudeste, chegando na Gedächtniskirche, construída nos anos 1890 em homenagem ao imperador Wilhelm I. Destruída pelos bombardeios da Segunda Guerra Mundial, a igreja foi mantida como ruína: símbolo de rememoração e advertência contra as guerras. Caminhamos de lá até a KaDeWe (Kaufhaus des Westens), a renomada Loja de Departamentos do Oeste, inaugurada em 1907, quando a capital do Império estava no auge. Rumo ao parque central, Tiergarten, passamos pelo Colégio Francês de Berlim, fundado em 1689 pelos huguenotes. Junto ao Tiergarten fomos conhecer o Hansaviertel, bairro erguido nos anos 1950 e 1960, que se tornou símbolo da reconstrução de Berlim Ocidental, com obras de arquitetos como Walter Gropius e Oscar Niemeyer. No centro do parque subimos na Siegessäule, a coluna erguida em comemoração da vitória, em 1871, dos exércitos alemães unidos contra a França. Caminhando de lá até perto do Portão de Brandemburgo, chegamos a outro monumento de vitória: a do exército soviético sobre a Alemanha nazista, em 1945. Olhando a partir do tanque T 34, na frente desse monumento, de volta para a Siegessäule, vem ao caso encerrar a caminhada desse dia com uma observação de Friedrich Nietzsche, de 1873, na qual ele advertiu lucidamente como uma vitória pode se transformar em derrota:

Uma grande vitória é um grande perigo. [...] De todas as más consequências dessa guerra contra a França a pior é o erro da opinião pública de que também a cultura alemã tenha vencido nessa guerra. [...] Esse desvario é nefasto, [...] porque ele poderá transformar a nossa vitória numa total derrota. (Nietzsche, 1964, p.3)

10º dia: Nosso ponto de partida foi a praça em frente ao parlamento da Alemanha: o Reichstag (o prédio da época do Império até o início de 1933) ou Bundestag (o prédio da Alemanha reunificada). Atravessando, ao lado, o Portão de Brandemburgo, chegamos à Pariser Platz, onde se inicia o bulevar Unter den Linden e se encontra a Akademie der Künste, que estava mostrando a exposição “Poder, Espaço, Violência: planejar e construir durante o Nacional-socialismo”. Além de fotos e mapas de campos de concentração, vimos ali a maquete do projeto “Germânia, capital do Mundo”. A uma quadra ao sul do Portão de Brandemburgo encontra-se o Memorial do Holocausto, inaugurado em 2005. Poucas quadras depois, na mesma direção, está instalada a exposição permanente “Topografia do Terror”, com uma documentação detalhada dos crimes nazistas (cf. Topographie des Terrors, 2018). Perto do Portão de Brandemburgo, passeamos também pelo Kulturforum, do qual faz parte a Philharmonie, o prédio da Orquestra Filarmônica. De lá, chegamos à Potsdamer Platz, uma das praças emblemáticas da cidade. Nos anos 1920, era a praça mais movimentada da Europa, mas entre 1961 e 1989 tornou-se um deserto, por estar situada no meio da faixa do Muro. Depois da reunificação, a praça passou a ser o lugar com as construções mais inovadoras de Berlim, especialmente a Sony Center. Na tarde desse último dia fomos até às margens do Spree para contemplar a escultura do Molecule Man,6 que pode ser interpretada como um dos símbolos da Reunificação da Alemanha. Desse marco histórico mais recente, seguimos até o mais antigo: o Nikolaiviertel, onde Berlim foi fundada em 1237. Depois de várias reestruturações ao longo dos séculos e das destruições sofridas durante a Segunda Guerra Mundial, o bairro foi parcialmente reconstruído na época da RDA (cf. Volk, 1977, p.196-206). Caminhamos pelas ruelas ao lado das igrejas Nikolaikirche e Marienkirche, até Alexanderplatz. Ali terminamos a nossa travessia, fazendo um balanço final.

As características mais relevantes da metrópole Berlim

Como resultado da apresentação das épocas históricas e do relato sobre a travessia topográfica, vamos compor agora um quadro resumido das características mais relevantes de Berlim, que pode ser usado também como um dispositivo para estudos comparativos de outras metrópoles. Nesse quadro serão inseridas várias categorias extraídas do Trabalho das Passagens, de Walter Benjamin (2006), algumas delas já citadas anteriormente. A categoria central é o flâneur (Benjamin. 2006, p.461-98), que utilizamos com base em Franz Hessel (1984). No meu livro Fisiognomia da Metrópole Moderna explico detalhadamente que o subtexto das Passagens - que focaliza a Paris do século XIX -, é o lugar e a época do próprio Benjamin: a Berlim da República de Weimar, aquilo que ele chama “o agora da cognoscibilidade” (cf. Bolle, 2022, p.161-312).

Além do flâneur, são utilizados neste estudo sobre Berlim também várias outras categorias de descrição da metrópole moderna, que compõem o Trabalho das Passagens. Do total daquelas 36 categorias (“arquivos temáticos”), 22 me parecem também adequadas para uma descrição da capital alemã. Elas podem ser agrupadas em dez aspectos historiográficos e topográficos, como mostra a seguinte tabela.

Teoria da história: Historiografia. Cidade de sonho.

História topográfica: O flâneur. Cidade fluvial. Moradias (O intérieur).

Ruas. Cidade antiga. Demolições.

História econômica: História econômica. Exposições e reclame.

História da técnica: Construção em ferro. École Polytechnique.

História política: Monarquia (Haussmannização). Revolta (a Comuna).

História social: Movimento social. Marx.

Antropologia: Moda. Nouveauté.

História da mídia: Panorama. Fotografia.

História literária: História literária.

Modelo em miniatura: Um escritor exemplar da época.7

Essas 22 categorias benjaminianas serão subordinadas às sete características que escolhi como as mais relevantes para compor um quadro descritivo final da metrópole Berlim. Daquelas 22 categorias do Trabalho das Passagens, oito já foram usadas na apresentação da história de Berlim, a saber: “Historiografia”; “Cidade antiga” (Berlim-Cölln e Spandau); “Monarquia” (o tipo de governo da Prússia); “Movimento social” e “Revolta” (a tentativa de revolução em março de 1848); “Cidade de sonho” (o projeto nazista “Germânia, capital do Mundo”); “Demolições” (a Teufelsberg, criada com os escombros da Segunda Guerra Mundial); e “Nouveauté” (a arquitetura pós-moderna na Potsdamer Platz). E mais quatro categorias fizeram parte do relato sobre a nossa travessia de Berlim: o “flâneur”, a “moda”, a “fotografia” (os nossos registros fotográficos), e o “panorama”, categoria que usamos para designar pontos de vistas panorâmicas. Vejamos, agora, as sete características da metrópole Berlim, com a inclusão das restantes dez categorias das Passagens.

  1. Integração entre espaço urbano e natureza. Da superfície total de Berlim, 38,5% são áreas verdes, e quase 7% dessa “cidade fluvial” são áreas aquáticas: lagos, rios e riachos. As maiores florestas são a Grunewald, a de Köpenick e a de Tegel. No centro da cidade estende-se o Tiergarten, que se tornou um parque público a partir de meados do século XIX. Dentre os outros parques de recreio destacam-se o de Marzahn, o Friedrichshain e o Humboldthain. Um parque que recebeu em 2022 um prêmio internacional foi o Schöneberger Südgelände, uma área reflorestada que foi sobreposta a uma antiga estação de triagem de trens. Outro exemplo de novas áreas de convívio da cidade com a natureza é o Tempelhofer Feld, no lugar do aeroporto desativado em 2008.

  2. Bairros, moradias e classes sociais. Uma característica marcante de Berlim são as aldeias como Lübars, Lichtenrade e Biesdorf, que acabaram sendo incorporadas ao município de Großberlin em 1920. Outro legado histórico são os bairros de origem medieval: Spandau e Köpenick. Na fisionomia urbana da Berlim moderna notam-se os seguintes tipos de áreas residenciais: bairros-jardins, como Wannsee, Dahlem e Frohnau, onde moram as pessoas mais abastadas; bairros burgueses, como Charlottenburg, Wilmersdorf e Steglitz; e bairros de operários e imigrantes, como Wedding, Neukölln e Kreuzberg. Além disso, são típicos para Berlim os conjuntos habitacionais reformistas com espaços verdes, como a Bruno-Taut-Siedlung em Zehlendorf, a Freie Scholle perto de Tegel e a Hufeisen-Siedlung em Britz. Existem também os Kleingärten ou Schrebergärten, que são conjuntos de casinhas com hortas, destinados à autoprodução alimentar (cf. O Manifesto Verde, de Migge, 2000). Durante as quatro décadas da divisão de Berlim houve uma rivalidade quanto ao tipo de modernização: na parte oriental destacou-se o conjunto da Stalinallee, e na parte ocidental, o Hansaviertel.

  3. O sistema do transporte público em Berlim. A rede integrada do S-Bahn (Schnell-Bahn, “trem rápido”) e do U-Bahn (Untergrundbahn, “metrô”), com 476 km de extensão e 341 estações, tem caráter exemplar. Aproximadamente a cada 500 metros encontra-se um lugar para embarcar. A isso se acrescenta uma extensa e eficiente rede de linhas de ônibus.

  4. Atividades econômicas.8 Desde a sua fundação, Berlim tem sido uma importante praça comercial. Durante a nossa travessia, caminhamos pelas principais ruas comerciais: Kurfürstendamm, Schloßstraße, Friedrichstraße e Karl-Marx-Straße, com lojas de departamentos e shopping centers.9 As outras grandes atividades econômicas são a produção industrial,10 os trabalhos de construção e sobretudo o setor de serviços.11 Todos esses setores têm atraído grandes investimentos.

  5. Espaços e atividades culturais. Berlim abriga alguns dos museus e das galerias de arte mais notáveis do mundo. Um belo exemplo é a Ilha dos Museus, onde se encontra o famoso Pergamon-Museum. Em 2021 foi inaugurado o principal centro cultural da cidade, o Humboldt-Forum, para onde foram deslocados vários museus e onde funciona a exposição permanente “Berlin Global”, que mostra as conexões da capital da Alemanha com o Mundo. Mais amplo ainda é o Kulturforum, com um conjunto espetacular de arquitetura moderna: como o prédio da Orquestra Sinfônica (Philharmonie), a Neue Nationalbibliothek e a Neue Nationalgalerie. Como lugares de atividades artísticas merecem atenção especial, além do já mencionado teatro Berliner Ensemble, as três casas de ópera: Deutsche Oper Berlin, Staatsoper Unter den Linden e Komische Oper, todas com apresentações em nível internacional.

  6. Berlim na literatura e no cinema. Uma valiosa síntese da topografia cultural de Berlim no século XX, com referências às principais obras literárias e cinematográficas, encontra-se no livro de Andrew Webber (2008).12 Como uma dessa obras, relembramos o romance Berlin Alexanderplatz, publicado em 1929 - ano da crise econômica mundial - por Alfred Döblin. Na obra centrada nessa praça, o autor mostra visionariamente, por meio da história do protagonista Franz Biberkopf, como a burrice do povo estava levando a Alemanha de um estado democrático para a ditadura (cf. Bolle, 2020).13 Quanto à presença de Berlim em obras cinematográficas, recordamos como exemplos o filme de Walter Ruttmann, Berlin: Die Sinfonie der Großstadt (1927), analisado por Webber, 2008 (p.152-5), e o filme de Wim Wenders, Der Himmel über Berlin (Asas do Desejo), lançado em 1987 (cf. o roteiro de Wenders; Handke, 1990).

  7. Investimentos em educação e pesquisa. Em 1717, o rei da Prússia, Friedrich Wilhelm I, introduziu o sistema escolar obrigatório para crianças entre cinco e doze anos. Na nossa travessia de Berlim, visitamos uma escola de ensino fundamental e o Colégio Francês. Entramos também em contato com as universidades Humboldt-Universität, fundada em 1810; Freie Universität (FU), criada em 1948; e Technische Universität. No Instituto de Estudos Latino-americanos da Freie Universität, quatro de nós, participantes da travessia, apresentamos palestras sobre o tema “Geopoesia do Brasil”. Além das universidades, merece ser lembrada a Max-Planck-Gesellschaft (MPG), a principal fundação alemã de amparo à pesquisa, alocada em Berlim na Harnack-Haus, ao lado da FU. Desde 1948 ela substitui a Kaiser-Wilhelm-Gesellschaft (KWG), fundada em 1911. A MPG dedica-se principalmente a pesquisas básicas nas Ciências naturais e nas Ciências humanas, complementando as pesquisas das universidades, com as quais ela mantém parcerias. Quatorze membros da KWG e 22 da MPG receberam o prêmio Nobel.

Balanço final: Berlim - uma metrópole exemplar

Depois da análise de todos os dados da nossa travessia topográfica, histórica e cultural de Berlim, chegamos à conclusão de que essa cidade é uma metrópole exemplar, por causa de várias características. A primeira delas é totalmente negativa: o fato de a partir de Berlim terem começado as duas guerras mundiais. Contudo, isso ajuda a refletir sobre os conflitos geopolíticos, especialmente as guerras, que estão acontecendo nos dias atuais. Com a vinda crescente de imigrantes, desde os anos de 1960, e de refugiados, nos anos mais recentes, criou-se o desafio de apaziguar os conflitos e de desenvolver um convívio respeitoso entre as diferentes culturas e etnias. Os demais dados apresentados por Berlim são positivos. A cidade tem atraído cada vez mais profissionais por causa de sua importância econômica e de suas inovações tecnológicas. Berlim reforçou a sua tradição de ser um palco de riquíssimas atividades artísticas e culturais, com os mais diversos tipos de espetáculos e exposições, um extenso acervo de museus e muita criatividade. É também uma cidade verde exemplar, com uma integração harmoniosa do espaço urbano com a natureza. E não por último, Berlim é um canteiro de obras, nunca terminado, mas sempre em movimento, assim como o conhecimento humano que é desenvolvido nas suas renomadas instituições de ensino e pesquisa.

Referências

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  • UNTER DEN LINDEN: Historische Fotografien Com textos de Hans-Werner Klünner. Ed. org. pela fundação Stadtmuseum Berlin. Berlim: Nicolaische Verlagsbuchhandlung, 2011.
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  • WENDERS, W.; HANDKE, P. Der Himmel über Berlin: Ein Filmbuch Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1990.
  • Disponibilidade de dados de pesquisa
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
  • 1
    Quanto aos marcos históricos ou “lugares de memória”, mencionaremos, além de Hessel, também algumas referências bibliográficas complementares.
  • 2
    Devido à escassez de tempo de uma das participantes, tivemos que juntar no mesmo dia esta introdução geral e o início da caminhada.
  • 3
    Cf. as fotos no livro Unter den Linden, 2011, p.35, 53 e 27.
  • 4
    Ver a Festschrift 100 Jahre Waidmannsluster Schule: 1901-2001.
  • 5
    Esta passagem é uma réplica ao escritor berlinense Friedrich Nicolai, que tinha publicado um poema irônico sobre o romance de estreia de Goethe, Os sofrimentos do jovem Werther (1774). Ora, o mesmo Nicolai, um dos representantes da Aufklärung, chegou a manifestar a sua crença em fantasmas, que teriam aparecido perto do referido moinho.
  • 6
    O Molecule Man é uma escultura de alumínio de 30 m de altura, criada pelo artista norte-americano Jonathan Borofsky e instalada em 1999 sobre o rio Spree, entre Oberbaumbrücke e Elsenbrücke.
  • 7
    Na transferência das categorias de Paris para Berlim fiz algumas adaptações. Assim, o termo “Historiografia” é um modo de resumir o arquivo “Teoria do conhecimento, teoria do progresso”. O arquivo temático “O Sena, a Paris mais antiga” foi redenominado “Cidade fluvial”; o arquivo “Cidade antiga, demolições” foi separado em duas partes; e as categorias “Haussmannização” e “A Comuna” foram adaptadas ao contexto alemão como “Monarquia” e “Revolta”.
  • 8
    Cf. no Trabalho das Passagens os arquivos temáticos “história econômica” e “exposições e reclame”.
  • 9
    Cf. nas Passagens o arquivo temático “ruas”.
  • 10
    Quanto à fabricação de máquinas - dentre as quais se destacaram incialmente as locomotivas -, cf. a categoria benjaminiana de “construção em ferro”.
  • 11
    Com o livro Einbahnstraße (Rua de mão única), composto de imagens de pensamento inspiradas por tabuletas de anúncios comerciais, Benjamin (1983) faz o leitor mergulhar na sociedade berlinense de consumo.
  • 12
    Com esse cânone de obras literárias é também retomada a categoria “história literária” das Passagens.
  • 13
    Assim como a obra de Baudelaire foi “o modelo em miniatura”, ou seja, a referência exemplar para estudar a Paris do Segundo Império, o livro de Franz Hessel, Ein Flaneur in Berlin (1984) e o romance de Döblin podem cumprir essa função para a Berlim durante a República de Weimar.

Editado por

  • Editores
    Sérgio Adorno e Dario Luis Borelli

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Set 2026
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2026

Histórico

  • Recebido
    22 Maio 2024
  • Aceito
    20 Set 2024
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